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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

22
Jun22

Lava Jato levou o país ao desastre, diz diretora do documentário "Amigo Secreto"

Talis Andrade

O ator e humorista Daniel Furlan (Choque de Cultura, Falha de Cobertura), criou o personagem Adolfo Borges em 2014. O político fala e pensa igual ao Sergio Moro pré-candidato a presidência pelo Podemos. Helder Maldonado e Marco Bezzi comentam.

 

Em seu novo filme, Maria Augusta Ramos conta como a imprensa foi decisiva no funcionamento e na derrocada da operação.

 

por José Eduardo Bernardes /Brasil de Fato

 

Está em cartaz o documentário Amigo Secreto, da diretora Maria Augusta Ramos. O filme narra os últimos capítulos da operação de combate a corrupção, Lava Jato, conduzida pelo ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) e os procuradores da República do Paraná, desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula (PT), a apresentação de um PowerPoint colocando o petista como o líder de uma suposta organização criminosa, até o momento em que o Supremo Tribunal Federal determina que o ex-juiz é suspeito para julgar Lula, revogando uma série de condenações proferidas por Moro.

O pano de fundo do filme é o vazamento de mensagens do Telegram, trocadas entre procuradores e Sergio Moro, no evento chamado Vaza Jato. O nome do filme, inclusive, faz uma alusão ao grupo de troca de mensagens, chamado "amigo secreto", onde eram combinadas intimações a possíveis testemunhas, ações para incriminar suspeitos, entre outras irregularidades. Os personagens principais são quatro jornalistas das redações do Intercept Brasil e do El País Brasil, que se debruçam sobre o vazamento e apontam as inconsistências das decisões da 13ª Vara Federal de Curitiba, que condenou o ex-presidente Lula e outras tantas figuras do mundo empresarial e político do Brasil.

 

 

“A intenção é, através desse distanciamento que o cinema promove, ajudar a pensar, refletir sobre o que nós queremos como sociedade, o que nós queremos como país e como nós chegamos até aqui, com ataques diários às instituições democráticas, ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal, que são pilares da nossa democracia moderna. Sem essas instituições, não existe democracia”, explica a diretora.

“Esses ataques se devem muito à ideologia da Lava Jato. A criminalização da classe política e dos políticos, a deturpação do devido processo legal, as violações e as arbitrariedades que foram acontecendo durante a Lava Jato. Em nome dessa guerra contra a corrupção, se perpetuou crimes e levou o país economicamente... não só politicamente, mas economicamente, a um enorme desastre”, completa.

Maria Augusta Ramos, que é a convidada desta semana no BDF Entrevista, tem se dedicado durante grande parte de sua carreira como cineasta aos meandros do sistema judiciário brasileiro. Seu último filme, O Processo, que mostra bastidores do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, já mostrava parte da estreita relação entre o mundo político e o judiciário.

“Os dramas pessoais coletivos que se revelam ali, as mazelas e as questões do país com grande desigualdade, o preconceito, o racismo e o conservadorismo, de uma sociedade altamente repressiva... me possibilitam fazer o cinema que eu gosto de fazer, que é um cinema de observação, construído através da observação, da interação entre seres humanos, seres sociais. Eu não uso entrevistas nos meus filmes, então o sistema de Justiça me possibilita falar e pensar o Brasil através desses rituais”.

Na entrevista, Ramos fala ainda sobre as críticas que o filme recebeu por, supostamente, dar mais espaço aos argumentos contrários à operação e menos aos lavajatistas e sobre como a Lava Jato deixou um rastro de destruição no Brasil.

“Se a gente parar para pensar na questão econômica, o prejuízo foi infinitamente maior do que os benefícios que [a operação] trouxe. O que os procuradores e o próprio ex-juiz dizem por aí é completamente equivocado. Milhões de pessoas perderam os empregos, as empreiteiras foram prejudicadas. Todas as outras empresas que eram terceirizadas pelas empreiteiras e também pela Petrobras”, diz.

“Não acontece em nenhum lugar do mundo, de você combater a corrupção destruindo as empresas”, explica Ramos.

 

José Eduardo Bernardes entrevista Maria Augusta Ramos

 

Você está lançando Amigo Secreto, um documentário calcado no vazamento de mensagens dos celulares dos procuradores da Operação Lava Jato, no caso que ficou conhecido como Vaza Jato, divulgado por veículos de imprensa. O nome do filme, inclusive, é uma alusão ao grupo de procuradores no Telegram, que trocavam mensagens entre si, sem respeito ao processo legal. Você documenta uma das maiores reviravoltas da história recente do país. O filme foi acontecendo diante dos seus olhos? como foi esse processo?

Foi um processo muito intenso de filmagem nos últimos meses, porque nós começamos as pesquisas e as filmagens em 2019 e tivemos que parar por causa da covid-19. Foi um ano e meio que foi muito difícil filmar. Nós só filmamos os acontecimentos e alguns eventos muito importantes durante esse período, por causa da pandemia. Em julho de 2021 nós retomamos as filmagens e logo depois começamos a editar.

Sempre é muito intenso. Da mesma maneira que O Processo foi um filme muito intenso de ser feito, porque a gente, realmente, não sabia o que iria acontecer, nesse filme, a cada dia nós temos que dar conta de uma tragédia. O caos é o modus operandi desse governo. E, infelizmente, a gente tem que lidar com isso diariamente.

O filme se propõe, justamente, a refletir sobre esses últimos quatro, cinco anos, desde a condenação do presidente Lula, a denúncia do PowerPoint, até o início de 2022, com a intenção de, através desse distanciamento que o cinema promove, ajudar a pensar, refletir sobre o que nós queremos como sociedade, como país e como chegamos até aqui, com ataques diários às instituições democráticas, ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal, que são pilares da nossa democracia moderna. Sem essas instituições, não existe democracia.

Esses ataques se devem muito à ideologia, digamos assim, da Lava Jato. A criminalização da classe política, dos políticos, a deturpação do devido processo legal, como você mesmo falou, as violações, as arbitrariedades que foram acontecendo durante a Lava Jato.

E de uma certa maneira, a ideia de que os fins justificam os meios e que você pode passar por cima de uma série de práticas institucionais e constitucionais, para chegar a um determinado fim que, naquele momento, se justificava contra a corrupção. E em nome dessa guerra contra a corrupção, se perpetuaram crimes e levou o país economicamente, não só politicamente, mas economicamente a um enorme desastre.

 

 

A Lava Jato se tornou uma máquina política também, não é? Os desdobramentos posteriores ao fim da operação também mostram isso...

Sim, justamente. A intenção dos integrantes da Lava Jato, e talvez do próprio ex-juiz Sergio Moro, era de purificar a política, purificar o sistema político. Primeiro, isso não é função do sistema de justiça, a independência dos poderes é absolutamente fundamental para uma democracia saudável. Outra coisa é que você tem, obviamente, essa criminalização da política e ela dá no que deu: a eleição do Bolsonaro.

Existem políticos e políticos, da mesma maneira que existem médicos bons e ruins, juízes bons e ruins. Juízes e procuradores que não seguem o devido processo legal, como existem aqueles que são absolutamente corretos e éticos na sua função. É importante dizer que essas arbitrariedades, essas violações que vinham acontecendo durante a Lava Jatoforam denunciadas muito antes das mensagens vazadas e, infelizmente, a grande mídia não deu espaço devido, não deu voz a essa narrativa.

Alguns ministros do Supremo questionaram, como o próprio Teori Zavascki, que questionou decisões do ex-juiz Sergio Moro, como aquele vazamento ilegal da conversa entre a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Você lembra muito bem, na época, antes do processo de impeachment contra ela.

Você tem, claramente, um exemplo de lawfare, o sistema de justiça sendo usado contra inimigos políticos, para a remoção de um partido, no caso um partido à esquerda, um partido como foi o Partido dos Trabalhadores, a classe política progressista, toda uma maneira de governar.

 

Quando você olhou para a montagem e entendeu: “É isso, aqui está meu filme!” Eu tive a impressão que, apesar de contar uma história de dois, três anos atrás, há uma série de declarações que conversam exatamente com o momento que a gente está vivendo, seja a liderança do Lula nas pesquisas, sejam os casos de corrupção do governo Bolsonaro se avolumando. Deve ter sido difícil fazer esse recorte temporal.

É sempre difícil, é um processo. Eu digo que um processo de produção de um filme, de um documentário, é algo que se dá realmente em um processo. O filme é um produto de um processo cinematográfico, de filmagem, edição e de tudo que acontece durante esses dois períodos que eu, como diretora, não posso prever.

A proposta era, através dos protagonistas, que são quatro jornalistas, o Leandro Demori, na época diretor executivo do Intercept Brasil, a Carla Jimenez, então diretora executiva do El País Brasil, e duas repórteres, a Marina Rossi e a Regiane Oliveira, acompanhar a rotina desses personagens - que eu chamo de personagens reais - durante a investigação jornalística sobre a Lava Jato, com base tanto nas mensagens vazadas, como em conversas e entrevistas que elas fazem com advogados, com um delator, com juristas e outros jornalistas.

O filme, na verdade, se passa em três tempos: no presente, representado por essa investigação; e, ao mesmo tempo, enquanto eles investigam e pesquisam a Lava Jato, existe uma volta ao passado para rever as audiências. A do presidente Lula, no caso do triplex, o PowerPoint e alguns eventos que eram importantes para a gente poder entender o que está vivendo agora.

Você tem, então, uma releitura da Operação Lava Jato e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre as consequências que ela traz para o país, tanto economica como politicamente. E que vai dar no Bolsonaro, em tudo o que a gente está vivendo agora. Era importante que o filme fizesse esse arco: começo; meio; e consequência.

Não que esse seja o fim, ou digamos, o nosso fim trágico. Absolutamente não. Eu acho que a gente está com uma possibilidade muito grande de termos o presidente Lula reeleito e a gente torce para isso, para termos a nossa democracia de volta.

 

A declaração mais forte do filme, talvez seja a do ex-funcionário da Odebrecht, Alexandrino Alencar, que fala como foi pressionado a relacionar o ex-presidente Lula aos pagamentos de caixa dois da empresa. Por essas irregularidades, a Lava Jato é uma das maiores causadoras da atual crise brasileira?

Eu acho que sim. Está aí, o público que devia assistir o filme e tirar suas próprias conclusões. Eu acho que isso está nos números, o prejuízo econômico. Se a gente parar para pensar na questão econômica, o prejuízo foi infinitamente maior do que os benefícios que trouxe. O que os procuradores e o próprio ex-juiz dizem por aí é completamente equivocado.

O número de desemprego aumentou. Milhões de pessoas perderam os empregos, as empreiteiras foram prejudicadas. Todas as outras empresas que eram terceirizadas pelas empreiteiras e também pela Petrobras. Isso não sou eu que digo isso. Foi uma pesquisa do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), um instituto de pesquisa seríssimo.

Não acontece em nenhum lugar do mundo, de você combater a corrupção destruindo as empresas. Como país, como sistema de Justiça, eu acho que é importante, sim, combater a corrupção, mas respeitando os empregos porque, basicamente, quem sofre são os trabalhadores. Quem sofre é a sociedade brasileira, que vai ter que lidar com esses grandes prejuízos que foram feitos.

 

No filme, você faz uso da imprensa como personagem principal, com os repórteres que estão investigando os vazamentos. A imprensa, inclusive, que teve um papel decisivo também na operação, como a gente comentou por cima, vazando documentos e depoimentos de maneira seletiva, de acordo com os interesses dos procuradores e do próprio ex-juiz. A imprensa vive uma crise de credibilidade?

O papel da imprensa é fundamental em uma democracia e eu acho que o filme revela isso. Ao mesmo tempo em que o conluio entre os procuradores e a mídia foi extremamente prejudicial para o país e levou a tudo isso que a gente está vendo agora, a escolha por contar, da mesma maneira que no caso do impeachment, de dar prioridade a uma determinada narrativa, a um lado da história e simplesmente, como diz o Leandro[Demori], não questionar as denúncias feitas pelo Ministério Público e uma série de questões que estavam sendo apresentadas, fez do papel da imprensa e do jornalismorealmente terrível.

E mostra como é importante que o jornalismo se mantenha isento. Não existe, obviamente, o jornalismo imparcial. Eu também não acredito nisso, nem cinema imparcial. Mas existe sim um jornalismo que se pauta pela busca da verdade, do fato, da ética e acho que a imprensa falhou nesse sentido.

Ao mesmo tempo, o filme também mostra que, mesmo tendo falhado, a imprensa pode se redimir, e se redimiu também, através de alguns jornalistas, claro, e alguns veículos, no sentido de, através da Vaza Jato, finalmente dar voz a esse outro lado, dar voz a essas críticas, aos questionamentos que estavam sendo já denunciados por juristas, como já disse. O filme mostra que a função do jornalismo é fundamental para uma democracia saudável. É através da imprensa que essas ilegalidades vêm à tona.

 

Você falou agora sobre o cinema ter um lado, assim como o jornalismo, ou qualquer coisa que se proponha debater a vida pública. Eu vi algumas críticas sobre o teu filme, questionando a escolha por ouvir menos os argumentos lavajatistas e focar nos personagens que criticam a operação. É sempre importante ressaltar que o documentário não é jornalismo, são coisas distintas, que até podem se entrelaçar em algum momento. Você acha que deveria ter dado mais voz aos procuradores, por exemplo?

Primeiro, eu não acredito que exista jornalismo e cinema imparcial, nem documentário. Mas, eu acho muito interessante essa crítica… Porque, durante anos, o jornalismo, a imprensa teve uma cobertura absolutamente parcial do processo jurídico da Lava jato. Criou a imagem do super-herói, que é algo absolutamente parcial. Houve certamente uma manipulação da opinião pública.

E que acabava se voltando contra qualquer pessoa que, dentro do próprio sistema de justiça, o STJ, o STF que criticassem a Lava Jato. Foi um ciclo vicioso, muito perigoso. Então, é interessante que essas pessoas me digam, justamente neste momento em que a gente finalmente mostra o outro lado, a outra narrativa, que eu sou parcial.

Quer dizer, durante anos se ouviu a narrativa da Lava Jato, acho que agora é o momento dessa desconstrução baseada em fatos. Não baseada no que eu ou os advogados acham, mas em fatos, no devido processo legal e na decisão do próprio sistema, no próprio Supremo Tribunal Federal, que julgou o ex-juiz Sergio Moro, como suspeito no caso do triplex.

Eu tive a mesma crítica em relação ao Processo, por não ouvir o outro lado. Mas a gente ouvia o outro lado diariamente, o tempo todo, e foi isso que aconteceu na Lava jato. Foi se alimentando o ódio contra a classe política, a esquerda, o presidente Lula, diariamente, através dessa, digamos assim, máquina, de produzir notícia, que aqui passou a ser a Lava Jato.

E o próprio ex-juiz Moro, em um artigo que ele escreveu sobre as Mãos Limpas (operação italiana de combate a corrupção), sobre a importância da mídia, da imprensa, no combate contra a corrupção, no sentido desse conluio, dessa manipulação da opinião pública, necessária para combater a corrupção, para colocar corruptos na cadeia.

Bom, de qualquer maneira, mesmo com tudo isso, houve sim, da mesma maneira que O Processo, uma tentativa de entrevistar o ex-juiz Sergio Moro, então ministro da Justiça, antes e depois da sua renúncia. Houve uma tentativa de entrevistar dois procuradores e, infelizmente, eles não quiseram participar.

Eu acredito que o filme dá voz [a esses personagens], quando [Moro] se explica, por exemplo, no Congresso. Quando ele renuncia, se filia a um partido político. O próprio [Deltan] Dallagnol, quando ele resolve apresentar a denúncia contra o presidente Lula, o tal do PowerPoint. São falas inteiras, eu não corto, não edito, de uma maneira diferente do que faço com outras.

Mas certamente esse filme é uma representação da minha realidade, minha representação subjetiva, produto de uma experiência cinematográfica de filmagem, de tudo o que eu vivi com a minha parceira, editora Karen Akerman. Nós revimos todo o material, filmamos 200 horas, e nos pautamos por um comprometimento com a ética, com a verdade. Mas não deixa de ser subjetivo.

 

Maria Augusta, grande parte da sua filmografia é dedicada a entender a justiça brasileira, por quê?

Eu acho que não é só entender a justiça brasileira, é compreender, refletir sobre a sociedade brasileira através do sistema de Justiça. É pensar a sociedade brasileira, nos pensar como cidadãos, como sociedade, como seres humanos, através do que ocorre dentro de audiências, dentro de um processo de justiça.

A importância dos dramas pessoais coletivos que se revelam ali, as mazelas e as questões do país com a grande desigualdade, o preconceito, o racismo e o conservadorismo, de uma sociedade altamente repressiva. Os valores e os princípios ainda vigentes na sociedade brasileira.

E o sistema de Justiça me possibilita fazer o cinema que eu gosto de fazer, que é um cinema de observação, construído através da observação, da interação entre seres humanos, seres sociais. Eu não uso entrevistas nos meus filmes, então o sistema de Justiça me possibilita falar e pensar o Brasil, através desses rituais da Justiça.

 

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20
Jun22

Amigo secreto

Talis Andrade

Hélio Oiticica, B11 Box Bólide 09, 1964
 

Comentário sobre o filme documentário

de Maria Augusta Ramos

 

por José Geraldo Couto /A Terra É  Redonda

O documentário Amigo secreto, dirigido por Maria Augusta Ramos, entrou em cartaz nesta quinta-feira, 16 de junho. O projeto expresso do filme – acompanhar o trabalho de jornalistas empenhados em investigar as entranhas da Operação Lava-Jato – acabou se desdobrando numa leitura consistente da história do país nos últimos cinco ou seis anos.

De acordo com o que vemos e ouvimos no documentário, a grande operação de combate à corrupção empreendida por uma força-tarefa sediada em Curitiba, tendo como figura estelar o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, está no centro da constelação de relações políticas, econômicas e midiáticas que, deliberadamente ou não, desembocou no pesadelo atual.

Em obras como Futuro junho e O processo, a experiente documentarista Maria Augusta Ramos já havia se mostrado capaz de, no calor da hora, documentar de modo crítico o que se passa por baixo da superfície do noticiário e dos discursos públicos. Seu foco é profundo, seu objeto são as entranhas dos processos históricos. Em Amigo secreto, trata-se de perscrutar paralelamente dois bastidores: o da Lava-Jato em si e o do trabalho jornalístico empenhado em desvendá-la (ou denunciá-la).

Em seus momentos mais envolventes, o documentário parece colocar o espectador lado a lado com os repórteres, como se os acompanhasse na investigação. São eles Leandro Demori, do site The Intercept, e as jornalistas Carla Jiménez, Regiane Oliveira e Marina Rossi, da edição brasileira do El país.

Essa busca é “ilustrada”, comentada ou adensada por material de arquivo (telejornais, depoimentos do ex-presidente Lula a Sérgio Moro, a fatídica reunião ministerial em que Bolsonaro manifesta a vontade de intervir na Polícia Federal, a primeira entrevista de Lula na prisão, manifestações a favor e contra o presidente, etc.) e por novas entrevistas que fornecem informações e interpretações sobre o funcionamento da Lava-Jato. Numa das entrevistas mais contundentes, um executivo da Odebrecht diz que os presos na operação eram pressionados a implicar Lula em suas delações.

Entre uma revelação e outra, breves planos de ligação fogem do esquema talking heads e conferem dinamismo e frescor ao relato: uma repórter trafegando de carro pela avenida Paulista, outra chegando a pé a uma manifestação pró-Bolsonaro, um fim de tarde na praça dos Três Poderes.

Curiosamente, é possível ver uma analogia entre a excitação dos jornalistas ao descobrir os podres da Lava-Jato e a excitação dos membros da própria força-tarefa nas mensagens secretas que trocavam entre si e que foram desveladas pelo Intercept. Num momento descontraído, ao ler para as colegas algumas dessas mensagens, Leandro Demori chega a imitar a voz esganiçada de Sérgio Moro. Uma investigação, de certo modo, espelha a outra, ou a parodia.

Haverá decerto quem acuse Maria Augusta Ramos de mostrar “só um lado” da questão e oferecer uma leitura unívoca do sentido dos acontecimentos. De fato, ainda que não haja uma locução nem letreiros explicitando uma interpretação, todo o material selecionado e montado aponta para o entendimento da Lava-Jato como uma operação politicamente enviesada desde o início, com flagrantes conexões internacionais (leia-se interesses norte-americanos), e que teve como consequência o desmantelamento e a desmoralização das instituições que estamos presenciando.

Em defesa da diretora, é forçoso admitir que, durante cinco anos, edificou-se na nossa mídia hegemônica uma narrativa favorável, de modo uníssono e acrítico, à atuação lavajatista, a ponto de erigir Sérgio Moro em salvador da pátria e paladino anticorrupção. Se a grande imprensa, nesse período, não se preocupou em investigar e apontar as evidentes distorções e desvios de conduta da Lava-Jato e de seu personagem-símbolo, Amigo secreto toma para si o direito de construir uma alternativa a essa mitologia.

É esse intuito de apresentar uma visão crítica abrangente que explica a inclusão no filme de elementos que, em princípio, parecem não ter a ver diretamente com a Lava-Jato. Por exemplo, cenas de UTIs lotadas no auge da Covid, ou o trecho da mencionada reunião ministerial em que Ricardo Salles, do Meio Ambiente, fala da pandemia como um momento propício para “passar a boiada” do enfraquecimento da legislação ambiental. Ou mesmo as últimas imagens, de uma imensidão de floresta destruída pelo fogo.

Na visão de Maria Augusta Ramos, tudo está conectado. O Brasil que resultou do conluio do lavajatismo com o bolsonarismo é uma terra arrasada. É isso que Amigo secreto nos diz, em palavras e imagens.

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Em primeiro encontro após vazamento, Moro é condecorado por Bolsonaro |  Exame

17
Jun22

Documentário mostra como "lava jato" cometeu abusos e ajudou a eleger Bolsonaro

Talis Andrade

Amigo Secreto, o filme sobre a Vaza Jato | Prerrogativas - YouTube

 

por Sérgio Rodas /ConJur

 

Luís Roberto Barroso: "Vossa excelência acha que o problema foi o enfrentamento da corrupção, e não a corrupção?"

Ricardo Lewandowski: "Nós estamos concordes, ministro. Vossa excelência quer trazer à baila aqui o assunto da corrupção, como se aqueles que estivessem contra o modus operandi da 'lava jato' fossem favoráveis à corrupção. E quero dizer mais, ministro Barroso. Não concordo com vossa excelência que as mensagens que foram veiculadas a partir do material arrecadado na operação spoofing — e, diga-se, periciado pela Polícia Federal, que foi utilizado para oferecer denúncia contra os hackers — não constituíram 'meros pecadilhos'. Porque um juiz indicar testemunhas para a acusação não me parece um mero pecadilho. O que dizem as mensagens? Que os procuradores de Curitiba estavam acertando clandestinamente negociações com autoridades estrangeiras. Combinação do momento do oferecimento da denúncia e outras questões não me parecem pecadilhos".

Barroso: "Eu pensei que fosse vossa excelência fosse garantista. Essa é uma prova ilícita, colhida mediante um crime."

Lewandowski: "Pode ser ilícita. Mas enfim, foi amplamente veiculada e não foi adequadamente, a meu ver, contestada."

Barroso: "A Polícia Federal não atestou a autenticidade dessas provas."

Lewandowski: "Atestou a integridade da cadeia de custódia e só não pode completar a perícia porque os procuradores e o juiz destruíram as provas, deletaram as mensagens."

Barroso: "Mas é produto de crime, ministro. Então o crime compensa para vossa excelência?"

Lewandowski: "Existe outro provérbio latino que ninguém pode alegar a própria torpeza em benefício seu. Mas eu não quero me aprofundar nisso. Eu quero apenas dizer que existem visões contrapostas. O que nós temos que combater aqui são modus operandi por parte seja do Ministério Público, seja do Poder Judiciário, incompatíveis com Estado Democrático de Direito. Historiadores haverão de avaliar qual foi o resultado prático em termos da economia brasileira a médio e longo prazo. O que eu posso dizer desde logo a vossa excelência é que nós retrocedemos da posição de oitava economia do mundo para 14ª. Então, data vênia, não concordo que estamos tratando de 'pecadilhos'. Estamos tratando não de pecados proverbiais veniais, mas talvez de pecados mortais, que constituem, dentre outras coisas, em colaboração à margem da lei brasileira com autoridades estrangeiras."

A discussão entre os ministros Ricardo Lewandowski e Luís Roberto Barroso, ocorrida na sessão em que o Supremo Tribunal Federal declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro para julgar o ex-presidente Lula, é reproduzida no documentário Amigo secreto, de Maria Augusta Ramos, que estreia nesta quinta-feira (16/6), como exemplo da maneira com que as mensagens reveladas pela Vaza Jato geraram polêmica, mas ajudaram a reverter abusos da operação "lava jato".

Amigo Secreto – Vitrine Filmes

O filme mostra como as mensagens entre procuradores de Curitiba e Moro, reveladas pela Vaza Jato, explicitaram a parcialidades dos agentes da Justiça em relação a Lula e o PT. Para isso, a película acompanha os jornalistas Leandro Demori, ex-editor do The Intercept Brasil — que recebeu os arquivos —, Carla Jimenez, Marina Rossi e Regiane Oliveira, todas do El País Brasil, que encerrou as operações em dezembro, na análise do material, entrevistas com advogados e redação de reportagens.

"Amigo secreto" era o nome do grupo de mensagens de procuradores da "lava jato" no Telegram. Em uma cena, Demori discute com Paula Bianchi, sua colega de Intercept, conversa dos integrantes do Ministério Público Federal em março de 2016, após a busca a apreensão na casa de Lula.

Na época, circulava na internet uma montagem com fotos contrapostas do ex-presidente Itamar Franco e de Lula em uma sala do Palácio do Planalto com um crucifixo, que seria obra do escultor barroco Aleijadinho, na parede. A escultura sumiu do recinto depois que o petista deixou a presidência. A suspeita dos procuradores era de que Lula tinha roubado o crucifixo após encerrar o seu mandato. A expectativa era encontrar o objeto na casa de Lula e o denunciar por peculato.

Um decepcionado Deltan Dallagnol, ex-chefe da "lava jato" em Curitiba, informa ao procurador Orlando Martello que o crucifixo era um presente pessoal dado a Lula e que eles haviam caído em fake news. Por causa disso, Moro lhe pediu para tomar cuidado com a história.

"Essa matéria é o resumo da 'lava jato'", diz Paula Bianchi. "É o resumo de tudo. Incompetência misturada com desejo", complementa Demori.

 

Atuação parcial

 

Amigo secreto mostra como a "lava jato", especialmente Sergio Moro, quebrou a economia, tirou Lula ilegalmente das eleições de 2018 e contribuiu para a ascensão de Jair Bolsonaro — cujo governo, por sua vez, gerou aumento da pobreza, devastação ambiental e quase 670 mil mortos por Covid-19 (até 15/6).

A cena de abertura já explicita a parcialidade de Moro para julgar Lula. Em sessão de 10 de maio de 2017, o juiz faz perguntas ao ex-presidente sobre o tríplex no Guarujá (SP). O petista explica que sua ex-mulher, Marisa Letícia, comprou cota de apartamento no prédio em 2005. Só em 2013 ele foi ver o tríplex e disse que não gostou do imóvel, considerando que ele tinha vários defeitos. Moro insiste em saber o porquê de Lula não ter optado por ficar com o imóvel. "Eu não fiquei porque não tinha como ficar", diz Lula. "E esse foi o motivo também que influiu na decisão? Ou não?", questiona o julgador. "O motivo foi que eu não tinha solicitado e não quis o apartamento."

Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, é forçado a intervir. "Excelência, eu sei que o senhor tem um relatório de questões previamente formuladas, mas eu pediria a vossa excelência que adaptasse esse rol de perguntas formuladas a respostas já dadas pelo ex-presidente Lula. Porque vossa excelência está repetindo muitas questões que, em respostas anteriores, ele já respondeu."

Em outra parte do depoimento, Moro pergunta se Lula não tinha conhecimento dos crimes na Petrobras, uma vez que indicou os ex-diretores Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Jorge Luiz Zelada, condenados na "lava jato".

"Nem eu [sabia], nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só soubemos quando houve o grampo da conversa do [doleiro Alberto] Youssef com o Paulo Roberto [Costa]", responde o ex-presidente.

O juiz então retruca que "indagou" sobre o assunto porque Lula havia indicado nomes ao comando da Petrobras. "Eu não tenho nada a ver com isso, eu não participei dessas indicações. O senhor soltou o Youssef e mandou grampear. O senhor poderia saber mais do que eu", rebate Lula.

Como suposto indício de que o ex-presidente tinha ciência de irregularidades na estatal, Moro menciona que ele participou do lançamento da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e acompanhou obras de terraplanagem no empreendimento. Lula então se irrita e diz que tais questões não tem nada a ver com a acusação.

"Quem está sendo julgado é um estilo de governar. É um jeito de governar. Se as pessoas que estão fazendo essa denúncia querem saber como se governa, elas têm que sair do Ministério Público, entrar em um partido político, disputar as eleições, ganhar, para elas saberem como se governa. Governar democraticamente, com oposição da imprensa, oposição do sindicato, com direito de greve, fortalecendo o Ministério Público, fortalecendo a Polícia Federal, fortalecendo todas as instituições de fiscalização nesse país. Então essas perguntas todas, na verdade elas estão questionando é um jeito de governar", aponta o petista.

O filme narra como Lula foi condenado, preso e proibido de participar das eleições de 2018, das quais era favorito. E destaca como Moro agiu sem imparcialidade nesse processo — tanto que deixou a magistratura para ser ministro da Justiça do governo Bolsonaro e, posteriormente, disse que iria se candidatar no pleito de 2022 — embora ainda não se saiba a que cargo.

O clímax do documentário é o julgamento da suspeição do ex-juiz pelo STF. Na sessão, o ministro Gilmar Mendes afirma que já elogiou a "lava jato", mas que mudou de ideia com a revelação dos abusos da operação. "Não se combate corrupção cometendo crimes", diz o magistrado.

Para ilustrar a proximidade indevida entre o juiz e procuradores, Gilmar cita mensagens em que Dallagnol, após a condução coercitiva de Lula, sugere aos colegas divulgar nota em apoio a Moro. O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima apoia a ideia. "Por mim, soltamos pq não deixo amigo apanhando sozinho rs. Independentemente de resultado, soltaria por solidariedade ao Moro" (sic).

Além disso, o ministro menciona a interceptação do ramal central do escritório Teixeira, Martins e Advogados, hoje conhecido como Teixeira Zanin Martins Advogados, que conduzia a defesa de Lula. "Grampo de ramal de escritório é coisa de regime totalitário, pois desaparece o direito de defesa", analisa.

Após a declaração da suspeição de Moro, o documentário perde um pouco o fôlego e passa a se concentrar na destruição causada por Bolsonaro e nos ataques dele ao STF, especialmente ao ministro Alexandre de Moraes.

 

Delações questionáveis

 

A operação "lava jato" foi alicerçada em delações premiadas. De acordo com entrevistados do filme, o instrumento foi usado de forma seletiva para perseguir determinadas pessoas, como Lula.

 

86 charges sobre o escândalo da #VazaJato (para compartilhar com aquele tio  reaça que adorava o Sergio Moro) – blog da kikacastro

Filme mostra parcialidade de Sergio Moro em casos envolvendo Lula

 

O advogado Marco Aurélio de Carvalho ressalta que o delator Pedro Corrêa, ex-deputado federal, disse que o esquema na Petrobras começou bem antes dos governos do PT, mas a informação foi ignorada pelos operadores da "lava jato".

Já o criminalista Fábio Tofic Simantob lembra que houve uma "indústria de delações". Segundo o advogado, ela funcionava da seguinte forma: o interessado se oferecia ao MPF para firmar acordo. Procuradores informavam que, para fechar a colaboração, seria preciso que entregasse tal e tal pessoa. E, uma vez assinada a delação, Moro revogava a prisão preventiva no dia seguinte, de forma a passar um recado para os potenciais colaboradores.

A principal revelação do filme é feita por Alexandrino Alencar, ex-executivo da Odebrecht que entrou na delação premiada da empreiteira. Ele conta que foi pressionado por procuradores a fazer acusações contra Lula.

"Fizeram uma pressão em cima da gente". Era uma questão com o Lula. Ele queria saber o que o irmão do Lula [fez], o filho do Lula, não sei o quê do Lula, as palestras do Lula", declara Alencar.

O depoimento coincide com reportagens publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo que disseram que o MPF resistia em aceitar a delação de Alencar, uma vez que ele não citava Lula ou outros políticos. Depois de alterar sua narrativa, ele celebrou acordo e contou que a empreiteira bancou a reforma do sítio usado pelo petista em Atibaia (SP). O depoimento foi fundamental para a condenação do ex-presidente a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso. A sentença foi posteriormente anulada pelo STF.

O ex-executivo da Odebrecht ainda declara saber de gente que foi dispensada de depor após citar o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), o que indicaria proteção de procuradores a ele.

"Não vou dizer o nome do santo. Mas tem colega meu que foi preso em Curitiba, chegou lá, o pessoal [investigadores] começou a perguntar sobre caixa dois [recursos doados para políticos sem registro na contabilidade oficial]. Ele [colega de Alexandrino] falou: 'Isso aqui é para o Aécio Neves'. Na hora em que ele falou, eles [interrogadores] se levantaram e soltaram ele. Isso é 'lava jato'? Isso é um sistema anticorrupção? Ou é uma questão direcionada?".

 

Entrevistas com advogados

 

O filme tem entrevistas com diversos advogados. Além de Marco Aurélio Carvalho e Fábio Tofic Simantob, dão depoimentos Cristiano Zanin Martins, Fernando Augusto Fernandes, Walfrido Warde, Carol Proner e Pedro Estevam Serrano.

Zanin lembra que o eixo central da denúncia do tríplex era de que Lula integrava uma organização criminosa que promovia desvios na Petrobras. Contudo, Lula foi absolvido dessa acusação, e o MPF nem recorreu. "Então como condenar pelo tríplex?", questiona o advogado do petista.

O criminalista Fernando Fernandes explica que houve lawfare na "lava jato", embora diga não gostar do termo em inglês. "Membros do Judiciário, que não podem atuar politicamente, usaram seus cargos para atacar a política. Ao atacarem Lula, atacaram a esquerda a qualquer custo e fizeram surgir o bolsonarismo."

Warde, autor do livro O espetáculo da corrupção: como um sistema corrupto e o modo de combatê-lo estão destruindo o país (Leya), ressalta que a "lava jato" não fez distinção entre empresas e empresários. Em vez de punir apenas as pessoas responsáveis por crimes, também penalizou as companhias, afetando a economia e gerando perda de empregos, declara.

Professora de Direito Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carol Proner explica como, por meio do Foreign Corrupt Practices Act, os EUA passaram a promover seus interesses no mundo por meios jurídicos e geopolíticos, e não mais pela guerra.

Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, diz que a indignação contra a corrupção é seletiva. Afinal, o governo Bolsonaro destinou R$ 1,3 bilhão a bancos no começo da epidemia de Covid-19, e ninguém reclamou. O dinheiro foi para o setor mais corrupto, aponta Serrano, quando poderia ter sido usado para manter as pessoas em casa e frear a disseminação do coronavírus.

Além disso, o filme apresenta criminalistas como Geraldo Prado e Miguel Pereira Neto debatendo no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil às vésperas do julgamento, pelo STF, que voltou a estabelecer que só é possível executar a pena após o trânsito em julgado da condenação.

A sustentação oral feita na ocasião pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, tem destaque na película. Em sua fala, ele apontou que o caso não dizia respeito apenas a Lula, uma vez que as ações foram propostas em 2016, antes de o petista ser denunciado. Kakay também ressaltou que a prisão após segunda instância puniu mais severamente os pobres e negros.

 

Cenas jornalistas

 

O documentário também tem reflexões sobre a atuação da imprensa na "lava jato". Leandro Demori explica a integrantes da Federação Única dos Petroleiros como era o modus operandi dos procuradores de Curitiba.

Eles convocavam coletiva de imprensa de manhã, liberavam o acesso a diversos documentos e entregavam um release com o resumo das informações que queriam destacar. Não dava tempo de os repórteres conferirem os arquivos, fazerem investigações paralelas. Então, acabavam reproduzindo a versão do MPF.

No fim do filme, Carla Jimenez afirma que, depois da Vaza Jato, "nunca mais vai olhar para o MP do mesmo jeito". Os jornalistas lembram de entrevista concedida ao Intercept por Christianne Machiavelli, ex-assessora de imprensa da Justiça Federal em Curitiba.

Ela afirmou que, na efervescência dos processos da "lava jato", os jornalistas abandonaram qualquer distanciamento e senso crítico para apresentar à população meras suspeitas ou suposições como verdades absolutas. A pressa, a competição pelo "furo" e a necessidade de cativar as fontes — a polícia, o Ministério Público Federal e o juiz Sergio Moro — levaram repórteres e editores a abdicar de seu papel para se tornar integrantes da chamada "força-tarefa".

"Talvez tenha faltado crítica da imprensa. Era tudo divulgado do jeito como era citado pelos órgãos da operação. A imprensa comprava tudo. Não digo que o trabalho não foi correto, ela se serviu do que tinha de informação. Mas as críticas à operação só vieram de modo contundente nos últimos dois anos [a partir de 2016]. Antes praticamente não existia. Algumas vezes, integrantes da PF e do MPF se sentiam até melindrados porque foram criticados pela imprensa", disse Christianne Machiavelli.

Arquivos da Vaza Jato já estão no STF - O Cafezinho

17
Jun22

Documentário acompanha jornalistas na cobertura da "vaza jato"

Talis Andrade

Moro deixa chefe de milícia do Rio das Pedras fora de lista de procurados

 

AMIGO SECRETO

 

Texto Consultor Jurídico

Na próxima quinta-feira (16/6), estreia nos cinemas o documentário "Amigo Secreto", da diretora Maria Augusta Ramos. O longa-metragem acompanha um grupo de jornalistas por trás da cobertura do vazamento, ocorrido em 2019, de mensagens trocadas entre integrantes da operação "lava jato" e o ex-juiz Sergio Moro.

O filme mostra como o episódio revelou o maior escândalo judicial da história da República e como a força-tarefa de combate à corrupção fragilizou o sistema de Justiça brasileiro e colocou em risco a democracia do país.

Os protagonistas do documentário são Leandro Demori — que à época era editor-executivo do site The Intercept Brasil — Carla Jimenez, Regiane Oliveira e Marina Rossi — do antigo El País Brasil.

"Amigo Secreto" é uma coprodução brasileira, alemã e holandesa. É produzido por Nofoco Filmes, GebroedersBeetz Filmproduktion, Docmakers e coproduzido pela Vitrine Filmes, também responsável pela distribuição do longa-metragem no Brasil.

 

 

14
Jun22

Advogados riem de Sergio Moro em cinema de São Paulo

Talis Andrade

Luis Nassif entrevista a cineasta Maria Augusta Ramos e a jornalista Carla Jimenez, ex-editora do El País no Brasil, sobre a estreia do documentário “Amigo Secreto”. O filme estará disponível nos cinemas de todo o País a partir de quinta-feira, 16 de junho. A obra retrata a cobertura de um pool de veículos de comunicação, incluindo The Intercept Brasil, sobre o vazamento de conversas de Telegram entre o ex-juiz Sergio Moro e um grupo de procuradores da Lava Jato em Curitiba. O documentário contém um depoimento inédito do delator Alexandrino Alencar, ex-executivo da Odebrecht, admitindo que houve pressão e direcionamento nas delações da Lava Jato para atingir o ex-presidente Lula.

 

Lançamento do documentário “Amigo secreto”, sobre os bastidores da Vaza Jato

 

 

Sobraram risadas nas duas salas de cinema reservadas para a pré-estreia do documentário “Amigo secreto”, de Maria Augusta Ramos, na noite desta segunda-feira (13/6), em São Paulo. O motivo: Sergio Moro.

O filme, porém, nada tem de comédia. Maria Augusta Ramos acompanha a rotina de jornalistas do The Intercept e do El País Brasil na série de reportagens conhecida como Vaza Jato, que mostrou a relação promíscua entre Moro e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato.

O documentário traça paralelos sobre como a criminalização da política levou à ascensão de Bolsonaro e à radicalização do presidente ao longo do governo.

Moro é personagem central na trama. As expressões de constrangimento do então ministro da Justiça na fatídica reunião de 22 de abril de 2020 foram um deleite para o público, composto por antilavajatistas e personalidades ligadas ao PT. Foi na reunião ministerial que Bolsonaro ameaçou interferir na Polícia Federal para proteger a família.

Outro ponto cômico para a audiência foi o discurso de filiação de Moro ao Podemos, com ênfase para o trecho em que o ex-juiz dizia que nunca teve pretensões políticas. Como se sabe, Moro abandonou o partido meses depois e filiou-se ao União Brasil, que vetou a candidatura do ex-juiz ao Planalto.

24
Out20

Vaza Jato’, a investigação que obrigou a imprensa brasileira a se olhar no espelho

Talis Andrade

Vaza Jato', a investigação que obrigou a imprensa brasileira a se olhar no  espelho | Atualidade | EL PAÍS Brasil

 

Livro retrata os bastidores das revelações do ‘The Intercept Brasil’ que mudaram a forma como os veículos de comunicação cobriam a Operação Lava Jato

Por Regiane Oliveira

O site The Intercept Brasil escolheu o começo da noite de um domingo, 9 de junho de 2019, para divulgar os primeiros textos da série As mensagens secretas da Lava Jato, que abriram as investigações conhecidas como Vaza Jato. Na redação do EL PAÍS, a bomba lançada pelo portal foi tão grande a ponto de interromper o fechamento ―aquela hora do dia agitada em que se retocam os últimos textos para entrar na página. Marina Novaes, editora-adjunta do jornal, e essa repórter que vos escreve, plantonistas daquele final de semana, ficamos atônitas com a falta de “decoro” da estratégia. Por que domingo, colegas? Afinal, as reportagens faziam acusações muito sérias contra a força-tarefa da Operação Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro, na época, já ministro da Justiça do Governo Bolsonaro. Moro aparecia em conversas com os procuradores que acusavam Luiz Inácio Lula da Silva, o que já era suficiente para que a imprensa brasileira tivesse que repercutir o caso. Foi preciso que Carla Jiménez, diretora do jornal, fizesse parte do reforço de edição para vencer o dia. Saímos do plantão com uma certeza: queríamos fazer parte das investigações com base nos vazamentos obtidos pelo site, o que efetivamente aconteceria semanas depois.

O que nós não sabíamos, é que o colegas do Intercept não haviam planejado lançar a série num domingo. Um dia antes, Glenn Greenwald, fundador do The Intercept, o jornalista que recebeu de um hacker os arquivos com as trocas de mensagens no Telegram de procuradores, alertou Leandro Demori, editor-executivo do site, sobre um problema: a fonte insistia em saber a data de publicação da primeira reportagem por estar interessado em investir na bolsa de valores, e capitalizar com o impacto da divulgação das mensagens. A solução seria publicar quando todas as bolsas estivessem fechadas. “A decisão de lançar a série no domingo resolvia o problema com a fonte, mas criava outro: as matérias ainda estavam em fases de ajustes. Terminá-las a tempo significaria uma guerra contra o relógio”, conta a jornalista Letícia Duarte no livro Vaza Jato ― os bastidores das reportagens que sacudiram o Brasil (Mórula Editorial, 2020), realizado em parceria com a redação do Intercept e lançado nesta semana ― e você pode ler aqui um capítulo da obra.

Letícia Duarte, que não faz parte da equipe do site, foi encarregada de fazer a grande reportagem que abre o livro e responsável por descortinar uma face pouco divulgada das grandes coberturas jornalísticas no país: os bastidores. Desde os contatos iniciais da fonte, que dizia ter invadido celulares de procuradores da Lava Jato, até as crises e os desdobramentos que marcaram a cobertura. No texto sabemos que o contato enviou prints de conversas aleatórias logo no início, incluindo documentos da operação que pediu a prisão de Michel Temer ―o que geraria, no futuro, uma das investigações que o EL PAÍS faria como parceiro da Vaza Jato, tendo como resultado a reportagem Às vésperas do afastamento de Dilma, Lava Jato rejeitou delação que prenderia Temer em 2019, dos repórteres Marina Rossi, Daniel Haidar e eu, juntamente com a editora do Intercept, Paula Bianchi.

Letícia Duarte é egressa do jornal Zero Hora, onde trabalhou por 13 anos, e mestre em Política e Assuntos Internacionais pela Universidade de Columbia, em Nova York, onde mora desde 2018. Dentre seus trabalhos recentes estão a série Democracy Undone, em que investigou os efeitos sociais da ascensão da extrema direita no Brasil, incluindo a entrevista sobre o mentor do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, para a revista The Atlantic. Na reportagem do livro, ela consegue reproduzir o ritmo da cobertura da Vaza Jato, intenso e ao mesmo tempo reflexivo. Tem até um capítulo chamado Fodeu o plantão de todo mundo!. Nada parece ficar de fora das entrevistas realizadas com a equipe do Intercept, a começar pelas dúvidas: “E se a gente olhar essa porra toda e concluir que eles não fizeram nada de errado?” ―é o título de um capítulo. E os medos: “Sempre que tocava o interfone, pensava que era a PF” ―duvido um repórter que tenha tido acesso às mensagens que não tenha pensado a mesma coisa.

Mesmo decisões controversas são abordadas, como a de colocar no ar a primeira reportagem sem ouvir os implicados, o chamado “outro lado” no jargão jornalístico ―o que poderia ter colocado em xeque a credibilidade da publicação na largada. O texto mostra que não faltaram discussões acaloradas dentro da própria equipe quanto a romper essa cláusula pétrea do jornalismo. Por fim, o consenso foi de que seria um risco maior dar chance aos envolvidos de encontrar meios para censurar a publicação, antes mesmo que chegasse ao público. Optou-se por pedir o “outro lado” após a divulgação. “Foi uma das decisões mais sofridas”, conta no livro Alexandre de Santi, editor-adjunto do site.

O livro reconta a história que localiza a Vaza Jato como uma cobertura que já garantiu seu lugar na história do jornalismo no país. Ela representa um ponto de inflexão nas publicações sobre a Operação Lava Jato na imprensa. Não que as forças-tarefas de Curitiba, São Paulo e Rio estivessem imunes a críticas. Pelo contrário, não foram poucos os juristas que apontaram excessos nos métodos dos procuradores. A diferença é que, até a Vaza Jato, era Curitiba que dava o tom das coberturas, distribuindo “furos de reportagens”, muitos deles, vazamentos calculados para garantir uma repercussão positiva de suas ações. É preciso lembrar que eles não inventaram a roda. Os vazamentos de informações e as relações de cumplicidade entre jornalistas e suas fontes sempre existiram. A diferença é que, a partir das reportagens da Vaza Jato, foi a Lava Jato que teve que correr atrás do noticiário.

E não demorou muito para que o Ministério Público Federal fechado com a Lava Jato corresse atrás do The Intercept. A Procuradoria-Geral da República denunciou Greenwald e seis hackers pelo roubo das informações. A acusação trouxe de volta o debate sobre o sigilo de fontes, um princípio garantido pela Constituição. Coube ao ministro do Supremo Gilmar Mendes proibir que Greenwald fosse investigado ou responsabilizado pelos dados hackeados. Ainda há capítulos soltos na história. Dois acusados pelo vazamento dos dados, os hackers Walter Delgatti Neto e Thiago Eliezer, que estavam presos desde o ano passado, foram soltos no final de setembro por “excesso de prazo”, devido a anulações de audiências na ação penal na qual são réus. Hoje, aguardam em liberdade, mas sem poder acessar à Internet.

Para se proteger do acosso, o livro mostra que o Intercept conseguiu fazer algo inédito, colocar profissionais concorrentes trabalhando em uma mesma base de dados. Como a pressão da Lava Jato e seus apoiadores era grande sobre o veículo, o site optou em dividir o risco e ganhar escala de produção, ao compartilhar o material. Foi assim que EL PAÍS, Folha de S. Paulo, Veja, Agência Pública, Buzzfeed News, UOL e Band News passaram um tempo no Rio, trabalhando dentro da redação do Intercept, aos pés da movimentada Escadaria Selarón, mergulhados na montanha de material. Estive lá e é verdade que os jornais não competiam entre si. “Quem levantasse a mão primeiro levava”, explicou a editora Paula Bianchi no livro, sobre o modelo de divisão de assuntos, que foram loteados por ordem de chegada.

O Intercept sempre deu o tom dos trabalhos, o que não impediu conflitos, especialmente pelo que, à primeira vista, parecia um excesso de zelo. “A preocupação com a segurança era tanta, e incluía tantos diferentes cenários de risco, que virou até piada na redação. Nascia ali a ‘Editoria de Paranoia”, conta o livro, que ressalta que tinha jornalista parceiro que chegava a trocar de hotel todos os dias no período em que esteve trabalhando no Rio, temendo ser alvo de escutas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Passado o impacto com as regras de segurança ― não discutir as reportagens perto de celulares e não abrir a Internet nos computadores onde eram acessados os arquivo, por exemplo ―, cada repórter tinha acesso ao arquivo de mensagens, e poderia levar para casa as informações pesquisadas em pen drives criptografados.

Essa tensão se refletia na equipe do Intercept. A primeira vez em que Marina Rossi e eu visitamos o jornal, notamos que a turma era estranhamente quieta para uma redação tão jovem. Com o tempo, e a convivência, entendemos que não era uma questão de clima do local de trabalho: aqueles jornalistas viviam um momento de grande apreensão pelos efeitos adversos das reportagens.

O livro fala das ameaças e de episódios como o do Pavão Misterioso, uma conta no Twitter aberta uma semana após a publicação da primeira reportagem que prometia desmascarar a Vaza Jato. A denúncia que mais reverberou nas redes foi de que o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), marido de Glenn Greenwald, teria comprado o mandato de Jean Wyllys por 700 mil dólares, mais uma mesada. O presidente Jair Bolsonaro chegou a sugerir Greenwald tinha pago para receber as mensagens que publicou, e que talvez pegasse uma “cana aqui no Brasil”. E o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro abriu uma investigação sobre movimentos atípicos na conta bancária de Miranda, que tratou o episódio como uma tentativa de retaliação.

Apesar de abordar diversos aspectos da Vaza Jato, o livro não tenta ser uma obra definitiva, nem poderia. Dois documentários ainda estão sendo realizados sobre a investigação, um pelo cineasta José Padilha ―curiosamente, o mesmo que dirigiu a série O Mecanismo, da Neftlix, considerada uma ode à Lava Jato―, e outro pela cineasta Maria Augusta Ramos ―que dirigiu O Processo, documentário sobre impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. A obra Vaza Jato – os bastidores das reportagens que sacudiram o Brasil, com a reportagem de Letícia Duarte e uma seleção das reportagens da cobertura, funciona mais como um retrato de uma das possíveis dimensões sobre essa investigação que ainda está em curso.

A pandemia refreou os ânimos, mas, semanalmente, a equipe do Intercept ainda vasculha o extenso arquivo em busca de outros achados. Duas reportagens inéditas ―que não estão no material divulgado para a imprensa, incluindo os parceiros― fazem parte do livro. Mas outros capítulos virão. O mais aguardado é o julgamento no Supremo da suspeição de Sergio Moro, no qual as mensagens da Vaza Jato tem um papel importante. Iniciado em dezembro de 2018, o julgamento foi paralisado após um pedido de vista de Gilmar Mendes.

A maior dúvida, no entanto, é sobre o próprio futuro da Lava Jato. O presidente Bolsonaro afirmou recentemente que acabou com a operação porque em seu Governo “não tem mais corrupção”. Voltou atrás, e se justificou, mas isso foi antes do dinheiro na cueca do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do Governo no Senado. E o que virá depois, no Brasil de 2020, certamente é uma incógnita.

 

 
 
 

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