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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

09
Mar22

"Mulheres de luta!"

Talis Andrade

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POR UM BRASIL PARA AS BRASILEIRAS:

Levante-se pela vida das mulheres ‚úäūüŹĺ

No 8 de Março ocupamos as ruas também em São Paulo para marchar contra o Bolsonaro, denunciando a realidade de aprofundamento fome, machismo e racismo que seu governo tem colocado o Brasil!

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07
Mar22

Marcha das Mulheres nesta terça 8 de março em Natal

Talis Andrade

Dia Internacional da Mulher - Quando √ɬ©? Hist√ɬ≥ria e Import√ɬĘncia

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "Sov FORTE WZ Sou iNVEN So NATAL/RN #8M PELA VIDA DAS MULHERES EGAL QUESTÃO DA BOLSONARO NUNCA MAIS! POR UM BRASIL SEM MACHISMO, RACISMO E FOME 08 DE MARÇO ÀS 14H30 PRAÇA GENTIL FERREIRA ALECRIM Lute como ma carota NATALIA FEDERAL-PT BONAVIDES"

Natalia Bonavides convoca:

Atenção, Companheiras!
 
Nesta terça (08), Dia Internacional da Luta das Mulheres, ocuparemos as ruas em defesa da vida e por um Brasil sem machismo, sem racismo e sem fome.
 
O governo Bolsonaro e seus aliados têm atacado diariamente a vida das mulheres: retirando direitos, impedindo a aprovação de projetos importantes pras mulheres e cortando recursos das políticas de combate à violência. As mulheres são as principais vítimas deste projeto de carestia e mortes.
 
Por isso, nesta terça (08), a gente se encontra às 14h30, no Alecrim, em Natal.
 
Marcharemos juntas pelo fim deste governo machista, racista e neoliberal!
 
√Č Pela Vida das Mulheres!
 
Participe usando sua m√°scara.
 
 
Dia Internacional da Mulher: Origem e import√ɬĘncia
04
Dez21

Para encontrar Oliveira Silveira : O Poeta da Consciência Negra

Talis Andrade

Para-encontrar-Oliveira-Silveira-O-Poeta-da-Consci

 

 

ImagemTania Meinerz

 

 

Por Karen Luise Souza e Naiara Rodrigues da Silveira Lacerda /Justificando

 

“encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
……..cantos
em furiosos tambores
………ritos
encontrei minhas origens
na cor da minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei‚ÄĚ

 

Esta escrita surge a partir das nossas vidas e se constr√≥i com o objetivo de realizar um registro hist√≥rico que ao mesmo tempo em que √© singular expressa uma viv√™ncia coletiva. Por isto, ela tamb√©m √© o encontro de n√≥s mesmas, por um ideal comum ‚Äď a luta pela consci√™ncia negra e a preserva√ß√£o das mem√≥rias de todos aqueles que vieram antes de n√≥s e que brigaram muito para que cheg√°ssemos at√© aqui.

Nossa inf√Ęncia deu-se na d√©cada de 70. Foi naquele tempo que pela primeira vez pessoas negras reuniram-se em uma casa no bairro Bonfim, Porto Alegre, pretendendo dar in√≠cio a estudos com o objetivo de encontrar uma data mais significativa ao povo negro, fugindo da narrativa de que sua liberdade teve por protagonistas pessoas brancas que defenderam o fim da escraviza√ß√£o no Brasil.¬†

O anfitrião era o Professor José Maria, sobre quem todos falavam como um amante do magistério, que cultivava a negritude. Ele abriu as portas de sua casa para que o genro, Oliveira Silveira, reunisse o Grupo Palmares, que fazia uma oposição ao dia 13 de maio, com o olhar crítico para a abolição da escravidão no Brasil.

Dali surgiu o primeiro ato evocativo do Grupo Palmares, no Clube Marcílio Dias, o qual apenas se realizou após obterem a licença da Censura (Afinal: o que um grupo de negros pretendia em reunião?).

 Firmou-se ali, em 1971, o primeiro 20 de novembro!

A data da morte de Zumbi dos Palmares emerge como referência de luta e o quilombo é reverenciado como espaço coletivo de fortalecimento e resistência em oposição a um sistema que não reconhecia identidade e subjetividade a negras e negros em nosso país.

Assim era Oliveira Silveira, tamb√©m professor, poeta ga√ļcho, natural de Ros√°rio do Sul, que sempre viu nosespa√ßos coletivos uma possibilidade de fortalecimento:

‚ÄĒ Ele sempre trabalhou com grupos! Terminava um grupo ele j√° formava outro e formava outro, mais outro!

Nossa ancestralidade e nosso presente são produtos de muitos grupos, pois somados talentos, experiências, habilidades, diferentes modos de pensar e agir, potencializam-se forças e a história é preservada!

Oliveira percebeu nas diversas tribos em √Āfrica: grupos; nas pessoas em sofrimento nos navios negreiros: grupos; nos privados de liberdade das senzalas: grupos; nos quilombos: nossos mais valiosos grupos!

Depois da lei de Isabel, nas reuni√Ķes de fam√≠lia e amigos: grupos!¬† Nos clubes sociais Marcilio Dias, Associa√ß√£o Sat√©lite Prontid√£o, Floresta Aurora, formados apenas por pessoas negras: grupos!¬†

Nas escolas de samba, Bambas da Orgia, Imperadores do Samba, Uni√£o da Vila do IAPI: grupos. Sempre estivemos reunidos em grupos!

E foram esses grupos ‚Äď lugares existenciais de sociabilidade, ref√ļgio e luta contra o racismo - que n√£o permitiram e n√£o permitem que sejamos eliminados, pois √© no coletivo que encontramos sentido para nossas exist√™ncias. Pela oralidade transmitimos, de uma gera√ß√£o para outra nossos conhecimentos, nossa sabedoria, h√°bitos alimentares, as curas, a f√©. Pensamos em coletivo, pensamos em grupo, para resistirmos ao dia a dia, para fortalecermos nossas subjetividades, para construirmos identidades pr√≥prias.

Na verdade, Oliveira Silveira vivia de construir quilombos: espaços em que negras e negros pretendiam fugir da nova escravidão e viver em liberdade.

 Surgiram Palmares, Semba, Associação Negra de Cultura, dentre tantos outros, todos viabilizando encontros com nós mesmos. Como diz a poesia, pessoas de pele escura, buscando umas pelas outras para enfim poderem encontrar a si próprias. 

Encontre negros e negras unidos e resistindo e estará diante de um grupo, lugar onde Oliveira Silveira se encontrou! Lugar onde sua memória permanece viva!

Por isto, para encontrar Oliveira Silveira, o poeta da Consciência Negra, procure um grupo de pessoas negras que buscam por identidade e compreendem a liberdade como um processo de luta, e não como algo que foi entregue pelo opressor.

 

26
Jun21

M√£es que perderam filhos em a√ß√Ķes policiais relatam como a dor virou luta por justi√ßa

Talis Andrade

Mães que perderam seus filhos por violência policial lutam por justiça

 

por Consultor Jurídico

Al√©m da dor de perder os filhos jovens em a√ß√Ķes violentas da pol√≠cia, Ana Paula Oliveira e Rute Fiuza t√™m em comum a queixa de n√£o ter recebido o atendimento devido do poder p√ļblico, bem como a determina√ß√£o de transformar, como elas definem, ‚Äúo luto em luta‚ÄĚ.LUTO COMO MULHER, LUTO COMO M√ɬÉE - Geled√ɬ©s

As duas participaram do Painel "Violência do Estado", que integrou o webinário "Mães em Luta por Justiça: a Resolução CNJ 253/2018 e o Papel do Poder Judiciário", organizado pelo Conselho Nacional de Justiça nesta quarta-feira (23/6), com transmissão no YouTube.

O debate, proposto pelo Observatório de Direitos Humanos do Poder Judiciário, abordou a recente alteração do texto da Política Institucional do Poder Judiciário de Atenção e Apoio às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais, definido pela Resolução CNJ 253/2018.

 

A mudan√ßa determina a ado√ß√£o de medidas para "tornar vis√≠vel, acess√≠vel, concreta e efetiva". A nova reda√ß√£o decorreu da interlocu√ß√£o do CNJ com entidades da sociedade civil e lideran√ßas voltadas √† prote√ß√£o dos direitos fundamentais de popula√ß√Ķes vulner√°veis e foi elaborado com a perspectiva de respeito √† interseccionalidade de g√™nero, ra√ßa, classe e sexualidade.A viol√ɬ™ncia policial contra negros como pol√ɬ≠tica de Estado no Brasil |  Not√ɬ≠cias e an√ɬ°lises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW |  08.06.2020

Integrante do Movimento Mães de Manguinhos, do Rio de Janeiro, Ana Paula Oliveira perdeu o filho Johnatha de Oliveira, 19 anos, em 2016. "Ele foi assassinado com um tiro nas costas por um policial que já respondia a outros processos". Ao relatar as dificuldades da caminhada em busca de justiça, ela afirmou que encontrou mais criminalização.

"Na audiência, as perguntas de promotor e do juiz eram sobre a existência de tráfico na favela. Infelizmente, no Brasil, quando a polícia mata na favela, não mata só o corpo, mas faz tudo para tirar a dignidade da vítima. Saí do tribunal descrente e com a sensação de que aquelas pessoas não conseguiam se enxergar em mim."

Foi a primeira vez que Ana Paula entrou no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e ela lembra que, na ocasião, já convivia com diversas mulheres pobres, negras, moradoras da favela e mães de meninos assassinados pela polícia.

"Não foi difícil entrar no tribunal porque eu estava amparada pelos familiares e por outras mulheres que enfrentavam a mesma situação. A dor veio quando me deparei com o assassino do meu filho no corredor. Há sete anos aguardo que justiça seja feita e o policial segue solto com a certeza da impunidade."

Ana Paula enfatiza que a motivação do Movimento Mães de Manguinhos é para que outras pessoas não sejam assassinadas. "Temos que evitar que sigam matando nosso povo. Que a justiça atue para que outros casos não aconteçam e outras mães tenham direito de conviver com seus filhos."

Esse é o mesmo objetivo que estimula Rute Fiuza, do Movimento Mães de Maio do Nordeste, fundadora do Coletivo Familiares de Vítimas do Estado e Integrante da Coalizão Negra por Direitos. O filho Davi Fiuza tinha 16 anos e estava na porta de casa quando foi levado pela polícia baiana. O episódio ocorreu há sete anos e ele nunca foi encontrado.

"A polícia estava fazendo um treinamento na região. Pegaram Davi às 7h da manhã, quando ele conversava com uma senhora, que hoje se encontra em um programa de proteção a testemunha. Seus algozes estão livres e foram promovidos a capitães."

Rute destaca que, quando iniciou a luta tinha esperança de encontrar o filho, mas conheceu famílias que estavam na mesma batalha havia mais de 15 anos sem resultados. "Se já não fosse suficiente a dor de perder o filho, tenho que responder em audiência porque Davi estava na rua. Ele havia saído para comprar pão", desafabou.

O envolvimento com o tema, fez Rute Fiuza se tornar pesquisadora do Centro de Antropologia A√ß√Ķes Afirmativas e Pol√≠ticas de Perman√™ncia da Universidade Federal de S√£o Paulo (Unifesp), com apoio da Universidade de Havard (Massachussetts/EUA). Ela tamb√©m organizou encontros com m√£es que enfrentam o mesmo problema na Col√īmbia e em Chicago (EUA).

"Nossa luta j√° ultrapassou fronteiras. A Anistia Internacional levou o caso do Davi para a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas, que pediu a retrata√ß√£o do Estado brasileiro em 2019. At√© hoje, n√£o tivemos acesso √† resposta."

A mediadora do debate, juíza da 5ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro Adriana Alves dos Santos Cruz, declarou que a morte de jovens negros no país é uma situação que se tornou inaceitável e é uma vergonha para o Estado brasileiro e para a sociedade. "A magistratura precisa aprender a ouvir. Nós, juízes, aprendemos oratória, mas não aprendemos a escutar. E isso precisa mudar."

Na avalia√ß√£o da magistrada, os relatos apresentados pelas m√£es que perderam os filhos √© uma vergonha tamb√©m para o Poder Judici√°rio. "√Č uma vergonha que nosso sistema n√£o esteja preparado para enxergar as pessoas. Agora, com a resolu√ß√£o, precisamos trabalhar para tir√°-la do papel. Por√©m, cada juiz do Brasil n√£o precisa de nenhum outro normativo para tratar as pessoas com dignidade e respeito."¬†Com informa√ß√Ķes da assessoria do CNJ.

Mães que perderam seus filhos por violência policial lutam por justiça

09
Mai21

Chacina no Jacarezinho: popula√ß√£o reage com manifesta√ß√Ķes e den√ļncias √† ONU e STF

Talis Andrade

Foto: Douglas Dobby

Em¬†Papo NINJA com Djeff Amadeus e Seimor Costa, deputada estadual Renata Souza apresenta den√ļncias formais contra chacina

Desde a opera√ß√£o¬†da Pol√≠cia Civil que matou pelo menos 29 pessoas¬†na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, na √ļltima quinta-feira (6), centenas de manifestantes foram √†s ruas por justi√ßa, mem√≥ria e recha√ßo contra a maior chacina j√° vivida pelo estado. Durante a sexta-feira, dois atos se posicionaram na comunidade em mem√≥ria aos mortos e contra a pol√≠tica genocida no Estado do Rio de Janeiro.

‚ÄúOs atos s√£o espa√ßo de manifestarmos nossa resist√™ncia, mas sobretudo de mem√≥ria daqueles que se foram. √Č importante estarmos com os familiares e darmos for√ßa nesse processo de acolhida, disse Seimor Costa, cientista pol√≠tico e ativista social do Jacarezinho, durante edi√ß√£o do Papo NINJA, que reuniu ainda a deputada estadual Renata Souza sob medi√ß√£o do advogado Djeff Amadeus. O debate ocorreu momentos antes do ato marcado para o fim de tarde no Rio de Janeiro.

A luta por justi√ßa dessas pessoas n√£o √© s√≥ uma luta delas, mas um luta que transcende o territ√≥rio do Jacarezinho e ultrapassa a cidade e o estado do Rio de Janeiro‚ÄĚ, completou Seimor.

Renata Souza informou que abriu, junto a seu gabinete, uma representa√ß√£o ao Minist√©rio P√ļblico para investiga√ß√£o das mortes ocorridas durante a opera√ß√£o. Segundo a Pol√≠cia Civil, conforme notas divulgadas na imprensa, nenhuma irregularidae foi cometida. As imagens da chacina mostram que¬†parte dessas mortes ocorreram dentro das casas dos moradores e¬†outros foram atingidos e feridos na esta√ß√£o Triagem do metr√ī. Renata tamb√©m relatou que, junto √† bancada federal, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para notificar ilegalidade da opera√ß√£o j√° que, conforme a ADPF 635, as opera√ß√Ķes policiais estariam suspensas.

‚ÄúFizemos a√ß√Ķes coordenadas de den√ļncias em diferentes lugares. N√≥s acionamos organiza√ß√Ķes internacionais, como ONU e OEA‚ÄĚ, disse. ‚ÄúDesde que denunciei (o ex-governador Wilson) Witzel na ONU, n√≥s mantivemos uma rela√ß√£o com a relatoria especial sobre execu√ß√Ķes sum√°rias. √Č fundamental que, em um¬†pa√≠s com 417 mil pessoas assassinadas por um governo que n√£o proveu de vacina e dignidade m√≠nima a popula√ß√£o, n√≥s saibamos que ele √© capaz de tudo, inclusive promover uma chacina.¬†No √Ęmbito estadual, a gente tem um governador que topa essa rela√ß√£o de cumplicidade com o genoc√≠dio‚ÄĚ.

Os atos contra a chacina moveram outras cidades brasileiras desde a sexta-feira (7). Em S√£o Paulo, o movimento Coaliz√£o Negra Por Direitos¬†mobilizou¬†centenas de pessoas na Av. Paulista para protestar contra o genoc√≠dio. No ato, ativistas expunham cartazes dizendo ‚Äúse precisamos ir para as ruas numa pandemia √© porque o governo √© mais letal que o v√≠rus‚ÄĚ.

25
Nov20

Os sonhos e o despertar para a travessia de desertos

Talis Andrade

Claudius Cecon jornalismo sonhos.jpg

 

 

No atual contexto histórico brasileiro, em que o anonimato e a mentira ocupam a cena política, sonhar é um ato revolucionário

 

por Miriam Debieux Rosa, Emilia Broide e Sandra Luzia Alencar /Cult

- - - 

Um gesto: em tempos de pandemia, psicanalistas pesquisadores convidam profissionais da sa√ļde e da educa√ß√£o a encaminharem seus sonhos por escrito. Contemplam, nesse convite, um pedido acerca das associa√ß√Ķes do sonhador.¬†A aposta √© a de que esse gesto pode promover condi√ß√Ķes de construir uma trama discursiva numa¬†perspectiva que coloque em relevo um saber do sujeito do inconsciente. Uma aposta de que o compartilhamento dos sonhos pode contribuir para o pensamento e a reflex√£o sobre o mal-estar deste tempo surpreendente que vivemos ‚Äď tanto global, em fun√ß√£o da¬†Covid, quanto localmente, com o descaso e o desgoverno na pol√≠tica brasileira em meio √† pandemia.

Esse gesto √© justamente o ponto de partida da pesquisa ‚ÄúSonhos em tempos de pandemia‚ÄĚ, coordenada pelos professores doutores¬†Rose Gurski e Claudia Perrone (NUPPEC/UFRGS),¬†Miriam¬†Debieux Rosa¬†(PSOPOL/USP),¬†Christian Dunker (LATEFISP/USP) e¬†Gilson Iannini¬†(Instituto de Psicologia/UFMG). A pesquisa aponta para a possibilidade de que as narrativas on√≠ricas, quando compartilhadas e endere√ßadas a outro, podem furar o discurso totalit√°rio e religioso da atualidade, al√©m de decantar na produ√ß√£o de novos sentidos sobre os efeitos do mal-estar atual.

Iniciado em abril, o estudo teve como objetivo a cria√ß√£o de um campo poss√≠vel de endere√ßamento das ang√ļstias e do sofrimento vivido pelos trabalhadores da sa√ļde e da educa√ß√£o em tempos de pandemia, distinguindo o isolamento f√≠sico do social e tornando poss√≠vel compartilhar com outros as viv√™ncias subjetivas deste per√≠odo traum√°tico em que cada um precisa enfrentar novos desafios e se reinventar.

O convite do grupo de psicanalistas pesquisadores foi respondido com o ato dos sonhadores, que endere√ßaram seus sonhos. Sonhos de uma noite, de noites seguidas, relatos extensos, fragmentados. A escrita seguiu o sonhar. Profus√£o de imagens, cenas do cotidiano, desconex√Ķes e conex√Ķes, efeitos de deslocamentos e condensa√ß√Ķes, resultado do trabalho do sonho. No conjunto, a pesquisa reuniu cerca de mil relatos de pessoas de todo pa√≠s entre 10 de abril e 24 de julho de 2020.

O gesto de dar ouvidos ao sonhador, acolhendo a sua intimidade, configura-se como um ato que convoca a fala. Na contram√£o do descaso e da indiferen√ßa governamental fizemos a aposta de que, ao ofertar a escuta aos sonhos e √†s suas associa√ß√Ķes, as quest√Ķes do viver ganhariam espa√ßo e se revelariam nos sonhos como produ√ß√Ķes, fotografia, obra de arte. Coube a eles, os sonhadores, oferecerem seu saber inconsciente ‚Äď aquele que n√£o se sabe ‚Äď para uma pesquisa, para a ci√™ncia, a universidade, a sa√ļde e a educa√ß√£o, t√£o desprezadas pelo desinvestimento pol√≠tico maci√ßo.

Ao endere√ßar seu sonho √† leitura de outros, o sonhador repete a atitude esperan√ßosa de algu√©m que lan√ßa ao mar uma garrafa que cont√©m um breve escrito, uma mensagem. Esse pequeno escrito tamb√©m vai com uma aposta de que algu√©m o ler√°, de que haver√° escuta, de que haver√° devir em um per√≠odo t√£o sombrio. Instauram-se redes que mobilizam rela√ß√Ķes de confian√ßa, um dos nomes dados √† transfer√™ncia ‚Äď que, aqui, deve ser compreendida como uma categoria √©tica que faz do ser humano um sujeito no la√ßo social.

A pesquisa torna-se, ent√£o, uma convoca√ß√£o aos nossos contempor√Ęneos para contarem a hist√≥ria do seu tempo, compondo um ato de dupla inflex√£o, cl√≠nico e pol√≠tico. H√° uma dimens√£o de reconhecimento da palavra e do sujeito ao transformar a dor e o sofrimento vividos em perten√ßa coletiva ‚Äď dimens√£o que, em tempos de distanciamento, oferece um la√ßo que acolhe e recolhe a palavra como transmiss√£o, testemunho desse tempo.

Como pesquisadores e sujeitos da hist√≥ria, nosso compromisso √© sermos contempor√Ęneos. Para¬†Agamben, o contempor√Ęneo √© aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne, e que n√£o cessa de interpel√°-lo. √Č aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que prov√©m do seu tempo.

O conjunto dos sonhos dos nossos contempor√Ęneos n√£o comp√Ķe um texto unificado de diferentes vidas, mas cada escrito, cada vida e cada sonho pode compor um tecido discursivo, um mosaico, captando estremecimentos impercept√≠veis que, tomados em conjunto, sem que se fa√ßa deste conjunto totalizador, possibilita captar os dizeres da nossa √©poca.

Os sonhos de cada sonhador s√£o capazes de nos dar pistas para que possamos confluir em um devir coletivo. Assim como na obra¬†Guernica¬†de Picasso, que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola, podemos nos¬†deter em cada cena pintada ou passar os olhos em seu conjunto para sentir o estremecimento da dor e do terror retratados onde tamb√©m podemos identificar esperan√ßa e alternativas que comp√Ķe a utopia necess√°ria para a sa√≠da do imobilismo.

O método proposto de leitura do material consistiu em nos deixar interpelar pelos sonhos e pelo saber neles contidos quanto à política libidinal presente nos laços sociais vividos no atual momento. Com Freud, as cenas dos sonhos nos permitiram recolher, a partir da posição singular do sujeito, a sua articulação coletiva, o seu diagnóstico e a prospecção das crises em andamento. Nessa proposta, em vez de interpretar o sonhador e a realidade, invertemos: os sonhos endereçados se apresentam como intérpretes dos laços sociais, da cultura e da política de nosso tempo.

 

Na leitura dos sonhos
observamos, de um lado,
o desamparo e o sofrimento
e, de outro, a busca por
alternativas e formas
de resistência.

 

Outro aspecto relevante foi certa perda do limiar entre sonho e realidade ‚Äď um fen√īmeno presente em situa√ß√Ķes de interrup√ß√Ķes violentas de modos de vida, como guerras ou transforma√ß√Ķes sociais e pessoais repentinas, que acionam o processo de elabora√ß√£o caracterizado como traum√°tico. H√° ainda um terceiro tipo de sonho, pr√≥prio dos tempos de crise social, que interroga o absurdo e o obsceno de modo que o litoral entre fic√ß√£o ou realidade, sonho ou vig√≠lia, torna-se flu√≠do.

Nos sonhos relatados durante a pandemia encontramos determinados significantes descritivos da atual situa√ß√£o: perigo, medo, fuga, isolamento. Mas tamb√©m testemunhamos movimentos de elabora√ß√£o de um novo modo de vida que afeta as rela√ß√Ķes afetivas, libidinais e pol√≠ticas, assim como a recria√ß√£o e a retomada da pot√™ncia e da resist√™ncia ‚Äď chaves das an√°lises do momento social e pol√≠tico e do despertar subjetivo.

Neste ato, convocamos a produ√ß√£o de enla√ßamentos que criem trilhas para a travessia. Mais ainda, nosso horizonte foi o de incitar o sonhador a acessar o saber contido nos sonhos atrav√©s do relato e suas reverbera√ß√Ķes presentes nas associa√ß√Ķes, com vistas ao despertar subjetivo e pol√≠tico do transe hipn√≥tico e paralisador diante da crise atual, como um convite √† vida e √† pot√™ncia.

Edson de Sousa utiliza a express√£o ‚Äúatravessar desertos‚ÄĚ como met√°fora para enfrentar o totalitarismo reinante que nos inunda de paralisia e conformismo, anestesiando o que temos de mais precioso, nosso direito √† revolta, nossa pot√™ncia de desejar, nosso compromisso para com a nossa imagina√ß√£o. Edson prop√Ķe que nos aproximemos desse deserto e que coloquemos o p√© em seus contornos para¬†esbo√ßar uma travessia poss√≠vel.¬†O autor lembra o texto ‚ÄúO deserto do Saara‚ÄĚ, de Jorge Luis Borges, para dar um poss√≠vel tom estrat√©gico para esse percurso:

A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pir√Ęmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: estou modificando o Saara. O fato era m√≠nimo, mas essas palavras pouco engenhosas eram exatas e pensei que havia sido necess√°ria toda minha vida para que eu pudesse diz√™-las.

Como psicanalistas e pesquisadores, visamos pegar esse punhado de areia e constituir um levante ao nos debru√ßarmos sobre as quest√Ķes do nosso tempo com um m√≠nimo gesto, o compilar dos sonhos como nosso punhado de areia para nada menos do que modificar o Saara brasileiro. Os pr√≥prios sonhadores revelam um compromisso, pois tamb√©m pegaram um punhado de areia e se debru√ßaram sobre as quest√Ķes do nosso tempo. Os sonhadores da pandemia s√£o¬†sonha‚Äďdores, pois trazem o trauma, a revolta, a repeti√ß√£o,¬†a ruptura do tempo, os lutos infinitos, mas tamb√©m a luta de quem sabe que estamos em revolu√ß√£o.

No atual contexto histórico brasileiro, em que o anonimato e a mentira ocupam a cena política, sonhar é um ato revolucionário. Revolucionário porque subverte o campo do não querer saber, do não se responsabilizar pelo dito. Ao sonharem por todos nós, os sonhantes/sonha-dores oferecem uma profusão de imagens que revelam e afirmam que ainda há sonhos para nos despertar para a vida.  

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31
Out20

C√Ęnticos de Liberdade de Ana J√ļlia (v√≠deos): "Ocupar a pol√≠tica depende de voc√™"

Talis Andrade

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Tentam dizer que nós não vamos longe

mas se escondem de medo quando nos ouvem chegar

Esse é o bonde dos que constroem pontes

que n√£o temem o sistema e vieram ocupar

A esperança é a nossa opção

a mudança se faz com educação

Livros na m√£o, sonho na mente

Vem, vamos fazer diferente

Por nós, que temos algo a dizer

Quem sonha, quem luta e faz acontecer

Ocupar a política depende de você

Y La Culpa No Era M√≠a/El Violador Eres T√ļ
DJ Ariel Style

Y La Culpa No Era M√≠a /El Violador Eres T√ļ
El patriarcado es un juez
Que nos juzga por nacer
Y nuestro castigo
Es la violencia que no ves

El patriarcado es un juez
Que nos juzga por nacer
Y nuestro castigo
Es la violencia que ya ves

Es femicidio
Impunidad para mi asesino
Es la desaparición
Es la violación

Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía

El violador eras t√ļ
El violador eres t√ļ

Son los pacos
Los jueces
El estado
El Presidente

El estado opresor es un macho violador
El estado opresor es un macho violador

El violador eras t√ļ
El violador eres t√ļ

Duerme tranquila, ni√Īa inocente
Sin preocuparte del bandolero
Que por tus sue√Īos, dulce y sonriente
Vela tu amante carabinero

El violador eres t√ļ
El violador eres t√ļ
El violador eres t√ļ
El violador eres t√ļ

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E a culpa não era minha / o violador é você
O patriarcado é um juiz
Quem nos julga nascer
E nosso castigo
√Č a viol√™ncia que voc√™ n√£o v√™

O patriarcado é um juiz
Quem nos julga nascer
E nosso castigo
√Č a viol√™ncia que voc√™ v√™

√Č femic√≠dio
Impunidade para o meu assassino
√Č o desaparecimento
√Č o estupro

E n√£o foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E n√£o foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E n√£o foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E n√£o foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti

O estuprador era você
O estuprador é você

Eles s√£o os pacos
Juízes
O estado
O presidente

O estado opressivo é um estuprador
O estado opressivo é um estuprador

O estuprador era você
O estuprador é você

Durma, menina inocente
Sem se preocupar com o bandido
Que para os seus sonhos, doce e sorridente
Assista seu amante carabinero

O estuprador é você
O estuprador é você
O estuprador é você
O estuprador é você

(A m√ļsica feminista contra a viol√™ncia percorre o mundo. Leia reportagem aqui)

Bella Ciao: a história da canção da Resistência contra o fascismo

Uma manh√£, eu acordei
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
Uma manh√£, eu acordei
E encontrei um invasor
Oh, partigiano (membro da Resistência), leve-me embora
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
Oh, membro da Resistência, leve-me embora
Porque sinto que vou morrer
E se eu morrer como partigiano,
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E se eu morrer como partigiano,
Você deve me enterrar
E me enterre no alto das montanhas
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E me enterre no alto das montanhas
Sob a sombra de uma bela flor
E todas as pessoas que passarem
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E todas as pessoas que passarem
Te dir√£o: Que bela flor!
E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade
E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade

 

14
Set19

"Estoy preso, pero no me quejo, me siento m√°s libre que millones de brasile√Īos que no comen, no trabajan, no tienen vivienda"

Talis Andrade

Cien minutos en la c√°rcel con Lula

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Al expresidente de Brasil, Luiz In√°cio Lula da Silva, encarcelado en la ciudad de Curitiba, en el sur del pa√≠s, solo le permiten la visita de dos personas por semana. Una hora. Los jueves en la tarde, de cuatro a cinco. Hay que esperar turno. Y la lista de quienes desean verle es larga... Pero hoy 12 de septiembre, nos toca a Adolfo P√©rez Esquivel, premio Nobel de la Paz, y a m√≠. Lula est√° en prisi√≥n, cumpliendo una pena de 12 a√Īos y 1 mes ¬ępor corrupci√≥n pasiva y lavado de dinero¬Ľ, pero no ha sido condenado definitivamente (a√ļn puede apelar) y sobre todo, sus acusadores no han podido demostrar su culpabilidad.¬†
 
Todo ha sido una farsa. Como lo han confirmado las demoledoras revelaciones de¬†The Intercept, una revista de investigaci√≥n¬†on line¬†dirigida por Glenn Greenwald. Lula ha sido v√≠ctima de la arbitrariedad m√°s absoluta. Una trama jur√≠dica totalmente manipulada, destinada a arruinar su popularidad y a eliminarlo de la vida pol√≠tica. A asesinarlo medi√°ticamente impidiendo de ese modo que pudiese presentarse y ganar las elecciones presidenciales del 2018. Una suerte de ‚Äėgolpe de Estado preventivo‚Äô...¬†

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Adem√°s de ser juzgado de manera absolutamente arbitraria e indecente, Lula ha sido linchado permanentemente por los grandes grupos medi√°ticos dominantes - en particular¬†O Globo¬†-, al servicio de los intereses de los mayores empresarios, con un odio feroz y revanchista contra el mejor presidente de la historia de Brasil, que sac√≥ de la pobreza a cuarenta millones de brasile√Īos y cre√≥ el programa ‚Äėhambre cero‚Äô... No se lo perdonan...¬†
 
Cuando falleci√≥ su hermano mayor, Genival ‚ÄėVav√°‚Äô, el m√°s querido, no le dejaron asistir al entierro, a pesar de ser un derecho garantizado por la ley. Y cuando muri√≥ de meningitis su nietecito Arthur, de 7 a√Īos, el m√°s allegado, s√≥lo le permitieron ir una hora y media (!) al velatorio... Humillaciones, vejaciones, venganzas miserables...¬†
 
Antes de poner rumbo hacia la c√°rcel - situada a unos siete kilometros del centro de Curitiba -, nos reunimos con un grupo de personas cercanas al expresidente para que nos expliquen el contexto. Roberto Baggio, dirigente local del Movimiento de los Sin Tierra (MST), nos cuenta c√≥mo se organiz√≥ la movilizaci√≥n permanente que llaman la ¬ę Vigilia ¬Ľ. Cientos de personas del gran movimiento ¬ę Lula livre! ¬Ľ acampan en permanencia frente al edificio carceral, organizando reuniones, debates, conferencias, conciertos... Y tres veces al d√≠a - a las 9h, a las 14h30 y a las 19h -, lanzan a todo pulm√≥n un sonoro: ¬ę Bom d√≠a!¬Ľ, ¬ę Boa tarde!¬Ľ, ¬ę Boa noite, Sr Presidente! ¬Ľ... ¬ę Para que Lula nos oiga, darle √°nimo - nos dice Roberto Baggio -, y hacerle llegar la voz del pueblo... Al principio, pens√°bamos que eso durar√≠a cinco o seis d√≠as y que el Tribunal Supremo pondr√≠a en libertad a Lula... Pero ahora estamos organizados para una Protesta Popular Prolongada...¬Ľ¬†
 
Carlos Luiz Rocha es uno de los abogados de Lula. Va a verlo casi todos los d√≠as. Nos cuenta que el equipo jur√≠dico del expresidente cuestiona la imparcialidad del juez Sergio Moro, ahora recompensado por Bolsonaro con el Ministerio de Justicia, y la imparcialidad de los procuradores... ¬ęThe Intercept¬†lo ha demostrado¬Ľ, nos dice, y a√Īade: ¬ęDeltan Dallagnol, el procurador jefe, me lo ha confirmado √©l mismo... Me afirm√≥ que ‚Äėen el caso de Lula, la cuesti√≥n jur√≠dica es una pura filigrana... el problema es pol√≠tico¬Ľ. Rocha es relativamente optimista porque, seg√ļn √©l, a partir del pr√≥ximo 20 de septiembre, Lula ya habr√° cumplido la parte de la pena suficiente para poder salir en ‚Äėarresto domiciliario‚Äô... ¬ęHay otro elemento importante, nos dice, mientras la popularidad de Bolsonaro est√° cayendo fuertemente, las encuestas muestran que la de Lula vuelve a subir... Actualmente, ya m√°s del 53 por ciento de los ciudadanos piensan que Lula es inocente. La presi√≥n social va siendo cada vez m√°s intensa en favor nuestro...¬Ľ¬†
 
Se ha sumado a nosotros nuestra amiga M√īnica Valente, secretaria de relaciones internacionales del Partido de los Trabajadores (PT) y secretaria general del Foro de Sao Paulo. Juntos, con estos amigos, nos ponemos en ruta hacia el lugar de encarcelamiento de Lula. La cita con el expresidente es a las 4 de la tarde. Pero antes vamos a saludar a los grupos de la Vigilia, y hay que prever las formalidades de ingreso en el edificio carcelario. No es una prisi√≥n ordinaria, sino la sede administrativa de la Polic√≠a Federal en cuyo seno se ha improvisado un local que sirve de celda.¬†
 
S√≥lo entraremos a ver a Lula, Adolfo P√©rez Esquivel y yo, acompa√Īados por el abogado Carlos L. Rocha y M√īnica Valente. Aunque el personal carcelero es cordial, no deja de ser muy estricto. Los tel√©fonos nos son retirados. El cacheo es electr√≥nico y minucioso. Solo es permitido llevarle al reo libros y cartas, y a√ļn... porque Adolfo le trae 15.000 cartas de admiradores en un¬†pendrive¬†y se lo confiscan para verificarlo muy atentamente... luego se lo devolver√°n. Lula est√° en la cuarta planta. No lo vamos a ver en una sala especial para visitas sino en su propia celda donde est√° encerrado. Subimos por un ascensor hasta el tercer piso y alcanzamos el √ļltimo a pie. Al final de un pasillito, a la izquierda, est√° la puerta. Hay un guardia armado sentado delante que nos abre. En nada esto se asemeja a una prisi√≥n - excepto los guardianes -, parece m√°s bien un local administrativo y an√≥nimo de oficinas. Nos ha acompa√Īado hasta aqu√≠ el carcelero jefe, Jorge Chastalo (est√° escrito en su camiseta), alto, fuerte, rubio, de ojos verde-azules, con los antebrazos tatuados. Un hombre amable y constructivo quien tiene, constato, unas relaciones cordiales con su prisionero.¬†
 
La habitaci√≥n- celda es rectangular, entramos por uno de los lados peque√Īos y se nos presenta en toda su profundidad. C√≥mo nos han confiscado los tel√©fonos, no puedo sacar fotos y tomo nota mental de todo lo que observo. Tiene unos seis o siete metros de largo por unos tres y medio de ancho, o sea unos 22 metros cuadrados de superficie. Justo a la derecha, al entrar, est√° el ba√Īo, con ducha y v√°ter; es un cuarto aparte. Al fondo, enfrente, hay dos grandes ventanas cuadradas con rejas horizontales de metal pintadas de blanco. Unos toldos de color gris-plata exteriores dejan entrar la luz natural del d√≠a pero impiden ver el exterior. En el √°ngulo izquierdo del fondo est√° la cama individual recubierta con un cubrecama color negro y en el suelo una alfombrita. Encima de la cama, clavadas en la pared, hay cinco grandes fotograf√≠as en colores del peque√Īo Arthur, recien fallecido, y de los otros nietos de Lula con sus padres. Al lado, a la derecha, y debajo de una de las ventanas, hay una mesita de noche de madera clara, de estilo a√Īos 1950, con dos cajones superpuestos, de color rojo el de arriba. A los pies de la cama, un mueble tambi√©n de madera sirve de soporte a un peque√Īo televisor negro de pantalla plana de 32 pulgadas. Al lado, tambi√©n contra la pared izquierda, hay una mesita bajita con una cafetera y lo necesario para hacer caf√©. Pegado a ella, otro mueble cuadrado y m√°s alto, sirve de soporte a una fuente de agua, una bombona color verde esmeralda como las que se ven en las oficinas. La marca del agua es ‚ÄėPrata da Serra‚Äô.

El otro √°ngulo del fondo, a la derecha, es el rinc√≥n gimnasio, con un banco recubierto de falso cuero negro para ejercicios, gomas el√°sticas para musculaci√≥n y una gran caminadora. Al lado, entre la cama y la caminadora, un peque√Īo calentador el√©ctrico sobre ruedas, color negro. En lo alto de la pared del fondo, sobre las ventanas, hay un aire acondicionado de color blanco. En medio de la habitaci√≥n, una mesa cuadrada de 1,20 mts de lado, cubierta con un hule azul celeste y blanco, y cuatro sillas confortables, con reposabrazos, de color negro. Una quinta silla o sill√≥n est√° disponible contra la pared derecha. Finalmente, pegado al tabique que separa la habitaci√≥n del cuarto de ba√Īo un gran armario de tres cuerpos, color roble claro y blanco, con una peque√Īa estanter√≠a en el lado derecho que sirve de biblioteca. Todo modesto y austero, hasta espartano, para un hombre que fue durante ocho a√Īos el pr√©sidente de una de las diez principales potencias del mundo... Pero todo muy ordenado, muy limpio, muy organizado... Con su cari√Īo de siempre, con calurosos abrazos y palabras de amistad y afecto, Lula nos acoge con su voz caracter√≠stica, ronca y potente. Viste una camiseta adidas del Corinthians su equipo paulista de f√ļtbol favorito, un pantalon de sudadera gris clarito de marca nike, y unas chanclas blancas de tipo havaianas. Se le ve muy bien de salud, robusto, fuerte: ¬ęCamino nueve kil√≥metros diarios¬Ľ nos dice. Y en excelente estado psicol√≥gico: ¬ęEsperaremos tiempos mejores para estar pesimista - afirma - nunca he sido depresivo, jam√°s desde que nac√≠; y no lo voy a ser ahora¬Ľ.

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Nos sentamos en torno a la mesita, √©l frente a la puerta, d√°ndole la espalda a las ventanas, Adolfo a su derecha, M√īnica enfrente, el abogado Rocha un poco aparte entre Adolfo y M√īnica, y yo a su izquierda. Sobre la mesa hay cuatro mugs llenos de l√°pices de colores y bol√≠grafos. Le entrego los dos libros que le he tra√≠do, las ediciones brasile√Īas de ¬ęCien horas con Fidel¬Ľ y ¬ęHugo Ch√°vez, mi primera vida¬Ľ. Bromea sobre su propia biograf√≠a que est√° escribiendo, desde hace a√Īos, nuestro amigo Fernando Morais: ¬ęNo s√© cu√°ndo la va a terminar... Todo empez√≥ cuando sal√≠ de la Presidencia, en enero de 2011. Unos d√≠as despu√©s fui a un encuentro con los cartoneros de Sao Paulo... Era debajo de un puente y all√≠ una ni√Īa me pregunt√≥ si yo sab√≠a lo que hab√≠a hecho en favor de los cartoneros... Me sorprendi√≥ y le dije que, bueno, nuestros programas sociales, en educaci√≥n, en salud, en vivienda, etc. Y ella me dijo: ¬ęNo, lo que usted nos dio fue dignidad...¬Ľ Una ni√Īa...! Me qued√© impresionado... y lo coment√© con Fernando... Le dije: ¬ęMira, ser√≠a bueno hacer un libro con lo que la gente piensa de lo que hicimos nosotros en el gobierno, lo que piensan los funcionarios, los comerciantes, los empresarios, los trabajadores, los campesinos, los maestros.... Ir pregunt√°ndoles, recoger las respuestas.... Hacer un libro no con lo que yo puedo contar de mi presidencia, sino con lo que la propia gente dice... Ese era el proyecto.... (se r√≠e) pero Fernando se ha lanzado en una obra titanesca porque quiere ser exhaustivo... S√≥lo ha escrito sobre el per√≠odo 1980-2002, o sea antes de llegar yo a la presidencia... y ya es un tomo colosal... porque en ese periodo de 22 a√Īos ocurrieron tantas cosas... fundamos la CUT (Central √önica de Trabajadores), el PT, el MST, lanzamos las campa√Īas ¬ęDireitas ¬°ja!¬Ľ, y en favor de la Constituyente.... transformamos el pa√≠s... El PT se convirti√≥ en el primer partido de Brasil... Y debo aclarar que a√ļn hoy, en este pa√≠s, s√≥lo existe un partido verdaderamente organizado, el nuestro, el PT¬Ľ. Le preguntamos sobre su estado de √°nimo. ¬ęHoy se cumplen, nos dice, 522 d√≠as desde mi entrada en esta c√°rcel, el s√°bado 7 de abril de 2017... Y exactamente ayer se cumpli√≥ un a√Īo de cuando tuve que tomar la decisi√≥n m√°s dif√≠cil, escribir la carta en la que renunciaba a ser candidato a las elecciones presidenciales de 2018... Estaba en esta celda, solito... dudando... porque me daba cuenta de que estaba cediendo a lo que deseaban mis adversarios.... impedirme ser candidato... Fue un momento duro... de los m√°s duros... y yo completamente solo aqu√≠... Yo pensaba: Es como estar pariendo con mucho dolor y sin nadie que te tenga la mano...¬Ľ Abre el libro¬†Cien horas con Fidel¬†y me dice: ¬ęConoc√≠ a Fidel en 1985, exactamente a mediados de julio de 1985... Estaba en La Habana por primera vez participando en la Conferencia Sindical de los Trabajadores de Am√©rica Latina y del Caribe sobre la Deuda Externa... Yo ya hab√≠a salido de la CUT, ya no era sindicalista, estaba a tiempo completo de Secretario General del PT y era candidato en las elecciones legislativas del a√Īo siguiente... Pero no s√≥lo hab√≠a sindicalistas en esa Conferencia, Fidel hab√≠a invitado tambi√©n a intelectuales, profesores, economistas, y dirigentes pol√≠ticos... Recuerdo que eran ya como las cinco de la tarde, en el Palacio de Congresos, Fidel presid√≠a y aquello estaba muy aburrido... Entonces Fidel, que yo no conoc√≠a personalmente, me mand√≥ un mensaje preguntando si yo iba a hablar... Le contest√© que no, que no estaba previsto... √Čl entonces casi me dio una orden: ¬ęUsted tiene que hablar, y ser√° el √ļltimo, cerramos con usted...¬Ľ Pero la CUT no quer√≠a de ninguna manera que yo tomase la palabra... As√≠ que yo no sab√≠a qu√© hacer... A eso de las siete de la tarde, desde la presidencia de la mesa, sorpresivamente, Fidel anuncia que yo tengo la palabra... Casi me vi obligado a tomarla, me levant√©, fui a la tribuna... y empec√© a hablar... sin traducci√≥n... hice un largo discurso y termin√© diciendo: ¬ęCompa√Īero Fidel, quiero decirles a los amigos y amigas aqu√≠ reunidos que los Estados Unidos tratan por todos los medios de convencernos de que son invencibles... Pero Cuba ya los venci√≥, Vietnam ya los venci√≥, Nicaragua ya los venci√≥ y El Salvador tambi√©n los va a vencer... ¬°No debemos tenerles miedo!¬Ľ Hubo fuertes aplausos. Bueno, termina la jornada y yo me voy a mi casa que me hab√≠an asignado en el Laguito... Y cuando llego... ¬ŅQui√©n me estaba esperando en el saloncito de la casa? ¬°Fidel y Ra√ļl ! Los dos ah√≠ sentados aguard√°ndome... Fidel empez√≥ a preguntarme d√≥nde yo hab√≠a aprendido a hablar as√≠... Les cont√© mi vida... Y as√≠ fue como nos hicimos amigos para siempre...¬Ľ. ¬ęDebo decir, a√Īade Lula, que Fidel, siempre fue muy respetuoso, nunca me dio un consejo que no fuera realista... Nunca me pidi√≥ que hiciera locuras... prudente... moderado... un sabio... un genio...¬Ľ¬†
 
Lula le pregunta entonces a P√©rez Esquivel, quien preside el Comit√© internacional en favor del otorgamiento del Premio Nobel de la Paz al expresidente brasile√Īo, c√≥mo avanza el proyecto. Adolfo da detalles del gran movimiento mundial de apoyo a esa candidatura y dice que el Premio se anuncia, en general, a principios de octubre, o sea en menos de un mes...Y que seg√ļn sus fuentes este a√Īo ser√° para una persona latinoamericana. Se le ve optimista. Lula insiste en que es decisivo el apoyo de la Alta Comisar√≠a para los derechos humanos de la ONU que preside Michelle Bachelet. Dice que esa es la ¬ębatalla m√°s importante¬Ľ. Aunque no lo ve f√°cil.¬†
 
Nos cuenta una an√©cdota: ¬ęHace unos a√Īos, cuando sal√≠ de la Presidencia, ya me hab√≠an propuesto para el Premio Nobel de la Paz. Un d√≠a me encontr√© con la reina consorte de Suecia, Silvia, esposa del rey Carlos XVI Gustavo. Ella es hija de una brasile√Īa, Alice Soares de Toledo, as√≠ que hablamos en confianza. Y ella me dijo: ¬ęMientras sigas siendo amigo de Ch√°vez, no creo que puedas avanzar mucho... Al√©jate de Ch√°vez y tienes el Premio Nobel de la Paz...¬Ľ As√≠ son las cosas...¬Ľ Le pregunto c√≥mo juzga estos primeros ocho meses de gobierno de Jair Bolsonaro. ¬ęBolsonaro est√° entregando el pa√≠s, me contesta. Y estoy convencido de que todo lo que est√° ocurriendo est√° piloteado por Petrobras... A causa del superyacimiento de petr√≥leo¬†off shore¬†Pre-Sal, el mayor del mundo, con reservas fabulosas, de muy alta calidad... descubierto en 2006 en nuestras aguas territoriales... aunque est√° a gran profundidad, m√°s de 6.000 metros, su riqueza es de tal dimensi√≥n que justifica todo... Hasta puedo afirmar que la reactivaci√≥n de la IV Flota por parte de Washington, que patrulla a lo largo de las costas atl√°nticas de Am√©rica del Sur, se decidi√≥ cuando se descubri√≥ el yacimiento Pre-Sal... Por eso, nosotros, con Argentina, Venezuela, Uruguay, Ecuador, Bolivia, etc... creamos el Consejo de Seguridad de Unasur... Es un elemento determinante.

Brasil, prosigue Lula, siempre fue un pa√≠s dominado por √©lites voluntariamente sometidas a los Estados Unidos... S√≥lo cuando nosotros llegamos al poder, en 2003, Brasil empez√≥ a ser protagonista... Entramos al G-20, fundamos los BRICS (con Rusia, India, China y Sur√°frica), organizamos - por primera vez en un pa√≠s emergente - los Juegos Ol√≠mpicos, la Copa Mundial de f√ļtbol... Nunca hubo tanta integraci√≥n regional en Am√©rica Latina.... Por ejemplo, nuestros intercambios en el seno de Mercosur eran de 15.000 millones de d√≥lares, cuando acab√© mis dos mandatos se elevaban a 50.000 millones... Hasta con Argentina, cuando llegu√© eran de 7.000 millones, cuando termin√© de 35.000 millones... Los Estados Unidos no quieren que seamos protagonistas, que tengamos soberan√≠a econ√≥mica, financiera, pol√≠tica, industrial, y menos a√ļn militar... No quieren, por ejemplo, que Brasil firme acuerdos con Francia sobre los submarinos nucleares... Nosotros hab√≠amos avanzado en eso, con el presidente Fran√ßois Hollande, pero con Bolsonaro se derrumb√≥... Hasta esa miserable declaraci√≥n, tan espantosamente antifeminista, contra Monique, la esposa del Presidente de Francia Emmanuel Macron, hay que situarla en ese contexto... El tiempo impartido se termina, hablamos de muchos de sus amigos y amigas que ejercen a√ļn responsabilidades politicas de muy alto nivel en diversos pa√≠ses o en organizaciones internacionales. Nos ruega que les transmitamos a todas y a todos su recuerdo m√°s afectuoso, y agradece su solidaridad. Insiste en lo siguiente: ¬ęDigan que estoy bien, como lo pueden constatar. Estoy consciente de por qu√© estoy preso. Lo s√© muy bien. No ignoro la cantidad de juicios que hay contra mi. No creo que ellos me liberen. Si el Tribunal Supremo me declara inocente, ya hay otros juicios en marcha contra mi para que nunca salga de aqu√≠. No me quieren libre para no correr ning√ļn riesgo... Eso no me da miedo... Yo estoy preparado para tener paciencia... Y dentro de lo que cabe, tengo suerte... hace cien a√Īos ya me habr√≠an ahorcado, fusilado o descuartizado... para hacer olvidar cualquier momento de rebeld√≠a... Yo tengo conciencia de mi rol...No voy a abdicar... Conozco mi responsabilidad ante el pueblo brasile√Īo... Estoy preso, pero no me quejo, me siento m√°s libre que millones de brasile√Īos que no comen, no trabajan, no tienen vivienda... parece que est√°n libres pero est√°n presos de su condici√≥n social, de la que no pueden salir...

"Prefiero estar aquí siendo inocente, que fuera siendo culpable... A todos los que creen en mi inocencia, les digo: No me defiendan sólo con fe ciega... Léanse las revelaciones de The Intercept. Ahí está todo argumentado, probado, demostrado. Defiéndanme con argumentos... Elaboren una narrativa, un relato... Quien no elabora una narrativa, en el mundo de hoy, pierde la guerra. Estoy convencido de que los jueces y los procuradores que montaron la manipulación para encarcelarme no duermen con la tranquilidad que tengo yo. Son ellos los no tienen la conciencia tranquila. Yo soy inocente. Pero no me quedo de brazos cruzados. Lo que vale es la lucha". 

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