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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

02
Out18

CHOMSKY: ‘EU RECÉM VISITEI LULA, O MAIS PROEMINENTE PRESO POLÍTICO DA ATUALIDADE’

Talis Andrade

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Linguista americano e ativista político, Noam Chomsky (à esquerda) fala com militantes do PT depois de visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na prisão no dia 20 setembro. Foto: Heuler Andrey/AFP/Getty Images

 

 

por Noam Chomsky

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PRISÕES LEMBRAM A famosa observação de Tolstói sobre famílias infelizes: cada uma “é infeliz à sua maneira” ainda que haja algumas características comuns – para prisões, o reconhecimento sombrio e sufocante de que outra pessoa tem poder sobre a sua própria vida.

 

Minha esposa, Valeria, e eu recentemente estivemos em uma prisão para visitar aquele que é, provavelmente, o prisioneiro político mais proeminente da atualidade, uma pessoa de notável significância na política global contemporânea.

 

Considerando os padrões das prisões americanas que já vi, a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, no Brasil, não é formidável ou opressiva – ainda que isso seja uma baixa expectativa. Não é nada como algumas das que visitei em outros países – nem remotamente parecida com Khiyam, a câmara de tortura de Israel no sul do Líbano, mais tarde bombardeada e destruída para ocultar o crime, e muito distante ainda dos indescritíveis horrores da Villa Grimaldi de Pinochet, onde os poucos que sobreviveram às requintadas sessões de torturas eram jogados em uma torre para apodrecerem – uma das maneiras encontradas para assegurar que o primeiro experimento neoliberal, sob a supervisão dos principais economistas de Chicago, poderia ir adiante sem vozes disruptivas.

 

 

Apesar disso, é uma prisão.

 

O prisioneiro que visitamos, Luiz Inácio Lula da Silva – “Lula”, como ele é universalmente conhecido – foi sentenciado ao aprisionamento, em uma solitária, com nenhum acesso à imprensa ou aos jornais e com visitas limitadas uma vez por semana.

 

No dia após nossa visita, um juiz, citando a liberdade de imprensa, concedeu ao maior jornal do país, a Folha de São Paulo, o direito de entrevistar Lula, mas outro juiz rapidamente interviu e revogou aquela decisão, apesar do fato de que os criminosos mais violentos do país – líderes de milícias e traficantes de drogas – são rotineiramente entrevistados na prisão.

 

Para a estrutura de poder do Brasil, aprisionar Lula não é suficiente: eles querem garantir que a população, enquanto se prepara para votar, não possa ouvi-lo de nenhuma forma, e estão, aparentemente, dispostos a fazer uso de qualquer medida para alcançar este objetivo.

 

O juiz que revogou a permissão não estava fazendo nada de novo. Um predecessor dele foi o promotor de acusação na condenação de Antonio Gramsci em 1926 pelo governo fascista de Mussolini, que declarou que “nós temos que impedir o cérebro dele de trabalhar por 20 anos.”

 

“A história não se repete, mas frequentemente rima”, disse Mark Twain.

 

Nós ficamos motivados, mas não surpresos, ao descobrir que apesar das onerosas condições e o chocante erro judiciário, Lula permanece em seu estado enérgico, otimista sobre o futuro e cheio de ideias sobre como retirar o Brasil de seu atual caminho desastroso.

 

Sempre há pretextos para a prisão – talvez válidos, talvez não – mas geralmente faz sentido buscar quais são as razões reais. Isso se aplica nesta situação. A primeira acusação contra Lula, baseada em delações premiadas de empresários sentenciados por corrupção, é a de que a ele foi oferecido um apartamento no qual ele nunca morou. Nada de extraordinário.

 

O crime alegado é quase imperceptível para os padrões brasileiros – e há mais a dizer sobre esse conceito, mas retornarei a ele posteriormente. Fora isso, a sentença é tão totalmente desproporcional ao crime alegado que é importante buscar as razões. Não é difícil desenterrar coisas sobre candidatos. Lula é, de longe, o candidato mais popular e facilmente ganharia uma eleição justa, não sendo este o resultado preferido da plutocracia. Embora suas políticas enquanto estava no cargo fossem pensadas para ajustar as questões financeiras domésticas e internacionais, ele é desprezado pelas elites, em parte, sem dúvida, por conta de suas políticas de inclusão social e benefícios aos menos afortunados, porém outros fatores parecem intervir: primeiramente, o simples ódio de classe. Como pode um trabalhador pobre sem educação superior que nem sequer fala português corretamente ser o líder de nosso país? [Transcrevi trechos]

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As mulheres acenam com lenços brancos ao exigir a renúncia do presidente Salvador Allende em Santiago, Chile, em 5 de setembro de 1973. Foto: AP

 

 

 

30
Set18

A maior manifestação popular desde as Diretas Já

Talis Andrade


por Hildegard Angel

Jornal do Brasil

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Foi impressionante. Eu mal conseguia acreditar. Afinal, desde 1968 vou a manifestações na Cinelândia. A primeira foi a do estudante Edson Luís, morto no Calabouço. A última foi a de Marielle. Mas jamais vi nada parecido com a do #EleNão, acontecida ontem. Só comparável à das Diretas Já. Era literalmente uma massa humana comprimida, as pessoas sem espaço para mover, em toda a área da Cinelândia, ocupando a Rua Evaristo da Veiga e as outras transversais e descendo pela Avenida Rio Branco abaixo. Uma concentração alegre, festiva, entusiasmada, somando personalidades da política, de todos os partidos de esquerda e centro esquerda, professores, economistas, artistas, jornalistas e militantes de todas as áreas. Ao som de blocos de carnaval de gente jovem e comprometida, trios elétricos, torcidas de times, movimentos vários com seus estandartes e as bandeiras, e gente de todas as idades. Senhoras idosas, cabecinhas brancas, ocupando as mesas da calçada do Amarelinho, como se estivessem assistindo de camarote, e todo mundo respeitava. Pais, mães e crianças, levadas nos ombros ou correndo entre as mesas dos bares repletos de gente. Os adesivos apareciam de repente e todos corriam para colá-los no peito. Os bordões se sucediam. Pequenas canções que as pessoas rapidamente aprendiam. E o grito de #LulaLivre de tempos em tempos. E os gritos de guerra “Fascistas, racistas, nazistas, não passarão!”. E dá-lhe #EleNão! Foi uma experiência importante e única, que ainda será muito lembrada.

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 Panorâmica da manifestação #EleNão, que ocupou a Avenida Rio Branco, Cinelândia, e foi até o Aterro do Flamengo.

Foto Cristina Granato

 

E não se deu apenas na Cinelândia. Imagens chegavam da Washington Square, em Nova York, dos boulevards parisienses, de Dublin, de Berlim, de Estocolmo, de cidades norueguesas, dinamarquesas, da Itália, da Bélgica, do mundo inteiro. E as manifestações pelo Brasil. Se proibiram na capital, João Pessoa, o interior da Paraíba fez bonito. E esse passeio foi pelo Brasil inteiro. O interior de São Paulo impressionou com a quantidade de cidades que aderiu. No Rio de Janeiro a manifestação prosseguiu na Praça XV, com grande show. Quem comandou o palco foi Paula Lavigne, que levou até Gal Costa, numa programação maravilhosa. Corria o buxixo que Chico Buarque havia concordado em ir cantar para as mulheres. Eles iriam pirar! Mas a produção do palco alegou que eram só mulheres. Se eu fosse a produção lembraria que Chico Buarque foi o primeiro compositor que cantou a mulher do ponto de vista da mulher, falando das questões femininas, dando voz às cantoras brasileiras. Mas ninguém perguntou. Na próxima, tomara que o Chico de novo se anime.

 

 

 

 

24
Set18

Quem despreza o povo não entende que não há país sem alma

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Extensa e tocante reportagem de João Valadares, hoje, na Folha, mostra como, no sertão nordestino, Lula é uma quase unanimidade e o voto em seu indicado, Fernando Haddad, uma consequência disso. Um texto que vai, por onde quer que seja lido, despertar duas reações.

 

Uma, a de quem entende o sentimento popular como uma força mobilizadora que brota da realidade de gente esquecida durante 500 anos de história. Gente que viu, com Lula, apenas uma fresta do que pode ser viver “vida de gente”.

 

Outra, a dos que, de barriga cheia, acham que isso é “populismo”, “fanatismo”, coisa de gente miserável, que não é capaz de raciocinar e votam num poste do qual nem sabem pronunciar corretamente o nome, embora entenda-lhe perfeitamente o sentido.

 

Talvez a intenção da matéria seja exatamente esta, mas a força que brota daquele povo humilde derruba os que só querem ler aquela sabedoria como ignorância.

 

Ignorância, de verdade, era aquilo no que apostavam, porque se aferravam à esperança que o povo não soubesse achar o nome de Lula nas eleições.

 

Ignorantes foram eles, os tolos, os pretensiosos, os que jamais entenderão que isso poderia ter um nome bonito, bem intelectual: o povão se aferra ao que nunca tiveram: sensação de pertencimento ao mundo e a este país.

 

É típico do elitismo, de gente que, em outras épocas, manifestou o mesmo desprezo pelo operário que não votava, nem abaixo de pau, contra o “Doutor Getúlio”. Gente como meu avô, que saiu de uma “cabeça de porco” para uma casinha modesta e limpa do IAPI.

 

Eles, sim, são limitados, porque não entendem que esta é a matéria prima de construção de um país: ter um povo que se sente gente.

 

No coração lulista, Haddad é só um
número de nome Adraike, Radarde ou Alade


por João Valadares, na Folha

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“Não sei o nome não, mas estou grudado em quem Lula mandar. Ele é o filho de Lula, né? Escutei dizer que era”, pergunta o aposentado José Paulino Filho, 75, após ser informado pelo repórter que Fernando Haddad (PT) é o substituto do líder petista na disputa à Presidência.

 

Em Solidão, Quixaba e Calumbi, três cidades do sertão pernambucano onde, em 2006, Lula teve índice de votação em torno de 90%, Haddad é um número.

 

Mesmo oficializado desde o dia 11 de setembro, muita gente não sabe o nome, quem ele é, quais cargos exerceu e nem de onde veio. Alguns viram “passar no repórter”, mas não lembram muito bem.

 

No coração do lulismo, que se espalha por outras cidades do sertão nordestino, o grau de desconhecimento em relação a Fernando Haddad é exatamente do mesmo tamanho da disposição para votar nele.

 

Entre os mais pobres, faixa que representa a base do eleitorado lulista, onde o petista mais cresceu segundo as últimas pesquisas, uma minoria sabe o primeiro nome. O sobrenome difícil, “que a língua não consegue dizer”, ganha variações: Adraike, Adauto, Andrade, Alade e Radarde.

 

A embalagem publicitária do “Haddad é Lula e Lula é Haddad” é a mais visível tradução do sertão. A resposta mais frequente e veloz, quando questionados em quem vão votar, é uma só: Lula.

 

A efetiva transferência de votos, sobretudo no Nordeste, é resumida pelo agricultor Severino Marques da Costa, 52. “Não precisa conhecer esse aí do nome em inglês. Quando a gente apertar o número de Lula na urna, aparece na foto. Aí eu falo: ‘prazer, Adraike’.”

 

Severino tem cinco filhos. Fala sem parar. Ele faz uma conta simples. “Como era a minha vida quando Lula era presidente? Ah! É o que basta para eu votar nesse aí”, explica.

 

Mora em Calumbi, uma cidadezinha com pouco mais de 6.000 habitantes. Na última eleição que disputou, Lula teve 91,46% dos votos de lá.

 

Em poucos minutos de conversa, na frente da casa de Severino, forma-se uma roda para falar sobre a eleição. “Eles querem saber em quem a gente vai votar, comadre. Chegue mais e fale aqui com os moços”, diz empolgado, como quem já espera a resposta.

 

“Ave Maria. Vou votar em Lula”, responde ligeiro Maria Francisca Pereira, 61. Ao ser lembrada de que o ex-presidente não é candidato, emenda. “Não importa. Vou votar no número dele. Estamos vivos. Como alguém daqui pode não votar em quem Lula mandar?”, questiona.

 

É gente que vive com muito pouco, quase nada, e precisa tirar parte do valor do bolsa família para comprar água.

 

“É como todo mundo diz aqui. A gente vota nesse pé de planta, numa cachorra e até num jumento. Não é Lula que está mandando? Pronto. Se deixarem, eu vou ficar no lugar dele lá na prisão”, completa Wilson Arailton da Silva, 31.

 

O Nordeste, conforme pesquisa Datafolha divulgada na quinta (20), é a única região em que mais da metade dos eleitores (53%) diz que o apoio de Lula seria determinante na escolha do candidato.

 

Entres os estados pesquisados, Pernambuco é o único em que Haddad aparece na frente de Jair Bolsonaro (PSL).

 

“Vou votar nesse aí. Tô com o papelzinho dele, mas não sei quem é não. É muito bonito, mas Lula é mais lindo”, brinca Abelardo da Silva Viana, 32.

 

O agricultor Patrocínio Alves Diniz, 68, que vive do que planta em Calumbi, respira fundo e diz: “Lula cometeu um erro muito grande: colocar Dilma. Mas vou votar no candidato dele mesmo assim”.

 

As faixas etárias e de renda mais influenciadas pelo apoio de Lula, conforme o Datafolha, também são as que menos sabem que Haddad é o seu nome na disputa.

 

Entre os indecisos, 60% dizem que podem votar —sendo que 45% votariam com certeza— em um nome indicado por Lula. No mesmo grupo, no entanto, 68% ainda não sabem quem o petista apoia em 2018.

 

Em Quixaba, onde Lula teve 91,94% dos votos em 2006, a resposta em relação a Haddad é quase sempre a mesma.

 

A aposentada Antônia Patrício de Lima, 63 anos e 11 filhos, não sabe dizer quem é o candidato do PT, mas não tem a mínima dúvida dos botões que vai apertar em 7 de outubro. Aponta para a cisterna do lado de fora de casa para indicar a resposta sobre seu voto.

 

“Tô lembrada não. Como é mesmo o nome? Acho que vi uma vez passar no repórter. Mas, olhe, Deus é um só. Primeiramente Deus e depois Lula. Não, não. Troque aí. Os dois empatados. Lula e Deus”, finaliza a conversa.

 

“É que minha língua não consegue dizer. É Fernando Radarde, sei lá como diz o nome dele, é do partido de Lula. Só vou saber de alguma coisa dele depois que ele ganhar. Aí a gente vai ter conhecimento”, diz Expedito Porfírio de Lima, 44, vaqueiro em Quixaba.

 

Numa mesa de um restaurante em Solidão, onde o líder petista teve 88,5% dos votos na última vez que disputou a eleição, o agricultor José de Jesus Barbosa, 25, começa dizendo que vai votar em Lula.

 

“Lula não é nem candidato. Vocês falando de política aí com os meninos e não sabem de nada. Sabem nem quem é candidato”, reclama o dono do estabelecimento.

 

“Interessa não. Como é mesmo o nome dele? Desse candidato aí?”, pergunta ao vaqueiro Ednaldo Ribeiro da Silva, 39, que divide um copo de cachaça com José de Jesus na mesma mesa após uma manhã de trabalho pesado na roça. “É Adauto. Fernando Adauto”, responde. “Pronto. É isso. É Lula”, repete algumas vezes.

 

Perto de lá, num sítio da Zona Rural de Quixaba, mãe e filha discutem sobre o voto para presidente. “Eu não posso negar o que Lula fez por aqui não. Mas erraram muito. Vou votar nesse Haddad aí não. Estou indecisa, pensei em votar em Bolsonaro”, diz Rosângela Maria Ferreira, 29, enquanto lava alface na cozinha.

 

Sentada numa mesa, a mãe, Maria do Socorro, 54, já interrompe. “Não fale uma coisa dessas. É Lula um milhão de vezes. Não conheço o moço que vai ser o candidato, mas ele vai soltar Lula. Não sei de nada, mas estamos com ele. Minha filha, você sabe que o pobre nunca teve o que comer aqui”, falou. A neta de oito anos retruca: “Lula nada. É Bolsonaro”. A avó reclama: “Pare com isso, menina”.

 

 

23
Set18

As cabeças da justiça e Bispo o fanático religioso e Bolsonaro o fanático político candidato dos togados

Talis Andrade

 

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A deusa da justiça no Brasil tem muitas cabeças, e cada uma pensa de maneira diferente, sendo que alguns juízes são previsíveis porque possuídos por uma idéia fixa. 

 

Numera Ricardo Stuckert: "Com nome, foto e número na urna eletrônica, cerca de 1,4 mil políticos que tiveram seus registros barrados pela Justiça Eleitoral e recorreram da decisão poderão participar das eleições 2018. Para esses candidatos, a campanha continua até que recursos apresentados contra o indeferimento sejam julgados definitivamente.

 

Para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, o entendimento foi diferente: sua candidatura foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de forma definitiva." Leia mais  

 

A justiça no Brasil é tão safada que, "nos últimos anos, o maior negócio do meio jurídico foi a indústria da delação premiada na Lava Jato". Veja o caso do Delcídio do Amaral, depois de dedurar Lula sem provas num acordo de colaboração premiada que lhe possibilitou deixar a prisão, decidiu concorrer na eleição de 2018, buscando uma cadeira no Senado, pelo Mato Grosso do Sul.

 

Delcídio do Amaral vendido pela Imprensa como o maior corrupto de todos os tempos, ganhou de Moro a liberdade, a legalização de todos os bens adquiridos, e a liberação de toda grana bloqueada. Que a Lava Jato lava mais branco o dinheiro dos corruptos de estimação. 

 

Denunciou Tacla Durán que uma delação premiada custa, no mínimo, 5 milhões. De dólares. A turma de Moro já concedeu 1 mil e 76 delações mais do que premiadas. Cinco milhões de dólares vezes 1 076 delações rendem uma grana que precisa ser contada, e que supera o assalto ao Banco do Estado do Paraná - BanEstado, um encantado tesouro que fundou a República de Curitiba. 

 

Da justiça federal, que se acha mais divina que as 27 diferentes justiças estaduais, a mordaça para Lula, e os micofrones das emissoras de rádios, e as câmaras das redes de televisão, e todo o papel dos jornalões para o pedreiro Bispo, que sem dinheiro para comprar uma arma de fogo, atacou Bolsonaro com uma faca peixeira.

 

Marcelo Auler denuncia "Suspeitas movimentações em torno de Adelio Bispo".

 

Marcelo Auler, excelente jornalista investigativo, desvendou antes da Polícia Federal a vida de Bispo, um autodidata, que aprendeu a escrever na leitura da Bíblia, que recebia, do último emprego de carteira assinada, um mil e cem reais pelos serviços de ajudante de pedreiro. 

 

Remédio para doido um doido e meio. Sobre as 'movimentações' em torno de Bispo, fanático religioso, escreve Marcelo Auler:

 

A quinze dias do primeiro turno das eleições, a movimentação em torno de Adélio Bispo de Oliveira, réu confesso da facada desferida contra o presidenciável Jair Bolsonaro, em 6 de setembro, no centro de Juiz de Fora (MG), desperta a atenção das assessorias jurídicas de candidatos receosos de possíveis surpresas/armações que possam estar sendo urgidas na tentativa de interferir no resultado do pleito.

 

Coincidência ou não, nessa última semana, ao mesmo tempo em que a Polícia Federal solicitou mais 15 dias para concluir a investigação que prometera entregar dia 21 passado (sexta-feira), ocorreu um súbito interesse de órgãos de imprensa para entrevistarem Bispo, o agressor. Dos três pedido protocolados, dois deles – da revista Veja e de Roberto Cabrini, do SBT –, foram autorizados, mas, segundo consta, ainda não realizados. Um terceiro, de O Globo, está pendente de despacho.

 

O deputado Fernando Francischini, delegado federal licenciado e líder do PSL – partido de Bolsonaro – na Câmara Federal, até tentou bloquear as autorizações. Alegou que isso poderá ser prejudicial à candidatura. Porém não encontrou respaldo, O juiz Bruno Savino, da 3ª Vara Federal em Juiz de Fora, não viu motivo para atender ao deputado e manteve as duas decisões. Embora não tenham se manifestado até o momento, na cúpula do PT também há preocupação com esta movimentação.

 

Tratamento diverso – Bispo encontra-se em prisão preventiva, enquanto a polícia trabalha no inquérito que servirá de base a uma ação penal a ser aberta a partir da denúncia pelo Ministério Público Federal. Está em um presidio cujo acesso, teoricamente, é limitado e controlado.

 

Ainda assim dois juízes federais autorizaram jornalistas a entrevistá-lo. Além de Savino, o juiz corregedor dos presídios em Campo Grande, Dalton Igor Kita Conrado, também teve que ser ouvido, pois controla o acesso à penitenciária. Mas não se opôs ao ingresso de jornalistas.

 

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre uma antecipação de pena a partir de uma decisão que fera a Constituição justamente por não respeitar a presunção de inocência que deve existir até o trânsito em julgado de uma sentença criminal.

 

Está recolhido a uma sala de estado maior – cujo acesso, teoricamente, é bem menos limitado do que em um presídio de segurança máxima. Ainda assim, teve todos os pedidos de entrevistas formulados por jornalistas negados pela juíza Carolina Moura Lebbos, da Vara de Execução Penal em Curitiba.

 

 

 

22
Set18

Fantasma de Lula assombra a direita

Talis Andrade

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por Emir Sader

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Um fantasma tira o sono da direita: o fantasma do Lula. Tiraram ele da disputa, ele indicou seu representante, que segue apavorando o sono da direita

 

A direita não tem candidato. Ela usa, alternadamente, os candidatos que lhe interessem em cada momento.

 

A direita brasileira está pagando o preço do processo de suicídio em que ela se meteu. Como seu único objetivo era tirar o PT do governo, pela via que fosse possível, instalou o governo mais corrupto e inepto da história do Brasil, que colocou em prática o ajuste fiscal, que já tinha fracassado.

 

O resultado não poderia ser mais desastroso: direita dividida, candidato tucano sem chances de chegar ao segundo turno por ter apoiado o golpe e o governo Temer, ministro da economia do governo com 1% de apoio.

 

Resta Bolsonazi, para repetir o suicídio do golpe: qualquer via é boa para tentar impedir o PT de governar ou de voltar ao governo. Tirou-se Lula da disputa, Haddad o representa e já é favorito para ganhar no segundo turno.

 

A direita se concentra em transferir votos para o Bolsonazi e em tratar de dificultar a transferência de votos do Lula para o Haddad. Se vale da manipulação das pesquisas, da promoção do Ciro, de semear a confusão nas informações. Seu único objetivo é tentar impedir o PT de voltar ao governo.

 

O grande empresariado prefere o Bolsonazi ao Haddad, porque tem claro que seu grande inimigo no Brasil, aquele que o desalojou do governo, é o PT. E que o governo do Haddad vai substituir o modelo econômico neoliberal, que promove os interesses do capital financeiro, pelo modelo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda. Que a reforma bancária que Haddad propõe vai golpear duramente os lucros especulativos.

 

Bolsonazi abraçou os princípios neoliberais e a continuidade da política econômica do governo Temer. Completando a combinação que outros lideres direitistas, como o próprio Pinochet, fizeram: liberal na economia, totalitário na política.

 

Mas é o único candidato competitivo para a direita tentar ainda impedir a vitória do PT. Então, de novo: "Às favas todos os escrúpulos de consciência", como disse o ministro da ditadura militar, Jarbas Passarinho, para assinar o AI-5. E apoiam quem pretende liberar o uso de armas, quem prega as soluções violentas para os conflitos, quem promove todo tipo de discriminação, contra mulheres, negros, índios quilombolas, pobres.

 

Vale tudo para tentar impedir a vitória de Haddad. Qual o candidato da direita? Qualquer um, menos o Haddad. Qualquer um que tenha possibilidade de derrotar o Haddad, de impedir que o PT possa voltar a governar o Brasil.

 

Em outras eleições, tendo o seu candidato, a direita se valeu da Heloisa Helena, da Luciana Genro, do Plinio de Arruda Sampaio, da Marina, contra o candidato do PT. Desta vez ameaçam usar o Ciro.

 

Tudo isso só confirma que a direita não se equivoca nisso: seu adversário é o PT. Então vale tudo contra o Lula, contra o Haddad, contra o PT.

 

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22
Set18

"O povo africano possui Mandela e Lula em seu imaginário"

Talis Andrade

 

 

Em entrevista exclusiva à TV 247, o senegalês Pierre Sané, ex-secretário geral da Anistia Internacional, destaca a intensa relação de Lula com a África; "O povo africano possui Mandela e Lula em seu imaginário, fruto das políticas que o ex-presidente promoveu no continente", afirma; Sané avalia ainda a prisão de Lula como política; "Está claro que querem impedi-lo de participar das eleições", constata, ressaltando que o Brasil "deve acatar a decisão da ONU"; assista"

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Ex-secretário-geral da Anistia Internacional, o senegalês Pierre Sané defendeu, numa importante entrevista exclusiva à TV 247, que o ex-presidente Lula "merece ganhar o Nobel da Paz". Na conversa com o jornalista Leonardo Attuch, ele afirma que o povo africano admira Lula tanto quanto Mandela, fruto das políticas que o ex-presidente promoveu na África. "Está claro que querem impedi-lo de participar das eleições", constata, ressaltando que o Brasil "deve acatar a decisão da ONU".

 

O ex-secretário enumera dezenas de feitos que Lula promoveu no Brasil e na África, destacando seus projetos de combate à fome, distribuição de riqueza e acesso a bens básicos. “Ele merece de fato ganhar o Prêmio Nobel da Paz”, defende.

 

“Ele promoveu uma política externa voltada para a África, reforçando os laços do Brasil com os países que compõe o continente, com base em uma cooperação de igual para igual, principalmente na luta contra a fome e a pobreza”, relata.

 

O entrevistado relembra outro grande gesto de Lula. “O ex-presidente visitou particularmente a ilha de Goré, local que simboliza o tráfico de escravos, e em nome do Brasil ele pediu perdão à África, por conta da escravidão, reconhecendo a responsabilidade de seu País”, ressalta.

 

Sané destaca que há dois homens políticos no mundo que marcaram o imaginário africano: Nelson Mandela e Lula. Para o seu povo, explica, o Brasil também é um país africano, já que metade de sua população é afrodescendente.

 

Questionado sobre a prisão de Lula, Sané afirma que apoia a decisão da Organização das Nações Unidas (ONU), defendendo que o ex-presidente tenha seus direitos políticos garantidos. “Infelizmente, em muitos países, a justiça é instrumentalizada por aqueles que estão no poder, mas o árbitro final ao nível internacional são as Nações Unidas. Considero que ele encontra-se em cárcere para não participar das eleições”, explicita.

 

“Não seguindo as orientações da ONU, o Brasil perde prestígio internacionalmente, perdendo credibilidade e reputação”, acrescenta.

 

22
Set18

Lula responde para o general Mourão: 'Não julgue avós e mães por seu conceito medíocre'

Talis Andrade

O candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL), o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), afirmou nesta segunda-feira que o Brasil vive uma crise de valores e que famílias desestruturadas levam ao surgimento de “elementos desajustados”, que “tendem a ingressar em narco-quadrilhas”.

 

“Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”, afirmou ele em evento do Sindicato da Habitação (Secovi), em São Paulo.

 

'Não julgue avós e mães por seu conceito medíocre', diz Lula a Mourão, em carta escrita na prisão dos juízes Sergio Moro e Carolina Lebbos:

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18
Set18

LULAÇO, O POVO SEM LAÇO

Talis Andrade

 

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A cada Lulaço

o de Moro fica

torando aço

 

A cada Lulaço

dos gorilas

de Bolso

a ameaça

 

de puxar o laço

do golpe

da ditadura

e tortura

 

nos calabolços

de Moro

de Ustra

de Fleury

 

os heróis

de Mourão

de Bolsonaro

de Vilas Boas

 

os generais

de Temer

que prometem

ao povo

 

a reforma agrária

da desova

em sete palmos

de cova

 

nos cemitérios

clandestinos

o espasmo a agonia

cruel destino

 

Ah dá para cantar

espantar os males

as aves agourentas

expulsar os inimigos

 

e cantar olê olê olá

é Hadad amigo

o povo de novo

olê olê olá

Lulá

 

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18
Set18

"Eleger Bolsonaro é a situação política mais perigosa do país desde 64", diz jurista

Talis Andrade

DEMOCRACIA EM RISCO

A avaliação é de Pedro Serrano, jurista constitucional, que alerta para as novas formas de autoritarismo na sociedade

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"Isso é extremamente perigoso. Eleger Bolsonaro é a situação política mais perigosa do país desde 1964. Não tenho a menor dúvida. Esse sujeito pode usar da mediação com a democracia, do fato de ter sido eleito, para impor um autoritarismo muito mais intenso. Isso significa a morte de pessoas, o sacrifício do pedaço de uma geração e do seu livre pensamento, um atraso para o país".

A análise é de Pedro Serrano, jurista e professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que participou da última edição do programa No Jardim da Política, da Rádio Brasil de Fato. Segundo o entrevistado, legitimado por um processo democrático, o candidato do PSL teria "chancela" para promover políticas conservadoras e de extrema direita.

 

"O mundo, hoje, passa por uma tentativa de construção de um paradigma mais autoritário, mas é uma nova forma de autoritarismo. Não são os Estados de Exceção ou Governos de Exceção que tínhamos durante o século 20. Estamos em um momento em que há produção de medidas de exceção no interior da democracia."

Na ocasião, o especialista também analisou a atual conjuntura política do Brasil e o avanço do autoritarismo nas instituições democráticas do país, principalmente no Judiciário. Segundo Serrano, a condenação de Lula é uma fraude e um exemplo desse modus operandi do Estado e da Justiça.

"É uma governabilidade de Exceção. É a produção de medidas de Exceção no interior da democracia que são mais intensas, mais cirúrgicas, mediadas com a linguagem democrática porque não implicam uma ditadura. Essa é a nova forma de autoritarismo que temos no mundo. O presidente Lula é vítima dessa modelagem", afirmou o jurista.

 

Brasil de Fato: Qual sua análise sobre a prisão do ex-presidente Lula e sobre a perda de seus direitos políticos?

Pedro Serrano: O caso do ex-presidente Lula não é isolado. O mundo, hoje, passa por uma tentativa de construção de um paradigma mais autoritário, é uma nova forma de autoritarismo. Não são os Estados de Exceção ou Governos de Exceção que tínhamos durante o século 20. Estamos em um momento em que temos produção de medidas de exceção no interior da democracia. É um autoritarismo líquido, vamos dizer assim. Porque ele é fragmentado na sociedade, não se identifica o autor com clareza, ele é diluído no meio de outras medidas que são democráticas. Há uma maior dificuldade de identificação, de quem é o autor, de identificação da própria medida. Demanda o conhecimento não só do Direito, mas de Política e Filosofia, algo raro hoje em dia porque as pessoas são educadas de forma muito especializada. Mas de qualquer forma, é o que acontece. São medidas de exceção, ou seja, medidas que tem uma aparência de democracia, uma roupagem democrática, mas tem um conteúdo tirânico que busca combater o inimigo e não tratar do cidadão que erra.

No primeiro mundo, são medidas que vindas do Legislativo ou do próprio Executivo, fortalecem o Executivo como agente das medidas de exceção. Os "patriotic acts" nos Estados Unidos, as leis antiterrorismo na Europa, os aprisionamentos, o decreto de exceção na França, há vários exemplos. Aqui na América Latina, ocorre uma coisa muito diferente, embora exista esse mesmo modelo geral, que é do mundo ocidental. Aqui, as medidas de Exceção são produzidas, ao meu ver, pelo sistema de Justiça, ele que capitaneia. O Legislativo e o Executivo têm um papel, mas é mais reduzido. Por sistema de Justiça, me refiro a uma parte do Ministério Público, do Judiciário, da advocacia, uma parte da polícia e o sistema de mídia, que é quem forma a ralé, como diz Hannah Arendt, o "povo que apoia".

Eu observei, com meu trabalho de pesquisa, que na América Latina são dois tipos de medidas de Exceção: processos penais de exceção ou investigações de exceção e impeachments inconstitucionais, também outra forma de medida de exceção. A partir dos anos 1990, no Brasil, começou a produção dessas medidas de exceção, Lula é só uma continuidade. É quando se inicia o encarceramento em massa, política contra as drogas, onde a figura do inimigo é a figura do traficante. Esses processos, a partir dessa época, vão esvaziando do sentido os direitos humanos e [dos direitos] fundamentais. Os réus são tratados como inimigos, sem direitos. O que é o inimigo? Uma figura que não tem direito a proteção mínima, política e jurídica, a que teria direito qualquer ser humano. Ele é desumanizado. A natureza da relação de inimizade do antagonismo é desumanizar o antagônico.

Essas pessoas foram desumanizadas. A justificativa do combate as drogas passou a servir como forma de controle social, a juventude negra, jovem, das periferias, foi abatida. Começou a crescer imensamente a violência na sociedade e o encarceramento, essas coisas estão relacionadas. Não é a toa que se observa nas estatísticas que quanto mais cresce o encarceramento, mais cresce a violência. A pessoa é presa por um pequeno delito, tráfico por dois ou três gramas de droga e, dentro da penitenciária, é obrigado a se filiar a alguma organização criminosa para poder sobreviver e garantir sua integridade física. Tudo isso é produzido por medidas de exceção, ao ponto de que 42% dos nossos presos hoje, terceira maior população aprisionada do mundo, estão presos sem direito de defesa. Tem um nome jurídico processual para isso: medida cautelar preventiva.

Imagina o quanto tem de gente injustiçada nisso. São os presos provisórios que não tem decisão de primeiro grau. O que é o caso do presidente Lula: Com o Mensalão, eles começam a transportar as técnicas desses processos penais de exceção, que tem uma aparência de ser processo, mas no conteúdo não é. Tem o advogado, tem uma corte, um tribunal, mas não interessa muito o que o advogado falar, o que a corte decidir, porque a corte vai interpretar a lei, não para ver o que a lei quer para aquele caso concreto, ela vai buscar justificação na lei para fazer o que ela quer. Essa técnica passa a ser transportada para a política. E é interessante como a medida de exceção é diluída, líquida. O caso do Mensalão é um caso adequado, razoável, tem gente que foi condenada porque precisava ser condenada mas tem outras condenações que não fazem sentido. Eu falo claramente: não faz sentido o ex-ministro José Dirceu ter sido condenado naquele caso, eu vi o processo, eu estudei. Não tem provas contra ele o suficiente. Não tem prova que atenda o standard [padrão] mínimo de um Estado Democrático para condenar um ser humano.

Não é que ele foi tratado além de ser cidadão, com benefícios, ele foi tratado aquém da cidadania. Foi tratado como um ser não-humano, como inimigo. Isso foi avançando e o ex-presidente Lula veio na sequência. O impeachment inconstitucional de Dilma também é uma sequência disso, uma medida de exceção interruptiva direta da democracia. É típico do autoritarismo que chamo de líquido, porque ele interrompe a democracia e depois volta ao segmento democrático. Ele vai controlando a democracia. Depois da Segunda Guerra Mundial, do advento do Nazifascismo, fica impossível discursivamente e culturalmente admitirmos uma ditadura. Então tem que mediar com a lógica democrática, são medidas ditatoriais que mediam com a lógica democrática. A interrupção não é um golpe em que fica um militar ocupando o poder. É uma medida de exceção que rompe o ciclo democrático e depois volta a ele.

O processo do presidente Lula é isso. Um processo penal de exceção, no caso dele, muito intenso. Porque não há minimamente condições de condená-lo em qualquer regime civilizado. Se promove um processo que tem aparência de processo, que tem aparência de democracia, de cumprir suas normas processuais, mas no conteúdo é tirânico. Ele é tratado como inimigo, como um ser não humano.

O argumento que se usa é que se teve o processo, um defensor, um tribunal. Mas esse não é um processo judicial, ele só tem a aparência de um processo judicial. É uma fraude. Ele tem a aparência de um processo jurídico, um processo político de exceção, em uma relação de antagonismo, de inimizade. Nesse tipo de relação, que não é nova na humanidade, [já] existe há muito tempo, mas que na modernidade surge pelo modelo do Estado de Exceção. É uma governabilidade de Exceção. É a produção de medidas de exceção no interior da democracia que são mais intensas, mais cirúrgicas, mediadas com a linguagem democrática porque não implicam uma ditadura. Essa é a nova forma de autoritarismo que temos no mundo. O presidente Lula é vítima aqui do Brasil dessa modelagem de autoritarismo.

 

Esse modus operandi no mundo, desse Estado de Exceção com o verniz da legalidade, o autoritarismo líquido, nos deixa em que posição? Não há como confiar em nenhuma via instituída legalmente ou via democrática?

Pedro Serrano: Isso é que é o complexo. Há como confiar. E não há. Isso que é a relação da contradição. A realidade as vezes se apresenta como contradição mesmo. Em certas situações há, em outras não. Por isso que é difícil, não há como estabelecer conceitos analíticos, abstratos. Tem que ir ao caso concreto e fazer essa verificação. A Lava Jato é uma boa operação, prendeu corruptos mesmo, gente que tinha montanhas de dinheiros em apartamentos. Mas o caso do ex-presidente Lula não tem sentido. E faz parte do processo isso, envolver a injustiça no meio de atos justos para poder contaminar, dar uma outra roupagem.

O que temos hoje não é o fascismo que vimos na Itália, não é o nazismo que vimos na Alemanha. É uma nova forma de autoritarismo se manifestando na política, onde se vê todos os traços. Primeiro, da ideia de unidade da sociedade, que a sociedade é algo unido e que precisa ser unida e portanto purificada do mal que pertence ao pecado da divisão que é a política. Política e democracia só existem quando reconhecemos que a sociedade é dividida em interesses. Que existem conflitos e que precisamos compor esses conflitos para existir a sociedade política, para ela não se esgarçar, para haver paz.

Eles falam: ''A esquerda divide a sociedade!". Mas não, quem divide a sociedade é a democracia, que pressupõe uma sociedade dividida. Em geral, os movimentos autoritários querem a unificação da sociedade, uma ideia de povo, em torno de um líder carismático ou de um estamento como foram os militares. Mas sempre uma liderança carismática que traz a impressão de ser superior moralmente ao resto da sociedade e com a capacidade de trazer a ordem. Foi assim com os estamentos do policial, do promotor, do juiz, que surgiram com a ideia de que são superiores ao resto da sociedade e que teriam condição te trazer a pureza para política, que não são contaminados pela política.

 

As instituições jurídicas estão em disputa?

Pedro Serrano: Acredito que tudo está em disputa. Essa estrutura desse novo autoritarismo ainda não se consolidou. Nós temos como lutar, tem espaço de luta e a resistência é fundamental. Como Foucault fala: enquanto há resistência, há uma relação política e não uma relação autoritária. Há a força do terror, do autoritarismo, mas há a força da resistência também. Não podemos abandonar o barco agora, se não, vamos para o ralo mesmo. E eu não estou falando aqui só para as pessoas de esquerda, estou falando para todos que acreditam que a democracia é um valor apto. Temos que entender que democracia é conflito, mas que temos que ter relações agônicas, não antagônicas. Reconhecer no outro o meu adversário. Tenho uma racionalidade que conflita com a dele, racionalmente nunca vamos conseguir ter uma ideia em comum, mas eu reconheço nele a legitimidade de participar da sociedade política. Essa legitimidade de existência humaniza a pessoa, ela deixa de ser meu inimigo e passa a ser meu adversário.

Isso precisa ser colocado com firmeza. Precisamos enfrentar essa onda fascista na sociedade com firmeza. Nós não estamos dialogando com a racionalidade, temos que desmontar esse circuito afetivo que está posto em vários rincões da sociedade. Está no Judiciário, no Ministério Público, na advocacia, na medicina. Uma boa parte da elite e uma boa parte da população mais pobre está nesse circuito afetivo autoritário. Temos que desmontar, por meio de argumentos racionais, mas também por meio de afetividade. Vamos mostrar que certas atitudes humanas são possíveis. As pessoas tem que ser prudentes ao usar a força, por isso que chama "jurisprudência". O Judiciário tem que saber o que significa prudente. Vamos condenar um sujeito depois de dar direito de defesa, buscar a verdade, provas que mostram que ele teve mesmo aquela conduta. Vamos agir com prudência quando exercemos o poder político.

 

Serrano, em sua primeira resposta, você tocou em uma questão importante: as decisões que são tomadas contra os direitos do presidente Lula, podem servir para toda a sociedade. Em 2014, somente 14 mil presos de um universo de 227 mil aptos a votar, que não tem trânsito em julgado ainda, como é o caso de Lula, tiveram acessos às urnas. Isso tem muito a ver com o que está falando, da Justiça encarar o réu como inimigo e cercear seus direitos.

Pedro Serrano: Não tenho dúvida disso. Veja, a sociedade ainda não acordou. É co-autora de um crime lesa humanidade. Não houve ambiente humano tão próximo ao campo de concentração no pós-guerra como as cadeias brasileiras. A sociedade brasileira sabe e deseja que as pessoas vão para a cadeia, isso é uma absoluta imoralidade. Podemos ser poucos que criticamos isso, mas temos do nosso lado uma lógica moral que faz parte do melhor que o humano produziu até hoje em 3 milhões de anos na terra. As pessoas tem que entender isso: é uma iniquidade, não podemos submeter seres humanos a isso.

A maioria das pessoas é inocente, mas a mídia não mostra. Não é destacado esse aspecto do aprisionamento. Somos seres humanos, temos inteligência, temos como compor outras formas de punição, outra forma de tratarmos os problemas.

Não é a toa que existe essa política, isso é proposital. Há um pedaço da elite mundial que acha que tem que apostar na violência. Então, matar o negro da periferia e tira o negociador do plano político, que é o Lula. Acha que não precisa mais de negociação, que os problemas sociais serão resolvidos na base da violência.

 

A decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), de realizar o cumprimento da pena após condenação em segunda instância, foi bastante fomentada pela grande mídia brasileira como uma ferramenta de combate à criminalidade e à corrupção. Qual a sua opinião sobre esse tema?

Pedro Serrano: Esse tema virou central e tem que ser mesmo, mas não é esse tema que é o relevante. Porque o conservadorismo, o autoritarismo avançou? Porque eles entendem melhor algo que nós não compreendemos e temos que entender: as relações afetivas da política. A política não é só razão. Não existe nunca, em nenhum lugar, só a emoção. Não são fenômenos separados, nós que aprendemos a enxergar assim, mas são fenômenos linkados. A racionalidade começa em insights, emoções, alegrias, tristezas. A arte surge daí e a política também. Há projeção de afetos na política, eles entendem isso e sabem lidar melhor que a gente com isso. E precisamos saber lidar com isso. Mas com qual afetividade? A nossa afetividade. Temos que lidar com alegria, potência, diálogo, abertura, enfrentamento quando necessário mas um enfrentamento alegre. Vamos perder a cara sisuda.

Precisamos introduzir a nossa afetividade. Estamos debatendo a afetividade deles, o ódio, tratando como inimigo. Temos que mudar isso, enfrentar isso de outro jeito. Isso que é a essência. Precisamos desmontar o circuito afetivo desse autoritarismo que está posto e que a mídia participa, que envolve milhares de pessoas que temos que ter do nosso lado. Não são pessoas para eliminar. Não temos que pegar os bolsonaristas e eliminar da sociedade. Temos que conviver com eles. E porque eu falo que os direitos humanos na sua concreção são relevantíssimos? Porque eles domesticam esses instintos de violência que a política tem.

Mas, agora, porque não se pune o feminicídio? Eu acho que há uma dimensão do direito penal que pode ser socialmente avançada, que pode trazer progresso. Acredito que bom seria uma sociedade sem direito penal, mas hoje isso não é possível até porque lidamos com a barbárie da elite, do autoritarismo e precisamos ter firmeza para responder isso várias vezes. Existem normas penais que são libertadoras, são formas de fazer valer os direitos humanos. Você pode fazer uma leitura do Direito Penal em que ele seja um instrumento de domesticação da violência autoritária na sociedade. Porque eles não apoiam isso? Porque isso domesticará eles. Eles defendem esse instinto de ódio e isso é próprio do autoritarismo.

 

Há uma certa contradição nessa narrativa que a mídia consegue construir, fortalecendo essa relação afetiva da política com a construção de uma negação da política? É algo que ouvimos nos últimos anos: "Política não resolve", "Todos os políticos são corruptos". Houve um distanciamento ao mesmo tempo que se cria uma relação afetiva com a ideia da não política, que acaba gerando ódio, desumanização, e a mídia construiu muito bem isso. Podemos afirmar isso?

Pedro Serrano: Claro, isso faz parte de todo um movimento onde se tem um modelo capitalista mais financeiro, onde há um tipo de capital que depende intensamente do mercado. E veja como é um processo contraditório da linguagem. Se fala a favor do livre mercado, mas tudo que ele não quer é livre mercado. Propõe para banco o livre mercado para ver se ele topa. Na realidade, são anti livre mercado e depende intensamente do financiamento estatal. O capital financeiro precisa ter domínio da política, porque depende do Estado. Sem ele, o capital financeiro não se amplifica. Mas tem também uma lógica de enfraquecer o Estado, para mantê-lo submisso aos seus interesses. Ir contra a política tem um sentido maior, de enfraquecer o Estado. Esse capital criou um circuito afetivo na humanidade, uma parte da elite tem ele, que chamamos de estrutura social. O circuito afetivo é a estrutura social, que hoje, deseja enfraquecer a política. Mas não existe parâmetro de medição disso. Um exagero, uma desfunção que ocorre em qualquer situação humana, leva o mundo ao caos, ao fim da humanidade. A guerra é a forma de queima do capital, a guerra nos mata, inclusive o capital humano. Eles estão se valendo de uma forte potência de caos com essa nova forma de critica à política, porque ela leva a desmilinguir a sociedade política. É tão agressiva para poder enfraquecer o Estado e submetê-lo, que pode levar a extinção da sociedade política, o que não interessa pra ninguém, nem para eles.

 

No contexto atual das próximas semanas, de eleição, haverá algum nível de coerência do Judiciário e das elites em assegurar uma roupagem de democracia mínima ou poderá ocorrer um novo golpe? Resumindo, teremos eleições?

Pedro Serrano: Acho que teremos. Posso estar enganado, mas tudo até agora tem confirmado essa minha leitura, que é antiga. Temos que entender: existe mediação com a democracia. É ai, inclusive, que temos que nos apegar. Para mostrar as contradições dessa mediação, mas existe. É muito difícil legitimar uma ditadura.

O que esperar para o próximo período? Está na palavra do que diz o vice-presidente do Bolsonaro. O autogolpe, por exemplo. É um golpe dado por quem for eleito, ou seja, há uma mediação com a democracia. Isso é extremamente perigoso. Eleger o Bolsonaro é a situação política mais perigosa do país desde 1964. Não tenho a menor dúvida. Esse sujeito pode usar da mediação com a democracia, do fato de ter sido eleito, para impor um autoritarismo muito mais intenso. Isso significa a morte de pessoas, o sacrifício do pedaço de uma geração e do seu livre pensamento, um atraso para o país. Temos que ter uma ação nessa eleição de combate a esse tipo de visão. Temos que evitar. Está certo que não vamos conseguir combatê-lo com tanta eficiência no curto prazo, mas temos que evitar que eles cheguem ao poder político. O risco maior está ai, e não em não ter a eleição. [O risco] É eleger esse sujeito, e ele, legitimado pela democracia, fazer uma série de atrocidades.

Há uma intervenção hoje, por conta desse moralismo em vigência na sociedade, das funções do Executivo. Existe, o que chamamos na área de direito administrativo, um apagão administrativo no Brasil. O funcionário público tem medo de assinar alguma coisa com medo de ir pra cadeia. Qualquer obra, vira palco de um verdadeiro teatro de vaidades. É o promotor que entra com uma ação para aparecer no jornal, a mídia que dá a veiculação para vender mais jornal, ou seja, o país está paralisado. Isso traz ingovernabilidade e potência de caos no Executivo. E isso pode ser justificativa, inclusive, para um autoritário com poder popular calar o Judiciário. Não só o Judiciário, o Legislativo [também] e etc. Isso é possível no mundo de hoje: termos uma interrupção temporária da democracia. Termos uma democracia de baixíssima intensidade, é possível. É estratégico para quem defende os valores democráticos não deixar o Bolsonaro se eleger presidente da República.

17
Set18

Festival Lula Livre em São Paulo: um grito por justiça

Talis Andrade

 

 

Neste domingo (16), a Paulista Aberta ficou pequena para a alegria e animação das pessoas que, com cartazes de Lula Livre e máscaras do ex-presidente, denunciaram sua prisão política e exigiram sua liberdade na segunda edição do Festival Lula Livre.

 

Em meio a muito música, poesias e gritos de reivindicações, o Festival contou com a presença de diversos artistas que conclamaram a retomada da democracia no Brasil durante o ato pela liberdade e pela justiça.

 

O grupo Ó de Casa, um dos primeiros a subir ao palco, tocou uma versão da música “Apesar de Você”, composição de Chico Buarque, feita em protesto durante a ditadura militar no Brasil. A letra pode ser lida como denúncia às consequências do golpe de 2016 e a impugnação da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

A cantora Aíla, em sua apresentação, lembrou a todos os presentes que esse é o momento do país e do povo não se calar e que “pela democracia, precisamos defender Lula Livre todos os dias”.

 

A rapper Preta Rara, famosa por defender pautas da população negra, esclareceu a importância de lutar por todos os presos políticos no Brasil, e disse ser um absurdo que mesmo nos dias atuais a herança escravocrata seja tão presente.

 

Ela relembrou que no país pessoas pretas são presas apenas por sua cor. “Os presos pretos são presos políticos também, não vamos esquecer Barbara Quirino”. Citando a jovem que foi condenada por assalto em agosto desse ano, mesmo após provar que estava em uma cidade diferente de onde o crime aconteceu.

 

Entre um show e outro, o público bradava gritos de “Lula Livre”, “Lula guerreiro do povo brasileiro” e “Olê olê olá, Lula, Lula”. O cantor Marcelo Jeneci subiu ao palco declamando a frase “Onde já se viu tirar o leão da floresta?”. O cantor Odair José fez da Paulista um grande coro cantando seus sucessos populares. Ao final de sua apresentação mandou um abraço para seu amigo Lula.

 

A surpresa do encontro foi uma carta escrita por Lula e lida pelo seu neto Thiago Trindade. “Eles podem apagar as luzes e desligar os microfones, mas mesmo assim vocês continuarão cantando, porque cada um de vocês, artistas e público hoje aqui reunidos é uma semente da primavera que jamais conseguirão deter”.

 

“Eu não posso acreditar que Lula está preso ainda! Bando de golpistas!”, foi com essa frase que o cantor Otto começou a sua apresentação. Durante toda sua apresentação, ele defendeu que “o maior líder desse país seja libertado”.

 

A cantora Ana Cañas, uma das últimas atrações, cantou a música Velha Roupa Colorida, de Belchior, como forma de protesto ao momento turbulento e controverso em que o país se encontra, com governo misógino, racista, neoliberal, de valores conservadores e velhos que não cabem mais ao Brasil.

 

Para encerrar o dia com chave de ouro, artistas, organizadores e público se uniram em um grande coro de “Eu sou Lula”.

 

A força das minorias

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Durante todo o evento, ocorreram diversas manifestações para cobrar justiça pelo assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em março desse ano. O cantor Chico César fez uma improvisação no meio do clássico Mama África. Um texto também foi escrito em sua homenagem a Marielle e Anderson e lido no palco. “Seis meses depois a pergunta segue sem resposta: quem matou Marielle Franco? Quem mandou matar?”. A plateia indignada reverberou gritos de “Marielle Franco, presente! Hoje e sempre!”.

 

A defesa dos direitos das mulheres também foi pauta do Festival. A cantora Preta Rara reafirmou que os corpos femininos não são objetos de posse da sociedade e por isso precisam ser respeitados. “Nós chamados de minoria somos na verdade a maioria nesse país, e temos que nos unir contra o preconceito e violência”.

 

Enquanto uma imensa bandeira escrita Lula Livre passava pela multidão enfervecida no Festival, a cantora Ana Cañas denunciou a tentativa de apoiadores do golpe em implantar o fascismo na sociedade. “Fascistas não passarão!”, clamava o público.

Por Jéssica Rodrigues