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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

14
Set17

Se Come Muito Bem na Literatura Portuguesa de Eça de Queiroz (Parte 2)

Talis Andrade

se ccome muito bem portugal .jpg


por Manoel Onofre Jr.


O romance Os Maias é considerado por muitos estudiosos a obra-prima de Eça. Alguns críticos, em menor número, dão a primazia a O Primo Basílio, e ainda outros, encantados com os primores estilísticos do autor, preferem A Cidade e as Serras. Certo é que Os Maias constitui-se no trabalho mais ambicioso do grande ficcionista – a obra que mais exigiu da sua capacidade de fabulação e do seu engenho na construção da narrativa e dos personagens.

 

Um vasto painel da alta-sociedade lisboeta em determinados períodos do século XIX, tendo, no enredo, como piéce de resistence, um caso de incesto: Carlos da Maia, jovem e diletante médico, neto querido do fidalgo Afonso da Maia, senhor do “Ramalhete”, apaixona-se por uma bela mulher, Maria Eduarda, mas vem a descobrir, tardiamente, que ela é sua irmã. E em tudo se faz presente o espírito crítico, por vezes irreverente e cáustico, do autor.

 

Assim se define, de modo simplista, essa obra inigualável, verdadeira culminância do Realismo em língua portuguesa.

 

Curiosamente, não é nas suas páginas que se encontra o Eça gastrônomo por excelência. Ao longo dos dois alentados volumes, que compõem o livro, surgem apenas sete referências à culinária portuguesa típica, além do mencionado na primeira parte deste escrito a respeito dos ovos moles de Aveiro. Não é muita coisa se comparada à fartura de acepipes descritos em A Cidade e as Serras, obra bem menos extensa.

 

De saída há em Os Maias uma passagem bem humorada, em que se destacam duas especialidades da cozinha lusitana: as queijadas e o bacalhau.

 

São famosas as queijadas de Sintra. Ainda hoje, turistas que visitam aquela serra paradisíaca, nos arredores de Lisboa, não deixam de se deliciar com essa guloseima feita com farinha de trigo, leite, ovos, queijo e açúcar.

queijadas-portuguesas.jpg

 Queijadas portuguesas

 

Quando o personagem Cruges vai a Sintra, em companhia de Carlos da Maia, na hora da partida, “uma voz esganiçada de mulher gritou-lhe de cima” (do primeiro andar de sua casa):

 

“- Olha, não te esqueçam as queijadas.”

 

Em Sintra os dois amigos passeiam, conversam, desfrutam as belezas serranas, mas, em dado momento, Cruges exclama:

 

“- Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!”

 

Mais passeios, mais conversas, e encontram o amigo Alencar, festejado poeta da velha guarda, romântico empedernido, que, após cumprimentá-los com efusão, convida-os:

 

“…vou-me entender lá abaixo à cozinha da velha Lawrence, e preparar-vos um ‘Bacalhau à Alencar’, récipe meu… E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outro melhor; bacalhau, não!”

 

E fartam-se de bacalhau e de Sintra.

 

Na volta, já dentro do break (carro de tração animal) (1), que os levaria a Lisboa.

 

“- Com mil raios! – exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário (2).

 

“O break parara, todos olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou!

 

“- Esqueceram-me as queijadas!”

 

Páginas adiante, João da Ega, o amigo e confidente de Carlos da Maia, vindo de Sintra, depara-se, numa das salas do “Ramalhete”, com Carlos e sua amada Maria Eduarda. Surpreso com a presença da mulher, ali, no solar dos Maias.

 

“Ega ia largar atarantadamente o embrulho, para apertar a mão que Maria Eduarda lhe estendia, corada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Sintra rolou, esmagando-se, sobre as flores do tapete. Então todo o embaraço findou através de uma risada alegre – enquanto o Ega, desolado, abria os braços sobre as ruínas do seu doce.

 

“- Tu já jantaste?” – perguntou Carlos.

 

“Não, não tinha jantado. E via já ali uns ovos moles nacionais que o encantavam, enfastiado como vinha da horrível cozinha do Vítor. Oh ! que cozinha! Pratos, traduzidos do francês em calão como as comédias do Ginásio!”

 

Note-se que, embora citando, ao longo do seu romance, vários pratos da culinária francesa (3), Eça gostava mesmo era das comidas da sua terra.

 

Em outra passagem de Os Maias, quando Ega diz que, talvez, vá a Sintra, Carlos recomenda-lhe:

 

“…E tu, se fores, traz-me umas queijadas para a Rosa, que ela gosta!…”

 

————

 

Num restaurante de Lisboa, Ega foi almoçar, ainda abalado com a revelação do parentesco entre Carlos e Maria Eduarda.

 

“O bife era excelente – e depois de uma perdiz fria, de um pouco de doce de ananás, de um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se, enfim, aquele negrume que desde a véspera lhe pesava na alma.”

 

Esta é, aliás, a segunda alusão ao ananás (abacaxi), que, à época da ação romanesca, devia ser fruta exótica, rara e cara.

 

doce-de-ananas-e-natas.jpg

 Doce de ananás

 

Na quinta dos Olivais, junto a Maria e Ega, “Carlos ria, preparando numa travessa o ananás com sumo de laranja e vinho da Madeira” (…) Conversavam animadamente.

 

“Mas o Domingos servia o ananás. E o Ega provou e rompeu em clamores de entusiasmo. Oh! que maravilha! Oh! que delicia!”

 

————

 

Encontrando-se, tempos depois, no Chiado (4), com os amigos Alencar e Cruges, Carlos convida-os a jantar.

 

“Tenho um jantarzinho à portuguesa que encomendei de manhã, com cozido, arroz de forno, grão-de-bico, etc., para matar saudades…”

 

Um dos pratos mais afamados da cozinha típica portuguesa – o cozido. Nele entram, em profusão, carnes bovina e suína, legumes, verduras, e especialmente, embutidos – chouriço, paio, etc. -; isto o diferencia do cozido à brasileira. Diga-se que não vem acompanhado de pirão, como o nosso.

 

————

 

Já numa das páginas finais de Os Maias , Carlos, havendo retornado a Lisboa, após longa ausência,revê a sua cidade em companhia do amigo Ega. Trocam ideias, formulam “ teorias” sobre o sentido da vida, falam de Portugal e dos seus males, e tudo veem com um olhar extremamente crítico. “ De repente, Carlos teve um largo gesto de contrariedade:

 

“- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite ! Esqueci-me de mandar fazer hoje, para o jantar, um grande prato de paio com ervilhas”.

 

Esse anseio pela culinária típica talvez fosse, também, do próprio Eça, que morou, longos anos, em Paris, mas nunca cortou os laços com a sua terra.

 

NOTAS.

1- Break (breque). “Carruagem de quatro rodas com um assento alto adiante e ordinariamente dois bancos atrás longitudinais e fronteiros um ao outro” (Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso- brasileiro. Vol. I – p.387- Porto: Lello & Irmão Editores, sem data).


2 -Trintanário. “ Criado que senta na carruagem ao lado do cocheiro e que abre a portinhola, entrega bilhetes de visita, etc.” ( Ob. cit. Vol. IV,p. 1076).


3 - Sole normande, jambom aux épinards, poulet aux champignons, galantine.


4 - Chiado – bairro de Lisboa; um dos recantos mais elegantes da cidade à época da ação romanesca    ( e ainda hoje).

 

 

 

 

 

 

19
Ago17

Se Come Muito Bem na Literatura Portuguesa de Eça de Queiroz (Parte I)

Talis Andrade

por Manoel Onofre Jr.

 

Em seu livro “As Amargas, não…”, Alvaro Moreyra diz a certa altura:

– “Come-se mal nos livros de Machado de Assis…”

Pois, digo eu: come-se muito bem nos livros de Eça de Queiroz.

Eça, ao que tudo indica, era um gastrônomo de primeira, haja vista a descrição que faz de inúmeras especialidades, sobretudo da cozinha portuguesa, de modo a deixar o leitor com água na boca.

Dia desses, dei-me ao trabalho de selecionar alguns trechos dessa riqueza culinária contida em cinco dos seus romances: “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio”, “A Cidade e as Serras”, “A Relíquia” e “A Capital”. Transcrevo-os a seguir, sem maiores pretensões.

Bom apetite, leitor.

 

I

 

Em “O Crime do Padre Amaro”, o personagem Cônego Dias, referindo-se aos dons culinários de sua outonal amada, a S. Joaneira, afirma:

“Não há dia que me não mande o seu presente. É o covilhete de geléia, é o pratinho de arroz-doce, é a bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de maçã. Ora, havia de você ver aquilo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josefa

disse: ‘Está tão boa que parece que foi cozida em água benta.'”

Morcela, diga-se de passagem, é uma espécie de embutido à base de sangue de porco; tinha fama a que era feita na cidade de Arouca, situada na região das Beiras, Portugal.

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                                                             Morcela

 

————

No primeiro jantar do Padre Amaro em casa da S. Joaneira:

“Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado.”

Num sarau em casa da S. Joaneira, os convivas tomam chá e se deliciam com torradas:

“Vai um docinho, senhor pároco? – disse Amélia, apresentando-lhe o prato. – São da Encarnação. Muito fresquinhos.

– Obrigado.

– Aquele ali. É toucinho do céu.”

“Encarnação” deve ser o nome de algum convento. Toucinho do céu: um dos mais apreciados doces conventuais, feito com gemas de ovos, amêndoas e açúcar.

————

“Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço de açorda, caiu de repente morto com uma apoplexia.”

Açorda, prato tradicional da cozinha portuguesa, é um caldo engrossado com miolo de pão, em que entram, como temperos, alho, coentro e azeite.

————

“O abade da Cortegaça, ‘passava por ser o melhor cozinheiro da diocese’. Todo o clero das vizinhanças conhecia a sua famosa ‘cabidela de caça’. (…)’ Vivia tão absorvido pela sua ‘arte’ que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fiéis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho.”

Sarrabulho: ensopado feito com o sangue coagulado do porco, carne, fígado, banha e condimentos, especialmente cominho.

————

Padre Amaro, Cônego Dias, Padre Natário e outros da roda de conversa discutiam assuntos de religião.

“Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa de arroz-doce.

– Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas – disse logo prudentemente o abade. – Viemos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!”

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Porto, vinho do Porto, o mais famoso vinho de Portugal. A elaboração deste precioso néctar segue processo sui generis: ao mosto (suco fermentado) de uvas selecionadas do Vale do Douro adiciona-se aguardente vínica, que suspende a fermentação, aumentando o teor alcoólico e conservando o açúcar da uva. Há comumente três qualidades de vinho do porto: ruby, encorpado e frutado, de coloração vermelha; tawny, menos doce e mais leve; branco, de dois tipos: seco e doce. Servido após as refeições, como digestivo, o vinho do Porto também é muito apreciado como aperitivo, especialmente o branco. À mesa, acompanha queijos, doces, etc.

 

II


Em “A Cidade e as Serras”, romance da sua última fase, tido e havido como obra-prima, Eça reconcilia-se com Portugal. Até então toda a sua obra de ficção, retratando a sociedade portuguesa da sua época, tinha o espírito do ridendo castigat mores. Com “A Cidade e as Serras” ele muda, transforma-se; já não é o ironista ferrenho, o crítico social implacável, mas reencontra, desarmado, sua terra e sua gente, e exalta os seus valores, inclusive a culinária típica.

O personagem/narrador, Zé Fernandes, diz a certa altura:

“Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia

Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa!”

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No palacete do amigo Jacinto, em Paris:

“…chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a ideia patriarcal:

– Arroz-doce! Está escrito com dois “ss”, mas não tem dúvida… Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.”

Vivente de Paris, habituado aos luxos e confortos da “civilização”, o amigo Jacinto retorna a Portugal em busca de sua terra, a bucólica herdade de Tormes, na região do Baixo Douro: pouco a pouco ele se deixa cativar pela simplicidade da vida campesina.

No primeiro jantar em Tormes:

“Jacinto (…) desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia (…) Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.”


(………)

 

“… e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas.”

Jacinto, entusiasmado, não se contém e diz:

“– Deste arroz com favas nem em Paris, Melchior amigo!”


(……….)

 

“Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: – divino!”

Jacinto conversando com Zé Fernandes:

“- E também me parece que andamos léguas. Estou derreado. E que fome!

– Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera.

– Bravo! Quem te cozinha?

– Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás de ver a canja! Hás de ver a cabidela!


(……….)

 

Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho do Melchior; e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da terra (…)”

 

————

 

Num jantar em casa de Zé Fernandes, para apresentar Jacinto aos amigos do anfitrião:

“…à mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos da Madeira e do Porto, na suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes (…)

E a sopa, que era de galinha com macarrão, foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois de tanto tempo e em minha própria casa:

– Deliciosa, esta sopa!

Jacinto ecoou:

– Divina!”


(………..)

 

“Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir conversação, ataquei com desabrida alegria a Sra. D. Luiza por ela assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional!” (o arroz-doce).


(…………)

 

“…no desabado daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até aos frangos guisados.”


(…….)

 

“Todos os olhares se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas (…)”


(…….)

 

“…todos (…) se lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava mais viveza.”

Terminado o banquete, com os convivas já na sala de visitas:

“…a tia Vivência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras.”

 

III


O “grande acepipe nacional” também aparece no romance “A Relíquia”, duas vezes servido em jantares na casa da sra. D. Patrocínio das Neves, a titi do Raposo, o personagem principal:

“A Vicência ofereceu o arroz-doce. Nós rezamos as graças.”

“Longas horas nos detivemos à mesa – onde a travessa de arroz-doce ostentava as minhas iniciais, debaixo de um coração e de uma cruz, desenhadas a canela pela titi.”

 

IV


A trama do romance “O Primo Basílio” é um caso de adultério: Luisa trai o marido Jorge, tornando-se amante do primo Basílio. Dois outros personagens, embora secundários, ganharam relevo – a criada Juliana e o conselheiro Acácio – magistralmente caracterizados. Obra realista por excelência, “O Primo Basílio” figura ao lado de “Os Maias” e “A Cidade e as Serras”, como um dos melhores romances de Eça.

No chá em casa de Jorge e Luísa, a criada

“Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os bolos do Cocó.”

Leopoldina (a dissoluta amiga de Luísa)

“Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro (o marido) punha-se à mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais estúpida!”

Leopoldina, em casa de Luísa, ao jantar:

“E como Juliana (a criada) entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação:

– Bravo! Está soberbo!

‘Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, abrindo em lascas.

– Tu verás – dizia ela. – Não te tentas? Fazes mal!

Teve então um movimento decidido de bravura, disse:

– Traga-me um alho, senhora Juliana! Traga-me um bom alho!”

O bacalhau parece ser o prato número um da culinária portuguesa. Preparado de várias maneiras – à Gomes Sá, com rodelas de batata ou à lagareiro, regado de azeite, por exemplo – come-se muito bacalhau em Portugal.

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                             Bacalhau assado com batatas 

————

O Conselheiro Acácio talvez seja o mais famoso personagem criado por Eça: tornou-se, com o passar do tempo, uma espécie de estereótipo: quando se quer designar pessoa medíocre, conservadora e formalista, de retórica oca, cita-se o conselheiro Acácio. Num jantar em casa dele:

“…o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundância das travessas de doce; havia creme crestado a ferro de engomar; um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do conselheiro desenhadas a canela.”


(……)

 

“As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles de macarrão.”

E o conselheiro Acácio diz:

“- Pode ir trazendo o cozido, senhora Filomena… – Mas detendo-a, com um gesto grave: – Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo.”


(……..)

 

“Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate (…)”


(……)

 

O conselheiro

“Ia fulminar a doutrina ultramontana – mas a senhora Filomena colocou-lhe diante a travessa com a perna de vitela assada.”


(……)

 

“O Alves Coutinho (…) discutia gulodices. Indicava as especialidades. Para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltreschi! Para as gelatinas, o largo de São Domingos!”

“O café foi servido na sala.”

“E a senhora Adelaide pode trazer os licores – disse à Filomena.”

Duas especialidades feitas com natas, muito apreciadas: pastel de Belém e bacalhau com natas. O pastel à base de massa folhada e creme, tem a forma das nossas empadas.

 

V


O romance “A Capital”, obra póstuma, contém apenas três referências à cozinha portuguesa, mas só menciona uma iguaria típica.

O personagem Meirinho planeja o jantar, em que o personagem principal, Artur, terá oportunidade de ler suas criações literárias para algumas das mais influentes personalidades de Lisboa.

“- Uma coisa elegante – dizia – duas sopas, hors-d’oeuvres, duas entradas, assado, caça, entremets, um jantarzinho para quinze libras…”

“O jantar no Cruz foi triste (…) E Melchior, lúgubre, só repetiu o paio com ervilhas, porque, disse – “era um prato que lhe fazia bem à alma.”

“…as raparigas vozeavam também, oferecendo mexilhões e ovos moles de Aveiro.”

Gema de ovo e açúcar são os ingredientes dos ovos moles. No romance “Os Maias”, diz Eça: É um doce muito célebre, mesmo lá fora. Só o de Aveiro é que tem “chic”.

Numerosas confeitarias, no centro da cidade de Aveiro, fabricam e vendem ovos moles, nas duas formas tradicionais: em pequenas barricas, adornadas com ingênuos desenhos, e como recheio de doces em formatos variados (conchas marinhas, búzios, peixinhos) feitos com massa de hóstia.

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                                        Ovos moles de Aveiro

————

Está visto de relance algo do Eça de Queiroz gastrônomo, apreciador da culinária da sua terra. Voltaremos ao assunto, tendo em mira os romances “A Ilustre Casa de Ramires” e “Os Maias”, para uma releitura anotada.

 

 

 

 

02
Jul17

Tempos de ouro em Natal

Talis Andrade

PELO JORNAL DE WODEN MADRUGA E SUBSTANTIVO PLURAL

 

woden-3.jpg

 No Jornal de WM (foto):

 

 

Navegando pelas águas da internet me ancorei, ontem, no cais do Substantivo Plural, saite de Tácito Costa, em cujas páginas o leitor encontra boas novidades do mundo cultural desta aldeia de Poti mais esquecida e também de outras partes do tal planeta terra. Lá estava uma palavra (muitas palavras) do poeta Talis Andrade para o poeta Oreny Júnior. Oreny, aqui em Natal, Talis no Recife. Na conversa, Talis vai enfileirando as saudades do tempo em que viveu por estas bandas natalenses, coisas dos anos 50, 60 pegando começo dos 70. Como poeta dirigiu o Suplemento Cultural de A República (governo Dinarte Mariz) e como jornalista dirigiu o próprio jornal (governo Cortez Pereira). Um agitador cultural sangue puro, autor de 13 livros e mil coisas mais jogando nos meios literários de Natal e Recife, para onde voltou em 1970. Este ano ele entra no time dos octogenários.

 

 

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Manoel Onofre Jr 

 

 

Bom, passamos a palavra para Oreny Júnior, como está no Substantivo Plural:

 

- Conversando com Talis Andrade, onde passei os contatos de Manoel Onofre Jr, que deseja falar com ele, tendo em vista não se falarem há algum determinado tempo, eis a resposta de Talis Andrade:


"Oreny, li sua mensagem hoje. Saudades de Onofre. Saudades de um tempo sem volta. Saia de noite do jornal A República para a casa de Cascudo. Ele fazia uma pausa nas leituras ou escritos. Fumava um charuto. Era um ritual. Imagine os fotogramas em câmara lenta. Pegava o charuto. Amaciava com os dedos. Cortava a ponta. Mergulhava em um cálice com conhaque. Cheirava e lambia a parte molhada. Depois acendia. Para gostosas e fumacentas baforadas.

 

"Outras vezes ia me encontrar com Ticiano lá na frente da estação de trem, no bar restaurante do pai de Tarcísio Pereira, que foi meu aluno de jornalismo na Católica, e dono da Livro 7, aqui no Recife, a maior livraria do mundo. Tempos de ouro de Natal. Nunca mais vai aparecer tanta gente linda pra uma noite de boemia: Navarro, Sanderson, Woden, Veríssimo, Walflan, Berilo, Márcio Marinho, Francisco Fausto, Myrian branca e tímida como um anjo deslocado, Zila, Dorian, Expedito Silva que dormia bêbado na redação, e um dia acordou do porre para casar e logo morreu na lua de mel. Onofre, Djalma Marinho, Djalma Maranhão apareciam e sumiam e levavam Myriam e Zila que não poderiam ficar, que a madrugada sempre foi má companhia apesar da brisa do Potengi e da Maresia do Forte dos Reis Magos.

 

"Oreny, esse Natal que eu vivi fica doendo em mim na saudade".

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