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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

29
Mai21

Livro revela os pecados da Igreja Universal

Talis Andrade

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Quando foi lançado, em 1995, o livro Nos bastidores do Reino, do ex-pastor Mário Justino, provocou um terremoto na Igreja Universal do Reino de Deus, que enfrentava uma crise institucional, com seu líder – o “bispo” Edir Macedo – envolvido em denúncias graves e debatendo-se com as consequências de uma prisão. Justino chegara a um posto importante na hierarquia da igreja e, desencantado, decidira contar a história de sua vida junto aos principais dirigentes. A igreja conseguiu na justiça a proibição do livro, 22 dias depois de ele ter chegado às livrarias.

É este livro que a Geração Editorial relança agora, com todo o seu conteúdo explosivo, uma nova apresentação do autor e a íntegra da decisão judicial que o liberou. Como escreveu o publisher Luiz Fernando Emediato na apresentação, “este é um livro sobre crimes, purgação e redenção – um livro transformador. Mais que desvendar os segredos da Igreja Universal do Reino de Deus e de alguns de seus  “pastores”, seu autor conta a história de um ser humano – ele mesmo – que sonhou com o paraíso, visitou o inferno e de lá saiu vivo e renovado”.

A reedição transcreve a íntegra da decisão da mesma juíza que o proibiu, Daise Fajardo Nogueira Jacot. Ela reviu sua decisão e concluiu não ter encontrado no relato de Justino nenhuma calúnia, injúria ou difamação.

“O escritor não se voltou contra a Igreja nem contra a religião, mas tão-somente denunciou comportamentos, aliás já antes denunciados por outros dissidentes, por intermédio de vários outros meios de comunicação”, afirma a juíza. Na decisão em que revoga a censura, Daise Jacot ressalta também que nenhum dos pastores e bispos citados foi à Justiça exigir reparação. E que Justino escreveu a obra nos limites de sua “liberdade de manifestação de pensamento e expressão”.

A Igreja Universal tentou de todos os modos impedir a circulação do livro. Primeiro – ao saber que seria lançado – ofereceu ao autor, por intermédio de um advogado, um milhão de dólares para ele desistir. Diante da negativa, ofereceu a mesma quantia à editora, para ela “engavetar” o livro até Justino morrer (ele estava com teste positivo para HIV, numa época em que ainda não havia o coquetel anti-Aids).

Qual era o temor do ”bispo” Edir Macedo e seus seguidores? “Eles eram revelados em toda a sua miserável humanidade”, diz Emediato. “Pessoas comuns, cruéis, gananciosas, vendendo ilusões principalmente para pobres e se divertindo, nos bastidores, com a ingenuidade das pessoas que estavam enganando. Mas eles venceram, naquela época, e continuam vencendo. Em 25 anos o império cresceu. A “Igreja” cresceu não só do ponto de vista do negócio, mas também criou braços no Congresso, na economia, nos meios de comunicação. Um verdadeiro polvo.”

O livro tinha chegado à editora encaminhado por Marcelo Rubens Paiva, acompanhado de um prefácio entusiasmado. “Ninguém será o mesmo depois de conhecer os detalhes da vida de Mário Justino, mas vale a pena correr o risco”, avisou o autor de Feliz ano velho.

Mais que um simples livro de “denúncias”, Nos bastidores do Reino é um profundo mergulho nos abismos humanos. Inocente, cheio de fé e boa vontade, aos 15 anos o autor trocou os estudos e a casa dos pais pela Universal. Negro, inteligente, casado, dois filhos, ele conquistou os chefes da igreja com sua facilidade de expressão e os fiéis com a Bíblia na mão. Transformou-se num grande motor de arrecadação.

Conheceu a opulência, levou vida de rico – mas logo percebeu a ilusão. Não eram a fé e o amor cristão que moviam a “igreja”, que “nada mais era do que uma empresa com fins lucrativos”. E abre o jogo: “Sexo, dinheiro e drogas se confundem, no mesmo púlpito, com orações e salmos de Davi”.

Com suspeita de ter o vírus da aids, Mário Justino sentiu a dor do abandono: Macedo não o amparou. A família foi dilacerada. Desceu ao inferno na Terra. Viveu nas ruas de Nova York, ao lado de mendigos e marginalizados – um doente e drogado condenado à morte. Com desejos de vingança,   comprou uma arma e pensou em matar Edir Macedo. Teve-o na mira, mas não apertou o gatilho.

“Tinha a oportunidade de estourar-lhe os miolos, mas por alguma razão hesitava em fazê-lo”, ele relembra.

O livro teve grande repercussão logo depois de lançado, com notícias sobre suas revelações no Brasil e no exterior. Uma edição foi lançada em Portugal e circulou também na África, onde a Universal estava presente. “A descrição esmiuçada de seu calvário pessoal, com os devidos nomes aos bois, é prova suficiente da sinceridade do autor”, escreveu Barbara Gancia na Folha de S. Paulo. “Em qualquer país sério, essa obra serviria, no mínimo, como estopim para algum tipo de investigação pública”, completou.

“Quando escrevi Nos Bastidores do Reino, em um período de dois meses, em 1993, aos 28 anos, havia em mim certa urgência de contar a história”, diz o autor em nota na reedição do livro. “Com o resultado de um exame de laboratório nas mãos, eu achava que meus dias haviam sido abreviados e que não chegaria aos 30 anos de idade. Pensando assim, eu corria contra o tempo para tentar repor a minha verdade”, acrescenta. Ele completa: “E dessa forma nasceu este livro: como um grito urgente da alma — um desnudamento que, fosse hoje, aos 55 anos, sem o mesmo ímpeto da juventude, talvez não tivesse o ânimo de fazê-lo”.

Qual era o temor do ”bispo” Edir Macedo e seus seguidores? “Eles eram revelados em toda a sua miserável humanidade”, diz Emediato. “Pessoas comuns, cruéis, gananciosas, vendendo ilusões principalmente para pobres e se divertindo, nos bastidores, com a ingenuidade das pessoas que estavam enganando. Mas eles venceram, naquela época, e continuam vencendo. Em 25 anos o império cresceu. A “Igreja” cresceu não só do ponto de vista do negócio, mas também criou braços no Congresso, na economia, nos meios de comunicação. Um verdadeiro polvo.”

O livro tinha chegado à editora encaminhado por Marcelo Rubens Paiva, acompanhado de um prefácio entusiasmado. “Ninguém será o mesmo depois de conhecer os detalhes da vida de Mário Justino, mas vale a pena correr o risco”, avisou o autor de Feliz ano velho.

Mais que um simples livro de “denúncias”, Nos bastidores do Reino é um profundo mergulho nos abismos humanos. Inocente, cheio de fé e boa vontade, aos 15 anos o autor trocou os estudos e a casa dos pais pela Universal. Negro, inteligente, casado, dois filhos, ele conquistou os chefes da igreja com sua facilidade de expressão e os fiéis com a Bíblia na mão. Transformou-se num grande motor de arrecadação.

Conheceu a opulência, levou vida de rico – mas logo percebeu a ilusão. Não eram a fé e o amor cristão que moviam a “igreja”, que “nada mais era do que uma empresa com fins lucrativos”. E abre o jogo: “Sexo, dinheiro e drogas se confundem, no mesmo púlpito, com orações e salmos de Davi”.

Com suspeita de ter o vírus da aids, Mário Justino sentiu a dor do abandono: Macedo não o amparou. A família foi dilacerada. Desceu ao inferno na Terra. Viveu nas ruas de Nova York, ao lado de mendigos e marginalizados – um doente e drogado condenado à morte. Com desejos de vingança,   comprou uma arma e pensou em matar Edir Macedo. Teve-o na mira, mas não apertou o gatilho.

“Tinha a oportunidade de estourar-lhe os miolos, mas por alguma razão hesitava em fazê-lo”, ele relembra.

O livro teve grande repercussão logo depois de lançado, com notícias sobre suas revelações no Brasil e no exterior. Uma edição foi lançada em Portugal e circulou também na África, onde a Universal estava presente. “A descrição esmiuçada de seu calvário pessoal, com os devidos nomes aos bois, é prova suficiente da sinceridade do autor”, escreveu Barbara Gancia na Folha de S. Paulo. “Em qualquer país sério, essa obra serviria, no mínimo, como estopim para algum tipo de investigação pública”, completou.

“Quando escrevi Nos Bastidores do Reino, em um período de dois meses, em 1993, aos 28 anos, havia em mim certa urgência de contar a história”, diz o autor em nota na reedição do livro. “Com o resultado de um exame de laboratório nas mãos, eu achava que meus dias haviam sido abreviados e que não chegaria aos 30 anos de idade. Pensando assim, eu corria contra o tempo para tentar repor a minha verdade”, acrescenta. Ele completa: “E dessa forma nasceu este livro: como um grito urgente da alma — um desnudamento que, fosse hoje, aos 55 anos, sem o mesmo ímpeto da juventude, talvez não tivesse o ânimo de fazê-lo”.

MÁRIO JUSTINO nasceu em São Gonçalo, RJ, em 1965. Foi colunista freelancer do jornal ”The Brasilians”, voltado para a comunidade brasileira em Nova York, onde ainda vive e trabalha na área social

 

Mário Justino, que vive em Nova York como exilado político, não pensa mais em vingança. “A princípio, este livro pretendia ser uma denúncia, um clamor por justiça, mas, à medida que foi sendo concebido, foi assumindo a forma daquilo que realmente é: a trajetória de alguém que, buscando o desconhecido, encontrou a si mesmo”, escreveu ele no novo prefácio. (Por Luiz Fernando Emediato, editor da Geração Editorial. Texto publicado in Direto da Redação, um fórum de debates publicado no Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martins)

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