Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

10
Jun22

Região onde repórter e servidor desapareceram sofre violência crescente e foi abandonada pelo governo, diz ex-chefe da Funai

Talis Andrade

Image

 

 

  • por João Fellet /BBC News

O desaparecimento do servidor da Funai Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips enquanto viajavam pelo Vale do Javari, no Amazonas, "expõe o total abandono que servidores e indígenas" experimentam na região, diz à BBC o ex-servidor da Funai Antenor Vaz, que já foi o chefe do órgão no Vale do Javari.

Pereira e Phillips desapareceram quando se deslocavam de barco pelo rio Itaquaí após uma visita aos limites da Terra Indígena Vale do Javari.

desaparecidos.jpg

O território, segundo Vaz, tem sofrido com invasões crescentes de caçadores, pescadores, madeireiros e garimpeiros.

Ultimamente, diz o ex-servidor da Funai, também tem crescido a ação de narcotraficantes na terra indígena, que fica na fronteira com o Peru e a Colômbia.

"O tráfico de cocaína, especialmente vinda do lado peruano, é muito grande", diz Vaz, hoje consultor internacional de políticas para povos indígenas isolados.

Pereira estava de licença da Funai após ser exonerado da chefia da Coordenação geral de Índios Isolados e Recém Contatados, em 2019.

Ele foi retirado do cargo após coordenar uma operação que expulsou centenas de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Na ocasião, agentes destruíram equipamentos dos garimpeiros e apreenderam um helicóptero.

Segundo Vaz, após sair de licença, Pereira vinha trabalhando como assessor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), principal organização do território indígena.

Vaz diz que o servidor acompanhava Phillips na viagem para ajudá-lo na realização de uma reportagem sobre as invasões à Terra Indígena Vale do Javari.

"(Pereira) É indiscutivelmente uma pessoa aliada, comprometida com a defesa dos direitos dos povos indígenas", diz o ex-servidor da Funai.

Após o desaparecimento da dupla, a própria Funai afirmou que Pereira "não estava na região em missão institucional, dado que se encontra de licença para tratar de interesses particulares".

Colegas afirmam que Pereira, um dos mais destacados indigenistas de sua geração, pediu licença da Funai para que pudesse continuar agindo em prol de indígenas num momento em que a fundação restringia drasticamente sua atuação em defesa das populações.

No governo Jair Bolsonaro, a Funai teve grandes cortes no orçamento e passou a endossar propostas do presidente que sofrem grande oposição entre indígenas, como a liberação do garimpo nesses territórios e a agricultura mecanizada em larga escala.

Segundo Antenor Vaz, a "omissão da Funai" no Vale do Javari nos últimos anos fez com que os indígenas assumissem a defesa do território e se expusessem ao risco de confrontos com invasores.

"Não tem qualquer cobertura da instituição", afirma.

Vaz cobrou as autoridades federais a iniciar buscas na região o quanto antes e a convidar indígenas para integrá-las, pois esses são os maiores conhecedores dos rios locais.

O ex-servidor diz que é pouco provável que o barco da dupla tenha naufragado. Isso porque, segundo ele, havia na embarcação vários galões vazios, que teriam flutuado com o naufrágio e, ao descer o rio, seriam visualizados pelas comunidades vizinhas.

A BBC expôs as críticas de Vaz à Funai.

Em resposta, em nota na qual não cita suas operações no Vale do Javari, a Funai afirma que seu investimento em ações de proteção a indígenas isolados e de recente contato chegou a R$ 51,4 milhões entre 2019 e 2021. "Os valores superam em 335% o total investido entre os anos de 2016 e 2018", diz a Funai, que afirma ter usado os recursos "principalmente em ações de fiscalização territorial e combate à covid-19 em áreas habitadas por essas populações".

"A Funai promove ações permanentes de vigilância, fiscalização e monitoramento de áreas onde vivem indígenas isolados e de recente contato por meio de suas 11 Frentes de Proteção Etnoambiental (FPE), descentralizadas em 29 Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes), que são estruturas localizadas estrategicamente em Terras Indígenas da região da Amazônia Legal", diz o órgão.

"As Bapes funcionam em escala ininterrupta e são responsáveis por diversos trabalhos que ocorrem de forma contínua, como controle de ingresso nas áreas indígenas; ações de localização e monitoramento de grupos isolados e de recente contato; e atividades de fiscalização e vigilância territorial junto a órgãos ambientais e de segurança pública competentes", prossegue a nota da Funai.

 

Crescimento da violência

 

A Terra Indígena Vale do Javari tem vivenciado um crescimento da violência desde 2019.

Em 2019, o colaborador da Funai Maxciel dos Santos Pereira foi assassinado em Tabatinga após participar de uma operação que apreendeu grande quantidade de caça e pesca ilegal no território.

funai servidor assassinado.jpg

Também naquele ano, uma base da Funai que controla um dos acessos à terra indígena foi alvo de vários ataques a tiros atribuídos a caçadores e pescadores ilegais.

Na época, uma reportagem da BBC relatou que servidores e colaboradores haviam ameaçado parar de trabalhar por conta da falta de segurança.www.brasil247.com - { imgCaption }}


Quem são os wajãpi, guardiões de terra cobiçada por garimpeiros ilegais e mineradoras



Águas de 'Caribe amazônico' ficam turvas em meio a alta no garimpo no Pará\



Governo inicia megaexpedição para se aproximar de índios isolados no Amazonas


O Globo

Correio Braziliense

09
Jun22

Morte de trabalhador da Funai no Vale do Javari segue impune após 3 anos

Talis Andrade

funai servidor assassinado.jpg

Maxciel fazia fiscalização e vigilância da terra indígena

 

  • por Letícia Mori /BBC News

- - -

O trabalhador da Funai (Fundação Nacional do Índio) Maxciel Pereira dos Santos, que atuava em defesa dos indígenas da Terra Indígena do Vale do Javari, na Amazônia, foi morto em 2019 na mesma região onde o jornalista britânico Dom Phillips e o servidor Bruno Araújo Pereira desapareceram no domingo (5/6).

Após a morte de Maxciel, com dois tiros na nuca, a Polícia Federal do Amazonas abriu um inquérito para apurar o crime, mas até hoje — 3 anos depois — a investigação não foi concluída e nenhum suspeito foi indiciado.

A Polícia Federal do Amazonas não respondeu os questionamentos da BBC News Brasil sobre o caso.

 

Morto em frente à esposa

 

Maxciel Pereira dos Santos não era concursado, mas trabalhou na Funai por 12 anos no Amazonas como colaborador. Quando foi atacado, trabalhava na coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental nas operações de combate ao garimpo, à exploração ilegal de madeira, à caça e à pesca ilegais.

Ele tinha 34 anos e morava no município de Atalaia do Norte (AM).

Segundo informações da Polícia Militar divulgadas na época, ele foi morto com dois tiros na nuca quando andava de moto com a esposa e a enteada na cidade de Tabatinga (AM). As duas sobreviveram à queda da moto, mas Maxciel, ferido à bala, morreu no local.

Ele havia recebido diversas ameaças de morte nos dias que antecederam o crime. Segundo informações da Funai à época, a principal base da Funai onde ele trabalhava se chamava Ituí-Itacoaí e funcionava em uma balsa.

Quando o homicídio aconteceu, a base já havia sido atacada 4 vezes desde 2018. A 40 km de Atalaia do Norte, a base tem como principal objetivo impedir a entrada de invasores na Terra Indígena.

À epoca, indígenas da região relataram que invasores fizeram novas ameaças após o assassinato de Maxciel, dizendo que "mais mortes poderiam acontecer".

 

Vidas ameaçadas

 

Demarcada em 2001, a Terra Indígena Vale do Javari tem a presença dos povos Marubo, Kanamary, Kulina, Tsonhom Djapa, Matis e Mayoruna/Matsés, segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

Além disso, o território tem a presença de outros 19 povos isolados — é considerada a área com maior presença de povos isolados do mundo — e cerca de 6,3 mil indígenas no total.

A terra indígena sofre fortes pressões de invasores, situação que vinha piorando nos últimos, segundo declaração de funcionários da Funai e indígenas.

O próprio Bruno Araújo Pereira — que desapareceu nesta semana — disse no ano passado que "antigamente não era assim".

"Os invasores tinham medo dos índios e, especialmente, da Funai. Agora eles parecem se sentir mais à vontade, por conta da postura permissiva do poder público", afirmou Pereira em 2021

desaparecidos.jpg

Bruno Arújo (à esq.) e Dom Phillips estão desaparecidos desde o dia 05/06

 

À época da morte de Maxciel, o coordenador da Associação Kanamary do Vale do Javari, Adelson Korá Kanamary, disse que seu maior medo era que as "mortes se tornassem corriqueiras na região".

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub