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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Abr20

Pandemia, segregação racial e as vidas que não importam

Talis Andrade

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29 de Março, 1968, Memphis – USA

 

O tempo do racismo não é cronológico. O tempo do racismo é lógico e psicológico, ou seja, transfunde a cronologia histórica. É dessa maneira que o racismo se mantém na estrutura da sociedade

por Alexandre Filordi

Jornal GGN

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O tempo do racismo não é cronológico. O tempo do racismo é lógico e psicológico, ou seja, transfunde a cronologia histórica. É dessa maneira que o racismo se mantém na estrutura da sociedade. Entra ano e sai ano, no caso que aqui me interessa, os negros precisam provar que são humanos, gente com sangue, dor, padecimentos, sentimentos, inteligência, beleza. Eles precisam provar que não são menos e que as mesmas mazelas da finitude humana não lhes são diferentes das de ninguém.

Os jornais franceses denunciam, escandalizados, a cena dantesca em que dois pesquisadores do Inserm (Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica, França) – homens brancos – invocam a possibilidade de testar vacinas contra o corona vírus no continente africano (Veja aqui: https://francais.rt.com/france/73573-covid-19-sequence-sur-test-vaccin-afrique-polemique). Educadores de Angola nos fazem chegar que tal cenário se encontra bem próximo a eles, fazendo da insinuação presunção consumada.

O lema do Inserm é: “A ciência para a saúde”. Faltou apenas deixar explícito: para a saúde dos colonialistas brancos. Daí o fato de se considerar os africanos como cobaias humanas. Se tudo der errado com o teste? A quem importa?

Albert Memmi dizia que o racismo é a melhor expressão do fato colonial e um dos traços mais significativos do colonialista. Claro está, saímos historicamente da colônia, mas a colônia não saiu da sociedade e de nós. Ela se mantém com sua lógica opressora de capturas emocionais, identitárias, maliciosas e valores biunívocos racistas. “Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem”, argumentaram Deleuze e Guattari em Mil Platôs.

Quando um negro ou uma negra precisam provar que são humanos, homem e mulher, como no caso dos grevistas da área de limpeza de Memphis, em 1968, nos USA, carregando os dizeres: Eu sou um homem – reparem que o indivíduo branco não carrega o cartaz na fila dos manifestantes – , é porque estão se defrontando com os senhores colonialistas, com a violência e a animalidade neles presentes. Há de se ressalvar, contudo, que aqueles trabalhadores continuam sendo os mesmos negros e as mesmas negras do precariado de hoje. “Sinais que indicam esses retornos do colonialismo ou sua reprodução e sua repetição nas práticas contemporâneas”, nos termos de Mbembe em Crítica da razão negra.

Em 7 de abril, o New York Times, dentre vários outros jornais americanos, destacou a incidência alarmante de mortes por Cov-Sars-2 entre os africanos estadunidenses (Confira aqui: https://www.nytimes.com/2020/04/07/us/coronavirus-race.html). A denúncia vai ao coração da estrutura racista de nossa sociedade: os povos africanos colonizados mantêm a força de trabalho que não tem o privilégio do home office. Pior ainda, eles compõem o tecido social mais vulnerável; estão destituídos de uma rede eficiente de tratamento de saúde e de proteção à vida. O cenário não é diferente no Brasil. Essa mesma fatia do tecido social é dependente dos transportes públicos massificados. Eles também vivem em regiões segregadas racialmente nas cidades – vide o exemplo de nossas comunidades e periferias.

Tudo isso, contudo, não passa da sombra desumana do racismo social e de classe revitalizados e em evidência com a pandemia vigente.

No Brasil, já tivemos casos em que os senhores da casa-grande obrigaram seus trabalhadores a frequentar seus casarões, ainda que eles estivessem contaminados pelo coronavírus. Houve inclusive casos de morte (Veja aqui: https://exame.abril.com.br/brasil/1a-vitima-do-coronavirus-no-rio-era-domestica-e-foi-contaminada-no-leblon/). Alguns mencionam que a quarentena vai quebrar o Brasil. Não será, porém, por que eles continuarão protegidos, fora dos circuitos de convivência massificada?

Além disso, não podemos desprezar que os EUA possuem a maior população carcerária do planeta e o Brasil a terceira. Em ambos os casos, a maioria dos presos é composta por negros e que, mui breve, morrerão sem misericórdia. Trata-se de um retrato três por quatro da nova segregação social, assim como também é o caso de toda extensão social do precariado moderno, que se vê obrigado a aceitar condições desumanas para tentar sobreviver. Mas são vidas que não importam ao sistema econômico racista; são homens e mulheres pobres, reduzidos às “formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte – a necropolítica”, nos termos de Mbembe.

A pandemia está aí, dando contornos hiperbólicos ao incansável racismo. Este se atualiza na captura dos corpos que padecem com as emboscadas dos capitães-do-mato contemporâneo, os representantes de uma sociedade que não expurgou de seus navios negreiros o seu modo de atuar, de explorar e de continuar a segregar.

Aimé Césaire dizia que o negro nunca existiu. O que existia era o humano. O negro só passou a existir como anteparo da estrutura opressora do colonizador e do colonialista brancos. Desgraçadamente, ainda nos circunscrevemos aí e toda denúncia é pouca. Seja como for, Césaire, em O discurso sobre o colonialismo continua correto: “Chegou a hora do bárbaro. Do bárbaro moderno. A hora estadunidense. Violência, desmesura, desperdício, mercantilismo, exagero, gregarismo, a estupidez, a vulgaridade, a desordem”.

 

08
Jun19

Le Monde fala do “caos alimentado pelo presidente”, que “tem uma obsessão por temas fálicos, em detrimento do avanço nas reformas cruciais”

Talis Andrade

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Brasil de Bolsonaro corre risco de se tornar uma “idiocracia”, uma sociedade movida pelo anti-intelectualismo, o mercantilismo e a degradação do meio ambiente

por RFI O jornal francês Le Monde publicou em seu site nesta sexta-feira (7) uma reportagem realizada pela correspondente no Brasil, que destaca o debate recente sobre a inteligência de Jair Bolsonaro. O vespertino fala do “caos alimentado pelo presidente”, que “tem uma obsessão por temas fálicos, em detrimento do avanço nas reformas cruciais”.  

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A correspondente parte da polêmica lançada pelo artigo publicado em 31 de maio no jornal Folha de S.Paulo, de Hélio Schwartsman, intitulado “Bolsonaro é inteligente?”. Segundo Le Monde, essa questão, “colocada de maneira brutal e sem precaução semântica”, é uma pergunta que “atormenta a intelligentsia brasileira há meses”.

A jornalista relata que, desde que tomou posse em 1° de janeiro, Bolsonaro “alimenta polêmicas fúteis e vulgares nas redes sociais” e relembra episódios como o vídeo do Golden Shower no twitter, ou ainda a preocupação do chefe de Estado com o suposto risco de amputação do pênis por falta de higiene. “Diante de uma oposição inexistente, Bolsonaro faz sua oposição sozinho, dando a impressão de explodir seu próprio mandato”, afirma a correspondente.

39% dos brasileiros duvidam da inteligência do presidente

Le Monde tenta analisar a situação e se questiona: “será que trata-se de uma estratégia pensada ou o chefe de Estado se deixa guiar pelos temas aos quais é confrontado conforme eles surgem ?” Sem ter uma resposta concreta, o vespertino lembra que as pesquisas de opinião já começam a levar em conta a capacidade intelectual de Bolsonaro. A reportagem reproduz os números de um estudo da Datafolha segundo a qual 39% dos brasileiros duvidam da inteligência do presidente.

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A correspondente continua relatando a declaração de Olavo de Carvalho – apresentado como o guru intelectual de Bolsonaro – que lançou no Twitter a hipótese de que a Terra seria plana. Esse tipo de declaração, continua a jornalista, certamente “reforçou as interrogações sobre a bagagem intelectual do chefe de Estado”, e o risco de que o Brasil esteja “ao ponto de cair em uma idiocracia”. A expressão, explica Le Monde, faz referência ao texto de ficção científica homônimo, “que deriva de uma sociedade movida pelo anti-intelectualismo, o mercantilismo e a degradação do meio ambiente”.

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Bolsonaro bem abaixo da média

“Bolsonaro é inculto, mas é esperto”, afirma o filósofo José Arthur Giannotti nas páginas do Le Monde. Mas “é delicado medir a noção de inteligência”, pondera o psicanalista Christian Dunker, também citado pela correspondente.

Dunker explica que vários critérios podem ser levados em conta quando se fala de inteligência. No entanto, continua o psicanalista, “se nos concentrarmos nas qualidades esperadas de chefe de Estado, como a capacidade de se integrar em um contexto institucional, distinguir a esfera pública da esfera privada ou a inteligência verbal, mostrando o domínio de um linguajar tácito ou explicito, Bolsonaro é, de forma evidente, bem baixo da média”, avalia Dunker. E para aqueles que falam de algo arquitetado para se substituir à oposição, o psicanalista defende: “se há alguma estratégia dentro do governo, ela vem certamente de seus próximos e não dele mesmo”.

Independentemente de ser uma postura estratégica ou fruto de uma suposta incapacidade intelectual real, Le Monde avalia que por enquanto nada está funcionando. “A economia patina, os escândalos de corrupção continuam alimentando a imprensa, a esperada reforma da aposentadoria, que deveria aliviar as contar públicas, não avança, e a popularidade do chefe de Estado despenca”, conclui a correspondente do principal jornal francês.

 

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