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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

24
Jan23

Tristeza, vergonha, crimes e fome: Bolsonaro precisa pagar pelas vidas yanomamis

Talis Andrade

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Protesto indígena nos tempos de cólera Bolsonaro presidente

 

Se, diante de tudo isso, não conseguirmos conduzir um processo severo na justiça contra Bolsonaro, teremos fracassado como sociedade

 

por Clarissa de Franco

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Nesta semana vieram ao grande público imagens que nos remeteram a países como Etiópia, Sudão, Zambia, Congo, países que carregam a marca de constarem no mapa da fome mundial. Tomar consciência da realidade dos yanomamis em Roraima. 11 mil casos de malária, desnutrição, síndrome respiratória aguda, verminoses, grave insegurança alimentar, contaminação por mercúrio, falta de medicamento e de assistência de saúde... a lista das mazelas é enorme e assusta.

Assusta ainda mais é saber que 21 ofícios foram enviados ao governo Bolsonaro e o que foi feito foi justamente liberar ainda mais as terras indígenas para o garimpo ilegal. Em julho de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro promoveu vários vetos ao Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos territórios indígenas, tendo vetado, inclusive pontos que previam o acesso das aldeias a leitos hospitalares, à água potável, a materiais de higiene, entre outros. 

 Não se pode dizer que Bolsonaro nos apresentou uma farsa quanto a este tema. Foi tudo bem explícito, na verdade. Em 2017, anunciou que, se dependesse dele não seria demarcado “nenhum centímetro” de terra indígena. Durante a campanha presidencial em 2018, ele foi bem claro, afirmando: “Não podemos ter ambientalismo xiita no Brasil. Vamos acabar com a indústria da demarcação de terras indígenas”. Chamando, portanto, a demarcação de território indígena de indústria e o ambientalismo que protege os povos originários de xiita, Bolsonaro nos forneceu ao longo de anos, aulas de como o Estado pode se tornar uma ferramenta de genocídio histórico, cultural, político, patrimonial, ambiental, e em última instância, humano. Tudo na nossa frente. Queimadas, garimpos, desmatamentos, assistimos à legalização da morte, enquanto o mundo retirava apoio financeiro para proteger a Amazônia e fazia do Brasil um alvo de chacota pública por termos eleito um representante do nível Bolsonaro. 

Rita Segato, uma grande pesquisadora decolonial argentina que atuou durante anos no Brasil, na UNB, apontou que o contato de garimpeiros, madeireiros e empreiteiros com os povos indígenas produz uma série de adoecimentos e violências no ecossistema indígena. O olhar colonizador do homem branco que depreda a terra vê a mulher indígena e seu corpo também como um território a ser dominado, invadido, violado, violentado. Além da violência explícita, a sexualização da nudez, torna-se um legado simbólico difícil de ser apagado. 

Para os indígenas, os mal tratos e as violências ao território representam violar uma parte fundamental e vital de seu povo, já que a terra é uma extensão de sua existência. Não há vida indígena sem terra. E não há Brasil sem indígenas.  O que temos assistido como efeitos catastróficos do governo da necropolítica é o desprezo pela nossa história e pelas nossas vidas. Se, diante de tudo isso, não conseguirmos conduzir um processo severo na justiça contra Bolsonaro, teremos fracassado como sociedade. 

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Passando a boiada
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Jornalistas Livres
@J_LIVRES
Polícia Federal revela o mandante dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips. Segundo a PF, Rubens Villar Coelho, conhecido como "Colômbia", mandou matar o indigenista brasileiro e o jornalista britânico em junho do ano passado no Vale do Javari, no Amazonas
Amazonas.
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23
Jan23

'Ando doido pra morrer': 20 anos depois, a dor de quem continua a conviver com a fome

Talis Andrade

 

Por Fantástico

Uma reportagem especial do Fantástico mostrou o sofrimento de quem passa fome no Brasil nos últimos 20 anos. Em 2001, os repórteres Marcelo Canellas e Lúcio Alves conversaram com Maria Rita, a lavadeira que morreu de fome 15 dias depois da entrevista ao Jornal Nacional. Duas décadas depois, eles voltaram a Araçuaí (MG) e conversaram com João da Conceição, primo de Maria, e a esposa dele, Maria Aparecida. De lá pra cá, pouco ou nada mudou [Aconteceu o golpe contra Dilma Roussef. E com os presidente Michel Temer e Jair Bolsonaro a fome morte severino voltou. A fome braba]

Tudo o que eles têm para passar o mês cabe numa caixa de papelão: feijão, farinha, arroz e óleo. A conta atrasada chega em forma de ameaça. Aos 74 anos, João não suporta tamanha incerteza.

“Fica difícil, né? Eu ando doido pra morrer. Eu morrendo, descanso. Descanso dessa vida. Leva pra onde Deus quiser”, diz.

 

João e Maria Aparecida — Foto: Fantástico

João e Maria Aparecida — Foto: Fantástico

Abatido pela velhice e pela doença, João não consegue mais trabalhar na roça e nem tirar o sustento da terra, como faz Maria, agricultora de um assentamento no interior de Alagoas.

 

24
Dez22

Os comedores de ouro: Reflexões pré-natalinas

Talis Andrade

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por Marcia Tiburi

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O Natal está chegando e ninguém que tenha vergonha e senso de comunidade comerá sua ceia, caso tenha a chance de ter uma, sem vergonha e sem lembrar dos recentes comedores de ouro.

Em meio à Copa do Mundo ocorrida no Catar, a cena chocou muita gente. Um grupo de jogadores convidados por um ex-jogador chamado Ronaldo, alcunhado de “o fenômeno”, foram a um restaurante de carnes onde se serve um bife salpicado de ouro. Houve quem tenha interpretado a cena à luz do neoliberalismo dizendo que eles tinham o direito de comer o que podiam pagar, outros acharam que jogadores brasileiros comendo um bife pelo qual se paga milhares de reais enquanto o Brasil volta ao mapa da fome, era algo absolutamente indigesto.

Ninguém se preocupou com a « politica sexual da carne », que não é um assunto menor, sobre o qual falarei em outro momento. Por enquanto, saibamos apenas que o show era também de horrores machistas e patriarcais. O frisson do futebol é parte essencial do culto patriarcal do macho.

A derrota combinou muito com a seleção atual e o capitalismo esportivo e recreativo como moral da história.

De outro lado, a indústria cultural da alimentação tenta escamotear a desigualdade de classes inventando falsas democracias alimentares como o McDonalds (lixo consumível para todos), enquanto a resistência se faz vegana, vegetariana ou se volta à agricultura agroecológica.

Enquanto o capitalismo segue em seu exercício de dominação amparado pelo patriarcado monoteísta em sua pose de “dominação e devoração da carne” sobre os corpos e seus órgãos, sem jamais esquecer o estômago, o universo gourmet na era do espetáculo, acrescenta a ostentação ao cardápio deixando evidente que vivemos uma luta de classes, na qual os ricos estão em guerra contra os pobres que, perplexos e lançados no estupor diante de imagens humilhantes, seguem hipnotizados para o abatedouro.

No espirito do Natal, gostaria de sugerir as seguintes imagens:

As ilustrações abaixo referem-se à auri sacra fames, a execrável fome de ouro de que falava Virgilio na Eneida e que Max Weber chamou de “pulsão pecuniária”.

Na primeira imagem, Waman Poma de Ayala, cronista inca do século XVI, mostra um Inca perguntando a um espanhol: “Esse ouro, comes?” E o espanhol responde: “Sim, esse ouro comemos”. A filósofa boliviana Silvia Cusicanqui, atribui a derrota vivida por milhares de Incas a um exército de menos de 150 homens espanhóis a cavalo, ao estado de estupor no qual os indígenas foram deixados diante desses seres, os colonizadores, que não comiam alimentos humanos.

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A segunda se chama “CEOs ou Os comedores de Ouro I” e faz parte do que podemos chamar de « Surrealismo Capitalista ».

 

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 A terceira “Alegoria da América ou Os comedores de Ouro 2”, sendo, este último, uma releitura da obra Conquista da América, (em Nova Reperta, c. 1600, Gravura de Philips Galle, 27 x 20 cm, The Metropolitan Museum of Art). Ambas são obras da autora desse artigo que nos últimos anos acabou se tornando artista plástica.

 

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05
Dez22

É hora de abrir a caixa-preta do governo Bolsonaro

Talis Andrade

Twitter 上的 Humor Político:"Caixas pretas por Roque Sponholz  #GovernoBolsonaro #BNDES #caixapreta #combateacorrupção #charge #cartoon  #humor https://t.co/zPbNTJrFD2" / Twitter

 

 

Agência Pública: Precisamos do seu apoio para revelar os segredos que o governo escondeu da população

 

A Pública lança hoje a mais ousada campanha de arrecadação de recursos da sua história. Realizamos esse tipo de campanha desde 2013 e, ao longo da nossa trajetória, nunca nos faltou o apoio de leitoras e leitores que acreditam no nosso trabalho.

Agora, sendo direta: a Pública vai abrir a caixa-preta de Bolsonaro. E você precisa fazer isso com a gente. Quero te explicar o que faremos a partir de três pontos. Olha só:

 

1. Por que abrir a caixa-preta de Bolsonaro? Nos últimos quatro anos, o governo Bolsonaro ​​empurrou o Brasil para o abismo. Ele nos devolveu para o Mapa da Fome, ignorou uma pandemia, atrasou a compra de vacinas, desmatou a Amazônia, sucateou o país e atacou a democracia por todos os lados. Só que muitos desses crimes ainda não foram descobertos, porque eles também se especializaram em mentir. Os segredos desse governo estão guardados a sete chaves por trás do sigilo de 100 anos e de outras táticas de sonegação de informação. 

Agora, estamos vendo com enorme preocupação crescer em diversos setores um papo bem estranho de “pacificação” do país. Esse discurso ganhou projeção depois que o Ministro do STF, Dias Toffoli, criticou o julgamento dos torturadores na Argentina e falou em “sociedade presa no passado”. Isso é perigosíssimo. Na verdade, o momento atual é provavelmente nossa última oportunidade de acerto de contas com nosso passado violento, autoritário e profundamente corrupto. Precisamos acertar as contas para que os algozes da democracia sejam responsabilizados, mas também para que não voltem nas próximas eleições de roupa nova. Exatamente como aconteceu em 2018.

 

2. Como a Pública vai abrir essa caixa-preta? A verdade é que só o jornalismo independente pode revelar esses segredos. Porque as instituições de Estado sozinhas não farão. O jornalismo tem força para investigar, denunciar e expor conchavos de maneira a mobilizar a sociedade e, com isso, gerar pressão. A Pública é a maior agência de jornalismo investigativo do Brasil, ninguém investiga como a gente. Nosso trabalho é respeitado mesmo por aqueles que nos odeiam. Sério! Por isso temos fontes na direita, no judiciário, entre militares e na administração pública. Então, elaboramos um plano de ação e pretendemos, ao longo de 2023, publicar uma série de reportagens em um especial que decidimos chamar de Caixa-preta de Bolsonaro. 

 

3. E o que você tem a ver com isso? Bom, a decisão de mergulhar de cabeça no histórico do governo Bolsonaro mexeu com tudo por aqui, inclusive nas nossas contas. Vamos precisar colocar mais gente pra trabalhar, algumas exclusivamente nisso. Vamos precisar gastar mais do que o previsto com viagens e, claro, com a banca de advogados. Não dá para mexer com grileiros, mineradoras, políticos, militares e empresários de extrema direita sem eles, infelizmente. Fizemos as contas e precisamos chegar a 2 mil apoiadores até janeiro – no momento, temos pouco mais de 1500. Nosso pedido é que você clique aqui e apoie a Pública mensalmente com o valor que puder. Tudo que recebermos nas próximas semanas será totalmente investido nesse projeto especial. 

O trabalho que queremos colocar na rua nos próximos meses é uma cobertura de fôlego que já começou. Nas últimas semanas protocolamos dezenas de pedidos através da Lei de Acesso à Informação – e até o final de janeiro queremos chegar às centenas. Não temos esperança de que eles sejam respondidos agora, mas janeiro está logo aí. Às vezes parece que basta derrubar o sigilo de tudo que a mágica acontece. Mas não é assim que funciona. 

Quando documentos, resoluções e outras coisas que estavam escondidas vierem à tona, teremos um trabalho imenso para apurar, interpretar e de fato transformar tudo em reportagens. Como exemplo, pense numa coisa simples: os gastos dos cartões corporativos. Serão planilhas com intermináveis linhas. Na minha mão ou na sua, isso não tem muito sentido. É preciso separar, organizar, somar e apurar o que é cada gasto para daí termos dimensão do problema. Vamos precisar ir atrás de dezenas de empresas onde esses cartões foram usados para identificarmos o tipo de gasto e qual era o objetivo dele. 

Até poucos dias, estávamos convencidas de que faríamos isso dentro do dia a dia da redação. Mas ao ver crescer o discurso da “pacificação”, nos demos conta do tamanho da missão que Pública tem nesse contexto. Não dá para fazermos o de sempre, vai ser preciso fazer o inimaginável. Vamos precisar de uma equipe dedicada a esse trabalho nos próximos meses, e é por essa razão que vamos precisar ampliar e muito o apoio que já recebemos dos nossos leitores e leitoras.

Falei lá em cima que Pública é respeitada por sua confiabilidade. Tenho orgulho disso, mas o que mais me alegra é notar que somos reconhecidas pela nossa valentia. Nossa história ficou marcada por fazermos jornalismo independente de verdade: livre, sem deixar de ser sério; destemido, mas competente e comprometido com os direitos humanos. 

Todos os dias as reportagens de Pública são reproduzidas em milhares de veículos no Brasil e no exterior, sempre de maneira gratuita. É com essa força que queremos abrir a caixa-preta de Bolsonaro para milhões de leitores no mundo inteiro. Suportamos esses quatro anos com muito sacrifício, agora é hora de responsabilizar os perversos que conduziram esse país para as trevas. 

Sabemos como fazer isso. E a sua contribuição é fundamental para que isso aconteça. Precisamos chegar a 2 mil doadores hoje. Clique aqui para apoiar o jornalismo valente da Pública hoje!

Caixa preta do BNDES era mais uma fake news de Bolsonaro 📰 - YouTube

27
Out22

Fome se espalha: 26% dos brasileiros não têm comida suficiente em casa

Talis Andrade

 

Um a cada quatro brasileiros não têm comida garantida para alimentar diariamente a família. É o que aponta pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (27) pela Folha de S.Paulo e reveladora da insegurança alimentar no País.

Nos últimos anos, sob o governo Jair Bolsonaro e com o quadro de pandemia, a fome se espalhou. De acordo com o Datafolha, 26% dizem não ter comida o suficiente em casa. Apenas 12% têm mais do que o suficiente.

O cenário de insegurança alimentar está em alta desde que o Datafolha passou a pesquisar esse tema, em maio de 2021. Mesmo com os refluxos da crise sanitária e a reabertura da economia, a falta de alimento nos lares brasileiros não retrocedeu.

A situação é ainda pior para quem não tem emprego e para as camadas mais pobres da população: falta comida a 42% dos desempregados e a 38% dos que ganham até dois salários mínimos (R$ 2.424).

Na comparação entre as regiões, o problema é maior no Nordeste (32%) e no Norte (30%). Mesmo no Sudeste, região menos atingida, embora mais populosa, a escassez de comida chega a 22% dos moradores.

A Folha lembra outros dados que confirmam a crise alimentar no País. “Em uma cidade como São Paulo, a renda dos 5% mais pobres não é suficiente para comprar dois pratos feitos ou 1 quilo de carne por mês”, registra o jornal. “Além disso, 33 milhões de pessoas passam fome no País, segundo apontou a segunda edição do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil – um patamar semelhante ao que havia sido registrado há três décadas.”

O Datafolha ouviu 2.556 brasileiros, presencialmente, em 181 cidades, nos dias 22 e 23 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

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13
Out22

BRASIL EM CRISE – COMO BOLSONARO E PAULO GUEDES EMPOBRECERAM O PAÍS

Talis Andrade

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1. TUDO CARO, DESDE ANTES DA PANDEMIA. E COM BOLSONARO, O BRASIL TEVE UMA DAS MAIORES INFLAÇÕES DO MUNDO


Bolsonaro constantemente culpa a pandemia pela inflação no país, mas os preços já estavam aumentando desde 2019. Os constantes ataques de Bolsonaro à ordem democrática e sua condução desastrosa na pandemia levaram o país a uma crise econômica sem precedentes. Hoje, o Brasil tem uma das maiores inflações do G20, a maior em quase 30 anos. O povo ficou sem dinheiro para comida, e passou a comprar botijão de gás parcelado.

    1. Com carne cara, Bolsonaro sugere: "Compre 1kg de tainha e ganhe 1 tubaína" (UOL, dezembro de 2019)
    2. Inflação oficial fecha 2019 em 4,13% e fica acima do centro da meta (G1 Economia, janeiro de 2020)
    3. Preço da carne subiu 32,4% em 2019 (Congresso em Foco, janeiro de 2020)
    4. IPCA: preço da carne foi responsável pelo aumento da inflação em 2019 (Agência Brasil, janeiro de 2020)
    5. Feijão, arroz e carne: prato feito fica 43,4% mais caro em 2020 (Correio do Povo, fevereiro de 2021)
    6. Inflação já é quase o dobro da registrada no 1º ano de Guedes (R7, outubro de 2021)
    7. Inflação no Brasil é a 3ª maior entre as principais economias do mundo. Ranking mostra variação de preços em território nacional em 2021 atrás apenas da Argentina e da Turquia (R7, janeiro de 2022)
    8. Em três anos, cesta básica fica 48% mais cara e itens sobem até 153%. O aumento de preços no grupo de alimentos essenciais para o brasileiro foi o dobro da inflação acumulada no mesmo período (R7, março de 2022)
    9. O preço do gás chega a R$ 150 e revendedores parcelam botijão em São Paulo. (Folha de S. Paulo, março de 2022)
    10. Brasil registra para março a maior inflação em 28 anos. Preços subiram 11,30% no acumulado dos últimos 12 meses (Agência Brasil, março de 2022)
    11. Com a inflação acelerada, brasileiros perdem conquistas que vieram com o Plano Real (Estadão, abril de 2022)
    12. Brasil tem a maior inflação dos últimos 26 anos em um mês de abril (G1, maio de 2022)
    13. Aumento nos preços dos alimentos pesa sobre poder de compra do salário mínimo (Valor Investe, agosto de 2022)
    14. Brasil tem 4ª maior inflação entre principais economias (Folha, agosto de 2022)

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2. CULPA DE BOLSONARO E PAULO GUEDES, QUE ATUARAM PARA DEIXAR O DÓLAR MAIS CARO E DESVALORIZAR O REAL. COM DÓLAR ALTO, TUDO FICA MAIS CARO

Um dos principais causadores da inflação no país é a alta do dólar (trigo, arroz, carne, gasolina e café são cotados em dólar). Bolsonaro, através de seus constantes ataques à democracia, junto a Paulo Guedes, promoveram a desvalorização do real e mantiveram o dólar caro ao longo de todo o governo. O próprio Guedes afirmou, diversas vezes, que a desvalorização do real era proposital. E quem ganha com isso? Paulo Guedes, com sua offshore, e meia dúzia de exportadores do agronegócio, que criam pouquíssimos empregos e que se beneficiam com o dólar nas alturas. Enquanto isso, o povo, sem dinheiro, passa fome no Brasil.
 
Dólar em 04/01/2019: R$3,71

    1. Dólar bate recorde no governo Bolsonaro e BC atua para conter alta (Correio Braziliense, maio de 2019)
    2. Dólar ultrapassa R$ 4,18 e atinge 2º maior valor desde a criação do real (Poder 360, novembro de 2019)
    3. 'É bom se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo', diz Guedes (Estadão, novembro de 2019)
    4. Declarações de Guedes causam novo recorde no dólar (Correio Braziliense, novembro de 2019)
  • Dólar em 03/01/2020: R$4,07
    1. Brasil registra em 2019 a maior saída de dólares nos últimos 38 anos (Poder 360, janeiro de 2020)
    2. Guedes, sobre dólar alto: "empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada" (Valor, fevereiro de 2020)
    3. Se eu fizer muita besteira, dólar pode ir a R$ 5, afirma Guedes (Valor, março de 2020)
    4. Dólar fecha acima de R$ 5 pela 1ª vez na história (Folha, março de 2020)
    5. Real é a moeda com o pior desempenho no mundo em 2020 (G1, outubro de 2020)
  • Dólar em 01/01/2021: R$5,19
    1. Real é a moeda mais desvalorizada dentre os países emergentes durante a pandemia (iG, abril de 2021)
    2. Valorização do dólar pressiona inflação e encarece itens de consumo (Correio Braziliense, setembro de 2021)
    3. Real está entre 40 moedas com pior desempenho ante dólar em 2021 (CNN, outubro de 2021)
    4. Paulo Guedes tem offshore ativa em paraíso fiscal (Poder 360, outubro de 2021)
    5. Fortuna offshore de Paulo Guedes aumentou R$ 14 milhões com alta do dólar (O Povo, outubro de 2021)
    6. Guedes diz que dólar alto é bom para estimular investimentos no Brasil (UOL, novembro de 2021)
  • Dólar em 03/01/2022: R$5,68

Fortalecimento do dólar traz mais inflação e reduz PIB potencial do Brasil (Folha, julho de 2022)

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3. O BRASIL TINHA UMA FERRAMENTA PARA SEGURAR PREÇOS DE ALIMENTOS: OS ESTOQUES REGULADORES. EM VEZ DE UTILIZÁ-LOS NA PANDEMIA, BOLSONARO OS ESVAZIOU

Considerado um dos “celeiros do mundo”, o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta. Durante anos, manteve um estoque regulador, que serve para controlar preços, evitar altas bruscas nos alimentos ou a escassez de itens essenciais. Durante o governo Bolsonaro, os estoques foram completamente esvaziados – usando a desculpa de que é caro mantê-los – , deixando o país suscetível às flutuações do mercado e ao aumento dos preços.

    • Brasil esvazia estoques de alimentos e perde ferramenta para segurar preços (UOL, setembro de 2020)

Governo zera estoques de trigo mesmo com fome e guerra de fornecedores (Jornal Extra, julho de 2022)

 

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4. A VERDADE SOBRE O AUXÍLIO EMERGENCIAL, AUXÍLIO BRASIL E OUTROS PROGRAMAS ASSISTENCIAIS: BOLSONARO SEMPRE CRITICOU O BOLSA FAMÍLIA, E FOI CONTRA O AUXÍLIO DE R$ 600 PROPOSTO PELA OPOSIÇÃO

Sempre crítico do Bolsa Família, Bolsonaro queria auxílio emergencial de R$ 200 e passou a boicotar o valor de R$ 600 que a oposição propôs durante toda a pandemia. Em 2021, acabou com o Bolsa Família para criar o Auxílio Brasil, e mais uma vez foi contrário ao valor de R$ 600 proposto pela oposição. Às vésperas da eleição, esqueceu o discurso de arrocho fiscal que adotou durante todo o governo e aumentou temporariamente o Auxílio Brasil para R$ 600, valor defendido pela oposição desde 2020. E depois ainda disse que a oposição foi contra o aumento, o que é mentira.
 
O QUE BOLSONARO PENSAVA SOBRE O BOLSA FAMÍLIA

    1. "O Bolsa-farelo (família) vai manter esta turma no Poder" (Jair Bolsonaro, 2010)
    2. "Devemos discutir aqui a questão do Bolsa Família. Devemos colocar um fim, uma transição para o Bolsa Família, porque, cada vez mais, pobres coitados, ignorantes, ao receberem Bolsa Família, tornam-se eleitores de cabresto do PT" (Jair Bolsonaro, 2011)
    3. “O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família” (Jair Bolsonaro, 2012)
    4. “O cara tem 3, 4, 5, 10 filhos e é problema do Estado. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bens nem serviços, não colabora com o PIB, não produz nada" (Jair Bolsonaro, 2015)
    5. “Para ser candidato a presidente tem de falar que vai ampliar o Bolsa Família, então vote em outro candidato. Não vou partir para demagogia e agradar quem quer que seja para buscar voto." (Jair Bolsonaro, 2017)
    6. "Bolsa-farelo e "voto de cabresto": As contradições de Bolsonaro sobre o Bolsa Família (Congresso em Foco, agosto de 2021)
    7. Antes de defender aumento, Bolsonaro atacava Bolsa Família e já pregou fim do programa (O Povo, setembro de 2021)
    8. Bolsonaro: Beneficiários do Bolsa Família 'não sabem fazer quase nada' (UOL, outubro de 2021)
    9. Há 22 anos, Bolsonaro foi único deputado contra Fundo de Combate à Pobreza (Correio Braziliense, julho de 2022)

A VERDADE SOBRE O AUXÍLIO EMERGENCIAL E O AUXÍLIO BRASIL: OPOSIÇÃO SEMPRE PROPÔS QUE O VALOR FOSSE R$ 600. BOLSONARO ERA CONTRA

    1. Guedes anuncia auxílio de R$ 200 mensais a trabalhadores informais (R7, março de 2020)
    2. Câmara aprova auxílio de R$ 600 para pessoas de baixa renda durante epidemia (Agência Câmara de Notícias, março de 2020)
    3. Bolsonaro diz que vetará extensão do auxílio emergencial se Congresso fixar valor em R$ 600 (G1, junho de 2020)
    4. Oposição defende auxílio emergencial permanente com taxação de grandes fortunas. Propostas de partidos e da sociedade civil contrastam com ideia do governo (Brasil de Fato, agosto de 2020)
    5. Bolsonaro reclama de valor do auxílio emergencial de R$ 600 durante live (Correio Braziliense, agosto de 2020)
    6. Governo estende auxílio emergencial por 4 meses com R$ 300, metade do valor (UOL, setembro de 2020)
    7. Oposição critica corte nas parcelas adicionais do auxílio: 'Significa fome' (UOL, setembro de 2020)
    8. Oposição defende auxílio de R$ 600 até o fim do ano (UOL, outubro de 2020)
    9. Auxílio emergencial é encerrado (Valor Investe, janeiro de 2021)
    10. Auxílio emergencial volta a ser pago em 2021. Valores do benefício vão de R$ 150 a R$ 375, bem abaixo dos pagamentos entre R$ 300 e R$ 1.200 do ano passado (O Globo, abril de 2021)
    11. Bolsonaro diz não poder renovar auxílio: "Contas estão no limite do limite" (Correio Braziliense, outubro de 2021)
    12. Auxílio Emergencial chega ao fim e deixa 22 milhões sem benefício (IstoÉ, outubro de 2021)
    13. PT defende auxílio de R$ 600 e alerta que recursos não podem vir do calote nos precatórios (PT na Câmara, novembro de 2021)
    14. Lei do Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família, é sancionada com vetos (Estado de Minas, dezembro de 2021)
    15. PSOL propõe Auxílio Brasil de R$ 600 (PSOL, no Twitter; Sâmia Bomfim, em Vídeo; abril de 2022)
    16. Governo Bolsonaro conta com Lira para barrar Auxílio Brasil de R$ 600 proposto pela oposição (Exame, abril de 2022)
    17. Flávio Bolsonaro: 'Quem recebe R$ 400 de Auxílio Brasil não passa fome' (Correio Braziliense, junho de 2022)
    18. Câmara aprova Auxílio Brasil de R$ 600 só até o fim de 2022. Oposição apresentou emendas para tornar permamente o aumento de R$ 400 para R$ 600 no benefício, mas o pedido foi rejeitado (Metrópoles, julho de 2022)
    19. Esquerda propôs Auxílio Brasil de R$ 600 permanente, mas governo orientou base a votar contra no Congresso. Ao contrário do que disse o presidente Jair Bolsonaro em entrevista, partidos da oposição propuseram elevação permanente do programa de transferência de renda (O Globo, agosto de 2022)

Governo manda Orçamento com Auxílio Brasil de R$ 405 em 2023, apesar de Bolsonaro prometer R$ 600 (Infomoney, agosto de 2022)

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5. NEM VIDAS, NEM ECONOMIA. BOLSONARO BOICOTOU O COMBATE AO VÍRUS ENQUANTO DIZIA "DEFENDER A ECONOMIA". COMO RESULTADO O BRASIL HOJE LIDERA O RANKING DE MORTES DO G20 NA PANDEMIA E SOFRE COM A MAIOR CRISE ECONÔMICA DAS ÚLTIMAS DÉCADAS

Com Bolsonaro, o Brasil cresceu pouco já em 2019. Ao ser confrontado, o presidente chegou ao ponto de colocar um palhaço – literalmente – para responder aos questionamentos dos repórteres. Depois, inventou uma história de um tal de “PIB Privado” para explicar o fiasco. E então veio a pandemia de covid-19. Bolsonaro protagonizou uma das piores conduções da pandemia no mundo, a pior entre os países do G20. Ele dizia estar cuidando tanto das vidas, quanto da economia. No fim das contas, não salvou nenhum dos dois.

    1. PIB do Brasil cresce 1,1% em 2019, menor avanço em 3 anos (G1, março de 2020)
    2. Governo separa 'PIB público' e 'PIB privado' para tentar mostrar que economia vai bem (spoiler: não vai) (Folha, março de 2020)
    3. Bolsonaro usa humorista para não responder sobre PIB fraco. Presidente pediu a comediante que respondesse a perguntas de jornalistas sobre atividade econômica (Gaúcha ZH, março de 2020)
    4. 'É muito mais fantasia', diz Bolsonaro sobre crise nos mercados causada por epidemia de coronavírus (BBC Brasil, março de 2020)
    5. PIB em 2020 fecha com queda de 4,1%, revela pesquisa do IBGE (Agência Brasil, março de 2021)
    6. PIB mostra que Brasil segue preso ao baixo crescimento econômico (Exame, dezembro de 2021)
    7. 2022: Brasil terá crescimento baixo em relação aos seus pares (Poder360, dezembro de 2021)
    8. PIB de 1,7% em 2022 supõe baixo crescimento até o fim do ano, diz economista (CNN, junho de 2022)
    9. Brasil tem retrocesso de até três décadas na economia, na educação e no meio ambiente (O Globo, junho de 2022)

Brasil perdeu a trajetória de crescimento que havia conquistado (BBC, julho de 2022)

Charge 25/05/2020 | Um Brasil

 

6. A VOLTA DA FOME

A fome voltou no governo Bolsonaro. O Brasil, que tinha saído do mapa da fome em 2014, passou a ter mais de 33 milhões de brasileiros em insegurança alimentar. As crianças são as mais afetadas, e famílias precisam se endividar e vender o que têm para comprar comida.

    1. Fome dobra no Brasil em 7 anos e afeta mais as crianças (Folha de S. Paulo, maio de 2022)
    2. Número de brasileiros com fome dispara e atinge 33,1 milhões, diz pesquisa (Uol Notícias, junho de 2022)
    3. Pesquisa diz que 33,1 milhões de brasileiros não têm o que comer (Metrópoles, junho de 2022)
    4. Flávio Bolsonaro: 'Quem recebe R$ 400 de Auxílio Brasil não passa fome' (Estado de Minas, junho de 2022)
    5. Brasileiros vendem o pouco que têm para conseguir comprar comida (Jornal Nacional, julho de 2022)
    6. Mais de 60 milhões de brasileiros sofrem com insegurança alimentar, diz FAO (G1, julho de 2022)
    7. Sem carne, famílias disputam osso e pele de frango (UOL, julho de 2022)
    8. Mesmo com auxílio de R$ 600 brasileiros precisam vender itens pessoais para ter comida (Uol, agosto de 2022)
    9. Datafolha: Um em cada três brasileiros teve comida insuficiente em casa (Folha, agosto de 2022)
    10. Bolsonaro diz que picanha de Lula é conversa e não existe fome 'pra valer' no Brasil (Folha, agosto de 2022)

Conheça a charge favorita dos leitores no mês de agosto - 12/09/2022 -  Painel do Leitor - Folha

26
Set22

Ao Brasil, com amor

Talis Andrade

Imagem: Yayoi Kusama
 

 

Apresentação do livro recém-lançado

de Juliana Monteiro & Jamil Chade

 

por Renato Janine Ribeiro

- - -

Amor é uma palavra onipresente em nossa sociedade. É um dos instrumentos mais poderosos do marketing atual. Amor vende quase qualquer produto. Mas por isso mesmo é importante saber o que ele quer dizer. Os estudiosos se dividem entre os que sustentam a existência de um “verdadeiro amor” e os que aceitam que haja vários tipos dele. A primeira distinção talvez seja entre um amor erótico, predatório no limite, e um amor dedicado, que no seu limite é doação, é o amor materno pelo filho. Não por acaso, nesta bela troca de cartas, tanto Juliana Monteiro quanto Jamil Chade falam da experiência que tiveram ao nascerem seus filhos.

Juliana tece uma oposição entre maternidade e guerra. Vingar, diz ela, para uma mãe, é ver seu rebento vingar, como dizemos de uma planta: é consolidar-se como ser vivo. (É muito diferente, praticamente o oposto, de vingar-se). Mães temem, por dias ou meses, talvez anos, que algo de ruim suceda a seu filho. Felizmente, acrescento eu, a mortalidade infantil despencou no último século, mercê especialmente da saúde pública, da água potável e do tratamento dos esgotos. A morte de crianças caiu, por milhar de nascimentos, de três dígitos para apenas um.

Pais não precisam mais ter inúmeros filhos para que sobrevivam um ou dois que, por sua vez, os amparem na velhice. Jamil fala do receio que teve, ao nascer seu filho Pol, de perdê-lo. Lembrei-me de Montaigne contando que teve “dois ou três” filhos que morreram em tenra infância. Comentando essa passagem, o historiador Philippe Ariès observa: qual pai, hoje em dia, não saberia se foram duas ou três as crianças que morreram na idade de 1 ou 2 anos? Haveria uma frieza maior naquela época ou simplesmente era tão comum a mortalidade infantil que já era aguardada a perda, e a memória se adaptava a ela?

Usualmente, quando falamos em amor, a tendência é distingui-lo da paixão. As definições clássicas de amor o identificam a querer o bem da pessoa amada – o que tem tudo a ver com o amor aos filhos, que antes mencionei. Mas o sentido usual de amor, na cultura atual, como a telenovela e a canção popular, está mais próximo do desejo sexual. Ora, este almeja o bem do amante mais que o da pessoa amada (ou desejada). Crimes passionais são justamente isso: se ela não vai ser minha, que morra.

Minha primeira orientadora, dona Gilda de Mello e Souza, se indignou quando Doca Street assassinou Ângela Diniz no final de 1976. E me disse algo assim: crime passional é uma farsa; para acreditar que um homem não possa viver sem a pessoa que ele diz amar, a lógica seria que ele se matasse. Matá-la e sobreviver mostra muito bem que esse suposto amor era mentira. Não era o querer bem ao outro, mas o desejo de dominá-lo.

Ora, somos inundados por uma mídia que apresenta o amor como sendo desejo, como sendo sexo. (Por isso mesmo tenho insistido em que, se é preciso termos educação sexual nas famílias e nas escolas – até para evitar a gravidez indesejada, o abuso sexual e a transmissão de doenças, inclusive fatais –, faz tanta ou mais falta educar para o amor).

Ao Brasil, com amor eBook : Chade, Jamil, Monteiro, Juliana: Amazon.com.br:  Livros

Falar de amor num tempo de ódio é prioritário, como dizem de vários modos nossos dois autores. Vivemos, entre 1980 e 2010, trinta anos gloriosos – não como os após a Segunda Guerra Mundial, cuja glória esteve no desenvolvimento econômico dos países mais ricos e na formatação de um Estado do bem-estar social, mas como os do combate à fome e do avanço da democracia nos países mais pobres, entre eles o Brasil. Saímos, em 2013, do Mapa da Fome, ao qual lamentavelmente voltamos nos governos seguintes. Parecia vitoriosa a luta pela democracia. Poderíamos imaginar a grande regressão que depois veio? Poderíamos acreditar que pessoas queridas, até parentes nossos, viriam a apoiar governos que querem a morte de tantas pessoas, inclusive de seus consanguíneos ou amigos de infância?

Não por acaso, Juliana e Jamil insistem no papel democrático do amor e das paixões a ele correlatas, como a amizade. Lembro uma passagem de Jorge Luis Borges, quando evoca a homenagem de um guerreiro medieval ao inimigo morto. Lembro também uma observação atribuída a Margaret Mead, que data a humanidade (no sentido figurado e não como espécie, como qualidade ética) do osso humano que se recompôs de uma fratura: foi preciso haver quem cuidasse do ferido, quem o amparasse, até ele cicatrizar-se do machucado.

Noto que, nos últimos meses, me deparei várias vezes com essa referência ao comentário, genuíno ou não, da grande antropóloga. Quer dizer que cresce a esperança na ideia de que a humanidade, enquanto espécie humana, tenha a possibilidade de recuperar a humanidade enquanto sentimento de compaixão e prática de cooperação.

Ou lembremos a questão da ética do cuidado, levantada umas décadas atrás por Carol Gilligan. Ela parte de uma experiência proposta por seu mestre Kohlberg sobre o desenvolvimento moral da criança. Kohlberg colocava cada criança diante de um problema: a mãe dela estava à beira da morte, dependia de um remédio caríssimo para se curar, e o farmacêutico se recusava a dá-lo a ela. O que fazer então? Assim posta a questão, ela praticamente determina uma resposta ao modo de Antígona: a ética exige quebrar a lei. Dessa maneira respondiam os meninos, mas não as meninas, que insistiam em tentar persuadir o farmacêutico. Kohlberg disso inferiu uma deficiência das meninas na compreensão do problema – e do que ele chamou de ética da justiça –, mas Gilligan o contestou. O que elas expressariam seria uma ética do cuidado, um conjunto de valores em torno da convicção de que seria possível uma solução pelo acordo, não pelo confronto, não pelo corte (lembrando que decisão contém cisão, corte, no seu âmago). O modo masculino de ver as coisas seria incisivo, cortante; o feminino seria englobante, includente.

Ora, o avanço do papel das mulheres na sociedade atual não será sinal do que podemos chamar uma feminização crescente de nossa cultura? Notem que, ao contrário do que algumas autoras criticaram em Gilligan, nada disso supõe predicar uma essência masculina ou feminina, uma natureza belicosa do homem ou compassiva da mulher. Podemos seguir sua intuição entendendo-a como uma simples referência a papéis construídos ao longo dos milênios e que foram identificados a dois suportes diferentes, um o dos cromossomos XX e outro dos XY, mas podem estar presentes em homens e mulheres.

Se recuarmos no tempo, veremos que na sociedade medieval as mulheres, ou o feminino, desempenharam papel importante na adoção de costumes mais cuidadosos e respeitosos, processo que Norbert Elias chamou de “civilizar os costumes”. Foi a presença delas que levou, por exemplo, às maneiras modernas, como não cuspir na mesa (ou à mesa), não tomar a sopa diretamente da sopeira, não assoar o nariz sobre os pratos em que se servia o alimento. Esses cuidados, que hoje às vezes são associados, retroativamente, a intuitos higiênicos, na verdade se originaram de formas de respeito. Era respeitoso em relação ao outro, e em especial à mulher, abster-se de práticas que suscitassem o incômodo ou, mesmo, o asco.

A mulher era o outro por excelência. Pretendia-se agradá-la, conquistá-la: por isso, aqueles machões medievais, comparáveis a fazendeiros grosseiros de um Brasil que felizmente foi desaparecendo, a um Paulo Honório como o que Graciliano Ramos coloca em cena no seu São Bernardo, adotam modos que eles imaginam causar prazer às mulheres, e que seriam os delas. Por isso, faz sentido pensar aqui no amor materno: o amor que Juliana e Jamil dedicam ao Brasil é um amor de mãe.

É nosso país um filho? Todo país o é. Nenhum país é uma essência prévia a seus cidadãos. Toda pátria, ou mátria se assim preferirmos, é uma criação constante do afeto. Em português, chamamos de criança a pessoinha que estamos criando. Criar, em nossa língua, não é um ato fulgurante, instantâneo, como a criação divina do mundo a partir do nada, na versão judaico-cristã. É um trabalho longo, com muito afeto investido, que dura dez anos ou mais. Até pouco tempo atrás, por sinal, era uma tarefa da mãe, mais que do pai. E não é fortuito que o ódio que nestes últimos anos tomou conta de nosso país, e de tantos outros, nas mãos da extrema direita tenha tanto a ver com um retorno furioso do machismo.

Há homens que se sentem estranhos, perdidos num mundo em que perderam os privilégios que tinham por tão só haverem nascido num determinado sexo, classe, orientação sexual: e com o declínio da democracia desde a crise econômica iniciada em 2008, eles se consideraram autorizados a vingarem-se daqueles que se atreveram a se colocarem como seus iguais, pior que isso, a pensarem que podiam lhes ensinar algo novo e diferente.

Mas é esse o caminho do futuro, o dos diferentes, do “outro por excelência”, como foi a mulher por milhares de anos: e por isso Juliana e Jamil, querendo ambos devolver amor a um país que foi pilhado pelo ódio, escrevem ao Brasil (e sobre o Brasil) a partir da alteridade europeia, mas com um coração de quem se dirige a uma criança amada.

Referência


Jamil Chade & Juliana Monteiro. Ao Brasil, com amor. Belo Horizonte, Autêntica, 2022, 136 págs.

 

 
 
 
 
 
11
Set22

Eleitores responsabilizam Bolsonaro pelo avanço da fome, diz pesquisa

Talis Andrade

 

Pobreza, fome e miséria foram apontadas por 17% dos brasileiros como um dos três maiores problemas do País, o que representa a opinião de 29 milhões de pessoas

 

por André Cintra

 

- - -

Em debate com outros candidatos à Presidência na Band, Jair Bolsonaro (PL) disse não acreditar que a fome atinja hoje 33 milhões de pessoas no País. Pesquisa Ipec contratada pelo jornal O Globo mostra que os eleitores não apenas sabem que o presidente está errado. Para 29 milhões de brasileiros, a fome e a pobreza são os principais problemas do Brasil hoje. Entre os entrevistados, 34% afirmam que o governo Bolsonaro é o principal responsável por essa mazela.

D acordo com O Globo, a percepção de que o governo atual é o culpado varia de acordo com os segmentos da pesquisa. “No Nordeste, onde (Bolsonaro) tem desempenho eleitoral abaixo de sua média, segundo as pesquisas de intenção de voto, é maior (38%); entre os evangélicos, grupo em que aparece à frente do ex-presidente Lula, a parcela de culpa cai pela metade: 17%”.

A pesquisa também sondou os eleitores sobre saídas para o combate à fome. Para 78%, o governo deve investir na criação de mais empregos. Alternativas como doação de alimentos e políticas de moradia estão “no patamar de 40%”. Na sequência, aparece o apoio a políticas assistenciais – medida que tem mais citações no Nordeste.

O peso desse tema na campanha eleitoral cresceu. “No aspecto geral, quando disposta lado a lado com outros desafios do país, a tríade pobreza, fome e miséria foi apontada por 17% como um dos três maiores problemas, empatada com segurança pública e violência e atrás de desemprego, corrupção, saúde, educação e inflação. O percentual representa a opinião de 29 milhões de brasileiros”, indica a pesquisa. “Há quatro anos, 11,5 milhões diziam o mesmo.”

O Globo lembra que a crise atual pode parecer inusitada para um país que, em 2014, saiu do Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas). Em apenas oito anos, o Brasil regressou ao ranking. “Por aqui, 4,1% da população (o equivalente a 8,6 milhões de pessoas) sofreu de falta crônica de alimentos entre 2019 e 2021. O número de brasileiros que tiveram insegurança alimentar moderada ou severa no período chegou a 61,3 milhões (28,9% da população)”, diz o jornal.

Um dos impactos do avanço da fome é o aumento da demanda por políticas assistenciais do governo. Em três anos (2019-2022), o número de famílias na extrema pobreza inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) saltou de 13,2 milhões para 14,7 milhões.

 
04
Ago22

Com fome, menino liga para polícia e pede comida. Ouça o áudio

Talis Andrade

www.brasil247.com - Miguel (com microfone), Célia Arquimino Barros (mãe) e outra irmã deleMiguel (com microfone), Célia Arquimino Barros (mãe) e outra irmã dele (Foto: Reprodução (Globo))

 

Um menino chamado Miguel, de 11 anos, telefonou para a PM e pediu ajuda porque não tinha comida em casa, em Santa Luzia (MG). "Minha mãe só tem farinha e fubá pra comer", disse. A fome uma exlusividade da população civil. 116 milhões de brasileiros sofrem insuficiência alimentar. A fome um caso de polícia

 

Este o Brasil real de Bolsonaro, o Brasil da inflação, do desemprego. O Brasil dos sem terra, dos sem teto, dos sem nada. O Brasil exportador de alimentos no mapa da fome. O Brasil do menino chamado Miguel, de apenas 11 anos. Que telefonou para a Polícia Militar (PM), pelo 190, e pediu ajuda porque não tinha comida em casa, na noite desta terça (2), no município de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG). 

"Senhor policial, é por causa que aqui em casa não tem nada pra gente comer e eu tô com fome. Minha mãe só tem farinha e fubá pra comer", disse.

A mãe de Miguel, Célia Arquimino Barros, de 46 anos, vive com seis filhos no bairro São Cosme. "Eu vivo de auxílio emergencial, e o pai manda R$ 250, mas não é todo mês que manda", disse ela à TV Globo

Mais de 60 milhões de brasileiros enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar de 2019 a 2021, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado no mês passado.

O menino fez certo. A fome no Brasil é um caso de polícia. Dos gorilas comendo. Dos cavalões comendo. O Brasil do cartão corporativo do Bolsonaro sob sigilo de cem anos. O Brasil do orçamento paralelo de Ciro Nogueira. Do orçamento secreto de Arthur Lira. Da ministra da Agricultura que quis solucionar o problema da fome, oferecendo alimentos fora da validade. Do ministro da Economia recomendo aos que comem que ofereçam os restos de comida aos sem nada, aos pobres. Que 40% da população civil pena na pobreza, para o governo pagar salários acima do teto, pagar para generais salários de marechais, salários que ficarão como herança para as filhas que não se casarão no civil, para permanecer solteiras até a virada deste século se as democracias intermitentes, as democracias interrompidas pelos golpes militares permitirem. 

“Grande humanista”, diz Reinaldo Azevedo sobre Guedes sugerir sobras de comida a mendigos

 

por Davi Nogueira

Em publicação nas redes, o jornalista Reinaldo Azevedo comentou a mais nova declaração absurda do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Durante anúncio de projeto de flexibilização da regra que trata da validade de alimentos no Brasil, Guedes sugeriu que sobras de alimentos de famílias de classe média e restaurantes sejam doadas a pessoas vulneráveis.

Comparando com a quantidade de comida consumida por uma pessoa da classe média na Europa, que ele diz serem “pratos relativamente pequenos”, o ministro afirmou que no Brasil exageramos e deixamos “uma sobra enorme”.

Reinaldo respondeu à fala do ministro e lembrou que o Brasil tem ”110 milhões vivendo em insegurança alimentar”.

Ele disse, em tom irônico, que Guedes e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que teve a ideia de distribuir alimentos vencidos aos pobres, são “grandes humanistas”.

O Brasil é o 3° maior produtor de alimentos do mundo e o maior exportador. Mas há 110 milhões vivendo em insegurança alimentar. Tereza Cristina teve uma ideia: alimentos vencidos pra pobres. Guedes teve outra: distribuir sobras de restaurantes pra mendigos. Grandes humanistas!

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Enquanto o povo come osso, JBS alcança lucro histórico com a exportação de  carne |Fila da fome em Cuiabá recebeu ossos de 'qualidade', diz governador de Mato  Grosso - CartaCapitalMoradores dormem na 'fila de ossinhos' para garantir cesta básica em Cuiabá  | Mato Grosso | G1Fila para conseguir doação de ossos é flagrante da luta de famílias  brasileiras contra a fome | Fantástico | G1

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12
Jul22

"Bolsonaro faz discurso violento, típico de um covarde", diz Lula

Talis Andrade

Correio Braziliense

 

Lula critica duramente o chefe do Executivo e fala sobre combate à fome

 

por Carlos Alexandre de Souza, Ana Dubeux, Denise Rothenburg, Ana Maria Campos /Correio Braziliense

 

Lula chega nesta terça-feira (12/7) a Brasília para participar de um ato público, às 17h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Também vai cumprir agenda com empresários de vários segmentos da economia. Uma programação para, entre outros assuntos, tentar desconstruir o antipetismo com a ideia de uma aliança ampla para "reconstruir o Brasil".

Nesta entrevista, o ex-presidente explica que quer manter o auxílio de R$ 600 e que seu compromisso é novamente tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU. "Isso é um compromisso de vida. É a prioridade."

Sobre ataques do bolsonarismo aos seus apoiadores ou ameaças ao processo democrático das eleições, Lula diz que "Bolsonaro faz um discurso violento, cheio de bravata, bem típico de um covarde, que tenta estimular a violência no país". Também chama o atual presidente de "mentiroso".

 

No primeiro mandato, o senhor disse que não descansaria enquanto alguém passasse fome no Brasil. A fome voltou. Vai repetir esse compromisso?

Sim. Isso é um compromisso de vida. Conseguimos, com toda a sociedade, criar políticas públicas e promover inclusão social que tirou o Brasil do Mapa da Fome da ONU, e agora estamos de volta. Essas políticas públicas foram desmontadas, e a fome voltou. Não tem por que o Brasil ter milhões de pessoas, milhões de famílias e crianças passando fome. Nós vamos resolver isso, é a maior prioridade.

 

Acredita que Bolsonaro vai respeitar o resultado da eleição?

Ele tem de respeitar. Não é opção dele.

 

O senhor já disse que é contra as RP9, as emendas de relator ao Orçamento, e que vai acabar com elas. Porém, para acabar, é preciso acertar com o Congresso. O Congresso, hoje, manda no Orçamento e, para 2023, vai tornar impositivas também essas emendas de relator. Como fará para acabar com elas, uma vez que até na oposição tem gente que apoia essas emendas e diz ser melhor ficar independente do governo?

Vamos conversar sobre isso com o Congresso eleito pelas urnas de 2022. Por isso, será muito importante o voto para deputado e senador nesta eleição. Eu acho que o país não pode ter algo chamado "orçamento secreto". Eu quero que o país tenha um orçamento participativo, com as pessoas podendo participar pela internet, opinar no destino dos recursos dos seus impostos.

 

Se vencer a eleição, vai manter o Auxílio Brasil a R$ 600?

Eu quero manter. O PT queria que o Auxílio fosse de R$ 600 já em 2020. Bolsonaro que fez uma coisa engraçada: criou uma série de benefícios em período eleitoral que duram até dezembro. Depois disso, vale a palavra do Bolsonaro, que não vale nada, como o mundo sabe, porque todo mundo sabe que ele é um mentiroso.

 

O senhor é contra o teto de gastos. E Bolsonaro encomendou uma bomba fiscal de R$ 41 bilhões? Isso não é irresponsabilidade fiscal?

Eu governei oito anos com responsabilidade fiscal, social, econômica, com todo o tipo de responsabilidade possível, sem precisar de teto nenhum. Em nenhum país existe esse teto. Nem no Brasil, onde a toda hora se cria uma exceção ao teto. O maior problema de teto no Brasil são as milhares de famílias que viraram sem teto nas grandes cidades, morando nas ruas. Esse é o teto que me preocupa.

 

Derrotar Bolsonaro é seu objetivo. Mas ele tem aliados em diversos estados. Onde estão os maiores desafios?

O povo brasileiro viveu meu governo. Saí da presidência com grande aprovação. E o povo brasileiro tem lutado para sobreviver ao governo do Bolsonaro, em que muitos morrem de covid, de fome, de tiro. Em que as pessoas buscam osso, buscam carcaça de frango, porque não podem comprar carne. Ele não tem muitos aliados, porque estão vendo nas pesquisas que não é uma boa se associar a ele. Então, em Minas, no Rio de Janeiro, em São Paulo os candidatos dos partidos dele estão é escondendo ele.

 

E no Distrito Federal? Ibaneis é aliado do presidente.

Vamos ver se essa aliança vai se firmar, inclusive pelo comportamento de Bolsonaro, que está longe de ser alguém confiável ou estável. Acho triste, no Distrito Federal, com tantos servidores públicos, as pessoas votarem em alguém que desrespeitou tanto o funcionalismo como Bolsonaro.

 

O PT já reconheceu todos os seus erros?

O PT é o maior partido do país, com centenas de milhares de filiados e milhões de simpatizantes. Governamos vários estados e cidades do país, várias vezes, com pessoas diferentes. Nada na vida é perfeito, sempre podemos aprender e melhorar, mas sempre respeitamos a democracia. Não sei se todos que desrespeitaram a democracia, derrubando uma presidenta honesta e elegendo um fascista, achando difícil a escolha entre ele e um professor que é um dos gestores públicos mais qualificados do país, não sei se eles reconheceram todos os seus erros.

 

Por que o antipetismo ainda é tão forte?

Porque o petismo é forte. E porque, para derrotar o PT após quatro vitórias eleitorais, foi necessário acumular muita mentira, estimular muita gente de extrema direita a sair do armário para derrotar um partido que construiu políticas sociais contra a fome e a pobreza, que foram inspiração e modelo no mundo todo.

 

Bolsonaro pode perder, mas o bolsonarismo continuará. Concorda?

Em qualquer país existe parte da população, uma minoria pequena, de extrema direita. A diferença é que Bolsonaro os estimulou, fez parecer bonito ser ignorante, exibir grosseria e preconceito, ser violento. Vamos ver depois da eleição como ficará o bolsonarismo. Bolsonaro foi, por 28 anos, um deputado irrelevante. Agora, será um grande trabalho consertar o estrago que ele fez no país: na questão ambiental, ao espalhar armas, atuando contra a ciência, a educação, contra nossas universidades. Será um grande trabalho que eu, junto com Alckmin, com a nossa experiência, e com toda a sociedade brasileira, não quero perder tempo, quero, desde a primeira hora, trabalhar para consertar o país.

 

Seus adversários mais ferrenhos afirmam que o PT jamais fez o mea-culpa do mensalão e do petrolão e que o senhor não foi inocentado. Como está se preparando para responder a essas argumentações ao longo da campanha?

Quem diz que eu não fui inocentado é alguém desesperado, que não tem a grandeza de admitir que me acusou injustamente, depois de termos provado a abertura de processos completamente forjados e parciais contra mim, como disseram meus advogados desde a primeira defesa que apresentaram, ainda em 2016. Eu venci em mais de duas dezenas de casos na Justiça. Juristas de renome internacional, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Itália, da Argentina, ficaram chocados com o absurdo da minha condenação por "atos indeterminados", quando leram a sentença do Moro. Fui absolvido na Justiça em Brasília da acusação de envolvimento em desvios na Petrobras e em outras empresas públicas, por meio de decisão definitiva. Nem os procuradores de Brasília recorreram da sentença que falava que as acusações tinham objetivos políticos. Eu fui o político mais investigado do país, e não acharam nada contra mim. Mas, depois de tantas e tantas mentiras contra mim e minha família, tem gente que não quer dar o braço a torcer.

A denúncia do tal "petrolão" foi recusada pela Justiça de Brasília. Pessoas foram condenadas no mensalão por um voto, que deve ter sido escrito pelo Moro, que admitia que não tinha provas contra mim. A Lava-Jato de Curitiba soltou executivos de empresas e diretores da Petrobras que eles descobriram que roubavam desde os tempos do PSDB, em troca de um bando de mentiras em delações. E destruíram as empresas, destruíram projetos de desenvolvimento, destruíram empregos. Os delatores foram soltos com parte do dinheiro, não tem nenhum mais preso, e milhões de trabalhadores honestos das empresas ficaram desempregados. Os adversários mais ferrenhos apostam nisso porque não sobrou mais nada para dizer, depois do desastre deles na economia, na educação e, inclusive, no combate à corrupção. Na época dos governos do PT, foram feitas as principais leis de combate à corrupção e também foi feita a Lei da Transparência. Hoje, com Bolsonaro, tudo é sigilo de 100 anos.

 

Sua campanha já foi vítima de dois ataques, um no triângulo mineiro, com um drone que atirou fezes sobre os seus apoiadores, e, na última quinta-feira, no Rio de Janeiro, com uma bomba caseira de fezes atirada contra o público. Como o PT e o senhor vão tratar desses temas? Como vai se preparar, por exemplo, para o 7 de Setembro, que hoje preocupa alguns partidos e até a Justiça Eleitoral?

Eu não gosto de comentar segurança, temos os responsáveis pela área, que cuidam disso. Em ambos os casos que citou, reagiram rápido, o sujeito do drone foi preso, o homem que jogou a bomba, também. O Bolsonaro faz um discurso violento, cheio de bravata, bem típico de um covarde, que tenta estimular a violência no país, inclusive, tivemos essa tragédia em Foz do Iguaçu. Isso de 7 de Setembro, ele, inclusive, já tentou antes. Não deu certo aquela vez e não vai dar certo de novo.

 

A redução no preço dos combustíveis tem sido difundida pelos bolsonaristas nas redes sociais como uma vitória do presidente e a PEC dos Benefícios é vista como um gol de Bolsonaro, porque não deixou margem para o PT votar contra a proposta, restou a obstrução. Como vai lidar com esse tema na campanha?

Também estamos tranquilos com isso. Tem gente que pensa que o povo é bobo. O Bolsonaro ficou três anos e meio no poder, não liga para nada, fica passeando de moto e espalhando mentira; chega perto da eleição, tenta comprar o voto do povo, que está em uma situação difícil, vendo o preço de tudo subir cada vez que vai ao supermercado. Aliás, em vez de reduzir os preços dos combustíveis enfrentando a questão da paridade internacional dos preços da Petrobras, abrasileirando os preços dos combustíveis aos custos em reais, monta esse pacote em cima de um calote nos governadores e prefeitos, tirando dinheiro da saúde e da educação nos estados e municípios. Se essa verba chegar para o povo, o povo tem mais que pegar o dinheiro — o PT não vai ser contra auxílio — e depois votar com sua consciência. O povo vai avaliar como Bolsonaro tem desrespeitado os trabalhadores, as mulheres, como foi um desastre na pandemia, que não tem nada de bom para apresentar, e vai votar contra ele.

 

Muita gente confunde Lula com o PT. Há quem diga que o partido só faz o que senhor quer e há quem diga que o senhor só faz o que o PT quer. Quem está certo?

Nenhuma das duas falas. Quem diz isso não conhece o PT, o que é até uma pena para quem acompanha política não saber da diversidade e da vida interna intensa do PT. No PT tudo é discutido, tudo precisa ter convencimento, se ouvem as divergências, se vota. O PT não é um partido que o secretário-geral fala, e ninguém responde. O PT é um partido nacional, espalhado em todo o país, com diretórios estaduais, municipais. E eu tenho muito orgulho de ser um dos fundadores do PT, mas, ao mesmo tempo, eu não quero ser candidato só do PT. Quero ser, junto com o Alckmin, candidato de uma aliança que, hoje, tem sete partidos, que tem apoio de pessoas de outros partidos, além desses sete, e quero ser candidato de um movimento de reconstrução do Brasil para ser presidente de todos os brasileiros.

Eu quero me reunir em janeiro, talvez até em dezembro, com os 27 governadores eleitos, para, juntos, resolvermos os problemas do país. Me reunir com os prefeitos. Não importa se gostam ou não de mim. Eu, quando fui presidente, respeitei a todos. Não fiquei pedindo para empresário me apoiar, não fiquei perguntando se ele votava em mim. Respeitei todas as religiões, todos os brasileiros, representei este país no exterior, busquei investimentos externos e mercados para nossas exportações. Eu sou uma pessoa que respeita a democracia, que gosta de ouvir a opinião dos outros, e respeito a divergência. O Brasil precisa voltar a ter diálogo, ter paz e ter um presidente que trabalhe para resolver os problemas. É a isso que quero dedicar os próximos quatro anos da minha vida.

 

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