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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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27
Abr20

Sergio Moro: O paladino dos pés de barro

Talis Andrade

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A rede de televisão com maior popularidade no país, alcançada através de telenovelas que ocupam mais de 60% da grade de programação, tem completo know-how de como transformar atores medíocres em ídolos populares

por Marcio Tenenbaum

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A passagem bíblica da Torre de Babel comporta algumas interpretações acerca do comportamento humano. Após o Dilúvio, Deus determinou que as mulheres e os homens povoassem toda a terra, o que não foi cumprido pelos habitantes de Babel. Ao contrário da determinação divina, os sobreviventes do Dilúvio decidiram permanecer em uma mesma região de forma concentrada, falando uma mesma língua até que, tomados por grande força coletiva, resolveram construir uma torre que chegaria aos céus. A leitura tradicional desta passagem é que Deus, discordando da soberba humana que pretendia chegar tão alto, espalha diversos idiomas entre todos fazendo com que os habitantes daquele local não mais se entendessem e se dispersassem.  Outra interpretação aponta para a possibilidade de que os habitantes de Babel concentraram tanto poder que se aventuraram a construir algo grandioso, mas acima de suas reais capacidades, o que acabou por gerar os conflitos que resultaram na desunião e na dispersão.

A pitoresca passagem bíblica nos ajuda a compreender o processo da demissão de Sergio Moro do governo Bolsonaro, cujos fatos também podem ser interpretados a partir das famosas frases populares: “muito barulho por nada” ou ainda “uma tempestade em copo d’água”. Se Freud nos ensinou que somos muitos menores do que pensamos ser, ou, melhor, somos muito menos do ideal que fazemos de nós mesmos, o pé na realidade é fundamental para o caminho que desejamos trilhar. E, neste caminho, é saudável a aspiração de nos transformamos, de nos reinventarmos no processo de criação que fazemos desde o dia em que nascemos. No entanto, para que um processo da saudável criação ou recriação de nós mesmos seja levado a um bom destino, é fundamental conhecermos não só a estrada por onde caminhamos, mas qual tijolo dessa construção existencial é de fato genuinamente nosso, e qual tijolo é contrabandeado das forças que nos cercam e que nos dão uma sensação ilusória de que somos mais poderosos do que de fato somos. O erro de Moro foi não identificar que os tijolos que o sustentavam eram fruto de uma criação midiática da imprensa brasileira.

Juiz de uma vara Criminal de Curitiba, Moro é alçado a ídolo nacional do combate à corrupção, cuja origem remonta à investigação de esquema de lavagem de dinheiro em uma rede de postos de combustível. Surge, aí, o nome de um doleiro conhecido seu, também de Curitiba, Alberto Youssef, fazendo com que a investigação fosse levada àquela cidade. Por intermédio de escutas telefônicas, são reveladas ligações do doleiro com um diretor da Petrobrás e o fio da meada se desenrola. A maior rede de televisão do país, a Rede Globo, percebe a oportunidade de mais uma vez, à semelhança do mensalão alguns anos antes, vincular o Partido dos Trabalhadores, que estava no poder, a um esquema de corrupção. Ainda que nos desdobramentos das investigações tenham surgido fatos que poderiam levar o processo para outras comarcas, ficava cada vez mais claro que para a imprensa era fundamental a manutenção do processo nas mãos do juiz paladino. Fortalecendo esse objetivo,  a Rede Globo apresentava diariamente em horário nobre, durante o Jornal Nacional, matérias sensacionalistas das investigações determinadas pelo juiz que vinham associadas à imagens de dinheiro saindo de dutos de petróleo: prisões preventivas de empresários e políticos próximos ao governo – todas previamente comunicadas aos repórteres para serem filmadas e transmitidas no jornal da noite; áudios de escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, também vazados e ilegalmente encaminhados à televisão; áudios de conversas entre o ex-Presidente Lula e a Presidenta Dilma, também ilegalmente divulgados e obtidos em horário cuja autorização judicial já havia expirado; imagens de depoimentos na sala de audiência da Vara de Curitiba com a presença do juiz intimidando os depoentes. Tudo isso era o caldo de cultura necessário para colar a imagem de paladino e justiceiro em um juiz desconhecido da grande maioria do povo brasileiro.

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A rede de televisão com maior popularidade no país, alcançada através de telenovelas que ocupam mais de 60% da grade de programação, tem completo know-how de como transformar atores medíocres em ídolos populares. Afinal, esta é a sua atividade principal há mais de 50 anos. Um dos diretores da televisão Globo disse em uma entrevista que o meio de fazer com que o povo fixasse o enredo e os diversos personagens da novela era repetir diariamente os mesmos diálogos, mas em cenários diferentes. Se alguém deixar de ver a novela por alguns dias ou mesmo semanas, retornando posteriormente, pode, sem dificuldade, recuperar o desenrolar da história. A repetição, dia após dia, das operações da Lava Jato com os mesmos enredos de prisões previamente avisadas à televisão, áudios, delações, fixou nos corações e mentes do povo brasileiro a imagem de Sergio Moro como o herói solitário da luta contra a corrupção, travada exclusivamente por ele sem nenhum outro concorrente. E, o mais importante: apenas ele seria capaz de manter essa luta até o final. A imagem que se construía do juiz paladino é que não havia nenhum outro magistrado no país tão corajoso diante da corrupção. Mas, na realidade, o receio da Rede Globo, principal braço midiático da direita e da extrema-direita, era que a hipótese de divisão das investigações com outros juízes, que eventualmente pudessem ter uma visão mais garantista dos processos judiciais – respeitassem os trâmites legais, os direitos individuais dos presos, não aceitassem prisões preventivas ad infinitum ou até que o detido fizesse alguma delação com relatos que incriminassem seus opositores políticos –  acabasse por enfraquecer a grande luta que estava por trás deste roteiro de filme B: destruir o maior partido político de esquerda e sua maior liderança, Luiz Inácio Lula da Silva. Na realidade, nada muito diferente do que a emissora de televisão tenha feito nos últimos 70 anos da história brasileira, sempre se aliando aos setores nacionais e estrangeiros no intuito de destruir qualquer líder popular que tivesse um projeto de soberania nacional. Sergio Moro foi um instrumento dessa destruição, um instrumento consciente, lúcido, que sabia exatamente o que estava fazendo. Não tinha nenhuma dúvida, principalmente como juiz criminal por 22 anos, que quase todos os procedimentos que adotou na Lava jato eram ilegais. Sabia exatamente que a criminalização de Lula e sua prisão ilegal por absoluta falta de provas retirariam o maior líder das esquerdas das eleições presidenciais de 2018, abrindo caminho para a direita e para a extrema-direita. O erro de Moro foi acreditar que tinha voo próprio, que não era uma criação midiática, que o apoio popular não era fruto de uma construção televisiva, mas de um trabalho cujo mérito era exclusivamente seu. A onipotência do paladino o impediu de perceber a armadilha que Bolsonaro lhe armou ao propor a saída do diretor-geral da Polícia Federal. A real intenção do presidente era se livrar do seu Ministro da Justiça, enfraquecendo um possível concorrente nas eleições presidenciais de 2022. À semelhança dos habitantes de Babel, que decidiram dar passos maiores do que suas próprias pernas, Sergio Moro perceberá, bem mais cedo do que imaginávamos, que seus pés estão apoiados no barro e, como a Torre, ruirá e cairá no esquecimento. O papel de vítima que o ex-ministro tenta agora construir, esquecendo de todas as ilegalidades por ele perpetradas nos julgamentos da Lava-Jato, nos lembra um outro ditado popular: quem com porcos se mistura, farelos come.

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