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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

22
Jun21

Os sonhos de um país em destruição

Talis Andrade

Ilustração: Márcia Tiburi

 

Pesquisadores e psicanalistas analisaram mais de 1.500 sonhos de brasileiros durante a pandemia. Constataram forte presença da casa e a sensação do infamiliar: o sentimento paradoxal de estranhar o que deveria parecer habitual

 

por Juliana de Moraes Monteiro e Gilson Iannini /OutrasPalavras

- - -

Mas eu estava estarrecida. Minha roupa ainda estava manchada de sangue. Aproveitei que ainda não tinha sido vista por ninguém, me encolhi e fui me esconder atrás de uma árvore. Minha mão também estava manchada de sangue, porque eu tinha comido pedaços de carne que estavam caídos no chão daquele celeiro. Eu tinha esfregado o sangue vermelho da carne crua e mole na gengiva e no céu da boca. O reflexo dos meus olhos estava brilhando na poça de sangue no chão do celeiro. Foi tudo tão real. A sensação de mastigar carne crua, o meu rosto, o brilho dos meus olhos. Parecia o de alguém que conheci pela primeira vez, mas era meu rosto. Quero dizer, pelo contrário, parecia tê-lo visto tantas vezes, mas não era meu rosto. Difícil explicar. Era familiar e desconhecido ao mesmo tempo… essa sensação real e esquisita, terrivelmente estranha.”

Publicado no Brasil em 2018, o romance A vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang, narra a história de uma mulher que, após ser acometida por sonhos terríveis, decide parar de comer carne. Yeonghye, descrita como a pessoa mais comum do mundo, é uma personagem de ficção, mas poderia ser uma mulher brasileira narrando seus sonhos para a pesquisa Sonhos confinados em tempos de pandemia, desenvolvida por universidades brasileiras com o intuito de investigar os efeitos psíquicos do confinamento na vida de indivíduos anônimos – dos quais cerca de três quartos se declararam do sexo feminino. Os sonhos fictícios dessa protagonista são relatados ao longo do livro e trazem para o primeiro plano, como evidencia a passagem aqui transcrita, esse afeto “familiar e desconhecido ao mesmo tempo”, essa “sensação real e esquisita, terrivelmente estranha” vivida pela personagem nas imagens que aparecem em seu sono e que trazem, a partir das descrições do conteúdo onírico, a marca do que Sigmund Freud nomeou como infamiliar em seu célebre ensaio de mesmo nome, cerca de cem anos antes: “tudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio à tona”.

A narradora de A vegetariana vê o próprio rosto como se estivesse vendo alguém pela primeira vez ou, inversamente, como se não pudesse mais reconhecê-lo – o que mostra que o caráter paradoxal do conceito freudiano de infamiliaridade não tem a ver com o desamparo diante de algo externo ao psiquismo, com um outro maligno que nos assusta e afeta, mas com uma experiência singular diante de nossa própria disjunção: “um não se sentir em casa em casa”, como escreveu a filósofa francesa Barbara Cassin. 

É importante ressaltar o contexto histórico do romance coreano. Em 1919, ano de publicação do ensaio O infamiliar, a Primeira Grande Guerra havia terminado pouco antes (1914-18) e a pandemia de gripe espanhola se alastrava (1918-20), chegando depois a levar Sophie, filha de Freud. As similitudes entre aquele contexto e o nosso são inegáveis. Estamos, de novo, em meio a uma doença epidêmica que já ceifou centenas de milhares de vidas ao redor do mundo e desmantelou grande parte de nossos quadros referenciais, denunciando o caráter inegavelmente frágil do que entendemos como “realidade”. As imagens ficcionais da narradora do romance dão indícios de uma sensação indeterminada entre a familiaridade e o desconhecimento – propriamente o que Freud chamava de “infamiliar”. Essa indeterminação entre o eu e o outro, esse outro íntimo e próximo, é vivida por Yeonghye de forma cada vez mais avassaladora ao longo do livro, como se, através do conteúdo onírico da personagem, o infamiliar pudesse ser alçado à condição paradigmática da existência na contemporaneidade, para a qual a arte operaria como um sismógrafo, detectando movimentos e abalos ínfimos que só serão sentidos ou percebidos a posteriori no mundo factual.

Lançado em 2014 na Coreia do Sul, A vegetariana se tornou um fenômeno e parece antecipar ecos de uma situação que se radicalizaria ao longo da pandemia. Se a “casa” é o lugar no qual supostamente nos sentiríamos seguros e protegidos diante das ameaças do mundo externo, o que aconteceria com os indivíduos em uma situação imposta, na qual fossem impedidos de sair de casa? Esperávamos, então, que as imagens oníricas narrassem um pouco a virada trazida por esse evento que atravessou as sociedades em escala global. 

Valendo-se do uso de ferramentas de processamento de linguagem natural, a pesquisa mostrou que casa é o significante por excelência dos sonhos em tempos de pandemia, sendo a palavra mais recorrente e mais conectada em uma quantidade expressiva de sonhos recolhidos em uma base de dados. Foi a partir dessa constatação que pudemos pensar uma ideia de sonhos infamiliares por meio de uma releitura contemporânea do conceito freudiano. Grosso modo, o infamiliar é um sentimento paradoxal, quando estranhamos o que nos é familiar, quando sentimos desconhecer o que conhecemos há muito. Nesse sentido, podemos pensar como o infamiliar, ou mais precisamente como uma experiência generalizada do sentimento de infamiliar, é uma chave que possibilita ler os sonhos pandêmicos. Neste momento em que as fronteiras entre ficção e realidade parecem se dissolver e se embaralhar, o conceito freudiano pode operar como paradigma de nossa condição contemporânea, ao mesmo tempo que o acontecimento pandemia teria explicitado essa generalização – como se, a cada dia, dispuséssemos de menos indícios de compartilhar uma mesma e única realidade. 

Assim, muitas de nossas
experiências subjetivas
mostram-se instáveis,
reiteradamente submersas
em novas espacialidades,
virtualidades, rupturas
espaço-temporais.

Há, também, dimensões traumáticas que se tornaram feridas ainda mais expostas durante a pandemia, evidenciando a enorme desigualdade social brasileira, os racismos e as violências contra corpos diversos – pesadelos que invadem o sonho e a vigília.

“Sonhei que estava em casa, muito real, muito mais real que a maioria dos meus sonhos, nesse tinha cores vivas e um ambiente íntegro, diferente de outros sonhos confusos, em preto e branco, que normalmente tenho. Minha casa estava cheia de gente, como normalmente ela fica quando tem gente da célula da igreja aqui, e havia dois dos meus melhores amigos que não vejo desde antes da quarentena. Um deles estava bebendo água na geladeira, eu falava com ele e depois atirava nele, em primeira pessoa, e ele se escondia atrás da porta da geladeira, aí meu outro melhor amigo corria pro quintal, onde estava cheio de gente, e eu dava dois tiros à queima-roupa nele também, ainda em primeira pessoa, e ele caía ensanguentado. As pessoas olhavam indiferentes pra morte, meu pai dizia como meu amigo era legal. Aí eu me dava conta do que fiz, ia até o banheiro correndo pra dentro de casa, daí para frente o sonho mudou para terceira pessoa, e a ‘câmera’ focava em mim enquanto eu não via o que estava à frente pois corria em direção à ‘câmera’, então surgia no banheiro chorando e dizendo isso é só um sonho, só pode ser um sonho, não é real, não é real, mas falando isso acreditava que era real mesmo assim, aí acordava.” (Mamute, 20 anos, 12/6/2020)

O infamiliar, nesse sentido, não é a perda do familiar, a perda do lar. Trata-se de uma operação mais sofisticada, na qual o significante casa, costumeiramente relacionado à ideia de amparo e de acolhimento, já não garante a experiência de habitar uma morada segura ou sólida. Do mesmo modo como a personagem do livro de Han Kang, Mamute sonha com uma casa, “muito mais real que a maioria dos meus sonhos”, sublinhando essa diluição das demarcações trazidas pelo infamiliar. “Alguém matou uma pessoa e outro alguém escondeu o corpo, sem deixar rastros. No momento em que acordei, porém, me esqueci do sonho, fui eu que cometi o crime? Ou fui eu a vítima? Se era a assassina, quem matei? Você, talvez? Era alguém muito próximo. Ou então foi você que me matou…? E quem terá sido a pessoa que escondeu o cadáver? Com certeza não era eu nem você”, lemos nas páginas do romance que, em muito, se confundem com o relato do sonho de Mamute – um indivíduo, uma pessoa que existe de fato.

Em outro sonho, ela relata estar em um prédio “aparentemente sólido”, do qual teve que sair às pressas por algum motivo desconhecido. Em um primeiro momento, a solidez do prédio nos remete à ideia de um local seguro. Todavia, ao sair com urgência, o local apresenta a primeira falha à sonhadora: o elevador não estava funcionando. Esse elemento desconhecido, esse inimigo sem rosto e sem nome, é uma das características mais preponderantes dos sonhos confinados. Tomada pela urgência da situação ela se direciona à escada, que subitamente estava inacessível:

“fiquei muito chocada, pois o prédio havia se virado em seu eixo… tipo invertido os lados… e a escada ficou virada para parede…”. O local inicialmente seguro se tornou uma armadilha e voltou-se contra a sonhadora, ao criar uma situação em que ela se vê em impossibilidades reduplicadas de agir diante do perigo. A casa, frequentemente, é ao mesmo tempo o lugar onde nos sentimos protegidos e seguros, mas também desprotegidos e aprisionados. Assim, a impossibilidade de se sentir em casa traz, nas imagens dos sonhos, a marca do desconforto diante de algo assustadoramente invisível: um vírus contagioso cuja única imagem que conhecemos ou podemos simbolizar foi produzida por ilustradores médicos em um laboratório. Desse modo, a pandemia esgarçou o sentimento contemporâneo desvelado pelo infamiliar como condição paradigmática para a vivência dos sujeitos na passagem para o século 21. A imagem, portanto, não é um elemento apaziguador, ela é atravessada por traumas, sintomas e cisões da cultura. Não por acaso, as imagens oníricas raramente nos tranquilizam: o prédio gira em torno do próprio eixo, o elevador não funciona e a escada vira para frente.

“Eu estava com um grupo de amigos, dentre eles alguns com os quais moro […], em um lugar branco, muito iluminado, de um jeito que nunca sonhei antes. Eu e as pessoas que estavam comigo observávamos uma presença feminina na casa, algo meio humano, meio espírito, do lado de uma barra branca que parecia uma arara de roupas, ela aparentemente fazia algo que outras presenças parecidas já haviam feito. Ela conversava com alguém e eles estavam com o rosto quebradiço, parecia que eles iriam morrer de forma frágil a qualquer momento. É como se os rostos deles começassem a cair e desse pra ver o cérebro, a carne, os ossos, lá dentro. Nós olhávamos pra eles com aflição pois obviamente eles iriam morrer a qualquer momento, até que a presença feminina de fato ‘deixou o rosto cair’, revelando o que havia lá dentro, e algo encostou no que havia dentro da cabeça dela e ela morreu. Foi horrível, pois foi de uma forma muito fácil, frágil, evitável. Eu e meus amigos ficamos meio em choque, até que a cena mudou um pouco e de repente tinha um espelho atrás dessa presença. Essa figura feminina ‘ressuscitou’ e se transformou em uma figura mais humana, magra e de cabelo curto, e eu tinha receio de olhar pra ela. Ela se olhou no espelho e minha amiga me disse: ‘B., tá vendo? Essa é você’ e eu entendi que aquela era minha imagem em vidas passadas. Ao perceber isso parei de olhar pra ela, não podia mais saber como eu fui em outras vidas, isso era um tabu pra mim naquele momento. Fui embora e deixei as pessoas lá na casa. Acordei em seguida.” (B., 25 anos, 29/6/2020)

O cenário pandêmico só veio confirmar a experiência contemporânea devastadora do infamiliar freudiano: a angústia e o mal-estar advindos do fato de não sermos mais senhores em nossa própria casa, nem tampouco nos sentirmos de novo em casa. A narradora de A vegetariana nos oferece um exemplo magistral da generalização contemporânea do infamiliar.  Há um estranho em nosso íntimo – um estranho que habita nossa própria casa, como uma outra pessoa que “sai de dentro de mim e me devora”, como nos diz Yeonghye. Os sonhos confinados nos indagam sobre a anatomia de um país em dissolução, como rostos quebradiços que mostram nosso cérebro, nossos ossos, nossa carne. O limiar entre a vida e a morte é tênue, quase imperceptível: “foi horrível, pois foi de uma forma muito fácil, frágil, evitável”, diz o relato. As escadas estão logo ali, mas inacessíveis: uma parede nos separa delas e uma fenda nos separa das paredes. Só pode ser um sonho, “não é real, não é real”! Mas enunciar isso não era suficiente: “era real mesmo assim”. A morte fácil, frágil, evitável. Só despertaremos quando alguém nos disser: “B., tá vendo? Essa é você”.


Este artigo teve a colaboração de Ana Cláudia Castello Branco Rena, Ana Luisa Sanders Britto, André Gil Alcon Cabral, Débora Ferreira Bossa, Fídias Gomes Siqueira, Gustavo Andrade Soares, Isa Gontijo Moreira e  Olívia Ameno Brun.

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02
Mai21

"Como o Brasil foi tomado por ignorantes, mentecaptos, oligrofrênicos e burros de todo tipo?"

Talis Andrade

 

A professora de Filosofia Márcia Tiburi disse estranhar a razão pela qual o Brasil “foi tomado por ignorantes, mentecaptos, oligofrênicos e e burros de todo tipo."

A manifestação foi no Twitter (abaixo). "Para animar o domingo: como um país com intelectuais geniais em tantas áreas, um país de gente inteligente, culta e democrática, foi tomado por ignorantes, mentecaptos, oligofrênicos e burros de todo tipo? Como o Brasil se deixa governar por um espantalho descerebrado? Pensemos juntos!”.

A declaração foi tomada no mesmo dia em que o Washington Post diz que o Brasil recebe pouca ajuda para enfrentar a pandemia por causa dos insultos de Jair Bolsonaro a outros países.

A resposta aos pedidos de ajuda do Brasil "tem sido basicamente um encolher de ombros, uma crítica aos erros do Brasil – e uma ação limitada, até agora”.

Uma possível resposta ao tuíte de Márcia Tiburi é a ação organizada da velha imprensa para construir o ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores.

Na véspera da eleição de 2018, o jornal O Estado de S. Paulo publicou editorial em que afirma que votar em Haddad ou Bolsonaro era “uma escolha muito difícil”.

Haddad era um professor universitário com atuação aprovada como ministro da Educação e uma administração municipal que elevou a cidade de São Paulo a grau de investimento.

Bolsonaro tinha quase 30 anos de atuação na Câmara dos Deputados e apenas dois projetos aprovados.

Tinha se destacado por manifestações agressivas em relação a mulheres e homossexuais.

 

 

01
Abr21

31 de março/1º de abril de 1964

Talis Andrade

Image

Além de praticar torturas e outros crimes contra a humanidade, a Ditadura Militar de 64 não teve compromisso sequer com a verdade sobre a data de sua implantação

 

por Eugênia Augusta Gonzaga /A Terra é Redonda

O golpe civil-militar ocorrido no Brasil em 1964 começa com uma fake news ou, pelo menos, uma dúvida substancial. Qual foi o seu dia afinal? “O processo pode ter começado no dia 31 de março, mas o regime se fez viger mesmo no dia 1° de abril”, pontua Marcos Antonio Silva, professor de história da USP.[i]

Para a maioria dos historiadores não há dúvida alguma, pois o que marca a queda do poder via golpe (destituição do presidente constitucionalmente eleito) é a sua saída do cargo, o que ocorreu em 1º de abril. Logo, dizer que o golpe se deu em 31 de março é “fake news” mesmo. Mas por que isto ocorreu?

O 1º de abril é conhecido no Brasil e no mundo como o “dia da mentira”. A data faz tanto sucesso que, além de servir a brincadeiras frequentes, é utilizada como estratégia para confundir adversários. Vou pedir licença aqui para fazer um breve relato que ilustra essa estratégia.

Na minha pequena cidade natal em Minas Gerais, no final do Séc XIX e  início do Séc. XX, havia um justiceiro muito famoso pela valentia, boa mira e absoluta intolerância com qualquer contrariedade que sofria. Seu apelido era Juca Bedão, uma lenda para aqueles lados. Como não podia ser diferente, Juca tinha uma coleção de inimigos, que queriam muito vê-lo morto. Mas tinham medo de matá-lo porque havia o boato de que os irmãos dele, que moravam numa outra cidade, também eram exímios atiradores e certamente viriam ao encalço dos assassinos do irmão para vingar a sua morte. A solução que encontraram foi contratar dois ou três jagunços que tocaiaram e mataram Juca Bedão no dia 1º de abril. A notícia de sua morte correu, mas alguém sempre dizia: – Ah, só pode ser 1º de abril! Assim, quando o fato chegou ao conhecimento dos irmãos, veio turvado com aquela dúvida. Até que os irmãos confirmaram que ele havia sido morto mesmo, os assassinos já estavam longe.

Portanto, a justificativa para não se admitir que o golpe civil-militar ocorreu no dia 1º de abril é tão bizarra quanto a história acima, ainda que em sentido contrário. Os assassinos de Bedão queriam dizer que a morte se deu no dia 1º de abril para que não se acreditasse nela; a ditadura não quis que dissessem que o golpe foi no dia 1º de abril para que acreditassem nela e não fizessem qualquer piada com aquele ato “tão importante”. Confira-se:

O fato de militares e defensores do movimento comemorarem o dia 31 de março como data da “revolução” é uma tentativa de fugir de brincadeiras com o dia da mentira. “Quem implantou a ditadura quis fugir das piadas, que chamassem de regime da mentira.”  […] “A melhor data para marcar o golpe é o dia 1° de abril, antes disso o presidente João Goulart ainda estava no poder”, considera Luiz Antonio Dias, historiador da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).”[ii]

Ou seja, até a data de início da ditadura de 1964 foi uma bizarrice que nossos livros de história ficaram repetindo sem qualquer tipo de questionamento. Aliás, como se sabe, tudo passou a ser uma festa com o tal dia 31 de março, dia da “revolução gloriosa”. Surgiram pontes, viadutos, escolas, clubes e outros com o nome de 31 de Março, em uma lamentável comemoração de um golpe de Estado.

Com o final da ditadura militar, em 1985, e a promulgação da nova Constituição em 1988, paulatinamente esses lugares tiveram seus nomes substituídos e comemorar o 31 de março passou a ser uma coisa mal vista e feita meio às escondidas em alguns clubes de aposentados e saudosos do regime autoritário e assassino.

Mas a ditadura foi tão eficaz em apagar da memória da população o significado real e a gravidade do golpe, que praticamente ninguém se importou ou quis saber se o golpe de 1964 ocorreu no dia 31 de março ou em 1º de abril. Aliás, não se fazia questão nem de saber direito o que havia ocorrido. O essencial nestes anos 80 e 90 era que a democracia estava de volta. E parecia que isto basta.

Nos anos 2000, a adoção de medidas de justiça de transição finalmente tiveram início no Brasil. As milhares de vítimas produzidas, os corpos insepultos, a falta de respostas para as famílias de mortos e desaparecidos não permitiram que tudo virasse esquecimento como queriam os agentes da ditadura e seus fiadores. Entre essas medidas de transição houve o pagamento de indenizações, a construção de espaços de memória, publicação de livros, a propositura de algumas ações de responsabilização[iii]  e o dia 31 de março, antes comemorado como se fosse algo positivo, passou a ser lembrado como o que ele foi: um ato criminoso e que produziu uma lesão profunda no País. Lembrar desse significado, tornou-se mais importante do que a mera questão da data.

Todo esse movimento de justiça de transição, no entanto, fez surgir uma reação contrária por parte dos já mencionados saudosos do regime autoritário e assassino. Para eles, negar suas mazelas tornou-se imperativo e passaram a apostar suas fichas não mais no esquecimento, mas na mudança de narrativa. Era preciso rejeitar e reformular o que a Comissão Nacional da Verdade, mesmo tardia, mas soberanamente implantada no País, havia desnudado.

O resultado disso também é muito conhecido. Em 2016, tivemos a derrubada de uma presidente constitucionalmente eleita, imensos retrocessos quanto aos direitos fundamentais passaram a ser aprovados e, para tornar tudo ainda mais difícil para os direitos humanos, foi eleita presidente da República uma pessoa notória por suas apologias a tortura e  outros crimes.

Com tudo isso, o ânimo de se comemorar o golpe civil-militar de 1964, como se tivesse sido algo grandioso, em 31 de março, voltou força, mesmo sabendo-se que a versão da ditadura que sempre sustentaram é uma grande mentira, desde a data de sua implantação até as justificativas de ameaça comunista e de paridade de forças.

Obviamente, esse tipo comemoração do golpe ainda é isolado. Ainda são mais relevantes as iniciativas dedicadas a denunciar o golpe e suas atrocidades, como ocorreu por exemplo, com a I Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado.

Realizada em São Paulo/SP, no Parque do Ibirapuera, no dia 31 de março de 2019 (porque era um domingo), o evento reuniu mais de dez mil pessoas. É considerado o maior ato pela memória das vítimas de violência do Estado desde a promulgação da Constituição, em 1988. O seu sucesso deveu-se principalmente à convocação que o presidente Jair Bolsonaro fez naquela última semana de março para que o público saísse às ruas para comemorar o golpe civil-militar. O público saiu sim às ruas, mas com roupas escuras, levando flores e velas acesas em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos. Em várias capitais brasileiras ocorreram eventos com a mesma finalidade nos dias 31 de março e 1º de abril.

A partir daí foi instituído o coletivo Movimento Vozes do Silêncio (www.movimentovozesdosilencio.com.br), apoiado por instituições de todo o País, com o objetivo de relembrar em todo dia 31 de março e 1º de abril a ocorrência do golpe-civil militar e as tragédias dele decorrentes.

Nos anos seguintes, 2020 e 2021, o Movimento não pôde ir às ruas em razão da pandemia Covid-19, mas vem realizando atos virtuais que possuem muita repercussão e se destacam mais do que as famigeradas comemorações do golpe de Estado que o Poder Judiciário, infelizmente, resiste em coibir.

Neste ano, o objetivo do “Vozes do Silêncio” é lançar a campanha “#ReinterpretaJáSTF” (http://chng.it/8SWWDdNd) porque a validade da Lei de Anistia para os agentes da ditadura está pendente de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) há mais de dez anos. Essa reinterpretação é urgente pois a impunidade dos crimes de lesa humanidade cometidos na ditadura militar tem sido decisiva para que o País continue sendo violento, desigual e democraticamente muito frágil.

Além de lembrar que torturas e outros crimes contra a humanidade não podem ser perdoados, o Movimento quer lembrar que esses crimes e a ditadura que os praticou, que não teve compromisso sequer com a verdade sobre a data de sua implantação, não podem ser comemorados.

Para que não se esqueça, para que não siga se repetindo![iv]Image

 


[i] Veja mais em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2014/03/27/31-de-marco-ou-1-de-abril-dia-do-golpe-e-motivo-de-disputa-ideologica.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 30.03.2021.

[ii] Idem.

[iii] Cf. http://www.justicadetransicao.mpf.mp.br/.

[iv] Sobre o lançamento da campanha #ReinterpretaJá STF acesse: https://fb.me/e/35BpcXtXM.

 

16
Mar19

Ministro do STF impede que, por esperteza, a Lava Jato gaste fundo bilionário da Petrobras

Talis Andrade

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Jornal GGN – Atendendo ao pedido da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu, em medida cautelar, o acordo firmado entre a força-tarefa de Curitiba e a Petrobras para o controle de R$ 2,5 bilhões pela equipe da Lava Jato do Paraná.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi divulgada há pouco. “Determino imediato bloqueio de todos os valores depositados pela Petrobras, bem como subsequentes rendimentos, na conta corrente designada pelo juízo da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba que, a partir desta decisão, deverão permanecer em depósito judicial vinculado ao mesmo Juízo, proibida qualquer movimentação de valores sem expressa decisão do Supremo Tribunal Federal”, despachou.

Moraes concordou com a defesa de Dodge de que o gerenciamento do fundo de recursos recuperados pela estatal brasileira por uma fundação que ficaria sob a responsabilidade da Lava Jato de Curitiba viola o que determina a Constituição Federal sobre a competência de procuradores da República.

Na decisão que soma 15 páginas, o ministro lembra que tampouco seria responsabilidade do MPF do Paraná decidir sobre um acordo entre a empresa brasileira e as autoridades norte-americanas.

“A atuação do MPF perante o Juízo da 13ª Vara Federal nos inquéritos e nas ações penais da ‘lava jato’, a priori, jamais tornaria esse órgão prevento para a ‘execução’ do acordo celebrado nos Estados Unidos, mesmo considerada a relação e os fatos investigados no Brasil”, analisou.

O ministro criticou, também, que a conta que receberia os montantes era da Justiça Federal de Curitiba:

“Importante destacar, ainda, que os termos do acordo realizado entre a Petrobras e o governo norte-americano, além de não indicarem os órgãos do MPF/PR como sendo as ‘autoridades brasileiras’ destinatárias do pagamento da multa, igualmente jamais indicaram a obrigatoriedade ou mesmo a necessidade do depósito dos valores ser realizado perante a 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba”, manifestou.

A Lava Jato de Curitiba ainda poderia recorrer da decisão de Moraes, mas por se tratar de uma medida cautelar, o fundo já está bloqueado e não poderá ser usado pela Justiça Federal e pela força-tarefa, seja para a criação do fundo, como originalmente era o objetivo, seja por outros fins, até que o caso eventualmente seja levado ao Plenário do Supremo.

Leia a decisão completa aqui 

 

assalto dd lava jato petrobras.jpg

 

Nota deste correspondente: Para o ministro o acordo nem sequer autoriza a força-tarefa ou o Ministério Público Federal a se intitulares tutores do dinheiro reenviado ao Brasil. "Em relação ao destinatário do pagamento dos US$ 682.526.000,00 (80% do valor da multa), o acordo sempre se referiu a 'Brazil' e 'Brazilian authorities', sem indicar qualquer órgão brasileiro específico."

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Vem um bando de "cretinos" e desvia o dinheiro da Petrobras. E não acontece nada com os espertos. Já pensou se um reitor cuidasse, tal como fez DD e corriola. de criar uma fundação com dinheiro público, para gastança de apenas 2, 5 milhões de reais? Não digo 2 bilhões e 5OO milhões. O reitor seria preso e torturado psicologicamente, e humilhado, como aconteceu com o inocente Cancelier, posto nu em um xadrez, junto com presos comuns. Para os procuradores de Curitiba a sabedoria, a esperteza dos intocáveis: se colar, colou. 

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Em 6 de outubro de 2017, escreveu José Nêumanne, no Estadão: "Se colar, colou; se não colar, tentaremos de novo. Este é o espírito do partido chamado Solidariedade, liderado pelo notório Paulinho da Força".

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A filósofa Marcia Tiburi, exilada política, escreveu sobre a 

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Filosofia do Blefe – uma simulação

Na literatura, nos meios de comunicação, no cinema, na televisão, tudo parece obedecer a uma espécie de lógica do blefe. É a lógica do “se colar, colou”. A imprensa, a indústria em geral, o mercado, todos produzem mercadorias como trapaça. Se colar, colou. A indústria dos utensílios inúteis, as bugigangas do consumismo, são efeito dessa lógica em que alguém aposta que o outro vai cair no blefe. Talvez não seja um exagero dizer que todo consumo depende do blefe. Ou seja, o consumidor está sendo enganado e consentindo com a enganação porque ela é a sub-regra do jogo do consumo.

A lógica do blefe rege a educação reduzida à mercadoria: simulamos educar nossos filhos, as escolas simulam transmitir conhecimento. A educação escolar não significa nada, o conhecimento não é mais do que algo vazio, um nome que se usa para sustentar a instituição. A indústria do vestibular talvez seja o melhor exemplo do blefe diante do qual comprar um diploma seria cinismo. O conhecimento é simulado tanto na escola quanto na loja onde o vendedor passa a impressão de que um sapato não é apenas um sapato, de que um eletrodoméstico não é apenas um objeto útil, mas algo carregado de informação. Hoje em dia o vendedor é mais informado sobre o vinho do que o estudante sobre o que ele realmente aprende que não seja para alcançar a média nas provas. Todos estão unidos na regra do “se colar, colou”.

(Entender o blefe é fundamental para entender a lógica de nossa cultura. Uma filosofia do blefe seria capaz de expor traços fundamentais de nossas relações em geral. Mais ainda, dessas relações enquanto implicam jogos de linguagem e jogos de poder. Onde começa a linguagem, onde termina o poder? O que escapa ao jogo?). Leia mais 

 
 

 

 

 

13
Mar19

EXÍLIO POLÍTICO Após ameaças, Márcia Tiburi deixa o Brasil

Talis Andrade

 

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Luís Eduardo Gomes

A professora e escritora Márcia Tiburi revelou nesta segunda-feira (11) que deixou o País em dezembro passado em razão das constantes ameaças que vinha recebendo nas redes sociais. Márcia, que foi candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT nas últimas eleições, disse para anunciar sua decisão que esperou três meses por medo e preocupações com sua segurança. “Não queria que os meus algozes soubessem onde eu estava. Eu estava organizando a minha segurança”, diz. “Agora está tudo bem”, complementa.

A escritora conta que passou a constantemente receber ameaças após a entrevista que concedeu ao jornalista Juremir Machado, da rádio Guaíba, de Porto Alegre, em 24 de janeiro de 2018. Na ocasião, ela foi surpreendida quando o jornalista convidou o líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e agora deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) para debater com ela. Por não ter sido avisada disso, Márcia se recusou a participar e deixou o programa.

“Teve uma emboscada midiática naquele momento. Entrou o MBL com a sua arma na mão, que é o celular. No dia seguinte a minha vida virou um inferno. Depois daquele evento, eles criaram várias fake news contra mim, colocaram a minha imagem para circular pelo Brasil a partir do website deles, ficaram me atacando, invadindo os meus eventos, fazendo bullying, produzindo agressões. Teve lugares em que aconteceram brigas e eles agrediram pessoas. Isso em todos os meus lançamentos de livros durante o ano de 2018. Eu tive que começar a andar com segurança, meus eventos tinham segurança, mil coisas.

Márcia diz que o episódio “mais pesado” de perseguição a ela ocorreu em novembro, quando MBL criou uma campanha nas redes sociais contra a presença dela na Festa Literária Internacional de Maringá (Flim). “Ali as pessoas tiveram que ser revistadas. Trezentas, quatrocentas pessoas, segurança armada, foi uma coisa muito pesada. Então, isso é do ano de 2018 e tem a ver com a tentativa desses grupos fascistas de destruírem a imagem de pessoas como eu. Eu sou vítima de fake news e vítima de uma maquina programática de desinformação”, diz.

Ela afirma que está em uma residência literária nos EUA que protege escritores que sofrem com ameaças, mas diz que deve viajar para a França no futuro. Ela afirma que seguirá escrevendo e pesquisando.

Neste mês de março, ela lança o livro “Delírio de Poder” (Record), um ensaio sobre o Brasil político de 2018 e as eleições, abordando a “loucura coletiva” na era da (des)informação e da necessidade de se valorizar a reflexão em meio aos descaminhos de um governo que ameaça a democracia e induz ao narcisismo adquirido. A obra também traz o testemunho dela sobre a sua campanha para o governo do Rio de Janeiro, em 2018. O prefácio do livro é uma carta escrita pelo ex-presidente Lula para ela.

“A Márcia Tiburi não falta coragem. Nas suas opiniões, ideias atitudes, ela não tem medo de arriscar, de dizer o que pensa e sente, de correr o risco de desagradar. Ela não vai se calar diante de uma injustiça ou para manter um espaço em um canal de TV. Ela não vai nunca abdicar da sua voz e das suas reflexões. Ela vai dizer e escrever o que ela pensa. O seu leitor pode ter certeza disso”, diz um trecho da carta de Lula.

12
Mar19

Bolsonaro mandou recado ao jornalista Chico Otávio ao atacar sua filha?

Talis Andrade

Antes do raiar do sol desta terça-feira (12), às 5h37, Chico Otávio e Vera Araújo assinaram a reportagem com o furo da prisão do sargento Ronnie Lessa no condomínio de Jair Bolsonaro, efetuada por agentes da Delegacia de Homicídios (DH) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público menos de duas horas antes

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Por Renato Rovai e Plínio Teodoro

 

“Ela é filha de Chico Otávio, profissional do O Globo.” A frase de Jair Bolsonaro (PSL) no tuíte do áudio fake contra a jornalista Constança Rezende, d’O Estado de S.Paulo, foi divulgada menos de 48 horas antes da prisão, no condomínio onde o presidente mora, do sargento da PM Ronnie Lessa, sob acusação de disparar os tiros que assassinaram a vereadora Marielle Franco (PSol) e o motorista Anderson Gomes.

 

Lida isolada, a frase parece apenas mais uma bravata lançada pelo presidente para atiçar a matilha bolsonarista nas redes contra um profissional de imprensa. Mas, qual seria o real motivo de Bolsonaro ter citado o jornalista d’O Globo em uma publicação que não dizia nada a seu respeito – exceto o fato de ser pai de Constança?

Leia também: Pai de jornalista que teve áudio vazado denunciou ligação de clã Bolsonaro com milícia no RJ

Chico Otávio é um dos poucos jornalistas que restaram na grande imprensa que dedicam a carreira – e a vida – aos bastidores do poder. Co-autor do livro “Os Porões da Contravenção”, que mostra a ligação da ditadura militar com o jogo do bicho na raiz do crime organizado no Rio de Janeiro, o jornalista, vencedor de 6 prêmios Esso, é um dos maiores conhecedores do submundo das milícias cariocas e da ligação delas com os bastidores do universo político.

Foi o jornalista quem deu furo (publicou primeiro, no jargão jornalístico) da real ligação das milícias com o clã Bolsonaro, revelando o elo do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega e do major da PM Ronald Paulo Alves Pereira, principais alvos da Operação deflagrada contra a milícia Rio das Pedras, com Flávio Bolsonaro.

 

Na reportagem, o jornalista diz ainda que “os dois são suspeitos de integrar o Escritório do Crime, um grupo de extermínio que estaria envolvido no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL)”.

Furo na prisão dos assassinos

Antes do raiar do sol desta terça-feira (12), às 5h37, Chico Otávio e Vera Araújo assinaram a reportagem com o furo da prisão do sargento Ronnie Lessa no condomínio de Jair Bolsonaro, efetuada por agentes da Delegacia de Homicídios (DH) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público menos de duas horas antes.

 

Na reportagem, como é de praxe do jornalista, Chico Otávio traz detalhes da denúncia feita pelas promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile ao juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Guilherme Schilling Pollo Duarte, além da única foto – creditada à Agência O Globo – da prisão do sargento reformado no condomínio onde mora Bolsonaro, na Barra da Tijuca.

Ainda na reportagem, um infográfico, feito pelo departamento de arte do jornal – que, geralmente não trabalha durante a madrugada -, mostra como foi realizada a investigação, além de uma linha do tempo com as “reviravoltas” do caso.

O jornalista também descreve todo o histórico do assassino de Marielle, dizendo que ele tinha “ficha-limpa”, e assina uma matéria, publicada às 6h44, com Mônica Benício, viúva de Marielle, sobre a repercussão da prisão, além de outras reportagens sobre o caso.

Todos os detalhes mostram que Chico Otávio acompanha de perto as apurações sobre a morte de Marielle Franco, “incontestemente” política, como dizem as procuradoras do caso, e claramente relacionada à ligação das milícias com a classe política do Rio de Janeiro que abomina os políticos de esquerda, especialmente os ligados ao PSol.

 
 

Quase um ano depois do assassinato de Marielle, as milícias do Rio continuam mandando recado e fazendo ameaças – que levaram ao exílio Jean Wyllys e, mais recentemente, de Márcia Tiburi. E, como indaga Mônica Benício, é “urgente e necessário” que se revele quem mandou matar a vereadora. Antes que a perseguição a políticos oposicionistas, jornalistas ou contra qualquer pessoa com opiniões divergentes se torne uma política de Estado do governo Bolsonaro. Leia mais na revista Forum 

 

12
Mar19

Bolsonaro, Marielle, milícias e as coincidências

Talis Andrade

As coincidências envolvendo o brutal assassinato de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, até a prisão do policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, apontados como suspeitos do crime.

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Eles sempre tiverem mais votos em regiões do Rio de Janeiro dominadas pelas milícias, mas isso era coincidência.

 

Eles condecoraram milicianos que estavam envolvidos em assassinatos, mas isso era coincidência.

Eles tinham pessoas empregadas em seus gabinetes que foram presas por envolvimento com as milícias, mas isso era coincidência.

Eles foram os únicos políticos com relevância eleitoral a não se pronunciar sobre o assassinato de Marielle, porque, segundo eles, não tinham coisa boa dizer, mas isso era coincidência.

Seus principais candidatos a deputados no Rio quebraram a placa de Marielle, mas isso era coincidência.

O chefe de gabinete do atual senador da família foi pego com depósitos bem acima do que recebia de salário e tem inúmeras fotos e relações com milicianos, mas isso era coincidência.

Um dia antes da prisão do suposto assassino de Marielle no condomínio em que Bolsonaro mora, o presidente da República postou uma mensagem no Twitter ameaçadora à jornalista Constança Rezende, do Estadão. O fato dela ser filha de Chico Otávio, que cobre milícias no Rio de Janeiro há tempos, e que soltou a matéria de hoje, em O Globo, com exclusividade antes das 6h da manhã, também foi só coincidência.

Vivemos num país de coincidências. Onde coincidentemente os bandidos dão as cartas e os que os investigam estão sendo ameaçados de morte (Jean Wyllys e Márcia Tiburi, por exemplo) e ou têm que se exilar ou têm que viver sob escolta policial. Mas isso é só coincidência.

Depois do Twitter de Bolsonaro, fico imaginando o quanto deve ter sido difícil para Chico Otávio seguir com a reportagem que já estava em curso. E o quanto sua filha, Constança Resende, deve ter sofrido. Mas tudo é só coincidência.

Tudo, tudo é só coincidência.

 

 

07
Ago18

Com Haddad, passa-se do PT do grito ao da reflexão

Talis Andrade

Para um mundo em ebulição, são necessários novos líderes capazes de absorver as novas pulsões

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Fernando Haddad discursa durante a convenção do PT no último sábado, 4 NELSON ALMEIDA AFP

 

"Quando Fernando Haddad era ministro da Educação me disseram numa visita a Brasília que era um bom ministro, mas não um “petista-raiz”, já que era mais um intelectual que um ativista. Agora que Lula parece tê-lo escolhido como seu sucessor, o PT poderia passar da política do grito à da reflexão. De uma esquerda tropical a uma esquerda europeia. Poderia tornar-se aquela que já foi a formação mais importante da velha esquerda no continente, um partido capaz de conviver com a verdade líquida da modernidade", escreve Juan Arias no jornal El País, Espanha. E acrescenta:

"Haddad não poderia ser mais diferente de Lula, seja em seu caráter e peculiaridades quanto na sua biografia. Enquanto Lula se forjou no sindicalismo, que condicionaria fortemente o partido dele nascido, virando um líder carismático e popular sem outra formação senão a da vida, Haddad é um acadêmico, com vários diplomas, doutor em Filosofia, especialista em marxismo e com uma visão mais europeia que tropical da política."

 

Essa mudança foi determinada pelo próprio Lula. Para o Rio de Janeiro ele indicou Márcia Tiburi, também acadêmica, doutora em Filosofia, candida do PT para governar o Rio.

 

Segue mais trechos da reportagem de Juan Arias:

 

Haddad não é um novo Lula mais jovem, como alguns do PT preferiam que fosse, para seguir a trajetória particular de seu líder que nunca foi posto em discussão desde sua fundação. Lula talvez tenha preferido, entretanto, que o selo que ele infundiu ao PT se acabe, e que agora se abra um novo ciclo em um partido em crise, porém ainda o mais estruturado de todos.

 

Haddad daria outra cara a um partido refundado, para escutar o que uma parte da sociedade exige da esquerda. Uma esquerda que seja capaz de dar expressão às exigências e necessidades de um mundo mais urbano que rural, e que impõe novos desafios trabalhistas criados para enfrentar as modernas tecnologias que estão revolucionando a organização do trabalho.

 

Para um mundo em ebulição, no qual entraram em crise todas as ideologias de esquerda e de direita, e no qual surge com força uma sociedade nova que rechaça as velhas tutelas, são necessários também novos líderes capazes de absorver e analisar essas novas pulsões. Capazes de apostar mais no hoje e no manhã do que num passado que só existe agora como nostalgia.

 

Não sabemos como acabará a crise do PT e de seu carismático líder Lula, um filme de incerteza que ainda pode oferecer todas as surpresas. O que é certo é que este primeiro passo de aceitar a possibilidade de um novo governo sem Lula, presidido por um político mais intelectual que eleitoreiro, significa uma revolução numa agremiação que, se voltar ao poder, não poderá mais usar os velhos modelos fisiológicos de governar.

 

Um partido que deverá abraçar o desafio de tentar ser de novo, embora desta vez de uma forma diferente, uma referência moderna e progressista de analisar e governar uma sociedade cada vez mais plural e mais alheia aos velhos dogmas, sejam religiosos ou políticos.

 

Conforme escreveu na Folha de S.Paulo Celso Rocha de Barros, doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, já se notou a mão do intelectual Haddad na preparação do atual programa de governo do PT: “Justiça seja feita, pela primeira vez desde 2015 o PT está se movendo intelectualmente. Ainda se move lentamente… Entretanto é admirável o esforço de Haddad para tirar o partido da ressaca”. Barros compara os novos documentos do PT de hoje, sob a responsabilidade de Haddad, com os anteriores, e comenta: “Quem viveu a miséria profunda de ler os documentos oficiais desde 2015 sabe como estavam cheios de populismo fiscal e revanchismo contra o Judiciário e a imprensa”.

 

É nos momentos mais obscuros de um país, nos que todos os horizontes parecem se fechar, que podem se abrir espaços de luz para que novos líderes tentem o que até ontem parecia impossível. Que o PT acerte com Haddad só pode beneficiar um país que exige, e com urgência, transformar uma política e uns partidos que ficaram rançosos e envelhecidos. Todos, sem exceção.

 

 

 

25
Jan18

"Para que uma democracia seja sustentada é preciso legalidade, lastro jurídico"

Talis Andrade

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Indignada, a filósofa Márcia Tiburi abandonou um programa, no qual seria entrevistada, ao ficar sabendo que o outro convidado era o dirigente do MBL, Kim Kataguiri. “Você deveria ter me avisado. Tenho vergonha de estar aqui. Que as deusas me livrem. Não converso com pessoas indecentes, perigosas”, disse ela, na frente do comandante do programa e de um atônito Kataguiri, apelidado de "Bostinha" em uma lista de propina.

 

Márcia vem sendo uma das principais críticas da situação do país e do julgamento do ex-presidente Lula. “Para que uma democracia seja sustentada é preciso legalidade, lastro jurídico, ética e respeito às diferenças. O golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff ignorou esses preceitos básicos, não há mais democracia no Brasil”, afirmou ela, poucos dias antes do julgamento do ex-presidente.

 

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