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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Abr21

Fissura em relação com Exército é o pior enfraquecimento que Bolsonaro pode sofrer. Por Janio de Freitas

Talis Andrade

 

A importância dessa reversão é grande e pode ser decisiva na CPI do genocídio

por Janio de Freitas /Folha

A perda de Bolsonaro com a encrencada substituição de comandos militares encontrou rápido meio de aferição. Em resposta à aprovação da CPI, no meio da semana voltou à insinuação ameaçadora: “O pessoal fala que eu tenho que tomar providências, eu estou aguardando o povo dar uma sinalização”. Para depois dizer que faz, ou fará, “o que o povo quer”. Nenhuma repercussão.

A interpretação geral daquele episódio, com o pedido de demissão conjunta decidido pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, foi a de demonstrar o surgimento de uma distância, no mínimo uma fissura, que rompe a conexão do Exército com Bolsonaro tal como induzida ainda na campanha eleitoral. Esse é o pior enfraquecimento que Bolsonaro pode sofrer nos seus recursos para ver-se sustentado a despeito do que faz e diz.

A importância da reversão é grande e pode ser decisiva na CPI do genocídio. Antes, o Exército não precisaria explicitar insatisfação com a CPI para inibir-lhe a criação ou a atividade. Sua identificação com Bolsonaro o faria, por si só. A maneira distensionada como os senadores procederam nas preliminares para a CPI já foi claro fruto do novo ambiente sem cautelas e temores. O grau em que os senadores se sentiram desamarrados mostra-se ainda maior por terem um general da ativa, Eduardo Pazuello, entre os itens mais visados pelo inquérito.

Estudos recentes, publicados nas revistas científicas Science e Lancet, juntam-se agora a estudos científicos brasileiros e proporcionam levantamentos e análises primorosos para poupar à CPI muitas pesquisas e apressá-la. Ainda que não seja a ideal, sua composição é satisfatória; não será presidida por Tasso Jereissati, como deveria, mas conta com sua autoridade; e Renan Calheiros, se agir a sério, tem competência como poucos para um trabalho relatorial de primeira.

Bolsonaro tange o Brasil para os 400 mil mortos. Tem sido o seu matadouro. Estudo do neurocientista Miguel Nicolelis conclui que ao menos três em cada cinco mortos não precisariam ter morrido, no entanto foram vitimados pela incúria, a má-fé e os interesses com que Bolsonaro e seus acólitos têm reprimido a ação da ciência. Uma torrente de homicídios que não podem ficar esquecidos e impunes. Do contrário, este país não seria mais do que uma população de Bolsonaros.Image

A enganação

Joe Biden insinua outra Guerra Fria. É curiosa a atração entre os democratas, não os republicanos, e as guerras. Os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra sob a presidência do democrata Wilson. Na Segunda Guerra, a presidência era do democrata Roosevelt. Bem antes dos chineses, em 1950 os Estados Unidos entregaram-se à Guerra da Coreia levados pelo democrata Truman. O democrata Kennedy criou a Guerra do Vietnã. E pôs o mundo a minutos de uma guerra nuclear, de EUA e URSS, na crise dos mísseis em Cuba.

É contraditória a inadmissão de uma China em igualdade com os Estados Unidos e a determinação de sustar o aquecimento global. A primeira abre um risco de guerra em que questões como ambiente e clima não subsistem.

Apesar disso, nos dias 22 e 23 os governantes de 40 países fazem uma reunião virtual sobre clima, por iniciativa de Biden. Os americanos esperam comprar de Bolsonaro, por US$ 1 bilhão, o compromisso de medidas verdadeiras contra o desmatamento na Amazônia, essenciais para deter o aquecimento climático.

Esse bilhão sairá caríssimo ao Brasil, porque o compromisso de Bolsonaro será tão mentiroso quanto as afirmações que fará, como já fez em carta a Biden, sobre os êxitos do governo na preservação da Amazônia.

Em março, o desmatamento foi recordista: 13% maior que o de março de 2020. Desde o início do governo Bolsonaro, o desamamento por fogo, o roubo de madeira e o garimpo aumentam sem cessar. O setor de fiscalização do Ibama foi destroçado. Bolsonaro protege o garimpo ilegal, pondo-se contra a destruição de seu maquinário. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, protege os madeireiros criminosos.

Apresentado há três dias, o Plano Amazônia 2021/2022 não é plano, nem outra coisa. Sua meta de redução de desmatamento é maior do que o encontrado por Bolsonaro. Não contém restauração dos recursos humanos, nem as verbas condizentes com esforços reais. Mas “o governo dos Estados Unidos espera seriedade e compromisso de Bolsonaro” na reunião. Espera o que não existe.

***

Da Newsletter da Folha de 18/04/2021: Em Goianápolis (GO), sem máscara, Jair Bolsonaro (sem partido) apertou ao menos 144 mãos antes de pegar um bebê. Presidente mobilizou dois helicópteros oficiais para, fora da agenda, viajar neste sábado (17) para a cidade a cerca de 190 quilômetros de Brasília, onde provocou aglomeração.
08
Abr21

Bolsonaro e a questão militar

Talis Andrade

por Jorge Gregory / Vermelho

O mês de março encerrou com o Brasil assumindo definitivamente o papel de epicentro da pandemia. Com a disseminação do vírus absolutamente fora de controle, o país se transformou em celeiro de novas variantes e as restrições impostas aos brasileiros, em vários países, se tornam cada vez mais rígidas. Nações vizinhas começam a fechar fronteiras, colocando-nos em situação de total isolamento. O cientista Miguel Nicolelis avalia que estamos à beira de uma situação irreversível, onde a combinação de um colapso do sistema de saúde com um colapso funerário formará uma tempestade perfeita de cujos efeitos levaremos anos para nos recuperar.

A tragédia em que já se transformou a crise sanitária é de responsabilidade do governo Bolsonaro e, fundamentalmente, da caótica política de saúde conduzida por seu general capacho, Eduardo Pazuello, que militarizou o Ministério da Saúde. Isso necessariamente levou a uma associação entre desastre sanitário e Forças Armadas, cujo peso obviamente começou a incomodar parcela das três armas, o que, inegavelmente, tem sido um dos fatores que levaram os altos comandos a se distanciarem de Bolsonaro. A entrevista ao jornal Correio Brasiliense dada pelo general Paulo Sérgio Nogueira, às vésperas da mudança do ministro da Defesa, bem como a imposição do seu nome para o comando do Exército, soou como uma demarcação de campo com a política negacionista do governo.

Certamente a entrevista de Nogueira e o tratamento dispensado a Pazuello pesaram para que o genocida começasse a manifestar irritação com os comandantes e o ministro da Defesa. No entanto, o fator principal está no ensandecimento de Bolsonaro em decretar estado de sítio ou de emergência, obrigando os governadores e prefeitos a não mais imporem medidas restritivas de atividades ou, no mínimo, tentando intimidá-los com tais ameaças. Para tanto, precisava demonstrar que contava com o poder da força e manifestações favoráveis do braço armado eram fundamentais. Nem Azevedo e muito menos o general Edson Pujol (então comandante do Exército) se prestaram a este papel e a reforma ministerial foi a oportunidade para o Bolsonaro demonstrar sua insatisfação.

A intenção dos três comandantes, ocultada por Bolsonaro, de entregar seus cargos em desagravo à exoneração de Azevedo, demonstrou uma disposição dos militares de se afastar das insanidades daquele que se acha dono do Exército. Diante da situação de crise sanitária, econômica e social e principalmente do quadro que se avizinha, segundo Nicolelis, todo e qualquer fato que aprofunde o isolamento de Bolsonaro é fundamental. No entanto, devemos nos perguntar, os militares estariam dispostos a jogar a criança fora junto com a água do banho?

Há muita gente fazendo coro à versão de o general Villas Boas (ex-comandante do Exército), de que o envolvimento dos militares com os acontecimentos políticos, de 2013 para cá, decorrem de um sentimento de revanchismo às avessas, em resposta ao revanchismo da Comissão da Verdade. Podemos até admitir que a instalação de tal Comissão foi inapropriada naquele momento, mas a versão do revanchismo às avessas é de um simplismo absolutamente inaceitável. Também há aqueles que se iludem com as ideias de projeto, sentido de desenvolvimento e coesão nacional expressos pelo ex-comandante do Exército.

Ao interpretar a história das Forças Armadas brasileiras e enaltecer figuras que de fato expressavam um pensamento transformador e progressista em suas fileiras, alguns se esquecem que o golpe de 1964 estabeleceu um divisor de águas na corporação. Se houve interesse das elites em depor o governo progressista de João Goulart e incitar os militares ao golpe, estes, por sua vez, justificaram tal ação como uma reação à entrada no país de pensamentos estranhos à história, cultura e tradição brasileiras, em decorrência da guerra fria. Ou seja, utilizou-se da tese da guerra fria para negar as contradições da sociedade brasileira e tentar impor aos seus opositores um pensamento único, totalitário e de extrema violência. Pensamentos únicos não admitem divergências de ideias.

Se, enquanto projeto de poder e imposição do pensamento único à sociedade, os militares tiveram que recuar no final da década de 70, início de 80, nas academias militares obtiveram pleno sucesso. Impôs-se a doutrina de que qualquer pensamento que não reze pela teoria da segurança nacional formulada nos anos de chumbo é estranha aos interesses nacionais e deve ser extirpada. Recolhidos à caserna, permaneceram ruminando tais teorias, ajustando-as aos novos cenários, mas mantendo a sua essência. Aqui é fundamental que se entenda que tal teoria levou as estruturas militares a se tornarem impermeáveis a qualquer pensamento discordante. Militares como Nelson Werneck Sodré, entre outros, jamais voltariam a se criar na corporação, pois, segundo reza a doutrina vigente, representam pensamentos estranhos à sociedade brasileira.

Os generais de pijama que ocupam cargos no governo Bolsonaro e aqueles que compõem os altos comandos das Forças Armadas atualmente são os últimos remanescentes do período da ditadura. Passaram pelas academias militares entre a segunda metade dos anos 1970 e primeira metade dos anos 1980. Mais que um revanchismo às avessas, aproveitaram-se das crises ocorridas a partir de 2013 para colocar as unhas de fora, pois seria a última oportunidade de tentar ressuscitar a “Redentora”. Até então, somente figuras toscas levantavam suas vozes em defesa do regime militar. A partir de 2013, começaram a vir a público generais da ativa como Heleno e Mourão, escancarando o pensamento que dominava a caserna. A Comissão da Verdade é hoje tão somente uma justificativa e não a verdadeira razão do envolvimento político dos generais.

O argumento central de Villas Boas, e é importante entendermos que ele não fala por si próprio e sim expressa o pensamento do alto oficialato, é de que a partir dos anos 1980 abandonamos o sentido de desenvolvimento e perdemos a coesão interna. Em nenhum momento, no entanto, coloca o neoliberalismo e a hegemonia da elite rentista como causa das dificuldades que o país enfrentou nestas últimas décadas. Talvez pelo fato de estas mesmas elites entreguistas terem sido as principais promotoras do golpe de 1964. Com a queda do bloco soviético e o fim da guerra fria, o argumento da ameaça comunista se esvaziou, mas, na inexistência de guerras, tais teorias precisam de inimigos externos, ainda que fantasiosos, para gerar o temor interno. Elegeram então como graves ameaças externas atuais, que colocariam em risco a integridade nacional, o que Villas Boas chama do “politicamente correto”, como o ambientalismo, o antirracismo, o feminismo, entre outros movimentos que apresentam grande envolvimento das esquerdas. São colocados como pensamentos exógenos, que devem ser extirpados da sociedade brasileira.

Perdessem a oportunidade aberta com as crises a partir de 2013, corriam o risco de as novas gerações, que não vivenciaram o regime, irem gradualmente abandonando a doutrina que tanto defendem. Não só agiram intensamente nos movimentos de impeachment como entraram de cabeça na campanha e governo de Bolsonaro. Querem não só reescrever a história inscrevendo o golpe de 1964 como um “movimento” que “preservou a democracia” e que deve ser “celebrado”. Não é a reação ao suposto revanchismo da Comissão da Verdade que os movimenta, mas sim o espírito autoritário e reacionário gestado nos anos de chumbo.

Os militares querem ganhar a sociedade para esse pensamento para se reinstalarem no poder. Divergências com Bolsonaro devido a suas ações tresloucadas podem até gerar um distanciamento da corporação, o que é positivo, pois isola ainda mais o genocida. Porém, não acredito que pretendam jogar fora a criança junto com a água do banho. Talvez não haja clima para um novo golpe aos moldes de 1964, mas Forças Armadas que se orientam por uma doutrina totalitarista serão sempre uma ameaça à democracia. A defesa da democracia exige uma luta sem tréguas, no campo das ideias, a estas concepções totalitárias.

01
Abr21

Brasil pode registrar mais mortes do que nascimentos pela 1ª vez, diz Nicolelis

Talis Andrade

Neurocientista Miguel Nicolelis

 

Neurocientista Miguel Nicolelis diz que a diferença entre óbitos e nascimentos está ficando cada vez menor

 
por Fernanda Pinotti /CNN
 

Março pode ter sido o primeiro mês da história em que o Brasil registra mais mortes do nascimentos, segundo o neurocientista Miguel Nicolelis. Em entrevista à CNN nesta quinta-feira (1º), o médico explicou que um levantamento feito por pesquisadores no Portal da Transparência do Registro Civil do Brasil apura o total de certificados de óbitos e nascimentos desde antes da pandemia. 

"Antes, havia por volta de 200 a 230 mil obitos por mês no Brasil, e por volta de 90 a 100 mil nascimentos. A gente seguiu esses dados ao longo do ano passado e o que vimos é que a diferença entre os óbitos e os nascimentos está ficando cada vez menor", diz Nicolelis.

De acordo com ele, em fevereiro, houve uma queda brusca de registros de nascimento: 125 mil contra 121 mil óbitos. "Essa diferença, que era de 100 mil em favor de mais nascimentos do que óbitos por mês, caiu para menos de 4 mil. Sugerindo que em março, onde tivemos aproximadamente 160 mil óbitos no Brasil, numa estimativa premilar, se o número de nascimentos ficar por volta dos 125 mil, teremos pela primeira vez na história do Brasil mais mortes do que nascimentos no país", detalhou.

Covid-19 em grávidas e crianças

Miguel Nicolelis também comentou os impactos da pandemia m gestantes e crianças. Estamos vendo uma pandemia silenciosa de gestantes tendo partos premauros devido a complicações da Covid, como a trombose placentária", disse.

De acordo com o médico, Santa Catarina e o Distrito Federal também registram crescimento da taxa de ocupação de UTIs neonatais por bebês que já nascem infectados com o coronavíris.

"Uma das possibilidades é que as novas variantes possam ter ação numa faixa etária menor. O Brasil, infelizmente, já é campeão no número de gestantes infectadas e óbitos de crianças abaixo dos cinco anos."

 

28
Mar21

“Pessoas vão morrer nas ruas em Porto Alegre”, alerta Nicolelis

Talis Andrade

Miguel Nicolelis e cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus

Miguel Nicolelis e cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus (Foto Brasil 247 | REUTERS/Bruno Kelly)

 

por Jeferson Miola

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Em entrevista ao Tutameia [22/3], o cientista Miguel Nicolelis traçou um quadro tenebroso sobre a catástrofe em curso na capital gaúcha Porto Alegre.

Nicolelis destacou a repercussão internacional da imagem das chaminés do crematório da cidade expelindo fumaça escura provavelmente devido à sobrecarga de queima de corpos com a consequente saturação de resíduos gerados.

Não por acaso, neste sábado [27/3] o jornal The New York Times disse que Porto Alegre é o coração de um colapso monumental do sistema de saúde.

Em menos de 5 minutos de diagnóstico, Nicolelis caracteriza com terrível dramaticidade a dimensão da tragédia. Ele começa dizendo que “Porto alegre parece um foguete decolando … a curva era inclinada e agora ela é vertical”.

Não tem saída fora do lockdown, porque já explodimos”, afirmou Nicolelis. Em referência ao governador e também ao prefeito Sebastião Melo/MDB, ele questiona: “E o governador do RS quer abrir o comércio. Aí eu me pergunto: em que galáxia este senhor vive? Em que mundo paralelo ele vive?

Ele faz um alerta: “as pessoas vão morrer nas ruas em Porto Alegre”, e associa a causa disso: “faz anos que o RS está nas mãos de administrações que só fizeram aumentar a miséria, moradores de rua, a falta de acesso à saúde […] Porto Alegre está sofrendo um processo de decadência

Nicolelis entende que a pluma de fumaça do crematório sinaliza uma realidade similar a “Los Ângeles [EUA], que o crematório teve de parar devido aos resíduos que estavam sendo espalhados pela cidade”, devido ao trabalho excessivo de cremação de mortos.

Na visão dele, “está havendo colapso funerário. Começa a ter atraso nos enterros, atraso no manejo dos corpos, começa a se empilhar os corpos”.

Nicolelis também alerta que em consequência ao descontrole, “começa a ter este tipo de efeito colateral”.

E de repente explode, e aí você corre o risco de epidemias bacterianas, tifo, contaminação do solo, do lençol freático, dos alimentos”, disse ele, arrematando: “Aí você pode esquecer, aí eu estou falando de anos, para reverter um troço desses, entendeu?”.

Não se trata de acidente, fatalidade ou de algum fenômeno inevitável, como Nicolelis mostra na entrevista [vídeo aqui]. Esta catástrofe sanitária, econômica e humanitária deriva da condução irresponsável dos governos no enfrentamento à pandemia.

Diante da previsão de que, a se manter esta condução irresponsável, pessoas poderão “morrer nas ruas em Porto Alegre”, o que faz o prefeito Sebastião Melo/MDB? Exorta as pessoas a morrerem para salvar a economia!

 

22
Mar21

Cenário de 5 mil mortes diárias no Brasil é real, alertam especialistas

Talis Andrade

dupla genocida.jpg

 

247 - Especialistas do boletim Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirmaram nesta segunda-feira (22) que um cenário com números ainda mais altos de mortes por Covid-19, de 4 mil ou 5 mil óbitos por dia é possível em meio à catástrofe sanitária e humanitária que vive o País. 

Segundo o coordenador do Infogripe, Marcelo Gomes, 23 das 27 unidades da federação registram tendência de novos casos, internações e mortes por covid-19 nas últimas semanas. 

“Temos um conjunto muito grande de Estados com tendência de crescimento de casos e hospitalizações. Alguns apresentam estabilidade, mas muito incipiente. É muito preocupante”, afirmou Marcelo Gomes ao jornal Valor

Gomes diz que há grande chance de o país ultrapassar 3 mil óbitos nos próximos dias. Um cenário pior, com 4 ou 5 mil mortes diárias não pode ser descartado. “Nós que trabalhamos com análise epidemiológica vemos que, infelizmente, não é impossível. É uma marca muito alta, mas não dá para descartar”, afirmou. 

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Segundo o médico Walter Cintra, professor da pós-graduação em administração hospitalar da EAESP-FGV, cenas como a do ex-governador de Goiás Helenês Cândido, que morreu na semana passada dentro de uma ambulância após dias de espera por uma UTI, vão se tornar mais frequentes. “Estamos numa situação desesperadora, quando as pessoas começam a morrer por falta de UTI.”

Dados do Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) divulgados neste domingo (21) mostram o pior domingo de toda pandemia, superando os números recordes de 14 de março. Foram registradas 1.290 mortes decorrentes da covid-19 nas últimas 24 horas, com um total de 294.042 óbitos.

No período, foram 47.774 casos oficiais de covid-19, totalizando 11.998.233 acumulados desde o início da pandemia no Brasil. O país fecha a semana, entre 14 e 20 de março, com o maior número de óbitos, 15.661 vítimas em sete dias. A média móvel também é recorde, com 2.259 óbitos decorrentes da doença, valendo o mesmo para as infecções, com 73.552 casos.

 

02
Mar21

Especialistas alertam: Brasil viverá 'cenário de guerra' em duas semanas, se nada for feito contra a Covid

Talis Andrade

Cemitério Parque Taruma em Manaus 28/4/2020

Cemitério Parque Taruma em Manaus 28/4/2020 (Foto REUTERS/Bruno Kelly)

"Vamos ter pessoas morrendo em casa ou morrendo na porta dos hospitais, porque não vamos ter onde interná-las", afirma a médica Thaís Guimarães, presidente da Comissão de Infectologia do Hospital das Clínicas

 

247 - Epidemiologistas estão alertando para a catástrofe ainda maior que ase avizinha do Brasil na pandemia do novo coronavírus, caso medidas severas de restrição da população não sejam tomadas nas próximas duas semanas. 

"Vamos ter pessoas morrendo em casa ou morrendo na porta dos hospitais, porque não vamos ter onde interná-las. Vamos ter um cenário de guerra”, avalia Thaís Guimarães, médica infectologista e presidente da Comissão de Infectologia do Hospital das Clínicas, em declaração à CNN Brasil.

Segundo a professora de epidemiologia Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), as variantes da Covid-19 em circulação no país tendem a aumentar o índice de contaminação nas próximas semanas, principalmente quando combinadas com as aglomerações. 

“O que podemos supor é que a P1 (variante identificada em Manaus) vai se tornar dominante e se espalhar rapidamente”, afirma. “Temos curvas epidêmicas diferentes em cada estado, por causa da adoção de medidas diferentes. É possível que a gente arraste essa pandemia no pior nível por mais tempo. Eu acredito que março vai ser muito ruim”, prevê Maciel.

O Brasil ultrapassou nesta segunda-feira (1º) a marca de 255 mil mortos por covid-19, com o registro de mais 778 vítimas em um período de 24 horas. As informações são do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). 

O número total de vítimas do novo coronavírus é de 255.720 óbitos. Este é o pior momento do surto de covid-19 no Brasil, desde o início da pandemia, em março . A última semana foi a mais letal de todo o histórico, assim como o mês de fevereiro. 

Foram 8.224 mortos nos últimos sete dias e mais de 30 mil mortos no mês. Desde o dia 21 de janeiro o país tem média móvel, calculada em sete dias, acima de mil mortes diárias. Hoje (1º), o país alcançou novo pico, com 1.225 vítimas por dia, em média.

 

26
Fev21

Abaixo a máscara, vejam o rosto da morte!

Talis Andrade

por Fernando Brito

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É tão assustador que muitos preferem fechar os olhos e não ver.

Racionalmente, porém, já não há como negar que há uma intenção deliberada de Jair Bolsonaro – e não só dele, infelizmente – que o vírus Sars Cov 2 faça o papel de “aliviar” aquilo que consideram uma carga inútil para o país: os velhos, os doentes, os “maricas”, sobretudo os mais pobres, menos capazes de obter cuidados.

Duvidar como, se o presidente da República do país que é o segundo em mortes no mundo, apela para que não se use máscaras, alegando que elas prejudicam as crianças. Se o prefeito de Porto Alegre pede que as pessoas “contribuam com a sua vida” para salvar a economia do município.

Tudo isso no dia em que o país amanheceu sob a marca de 250 mil mortes pela pandemia e chegaria à noite com o maior número de mortos, em 24 horas, desde o início deste pesadelo.

Isto tudo acontece em um país moralmente vencido, onde a classe dirigente, como o energúmeno alcaide de Porto Alegre, só enxerga oportunidades de ganhar dinheiro, poder, privilégio e retirar mais direitos da população, como a que anuncia hoje o Estadão, ao dizer que o governo prepara “decreto para ‘simplificar’ regras trabalhistas“.

Em O Globo, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis, ainda se espanta:

(…)qual é o valor da vida no Brasil? Que valor os políticos dão para a vida do cidadão se não fecham as atividades num lugar com 100% de ocupação dos leitos? Ter que preservar a economia é não só uma falsidade econômica como demonstra completa falta de empatia com a vida das pessoas. O que mais me assusta é o pouco valor à vida. Os políticos são o primeiro componente, mas a sociedade também. (…) Nossa sociedade em algum momento perdeu a conexão com o quão irreparável é a vida.

As autoridades da Saúde – diria eu os militares da Saúde – portam-se como imbecis, como nesta “solução” encontrada por Eduardo Pazuello para a superlotação que está levando ao colapso os hospitais em diversos estados, é criar um “Coronatur”, transferindo pacientes entre unidades da federação, uma estratégia estúpida, ainda mais considerando a possibilidade de espalhar as variantes do vírus por toda parte.

Corrijo-me, porém, de minha própria incredulidade: não é estupidez ou, se for, é nossa, que não percebemos ou não queremos acreditar que é uma premeditação.

Mas é.

 

 

18
Jan21

Falta de oxigênio pode afetar outros estados

Talis Andrade

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Por Altamiro Borges

As cenas chocantes do Amazonas - com as mortes por asfixia devido à falta de oxigênio nos hospitais - podem se repetir em outros estados brasileiros. Vários estudiosos da Covid-19, como o cientista Miguel Nicolelis, já alertaram para o risco iminente de colapso no sistema de saúde.

O jornal O Globo confirma os piores temores. "A falta de oxigênio nos hospitais em Manaus com a escalada de casos de coronavírus é um alerta para o restante do país, na avaliação de especialistas. Para eles, há risco de novas falhas no abastecimento, em especial na Região Norte".

Segundo a matéria, o drama amazonense reflete "a combinação da falta de ação planejada com a indústria - que agora se desdobra para elevar a produção - e uma complexa estrutura de escoamento que pode levar dias para entregar um produto que precisa ser reposto em caráter imediato".

Falta de planejamento público

Com o aumento do número de infectados e hospitalizados, a demanda explode rapidamente. Na primeira onda de Covid-19, no ano passado, o consumo de oxigênio era de 30 mil metros cúbicos em Manaus, patamar muito acima do registrado antes da pandemia. Agora, a demanda já chegou a 70 mil metros cúbicos diários.

A mesma explosão de demanda pode ocorrer em outros estados da federação, que abrandaram as regras de isolamento social nas festanças do final de ano. Além disso, a maioria não se preparou para o pior. Para Vinícius Picanço, professor de Gestão de Cadeia de Suprimento do Insper, faltou planejamento público:

“Não dá para dizer que era imprevisível a escassez. Por mais que a demanda tenha comportamento exponencial, existem modelos matemáticos para isso. A questão envolve logística e previsão de estoque. Houve tempo de posicionar estoques adequadamente, de armazenar insumos em regiões estratégicas".

Incompetência ou genocídio premeditado?

Para o especialista entrevistado pelo jornal O Globo, "o que está acontecendo em Manaus, com a nova cepa, pode se repetir em outras localidades com limitações na infraestrutura de transportes, em parte do Nordeste e no interior, o que evidencia a importância do planejamento".

Diante da falta de planejamento, que asfixia brasileiros em hospitais sem oxigênio, fica a dúvida: é incompetência ou genocídio deliberado? Nos dois casos, já dá para condenar o negacionista Jair Bolsonaro e o incompetente Eduardo Pazuello. No segundo caso, da necropolítica, a pena seria bem maior.

*****

Sobre a questão da condenação da dupla de criminosos, vale a leitura do contundente artigo de Cristina Serra publicado na Folha nesta sexta-feira (15):

Bolsonaro merece um tribunal de Nuremberg

Depoimentos de médicos e enfermeiros em redes sociais, imagens de desespero nos hospitais, documentos, ordens para aplicar cloroquina ou "tratamento precoce" contra o vírus, testemunhos de parentes das vítimas. 

Tudo o que puder ser usado como prova de crime contra a saúde pública deve ser guardado pelos cidadãos. Há de chegar o dia em que os responsáveis por essa tragédia brasileira irão sentar-se no banco dos réus. 

Se as nossas instituições parecem sedadas, quem sabe organismos multilaterais, como o Tribunal Penal Internacional (que já examina uma ação contra Bolsonaro anterior à pandemia) ou o Conselho de Direitos Humanos da ONU, atentem para a gravidade do que acontece aqui. 

Bolsonaro e sua gangue precisam ser levados a um tribunal de Nuremberg da pandemia. Só uma investigação com a mesma amplitude será capaz de explicar o mal em grande escala praticado contra a população brasileira. Isso terá que ser exposto, em caráter pedagógico, para ser conhecido pelas próximas gerações e evitar que se repita. Como Nuremberg fez com os crimes de guerra dos nazistas.

Há vários níveis de responsabilidade no morticínio brasileiro. É preciso assinalar que, no caso do Amazonas, o governador Wilson Lima também terá que responder pelas mortes por falta de oxigênio em Manaus. 

Eleito na carona do bolsonarismo, revelou-se incompetente e covarde ao ceder às pressões contra o lock down, mesmo com inúmeros alertas de cientistas sobre uma segunda onda. No meio do ano, Lima chegou a ser alvo de buscas da PF, em investigação de desvios na compra de respiradores. 

Outras cidades estão na rota do colapso. O Brasil governado por criminosos não é um perigo mortal apenas para os brasileiros. Países já nos fecham as portas. O Brasil tornou-se um pária sanitário. Quem permite que essa situação continue por tempo indefinido também tem as mãos sujas de sangue. Seremos julgados, no futuro, por nossas ações e omissões.
 
08
Jan21

Viva La Muerte

Talis Andrade

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Notas sobre máscaras no queixo, pancadões na periferia, raves no Leblon, festanças em iates e a saltitante correria brasileira rumo ao suicídio coletivo.

por Marilia Pacheco Fiorillo /A Terra é Redonda

No dia 4 de janeiro de 2021, o internacionalmente respeitado cientista Miguel Nicolelis, coordenador do comitê de combate ao coronavírus do Consorcio Nordeste, resumiu a situação agônica que vivemos: “a equação brasileira é a seguinte: ou o país entra num lockdown imediatamente, ou não daremos conta de enterrar nossos mortos em 2021”.

Não daremos conta, provável e infelizmente. Enquanto médicos, profissionais da saúde e a grande mídia alertam, explicam, repetem à exaustão, insistem, imploram e mesmo suplicam à população para tomar os cuidados básicos para não se infectar com a SARS-Cov-2 (e suas novas variantes), o negacionismo do brasileiro cresce ainda mais vertiginosamente que os novos casos de Covid e a letalidade (as mortes aumentaram 64% só no mês de dezembro, brindando o Brasil como o vice campeão nesse ranking macabro).

Todos sabem, mas ninguém quer saber.

Os brasileiros, em sua maioria, viraram dois dos três macaquinhos chineses: não veem e não ouvem. Mas falam, e como escandem estultices  – a vacina vai implantar um chip de controle (mas o google já fez isso!) ou transformar-nos em comunistas (um milagre histórico de ressurreição dos mortos).

Todos sabem, mas o chip do WhatsApp, twitter e congêneres , já instalado, manda fazer ouvidos moucos.

Delírio coletivo? Algumas tentativas de elucidar este paradoxo – sei que não quero saber – recorrem à psicologia: cansaço, ansiedade, depressão. Outras invocam o estapafúrdio e atroz exemplo que vem de cima (tomar um caldo no mar, sem virar nem pegar  jacaré) e que, dada a estável popularidade do Mito, dá uma mãozinha para disseminar serenamente a peste.

Os dados estão aí, para todos lerem. Mas por que ninguém, mesmo lendo, quer ver? O fabuloso deste negacionismo generalizado, que intoxica todas as classes, gêneros e raças, é que ele não é privilégio de bolsonaristas terraplanistas. Tornou-se um negacionismo unânime, apartidário. Se antes da explosão do vírus em dezembro ainda víamos uma boa parcela da população usando máscara no nariz e boca, hoje aquele incauto que pertence a um grupo de risco e sai rapidamente para a farmácia com máscara e face shield é alvo de zombaria, quando não xingado com o rosnado “tá maluco, tio”. O negacionismo inicial, da gripezinha, deu lugar  ao negacionismo colérico, irritado com os que ousam manter o isolamento social, para não falar dos 2 metros de distância , recomendação da OMS.

Sim, seria um insulto apontar o dedo para o trabalhador brasileiro, forçado a se apinhar em ônibus, metrôs, e filas por uma vaga de emprego porque eles não cumprem à risca as recomendações sanitárias. Mas o trabalho (para quem tem a sorte de mantê-lo) que exige sair de casa não é uma escolha, como ir a bares ou às compras, mas é uma coerção, e coerção inescapável para quem precisa botar feijão na mesa. Outra coisa é a rua 25 de Março lotada de desmascarados para as lembrancinhas de Natal, idem nos shoppings refrigerados, idem nas praias amontoadas de fios dentais e sungas (desmascarados) a poucos centímetros uns dos outros.

Sim, prefeituras desobedecem  ordens de interdição de governos, governos não controlam suas polícias, não há multas nem punições para os organizadores e/ou participantes das festas da morte. A França recentemente mobilizou 100 mil policiais e o toque de recolher para persuadir seus cidadãos a ficarem em casa. A Catalunha multou os desobedientes anticivis. No Chile, 1.400 pessoas foram detidas por desrespeitar as normas de contenção da pandemia. A chanceler Angela Merkel quase perdeu a compostura ao emocionar-se no ultimo discurso… implorando isolamento social.

No Brasil, dá-se um jeitinho. Em São Paulo ocorreu um caso fabuloso em uma casa de espetáculos, na qual 1.500 pessoas pulavam juntinhas, grudadinhas, ao som do funk.  Um vizinho denunciou. Horas depois, chegam dois policiais. O gerente sai (sem máscara), leva um lero e fica elas por elas. O episódio viralizou, e alguém se sentiu no dever de chamar um batalhão da PM, que estacionou nas imediações. O repórter perguntou: e agora? O comandante da operação: “Temos que esperar a vigilância sanitária”. Outras horas depois, chegam duas esguias jovens da vigilância (mascaradas!), que mal tem coragem de entrar no covidário. Entram escoltadas, conversam com o desmascarado gerente. Os frequentadores mais espertos vão deixando o local. Após uma eternidade, acaba o festim diabólico. Houve multa? De quanto? Foi paga? Aconteceu de novo no dia seguinte? No Leblon, houve duas covid-parties sucessivas e concorridas, na praia, dias 30 e 31.

Todos sabem, mas ninguém quer saber. Será que a sociologia pode nos socorrer, mesmo tentativamente? Pode, e na pessoa do fundador desta disciplina, Émile Durkheim, execrado como positivista, lançado à lata de lixo da história pelos progressistas dos anos rebeldes, e, como todo clássico, recém-resgatado.

Na obra pioneira “O Suicídio” (1897) Durkheim trata o fenômeno como um fato social, não um ímpeto existencial ou individual, e busca delinear que predisposições sociais e coletivas estão em jogo em sua ocorrência. Resumidamente, haveria três modalidades de suicídio, tratadas em capítulos destacados do livro: o egoísta, o altruísta e o anômico.

O suicídio egoísta é disparado quando o(s) indivíduo(s) perde(m) qualquer senso de pertencimento à sociedade (deixam de se identificar e introjetar família, grupos, religiões), e, ao matar-se, traçam um epílogo coerente. Talvez alguns exemplos sejam o suicídio dos soldados rasos de grupos terroristas como a Al Qaeda (enquanto os mandantes se poupam), ou os games juvenis suicidas contemporâneos , ou o exibicionismo virulento de muitos atentados  recentes, de lobos solitários, como se convencionou chamar, cujo maior propósito é o reality show da própria morte.

O suicídio altruísta nem sempre faz jus à nobreza do termo. É cometido em nome de uma causa, com C maiúsculo. O exemplo clássico é o dos kamikazes japoneses da II Guerra Mundial. Sua versão contemporânea seria a auto-imolação de afiliados a grupos combatentes, que se explodem em território inimigo pela simples razão de não terem qualquer arma senão o próprio corpo. Há um filme palestino de 2005, Paradise Now, que ilustra com maestria ( e nuances) este conceito de suicídio altruísta. Sem esquecer  o suicídio dos bonzos, monges budistas que incendiavam-se em praça pública em protesto contra a Guerra do Vietnã .

Finalmente, Durkheim refere-se ao “suicídio anômico”, típico de períodos em que se perderam todas as bússolas sociais e morais, as instituições estão em processo de desintegração, habituais regras e normas se esfacelam, a lei não rege mais nada. O desemprego prospera e a confiança nos sistemas políticos despenca.

O conceito de anomia é fundamental para entender este fenômeno. Se nas sociedades simples, segundo Durkheim, imperava uma solidariedade fruto do apego de cada um ao grupo, e de cada um às tarefas necessárias para a funcionalidade da coletividade, com o advento do capitalismo, da divisão social do trabalho e da especialização e segmentação,  a ‘consciência coletiva’ se debilita e desaparece a solidariedade calcada no consenso moral e no apreço ao grupo, surge a carência de convivência , laços, vínculos costumeiros.  Já em sua época, Durkheim considerava que o suicídio anômico era o mais frequente e presente. O fármaco de Durkheim para reativar a coesão e minimizar a anomia provavelmente desagradará  gregos e troianos. Mas vale ler.

O caso brasileiro é a quintessência do suicídio anômico durkheimiano. Em um país desgovernado em todos os níveis, graus e latitudes, em que inexiste a saudável divisão dos poderes ou uma democracia de fato e de direito, país de uma desigualdade aterradora, da criminalidade canônica, em que o espírito e a letra da lei se volatilizaram, a anomia é a Norma.

A controversa expressão ‘novo normal’, aqui, fica à vontade. Não está fora de lugar e  reflete em esplendor a absoluta ausência de referenciais e um caos diariamente reposto que envenena tudo e todos. Não há onde se amparar (exceto na ignorância). Ninguém estranha .Não se estranha porque o negacionismo anômico  suicida é a versão pejorativa e obscena daquela cordialidade de que falava Sergio Buarque: o descaso simpático com a norma, com as recomendações sanitárias, com o sujeito que está ao lado e não chega a ser um  “ente querido” (expressão meio fantasmagórica, pois divide a humanidade entre queridos e outros entes). O desprezo pela lei, norma e regra , que não é privilégio brasileiro, mas aqui alcança seu auge, é bem o nosso jeitinho, o jeitinho brasileiro do suicídio coletivo, sem som ou fúria.

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