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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Mai20

A falsa fé nos militares

Talis Andrade

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De onde vem a confiança inabalável de que as Forças Armadas podem pôr ordem na casa? Tropas e tanques podem até abafar crises e garantir certa ordem, mas não são capazes de solucionar problemas estruturais

 

por Astrid Prange

Deutsche Welle

- - -

Caros brasileiros,

ainda se lembram da Operação Rio? Com essa "operação", o então governador do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, queria combater a violência nas favelas da cidade maravilhosa. Em outubro de 1994, mandou tanques e tropas do Exército brasileiro aos morros. Depois de sete meses, desistiu. A "operação" era cara demais e não foi capaz de diminuir o tráfico e a violência.

Desde então, me pergunto: de onde vêm a confiança e a fé inabalável de que as Forças Armadas podem colocar ordem na casa? Será que é um sinal de desespero?

Até hoje, as Forças Armadas se mantêm como a instituição em que a população brasileira mais confia. Segundo uma pesquisa do instituto Datafolha de julho de 2019, 42% dos entrevistados disseram confiar muito nos militares, 38% confiam um pouco, e 19% não confiam.

Desde o fim da ditadura militar, as Forças Armadas foram chamadas inúmeras vezes para "socorrer" o país: no combate ao crime organizado, na Copa, nas Olimpíadas, nas UPPs, para expulsar garimpeiros de reservas indígenas. E, agora, na crise do coronavírus: o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pediu "ajuda" dos militares a fim de reduzir a circulação de pessoas nas ruas.

Mas apesar de todos esses gritos de socorro, o crime organizado continua aterrorizando a população nas comunidades das grandes metrópoles. A invasão de garimpeiros em reservas indígenas progride, assim como a grilagem e o desmatamento ilegal na Floresta Amazônica. E, claro, as infecções por coronavírus não vão parar com o Exército nas ruas.

balanço dos militares na história recente do Brasil não é dos melhores. Após 25 anos no poder, eles entregaram o país altamente endividado, com hiperinflação, educação pública falida e alto desemprego.

As "obras faraônicas" do "Brasil Grande", entre eles a rodovia Transamazônica, o projeto de celulose de Jari e as usinas nucleares de Angra, fizeram a dívida externa do país estourar, e custam caro ao Brasil até hoje. A "década perdida" foi uma herança pesada para a transição democrática.

Além da dívida econômica, também a repressão política e a violação de direitos humanos durante a ditadura deixaram a sociedade marcada, e as famílias das vítimas, traumatizadas. O trabalho da Comissão Nacional da Verdade não causou um grande debate nacional, os crimes contra direitos humanos não foram punidos, e as velhas narrativas sobre os militares e um suposto passado melhor continuam. O "milagre brasileiro" se sobrepõe à repressão política, ao inchaço do setor público e à corrupção.

As experiências mais recentes com operações militares também não foram muito promissoras. Ficou evidente que tropas e tanques podem até abafar crises e garantir uma certa ordem, mas não são capazes de solucionar problemas estruturais. Sem projeto político, visão estratégica e diálogo com a sociedade, esses problemas são empurrados para a frente e estouram na próxima ocasião com mais impacto ainda.

Parece que as Forças Armadas entenderam isso melhor do que o próprio presidente e seus seguidores, que participaram recentemente de protestos a favor da intervenção militar na frente do Quartel-General do Exército em Brasília.

Pode ser uma ironia do destino que um capitão reformado perca o apoio justamente dos militares que ele mesmo chamou para compor seu gabinete. E em vez de uma intervenção militar, os militares venham a intervir pela democracia. Nunca imaginei que um dia chegaria a esse tipo de raciocínio.

 

21
Set19

Ágatha, 8 anos. Nem a primeira nem a última morte de uma guerra perdida

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Morreu esta madrugada a menina Ágatha Félix, atingida nas costas por um tiro de fuzil, na noite de ontem, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, dentro de uma Kombi de “lotação”.

Haverá comoção, reportagens dramáticas, pais e parentes revoltados, às lágrimas, como é humano frente a algo tão desumano quanto matarem uma criança de 8 anos, como ela.

Mas o sacrifício de Ágatha, infelizmente, durará tanto quanto as antiga e famosa “rosa de Malherbe”. Durará, como duram as rosas, uma breve manhã, escreveu um poeta francês, para consolar um amigo pela morte da filha.

Mas a guerra que a matou, logo, logo, vai se retomar, com o resultado que tem há 30 anos: terror, morte e dor, como a do avô da menina, Aílton Félix:

— Quem tem que dar informações é quem deu o tiro nela. Matou uma inocente, uma garota inteligente, estudiosa, obediente, de futuro. Cadê os policiais que fizeram isso? A voz deles é a arma. Não é a família do governador ou do prefeito ou dos policiais que estão chorando, é a minha. Amanhã eles vão pedir desculpas, mas isso não vai trazer minha neta de volta.

O Complexo do Alemão já teve milhares de operações policiais, várias ocupações pela PM e até militares das Forças Armadas – desde os anos 90. A maior delas durou anos, a partir de 2010 e nem é preciso dizer o quanto foram, além de brutais, inúteis.

E a razão é simples: armas e drogas, tudo isso dá lucros. Não apenas aos traficantes, mas a policiais e ex-policiais enfiados até o pescoço no tráfico de ambas.

E há outros lucros, os políticos. Desde a gratificação “faroeste” de Marcello Alencar – pagando mais ao PM que matasse mais – ao “mirar na cabecinha” de Wilson Witzel, os dividendos da “guerra” sempre renderam muito aos governantes que se promoviam e se promovem com o combate que sabem cruel e perdido.

Não lhes importa, o que importa é que a estupidez triunfe.

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Witzel indo à posse de Bolsonaro. Levando Bretas de bigu

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Witzel na posse do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, líder da extrema direita

 

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