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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

01
Out23

Especialistas em ética jornalística denunciam problemas na cobertura da Lava Jato

Talis Andrade
 
Em determinadas conjunturas, o interesse público é ameaçado pelos interesses políticos e econômicos das empresas
Em determinadas conjunturas, o interesse público é ameaçado pelos interesses políticos e econômicos das empresas - Charge: Carlos Latuff

 

Concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas famílias interfere no noticiário sobre a operação

Daniel Giovanaz
 

O artigo Considerações sobre a mani pulite, escrito por Sérgio Moro em 2004, é um elogio à operação Mãos Limpas, investigação judicial que aconteceu na Itália na década de 1990. Principal inspiração da Lava Jato, a Mãos Limpas teve um resultado desastroso sob os pontos de vista político e econômico: a Itália tem um dos índices de corrupção mais altos da Europa, e o PIB é praticamente o mesmo de 12 anos atrás. Naquele texto, o juiz paranaense afirma que a mídia teve um papel decisivo durante a operação: “minar” a imagem dos réus junto à opinião pública, deslegitimando os argumentos da defesa.
“A investigação da mani pulite [Mãos Limpas] vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no L’Expresso, no La Republica e outros jornais e revistas simpatizantes”, descreve Moro na terceira página do artigo. “Os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. (...) O processo de deslegitimação foi essencial para a própria continuidade da operação mani pulite”.


Olhos abertos
A exemplo do que Sérgio Moro constatou sobre a operação Mãos Limpas, a imprensa brasileira também contribui para o avanço da operação Lava Jato. Ao alimentar boatos sem a devida checagem, promover vazamentos seletivos e “condenar” os réus antes mesmo da sentença judicial, o noticiário brasileiro têm sido um prato cheio para pesquisadores especializados em ética jornalística.
Professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) aposentada em 2016, Sylvia Moretzsohn estuda as relações entre a ética e os dilemas do jornalismo. Segundo ela, é natural que os interesses das empresas de comunicação interfiram nas coberturas, mas os jornais deveriam preservar o senso crítico e a checagem rigorosa das informações.
“O jornalismo não se justifica se não defender causas. O problema é como as defende, se é panfletário ou não. É preciso conciliar isso com uma postura rigorosa na apuração, na divulgação, e não é isso que a gente está vendo”, analisa a pesquisadora. “A mídia passou a reproduzir a ideia de que ‘nunca se roubou tanto’ quanto nos governos PT. E a intenção foi clara: derrubar o governo [Dilma] e fazer um acordo em favor de interesses [econômicos] que estavam sendo suavemente contrariados”, completa.


Superficialidade
Questionada sobre a cobertura da Lava Jato após o golpe de 2016, Moretzsohn afirma que a “fórmula” é a mesma desde 2005, quando veio à tona o caso Mensalão. “É a partir daí que a coisa começa a degringolar de maneira escandalosa: a espetacularização da Justiça, a proeminência do Judiciário como ator político”, critica. “O Mensalão já tem a figura do juiz ‘salvador da pátria’, que foi o Joaquim Barbosa, mas a Lava Jato radicaliza isso, principalmente devido ao juiz de primeira instância, que mais de uma vez optou por condenar sem provas – como no caso do [José] Dirceu. Ele [Moro] está seguindo rigorosamente o script que descreveu no artigo em 2004, de usar a mídia em favor da operação”.
Em meio ao “fla-flu” ideológico, a pesquisadora lamenta que o jornalismo brasileiro apenas reforce o senso comum, apostando em colunistas políticos que associam a Lava Jato a uma luta “do bem contra o mal” – que supostamente levaria ao fim da corrupção. “A responsabilidade de qualquer jornal que não seja fascista é não dar espaço a essas vozes superficiais, que só reproduzem ódio”, acrescenta a pesquisadora. “O respeito à ética é importante, mas não temos um conselho de ética com poder efetivo. Seria interessante se houvesse uma legislação de imprensa que garantisse a liberdade e punisse gravemente essas práticas, que se avolumam na nossa história recente”.
O Observatório da Ética Jornalística (ObjETHOS), vinculado ao Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), possui uma equipe de vinte pesquisadores, responsáveis por publicar dossiês, artigos e comentários semanais sobre a cobertura da imprensa brasileira e internacional. A operação Lava Jato é um tema recorrente no portal do Observatório, justamente por ocupar a maior parte do noticiário político do país desde 2015.
Um dos professores responsáveis pelo ObjETHOS, Rogério Christofoletti afirma que os jornais brasileiros estão “perdidos” na cobertura da Lava Jato. “O tempo da mídia é diferente do tempo do Judiciário. A checagem dos fatos, das informações, é algo que atrasa a publicação. Mas essa é a função do jornalismo”, ressalta. “A mídia precisa questionar o que são provas e o que são indícios, precisa questionar o porquê de todos esses vazamentos”.

Problema estrutural
No dia 11 de maio, Christofoletti publicou um texto crítico à cobertura do jornal paranaense Gazeta do Povo sobre o depoimento do ex-presidente Lula (PT) em Curitiba. Dois dias antes de Moro receber o petista na sede da Justiça Federal, o jornal havia chamado atenção para a importância do evento que estava por vir; na edição de véspera, porém, a capa anunciava que era “muito barulho por (quase) nada”. “É muito cinismo da imprensa!”, descreve o pesquisador no título do artigo.
As revistas semanais de circulação nacional também deslizaram naquela cobertura, segundo Christofoletti, estampando na capa um suposto duelo entre Sérgio Moro e o ex-presidente. A analogia é incorreta porque juiz e réu não são adversários em um tribunal. “Eu não acredito que uma revista como a Veja desconheça a função de um juiz em um processo. Mesmo assim, eles reproduzem essa lógica adversarial porque é algo que chama a atenção do público”, analisa. “Problemas técnicos muitas vezes são, também, desvios éticos”.
Sylvia Moretzsohn compartilha dessa interpretação e reafirma que, desde 2005, a mídia brasileira tem violado princípios básicos do jornalismo, como a checagem das informações antes da publicação de uma manchete: “Os títulos são desmentidas pelo próprio texto. E isso não é só erro de revisão”, concorda.  Para Christofoletti, “a queda da Dilma e a Lava Jato são questões conjunturais, mas o problema do jornalismo brasileiro é estrutural: a mídia brasileira é oligopolizada [está nas mãos de poucas pessoas]”.
O pesquisador do ObjETHOS explica que seis famílias são donas da maior parte das empresas de comunicação do país, cujos vínculos políticos e econômicos nem sempre estão evidentes para o público: “Os meios de comunicação são atores políticos. Se a gente não esquecer disso, será bom para a democracia, bom para o jornalismo, e bom para o público”. Afinal, os interesses das empresas que apoiam a Lava Jato nem sempre coincidem com o interesse da maioria da população: “A gente não pode esquecer que, na Itália, um dos resultados da operação Mãos Limpas foi o [ex-primeiro ministro Silvio] Berlusconi, que, além da questão do autoritarismo e da corrupção, tinha uma relação muito próxima com a mídia corporativa”.
Paralelamente a um processo de democratização da propriedade dos meios de comunicação no Brasil, Christofoletti aposta na transparência como compromisso ético: “O leitor precisa saber de que lado o jornal está, quais os interesses que estão jogo em uma cobertura, saber onde está pisando. Mas a mídia brasileira tem dificuldade de abandonar o discurso da isenção, mesmo que na prática as coisas se mostrem bem diferentes, como no caso da Lava Jato”.


Seis anos de oposição
Em março de 2010, na sede da Fecomércio, a então diretora-superintendente da empresa Folha da Manhã S.A. – que edita o jornal Folha de S. Paulo –, Maria Judith de Brito, declarou: “Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos”. Maria Judith de Brito presidia, na ocasião, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Seis anos depois, Dilma Rousseff (PT) sofreu um golpe de Estado legitimado pela mídia comercial.
A pesquisadora Sylvia Moretzsohn interpreta a declaração de março de 2010 como uma síntese dos desvios éticos cometidos pelos jornais brasileiros nos últimos anos. “Isso é realmente escandaloso, porque os jornais assumem através de sua porta-voz máxima que estão fazendo oposição”, afirma Moretzsohn. “Não estão fiscalizando os três poderes, como seria até desejável dentro do conceito de ‘quarto poder’, para impedir abusos, mas se colocam na luta política como um partido”, completa. “E fazer oposição é muito diferente de fazer crítica”. In Brasil de Fato, 16 de Junho de 2017

Vídeo: "Lógica da Lava Jato era a mesma das milícias e do esquadrão da morte" 
 

Vídeo: O jornalista e escritor Mário Magalhães disse, em entrevista ao "Jornalistas e Etc" publicada no canal UOL, que a cobertura da Operação Lava Jato foi um dos piores momentos da imprensa brasileira. "Acho que foi feito pouco jornalismo e muita propaganda. Um dos piores momentos do jornalismo brasileiro, que veio sucedido de um grande momento, que foi a cobertura da pandemia, contra um governo de comensais da morte [nome dado aos seguidores de Lord Voldemort, vilão da série Harry Potter]", analisou.
 
 

Vídeo: O ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol negociou em sigilo com as autoridades norte-americanas um acordo para dividir o dinheiro que seria cobrado da Petrobras em multas e penalidades por causa da corrupção. Procurado, Deltan não respondeu aos pedidos da reportagem, realizada em uma parceria entre o UOL e a newsletter A Grande Guerra, conta a reportagem de Jamil Chade e Leandro Demori
 
07
Set20

O chicote da Justiça alcançava o lombo dos odiados políticos.

Talis Andrade

sonho berlusqui1.jpg

 

 

II - Descanse em paz, Operaçãp Lava Jato

por Wilson Gomes/ Cult

- - -

Aqui, diferentemente da Itália, houve tempo para construir, com o apoio ou cumplicidade do jornalismo encantado com as sereias do MP de Curitiba, um movimento social e um sentimento público ao redor da Lava Jato, o lavajatismo ou morismo. Um movimento que é anticorrupção, certamente, mas também com igual certeza um movimento de desprezo à política, de um espesso e envenenado antipetismo, de desconfiança com relação a todas as instituições exceto aquelas que se dediquem à distribuição de punições a jato, ao estilo fast food. Por fim, e diferentemente de Mani Pulite, entretanto, os líderes conservadores da Lava Jato produziram ao seu redor um fortíssimo sentimento moralista e conservador.

É por isso que na Itália a abreviação da vida de Mani Pulite foi devido a inúmeras colisões entre a força-tarefa e, especialmente, Antonio Di Pietro, o Moro original, com Berlusconi, até que a política disse ‘basta’ e fechou-lhe as portas. Aqui não, a forte pegada conservadora da turma de Curitiba, a nítida parcialidade antipetista adotada, os inegáveis apetites políticos de egos como os de Moro e Dallagnol, fizeram com que a Lava Jato virasse escada para Bolsonaro e o bolsonarismo. E a tal ponto que Moro sentiu-se no direito de entrar no governo para resgatar a sua recompensa por ter removido o PT do caminho de Bolsonaro. O que lhe custou uma reprovação até mesmo dos seus musos procuradores italianos.

Mas o desenlace da história já estava plantado nas suas premissas e o script continuou tragicamente idêntico. Cai Moro, depois de Bolsonaro ter sugerido que tivesse a dignidade de se demitir. Já não tinha serventia, o seu papel já tinha sido cumprido, a este ponto era um estorvo que de bento nada tem. Alguns meses depois e cai também Dallagnol. Esta semana.

O promotor deixa a Lava Jato por que não aguentou a pressão. O conluio com o juiz do caso e a parcialidade da operação revelados pelos vazamentos publicados em junho de 2019 acabaram confirmando um sentimento muito alastrado em parte importante da opinião pública de que era um procurador-missionário, não a serviço da Justiça, mas de uma missão política. A arrogância dos anos em que se vendia como o chicote de Deus levaram-no às falhas e aos abusos cometidos, que, neste momento, dão força aos pedidos de reversões na Justiça de sentenças sobre as quais a Lava Jato se vangloriava. Por fim, Bolsonaro por seu lado, fez o que pôde, depois de se livrar de Moro, para promover a ala do Ministério Público Federal contrária ao time de Dallagnol, liderada por nada menos que o Procurador Geral da República, Augusto Aras.

Assim, a Justiça, Bolsonaro, parte da opinião pública e Aras estavam com o joelho no pescoço de Dallagnol e não exatamente por causa das virtudes do moço, como ele certamente alega. Era muito joelho para tão pouco pescoço e Dallagnol saiu, quer dizer, caiu.

A Lava Jato ainda existe, mas oficialmente acabou em setembro de 2020. Fez um ótimo trabalho para reduzir a pó o sistema político. Porém, como a franquia, operações como essa não constroem. O seu trabalho consiste em demolição e limpeza do terreno. Terminada a tarefa, profissionais da política, uma nova elite com baixíssimo traquejo republicano, apareceram para construir um novo edifício. Demolidores não têm mais o que fazer na obra. Na Novíssima República brasileira, surgida dos escombros produzidos pelo impeachment e pela Operação Lava Jato, definitivamente não há espaço para Moros e Dallagnóis.

A política é um sistema astuto, milenar, especialista em sobreviver. O MP e “uns juízes aí” achavam que estavam controlando o jogo, quando na verdade estavam sendo usados pelos que esperavam na fila, há anos, uma oportunidade para eliminar a elite partidária formada entre 1989 e 2014, e ocupar o espaço que foi dela. É a política como sempre, e na sua forma pior, sobrevivendo a mais um ataque antipolítica. Eis enfim o legado da Lava Jato, assim como foi o de Mani Pulite: uma nova elite política surgiu da noite para o dia; nova, não melhor, antes ao contrário. Não importam suas intenções: Moro e Dallagnol deixam o Brasil nas mãos de Berlusconi. Que descansem em paz.

06
Set20

LAVA JATO É UM PROCESSO DE KAFKA

Talis Andrade

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MÃOS POLIDAS OU POLUTAS?

por Francisco Foot Hardman

Agora tudo ficou claro. Sergio Moro, o juiz-mor da Lava Jato, queria só fazer jus ao título de grande agitador das massas. Subversivo, para ninguém duvidar: o novo campeão da “agitprop”.

Na Operação Lava Jato, a perícia é instalar uma máquina inquisitória interminável, a serviço dos mesmos poderes que já comemoram a próxima derrubada do governo e a destruição de seu oponente mais difícil. Aqui não se ouve, prende-se. Aqui não se solta, extrai-se delação. Aqui não se ajuíza, panfleta-se. Que o timing concatenado de seu vazamento fabricará a “verdade” do dia.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara, inventou as pautas-bombas para livrar a própria cara e permanecer onde está. O juiz-mor faz da agitação processual sua bomba de efeito moral, mesmo que às custas do atropelamento de qualquer legalidade. Contra os agentes do poder estatal que se protegem na sombra, a sombra de um grampo transparente em sua obscuridade.

Quando representantes oficiais da Justiça assumem a ideologia da transparência total, que qualquer aluno de primeiro ano de linguística sabe ser falsa, é certo que haverá tantos outros interesses escusos, tantos outros partidarismos em trama.

Dos mitos redivivos da “Mani Pulite” (mãos polidas, limpas) e de Watergate, mal se disfarça a obsessão em fazer do inquérito um desfile de fases intermináveis em sua nomeação/enumeração, que parecem ser pilar de uma instância autônoma do poder policial-judiciário condenada a se propagar sem meta final, requisito de qualquer investigação de interesse público.

A Lava Jato é o “Processo” de Kafka feito para se eternizar, meta que agentes de uma Justiça e uma polícia autorreferentes cobiçam como sonho autocrático. E que é afinal populista, porque ancorada na publicidade extremada, na sensação dos segredos palacianos expostos, na humilhação do ex-presidente Lula, que deve voltar às origens de onde nunca deveria ter saído, para a sanha dos que não o vencem nas urnas.

E Brasília? O país deve assistir agora ao inusitado processo dirigido por um Congresso de réus, encabeçado por duas figuras de forte matiz delinquencial – os presidentes da Câmara e do Senado.

Isso não importa? Para a bazófia oportunista do grão-tucanato, certamente não. Mais vale um poder central na mão, nesse atalho cômodo, no cálculo das poucas dezenas de deputados venais que faltam para o butim, do que ter que correr atrás, daqui a dois anos, de mais de 50 milhões de votos.

Aécio Neves, o inconformado, o neto que faria Tancredo, o legalista, corar, trocou o programa eleitoral que nunca teve pela sala de espera do impeachment. Já o vice-presidente, Michel Temer, agora incensado pelos sonhos igualmente golpistas de José Serra, parece não ter o que temer. A Fiesp o resguarda; Cunha, réu unânime no STF (Supremo Tribunal Federal), idem. Orquestrados, todos.

 

E a Justiça populista subversiva vai iludindo as massas ignaras com o mito do justiceiro contra o dragão da corrupção: um caçador de marajás de capa preta. Já vimos esse filme antes.

Michel Temer poderá assim vestir a faixa que lhe cabe, não a de chacal, por favor, mas a de pacificador popularíssimo como um bolero bolorento.

Se a política degenera, pré-condição da emergência do fascismo de cada dia, de cada rua, isso já não é com os técnicos da toga ou da pura propaganda. E as “Mani Pulite”, nessa lenda urbana do juiz-mor e de sua operação sem fim, vão se mostrando, irremediavelmente, mãos polutas, calcadas naquilo que nenhum conceito de justiça contempla: manipulação.

O resto se chama tragédia brasileira. Quem responde por ela assim, convertida numa Grécia impensada, sem ruína e sem misericórdia?

- -
publicado in 29 de março de 2016 na Folha (via Conversa Afiada)

ilustração Vitor Teixeira

06
Set20

Descanse em paz, Operação Lava Jato

Talis Andrade

Especial | A condenação de Lula no TRF4 e os esqueletos no | Especiais

 

por Wilson Gomes/ Cult

- - -

Operação Lava Jato pretendeu-se, desde a sua origem, ser uma espécie de réplica da operação Mãos Limpas (Mani Pulite) que aconteceu na Itália no início dos anos 1990. Mani Pulite foi um inquérito que inovou nos procedimentos de combate à corrupção público-privada que envolvia pesadamente, naqueles anos, as elites políticas e empresariais do país. O país estava sufocado por corrupção, as campanhas políticas custavam uma fortuna e o toma lá, dá cá, era um meio que se tinha tornado comum para financiá-las, apesar de o financiamento público aos partidos estar nas nuvens.

A inovação introduzida se deu em quatro aspectos: a) A articulação de todas as instituições envolvidas nos inquéritos legais até a sentença final (polícia, procuradores e magistrados) em uma força-tarefa, como se chamou aqui, ou em um “pool”, como se denominou na Itália; b) O uso eficiente e muito alargado de dois dispositivos, legais naquele momento, que eram a previsão preventiva e a delação premiada – a prisão preventiva usada, inclusive, para forçar delações; c) O uso dos meios de comunicação para conseguir da opinião pública o apoio necessário para neutralizar as pressões políticas e econômicas sobre a operação.

Baseada em prisão preventiva, delação e mídia, Mani Pulite foi um sucesso estrondoso de público, mas foi também um terremoto na política italiana. Diferentemente da Lava Jato, liderada desde o começo por conservadores de direita e, como se viu posteriormente, de forte disposição antipetista, as lideranças de Mani Pulite se distribuíam de maneira menos tendenciosa no espectro ideológico. Mani Pulite, portanto, alvejou à direita e à esquerda o sistema político italiano que se mantinha igual desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e pôs fim a dois dos três grandes partidos do país: o Socialista e a Democracia Cristã. Neste sentido, Mani Pulite foi mais imparcial que a Lava Jato. Além disso, foi mais curta, mais intensa, e mais assustadora como operação, sobretudo porque incluiu uma fase em que políticos e empresários se suicidaram ao saber que seriam alvos de inquéritos.

O fato é que na sua obra de demolição, Mani Pulite foi um sucesso. Em pouquíssimos anos desbaratou a elite política, destruiu eleitoralmente os tradicionais partidos italianos e alterou completamente a face política da Itália. A tal ponto que o jornalismo propagandeava que havia acabado a chamada Primeira República italiana, ficando convencionado que nas eleições de março de 1994 a Segunda República nascia.

Novinha e berlusconiana, pois após ter feito terra arrasada dos partidos e da cultura partidária italiana, e de ter alimentado um fortíssimo sentimento anti-establishment, antipartido e antipolíticos, os fervorosos membros da operação se depararam com os resultados das premissas que prepararam. Destruída a elite política, estava aberto o caminho para oportunistas, alpinistas políticos e, sobretudo, populista. Foi assim que Berlusconi, um bem-sucedido empresário de comunicação, ofereceu-se como uma alternativa não política, mas empresarial, para governar o país, e chega inesperadamente ao poder. O passo seguinte, que de bobo o empresário não tinha nada, foi aprovar leis que quebravam as pernas da inovação de Mani Pulite, limitando o uso do instituto da prisão preventiva com que o “pool” tinha feito a festa nos anos de sua grandeza.

Dramaticamente, então, os membros da operação renunciam, deixando o espaço a Berlusconi, um espetáculo de populismo, clientelismo e, vejam só, corrupção, que, entre 1994 e 2011, governou diretamente o país por mais de dez anos. A Itália pós-Mani Pulite nunca mais voltou aos eixos. Nas últimas eleições gerais, os vencedores foram um partido-movimento populista, o Cinque Stelle, de Di Maio, e um partido da direita xenófoba cujo líder, Matteo Salvini, é conhecido como o Bolsonaro italiano. Os partidos dominantes agora têm nomes antipolítica como La Lega, Movimento Cinque Stelle, Forza Italia e Fratelli d’Italia, quase como para ocultar que se situam no espectro ideológico e que fazem a luta política com uma visão política de mundo. Ocultar, mas não cancelar, haja vista que hoje os demagogos antiestablishment e a extrema-direita têm o maior número de votos.

Enquanto isso, a operação Mani Pulite II, a Lava Jato, que já começa com um nome que é um erro do português, praticamente vai a pique, tendo seguido, tintim por tintim, o script da matriz. Como a franquia italiana, a Lava Jato de Moro e Dallagnol, baseou-se nos mesmos recursos: articulação, prisão preventiva, delação premiada e meios de comunicação. Agindo juntos, como se não houvesse uma imperiosa necessidade legal de separação de papéis, procurador e juiz aprontaram todas para impressionar a opinião pública, para mostrar como eram fortes e impávidos, para construir a própria imagem pública como heróis nacionais na punição dos corruptos poderosos e como a única fonte confiável de Justiça e Justiçamento. (Continua)

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