Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

O CORRESPONDENTE

04
Nov23

Cineastas argentinos falam em democracia e respondem a Milei: ‘nunca más’

Talis Andrade

reprise argentino.jpg

 

Rede Brasil Atual - "Cinema e democracia" é o tema da 38ª edição do Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata, na Argentina, aberto nesta quinta-feira (2) e que será realizado até o próximo dia 12. O slogan faz referência aos 40 anos seguidos de regime democrático no país, após a última ditadura (1976-1983). E o clima político esteve mais que presente no início do festival, na Sala Astor Piazzolla do Teatro Auditorium. Estava lá, por exemplo, o ministro da Economia, Sergio Massa, candidato a presidente da Argentina. E também, entre vários outros, o presidente do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa), Nicolás Battle. O Incaa está na mira do outro candidato, o extremista de direita Javier Milei, que durante a campanha disse que irá fechar o instituto.

Isso provocou resposta dos cineastas, que se manifestaram na abertura do evento. Também foi divulgado um vídeo com vários cenas de filmes, em defesa da arte argentina. No final, uma cena de Argentina, 1985, em que o ator Ricardo Darín cita a frase “Nunca más” para se referir à ditadura. O longa trata da condenação de militares. (Assista o vídeo aqui.) O segundo turno entre Massa e Milei será realizado no próximo dia 19.

Quarenta anos sem censura

“Para mim, é muito importante estar em um dos pilares da construção da identidade cultural argentina, a indústria cinematográfica”, afirmou Massa. “O festival, que representa a principal ponte entre nossa cultura fílmica e o mundo, é de todos e todas, e o fazemos em conjunto, articulando esforços. Esta edição está dedicada aos 40 anos de democracia ininterrupta: 40 anos de cinema sem censura”, acrescentou Batlle.

O festival de Mar del Plata é organizado pelo Incaa e pelo Ministério da Cultura, com apoio de outras entidades. O filme de abertura foi Hombre de la esquina rosada (1962), de René Mugica, baseado em conto de Jorge Luis Borges e com versão restaurada. A programação completa pode ser vista por meio deste link: www.mardelplatafilmfest.com.

27
Ago23

O avanço inesperado de Milei e o esvaziamento da vida política

Talis Andrade

por Camila Koenigstein

O fenômeno que marca o avanço dos partidos de ultradireita em diversos países chegou à Argentina. Embora exista uma tendência a vinculá-lo à crise econômica que o país atravessa há décadas – intensificada nos últimos anos com a polarização entre macrismo e kirchinerismo (la grieta), que gerou um cenário de forte hostilidade política entre grupos de oposição –, não podemos deixar de pensar que tal momento é reflexo de um movimento que vem ganhando força em diversas partes do globo, o que insere o país em um contexto mais amplo de mudanças políticas, sociais e no âmbito das mentalidades.

A precarização da vida laboral, a frustração do corpo social, o rechaço dos jovens ao cenário político atual e as desilusões oriundas da pobreza que hoje assola 39,2% da população possibilitaram o surgimento de novas subjetividades que formaram um caldo de cultivo de ideias que para muitos pertenciam ao passado.

Os mais jovens identificam em Milei a rebeldia que quase sempre está presente na juventude, porém, diferentemente de outros momentos, esse setor fez emergir um forte antipopulismo, e o próprio conceito de democracia e liberdade foi interpretado como o reino da individualidade plena, ou seja, o neoliberalismo na sua maior expressão.

No entanto, como afirma Hannah Arendt, em O que é política?:

Caso ocorra a abolição do político, obteríamos uma forma despótica de dominação ampliada e até monstruosa, surgindo um abismo entre dominadores e dominados que não possibilitaria sequer rebeliões, muito menos que dominados controlassem de alguma maneira dominadores. A dominação burocrática, a dominação através do anonimato das oficinas não é menos déspota porque ninguém a exerce. Ao contrário, é ainda mais temível, pois não há ninguém que possa falar com este ninguém nem protestar ante ele.

A postura absoluta contra o Estado defendida por Javier Milei mostra uma face déspota, que é facilmente manipulada através de frases de efeito e gritos de liberdade. Mas a ausência do Estado como mediador das relações de poder expõe os mais frágeis a uma situação de extrema vulnerabilidade. Os cortes em programas sociais, as alterações nas leis trabalhistas e sua defesa do minarquismo colocam em jogo tudo o que foi construído em termos de direitos humanos até o presente momento no país.

Assim como ocorreu no Brasil e alguns países europeus, a Argentina se depara agora com a ascensão de um candidato que desde 2016 vem construindo um discurso antissistêmico e hipercapitalista, muitas vezes de difícil compreensão pela falta de coerência, mas que encontrou no corpo social ressonância.

Muito mais do que a personificação do cansaço social, Javier Milei encarna a figura do pai que resolverá tudo utilizando o autoritarismo autorizado pelos seus eleitores. Esse pai que organiza tudo também tira dos indivíduos suas responsabilidades, afinal o pai cuida, protege, age conforme seus valores e desejos sem consultar os filhos.

A premissa kantiana que anunciava que o estado de dependência oriunda da menoridade (falta de esclarecimento e racionalidade) gera de alguma forma uma satisfação no sujeito, já que ele não faz uso de conceitos éticos para decidir o curso dos problemas sociais, expõe a falta de contato dos jovens com o passado e com os temas vinculados à vida política, uma característica importante quando observamos o esvaziamento da vida social e política na atualidade.

O discurso de Milei desperta certo “comodismo” ao culpabilizar os que dependem de ajuda social pela situação do país hoje, assim como todos os que compõem o quadro político atual. Os bodes expiatórios servem como justificativa rápida para problemas complexos, um mecanismo exitoso quando pensamos na manipulação das massas. Nesse sentido, também podemos utilizar Kant e seu livro Sobre a paz perpétua para entendermos a importância das leis e da moral como condutores da vida em sociedade. Para o autor, não é a economia que deve direcionar a sociedade, já que ela não faz parte da razão. Parafraseando Byung-Chul Han em Capitalismo e impulso de morte, a política teria que se submeter de novo à moralidade e seus valores, tais como a solidariedade, a justiça e a dignidade humana. Para tanto seria necessário frear o “poder do dinheiro” e a hegemonia do capital. Longe desses princípios, vemos a ascensão da irracionalidade de um homem que defende a venda de órgãos como uma prática a ser normalizada, uma mera transação comercial, usando o conceito de liberdade individual de forma rasa, negando o valor da ética e da moral na política, exaltando o capital e a individualidade como as únicas saídas para a crise instalada na sociedade argentina.

27
Ago23

Javier Milei: o poder e a prisão do cringe

Talis Andrade
 
Reprodução/Redes SociaisJavier Milei (E) e Eduardo Bolsonaro, reprodução/redes sociais, fazendo arminha com os dedos, imitando Jair Bolsonaro na campanha eleitoral da extrema direita armada

 

Renato Duarte Caetano

Cult

Cringe talvez seja um dos termos mais adequados para descrever o sentimento de quem assiste às performances do vencedor das primárias argentinas Javier Milei. É impossível não contorcer em total constrangimento ao ver o candidato com maiores chances de virar presidente da Argentina comportando-se de maneira tão desavergonhadamente ridícula.

Como se não bastasse exibir com orgulho um penteado mais caótico do que qualquer moda adolescente dos anos 2000, Milei também ostenta fantasias cosplay de Deus Imperador Ancap e se gaba de ser frequentador assíduo de orgias assim como instrutor de sexo tântrico. Isso sem falar de seus óculos propositalmente tortos e sua pose oficial, cujo olhar é tão intenso que cria uma mistura bizarra de pseudo-serial killer com esoterismo à la Shanti Ananda de Ligue Djá.

Tudo na estética de Milei aponta para o cringe, o ordinário e o grotesco. Todavia, ao contrário do que pensaríamos, é justamente no cringe que se encontra a maior parte de seu poder, de seu apelo e de sua popularidade.

Para os que não estão a par da expressão, cringe é a palavra da moda para descrever o profundo desconforto que sentimos quando vemos alguém se constranger ou se ridicularizar em público. Geralmente o sentimento é ainda mais intenso quando a situação de embaraço envolve uma tentativa objetivamente falha de projetar poder ou carisma.

Para dar um exemplo, é um pouco daquilo que sentimos quando víamos os vídeos do então à época candidato Bolsonaro, fazendo flexões fajutas e desengonçadas em público. Para que o cringe emerja corretamente, todavia, é preciso que o espectador não se identifique com o protagonista da cena. Caso haja qualquer tipo de reconhecimento subjetivo, o sentimento de constrangimento é substituído por afetos de empatia, simpatia e admiração. Um pouco do que aconteceu quando muitos brasileiros se enxergaram na participante Juliette durante a edição do BBB de 2021: quanto mais Juliette era subjugada pelos outros participantes, mais sucesso ela fazia com o público.

Ou seja, há um cálculo muito sensível e complicado no balanceamento entre identificação e desidentificação. Dominar essa matemática, porém, se tornou uma das formas mais eficazes de acelerar o próprio carro na corrida pela popularidade nacional. E não há dúvida de que nessa maratona, os políticos de extrema direita vêm alcançando velocidades nunca antes vistas.

Javier Milei, como sabemos, não é um produto exclusivo argentino, ele é mais um político que adentra o clã das paródias populistas de extrema direita. É preciso compreender também como grande parte do sucesso desses populistas está diretamente relacionado ao fato de que vivemos num contexto social cuja tolerância por hierarquias sociais vem diminuindo exponencialmente.

Há uma tendência generalizada pela valorização da horizontalidade, da desierarquização e da democratização da participação e do poder. Sustentar o peso do lugar de autoridade simbólica nunca foi tão custoso. E isso faz com que se apresentar como uma pessoa digna de ocupar o lugar da presidência seja uma tarefa praticamente impossível. Enxovalhar os diversos locus de poder, incluindo a presidência, aparece então como um atalho mais curto. Avacalhar a seriedade dos ritos, dos elementos simbólicos e de tudo que reveste a política de uma aura transcendental tornou-se uma resposta mais barata para o problema da tensão contemporânea entre sociedade, indivíduos e autoridades.

Dessa maneira, quando Milei dança ao som de “Bomba tântrica”, assim como quando realiza qualquer de suas outras palhaçadas, ele performa uma subversão do status quo que não se dá através de um uso do poder simbólico, mas de sua desconcatenação pela via da estética do ridículo. O mau gosto se torna tanto uma arma a ser usada contra as elites e contra seus adversários políticos, quanto um escudo para se proteger da percepção pública de que o próprio Milei faz parte da elite.

Ao permitir que seus eleitores riam com e dele, o candidato faz com que seus seguidores acessem um lugar de poder que só existe através da ridicularização do próprio. O prazer de debochar das autoridades, das elites das hierarquias, é o que sobra em uma sociedade na qual a mobilidade social e a melhoria material da qualidade de vida parecem simplesmente impossíveis.

O perigo de populistas como Milei não está, assim, apenas em suas políticas econômicas desastrosas, em seu desmonte do Estado e em seus ataques às conquistas de direitos sociais. A ameaça está presente também na difusão de uma fantasia predadora que afirma que hoje em dia só é possível rir da política, sendo considerada ingênua e alienada qualquer atitude que visa tentar levá-la a sério. Ridiculariza-se aquilo que, acredita-se, seja impossível de transformar. É certo que o riso, principalmente aquele advindo da paródia, serviu como ferramenta de emancipação política para muitos grupos historicamente oprimidos e marginalizados; o mais claro exemplo disso é a comunidade queer. Todavia é importante compreender que o prazer derivado do poder que emana do riso da paródia também pode funcionar como um poderosíssimo anestésico.

Um povo que ri de seu aprisionamento pode se tornar demasiadamente afeiçoado à sua condição de subjugamento, correndo o risco de lutar para defender sua própria submissão. Não argumento pela posição de que não deveríamos rir de políticos como Milei. É de suma importância que sejamos capazes de ridicularizá-lo. O importante aqui é compreender que é necessário levar a sério uma certa desidentificação social com a figura do underdog e do perdedor. Para vislumbrar um horizonte no qual o povo não é submisso a figuras abjetas. É preciso voltar a imaginar e principalmente sonhar com a vitória.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub