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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Abr21

O jejum e o sermão do beato Salu

Talis Andrade

 

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 O procurador  Deltan Dallagnol foi ao Twitter neste domingo (18) mentir sobre a competência da 13 Vara de Curitiba nas sentenças envolvendo o ex-presidente Lula, mesmo após o STF decidir, por 8 a 3, a incompetência da autodenominada Liga da Justiça, da autodenominada operação lava jato, da autodenominada república de Curitiba, formada por uma gangue de procuradores residentes em distantes cidades e trabalhando na capital do Paraná para receber a grana extra de diárias e passagens.50 frases sobre mentira que mostram a importância da verdade

“Se o STF tem 11 ministros e, dentre eles, 5 entendem que a competência para o caso do ex-presidente Lula é de Curitiba e os demais se dividirem entre Brasília e São Paulo, em tese, pode ainda prevalecer a competência de Curitiba”, disse Dallagnol que, imparcial justiceiro fez jejum e rezou e rezou para Lula apodrecer na cadeia.

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Imitando o beato Salu, o juiz imparcial parceiro de Moro e Witzel também fez pemitência:

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O ex-coordenador da Lava Jato levou uma invertida do advogado Augusto de Arruda Botelho: “Deltan, eu sou péssimo em fazer PowerPoint, do contrário faria um pra te explicar que 8 Ministros decidiram que NÃO é Curitiba”. 

 

31
Mar21

O Brasil caminha sobre brasas

Talis Andrade

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral

por Manuel Carvalho /Editorial Publico Portugal

Seis substituições de ministros na maior remodelação em décadas, demissão em bloco dos chefes dos três ramos das Forças Armadas na maior crise militar desde a ditadura, aumento da influência do “centrão” da promiscuidade política que Jair Bolsonaro tanto prometeu combater, uma pandemia que provocou a morte de mais de 310 mil brasileiros, o sistema nacional de saúde à beira do colapso, ou tendo mesmo desabado em grandes cidades, centenas de empresários e personalidades da economia mobilizados no pedido de uma estratégia de combate à covid-19 baseada na ciência… Só um grande país conseguiria resistir à ruína provocada pelo desvario do Presidente, Jair Bolsonaro, como o Brasil está a resistir. E é exactamente neste ponto que, entre a perplexidade e a indignação, a grande incógnita se põe: até quando podem aguentar as instituições, a economia e a sociedade brasileira este Governo demencial?

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral. O desprezo pela vida humana que patenteou ao longo da pandemia é apenas a parte de um puzzle em que coincidem a ausência de carácter e a falta de visão. A demissão do seu ministro de Defesa por este se recusar submeter a instituição militar ao serviço dos desmandos do Presidente é apenas um sinal de que ele se vê como um cacique e não como um chefe de Estado. A abertura das portas a líderes políticos condenados no processo Lava-Jato, que lhe serviu para iludir os brasileiros com uma promessa de regeneração do regime, é outra prova de que conceitos básicos como a decência, a coerência ou a verticalidade não existem no seu vocabulário.

O Brasil aguenta tudo isto em nome de uma história recente traumática e à custa de um estoicismo notável. Depois do roubo organizado do domínio público na era Lula, do impeachment imaginoso e farsante de Dilma e da miséria ética de Michel Temer, o Brasil espera que a normalidade institucional impeça a infecção das feridas abertas por Bolsonaro. Nada garante que assim seja. O Brasil confiante e orgulhoso afunda-se no “complexo do vira-lata” que Nelson Rodrigues verbalizou há 70 anos. A miséria alastra. Os políticos corruptos ganham espaço. A pandemia não dá tréguas. A Justiça perdeu-se na troca da lei pelo manto facínora da missão redentora. E os militares, que têm revelado distância e responsabilidade institucional, enervam-se.

O Brasil caminha sobre as brasas que Bolsonaro trata de avivar a cada momento. Todos os que amam esse país maravilhoso têm razões para estarem preocupados.

28
Mar21

Signatários de carta terão de ver em Lula o mais capaz de bater Bolsonaro. Por Janio de Freitas

Talis Andrade

As ligações da Bolsonaro faroeste com a indústria da morte

 

Se banqueiros, empresários variados e economistas concluíram que apoio ao atual presidente é suicida, devem preparar-se para o impensável

Janio de Freitas /Folha

Se de fato os banqueiros, empresários variados e economistas signatários da Carta Aberta  concluíram que seu apoio a Bolsonaro é suicida, devem preparar-se para pensar em fazer o impensável.

Seu candidato à Presidência assustou-se com o retorno de Lula e já avisou seus inventores de que não trocará os auditórios de TV pelos palanques da candidatura. Sem a esperança de um milagre com Luciano Huck, os signatários da carta que enfim pressentem seu próprio desastre, não pela pandemia mas pela derrocada do país, terão de ver em Lula o mais capaz, senão o único, de bater o devastador Bolsonaro e os recursos eleitorais do governo.

Vista a perspectiva com objetividade, os signatários da carta e seus assemelhados não tiveram motivo para repelir Lula, em cujo governo obtiveram êxitos e um período de tranquilidade como em nenhum outro.

Só muito depois encontraram a corrupção na Petrobras para explicar a idiossincrasia, mas era um fato que, em inúmeros setores, nunca lhes foi estranho.

Ciro Gomes tem potencial para uma candidatura importante, mas tudo sugere que sua margem de incerteza é, e tende a se manter, muito maior que a de Lula em disputa com Bolsonaro. A preferência de Huck pelo ganho em vez do risco abre a Ciro Gomes portas largas. Não, porém, entre banqueiros e outros segmentos empresariais que o veem com notória desconfiança.

O machinho​

O Bolsonaro que vemos nestes dias é o mesmo valentão que, ao se ver abordado por um assaltante, sacou sua fulminante pistola Glock —e entregou-a ao bandido. Mas não só. Entregou também a moto. Bateu o medo então, bate o medo hoje. O Bolsonaro que voltam a ver em transformação, aceitando a máscara e propagando a vacina, é só o Bolsonaro acovardado. Com citações à derrubada até na celebração do próprio aniversário, que indicam onde e como está sua cabeça.

À falta de arma para entregar, servem os pescoços dos mais próximos paus-mandados. Eduardo Pazuello acha que foi degolado por pressão de Arthur Lira, presidente da Câmara desejoso de ver no cargo uma amiga do peito, ou cardiologista. O general obediente, na verdade, foi vítima da Carta Aberta em que economistas, banqueiros e outros empresários mostraram sua delicada discordância com o consentimento do governo à mortandade pandêmica. A chegada às 300 mil pareceu suficiente a ex ou ainda bolsonaristas para merecer-lhes algumas sugestões suaves.

O noticiário exibiu e falou de um Bolsonaro apressado para dizer-se, na TV, sempre adepto e praticante das providências mencionadas na carta. Mentiu como nos melhores momentos do seu cinismo.

Bolsonaro tinha mais do que pressa, aliás. Tinha pânico desde que soube da carta. Ao Congresso chegaram informações sobre seu estado, e isso se refletiu no passo vindouro: a reunião para constituir-se um pretenso comitê dos Três Poderes contra a pandemia. Não adiantou que só se selecionassem simpatias para o encontro: não deu para disfarçar o fracasso. Mas deu para comprovar o grau de desorientação vigente.

À impropriedade do convite que lhe foi feito, o presidente do Supremo, Luiz Fux, sobrepôs uma aceitação, embora efêmera, que embaralhava Executivo e Judiciário, em função estrita do primeiro. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, aceitou assumir uma coordenadoria que não lhe compete, para a qual não tem o saber científico conveniente, e nem se deu conta do que é o comitê desejado pelo grupo do Planalto: algo que lhe sirva de bode expiatório ou de laranja, conforme as circunstâncias. Como a função dada ao vice Mourão para a Amazônia.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, parece desejoso de esculpir nova personalidade política. Não há comparação sua com o antecessor, mas o crescimento de Rodrigo Maia, no mesmo cargo, é um exemplo estimulante. Lira não amenizou discordâncias na reunião e, ainda por cima, guardou a melhor surpresa para pouco depois. Ao voltar à Câmara, fez um discurso sobre a situação e suas propensões. Lançou-se às mais agudas considerações feitas fora do exasperado jornalismo, e por uns poucos políticos. Não faltou lembrar nem “a solução amarga, e até fatal”, que é o impeachment ao alcance da Câmara.

Com isso, lá se vai a doidice mais simpática e de conceitos mais engraçados no governo. Vai para apaziguar críticos parlamentares. Até um militar já se foi, o coronel Elcio Franco, segundo na caótica hierarquia militar do Ministério da Saúde. Ao general Braga, por exemplo, convém fugir de correntes de ar no Planalto. Quase qualquer um pode servir para Bolsonaro entregar os sucedâneos humanos de sua Glock e da moto.

Ainda que não seja o mais desejado, pode-se esperar por fatos até mais interessantes para daqui a pouco.Bolsonaro ao ser assaltado em 95: "mesmo armado me senti indefeso" |  Revista Fórum

O continuísta

Do novo ministro da Saúde: “Quem quer o lockdown? Ninguém quer lockdown”. É a nova voz de Bolsonaro e Pazuello, portanto. Marcelo Queiroga ainda não conhece os resultados europeus e asiáticos do confinamento. Mas poderia ter deduzido, com menos bolsonarismo a orientá-lo, que, se as pessoas não se oferecem ao vírus nas ruas e outras proximidades humanas, o bicho não tem como infectá-las.

O nosso lugar

Brasil: mais de 300 mil mortos, é muito difícil imaginar essa quantidade. Quase 7.000 na espera desesperada de um leito em UTI. No estado da riqueza, três mortos asfixiados por falta de oxigênio. E quatro na fila do último sopro de vida. No Distrito Federal da presunçosa e riquíssima Brasília, corpos mortos esperam a remoção, alguns por 24 horas, no chão de unidades de saúde e de hospital regional.

Vai piorar, advertem cientistas brasileiros e estrangeiros. Até quando o país tolerará a omissão das classes e dos políticos que controlam o país, eis a incógnita.

Transcrição, em Toda Mídia por Nelson de Sá, de frase em reportagem sobre a pandemia na rede pública de rádio dos EUA: “O Brasil parece o pior lugar do mundo”.

26
Fev21

Bolsonaro usa pesquisa alemã distorcida para criticar uso de máscaras

Talis Andrade

Brasilien Coronavirus Präsident Bolsonaro Mundschutz

Presidente citou "estudo de universidade alemã" para desestimular uso de acessório. "Estudo", na realidade, é uma mera enquete online com pouco rigor e que contou com participação desproporcional de céticos da pandemia.

Da Deutsche-Welle

O presidente Jair Bolsonaro usou sua live de quinta-feira (26/02) para mais uma vez desestimular o uso de máscaras contra a covid-19. No mesmo dia em que o Brasil registrou a segunda pior marca de mortes pela doença em 24 horas, o presidente mencionou uma "universidade alemã" que teria apontado num "estudo" que máscaras são "prejudiciais a crianças".

"Começam a aparecer aqui os efeitos colaterais das máscaras", disse Bolsonaro. "Uma universidade alemã fala que elas são prejudiciais a crianças. Leva em conta diversos itens: irritabilidade, dores de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa em ir para a escola ou creche, desânimo , comprometimento da capacidade de aprendizado, vertigem e fadiga", completou o presidente.

Ao contrário do que disse o presidente, nenhuma universidade alemã elaborou qualquer estudo que chegou a essa conclusão. Na realidade, Bolsonaro citou os resultados de uma pouco rigorosa enquete online realizada por cinco pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália. O objetivo dos pesquisadores era formar um banco de dados para coletar relatos sobre o uso de máscaras em crianças.

Pesquisa pouco rigorosa

No segundo semestre de 2020, os pesquisadores disponibilizaram um questionário online para coletar relatos. Até 26 de outubro, 20.353 pessoas haviam respondido o questionário, inserindo dados de supostas 25.930 crianças. Entre os participantes, 87.7% indicaram serem "pais". A participação era voluntária e aberta para qualquer pessoa que clicasse no link do questionário, sem qualquer coleta de amostras da população para ter um quadro representativo da sociedade alemã.

Os resultados, segundo os dados coletados, foram os seguintes:

"Perturbações causadas pelo uso da máscara foram relatados por 68% dos pais. Incluíam irritabilidade (60%), dor de cabeça (53%), dificuldade de concentração (50%), diminuição de felicidade (49%), relutância em ir à escola/jardim de infância (44%), mal-estar (42%) prejuízos à aprendizagem (38%) e sonolência ou fadiga (37%)."

No entanto, os dados disponibilizados pelos pesquisadores deixam claro que a enquete tinha pouco rigor científico, funcionando mais como uma coletânea de anedotas. Os pesquisadores não estabeleceram grupos de controle com crianças sem máscaras para comparar os efeitos e também não colocaram em prática critérios para diferenciar efeitos de doenças ou condições pré-existentes. O questionário também exibe itens vagos, como "sensação de doença".

Resultados distorcidos

A enquete também parece ter contado com uma participação desproporcional de céticos da pandemia ou críticos de medidas governamentais para conter a doença. Um dos itens do questionário perguntou aos participantes como eles avaliavam as medidas tomadas pelo governo alemão para conter a pandemia.

Entre as mais de 20 mil pessoas que responderam ao questionário, cerca de 42% apontaram que eram favoráveis a medidas menos rígidas para conter a disseminação da covid-19. Outros 31% disseram apontaram que as medidas eram "inadequadas ou incompreensíveis". Apenas 22,7% dos participantes afirmaram que as medidas eram apropriadas ou que deveriam ser ainda mais rígidas.

O quadro contrasta com pesquisas realizadas por institutos de pesquisa tradicionais da Alemanha no segundo semestre de 2020. Em agosto, uma pesquisa encomendada pelo canal ZDF mostrou que apenas 10% dos alemães avaliavam que as medidas tomadas pelo governo eram exageradas. Outros 77% afirmaram que apoiavam mais restrições para conter a doença. No início de outubro, outra pesquisa apontou que o percentual de alemães que avaliavam as medidas como excessivas não passava de 11%.

Dessa forma, há sinais fortes de que o questionário atraiu um número desproporcional de críticos do governo ou céticos da pandemia, que distorceram os resultados seguindo uma ideia de viés de confirmação, respondendo à enquete de acordo com suas crenças sobre a pandemia, e não com observação empírica.

Os próprios pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke admitem que os dados podem ter sido deliberadamente distorcidos de forma organizada. Nas conclusões da enquete, eles apontam que o link que levava ao questionário circulou por fóruns e páginas que reúnem críticos das medidas tomadas pelo governo alemão para conter a pandemia.

Por fim, os pesquisadores apontam que seu levantamento "não é representativo" e afirmam que é necessária "uma pesquisa representativa na qual uma análise precisa de risco-benefício do uso de máscara em crianças pode ser construída".

Na enquete, 15.2% dos participantes enviaram observações sobre crianças abaixo de seis anos. No entanto, em quase todos os estados alemães, as regras sobre máscaras só são aplicadas em crianças acima dessa faixa. E crianças abaixo de 15 anos podem usar máscaras simples de tecido, sendo dispensadas de acessórios como máscaras N95 e similares.

A Sociedade Alemã de Medicina Infantil e Adolescente (DGKJ) também considera razoável e viável que crianças desde o ensino fundamental usem máscara em espaços públicos, ou seja, ao fazer compras e no transporte público. De acordo com a sociedade, crianças mais jovens também podem usar máscara - por exemplo, ao visitar áreas de risco, como consultas ambulatoriais a hospitais. Todos os estados alemães preveem exceções para crianças que não podem usar máscaras por razões médicas ou psicológicas.

Divulgação por extremistas

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Os resultados da enquete foram divulgados em dezembro, sem terem passado por algum processo de revisão científica por pares, como ocorre com estudos científicos rigosos.

Mas os problemas da pesquisa não têm desestimulado céticos da pandemia, que vêm divulgando os dados como se eles fossem um estudo conclusivo. Os resultados têm circulado em contas de ativistas de extrema direita, fóruns negacionistas e páginas que promovem métodos de cura pseudocientíficos. Postagens em redes sociais sobre a pesquisa têm sido classificadas como falsas por agências de checagem de língua inglesa.

No Brasil, a primeira menção da enquete foi feita na quarta-feira pela conta no Twitter de Alessandro Loiola, um médico e ativista negacionista da pandemia, autor de um livro chamado Covid-19: a Fraudemia e que já teve diversas publicações em redes sociais desmentidas por agências de checagem. Sua conta é seguida por alguns membros do governo, como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o assessor especial da Presidência Tercio Arnaud Tomaz.

Bolsonaro, na sua live, parece ter lido o tuite original de Loiola – incluindo até mesmo os erros de tradução do texto original, como a substituição de "sonolência" por "vertigem" –, omitindo apenas as porcentagens.

Não é a primeira vez que Bolsonaro cita estudos duvidosos ou distorce de maneira grave dados para embasar suas ideias sem base científica sobre a pandemia. Em janeiro, por exemplo, o presidente divulgou no Twiter uma conclusão incorreta de um artigo publicado pela revista cientifica The American Journal of Medicine que comprovaria a eficácia da cloroquina contra a covid-19. No entanto, a publicação de janeiro era uma mera revisão de outro artigo, que havia saído em agosto. Tanto o artigo original quanto a revisão não afirmavam que a droga seria eficaz, apenas apresentavam argumentos a favor, sem qualquer estudo clínico. O próprio editor-chefe da revista esclareceu a questão afirmando publicamente que os dados estavam defasados.

A revista também informou à DW Brasil que pretende publicar em abril um artigo rebatendo as distorções promovidas pelo governo Bolsonaro.

Pouco depois da publicação do tuite de Bolsonaro, a rede sinalizou a publicação de Bolsonaro afirmando que ela havia violado as regras da rede sobre publicações enganosas e potencialmente prejudiciais.

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10
Fev21

A saga do juiz ladrão

Talis Andrade

Por Miguel Paiva /Jornalistas pela Democracia 

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A compulsão por roubar o acompanhava desde pequeno. Como não era bom em nada que fazia precisava aparecer de alguma maneira. Mentir era uma delas. Com isso ganhava até o respeito de alguns amiguinhos. No futebol, que ele não jogava nada, queria sempre ser o juiz. Conhecia as regras e fazia uso delas como lhe conviesse. Apitava jogo na escola, na rua e no clube. Antes tentava sacar qual o time mais disposto a vencer e oferecia uma ajuda discreta para confirmar a vitória. Como o pagamento pelo serviço também era discreto a turma aceitava. Os mais fortes então nem sentiam crise de consciência. Pelas probabilidades iriam vencer mesmo, dai, era só pagar um sorvete, uma coca ou um capilé mais generoso que a vitória estava garantida.  

Com isso foi fazendo sua fama. De tanto apitar acabou sacando um pouco das leis do futebol. Mas lei existe para ser transgredida e isso ele sabia fazer como ninguém. Um pênalti não marcado, um impedimento não visto, uma bola na mão salvadora era sempre motivo para discussão, mas ele era firme e data vênia, convencia a todos inclusive a quem tinha cometido a falta que não tinha sido. Esse era seu talento nato. A capacidade de convencer pessoas próximas ou não que ele era um verdadeiro paladino da justiça esportiva.

Dos campos de futebol passou para as tribunas. Se formou com um diploma meio que arranjado e sua tese de mestrado foi justamente sobre a honestidade. Dai, poucos anos depois, foi o doutorado que ele conseguiu e teve uma enorme repercussão sua tese sobre a corrupção. Nesta época os computadores já eram muito usados assim como o copia e cola em que ele se especializou. Quem percebeu fechou os olhos porque afinal, a corrupção precisava ser combatida mesmo com esse tipo de desonestidade.  

E por aí foi, galgando seus degraus de areia, até chegar ao posto ambicionado de juiz de primeira instância numa pequena capital do país.

Foi o suficiente para trocar seu guarda-roupa, casar e sonhar com o futuro. Aprendeu mal e porcamente a falar inglês, fez algumas viagens à Disney e a Washington e com alguns contatos bem articulados ganhou a atenção dos gringos. Pensou bem antes de oferecer a Petrobrás aos americanos. Afinal aquele antro de corrupção merecia uma administração mais voltada para a elite branca. Retornou ao Brasil uma das vezes com a missão de acabar com a concorrente tupiniquim ao petróleo norte-americano. Ninguém acreditava nessa história, nem quando ele começou a vestir camisa e grava pretas acharam que aquele gosto duvidoso tinha posição política. 

Mas era pouco. Ele precisava dar um golpe que chamasse a atenção dos brasileiros e do mundo.  E foi aí que ele decidiu pautar sua vida na perseguição a um ex-presidente de um governo popular de sucesso. Nada melhor para agradar aos gringos.

Continuou fraudando processos, quebrando regras da magistratura, se comportando sem o menor pudor jurídico diante da corte. O processo foi crescendo e apoiado em escutas ilegais, vazamentos programados, acordos internacionais de dar vergonha a qualquer jurista conseguiu levar o ex-presidente para a cadeia. Sua história, que já vinha com manchas anteriores de processos bancários mal julgados, agora explodia em sucesso nacional.  

Admiradores começaram a gritar seu nome, a imprensa o tratou como ídolo, venceu e recebeu prêmios, mas esqueceu de controlar sua vaidade e seu talento. Mesmo nos tempos de criança quando apitava as partidas de futebol se preocupava mais com quem estava assistindo ao jogo do que com a própria partida. Não resistiu à tentação. Conseguir tirar o ex-presidente do caminho e elegeu seu candidato ideal.  Virou ministro e sua incompetência só aumentou nessa experiência de poder. Tentou mudar a imagem, virar outra pessoa, mas estava tratando com uma matilha mais numerosa e raivosa que a sua.

Caiu em desuso, esquecimento e apesar da tentativa de fugir para a pátria-mãe seus áudios imorais e criminosos vazaram como o xixi vaza de uma criança amedrontada. Foi escorrendo pelas pernas e acabou alagando tudo em volta. O juiz ladrão de uma época acabou se afogando no seu próprio líquido derramado. Os que um dia cantaram em uníssono, numa espécie de monobloco equivocado, hoje disfarçam e mudam de assunto. Mas a história não perdoa quem um dia julgou e julgou roubando.

 

09
Fev21

Bolsonaro dispara mentira contra Debora Diniz e professora responde

Talis Andrade

DCM - Neste sábado (06), a ativista pelo aborto e professora da Universidade de Brasília (UnB) Débora Diniz, publicou em seu Twitter uma mensagem dizendo que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) compartilhou uma fake news sobre ela.

Débora pediu para ninguém tente protegê-la em “grupos bolsonaristas” depois de mais um absurdo do presidente.

“Presidente Bolsonaro publicou uma mentira contra mim. Por favor, não use seu tempo para me defender em grupos bolsonaristas. Foque na pandemia, pergunte das vacinas, insista no que importa para o país. Faça algo por mim: passe esta mensagem adiante. Fiz um print para facilitar”, disse.

A fake news espalhada por Bolsonaro foi que, supostamente, a professora teria acusado o presidente de perseguir pedófilos.

Talíria Petrone
A professora e pesquisadora é alvo de nova onda de desinformação. Precisamos derrotar o ódio que move a fábrica de fake news bolsonarista. Toda nossa solidariedade, Débora. Não passarão!
xico sá
A nova armação das redes bolsonaristas para insuflar o ódio contra Debora Diniz via brasil.elpais.com/brasil/2021-02 toda solidariedade a
26
Jan21

Bolsonaro não é só mentiroso, ele despreza a vida

Talis Andrade

Jair Bolsonaro tem a compulsão da mentira e a frieza da insensibilidade.

Hoje disse “já somos o sexto país que mais vacinou no mundo” e que “brevemente estaremos nos primeiros lugares, para dar mais conforto à população e segurança a todos, de modo que a nossa economia não deixe de funcionar”.

Além da mentira (porque somos apenas o 50° país em percentagem da população vacinada. como você vê na tabela interativa do site Our World in Data, aqui), há, mesta frase, crueldade.

Então a importância da vacina que pode impedir a morte de mais de mil brasileiros por dia é “que a nossa economia não deixe de funcionar”?

As quase 220 mil mortes, para ele, não são dramáticas, não emocionam, não precisam ser as últimas que vão ceifar pais, mães, irmãos, companheiros, mas apenas um prejuízo dos negócios?

Um homem assim não tem a menor condição de liderar um país, menos ainda numa situação de guerra sanitária como a que nos encontramos.

Os generais brasileiros estão tendo todos os avisos possíveis de que passaram a servir a um genocida, a um organizador de milícias fundamentalistas, a quem é desperdício pedir moderação e foco na saúde da população, pois tudo o que concede dizer – “lamento, mas fiz o que era possível” – é mero cinismo e hipocrisia.

Sangue frio, uma virtude, não é o mesmo que alma fria, uma abominação que retirar a humanidade do comando, para o qual a vida dos comandados é apenas um mero detalhe, desprezível, em seus objetivos.

 

22
Jan21

Bolsonaro não agradece oxigênio; xinga Maduro e mente

Talis Andrade

 (crédito: Divulgação/HUB)

por Fernando Brito

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A live presidencial das quintas-feiras, desta vez, só dedicou atenção à tragédia de Manaus para debochar grosseiramente do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que mandou quatro carretas com mais de 100 mil metros cúbicos para Manaus, destinado aos brasileiros que estavam morrendo sufocados .

Se o Maduro quiser dar oxigênio, carne [que] tá sobrando lá, mantimentos, ele é bem-vindo. Afinal de contas, nós recebemos, eu não sei o número certo, dezenas milhares de venezuelanos, fugindo para o Brasil. Depois, tomamos conhecimento que foi a White Martins, empresa sediada na Venezuela [quem fez a doação].

A checagem da Agência France Press, uma das mais respeitadas do mundo é taxativa ao afirmar que, segundo a própria White Martins, nada tem a ver com a empresa: ““Esta ação específica que está sendo divulgada na imprensa de que chegará oxigênio da Venezuela em Manaus […] não tem o envolvimento da White Martins”, disse a porta-voz da empresa, Daniela Melina.

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Nota deste correspondente: Bolsonaro é, realmente, um mito, mitomaníaco. Publica o Correio Braziliense: "Ao contrário do que o presidente disse, porém, o oxigênio recebido pelo Brasil não pertence à White Martins. "Esta ação específica que está sendo divulgada na imprensa de que chegará oxigênio da Venezuela em Manaus (...) não tem o envolvimento da White Martins", disse a porta-voz da empresa, Daniela Melina, na terça-feira (19/1). O governo de Manaus também confirmou que se trata de uma doação do país vizinho. "O oxigênio foi doado pelo governo do estado venezuelano de Bolívar. O governador de Bolívar, Justo Nogueira, foi quem entrou em contato com o governador Wilson Lima se colocando à disposição para doar", afirmou em nota. Manaus recebeu cinco caminhões com oxigênio doados pela Venezuela na terça-feira (19/1), depois que o país anunciou que ajudaria o Brasil a suprir a falta do insumo no Amazonas".

Disse Bolsonaro: "Lá eles não têm cachorros, por que? Alguma praga? Comeram todos os cachorros, comeram todos os gatos. E aí vêm uns idiotas elogiando: olha o Maduro, que coração grande!", acrescentou.

Informa Boatos.org /Metrópoles: "Em resumo: a história que diz que o oxigênio doado pela Venezuela à Manaus (AM), na verdade, foi doado pela empresa White Martins é falsa! A doação de mais de 100 mil m³ de oxigênio, de fato, foi fornecido pelo governo venezuelano. Ou seja, a história (contada por Bolsonaro) não passa de balela". 

Publica O Estado de Minas: "Em 14 de janeiro, o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, informou que “por instrução do presidente Nicolás Maduro” havia oferecido ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), o “oxigênio necessário”para atender à emergência de saúde em Manaus. Dois dias depois, anunciou que os primeiros caminhões com litros de oxigênio estavam saindo da fábrica da siderúrgica estatal Sidor, localizada no estado venezuelano de Bolívar, a caminho de Manaus. No dia 17 de janeiro, o próprio governo do Amazonas comunicou que estava previsto para chegar a Manaus, no dia seguinte, “107 mil m³ de oxigênio doados pelo governo do estado venezuelano de Bolívar”. Enquanto o ministro Eduardo Pazuello voava para Manaus com o kit tramento precoce, o governo venezuelano oferecia o oxigênio, para os brasileiros que morriam asfixiados. 

Bolsonaro é mentiroso. Publica Aosfatos org: "Publicações nas redes sociais (veja aqui) falseiam ao alegar que a Venezuela não doou oxigênio hospitalar ao Brasil, como anunciou o governo de Nicolás Maduro na semana passada. O oxigênio doado pelo governo da Venezuela vem de uma fábrica da estatal SIDOR (Siderúrgica del Orinoco Alfredo Maneiro) em Puerto Ordaz, no Estado de Bolívar. A planta fica a 1.500 km de Manaus, e imagens dos caminhões a 300 km da fronteira com o Brasil foram divulgadas neste domingo (17), pelo Opera Mundi. O comboio cruzou a fronteira com o Brasil na tarde desta segunda-feira, com 132 mil metros cúbicos de oxigênio, informou o G1. Além disso, as informações sobre o envio da ajuda humanitária foram constantemente atualizadas pelo perfil do Consulado da Venezuela em Manaus, no Twitter, nos últimos dias."

 
01
Jan21

Moro já mentiu tanto que ninguém deve acreditar que ele não receberá pagamentos da Odebrecht

Talis Andrade

Sem provas, perseguição a Lula tem objetivo político — PT no Senado

O ex-juiz faturou politicamente com a Lava Jato ao se tornar ministro do governo de extrema direita. Agora, é mais que razoável suspeitar que irá ganhar dinheiro de empresas cujos executivos condenou

 

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MESMO COM TANTAS possibilidades de conseguir um bom trabalho na iniciativa privada, Sergio Moro decidiu virar sócio-diretor da Alvarez & Marsal, uma consultoria americana que presta serviços no Brasil para as empreiteiras Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Sete Brasil. Todas essas empresas foram arrasadas financeiramente por decisões do ex-juiz da Lava Jato. Agora, como se fosse a coisa mais normal do mundo, Sergio Moro pula para o outro lado do balcão para atuar como um empresário que ajudará empresas que ele ajudou a quebrar com sua atuação nos tribunais.

Enquanto juiz, Moro não se preocupou em poupar a engenharia nacional e os empregos do setor. Mas aliviou a barra dos empresários com generosas delações premiadas. A Odebrecht foi atropelada pelas decisões do ex-juiz, que agora é sócio-diretor da empresa que comanda a recuperação judicial da construtora. A nova empresa de Moro já faturou R$ 17,6 milhões com esse serviço prestado para a Odebrecht. O mesmo acontece com a OAS, que pagará R$ 15 milhões no total para a empresa americana. Outras empresas como Queiroz Galvão e Sete Brasil, também devassadas pela Lava Jato, contrataram a consultoria para se reestruturarem financeiramente. Ou seja, o agora empresário Sergio Moro vai faturar alto com a desgraça financeira de construtoras que foram atingidas pela caneta do ex-juiz Sergio Moro.

Como observou Reinaldo Azevedo, um dos raros jornalistas da grande imprensa sem rabo preso com o lavajatismo, em 2017 a defesa de Lula apresentou ao então juiz dois documentos que atestavam que o triplex não pertencia a Lula, mas à OAS. Essas certificações foram produzidas pela Alvarez & Marsal. Moro ignorou essas informações produzidas pela empresa da qual hoje, três anos depois, ele virou sócio.

O fato é que as sentenças do então juiz impuseram graves impactos políticos e econômicos ao país, mas não para ele em particular. Pelo contrário, Moro agora vai faturar com esses impactos. Politicamente já faturou ao se tornar ministro da Justiça e, agora, faturará economicamente.

O repórter Rafael Neves, aqui do Intercept, foi atrás da Alvarez & Marsal para perguntar sobre a remuneração do ex-juiz da Lava Jato. Nos disseram que “Moro não terá nenhum benefício financeiro, direto ou indireto, sobre projetos de outros setores da consultoria”. Mas nós só vamos acreditar nisso se olharmos o contrato de Moro com a empresa. Pedimos uma cópia. A resposta: “Por se tratar de documento particular, firmado entre empresa privada e pessoa física em esfera privada, a divulgação de palavra por palavra escrita nas cláusulas do contrato fere o direito à privacidade das informações de ambas as partes”. Conveniente, não? Neves fez o mesmo pedido a Moro, que já disse acreditar no valor da transparência. O ex-ministro fez que não era com ele. E aí? Então quer dizer que o novo sócio-diretor da Alvarez & Marsal não vai atuar nos casos mais lucrativos da empresa? Não vai colocar à disposição todo seu conhecimento adquirido no serviço público em casos de interesse da empresa? Qual é a garantia disso? A palavra de Moro? Aquela que jurou jamais entrar na política pouco tempo antes de virar ministro da Justiça do governo Bolsonaro?

Me parece óbvio que, no período em que atuou como juiz da Lava Jato, Moro teve acesso a documentos e provas envolvendo os réus que agora são seus clientes.

O Intercept já mostrou que ele mentiu sobre não ter estratégia de investigação na Lava Jato – esta reportagem deixou claro que ele coordenava e orientava o trabalho do Ministério Público, e esta outra, o da Polícia Federal.

Moro também mentiu quando disse, várias vezes, que não entraria para a política. Não só entrou como já fazia política quando ainda era juiz, inclusive se encontrando em segredo com um pré-candidato à presidência em 2018. Assim, a palavra dele – e de seu empregador – sobre sua remuneração não valem nada.

E a recusa em entregar o contrato ou mostrar a cláusula em que está expresso que ele não será remunerado pelos contratos da Alvarez & Marsal com Odebrecht, OAS, Sete Brasil e Queiroz Galvão só levanta a suspeita de que ele e a empregadora estão mentindo.

Muitos desses documentos ainda estão sob sigilo e podem resultar em novas investigações. O novo sócio-diretor da empresa, trazido a peso de ouro, não usará essas informações privilegiadas em benefício dos seus clientes? Estamos diante de, no mínimo, um flagrante caso de falta de ética. A imoralidade está dada, resta saber agora se há ilegalidades.

O Tribunal de Ética da OAB-SP parece não ter acreditado na conversa de Moro e o notificou para que não exerça advocacia na sua atual empresa de consultoria. O deputado petista Paulo Teixeira pediu à Procuradoria-Geral da República que investigue a possibilidade de crime de corrupção passiva na contratação do ex-juiz.

Se por enquanto não há nada que indique uma ilegalidade, a imoralidade é flagrante e inegável’.

A nova empresa de Moro não tem as melhores credenciais éticas do mercado. Segundo Diogo Schelp, outro raro jornalista da mídia corporativa a dar o peso devido ao caso, os consultores da Alvarez & Marsal são conhecidos no mercado pelas técnicas de vale-tudo com que buscam atingir seus objetivos. Atuar no limite da legalidade, mas não da moralidade, é uma cultura da empresa. Para o jornalista, a empresa “age dentro das regras legais, mas com muito dedo no olho, puxão de cabelo e golpes pelas costas”. Esse é o perfil dos novos colegas de trabalho do homem alçado à condição de paladino da moralidade da nação.

Um exemplo de imoralidade da Alvarez & Marsal foi a estratégia elaborada por ela para a recuperação judicial da Editora Abril. Um mês após ter contratado a consultoria para fazer uma reestruturação operacional, a editora promoveu uma demissão em massa. Mais de 800 funcionários foram para rua. Dez dias depois, a Editora Abril entrou com pedido de recuperação judicial. Isso foi feito estrategicamente antes do término do prazo para pagar as indenizações trabalhistas.

A estratégia da consultoria americana foi um sucesso: demitiu em massa e depois deu calote em massa nos demitidos — tudo dentro da lei. Segundo Schelp, que também foi uma das vítimas do calote, “executivos e diretores de redação eram recebidos com escárnio e arrogância pelos representantes da consultoria, que comemoravam abrindo garrafas de espumante quando alguém pedia demissão ou quando uma das etapas do seu plano para espremer os centavos dos funcionários demitidos era cumprida conforme o previsto”. Se levarmos em contas as credenciais éticas do então juiz Moro, que “sempre violou o sistema acusatório”, podemos dizer com tranquilidade que ele se sentirá confortável nesse novo trampo.

Era para ser um escândalo de grandes proporções, afinal de contas, o herói do combate à corrupção do país abandonou a toga para faturar alto em uma consultoria cujos principais clientes foram seus réus. Mas, para o espanto de ninguém, o lavajatismo que assola a grande imprensa fez o assunto passar apenas de forma lateral no noticiário, quase sempre de maneira acrítica. Se por enquanto não há nada que indique uma ilegalidade, a imoralidade é flagrante e inegável. Isso deveria ser o suficiente para indignar os sempre indignados colunistões da Globo, mas não.

Houve os que silenciaram e os que trataram o caso como se fosse algo corriqueiro. A irrelevância dada ao episódio é tanta que nem parece que estamos falando de alguém que colocou um ex-presidente na cadeia ignorando a Constituição, foi ministro da Justiça e é um potencial candidato à presidência da República.Pataxó - charges e caricaturas: Abril 2020

Há quem acredite que a entrada de Moro na iniciativa privada enterrou de vez a possibilidade dele vir ser candidato em 2022. Eu não a descartaria tão cedo. Pelo histórico do juiz, a possibilidade dele enriquecer por um ano na iniciativa privada e de repente surgir como candidato são enormes. Moro troca de lado no balcão como quem troca de cuecas. E, mais uma vez, ele contará com a benevolência do grosso da grande mídia para escamotear seus absurdos.

Colaborou Rafael Neves.

 

 

01
Jan21

Vaza Jato prova que Lava Jato/PR desacata STF

Talis Andrade

por Marcelo Auler

A autorização para a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acessar as mensagens do Telegram hackeadas do celular do procurador da República Deltan Dallagnol, ou seja, os arquivos da chamada Vaza Jato, independentemente de qualquer outro juízo a ser feito, mostra o desrespeito às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do país, pela Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba. Incluindo aí o juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pelas condenações – sem provas – do ex-presidente.

A decisão do ministro Ricardo Lewandowski no bojo da Reclamação (Rcl) 43007/PR foi exarada porque outras decisões da corte, inclusive dele próprio, deixaram de ser cumpridas pelo juízo de Curitiba. Além de não as cumpri-las, juízo e procuradores da República ligados ao que se denominou República de Curitiba, passaram ao Supremo informações mentirosas. Ou, no linguajar da defesa do ex-presidente, “informações desprovida de qualquer plausibilidade”, “absolutamente mendazes”.

Apesar das ordens do STF, a Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba vem impedindo o acesso dos advogados de Lula à totalidade dos autos do Acordo de Leniência (Processo n.º 5020175- 34.2017.4.04.7000/PR) que a construtora Odebrecht firmou com o Ministério Público Federal de Curitiba, em 2016. O descumprimento por parte do juízo de Curitiba ao que determinou a Segunda Turma do STF em agosto passado, assim como a gravidade do que isso representa, é reconhecido pelo próprio Lewandowski. Tal como ele fez constar em decisão assinada em 24 de novembro, rejeitando um pedido da Procuradoria Geral da República (PGR) de reconsideração das decisões tomadas na Reclamação.

Não deixa de causar espécie – considerado o elevado discernimento intelectual e preparo técnico que o exercício de funções judicantes e ministeriais pressupõe – o ostensivo descumprimento de determinações claras e diretas emanadas da mais alta Corte de Justiça do País, por parte de autoridades que ocupam tais cargos em instâncias inferiores. Esse fato reveste-se da maior gravidade, quando mais não seja porque coloca em risco as próprias bases sobre as quais se assenta o Estado Democrático de Direito.”Para Além do Cérebro: Lawfare, o uso parcializado do judiciário em prol da  Elite - uma introdução ao tema, por Alysson Leandro Mascaro

Os pedidos de acesso ao acordo da Odebrecht começaram a ser feitos há três anos, em 2017, junto ao juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba, ou seja, quando Sérgio Moro ainda era o juiz titular. No Supremo Tribunal ele tramita desde 26 de fevereiro de 2019. Como destacou Lewandowski em sua decisão de novembro, “mesmo tendo sido exaradas, em duas oportunidades, uma na Rcl. 33.543/PR e outra na Rcl. 43.007/PR, determinações inequívocas para que fossem disponibilizados ao reclamante os elementos de prova de seu interesse já coligidos, elas ainda não foram integralmente cumpridas, inobstante ter esta Suprema Corte enfatizado que a acusação tem o dever de agir com transparência, boa-fé e lealdade processual em relação ao reclamante“.   Tivessem sido atendidas tais determinações, hoje não seria preciso recorrer aos arquivos da Vaza Jato. [Continua]Informações reveladas provam o “lawfare” como arma política no Brasil (Por  Carol Proner e Juliana Neuenschwander*) | Luíz Müller Blog

 

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