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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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12
Jul21

Como Davati negociou vacinas Brasil afora sem aval de fabricantes

Talis Andrade

Empresa representada pelo PM Luiz Dominguetti quis vender vacinas para  prefeituras de Minas | Minas Gerais | G1

 

  • Juliana Gragnani & Matheus Magenta /BBC News

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"Vamos correr com isso para que possamos salvar as vidas das pessoas que precisam ser vacinadas", escreve um "vendedor" de vacinas a um gestor municipal de Londrina, no sul do Brasil, tentando convencê-lo a fechar o negócio. Ele é um dos vários vendedores de vacinas que se diziam representantes da Davati, a empresa com sede nos Estados Unidos que ofereceu imunizantes contra a covid-19 ao governo federal.

Cidades e Estados brasileiros receberam ofertas de milhares de doses de vacina de supostos representantes da empresa - a BBC News Brasil encontrou ao menos mais três, além de Luiz Paulo Dominghetti Pereira, que depôs na CPI da Covid na semana passada. O problema? A Davati nunca teve acesso a imunizantes.A armação do outro cabo - O CORRESPONDENTE

Luiz Paulo Dominguetti Pereira

 

Antes de obter as vacinas, os supostos vendedores buscavam acumular cartas de intenção de compra de governos. À BBC News Brasil a secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais, a secretaria municipal de Gestão Pública de Londrina, no Paraná, e o Consórcio Paraná Saúde, que gerencia a compra de medicamentos para 398 municípios do Estado, disseram ter recebido ofertas de vacinas de supostos representantes da Davati.

Mas a própria empresa emitiu nota dizendo não deter "posse das vacinas". No caso do Ministério da Saúde, diz que a documentação mostra que ela atuou "na aproximação entre o governo federal e um allocation holder, empresa que possuía créditos de vacinas junto ao laboratório AstraZeneca".

A AstraZeneca diz que não disponibiliza a vacina por meio de intermediários. E o Brasil já tinha acordo com a AstraZeneca por meio da Fiocruz, que produz as vacinas ou importa doses prontas do Instituto Serum, na Índia.

Em nota, a Davati disse que "não é representante do laboratório AstraZeneca e jamais se apresentou como tal" (leia mais no fim dessa reportagem).

A suposta negociação do governo brasileiro com a Davati veio à tona há duas semanas, quando Dominghetti, suposto representante da empresa, disse ao jornal Folha de S.Paulo que funcionários do Ministério da Saúde cobraram propina de US$ 1 (R$ 5,26) por dose para fechar o contrato.

O diretor exonerado do departamento de logística do Ministério da Saúde que teria cobrado a propina, Roberto Ferreira Dias, negou na CPI da Covid nesta semana que tivesse pedido propina e disse que não levou adiante a oferta da Davati porque Dominghetti não apresentou documentos comprovando que a empresa tinha vacinas para entregar.Ex-diretor do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias é solto após pagar  fiança | Rádio BandNews FM

Roberto Ferreira Dias

 

A Davati também diz que nunca tomou conhecimento da alegação de pedido de propina e que Dominghetti não tinha poder para negociar em nome da empresa.

Vendas

Supostos representantes da Davati abordaram o governo federal duas vezes. A primeira, por meio de Dominghetti. A segunda, três semanas depois, no dia 9 de março, pelo advogado Julio Caron, segundo e-mails disponibilizados pelo Ministério da Saúde em resposta a um pedido via Lei de Acesso à Informação.

O advogado ofereceu, por e-mail, 300 milhões de doses ao governo federal, apresentando a Davati como "distribuidor autorizado da AstraZeneca". Seu e-mail foi encaminhado a outras instâncias do ministério com prioridade "alta".

À BBC News Brasil, Caron diz que também ofereceu vacinas para vários Estados interessados, sem especificar quais.

Mas a Davati diz que só um representante estava "credenciado" para "facilitar a oferta de vacinas contra a covid-19": Cristiano Alberto Carvalho, que "detinha poderes limitados". Caron teria apenas "se oferecido para atuar como representante da empresa no Brasil", mas a empresa "retornou que já possuía representantes no país", segundo nota da Davati.

Segundo o jornal O Globo, uma análise do Ministério da Saúde concluiu que a oferta não teria sido procedente, "uma vez que a própria AstraZeneca informa que apenas realiza negociação de ofertas de vacina diretamente com os governos".

Procurado por e-mail pela BBC News Brasil para comentar as supostas negociações com a Davati desde sexta (2/7), o Ministério da Saúde não respondeu até a conclusão desta reportagem.

Outras ofertas de vacinas foram feitas por "vendedores" diferentes, que às vezes nem sabiam da existência um do outro.

Uma das entidades procuradas foi o Consórcio Paraná Saúde, por Paulo Ignácio Uhlmann, conhecido como Paulinho Uhlmann em sua cidade natal, Taió, Santa Catarina, onde já foi vereador pelo PR. Hoje, tem uma empresa de importação de produtos da China chamada Factoall.

É por ter experiência com importação, diz ele, que foi procurado por Caron para prospectar e verificar interessados no sul do país. Se o negócio fosse fechado, ganharia "30 e poucos centavos por dose". Caron confirma que o acordo com Uhlmann era que, caso conseguissem fechar alguma venda, ele teria parte de sua comissão.

"Esse pessoal me ofereceu representação para fazer processo de importação. Nossa intenção era buscar clientes", diz Uhlmann. "Nosso trabalho era ter juntado as LOIs e repassado para eles."

LOI, termo usado também por Dominguetti na CPI, significa Letter Of Intent, ou Carta de Intenção de Compra.

"Posso ser bem sincero? Desde o início, para falar a verdade, a gente pouco acredita nesse tipo de negócio. Mas assim, tratando-se da vacina, que era uma solução, e não havia dinheiro antecipado… Nosso trabalho era angariar quem tinha intenção de compra. Eu não estava fazendo nada de errado. Só fiz uma busca para eles."

O Consórcio Paraná Saúde chegou a enviar uma carta de intenção de compra expressando interesse em 2 milhões de doses. Mas "nenhuma tratativa avançou, tampouco houve qualquer formalização de compra de vacinas por parte do Consórcio Paraná Saúde, inclusive com a informação da inviabilidade de entrega", diz o consórcio. Ao receber um e-mail da Davati, consultaram o site da AstraZeneca, confirmando que o laboratório não usava intermediários.

A cidade de Londrina, no Paraná, também foi procurada, mas por outro "vendedor".

"Não apresentaram nenhuma informação crível. Não havia o mínimo de formalidade para prosseguir com uma negociação", diz o secretário municipal de gestão pública da cidade, Fabio Cavazotti. "Como gestor de compras, via ali todos os elementos para desconfiança."

Um homem que se apresentou como representante da Davati mandou mensagens insistindo no acordo. "Nosso intuito principal é tentar salvar esse pessoal todo de Londrina", disse, em um áudio de WhatsApp. "Quem não aproveitar a chance que estamos oferecendo ficarão (sic) sem vacinas e serão (sic) responsáveis por omissão, quando a oportunidade em adquirir chegou até suas mãos", escreveu, em determinado momento.

O vendedor ofereceu vacinas da Janssen e da Sinovac. Tanto a Janssen quanto o Instituto Butantan, que tem acordo com a Sinovac, dizem só fornecer vacinas ao Ministério da Saúde. Cavazotti pediu diversas vezes documentos que comprovassem que ele tinha autorização para negociar em nome das empresas, mas recebeu apenas um documento mostrando que Cristiano Alberto Carvalho era representante oficial da Davati no Brasil.

O vendedor pediu que o secretário preenchesse um documento em anexo se tivesse interesse em comprar vacinas para Londrina e que então, só depois, ele poderia solicitar todos os documentos necessários.

O documento enviado era um modelo que servia para diferentes municípios. "Município de NNONONONNO - SP, 27 de abril de 2021", dizia a primeira linha. "Ao Senhor Cristiano Carvalho, Representante da DAVATI MEDICAL SUPLY no Brasil. ASSUNTO: Interesse na Aquisição da Vacina Jansen. Caro Senhor, Nós do Governo do Município de NONONONONNON, pessoa jurídica de direito público interno, inscrito no CNPJ 00.000.000/0001-22, abaixo assinado manifestamos nosso interesse na aquisição de 50 mil doses da Vacina Jansen. Para tanto solicitamos, o envio de PROPOSTA COMERCIAL FORMAL com as condições para o fornecimento da Vacina Jansen."

Cavazotti não preencheu nada e parou de responder às mensagens.

A BBC News Brasil tentou contato com o vendedor por ligações de telefone e mensagens no WhatsApp, mas não recebeu resposta.

A Secretaria de Planejamento e Gestão de Minas Gerais também confirmou que foi procurada pela Davati no dia 12 de abril. A secretaria diz que o representante que a procurou foi Cristiano Carvalho - o único, segundo a Davati, credenciado para representar a empresa no país.

A pasta manifestou seu interesse por 20 milhões de doses, emitindo uma LOI e uma LOA (carta de autorização), mas, ao solicitar documentação de habilitação técnica e jurídica - incluindo a comprovação de que a empresa citada representava a indústria — a secretaria diz nunca ter recebido os documentos. A proposta não foi pra frente. Carvalho confirma as tratativas com Minas Gerais.

Davati

A Davati Medical Supply LCC, que negociou com o governo brasileiro, foi criada na metade de 2020. Está registrada no mesmo endereço da Davati Building Products, uma empresa de produtos de construção civil, e da incorporadora Impact Developers, em Austin, no estado americano do Texas.

"Para auxiliar com a crise sanitária global, passou a atuar como facilitadora entre governos e instituições e detentores de cotas de vacinas de Covid e distribuidores autorizados em todo o mundo, com representantes em diferentes países. No Brasil, a empresa atua por meio de representantes e não possui diretores ou sócios locais", disse a Davati, em nota.

Uma reportagem de 2014 descreve Cardenas como um "empreendedor" que vendeu suas "empresas de tecnologia" nos anos 2000 e que, com sua incorporadora, queria disponibilizar casas com preços acessíveis para compradores de primeira vez. Em seu Linkedin, Cardenas se descreve como "visionário, pioneiro e empreendedor em série com paixão por construção e tecnologia" que fundou diversos negócios durante sua carreira. A BBC Brasil entrou em contato com Cardenas por e-mail, mas não obteve resposta.

A Davati Medical Supply LCC virou notícia pela primeira vez neste ano quando ofereceu seis milhões de doses de vacina da AstraZeneca, também por US$ 3,50 cada, a uma nação indígena do Canadá, segundo a imprensa local.

Em nota à BBC News Brasil, os Serviços Indígenas do Canadá (ISC) disseram ter recebido uma solicitação da Federação das Nações Indígenas Soberanas e da nação indígena James Smith Cree em 3 e 17 de fevereiro com relação à compra de vacinas AstraZeneca. Os fabricantes de vacinas confirmaram que essas ofertas não eram legítimas. "Dadas as sérias preocupações com relação à legitimidade dessas ofertas, o ISC procurou a autoridade apropriada."

O negócio nunca aconteceu. Em nota, a Davati diz que apresentou "todos os documentos necessários ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos à Polícia Federal do Canadá e não foi encontrado nenhuma inconsistência ou acusação com relação à atuação da empresa".

Na época, Cardenas disse à rede canadense CBC que uma fonte "muito confiável" poderia potencialmente colocá-lo em contato com vacinas da AstraZeneca. "Não somos um distribuidor da AstraZeneca. Temos acesso a pessoas que são e estamos testando esse canal para termos certeza de que podem entregar", afirmou.

 

02
Abr21

Um terço das mortes no mundo: 3 gráficos fundamentais para entender a pandemia no Brasil

Talis Andrade

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  • por Matheus Magenta /BBC News

De todo modo, é possível afirmar hoje que o Brasil concentra um terço das mortes diárias por covid no mundo, mesmo com 3% da população mundial. Além disso, morreu mais gente em março no Brasil do que na pandemia inteira em 109 países, que soma 1,6 bilhão de habitantes.

Além disso, dados oficiais de hospitais brasileiros apontam que o número de mortes por covid-19 já pode ter passado de 443 mil, quase 120 mil a mais que as estatísticas divulgadas pelo governo Bolsonaro. A mesma estimativa aponta que morrem cerca de 4.000 pessoas por dia no país.

A BBC News Brasil apresenta abaixo três gráficos para ajudar a entender a situação do Brasil e como ela se compara a outros países. Mortes diárias, mortes ao longo da pandemia inteira, velocidade da vacinação e quando o Brasil deve chegar a 500 mil mortes por covid.

1. Hoje, Brasil tem 3% da população mundial e 33% das mortes por dia no mundo

A população mundial soma quase 7,8 bilhões de pessoas. Em 31 de março de 2021, foram registradas 11.769 mortes por covid em todos os países do mundo juntos.

O Brasil, com 212 milhões de habitantes, representa 2,7% do total da população. Em 31 de março de 2021, morreram 3.869 pessoas por covid.

mortes no brasil e mundo.png

Ou seja, a cada 100 pessoas no mundo, 3 são brasileiras. E de cada 100 mortes diárias no mundo, 33 ocorrem no Brasil.

2. Covid matou mais em março no Brasil do que na pandemia inteira em 109 países juntos

E se o tamanho da população entrar na conta, o Brasil será o 17º em pior situação, atrás de países como Estados Unidos, Itália, Portugal, Reino Unido, Espanha e México.

Então, seguem abaixo duas comparações levando em conta o tamanho da população e a situação atual do país.

morre mais no brasil.png

A. Em março, morreram mais pessoas de covid-19 no Brasil do que em 109 países juntos durante a pandemia inteira. Foram 66.573 mortos no Brasil, país de 212 milhões de habitantes. Em 109 países, que somam 1,6 bilhão de habitantes, foram 64.571 mortes ao longo de 12 meses.

Esse grupo de países inclui 36 países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto que o do Brasil e 26 com mais de 20 milhões de habitantes. Entre estes estão Coreia do Sul, Austrália, Malásia, Nigéria, Gana, Angola e Vietnã.

B. Na comparação da taxa atual de mortes a cada 1 milhão de habitantes, o Brasil tem a sexta pior situação do mundo, atrás apenas de Hungria, Bósnia e Herzegovina, Seychelles, República Tcheca e Bulgária. Todos têm menos de 11 milhões de habitantes.

3. Brasil ocupa 18ª posição em ranking de vacinação

Há diversas formas de comparar o ritmo de vacinação entre os países. Em números totais, o Brasil estaria na quinta posição, com 18 milhões de doses distribuídas. Mas, como mencionado acima, mesmo aqueles que minimizam a gravidade da situação defendem que as comparações levem em conta o tamanho da população.

Nesse caso, o Brasil despenca para a 18ª posição global, com 9 doses para cada 100 habitantes. O líder é Israel, com 116 para cada 100 pessoas.

Esses números não consideram quem recebeu uma ou duas doses (que garantiriam a plena eficácia da vacina). Até agora, o Brasil já vacinou 7% da sua população com pelo menos uma dose. O Reino Unido vacinou 45%, o Chile, 35%, e os EUA, 29%.

vacinação brasil.png

Na comparação do ritmo atual de vacinação, o Brasil está em 13º lugar. São vacinadas duas pessoas a cada 1.000 habitantes por dia. No Uruguai, são 10 a cada 1.000.

4. Projeções do futuro próximo: 500 mil mortes até maio?

A falta de dados precisos sobre a situação da pandemia, algo que o Brasil enfrenta desde março de 2020, dificulta muito a análise do que acontece hoje e do que pode vir a ocorrer daqui um mês, por exemplo.

Oficialmente, o Brasil ultrapassou encerrou o mês de março com a marca trágica de 321 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 443 mil.

As estimativas apontam que morreram 4.000 pessoas por dia no Brasil nesta semana por casos suspeitos ou confirmados de covid em hospitais do país.

E a tendência é que a situação continue piorando. O Imperial College de Londres aponta que a taxa de contágio do país atualmente está em 1,12. A pandemia só recua quando esse número fica abaixo de 1.

Projeções do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, apontam que é bastante provável que o pior cenário se concretize e o Brasil passe de 516 mil mortos por covid até 9 de maio.

A subnotificação, entretanto, aponta que isso pode ocorrer já em abril, caso a situação não melhore. [Transcrevi trechos]

 

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