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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

15
Jan22

A interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil

Talis Andrade

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Parceria Lava Jato-EUA foi movida por ódio e dinheiro, revela ex-agente da CIA

Sara Vivacqua entrevista John Kiriakou (continuação)

 

O ex-juiz e ex-ministro da justiça de Bolsonaro, Sergio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol tiveram uma colaboração secreta, extraoficial e conivente com o Departamento de Justiça dos EUA, o DOJ Tudo em nome da luta anticorrupção. Você pode nos explicar qual é o papel do governo dos EUA em tais operações no exterior e como eles cooptam essas figuras como Moro e Dallagnol?

Esta não é uma teoria da conspiração. Esse é um excelente exemplo da interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos de outro país. Isso é algo que em qualquer outra situação resultaria em um muito forte protesto diplomático, porque realmente é uma interferência.

E não é apenas o Departamento de Justiça. Eu gostaria de alertar as pessoas que também o Departamento de Estado, o Departamento de Justiça e o Departamento do Tesouro se envolvem em acusações de lavagem de dinheiro que aparecem do nada, ou acusações de corrupção. Esse é o Departamento do Tesouro. E agora, temos que nos preocupar com o Departamento de Segurança Interna também. E o tempo todo você também tem a CIA trabalhando nos bastidores.

Então isso não é uma conspiração, este é um esforço concentrado dos elementos mais importantes do governo americano para, essencialmente, instalar líderes no exterior de quem eles gostem e que irão apoiar a agenda americana, e para destruir, não apenas para atrapalhar, mas para destruir aqueles líderes que não apóiam a agenda americana. Além disso, nos Estados Unidos têm dois partidos: os democratas e os republicanos; e os republicanos chamam os democratas de “esquerda radical”, e os democratas chamam os republicanos “a direita radical”.

A verdade é que ambos são partidos de centro. Os democratas estão um pouco à direita de centro e os republicanos estão muito à direita do centro. Não há nada de radical nos democratas, não há nada de esquerda nos democratas, mas com isso dito, no exterior qualquer pessoa cuja ideologia esteja à esquerda dos democratas é comunista e o comunismo é uma ameaça aos Estados Unidos. Essa é a mentalidade aqui, e aqui estamos todos esses anos depois da queda do muro de Berlim e da dissolução da União Soviética, as pessoas ainda estão obcecadas com a ideia de movimentos políticos progressistas no exterior.

Nos Estados Unidos as pessoas estão indignadas agora que Daniel Ortega voltou a ganhar a presidência da Nicarágua, por exemplo. O governo Biden, que se supõe tão progressista e radicalmente de esquerda, recusa-se a restabelecer relações diplomáticas com o governo de Cuba.

Olhe o Brasil, olhe o presidente Lula, olhe para Dilma Rousseff, eles não tinham más intenções contra os Estados Unidos. Eles foram eleitos democraticamente em seu país e os Estados Unidos decidiram: “Não gostamos deles, queremos alguém bem mais à direita”. Então, ao invés de interferir na eleição ou talvez eu deva dizer apenas interferindo nas eleições, um programa foi traçado para destruí-los e assim o pobre presidente Lula acabou na prisão, a presidenta Dilma Rousseff acabou com a reputação destruída e o mundo acabou com Jair Bolsonaro.

Todos esses vazamentos mostrados para quem tem olhos e pode ler, pode ver o vazamento e pode ver por sua própria boca e sua própria admissão de que eles se envolveram extraoficialmente com o Departamento de Justiça, mas não só, que havia mais. Vazaram mensagens em que o procurador Dallagnol se referia à prisão de Lula como um presente da CIA. E depois Jair Bolsonaro e Sergio Moro, o juiz que colocou Lula na prisão, fizeram uma visita inédita à sede da CIA, em Langley, logo após chegar ao poder com o apoio de Wall Street.

Lula, no dia em que foi preso

 

Como você acha que essa cooperação da CIA aconteceu?

Muito facilmente. Em primeiro lugar, deixe-me enfatizar o quão incomum é um líder estrangeiro ir à sede da CIA. Muito, muito incomum. De vez em quando eu era chamado por ser um líder estrangeiro, mas normalmente era como, numa vez, o primeiro ministro de Fidji, ou o vice-primeiro-ministro da Albânia, mas o presidente de um grande país como o Brasil ir à sede da CIA, e quando você mencionou pela primeira vez eu estava tentando pensar em outro exemplo onde algo assim aconteceu, eu não consegui lembrar de nenhum momento enquanto eu estava na CIA que algo assim tenha acontecido. 

É tão inapropriado que nem consigo imaginar como foi autorizado. Em primeiro lugar, a menos que fosse parte de uma operação para destruir essencialmente Lula e assumir o governo brasileiro. Eu acho que é isso mesmo o que aconteceu. 

Tem uma piada na CIA, que é uma espécie de piada de batismo, que a inteligência é um negócio de grana. Quando eu estava no Paquistão, em 6 meses eu provavelmente gastei 10 milhões de dólares em dinheiro vivo. Jogávamos dinheiro para fora do helicópteros para os senhores da guerra afegãos. Não consegui gastar o dinheiro rápido o suficiente, literalmente, um orçamento ilimitado. A CIA não é avessa a fazer pequenos acordos laterais. Talvez esse juiz gostaria de ter uma casa nova, ou talvez o seu filho gostaria de ir para uma universidade americana com todas as despesas pagas.

 

Ele foi para o programa “60 minutes”. Ninguém sabia quem ele era no “60 minutes”…

Então, sempre tem um acordo, todo mundo tem um preço. Eles nos ensinam na escola de espionagem quais são os fatores motivacionais. Por que as pessoas querem trabalhar para a CIA? Por que eles querem espionar para a CIA? Para 90% deles, é dinheiro. O dinheiro é fácil. Temos mais dinheiro do que podemos contar, vamos apenas dar a você quanto dinheiro você quiser, se você produzir para nós. Para algumas pessoas, é ideologia.

Eles são verdadeiros crentes nos Estados Unidos e querem fazer algo para ajudar os Estados Unidos. Há muitas pessoas assim. 

Mas o outro é o outro fator motivador é o ódio. Você odeia seu chefe, você odeia o outro partido político, você odeia o Lula, você quer arruiná-lo. O ódio é um fator muito motivador, o dinheiro é secundário, mas se você estiver alguém que tem um ódio profundo por alguém e você está em uma posição de destruir a vida dele você ficaria surpreso com o número de pessoas que realmente buscam isso. E então, acho que estamos vendo uma combinação de coisas aqui. Eu não ficaria surpreso se o dinheiro mudasse de mãos; provavelmente muito dinheiro, mas também não ficaria surpreso se o ódio fosse um dos fatores de motivação

 

Portanto, não é apenas instrumental. Há algo que aconteceu recentemente. Você acha que é possível que a CIA esteja monitorando o filho de Jair Bolsonaro? 

Com certeza, absolutamente. Eles ainda estão me monitorando e eu não sou ninguém. Então, você sabe, temos uma situação aqui nos Estados Unidos, onde a tecnologia agora está tão avançado que todos, literalmente todos, estão sujeitos à vigilância.

A NSA construiu uma nova instalação no estado de Utah que tem armazenamento de memória suficiente, para guardar cada chamada, cada mensagem de texto e cada e-mail de cada americano pelos próximos 500 anos.

Os tribunais também decidiram que escutas telefônicas sem justificativa não é uma violação constitucional e não é porque tudo o que você tem a dizer é “terrorismo” “11 de setembro”, “terrorismo”… e assim todos estão sujeitos a serem espionados. Não é apenas contra a lei, mas é parte do estatuto da NSA, seu estatuto de fundação, que eles não tem permissão para espionar pessoas dos EUA que sejam cidadãos americanos ou qualquer pessoa nos Estados Unidos com um visto de imigrante.

Mas eles fazem isso todos os dias e os tribunais se recusam a impedi-los. Então, pegue isso e associe-o à ideia de que o trabalho do FBI é vigiar a todos. É uma organização de aplicação da lei e o trabalho da CIA é, pelo menos, vigiar eletronicamente cidadãos estrangeiros. Sabemos, por exemplo, graças a Ed Snowden, que a CIA estava interceptando o celular de Angela Merkel há anos.

Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro. Foto: Reprodução

 

Você acha que Eduardo Bolsonaro deveria ter medo da CIA?

Não acho que ele deva ter medo porque acho que a CIA o ama, eles amam homens fortes e políticos fascistas de direita. Mas eu também presumo, se eu fosse Jair Bolsonaro, que todas as suas comunicações estão sendo monitoradas. Todos elas. E você pode perguntar por quê? Você perguntaria por que Angela Merkel? Parece uma contradição. Mas as informações coletadas não são apenas para ficar nos arquivos da CIA, é para compartilhar com as empresas americanas, dar-lhes vantagens no comércio, na banca, nas finanças. Você pode usar essas informações de fechamento, de retenção de várias maneiras e, geralmente, no final do dia, o motivo é financeiro. 

 

Quero abordar um pouco uma temática diferente. Gerald Ford, ex-presidente dos EUA, admitiu que a CIA usava missionários evangélicos como agentes. Você pode confirmar isso e se ainda é uma prática?

Posso confirmar e, oficialmente, eles interromperam essa prática em 1975, durante o governo Ford. Mas isso é apenas a CIA. O FBI cultiva esses movimentos. Eu estive na Guatemala também, há bastante tempo e uma das coisas que aprendi lá é que as 2 mais rápidas religiões em crescimento na Guatemala, que é um país tradicionalmente católico, religiões em crescimento eram evangélicas, este cristianismo evangélico de direita e o Islã, ao estilo saudita. Como praticante ortodoxo grego, e nós somos muito semelhantes, é claro, aos católicos voltados ao cristianismo primitivo, nem mesmo consideramos esses grupos como cristãos. Nós os consideramos grupos políticos de direita, e em muitos casos, na maioria dos casos, sua maior questão, sua maior causa, é o apoio a Israel.

Eles querem que todos os judeus voltem para Israel porque isso vai apressar o retorno de Cristo. Eles querem impulsionar a segunda vinda de Cristo e a única maneira de fazer isso é trazer todos os judeus de volta para Israel. Então, muitas vezes é nisso que eles se concentram. Esses grupos de direita são muito políticos, muito mais políticos do que religiosos. Eles são perigosos e eles estão ativamente em oposição ao que eles pensam ser a “esqueridista” Teologia da Libertação. E é engraçado porque em muitos casos a teologia não é libertação de forma alguma, é apenas o catolicismo dominante. É o original, é apenas o cristianismo primitivo, o que chamamos de fé. 

 

Essa tradição de tortura vinha com a CIA, que treinava militares brasileiros para torturar. Isso foi no Brasil, Uruguai, Argentina, México. Por todo o lugar. por que eles estão tão interessados na América Latina, por que somos os alvos?

Porque este é o nosso quintal. Temos a Doutrina Monroe, que ainda é uma preocupação primordial na política externa americana. Nós vemos isso como nossa área. Não queremos os russos aqui, não queremos chineses aqui, não queremos ninguém mais. Eu escrevi um artigo de opinião em 2008 para o Los Angeles Times falando exatamente sobre isso, de como os iranianos tinham investido em uma fábrica de bicicletas na Venezuela, e como nós pensamos que eles estavam construindo armas nucleares para apontar para os Estados Unidos. A CIA ficou muito louca, muito brava, só porque os iranianos abriram uma fábrica de bicicletas. Não queremos ninguém na América Latina além de nós. É isso.

 

Seria muito interessante entender como a CIA pode mudar sua cultura se você tem Trump no poder ou se você tem Biden no poder. Você vê alguma mudança ou é apenas mais do mesmo? 

A política de inteligência e a política externa são quase sempre consistentes. Certamente a CIA é consistente entre os partidos, seja democratas ou republicanos, nada vai mudar. Donald Trump foi um presidente incomum porque ele era tão fora do mainstream, ele era um extremista protecionista de direita.

Houve algumas diferenças na política externa, mas Donald Trump se foi e não importa quem serão os indicados democráticos e republicanos em 2024. Não acho que haja quaisquer mudança significativa na política externa, política de defesa ou política de inteligência. Então Brasil, América Latina, desde que existimos como países fomos colonizados, quer pelos portugueses ou espanhóis, quer pelos norte-americanos.

 

Você vê alguma saída para que alcancemos nossa soberania? Como podemos, como podemos ir contra essa enorme máquina que existe na América?

Isso foi algo que aprendi no Paquistão: se você quiser os EUA fora do seu negócio, a única maneira de fazer isso é educar sua população e desenvolver sua economia. É isso mesmo, caso contrário, você terá intromissão e manipulação americanas e os Estados Unidos vão sair com sacos gigantes de dinheiro, subornando seus oficiais e essencialmente comprando sua política externa. A única maneira de fazer com que isso pare é por meio da educação e do desenvolvimento econômico. 

 

Você faria tudo de novo?

Absolutamente! Valeu a pena. Alguém tinha que dizer algo sobre o programa de tortura. Eu apenas assumi que outra pessoa não diria. Mas estou feliz. O custo foi alto, foi muito alto, mas valeu a pena. Eu consigo dormir à noite, meus filhos têm orgulho de mim e valeu a pena porque tinha que ser feito.

Deltan Dallagnol e Sergio Moro

Deltan Dallagnol e Sergio Moro.
Foto: Jorge Araújo/Folhapress

 

Você me enviou um artigo sobre o filme “O Caçador de Pipas” publicado na primeira página do New York Times. Você salvou a vida de muitas crianças no Afeganistão. Pode nos contar sobre isso?

Depois que saí da CIA, estava trabalhando para uma empresa privada e recebi um telefonema da Paramount Studios me perguntando se eu consideraria ir ao Afeganistão para resgatar algumas crianças que haviam aparecido no filme Kite Runner. Afegãos são pessoas muito simples, talvez a maioria deles, e eles não acreditavam que essa era apenas uma história inventada, eles achavam que era real e havia duas cenas questionáveis ​​no filme. 

Numa um menino fora estuprado por outro menino, e a outra em que um menino foi forçado a fazer uma dança homoerótica para um membro do Talibã. Então, o estúdio me disse para ir ao Afeganistão, avaliar a situação de segurança, avaliar o perigo para o crianças e, em seguida, se as crianças estivessem de fato em perigo, eu devia retirá-las e suas famílias do país.

Tirei duas semanas de férias, fui para o Afeganistão secretamente, passei pela Índia e encontrei muitas pessoas, determinei que aquelas crianças realmente estavam em perigo e para encurtar a história, acabei colocando 27 pessoas, as crianças e todos os membros de sua família fora do país. Eu subornei todos no Ministério das Relações Exteriores para nos dar vistos de saída e passaportes.

Depois alugamos vans e nos dirigimos para o aeroporto, e eu fui e disse que precisava de 27 assentos mais um, no primeiro voo para fora e que eu não me importava para onde o voo ia.

Eu disse que precisávamos chegar bem a Dubai, e eles disseram que tinha um voo para a Índia em 11 horas e então você pode ir da Índia para Dubai. Eu disse não, nós temos que sair agora e eles disseram Tem um voo para o Irã. Bem, eu sou um americano e ex-oficial da CIA, eu não posso voar para o Irã. Mas eu não tive escolha, então eu disse para me dar 28 passagens para o Irã. Então voamos para o Irã na CanAir, uma companhia aérea iraniana e nós saímos do avião no Irã, e eu consegui mais 28 passagens para Dubai. Quer dizer, havia voos de 2 em 2 horas para Dubai, um amigo meu nos encontrou em Dubai e acabamos matriculando as crianças em escolas, em escolas de idiomas, conseguimos empregos para os pais e apartamentos para todos os 27 viverem juntos como uma família.

E os resgatei e então voei de volta para casa e voltei direto para o trabalho para fazer meu trabalho normal.

Foi em 2007, eu estava trabalhando na Deloitte na época uma das quatro grandes empresas de contabilidade. Fico muito desapontado em dizer que depois de um ano os pais decidiram voltar para o Afeganistão e o estúdio me pediu para ligar para eles. Então eu liguei e disse que eles estavam cometendo um erro terrível. Nós demos a todos vocês uma vida nova em Dubai. Todos eles, todos os 27 deles, e então eu perdi contato com eles.

 

Gostaria de ouvir suas palavras finais

Apenas lembra-te. Eu digo isso a mim mesmo o tempo todo. Nós somos os mocinhos, estamos certos e eles estão errados e então, se você acredita no que está comprometido, continue lutando e pressionando, porque eventualmente todo mundo vai voltar. Uma clara maioria do povo americano apoiava uma política de tortura, mas eu sabia que a tortura era errada e agora chegamos a um ponto onde a tortura foi proibida nos Estados Unidos, que Gina Haspel, ex-chefe da CIA, admitiu que o programa de tortura foi um erro, o senador John Mccain levantou-se no Senado e disse que o povo americano nunca saberia o que seu país estava fazendo se eu não tivesse contado a eles. Se você confia no que acredita, mantenha-se firme e continue lutando.

20
Nov21

Por que Bolsonaro tanto mente e não se constrange em mentir

Talis Andrade

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E assim será até o último dia do seu desgoverno

 
 
Não é por ignorância ou compulsão que o presidente Bolsonaro mente tanto, é por necessidade. Atravessou quase metade do planeta para dizer em Dubai diante de uma plateia de investidores que a Amazônia é uma floresta úmida que não pega fogo.
 
Informa o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial que foi batido mais um recorde de queimadas para o mês de outubro com 877 quilômetros de focos de desmatamento na Amazônia. Em alguns casos, a desflorestação precede as queimadas.
 
 O ministro Paulo Guedes, da Economia, seguiu o exemplo do chefe e disse que o Brasil cresce acima da média mundial. A Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico estima que o Brasil deve crescer 2,3% no próximo ano, e o mundo, 4,5%.

Depois de visitar os Emirados Árabes Unidos, Bolsonaro passará pelo Bahrein e Catar. Sente-se à vontade naquele pedaço do mundo porque não corre o risco de enfrentar manifestações hostis, só a favor. São ditaduras conduzidas com mão de ferro.

Nas duas viagens anteriores, ele amargou as inconveniências da democracia na Itália e nos Estados Unidos. Em Roma, seus agentes de segurança bateram em jornalistas. Em Nova Iorque, de um ônibus, seu ministro da Saúde reagiu às vaias dando o dedo.

Democracia é uma dor de cabeça, e as trapalhadas cometidas por Bolsonaro são filmadas. Na reunião dos chefes de Estado das 20 maiores economias, ele ignorou o futuro chanceler da Alemanha e foi pisar no pé da atual chanceler, Angela Merkel. Que tal?

Onde quer que esteja, Bolsonaro fala preferencialmente para seus devotos, e isso é o que o motiva a deixar de lado a verdade e a verossimilhança e a mentir descaradamente. Pegaria mal para ele dizer lá fora o contrário do que diz aqui. Então, mente lá como cá.

Quem o ouve no exterior tem meios fáceis de saber quando ele mente. Quem aqui o ouve, nem sempre. As mentiras infames para uso interno o isolam dos demais governantes e emporcalham a imagem do Brasil, mas ele pouco liga. E assim será até o fim.

 

 

14
Nov21

Memória de um capitão de milícias

Talis Andrade

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por Flávio Aguiar /A terra é redonda

De todas as gafes acumuladas do Usurpador do Palácio do Planalto na Europa – de sua solidão auto-satisfeita à menção à Torre de Pizza – nenhum me impressionou tanto quanto a do pisão no pé de Angela Merkel.

A frase dela – “só podia ser você” – foi um tapa que ele não ouviu; ou se ouviu, não escutou; se escutou, não avaliou. Porque, na sequência, veio a gafe maior.

Disse ele, de volta ao Brasil, que ficou impressionado com o bom humor de Merkel, e que gostaria de ter dançado com ela. Foi assim que ele interpretou o episódio do pisão no pé da projetada Dulcineia.

Jair Bolsonaro, o presidente do tiro no pé |
Na hora lembrei-me do romance de Manuel Antonio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias, publicado em 1852.

No romance, o protagonista, que alguns críticos consideram um pícaro, é filho de um meirinho, Leonardo Pataca, e de uma saloia, habitante dos arredores de Lisboa, Maria da Hortaliça, que vêm para o Rio de Janeiro, “no tempo do Rei”.

O namoro destes dois começou no navio em que vinham de Portugal para o Brasil, quando o Pataca deu um pisão no pé da Hortaliça. No romance, consta que o pisão foi intencional. Em Roma, teria sido fruto do acaso, pois o Usurpador caminhava de costas para a pisada. Melhor: Freud explica o ato falho que não falha. A Merkel transformou o episódio banal e desajeitado no que se diz em alemão ser um Schicksal, um destino: “só podia ser você”.

Desconfio que foi esta frase que despertou no Usurpador o instinto dançarino. Se de um lado, ela aponta o desajeito, de outro, ela abre a interpretação para o jeito do desajeitado. No romance, não deu outra: ao pisar o pé da Hortaliça, o Pataca deu início a uma cadeia de acontecimentos que, entre traições, desavenças, perseguições, infortúnios, alegrias e muito favor, levaria a um final feliz: o casamento de seu filho, o Leonardinho, o sargento de milícias, com a linda Luizinha.

O mesmo deve ter passado pela mente do infeliz-feliz Usurpador no encontro em Roma. Depois de tanto infortúnio, desconsolo, solidão, rejeição, desprezo sofrido, ele encontrou um pé de apoio, que lhe valeu meia hora de conversa e uma fantasia dançarina ulterior. Melhor, impossível. Ri melhor quem dança por último.

As palavras são um peso na vida das pessoas. Pois o fato é que o Usurpador dançou em Roma. Às custas dos impostos pagos pelo povo brasileiro, mas quem liga? Nada fez de útil por lá, exceto estar ausente do país, quando a gente respira, embora sinta a vergonha que ele é incapaz de sentir. Recebeu o título de cidadão honorário do neo-fascismo italiano. Honrou os pracinhas ausentes no cemitério de Pistóia, na companhia do líder dos neo-fascistas italianos. Honrou-os, cuspindo na sua memória, untando-os, embora ausentes, com seu nojo pela democracia. Comeu salame na rua, porque não pode entrar em restaurantes.

Diante de tudo isto, o que é um pisão no pé alheio? Uma esperança, ainda mais no pé da Grande Dama da União Europeia que ainda reconheceu, insisto: “só podia ser você”. Convenhamos: para um candidato a Romeu infeliz e deserdado da sorte, Julieta nenhuma faria melhor bem.

Eu daria um dedo – nem precisaria ser pisado – para saber o que a Merkel está pensando disso tudo. Além de, provavelmente, passar arnica no dedão do pé.

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13
Nov21

Lula se reúne com vencedor da eleição alemã

Talis Andrade

Luiz Inácio Lula da Silva und Olaf ScholzLula e o ministro Olaf Scholz, que atualmente negocia a formação de um novo governo na Alemanha

 

Ex-presidente se encontrou em Berlim com o social-democrata Olaf Scholz, que tem chance de ser o próximo chanceler da Alemanha. Recentemente, político alemão foi ignorado por Jair Bolsonaro em reunião do G20

 

por Jean-Philip Struck /DW

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta sexta-feira (12/11) em Berlim com o social-democrata Olaf Scholz, atual vice-chanceler e ministro das Finanças da Alemanha e o vencedor da eleição parlamentar de setembro.

Lula ainda teve encontros com políticos e sindicalistas alemães. O petista desembarcou em Berlim na quinta-feira, dando início a um giro europeu que vai se estender até a semana que vem.

"Começamos hoje por Berlim com uma intensa rodada de encontros. Outro Brasil é possível. E vamos lembrar o mundo disso", disse Lula ao desembarcar.

 

Encontro com Scholz

 

No momento, Scholz lidera as negociações para a formação de uma coalizão de governo que deve tê-lo como chanceler federal.

As conversas envolvem a legenda de Scholz, o Partido Social-Democrata (SPD), o Partido Verde e o Partido Liberal Democrático. O SPD terminou a eleição em primeiro lugar, com 25,7% dos votos.

Se as negociações forem bem-sucedidas, Scholz deve ser o sucessor de Angela Merkel e passará a comandar a maior economia da Europa.

Lula afirmou que teve uma "agradável conversa" com Scholz e que eles discutiram "o processo que está em curso para a formação de um novo governo e sobre a importância de fortalecer a cooperação Brasil Alemanha".

O encontro durou cerca de uma hora, segundo a assessoria de Lula.

O PT e SPD mantêm laços há décadas e Lula manteve relações amistosas com figuras históricas da legenda alemã como Willy Brandt, Gerhard Schröder, Johannes Rau e Helmut Schmidt.

O encontro de Lula com Scholz contrasta com um recente incidente entre o político social-democrata e o presidente Jair Bolsonaro.

No final de outubro, Scholz foi ignorado por Bolsonaro durante uma reunião do G20, em Roma. Na ocasião, durante uma recepção geral para todos os líderes do G20 presentes, Bolsonaro conversou rapidamente com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Na mesma roda, estava Olaf Scholz. Bolsonaro, aparentemente não sabendo quem era Scholz, ignorou completamente o alemão. Pouco depois, enquanto Bolsonaro reclamava da mídia brasileira e trocava observações banais com Erdogan, Scholz virou as costas e foi falar com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson.

A indelicadeza não passou despercebida pela imprensa e foi usada como um exemplo do isolamento e do comportamento errático de Bolsonaro durante seu giro pela Itália.

 

Encontros com figuras do SPD e sindicalistas

Em Berlim, Lula ainda se reuniu com Martin Schulz, ex-líder do SPD alemão e ex-presidente do Parlamento Europeu. Schulz, que chegou a concorrer à chancelaria alemã em 2017 mas foi derrotado por Angela Merkel, visitou Lula na prisão em Curitiba em agosto de 2018.

Lula se referiu a Schulz depois do encontro como "um companheiro das horas mais difíceis, a quem sou grato por ter feito questão de ir até o Brasil me visitar quando estava preso em Curitiba".

Schulz é atualmente presidente a Fundação Friedrich Ebert, ligada ao SPD e que também é próxima da Fundação Perseu Abramo, do PT.

Luiz Inácio Lula da Silva und Martin Schulz

Lula e Martin Schulz, que foi o candidato do SPD nas eleições alemãs de 2017

 

No mesmo dia, Lula ainda se encontrou com as deputadas do SPD Yasmin Fahimi e Isabel Cademartori.

Cademartori, de 33 anos, uma neta de José Cademartori, último e breve ministro da Economia do ex-presidente chileno Salvador Allende, e que procurou refúgio na antiga Alemanha Oriental após o golpe militar de 1973. Ela é uma deputada estreante do SPD no Parlamento Alemão (Bundestag), tendo sido eleita em setembro.

"É uma grande honra conhecer o ex-presidente do Brasil Lula. Conversamos sobre sua visão de uma política social e sustentável para o Brasil que proteja os recursos naturais. Depois dos resultados desastrosos do Mini-Trump Bolsonaro, há muito a ser feito", escreveu Cademartori no Twitter.

Já Fahimi acumula anos de experiência no meio sindical é deputada federal na Alemanha desde 2017. Ela também é membro do grupo parlamentar Brasil-Alemanha no Bundestag.

Sobre o encontro, a deputada Fahimi afirmou ser "uma felicidade e uma honra" ver Lula "com saúde e sua vontade de lutar pela democracia no Brasil".

Lula já havia se reunido com Fahimi no Brasil e na Alemanha, em 2014 e 2015. A deputada alemã liderou entre 2018 e 2019 uma campanha de solidariedade a Lula e criticou a prisão do petista repetidamente.

"Agradeço a solidariedade que tiveram comigo e com o povo brasileiro nos últimos anos", disse Lula, após se encontrar com as duas deputadas.

Lula
@LulaOficial
Encontro com as deputadas alemãs e . Ouvindo sobre a importante vitória dos sociais democratas () nas últimas eleições aqui na Alemanha. Agradeço a solidariedade que tiveram comigo e com o povo brasileiro nos últimos anos. 
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O ex-presidente brasileiro ainda teve encontros em Berlim com figuras do sindicalismo alemão, incluindo Reiner Hoffmann, presidente da Confederação Alemã de Sindicatos (DGB); Michael Vassiliadis, presidente do Sindicato de Minas, Química e Energia (IG BCE); Frank Werneke, presidente do Sindicato Unido de Serviços (ver.di); e Christiane Bonner, copresidente do IG Metall, o maior sindicato de trabalhadores da indústria em toda a Europa

 

Giro europeu

Na próxima segunda-feira, em Bruxelas, Lula participará de uma reunião no plenário do Parlamento Europeu, a convite do bloco social-democrata da Casa.

Na terça-feira, ele seguirá para Paris, onde vai conceder uma palestra durante a conferência sobre o Brasil no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). A conferência "Qual o lugar do Brasil no mundo de amanhã?" ocorre para marcar os dez anos do título de Doutor Honoris Causa que Lula recebeu da Sciences Po.

 
11
Fev21

Brasil registra 1.351 mortes por covid-19 em 24 horas

Talis Andrade

A situação sanitária do Brasil é muito preocupanteProfessora distribui álcool gel para aluno em escola de São Paulo

Professora distribui álcool em escola de São Paulo

DW - O Brasil registrou oficialmente 54.742 casos confirmados de covid-19 e 1.351 mortes ligadas à doença nesta quinta-feira (11/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 9.713.909, enquanto os óbitos chegam a 236.201.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 27,3 milhões de casos, e da Índia, com 10,8 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, já que mais de 474 mil pessoas morreram nos EUA.

Brasil pode ficar isolado mundialmente por causa de possíveis variantes do coronavírus

24
Jun19

CHANCELER ALEMÃ DIZ QUE NEONAZISTAS DEVEM SER COMBATIDOS “SEM NENHUM TABU”

Talis Andrade

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A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu neste sábado (22) que se lute contra os neonazistas “sem nenhum tabu”, dias depois do assassinato de um político pró-imigração por um suposto simpatizante deste movimento. O país teme um surto do terrorismo de extrema direita.

Os neonazistas violentos “têm que ser combatidos desde o princípio e sem nenhum tabu”, afirmou a dirigente, convidada em Dortmund com motivo do Dia da Igreja Protestante na Alemanha.

“Por isso o Estado é solicitado em todos os níveis, e o governo federal leva isto muito, muito a sério”, acrescentou.

A chanceler alemã faz estas declarações após o assassinato, no início de junho, de Walter Lübcke, um político da CDU, o partido conservador de Merkel, em seu domicílio no oeste do país.

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Um suspeito de 45 anos, vinculado ao movimento neonazista, foi detido no fim de semana passado. Este drama comoveu o país.

“Não se trata apenas de um ato terrível, mas de um grande desafio para nós, para examinar todos os níveis onde existem tendências de extrema direita”, explicou Merkel.

De manhã, o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, afirmou no Twitter que a “Alemanha tem um problema com o terrorismo”.

“Temos mais de 12.000 extremistas de direita violentos em nosso país”, afirmou, acrescentando que 450 deles conseguiram passar à clandestinidade apesar das ordens de prisão.

“Temos que nos defender mais: nem mais um milímetro para os inimigos da liberdade”, alertou.

Fonte: RFI

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02
Out17

Para a direita mulher nua pode, homem não (quarta parte)

Talis Andrade

NEM TODA NUDEZ DEVE SER CASTIGADA

 

 

A imprensa direitista da Venezuela jamais reclamou das fotos da mulher do presidente da França nua. Nem os franceses. Carla Bruni tinha mais popularidade que o marido, François Sarcozy, que perdeu a reeleição para François Hollande.

 

sarcozy. carla bruni.jpg Carla Bruni

 

Recentemente apareceu na internert uma foto de Angela Merkel quando jovem. O pintor berlinense pernambucano Duch (classificou de suposta foto) disse que se tornou comum, durante a Alemanha comunista, as jovens despirem o vestido. Como catarse contra a dureza do regime. Era uma maneira de respirar o ar da liberdade.

 

merkel-nua..jpgAngela Merkel


A imprensa oposicionista da Venezuela protesta contra a nomeação de Alejandra Benítez como ministra dos Esportes. Como se toda nudez merecesse ser castigada.

 

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Alejandra Benítez

 

 

Publiquei este artigo em 29 de abril de 2013. Nada mais atual, diante da estigmatização da nudez pelo nazi-fascista MBL, criado para derrubar a primeira presidenta do Brasil. [Vide seleta sobre política e sexo

 

 

 

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