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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

02
Jul22

NÃO VOTE EM DEPUTADO HOMICIDA. NÃO VOTE EM SERIAL KILLER

Talis Andrade

Serial killers: entenda os termos modus operandi e assinatura · Alto Astral

 

Lula, ameaçado de morte

 

Não continue votando em deputados estadual e federal homicidas. Não reeleja um serial killer, quem matou mais de três pessoas. Quando existe parlamentar que confessa, com orgulho e propaganda política e amedrontamento, ter assassinado (pasmem!) cem, duzentas pessoas, usando a desculpa de que bandido bom é bandido morto, acontecendo do morto ser sempre um negro ou mulato.

As assembléias legislativas estaduais e o Congresso Nacional estão repletos de racistas, genocidas, criminosos cruéis, que matam por prazer, para ser temidos, para continuarem comandando quadrilhas de matadores de aluguel, de pistoleiros que eliminam adversários políticos, lideranças comunitárias,  ambientalistas, líderes sindicais, defensores de direitos humanos.

São deputados chefes de milícias. Temos no Rio de Janeiro, o Escritório do Crime, sediado no Rio das Pedras, que metralhou Marielle Franco. Um mando criminoso que se estende pela turística Barra da Tijuca, pelo Condomínio Vivendas da Barra, de onde saiu o mando da morte de Moïse Kabagambe. 

Um policial, para um exemplo, não precisa ser um monstro. Aline Mendes Favarim, em sua tese "Psicopatia e assassinos em série: o perfil do criminoso e sua relação com a vítima", cita Friedrich Nietzsche: “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

Monstros policiais, nesta campanha eleitoral de 2022, já ameaçaram de morte o candidato a presidente Lula da Silva. 

 

Não vote em deputado homicida. Em serial killer

 

Precisamos alertar: Nestas eleições de 2 de outubro próximo não vote em deputado homicida. Não vote em serial killer.

Aline Mendes Favarim escreveu tese com "o propósito de trazer para a realidade acadêmica a discussão acerca de temas de grande interesse social, quais sejam, a psicopatia e os assassinos em série, abordando a técnica do perfil criminal e a perspectiva da vítima através da introdução de aspectos sobre a Vitimologia".

Escreve Aline Favarim: "Inicialmente, explica- se a origem do conceito de psicopatia e os fatores que contribuem para o seu surgimento. Em seguida, apresenta-se o PCL-R, instrumento de maior confiabilidade para a identificação de traços de psicopatia, os principais traços presentes em um psicopata e a sua relação com a violência. O debate acadêmico prossegue com a abordagem da confusão existente entre os conceitos de psicopatia e transtorno de personalidade antissocial, a qual gera divergências inclusive entre os profissionais da área da saúde mental. Sobre os assassinos em série são expostos o conceito de crime em série, as classificações de seus agentes e a equivocada concepção de que o sexo feminino não se engaja no cometimento de tal tipo de delito. Procura-se demonstrar que não somente a psicopatia pode integrar a personalidade dos serial killers, mas também diversos transtornos parafílicos, sendo os responsáveis pelas suas preferências (fazer a vítima sofrer, vitimar apenas crianças, etc.). Possuindo como objetivo identificar tais criminosos surgiu a técnica do perfil criminal, criticada devido à subjetividade que demanda, fato sobre o qual se discorre juntamente com a contribuição que à elaboração do perfil prestam outras áreas do conhecimento. Por fim, é analisado o papel da vítima no crime cometido, bem como a necessidade da adoção de políticas que visem a auxiliá-la a superar o trauma sofrido, contrariando a perspectiva atual, na qual os esforços se concentram no criminoso.

 

Psicopatia e assassinos em série: o perfil do criminoso e sua relação com a vítima

 

Para Aline Mendes Favarim: A psicopatia está situada entre os aspectos mais intrigantes que envolvem a mente humana. Especialistas mantêm a busca por instrumentos que definam com precisão as características do indivíduo psicopata - em que pese o PCL-R ser mundialmente reconhecido como a melhor ferramenta para tal - e por maior grau de certeza quanto aos fatores que levam uma pessoa a se tornar psicopata, o que talvez permitisse prevenir de alguma forma o surgimento desta condição da personalidade. Ademais, a incessante procura por alternativas que surtam efeito enquanto tratamento faz com que a psicopatia permaneça em constante estudo.

Neste contexto, temos o transtorno de personalidade antissocial (TPAS), não muito conhecido pelo senso comum, eis que os meios de comunicação costumam utilizar a denominação “psicopatia” indiscriminadamente, apesar das diferenças existentes entre ambos. A menos que se faça a leitura de um artigo científico sobre o tema ou de alguma notícia que tenha como fonte especialistas da área da Psicologia ou da Psiquiatria, é muito provável que se encontre a definição de “psicopatia” como transtorno mental, ignorando a existência do TPAS.

Considerando a grande exposição que a psicopatia possui atualmente e a utilização de seu nome, por vezes, de forma equivocada, se faz importante diferenciá-la do transtorno de personalidade antissocial, mostrando que nem sempre uma pessoa com atitudes aparentemente características de um psicopata pode ser diagnosticada como tal. De igual forma, não se pode presumir que, por ser psicopata, um indivíduo seja, obrigatoriamente, violento e vá, futuramente, cometer um crime, tendo em vista que são pouco numerosos os casos em que psicopatas praticam delitos, convivendo a maioria em sociedade normalmente, apresentando apenas determinados traços de personalidade que podem ser considerados inadequados ou incorretos, mas que não chegam a ser sinal de alerta, já que podem ser encontrados em qualquer outra pessoa.

No Brasil, a psicopatia tornou-se conhecida popularmente há não muito tempo, mas nos Estados Unidos, por exemplo, o interesse do cinema e da televisão pelo tema já é antigo, sendo representado pelas produções que envolvem criminosos seriais. Contudo, não é possível afirmar que todos os assassinos em série são psicopatas, porquanto podem sofrer de diversos transtornos mentais.

Outrossim, cada série de crimes possui características e motivações diferentes, o que é suficiente para demonstrar que devemos analisá-las cautelosamente.

Da mesma forma que ocorre com a psicopatia, o destaque conferido aos serial killers nos dias de hoje tem origem principalmente na abordagem de casos reais e fictícios pelos meios de comunicação (telejornais, seriados, filmes, novelas, internet). Sendo assim, é necessário cuidado com os estereótipos e conceitos pré- estabelecidos acerca desses sujeitos, pois nem sempre correspondem à verdade.

Devido à complexidade dos homicídios em série, foi desenvolvida a técnica do perfil criminal, cujo objetivo é compreender a personalidade do agente que comete esse tipo de delito. Surgida nos Estados Unidos, hoje a ferramenta é mundialmente utilizada e reconhecida como a mais confiável para auxiliar na identificação e prisão dos suspeitos, fato que, porém, não a exime de críticas e não faz dela um método infalível. Conhecer a mente do criminoso é um ponto considerado essencial para a sua identificação, além de possibilitar a previsão de seus próximos passos, evitando o surgimento de novas vítimas e, consequentemente, colaborando para a prevenção de futuros delitos.

No entanto, apesar de comumente esquecida, a perspectiva da vítima é tão importante quanto a do criminoso. Partindo do estudo das características da(s) vítima(s), é possível estabelecer o padrão seguido pelo agressor, o qual serve de alerta para outras pessoas que possuem os mesmos traços, além de auxiliar o trabalho policial.

Tal é o panorama que envolve a presente dissertação. Pretende-se, primeiramente, analisar o conceito de psicopatia, apresentando, para isso, o PCL-R, elaborado por Robert Hare – instrumento que almeja identificar psicopatas através do preenchimento de certos itens característicos desse tipo de personalidade, os quais são valorados de acordo com critérios que aqui serão expostos. Não apenas por meio da Escala Hare, a psicopatia será abordada pelo viés dos fatores que levam ao seu surgimento, discutindo-se a influência de aspectos biológicos, psicológicos e sociais para verificar se é possível afirmar que uma pessoa será psicopata futuramente. Busca-se, ainda, avaliar a relação da psicopatia com a violência, bem como as características geralmente encontradas na personalidade psicopata.

A partir da pesquisa da psicopatia, parte-se para o estudo do transtorno de personalidade antissocial, trazendo as definições encontradas na CID (Classificação Internacional das Doenças) e no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Com isso, tem-se a base para a diferenciação entre a psicopatia e o TPAS, de importante realização em razão dos equívocos já mencionados, mas que, adianta-se, carece de um consenso. Logo, não é o objetivo deste trabalho encerrar a discussão sobre o tema, e sim demonstrar que os conceitos são diversos e que muitos equívocos são cometidos quando da utilização das denominações em questão.

Na sua tese, Aline Mendes Favarim trata dos assassinos em série. Iniciando pela discussão acerca do conceito – quantos homicídios são necessários para configurar uma série? Exige-se determinado intervalo de tempo entre os crimes? – que envolve definições correlatas que podem ser confundidas com a caracterização de uma série de crimes, chegaremos às classificações dos assassinos em série, enfatizando a tipologia proposta pelo FBI, haja vista ser o órgão de referência no estudo de suas personalidades.

Quanto ao aspecto psicológico dos serial killers, tendo por base o DSM-V, serão abordados os transtornos parafílicos, indissociáveis da figura do assassino em série – especialmente o sadismo sexual – com o escopo de mostrar que não é apenas a psicopatia que se faz presente nos agentes que cometem tais crimes. Outrossim, encerrando a discussão deste ponto, a psicopatia será abordada na sua ligação com os serial killers, sendo esta exemplificada pela história de Ted Bundy, um dos principais assassinos em série que já estiveram em atividade nos Estados Unidos.

Para a abordagem do criminoso no terceiro capítulo, serão trazidos conceitos e ferramentas utilizadas pelo FBI, pois impossível tratar do perfil criminal sem mencionar como surgiu e foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. Por ser um tema extenso e complexo - e não ser este o escopo desta dissertação - não é possível aprofundá-lo, porém, é importante trazer críticas pontuais a determinados aspectos do perfil, bem como demonstrar que não é uma técnica mágica, mas que trabalha com o raciocínio dedutivo e indutivo, além de possuir auxílio do perfil geográfico e das ciências forenses, entre outras áreas do conhecimento, para garantir maior confiabilidade e precisão nas suas conclusões. Brevemente, ao final, avalia-se a admissibilidade da técnica no sistema jurídico brasileiro, mencionando-se a sua relevância no julgamento de Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido como “O Maníaco do Parque”.

Por fim, será apresentado o panorama da Vitimologia. Para a discussão, fundamental trazer-se as concepções dos primeiros autores que trataram do tema, pontuando algumas críticas das visões mais modernas a respeito do mesmo. Discorrendo sobre a relação entre o criminoso e a vítima, chega-se à importância que o Código Penal Brasileiro confere ao seu papel na ocorrência do crime que sofreu, bem como na ideia da Vitimologia Positiva, que busca soluções que, efetivamente, auxiliem a vítima na superação do fato e não promovam outro processo de vitimização, como o sistema jurídico-penal costuma fazer, ainda que não intencionalmente.

 

A  preocupação de proteger a vítima dos nocivos efeitos do crime

 

Acrescenta Aline Favarim: A violência não é um fenômeno recente. De alguma forma, sempre esteve presente ao longo da História, por mais que, atualmente, a impressão seja a de que nunca se observou tanta violência na sociedade. De fato, diversos fatores levaram ao aumento dos índices que apontam sua incidência, porém, o que mais impressiona, aparentemente, é que a violência aumenta cada vez mais e em todas as suas formas – violência contra a mulher, idosos, negros, homossexuais, crimes com motivação fútil, torpe, ou mesmo sem qualquer motivo, entre outros. Ainda que a população se sensibilize com relação, principalmente, aos delitos que envolvem algum tipo de preconceito, bem como aqueles praticados contra familiares (pais, avós, filhos, etc.) é notório que os crimes considerados “bárbaros” são os que mais espantam as pessoas.

Há dois anos, o diretor executivo da Yoki, Marcos Matsunaga, foi morto pela mulher, Elize Matsunaga, no apartamento onde moravam, na cidade de São Paulo. Entretanto, o que chamou a atenção neste caso não foi o fato de Marcos ter sido assassinado pela esposa, mas sim a revelação desta, de que havia esquartejado o corpo do marido. Tal caso é um exemplo daquilo que realmente choca a sociedade: os requintes de crueldade utilizados em certos crimes. Claro, a questão da crueldade é subjetiva, pois as formas de execução consideradas cruéis para uns, não o são para outros, mas, em geral, estamos acostumados a relatos de violência envolvendo armas de fogo e armas brancas, assim, qualquer caso que saia de tal padrão é suficiente para ganhar destaque.

A barbárie de determinados comportamentos criminosos leva à busca de explicações para tamanha violência, e, neste contexto, é inserida a psicopatia. Quando parece não haver explicação plausível para um crime ou a compreensão dos motivos torna-se impossível, a reação instantânea é afirmar que o agressor só pode se tratar de um psicopata. Há de se salientar que os meios de comunicação contribuem para essa concepção equivocada, conferindo grande destaque a tal tipo de delito e, por vezes, adiantando-se a conclusões precipitadas.

A psicopatia não permite definições baseadas no senso comum, pois se trata de um tema complexo, que não apresenta consenso quanto aos fatores que a originam – uma conjunção de fatores, uns em maior e outros em menor grau – ou quanto à sua definição. Pode-se dizer que a psicopatia é uma condição definida através dos critérios do PCL-R que identificam um indivíduo psicopata, contudo, o que determina se a pessoa que está se submetendo ao instrumento pertence a esse grupo é a pontuação que ela obtém. O ponto de corte do PCL-R varia de acordo com o objetivo e o contexto de sua utilização, sendo de 23 pontos na versão brasileira, conforme definido por Hilda Morana. Tais informações são suficientes para demonstrar o porquê da preocupação com as ideias difundidas pelo senso comum, no que se refere à psicopatia. No entanto, temos, ainda, a confusão entre a sua definição e o transtorno de personalidade antissocial, que é ainda mais nebulosa. É imperioso destacar que existem diferenças entre ambos, sendo este o ponto mais importante; todavia, existe grande dificuldade em desvinculá-los como diagnósticos distintos.

Os delitos praticados por indivíduos que apresentam comportamento antissocial não superam, entretanto, em termos de destaque na mídia, os crimes cometidos por assassinos em série. Talvez pelo fascínio que esses criminosos exercem na cultura americana, principal exportadora dos filmes e seriados assistidos no Brasil, tenhamos adquirido o mesmo interesse, tanto pelas obras fictícias quanto pelos acontecimentos reais. Impossível discorrer sobre o tema sem utilizar como norte as diretrizes elaboradas pelo FBI, pois foi através de seu ex-agente Robert Ressler que foram dados os primeiros passos em direção à conceituação do homicídio em série. Ademais, procedeu-se ao desenvolvimento dos estudos sobre a personalidade criminosa na instituição, através de unidades como a BRIU (Behavioral Research and Instruction Unit) - a Unidade de Pesquisa e Instrução Comportamental - a qual integra o NCAVC (National Center for the Analysis of Violent Crime) - o Centro Nacional para a Análise de Crimes Violentos.

As especificidades dos crimes em série são vistas desde a sua definição, que não deve ser confundida com o assassinato em massa (mass murder) e com a onda de assassinatos (spree murder). Outrossim, as classificações dos sujeitos que praticam esses delitos variam de acordo com o autor pesquisado e não podem ser aplicadas às assassinas seriais, pois são consideradas um caso à parte, eis que existem diferenças entre os crimes em série cometidos por homens e mulheres. Ainda, a psicopatologia dos serial killers pode envolver mais de um transtorno mental, fato que se reflete diretamente nos motivos para os delitos.

Considerando que os homicídios em série geralmente possuem componentes sexuais que levam ao estupro, além da grande violência demonstrada pelas cenas dos crimes e a tendência do serial killer de continuar matando até que seja preso ou morto, tem-se a urgência de que esses crimes sejam desvendados o mais rápido possível. Assim, a fim de auxiliar a investigação dos casos mais complicados surgiu a técnica do perfil criminal, conquanto o interesse pelo estudo da personalidade humana exista há séculos. Apesar de ser apresentada em filmes e seriados como uma técnica mágica, que identifica um assassino em série precisamente, em pouco tempo, com base apenas em alguns dados obtidos na cena do crime e por meio da experiência dos chamados profilers – cuja habilidade parece, de igual forma, mágica – trata-se de uma ferramenta em constante aperfeiçoamento, que direciona a investigação com base nas prováveis características do suspeito que cometeu o crime. Destaca-se, por fim, que os dados fornecidos pelo perfil criminal devem ser analisados com cautela, pois este ainda depende muito dos conhecimentos e da experiência do profissional que o utiliza, e aqui reside uma das críticas à ferramenta: a carga de subjetividade que ela exige.

Quase sempre esquecida, a vítima sobrevivente passa pelo trauma de ter sofrido uma violência e, enquanto tenta se recuperar para continuar vivendo normalmente, é obrigada a vivenciar novamente a experiência que gostaria de esquecer - seja para ajudar a polícia a encontrar seu algoz ou para tentar ajudar na condenação deste, no seu julgamento. O papel da pessoa que sofre o processo de vitimização é de grande relevância para a investigação, pois permite o reconhecimento de um padrão por parte do suspeito (Ted Bundy, por exemplo, atacava mulheres com as mesmas características), e a partir dos dados obtidos na investigação, é possível saber se as suas escolhas são baseadas em algum fato ocorrido em sua vida pregressa, tal como um trauma ou um acontecimento que o tenha marcado por alguma razão. Por outro lado, a descoberta do tipo de vítima a que o agressor costuma visar já possibilita a prevenção de novas vítimas, como nos casos de homicídios de prostitutas, que serão alertadas para redobrar o cuidado na sua rotina de trabalho.

Em contrapartida, a vitimologia nos traz outro aspecto, este normalmente deixado de lado, qual seja, o da humanização da vítima. O foco sempre reside no criminoso, esquecendo-se de quem sofreu a violência e precisará conviver com o fato para o resto de sua vida, sendo visto, inclusive, somente como um instrumento para a identificação, prisão e posterior condenação de seu agressor. Nos homicídios em série, não é sempre que uma vítima consegue sobreviver (porque fugiu ou porque obteve socorro a tempo), mas quando isso ocorre, além de conviver diariamente com o trauma, esta ainda precisará se submeter a depoimentos que farão com que reviva o fato, além de um desfecho que deve demorar, no mínimo, meses, período durante o qual será mais difícil a ela superar o trauma sofrido.

Propositalmente, as discussões propostas na presente dissertação são atuais e envolvem tópicos sobre os quais existem inúmeras controvérsias, pois apenas através do debate é possível ampliar e aperfeiçoar os conhecimentos acerca de qualquer tema. Quanto maior a discussão acadêmica sobre determinado assunto, maior a divulgação e o interesse despertado pelo tema; assim, consequentemente, maior é a gama de subsídios angariados para que, futuramente, se possa chegar a um consenso.

Trazendo as bases do debate a respeito dos conceitos de psicopatia e TPAS, se procura comprovar que a questão abrange mais elementos que aparenta e é foco de controvérsia entre os profissionais de saúde mental até hoje. Os crimes cometidos por assassinos em série ganham importante destaque nos meios de comunicação, mas exigem um estudo mais detalhado acerca das condições sociais e psicopatológicas que levaram à sua prática. O perfil criminal é uma ferramenta que, se utilizada da forma correta, pode ser de grande auxílio para a investigação policial, indo muito além de uma suposta mágica ou mera intuição do agente que dela se vale. A vitimologia é um campo de estudo explorado ainda de maneira rasa, e que merece um profundo debate acadêmico, tendo em vista que as concepções mais modernas visam a proteger a vítima dos nocivos efeitos do crime.

Assim sendo, é relevante desvincular os tópicos aqui tratados do senso comum, logo, objetiva-se esclarecer os pontos que mais conduzem a conclusões equivocadas pelo imaginário popular, bem como apresentar a visão acadêmica sobre os mesmos. Entre as intenções deste trabalho está demonstrar que temas aparentemente exauridos e repetitivos são, na verdade, muito explorados fora da realidade acadêmica, o que faz surgir a percepção de que não possuem complexidade ou espaço para aprofundamento de seu estudo.

Longe de pretender exaurir as discussões, este trabalho pretende ser uma contribuição para a discussão científica de cada área, discorrendo sobre temas de grande interesse popular, aprofundando seu estudo e realizando um link entre os mesmos. Com isso, espera-se instigar o leitor a buscar informações de credibilidade a respeito dos tópicos que lhe são curiosos, afastando-se daquilo que reproduz o senso comum. Finalmente, busca-se incentivar o debate acadêmico no que concerne aos assuntos abordados, eis que lidam com problemas e soluções para uma das situações que mais preocupam a sociedade: a violência.

 

 

23
Set20

Comer é luxo

Talis Andrade

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por Urariano Mota

- - -

O ministro Paulo Guedes, que recebe nesse “guedes” a definição de palerma, maníaco ou vadio, no Dicionário Aulete, ou então, se preferir o Dicionário Houaiss, a certeira definição de plural de pequeno jumento, cometeu esta semana mais uma das suas. Diante dos preços escandalosos do arroz, que não permitem mais ao povo almoçar, cravou com poderosos dentes:

“O preço do arroz está subindo porque eles (da gentinha) estão comprando mais – está todo mundo comprando mais”.

Entendam o zurro do ministro. Ele assim zurrou porque em meio ao mais alto desemprego do Brasil, quando o povo carente não tem mais nada a não ser um auxílio de 400 reais, o que aconteceu? Segundo guedes, “os mais pobres estão comprando, estão melhorando a condição de vida”, Pois é claro: em lugar de trabalho e salário, com 400 trocados por mês começaram a consumir arroz como nunca. Incrível, mas até parece que a população já se acostumou ao tipo de voz que sai do ministro. O guedes não consegue abrir a boca sem que alcance altas notas de ornejo. Mas não há mais escândalo.

Por enquanto, o que parece crescer é uma revolta silenciosa, uma surda vingança dos excluídos no Brasil. Há muito pude observar uma vingança nada patológica. Não era nada absurda e nada havia nela que espantasse, ainda que recebêssemos com choque e repulsa os efeitos dos monstros criados. Eu fui despertado por uma notícia de jornal, faz tempo.

Quando houve uma intoxicação geral do Blue Tree Park, em Pernambuco, ninguém perguntou por que os empregados do Hotel não foram também intoxicados. Era e é natural que eles, como animais ou pessoas humanas, não estivessem imunes ao efeito geral. Se eu, empregado, nado com necessidades em meio ao filé, por que dele também não retiro um pedaço? Mas não, não se soube de vítimas entre cozinheiros e garçons. Por quê? A hipótese mais provável era a de que, do cardápio servido, os empregados não tenham comido para matar a fome. Com a minha experiência, digo que certamente provaram, furtaram pequenos, muito pequenos nacos, tão pequenos quanto as suas pessoas. Mas comer, comerem e se envenenarem à farta, não. Isso ficou para os doutores hóspedes.

Entendam. Até hoje, vemos em restaurantes como as pessoas de classe média tratam a pessoa pequena – gentinha – que lhes serve. Que desprezo! O cidadão de direitos do consumidor não olha para o empregado, para o ser que existe sem qualquer garantia. Dirige-lhe, melhor dizendo, rosna, vocifera o prato escolhido e se mantém raivoso, hostil, perigoso e áspero a qualquer aproximação. Pelas carnes gordas e carranca, tais Pessoas – de P maiúsculo – nos lembram sempre a figura de um buldogue, sem coleira sentado em frente à mesa de um circo. Imaginamos sempre a mágoa que fica em um homem, um subalterno, tratado assim por um cão, o Doutor. O quanto o “inferior” é machucado em uma sociedade de classes.

Menos que imaginamos, às vezes vemos, percebemos, sentimos. Quando íamos comprar frios, queijos, sentimos. E aqui a nossa experiência particular devia ter algo de universal. Era flagrante a má vontade com que um empregado ou empregada nos atendia, acintosa a indiferença e dificuldade que ele opunha a qualquer consideração sobre tipo ou maciez do queijo escolhido. “Só tem este”, ou “tem não”, ou “acabou”, ele nos dizia, a custo. Era grande a pena, a mesquinhez com que cortava fatias que, sobrepostas, muito demoravam a atingir o peso dos frios que pedíamos. Isso em lugar de causar alguma raiva, muito nos envergonhava. Porque sabíamos que o empregado nos servia o que não poderia comer, a não ser por furtos, por pequenos e miseráveis furtos, como se fosse um mísero e pequeno roedor.

Agora, com o zurro de guedes, o “tem não” foi atualizado: em lugar de queijo e presunto, o desempregado come como praga todo arroz. Daí que o mercado sobe o preço, para equilibrar melhor a fome com a vontade de comer.

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01
Jun20

Brasil sofre de fetiche da farda

Talis Andrade

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Apoiadora de Bolsonaro durante manifestação contra o STF, em 9 de maio em Brasília. UESLEI MARCELINO / REUTERS

 

Sem superar os traumas da ditadura, parte das instituições e da imprensa se comporta como refém diante do Governo militar liderado por Bolsonaro, demonstrando subserviência e alienação dos fatos

 

 

O bolsonarismo revelou em todo o seu estupor um fenômeno cujos sintomas podiam ser percebidos durante a democracia, mas que foram apenas timidamente diagnosticados. Vou chamá-lo de “fetiche da farda”. Trata-se de uma construção mental sem lastro na realidade que faz com que algo se torne o seu oposto no funcionamento individual ou coletivo de uma pessoa, um grupo ou mesmo de um povo. O mecanismo psicológico guarda semelhanças com o que é chamado de “Síndrome de Estocolmo”, quando a vítima se alia ao sequestrador como forma de suportar a terrível pressão de estar subjugada a um outro que claramente é um perverso, seguidamente imprevisível, do qual depende a sua vida na condição de refém. O fetiche da farda tem se mostrado em toda a sua gravidade desde o início do Governo de Jair Bolsonaro e, durante o mês de maio, tornou-se assustador: mesmo à esquerda e ao centro, os militares são descritos como aquilo que os fatos provam que não são ― nem foram nas últimas décadas ―, e tratados com uma solenidade que suas ações ― e suas omissões ― não justificam.

O fetiche da farda não é uma curiosidade a mais na crônica política do Brasil, já repleta de bizarrices. O fenômeno molda a própria democracia e está determinando o presente do país. Criou-se uma narrativa fantasiosa de que, no Governo Bolsonaro, os militares são uma “reserva moral”, uma “fonte de equilíbrio” em meio ao “descontrole” de Bolsonaro. O debate se dá em torno de o quanto os generais seriam capazes de conter ou não o maníaco que ajudaram ― e muito ― a botar no Planalto.

Categorizou-se o Governo em “alas”, em que existiria a “ideológica”, composta pelo chanceler Ernesto Araújo e outros pupilos do guru Olavo de Carvalho, e a “ala militar”, entre outras, forjando assim uma fantasmagoria de que os militares no Governo não tivessem ideologia e que a palavra “militar” já estivesse qualificada em si mesma e por si mesma. A cada flatulência do antipresidente, a imprensa espera ansiosamente a manifestação da “ala militar”. Não pelo que efetivamente são e representam os militares, mas porque seriam uma espécie de “oráculo” do presente e do futuro.

Colunistas por quem tenho grande respeito, ao se referir às Forças Armadas, penduram nelas adjetivos como “honrosas” e “respeitáveis”. Quando algum dos generais diz algo ainda mais truculento do que o habitual afirmam que está destoando da tropa, porque as Forças Armadas supostamente se pautariam pela “honra” e pela “verdade”. Ao longo do Governo desenhou-se uma imagem dos militares como algo próximo dos “pais da nação” ou “guardiões da ordem”, e tudo isso confundido com a ideia de que seriam também uma espécie de pais do incorrigível garoto Bolsonaro.

Como é possível? Qual é o mecanismo psicológico que produz essa mistificação em tempos tão agudos? O fenômeno é fascinante, não estivesse nos empurrando para um nível ainda mais fundo do poço sem fundo. [Continua]

 

28
Mai20

Quem está morrendo mais

Talis Andrade

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IV - O Nojo

EL PAÍS
 
- - -
Lutar contra Bolsonaro já não é apenas lutar por bandeiras essenciais como justiça social, igualdade de raça e de gênero, equidade na distribuição da renda, taxação das grandes fortunas, preservação da Amazônia e de seus povos. Passamos a um estágio muito mais agudo. Lutamos hoje para nos manter vivos, porque Bolsonaro boicota as ações contra o coronavírus. Bolsonaro não é coveiro, categoria corajosa e digna de brasileiros. Bolsonaro é assassino.
 

Não podemos lidar com um perverso como se o que ele faz fosse do jogo democrático. Nossa pergunta é clara: como vamos impedir Bolsonaro de usar a máquina do Estado para continuar a matar?

Nossos vizinhos temem por suas fronteiras. O Paraguai já constatou que a maioria de seus casos estão vindo do Brasil. No mundo inteiro o Brasil está se tornando um pária dominado por um pária. Brasileiros já são olhados com desconfiança. Governados por um maníaco, vivemos uma explosão no crescimento da contaminação por covid-19 e ninguém quer o vírus voltando a entrar pela sua porta depois de tanto esforço para tentar controlá-lo. O planeta já começa a enxergar uma tarja de risco biológico na nossa testa. É isso, sim, que pode prejudicar a economia por muito mais tempo.

Prestem atenção em quem está morrendo mais. São os negros, são os pobres. São os presos trancados em viveiros de vírus, numa violação de direitos inacreditável até para os padrões medievais do Brasil. Quem está morrendo mais são aqueles que desde a campanha Bolsonaro trata como matáveis —ou como coisas.

 
 
 
06
Abr20

Isoladas em casa, as pessoas passaram a fazer o que não faziam antes

Talis Andrade

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VI - O vírus somos nós (ou uma parte de nós)

POR ELIANE BRUM  

 

Não é só o futuro que está em disputa, mas o presente. Isoladas em casa, as pessoas passaram a fazer o que não faziam antes: enxergar umas as outras, reconhecer umas as outras, cuidar umas das outras. Justo agora, quando ficou muito mais difícil, parece ter se tornado mais fácil alcançar o outro. Quem criou esse conceito —“isolamento social”— estava com falha de raciocínio. O que temos que fazer e muitos estão fazendo é “isolamento físico”, como apontou no Twitter o sociólogo Ben Carrington. O que está acontecendo hoje é exatamente o contrário de isolamento social. Fazia muito tempo que as pessoas, no mundo inteiro, não socializavam tanto.

No Brasil, o grande momento de socialização é o panelaço de “Fora Bolsonaro!” nas janelas. Em outros países têm música, até poesia, nas sacadas. Para os brasileiros, mostrar que se encontraram com a realidade do outro é reconhecer a realidade de que botaram um maníaco no Planalto e precisam tirá-lo de lá se quiserem sobreviver. Mas também por aqui há festas de aniversário com bolinho na porta e vizinhos cantando parabéns das janelas, jovens fazendo compras para os velhos do prédio, avós almoçando com as netas pelo FaceTime, famílias e grupos de amigos conversando por aplicativos como há tempo não faziam. É incrível, mas finalmente os humanos descobriram que podem usar o celular para se encontrarem, em vez de se isolarem cada um no seu aparelho em torno de mesas de bares e restaurantes. (Continua)

 

02
Abr20

O vírus somos nós (ou uma parte de nós)

Talis Andrade

Jovem em Mumbai, Índia, no primeiro dia de quarenta imposta no país diante da pandemia de coronavírus, nesta quarta-feira.Jovem em Mumbai, Índia, no primeiro dia de quarenta imposta no país diante da pandemia de coronavírus. INDRANIL MUKHERJEE / AFP

 

 

No princípio era o vírus. Coronavírus. Em menos de dois meses após a primeira morte, registrada na China em 9 de janeiro, ele atravessou o mundo a bordo de nossos corpos que voam em aviões. Tornou-se onipresente no planeta, ainda que tão invisível quanto certos deuses para olhos humanos. Hoje, 1,7 bilhão de pessoas, cerca de um quinto da população global, está em isolamento. Escolas, restaurantes, cinemas e até shoppings cerraram as portas, fronteiras de países e de continentes fecharam, aviões se esvaziaram, presidentes maníacos finalmente foram reconhecidos como presidentes maníacos, neoliberais foram vistos clamando —“cadê o Estado? cadê o Estado?” —, ardorosos defensores dos planos privados de saúde compartilharam campanhas pelo fortalecimento do SUS, terraplanistas exigiram respostas da ciência. Pelas janelas do Facebook, Twitter, Whatsapp e Instagram, pessoas decretam: o mundo nunca mais será o mesmo.

Na guerra, temos dois caminhos pessoais que determinam o coletivo: nos tornarmos melhores do que somos ou nos tornarmos piores do que somos. Esta é a guerra permanente que cada um trava hoje atrás da sua porta. Momentos radicais expõem uma nudez radical. Isolados, é também com ela que nos viramos. O que o espelho pode mostrar não é a barriga flácida. Pouco importa, já não há onde nem para quem desfilar barrigas-tanquinho. O duro é encarar um caráter flácido, uma vontade desmusculada, um desejo sem tônus que antes era mascarado pela espiral dos dias. O duro é ser chamado a ser e ter medo de ser. Porque é isso que momentos como este fazem: nos chamam a ser.

Em tempos mais normais, podemos fingir que não escutamos o chamado a ser. Cobrimos essa voz com automatismos, a vida se resume a consumir a vida consumindo o planeta. Consumidores não são, já que consomem o ser. E agora, quando já não se pode consumir, porque logo pode não haver o que consumir nem quem possa produzir o que consumir, como é que se aprende a separar os verbos? Como se faz um consumidor se tornar um ser? (Continua)

 

 

06
Set19

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Talis Andrade

  Juan Manuel P. Domínguez entrevista Marcia Tiburi, uma exilada pelo Bolsonarismo

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Em maio de 1933, frente à Opera de Berlim, na Alemanha, aproximadamente 40 mil pessoas aplaudiram a queima de livros de intelectuais contemporâneos como Einstein, Stephen Zweig, Jacob Wassermann e Freud ao grito de “Contra os marxistas, os judeus e os materialistas!”. Freud, particularmente, seria perseguido e acusado de pornógrafo, pedófilo e pervertido, entre outras coisas, a causa das suas teorias sobre psicanálise que, com o tempo, acabariam por ser um pilar fundamental na estrutura do pensamento ocidental moderno.

Meses após a tomada de poder, os nazistas invadiram e destruíram o Instituto de Sexologia, onde se realizavam pesquisas para dilucidar o comportamento sexual humano. Durante todo esse período, Freud tentou se afastar das proclames esquerdistas para manter em funcionamento o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), porém, os nazistas deram um novo rumo e colocaram o instituto a serviço de uma psicoterapia hitleriana que teria, curiosamente, como um dos seus apoiadores mais destacados Carl Jung.

Jean Joseph Goux insinua em “Freud e a estrutura religiosa do nazismo”, que o discurso de apelo religioso messiânico de Hitler, transcendia sua psique desequilibrada e tinha propósitos estratégicos para a dominação das massas. Hitler era um maníaco que entendia o poder de uma retórica política estruturada na força da religiosidade e de um ideal do ser alemão. Isto serviu para, de forma rápida e sem espaço para o debate, iniciar uma infernal perseguição de artistas, intelectuais, homossexuais, ciganos, judeus, negros e todo aquele que não se encaixasse no ideal do que se pretendia para a nação alemã.

A atividade intelectual e artística independente foi totalmente anulada e ou controlada pelo regime. O exílio chegou para grandes nomes como Fritz Lang, Sigmund Freud, Teodor Adorno, Walter Benjamin, Annie Fischer, entre outros. Também vale relembrar que durante o período de governo de Hitler, eram proibidas as exposições de artistas como Picasso, Henri Matisse, Marx Ernst, entre outros, por ser considerados impuros ou perversos, contrários aos interesses e ao espírito puro do povo alemão.

É quase impossível, com este cenário, não realizar analogias com o que aconteceu e ainda acontece no Brasil. Os casos de Márcia Tiburi, Jean Wyllys, Débora Diniz, entre outros, são paradigmáticos e parecem obedecer à mesma sequência de perseguição e difamação que levou ao exílio aquelas grandes figuras na Alemanha nazista, há quase cem anos.

A perseguição baseada em calúnias e naquilo que hoje se conhece como “fake news” (Freud era o maior alvo de noticias falsas que alimentavam a ideia de ele ser um pervertido sexual), se praticava desde os jornais oficiais e não oficiais do partido. “Der Angriff” foi um jornal fundado por Joseph Goebbels em 1927 e tinha uma linha editorial que propagava o ódio ao “sistema”, usando linguagem agressiva e direta. Seus temas mais recorrentes foram o antissemitismo, o antiparlamentarismo, a demonização dos intelectuais, da política tradicional, da democracia e da “arte perversa e marxista”. Similar ao trabalho feito nas mídias do MBL, Direita São Paulo, ou pelo youtuber Nando Moura, a força da agressividade e a passividade do governo ante o violento discurso das suas edições acabou gerando uma sensação de legitimidade na sociedade alemã. Ajudou assim a fazer crescer a narrativa nazista como “uma visão”, uma dialética que discutia a decadência do governo dentro do agito democrático.

Márcia Tiburi começou a ser alvo de boicotes e escrachos a partir de um episódio acontecido no dia 24 de janeiro de 2018, quando abandonou um programa na rádio Guaíba ao se deparar com o militante do MBL, Kim Kataguiri. Ele foi e continua a ser participante ativo de várias ações para censurar exposições como o “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, ou a participação da Judith Butler no debate sobre democracia no SESC Pompeia. Marcia Tiburi escreveu sobre o episódio:

…não me é admissível participar de um programa que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue, no qual argumentos perdem sentido diante de um já conhecido discurso pronto (fiz uma reflexão teórica sobre isso em “A Arte de escrever para idiotas”), que conta com vários divulgadores, de pós-adolescentes a conhecidos psicóticos…

Logo depois disso, Márcia sofreu de forma progressiva cada vez mais ataques e difamações por parte de diferentes setores da direita: Flávio Bolsonaro, vários youtubers do MBL, Nando Moura, entre outros, divulgaram um vídeo dela fazendo uma análise antropológica dos mecanismos (como contexto social e situação financeira) que podem levar uma pessoa a acionar um assalto. No vídeo Márcia não justifica nem faz uma apologia ao assalto, mas analisa que existem contextos que podem lançar alguém a cometer essa ação. O vídeo, viralizado no Whatsapp, no Youtube e no resto das mídias, acompanhado de uma legenda que apela a pontos sensíveis do cidadão comum – como é o problema da segurança e da violência social – contribuiu para engendrar uma sensação de insensibilidade ao respeito das figuras intelectuais do país, e particularmente um ressentimento da classe média à figura dela. A mesma estratégia empregada pelos nazistas, há quase um século.

A escritora começou a receber ameaças pelas redes, por e-mail, pelo telefone. Em abril de 2018 teve que cancelar a apresentação do seu livro “O Feminismo em Comum”, por falta de segurança em virtude das ameaças e reclamações recebidas pelos organizadores e pela própria escritora.

Fui perseguida durante todo o ano. Todos os meus eventos e lançamentos de livros foram invadidos, ou havia promessa de invasão. Muitas ameaças… ameaças do tipo ‘Quando você estiver assinando o livro eu vou te matar

Ainda conforme Márcia, “vários desses sujeitos ficavam uma hora na fila de um lançamento de um livro meu, muitas vezes até compravam o livro para poder entrar. Uma vez que entravam, de repente, pulavam entre o público e faziam uma cena. Isso começou a virar uma coisa muito perigosa, porque não era um perigo só para mim. É perigo para a cultura brasileira, é perigo para a cultura literária”.

“As pessoas querem ir num evento para escutar, ouvir um escritor… O último evento que eu participei, que foi em novembro de 2018, foi bastante significativo porque havia ameaças de morte e de invasão” … Eu fui falar de literatura, a campanha já tinha acabado, a extrema direita já tinha ganhado. Mas eles não te deixam em paz. Você não pode ser uma escritora, não pode escrever romances… foi triste ver aquela segurança armada. As pessoas, quinhentas pessoas sendo revistadas, pessoas que queriam participar de um evento literário. As ameaças aconteciam na rua, por e-mail, nos eventos, no telefone. Decidi que para minha própria segurança, mas também para a segurança das pessoas que andam comigo, que convivem comigo, ainda nesses eventos, o melhor era eu sair do Brasil”. (trechos de “No Brasil, o estímulo à matança vem de cima para baixo”, entrevista disponível no Youtube)

O Brasil padece um êxodo de intelectuais, professores e artistas, conhecidos e anônimos, empurrados pelas narrativas de ódio e pelas práticas de invasão de eventos, difamação e ameaça pelas redes ou outras vias de comunicação. Nesse êxodo, uma das mais importantes intelectuais mulheres do país teve que abandonar suas atividades aqui e reiniciar uma vida estrangeira, como acontece e aconteceu sempre sob os diferentes tipos de regimes intolerantes.

Leia na íntegra a entrevista Ninja com Marcia Tiburi (tradução para o espanhol aqui):

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Pensas que existe uma forma de fazer filosofia sem fazer política?

Certamente a filosofia é uma determinada política da verdade, aquela que luta por sua exposição. Ideologia é, por sua vez, a política da ocultação da verdade. É uma pena que as pessoas tenham se deixado levar mais uma vez em nosso país pela ideologia capitalista e neoliberal que oculta a sua verdade. Deveriam ter se ocupado com a crítica, ou seja, a análise e a reflexão, que seria o caminho para se chegar à verdade.

Um exemplo atualmente muito interessante para entendermos o que é a verdade na prática: verdade é o que vem à tona hoje com as matérias feitas pelos jornalistas do The Intercept. E por que falamos de verdade nesse caso? Porque se trata de olhar de frente para o que aconteceu, para as provas. Quando falamos de verdade falamos de fatos e suas provas. Não de intenções ou outras abstrações.

A mídia tradicional no Brasil faz o papel de criar ideologias, ou seja, criar acobertamentos. A mídia alternativa tem chance de trazer a verdade à tona por meio de desocultamentos. Aliás, historicamente é isso também o que a filosofia sempre fez. Mas as pessoas não parecem gostar muito da verdade. E essa é uma característica da verdade, quando ela surge em jogos de poder, ela é sempre a parte que desagrada.

 

Derrida desenvolveu o conceito de Falogocentrismo, em outras palavras, a ideia de que a filosofia era um circuito fechado para homens brancos de origem e pensamento eurocentrista. Hoje ainda a filosofia precisa de ser ocupada por outros corpos, outras sensibilidades que não sejam a masculina eurocentrista?

As filósofas feministas já sabiam disso há muito tempo. O termo criado por Derrida é muito feliz porque vem condensar toda uma crítica ao sujeito histórico da filosofia que ainda existe, mas está sendo ultrapassado por novos sujeitos. Essa crítica ao sujeito filosófico encarnado nesse tipo de corpo “branco, europeu” já estava no livro da Dialética do Esclarecimento de 1947. Ali os filósofos Adorno e Horkheimer já denunciavam o eurocentrismo, o machismo e o capitalismo, além da mistificação fascista que vemos retornar hoje sob moldes “tropicais”.

A questão hoje é também “geopolítica”, sobretudo depois dos críticos da colonização, e nos obriga a discutir cada vez mais a ordem do discurso, ou seja, a produção do pensamento em tempos em que o sistema econômico tenta eliminar a reflexão a qualquer curso e usa a velha indústria cultural para isso.

 

Quatro dos exílios mais significativos do período bolsonarista envolvem duas intelectuais e ativistas mulheres (você Marcia Tiburi e Debora Diniz), o primeiro deputado assumido defensor dos direitos da comunidade LGBTQI (Jean Wyllys), e o escritor Anderson França, ativista pelo fim da violência policial e da extrema pobreza nas periferias. A tudo isto se somam as perseguições e ameaças cada vez mais crescentes contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Guardian e The Intercept. O que você poderia refletir sobre isto?

Existem vários intelectuais e ativistas que já deixaram o país, alguns não viraram notícia. E inclusive não sou eu que vou comentar quem são essas pessoas porque nessas situações de perseguição, ameaça de morte, retaliação, tudo o que aconteceu com a gente, e acontece também com essas pessoas, cada um sabe o que é melhor pra si. Mas existem várias pessoas que deixaram o Brasil. Essas pessoas deixaram o Brasil não porque não gostam do Brasil, ou consideram que o Brasil é um lugar pior para se viver, ou que existem outros lugares melhores pra se viver no mundo. Não são escolhas. No nosso caso não foi uma escolha.

Eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças

No meu caso, eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças. A campanha de difamação e fake news contra mim foi algo imenso, e ao mesmo tempo eu sempre tive esperança de que poderíamos ultrapassar isso. De que tudo isso seria passageiro. De que as figuras que eram responsáveis pela criação das mentiras e das calúnias contra mim seriam vencidas em tempo.

Hoje as pessoas não sabem onde eu estou morando. Tem muita gente que pensa que eu estou morando em Paris, tem gente que pensa que eu estou morando nos Estados Unidos. As pessoas não sabem onde eu estou morando, simplesmente porque eu ainda não decidi onde vou ficar. Então, transito entre vários países. Ora morando na casa de amigos, ora recebendo convites de universidades. Só vou estabelecer um paradeiro em setembro.

 

No que mudou sua vida hoje, quais são as consequências psíquicas, físicas e espirituais da sua situação?

Hoje eu posso avaliar da seguinte maneira: o custo psicológico é imenso, o custo econômico é imenso, o custo afetivo em relação às famílias, é imenso. O custo profissional é imenso. Ao mesmo tempo, quem se encontra nessa situação, conta com a solidariedade de muita gente, sobretudo a solidariedade internacional. No meu caso tenho muito apoio de todos os brasileiros que estão fora do Brasil, e tenho o apoio de várias pessoas de outros países e de instituições de outros países. E é também em função disso que eu vou poder escolher onde ficar a partir de setembro.

Eu percebo o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco

Então, eu continuo escrevendo, por sorte. Eu tenho esse recurso, continuo trabalhando na minha área que envolve escrever. Mas certamente há uma destruição de uma forma de vida e de uma organização familiar. Mas não é a maior tragédia do Brasil. A maior tragédia do Brasil é o que se faz com os nossos índios, com os nossos jovens negros, com o nosso povo pobre, e com a nossa natureza. E a Europa agora se dá conta do que é Bolsonaro também em relação a ecologia.

Eu percebo também o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco. Dentro do Brasil muita gente já percebeu, muita gente já sabia. Mas existem pessoas que continuam seguindo o líder autoritário. São as pessoas que compõem o cenário do fascismo brasileiro atual. E infelizmente essas pessoas também têm muita força, porque fazem muito barulho, e muitas delas tem muito poder, inclusive e principalmente poder econômico.

É claro que a classe média baixa, que acompanha, não tem poder econômico, mas atua como imitando o líder autoritário, para tentar angariar com isso um lugar ao lado dessas figuras, vendo-se junto a essas figuras e às suas performances autoritárias.

 

Se a história da nossa raça continua a repetir as leis que parecem tê-la regido desde seus inícios, esse período de ira conservadora vai acabar (possivelmente após uma considerável devastação econômica e humana). Como você acha que vai se sentir quando tudo isto acabar de vez? Consegues fazer esse controverso exercício de futurologia?

Essa sua pergunta é muito curiosa. Como pensar o futuro? Como pensar onde estaremos, o que faríamos depois que tudo isso passar? O que pode acontecer? Se nós pensarmos nos exemplos dos ciclos dos governos totalitários, dos estados totalitários que já causaram catástrofes humanas no mundo, talvez seja um excesso de otimismo dizer que a gente vai sobreviver a tudo isso. Então, o que pode acontecer? O que aconteceu com os alemães, depois da passagem de Hitler pela Alemanha? O que aconteceu com o povo do Camboja? Do Vietnã? O que acontece hoje com os povos diversos, que sofreram das mais diversas maneiras, seus regimes totalitários?

Eu quero manter o otimismo, considerando que nós seremos capazes de resistir coletivamente. Eu confesso a você que não estou preocupada comigo mesmo, nem um pouco. Embora seja ameaçada, pude sair do Brasil porque escrevi muitos livros e fui resgatada por uma instituição que protege escritores pelo mundo. Então eu, como escritora, e como professora de filosofia, estou protegida e realmente não estou preocupada comigo. Estou preocupada com as pessoas que não tiveram como se proteger. Seja como ativistas, seja como cidadãos comuns, que hoje estão levando em frente suas vidas, suas práticas cotidianas, estão desamparadas.

Nós seremos capazes de resistir coletivamente

Eu não estou desamparada, sou amparada por instituições internacionais. Me preocupo com o povo brasileiro que sofreu uma lavagem cerebral pesada, me preocupo com esse povo que não escolheu esse governo delirante, e mesmo assim, sofre os efeitos desse governo. Me preocupo com a segurança das pessoas que estão na mira de assassinos governamentais, de pessoas que por engano, por erro, por ingenuidade ou por estupidez, votaram em figuras que hoje prometem a morte das populações marginalizadas. Me preocupa que há pessoas no Brasil que ultrapassaram o limite do bom senso e da dignidade humana, desrespeitando a regra básica da nossa civilidade que é “Não Matarás”.

Espero que a gente possa superar isso. Continuamos lutando para isso. Pensando em projetos, pensando em como resgatar o Brasil. Mas precisamos fazer isto hoje com muita, mas muita inteligência, com mais habilidade e aptidão. Nós precisamos ser hoje ainda mais lúcidos para entender quais são as necessidades para concretizar a nossa reconstrução.

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