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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Ago21

Quando o brasileiro afirma que vai votar em Lula está afirmando que é contra o golpe de Bolsonaro

Talis Andrade

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O brasileiro não quer a volta do Ai-5, da ditadura militar de 1964. Ninguém quer ser jogado nos porões das delegacias, dos quartéis. 

Tortura nunca mais!

Ditadura nunca mais!

Os pobres que recebem o salário mínimo, os aposentados civis, as filhas solteiras dos civis, os sem terra, os sem teto, os sem nada, os miseráveis, os desempregados já decidiram o voto nas eleições presidenciais de 2022.

Até quando temos de aceitar o crime de ameaça? De suspense? De medo? De ameaça de golpe?

O dia do foda-se do general Augusto Heleno. O dia do golpe. O dia da volta das galinhas verdes. Dos gorilas. Da vida de gado no cercado. Vida severina. De patos amarelos de asas cortadas. 

Basta!

Acabou!

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 rodada de agosto da pesquisa XP/Ipespe mostra continuidade na tendência de crescimento das avaliações negativas do governo Jair Bolsonaro.

No levantamento atual são 54% os que dizem considerar o governo ruim ou péssimo contra 52% no mês passado. O crescimento na rejeição é constante desde outubro de 2020, quando 31% diziam considerar a gestão ruim ou péssima. 

Na outra ponta, os que veem o governo como bom ou ótimo somam 23%, 2 pontos a menos que na pesquisa de julho. Os dois números são os piores para o governo desde o início da série.

A nova rodada da pesquisa XP/Ipespe registra continuidade na tendência de crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula. No levantamento de agosto, ele aparece com 40%, 2 pontos percentuais a mais que na pesquisa anterior, enquanto Bolsonaro tem 24%, 2 pontos a menos que na última sondagem. 

Esta é a quinta pesquisa em que o ex-presidente repete a tendência de alta – ele tinha 25% em março, quando seu nome voltou a ser testado. Atrás dele e de Bolsonaro aparecem Ciro Gomes (10%), Sérgio Moro (9%), Mandetta e Eduardo Leite (4%). O petista também lidera cenário alternativo, em que João Doria (5%) é testado no lugar de Leite e em que são incluídos Datena (5%) e Rodrigo Pacheco (1%) e é excluído, descartado Sérgio Moro. 

Nesse cenário, Lula tem 37% e Bolsonaro, 28%. Lula também continua registrando crescimento no levantamento espontâneo, quando o nome dos candidatos não é apresentado ao entrevistado: ele passou de 25% para 28%, enquanto Bolsonaro segue estável com 22%.

No principal cenário de segundo turno, Lula ampliou vantagem sobre Bolsonaro. O petista oscilou 2 pontos para mais, e Bolsonaro, 3 para menos. Agora o ex-presidente venceria com 51%  contra 32% do atual presidente.

O interesse em relação ao pleito está em alta. Hoje são 49% os que dizem estar muito interessados na eleição,  contra 46% na pesquisa anterior.

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14
Ago21

Pacote eleitoral aprovado pela Câmara traz mais instabilidade para as próximas eleições

Talis Andrade

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Enquanto Bolsonaro não aceita derrota do voto impresso e usa Forças Armadas como ameaça, Congresso avança em reforma eleitoral e pode mudar novamente as regras do jogo.

 

por Raquel Miura /RFI 

Não bastasse a narrativa agressiva do presidente da República, com ataques ao sistema eleitoral, os deputados deram esta semana sua cota de contribuição para deixar mais instável o ambiente jurídico das próximas eleições. No pacote aprovado pela Câmara em primeiro turno, há desde facilidade para que partidos atinjam as cláusulas de desempenho, como a inclusão de senadores que não disputaram as urnas no cálculo, até a retirada de poder do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), cujas normas ou interpretações só terão validade se vierem um ano antes do pleito.

Os deputados incluíram também a volta das coligações, o que favorece os partidos de aluguel e deixa o eleitor confuso, já que ele vota no deputado de um partido e acaba ajudando nomes de outras siglas.

“É muito difícil a sociedade civil ter segurança com essa situação que o Brasil enfrenta. Essa questão das coligações, que a Câmara colocou de forma abrupta, pelas votações de vários partidos, que inclusive não são da base do governo, parece se tratar de uma busca por sobrevivência e de adaptação a esse contexto bastante instável”, disse à RFI a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“As votações sem nenhum debate são mais um problema para a nossa democracia. Já estamos vivendo um dos momentos mais complexos desde 1988. E sem a população participar dessas decisões que afetam o sistema eleitoral, e portanto afetam a forma como vamos eleger nossos representantes, isso é realmente preocupante”, afirmou a pesquisadora diante de mais uma reforma eleitoral.

As mudanças foram aprovadas em primeiro turno na Câmara e, por se tratar de emenda constitucional, terão de passar por uma segunda votação. Depois seguem para o Senado, que esta semana aprovou a Nova Lei de Segurança Nacional, cujo texto antigo, da época da Ditadura Militar, vinha sendo usado para enquadrar críticos do presidente Bolsonaro.

Mais transparência às urnas eletrônicas

As medidas eleitorais aprovadas vieram a reboque da proposta que propunha o voto impresso nas eleições, mas que não atingiu o mínimo exigido, de 308 votos, entre os deputados. Ainda assim surpreendeu o número de parlamentares que apoiaram a ideia, quase 230. Tanto que o presidente do TSE, Roberto Barroso, anunciou medidas para aumentar a transparência, como a abertura aos partidos, um ano antes da eleição, do código-fonte das urnas, o sistema que processa os votos.

“Não há como fraudar o programa uma vez lacrado. E nós queremos fazer isso com a participação e na frente de todos os partidos políticos, além do Ministério Público e da Polícia Federal, que já participam”, disse Barroso, lembrando que nos últimos pleitos nenhuma sigla enviou técnicos ao TSE para fazer a auditoria das urnas. “Não é porque eram contra as urnas. Não enviaram representantes justamente porque confiam no sistema”.

O presidente da Câmara Arthur Lira (PP/AL) tem sido cobrado a endurecer o discurso contra o Executivo porque levou o tema para o plenário sob argumento de que, rejeitado o voto impresso na Casa, Bolsonaro lhe teria assegurado que acolheria a decisão. Porém o presidente tem insistido na retórica contra o atual modelo. Depois de participar de uma exibição de tanques militares na Esplanada no dia da votação, o que foi visto como ameaça política, nesta quinta-feira (12) ele disse que conta com apoio total das Forças Armadas para tomar decisões em favor do país.

“Nas mãos das Forças Armadas está a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia e o apoio total às decisões do presidente para o bem da sua nação”, discursou o presidente.

Postura que o aproxima de presidentes populistas e autoritários de outros países, na visão da analista da UFSCar: “Sem apoio popular, Bolsonaro vai cada vez mais insistir em descreditar instituições. Esse na verdade é um traço comum dos autoritários populistas de países de regimes híbridos ou democracias liberais que a gente vem acompanhando no mundo. Bolsonaro então encontrou um meio de tentar minar a democracia brasileira questionando a legitimidade dessas instituições. Mas a gente aguarda os próximos passos. Me parece que a classe política tem mecanismos e meios de coibir essa tentativa.”

Críticas ao presidente

Num debate na noite dessa quinta-feira com nomes de possíveis candidatos à presidência em 2022 do chamado centro democrático, houve críticas à postura do presidente.

“A falta de respeito, o despudor, a falta de decoro com que se comporta Jair Bolsonaro tem que ter um reparo duro, sóbrio e firme das instituições. Os militares não podem desservir à pátria brasileira, transformando-se numa manipulação odienta de uma milícia a serviço do bolsonarismo boçal”, atacou Ciro Gomes (PDT/CE).

Também nesse evento promovido pelo Centro de Liderança Política, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), que foi o primeiro ministro da Saúde no governo Bolsonaro, comentou a semana tensa no país: “Não existe qualquer estratégia de melhorar a eficácia pública sem democracia. Tivemos uma semana em que o Brasil temeu pela ruptura, mais uma vez pelo tensionamento das instituições democráticas.”

E o tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que no segundo turno em 2018 apoiou Bolsonaro, também falou sobre a crise institucional: “O presidente ataca as urnas. Na verdade nós temos é que resistir, apresentar a partir de nossas instituições, como o Congresso o fez, a resistência democrática.”

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14
Ago21

TEM CLOROQUINA?

Talis Andrade

 

 

Tempos de peste. Um balconista de farmácia conta seu dia a dia durante a pandemia

 

por SANDRO AURÉLIO /Revista Piauí

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1º DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Saí de casa às 8 horas, já preparado para um dia cansativo. O movimento da farmácia não diminuiu quase nada desde o começo da pandemia. Os clientes estão mais ansiosos, tem fila para atendimento no balcão, quase sempre com discussões, porque um reclama da proximidade do outro. Desde março, a farmácia dá aos funcionários uma máscara e um par de luvas por dia. Eu prefiro álcool em gel à luva, mas uso a máscara o tempo todo e também no trem de volta para casa. Não é o ideal, mas acabo tendo que usar a mesma máscara no dia seguinte ao voltar para o trabalho, e só então pego uma nova.

Normalmente, trabalho seis dias por semana, das 10 horas às 18h20. Nesta semana, estou trabalhando todos os dias até as 19 horas para compensar a folga extra que tive no domingo passado. Pode parecer pouco, mas como ficamos em pé o dia inteiro, faz diferença para as pernas.

Minha maior dificuldade com o trabalho é, de longe, o tempo que levo para chegar lá. Eu moro em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense, e a farmácia fica em Copacabana, na Zona Sul. São duas horas para ir e duas para voltar. Faço esse trajeto seis vezes na semana, há praticamente um ano, e ainda não me acostumei. Passar quatro horas dentro de transporte público não é coisa simples.

Antes dos bloqueios por causa do novo coronavírus, eu pegava um ônibus até a Pavuna, bairro da Zona Norte, onde fica a estação de metrô mais próxima da minha cidade, e de lá seguia para Copacabana. Agora não há mais ônibus entre os municípios da Baixada e o Rio. Então, como é complicado chegar ao metrô, só me restou o trem. Todos os dias tenho que mostrar minha carteira de trabalho para os policiais que ficam na frente da estação de Nilópolis provando que estou indo para o emprego.

Os trens estão demorando mais a chegar. Passam de 30 em 30 minutos (antes era de 12 em 12 minutos). Hoje a plataforma estava cheia, menos que nos dias anteriores à pandemia, mas cheia. Quando peguei o trem, às 8h19, já não tinha nenhum lugar para sentar. Em Ricardo de Albuquerque, três estações depois da minha, o vagão lotou. Fiquei bem nervoso quando me vi em meio a tanta gente. Nunca na minha vida cheguei perto de ser hipocondríaco, mas tenho medo de pegar o novo coronavírus. Ainda mais por morar com minha mãe, que tem 63 anos.

Tirei uma foto com o vagão abarrotado de gente, postei no Twitter e marquei o perfil da SuperVia. Eles me responderam: “Sandro, bom dia. Entendemos a sua insatisfação. Por conta do cenário atual em nosso sistema, realizamos alguns ajustes na operação para adequação à nova realidade. Estamos analisando essas mudanças de perto para possíveis melhorias.” Entendi assim: “Bom dia, Sandro, o serviço vai continuar do jeito que está, esperamos que você aceite da forma mais dócil possível.” Um escárnio.

Para mim, ficou claro que a SuperVia se aproveitou da situação para diminuir o número de trens ao mínimo possível. Claro que eles poderiam oferecer viagens mais confortáveis e que ocasionassem menos aglomerações, mas isso teria um custo maior. Me lembro das sábias palavras de Bernardo Negron, vulgo BNegão: Desde que o mundo é mundo, ele nunca foi brinquedo/enquanto uns choram/outros se apressam para vender o lenço/isso nunca foi segredo. O ideal seria ir e voltar com dignidade, mas, se em mais de quinhentos anos de Brasil a classe trabalhadora não recebeu isso, não seria diferente agora.

Na farmácia, cada funcionário é responsável por uma seção diferente. Eu fico com o chamado OTC (uma sigla em inglês: over the counter), os medicamentos de venda livre, que qualquer pessoa pode pegar: paracetamol, ibuprofeno, dipirona, Novalgina, Dorflex, Neosaldina, Buscopan etc. Passei também a fazer entrega nas casas. A farmácia teve que começar com delivery para não perder a clientela. Não ganho nada a mais com as entregas, mas eu gosto, pois me permite caminhar um pouco. Me faz lembrar do período em que trabalhei no IBGE, como recenseador. Também acho legal porque, assim, posso conhecer melhor as ruas de Copacabana. Acontece muita coisa nesse bairro. Às vezes, penso que, se Gabriel García Márquez passasse uns dias vendo o que eu vejo, ele acharia o Rio de Janeiro mais realisticamente mágico do que Macondo.

Hoje fiz quatro entregas. Em uma ganhei uma gorjeta de 5 reais. Na última, no fim do dia, fiquei bem chateado. Fui levar um Xarelto 20 mg, medicamento que custa 240 reais. Ao chegar ao prédio, percebi que tinha esquecido o troco na loja. Esperei o cliente descer, entreguei o remédio em mãos e avisei que voltaria com o dinheiro. E corri até a farmácia. O rapaz viu quando eu voltava correndo, mas ele nem sequer me agradeceu. Pegou o troco e entrou no prédio sem dizer uma palavra. Eu me senti como se nem fosse um ser humano.

 

2 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Trem menos lotado do que ontem, mas ainda com muita gente. Em Deodoro, quatro estações após a minha, consegui lugar para sentar, ao lado de uma senhora de máscara. No vagão, vi apenas seis pessoas de máscara, contando ela e eu. Pouca gente está levando essa pandemia a sério. Na Baixada, as ruas ficaram até um pouco mais vazias em março, mas agora, em abril, o movimento voltou praticamente ao normal.

Lá pelas duas da tarde, uma senhora que eu atendia começou a falar mal do presidente. Adorei. Hoje em dia, muitos clientes começam, do nada, a falar mal dele. E olha que Copacabana é um bairro que, em 2018, apertou com força o 17, o número eleitoral de Bolsonaro. Passei quase um ano sem dar nenhuma opinião sobre política no trabalho. Não acho que possa ser vantajoso para mim e também não quero criar embates. O ponto de mudança foi o pronunciamento do presidente em rede nacional em 24 de março. No dia seguinte, logo que cheguei, não se falava em outro assunto: “Como assim? Um presidente se coloca contra o isolamento da população no meio de uma pandemia?” O fato de ele agir contra o que prega o mínimo bom senso foi demais para muita gente. Ver quase todos os meus colegas falando mal do presidente foi para mim uma libertação. O dia seguinte ao pronunciamento me marcou também de outra forma: pela primeira vez presenciei um panelaço ao vivo. Eram 20h30, eu ainda estava na farmácia quando ouvi muita gente bater panelas. Em Nilópolis, nem no auge do ódio contra a Dilma ouvi panelaço. Atualmente é a mesma coisa: na hora dos panelaços pelo país, que são divulgados nas redes sociais, coloco o ouvido para fora da janela da minha casa e tudo está um silêncio sepulcral.

No final do dia, fiz uma entrega perto de Ipanema, uma compra de 1 240 reais. A cliente morava no décimo andar de um prédio chique de frente para a praia. Quando ela abriu a porta do apartamento, pude avistar o mar. Eu nunca tinha visto o Oceano Atlântico de um lugar tão alto. Ela me deu uma gorjeta gorda de 10 reais (a primeira do dia) e fiquei bem feliz.

 

3 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Minha mãe voltou ao trabalho depois de uma licença de três meses. Ela é funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro, trabalha na parte administrativa de um posto de saúde na Pavuna, que fica a quinze minutos de carro de Nilópolis. Peguei uma carona com ela, embarquei no metrô e fui da Pavuna até Copacabana. Bem mais confortável e vazio que o trem. Em nenhum momento vi gente em pé.

Trabalhar em farmácia nessa época me dá a oportunidade de testemunhar o efeito prático da disseminação de notícias sobre curas milagrosas. A primeira foi que o paracetamol era bom para combater o novo coronavírus. Do nada, as pessoas passaram a comprar loucamente cartelas e caixas de Tylenol. Depois, quando propagaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam a cura da Covid-19, os medicamentos baseados nesses princípios ativos, como Reuquinol, esgotaram. Agora, só podem ser comprados com receita médica. Mas até hoje não chegou nenhuma nova remessa desses produtos. Todo dia, alguém que de fato precisa do remédio por causa de alguma doença – lúpus, por exemplo – sai frustrado da farmácia.

Um dos três farmacêuticos da loja está afastado por suspeita de Covid-19. Além dele, outra pessoa também está afastada, mas por alergia. Todos os funcionários estão aflitos com a pandemia e passam álcool em gel na mão de hora em hora. O maior medo, disparado, é o de pegar o vírus de algum cliente. Estamos trabalhando mais, com menos pessoas. O telefone toca quase que ininterruptamente.

Às 11 horas, atendi ao telefone pela primeira vez. Anotei o pedido, mas só consegui sair para entregar às 13 horas. Antes não tivesse ido. A maquininha não funcionou na casa da cliente. Voltei à farmácia para pegar outra. Mais uma vez, não havia sinal. A cada tentativa frustrada de fazer o pagamento, ela ficava mais nervosa. Já bem alterada, começou a reclamar, num tom de voz alto e angustiado, dizendo que nada na farmácia funcionava e que não deveria nem estar tendo contato comigo, pois tem 75 anos. Eu já estava a mais de 1 metro dela, de luvas e máscara, mas dei dois passos para trás para que percebesse que eu também estava incomodado. Falou ainda que eu tinha atrapalhado o seu cochilo da tarde e que ela não merecia estar passando por aquilo. Eu ouvi tudo calado, mas no final não aguentei e respondi: “Eu também não, senhora.”

Parti para a segunda entrega do dia. Quem me atendeu foi a empregada doméstica, e logo ao abrir a porta senti um cheiro maravilhoso de comida. Já eram quase 14 horas, e eu ainda não tinha almoçado. Voltei para a loja, bati meu ponto do intervalo e devorei minha marmita em dez minutos na cozinha da farmácia, onde dispomos de mesa, geladeira e micro-ondas. Às vezes, depois do almoço, deito uns vinte minutos no chão para dar uma relaxada. Foi o que eu fiz hoje.

Sempre trago comida de casa, porque é mais barato e mais saudável. Minha mãe cozinha bem demais, tenho sorte. Além disso, o auxílio-alimentação é de apenas 4 reais por dia trabalhado. Uso o tíquete no mercado. Esse mês, como vou trabalhar 24 dias, serão 96 reais.

Na parte da tarde, mais uma vez uma pessoa foi até o balcão e perguntou: “Tem Reuquinol?” Chegou mostrando a foto do medicamento no celular e me pareceu ser alguém que não precisava do remédio. O movimento na farmácia foi ininterrupto, e só consegui bater meu ponto de saída às 19h15. Estava tão exausto que mal sentia as pernas.

 

4 DE ABRIL, SÁBADO_Dia de folga. Dormi onze horas seguidas. Foi uma delícia.

 

5 DE ABRIL, DOMINGO_Ao contrário da maioria das pessoas, eu prefiro trabalhar aos domingos. É o único dia em que o movimento é menor. No trem, sentei do lado de um homem que começou a tossir. Troquei de lugar.

Primeiro atendimento do dia: um senhor perguntou sobre cloroquina. Respondi que estávamos sem o remédio e não havia previsão de recebê-lo. Ele continuou, dizendo que conhecia pessoas que tinham sido curadas do novo coronavírus em 24 horas após usarem cloroquina. A história fazia tão zero sentido que em nenhum momento pensei em questionar o homem.

A primeira entrega do dia foi para uma senhora que fez questão de dizer que estava grata por estarmos prestando o serviço de delivery. Não deu gorjeta, mas só por ter me tratado com respeito e dignidade, eu já fiquei feliz. Na parte da tarde, anotei por telefone o pedido de uma cliente, separei o que ela queria e pedi o endereço: Rua Saint Roman. Só descobri que é a rua que leva à comunidade do Pavão-Pavãozinho quando já estava lá perto.

Aos 18 anos, trabalhei por três semanas como vendedor em uma empresa que vendia purificadores de água, porta a porta, nos subúrbios e nas favelas do Rio de Janeiro. Então eu já sabia que, caso encontrasse algum trabalhador do tráfico, era só me identificar que tudo ficaria tranquilo. Traficante respeita trabalhador. A não ser, é claro, que esse trabalhador seja da polícia.

A cliente morava na parte alta do morro, de onde se tem uma vista linda de Copacabana. Tirei uma selfie. Na volta, sentei numa calçada para postar minha foto nos stories do Instagram. Um moleque magrelo de uns 15 anos veio ao meu encontro. “E aí, mano?”, ele falou. Eu respondi: “E aí, mano, suave? Tô só dando uma sentada aqui que já tô cansadão.” O menino era olheiro do tráfico e perguntou se eu andava muito. Falei que sim, que estava com as pernas exaustas.

 

6 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Hoje é aniversário do meu pai. Ele mora em Guapimirim, que fica depois de Magé. É o último município da Região Metropolitana, mas parece interior. Com a pandemia, em Guapimirim (como nos demais municípios da Região Metropolitana) só tem acesso à cidade quem mora lá. Mas, mesmo que tivesse um jeito de chegar, eu não iria, pois meu pai está no grupo de risco: é quase sexagenário, tem pressão alta e sobrepeso. Seria muita irresponsabilidade da minha parte. Postei uma foto nossa que eu amo: nós dois em frente ao Estádio do Maracanã, em 2014, antes de assistirmos ao primeiro jogo do Botafogo pela Libertadores em casa, em dezoito anos. E demos sorte, o placar foi de 4 a 0 contra o Deportivo Quito, do Equador. Em se tratando de Botafogo, assistir a uma goleada assim é sorte em dobro.

Decidi contar ao meu pai que estava escrevendo este diário para a piauí. Eu o ouvi chorando pelo telefone. Fiquei emocionado. Puxei dele a tendência a chorar sempre que dá vontade, e isso me orgulha. Ele disse que essa notícia era o melhor presente possível para ele. Se tem uma coisa que eu não curto nessa vida é me fazer de vítima. Mas o fato de eu nunca ter conseguido nada na área de comunicação depois de formado me dói, e dói muito.

Ninguém na farmácia sabe que eu fiz faculdade de jornalismo. Não contei porque, primeiro, não quero que me olhem ou me tratem de maneira diferente. Segundo, porque é doloroso lembrar como estou distante daquilo que sonhei.

Minha história com o jornalismo não é das mais usuais. Em 2007, eu fui jubilado do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca), onde eu fazia o ensino médio e também um curso técnico de eletromecânica. Eu tirava notas altas em português, história e geografia, mas me dava mal em física e matemática. Por causa dessas matérias, fui reprovado de ano duas vezes seguidas e acabei sendo expulso. A vergonha de ser expulso foi duas vezes maior que o orgulho de ter entrado na escola.

Nessa época, coloquei na cabeça que eu era incapaz de aprender certas coisas. Terminei o ensino médio em uma escola estadual e fui trabalhar numa escolinha de futebol da qual meu irmão era sócio. Com meu primeiro salário, comprei uma sandália da Mr. Cat para a minha mãe. Com o segundo, me matriculei em um curso de inglês. Era o que eu precisava para recuperar minha autoestima intelectual.

Em 2009, a Joss Stone veio tocar no Brasil. Na comunidade da cantora no Orkut, os fãs decidiram fazer uma vaquinha para dar presentes a ela: vestido, bijuterias etc. Eu resolvi dar um texto sobre dez artistas da música popular brasileira, escrito com meu inglês bem mais ou menos da época. Chamava-se “Introducing Brazilian Music”. Deixei na portaria do hotel dela. Como eu não tinha dinheiro para o ingresso do show, decidi imprimir dez cópias desse texto e tentar vender aos gringos na praia. Demorei o dia todo, mas consegui vendê-los e comprar o ingresso.

Em 2010, meus pais se separaram. Meu pai foi morar com uma médica, que o convenceu a pagar um pré-vestibular para mim. Eu estava com 20 anos. No ano seguinte, fui aprovado em letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e em jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Então me lembrei do meu texto sobre música brasileira, que na minha cabeça era um trabalho jornalístico. Em 2012, fui para Minas Gerais.

Trabalhei durante todo o curso, por isso levei seis anos para terminar a faculdade. Fui garçom, entregador de panfleto, secretário em curso de ioga, recenseador do IBGE e até segurança em show do Michel Teló (apesar de minha baixa estatura: 1,68 metro de altura). Foi na universidade que conheci a minha companheira, Regina, o melhor presente que o curso me deu. Desde que voltei para o Rio, em 2018, vivemos um relacionamento a distância: eu na Baixada, e ela em Ouro Preto, fazendo mestrado em história. Prometi conseguir um trabalho para alugar uma casa para nós dois. Ainda não cheguei lá, mas vai rolar.

Por volta de 16 horas, fui entregar uma compra de quase 1 500 reais na Avenida Atlântica. A moradora foi super mal-educada, pegou a sacola e jogou no chão, não deu nenhuma gorjeta e ainda fechou a porta com força na minha cara. Depois pude ouvi-la gritando com o marido. Quando desci, disse para o porteiro: “Pô, grossa pra caramba essa fulana, hein?” Ele respondeu: “Tu não viu nada. Ela reclama o dia inteiro. Uma vez, na reunião de condomínio, pediu para retirar a televisão que fica na portaria para os porteiros não ficarem assistindo.”

Na volta para casa, li no Twitter que o presidente pretendia demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Às vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo uma distopia. Fiquei balançando a cabeça, como se dissesse: “Não, não, não.” Uma moça sentada à minha frente ficou olhando para mim. Ela deve ter pensado que eu estava discutindo com a minha namorada.

 

7 DE ABRIL_TERÇA-FEIRA_Consegui me levantar às 4h30. Primeiro gol do dia. Peguei o trem exatamente às 5h19. Segundo gol. Cheguei na loja antes das 7 horas. Hat trick.

O bom de chegar a essa hora é que às 15h20 posso ir embora. Cheguei em casa às 17h20, e ainda deu tempo de passar no mercado e comprar o que faltava: produtos de higiene, frutas, pão, macarrão e 2 quilos de peito de frango. E duas barras de chocolate também, que ninguém é de ferro.

Eu moro só com a minha mãe, e temos uma relação muito boa. Ela está perto de se aposentar, então só trabalha às quartas e sextas. Vivemos em uma vila de seis casas, sendo três da minha família: além de nós, moram duas tias aposentadas, que agora estão também em quarentena. Só saem de casa pra ir ao mercado ou à farmácia, sempre protegidas.

Nossa casa é pequena mas confortável. Minha mãe tem o quarto dela, eu tenho o meu. Nos últimos meses, por causa das chuvas frequentes, um pedaço do teto do meu quarto abriu. Tive que dormir no quarto da minha mãe por alguns dias. Quando o sol voltou, juntamos uma grana e compramos o material necessário para consertar o estrago. Moro em uma das avenidas principais de Nilópolis e tenho uma vista privilegiada da estação de trem. Quando está muito quieto na rua, consigo ouvir da minha casa o sistema de som da SuperVia avisando em quantos minutos os trens vão chegar. É uma facilidade estar perto do principal meio de transporte público de que nós, baixadenses, dispomos para ter acesso ao Rio. Sou um suburbano privilegiado. Quase um playboy.

 

8 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Voltei para o meu horário normal de 10 horas. O gerente já me esperava para fazer duas entregas, felizmente para duas senhoras bem simpáticas, que me deram gorjetas: a primeira, 2 reais; a segunda, 5 reais. O movimento estava bem baixo, então deu tempo de esfregar com esponja e sabão duas prateleiras da minha seção.

Às três da tarde, fui fazer uma entrega para uma senhora de 94 anos, que se tornou minha mais nova cliente favorita de todos os tempos. Primeiro, porque ela me chamou para entrar na casa dela. Eu não acreditei, a maioria das pessoas nem sequer me olha. Depois, logo que entrei, ela fechou a porta e perguntou se eu queria água. Nunca nenhum cliente tinha me perguntado isso. O tempo todo ela foi educada: é a personificação daquele estereótipo da velhinha fofa. Perguntou onde eu morava. Quando eu respondi que era na Baixada, ela contou que já tinha morado em Nova Iguaçu. Ela foi gentil e carinhosa o tempo todo, e eu, como bom pisciano, amo receber carinho. Teve um momento em que ela até pediu para me dar um abraço. Mas, infelizmente, tive que recusar e explicar que não era seguro. O turno foi até mais agradável depois de fazer a entrega para a dona Augusta.

 

9 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_No momento em que eu batia o ponto ao chegar no trabalho, o gerente falou: “Sandrinho, tem cinco entregas para você fazer.” Lá fui eu. Quando voltei, havia mais duas. Sete entregas antes do almoço! Um recorde. Só fiquei um pouco chateado porque não foi um dia de pessoas generosas. Apenas duas deram gorjetas, de 2 reais e 4 reais.

À tarde, criei coragem e fui pedir ao gerente para sair vinte minutos antes do meu horário. Como sou impulsivo e sincero, fui logo explicando que o motivo era fútil: assistir ao show do cantor Péricles Faria numa live no YouTube. Eu sou muito fã do Pericão. Minha psicóloga, a Cláudia, sempre me diz que eu tenho que ter mais malícia. O consultório dela fica no Centro de Nilópolis, a cinco minutos a pé da minha casa. Vou duas vezes por mês, que é o que dá para pagar com o meu salário, economizando muito. Mas vale a pena.

O gerente me deixou ver o Pericão.

 

12 DE ABRIL, DOMINGO DE PÁSCOA_Hoje saí de casa bem arrumadinho. Passei meu spray antifrizz no cabelo e borrifei três vezes o perfume que comprei de presente de Natal para minha mãe. Tirei uma selfie. Postei. Desejei que a foto tivesse cheiro. Não o cheiro do Centro de Nilópolis, que é bem desagradável, e sim o meu. A máscara escondeu meu sorriso (eu uso máscara o tempo todo fora de casa), mas meu cabelo estava lindo na foto. Não à toa minha namorada me chama de Príncipe da Baixada.

Cheguei na farmácia às 6h55. A supervisora, que abre a farmácia, mandou mensagem dizendo que ia atrasar. Fui olhar o mar. A praia estava deserta. Tirei uma foto que gostei tanto que mandei para a Regina, para a minha mãe, para o meu pai, para os meus stories e, se pudesse, colocava num outdoor.

Tenho uma conexão bem forte com o mar, desde pequeno. Na adolescência, ver o mar se tornou uma terapia para mim quando fui jubilado do Cefet. Eu aproveitava a gratuidade do transporte a que tinha direito e ia até a Zona Sul. Não gastava um real e passava a tarde sozinho olhando o oceano. De vez em quando, pedia para alguém olhar minha mochila e dava um mergulho rápido. Só de estar diante do mar, eu já me sentia melhor.

A farmácia abriu só às 7h30. Na maior parte da manhã fiquei no caixa. Nos raros momentos em que não tinha ninguém, fui separar as caixas de produtos que haviam chegado na noite anterior. Oito caixas de álcool em gel de 440 ml e duas de frascos de bolso. Para a alegria de quem estava sem Reuquinol, chegaram três caixas do remédio. Foi o primeiro medicamento à base de cloroquina ou hidroxicloroquina que a farmácia recebeu desde que os boatos começaram. Na parte da tarde, um rapaz passou pelo meu caixa com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina, o antibiótico que geralmente é receitado junto com a cloroquina. Eu até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado.

Só fui fazer entrega a partir do meio-dia, quando chegou mais um funcionário. Não ganhei gorjeta nem votos de Feliz Páscoa. Mas a verdade é que não tem ninguém feliz nessa quarentena.

 

13 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Manhã com movimento de domingo de final de mês. Bem fraco. Até as entregas estavam devagar, apenas duas. A segunda foi na Avenida Atlântica. Na volta, comecei a ouvir uma discussão. O som da briga foi ficando mais intenso e, quando procurei de onde vinha, reparei que era de um prédio. Uma moça, num dos andares mais altos, estava ameaçando se jogar da varanda. Teve uma hora em que ela se pendurou na tela de proteção, mas alguém a puxou de volta. Gelei. Acho que nunca me recuperaria do trauma que é ver um suicídio assim. Não faço ideia de quem seja essa mulher, mas hoje estou mandando pensamento positivo para ela.

Na hora do almoço, li sobre a morte do Moraes Moreira. Que triste. Como bom estudante de ciências humanas, ouvi muito os Novos Baianos durante os anos de faculdade. Minha tia me falou que o Moraes Moreira era amigo do balconista de uma farmácia perto da casa dele. Me imaginei esse rapaz, não vou mentir. Seria uma honra. Acabou chorare.

 

15 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Hoje eu completo um ano na farmácia. É uma mistura de sentimentos. Existe a frustração por eu não estar trabalhando na área em que me formei, mas existe também o orgulho. Orgulho por saber que trabalho bem, que todo mundo, nas três lojas por onde passei, gosta de mim. Aprendi muito neste ano. Passei a pesquisar sobre os princípios ativos dos medicamentos, coisa que nunca antes tinha imaginado fazer.

Minha história com essa farmácia é um pouco curiosa. Quem me indicou foi uma amiga querida, que conheço da época em que eu frequentava a comunidade da Joss Stone no Orkut. Ela ficou com pena de mim, no ano passado, quando viu uma postagem que fiz sobre os sucos que eu estava vendendo no trem. Naquela época, eu trabalhava como massoterapeuta – o que ainda faço nas horas vagas –, mas fazia uma semana que não tinha nenhum cliente. Como estava parado, tive essa ideia dos sucos de laranja e maracujá. Preparei o suficiente para umas vinte garrafinhas e assim fui camelô de trem por dois dias. Vendi todos em menos de duas horas. Como amo um elogio, eu perguntava para alguns clientes: “Tá gostosão, né?”

Essa minha amiga é farmacêutica e trabalha na empresa há cinco anos. Com bastante moral aqui dentro, ela me indicou para uma entrevista, e fui aprovado. Comecei numa loja na Visconde de Pirajá, em Ipanema, das 7 horas às 15h20. Mas, como a gerente regional logo gostou de mim, três meses depois me transferiu para uma loja de Copacabana. De início foi horrível, porque o movimento é infinitamente maior. Demorei para acostumar meu corpo ao novo ritmo de trabalho. Em janeiro, fui promovido a atendente 2 e mudei de filial mais uma vez (mas ainda em Copacabana).

Esse tempo entre Ipanema e Copacabana serviu para que eu entendesse bem melhor a Zona Sul. Para muitas pessoas do subúrbio, a Zona Sul é uma coisa só. Agora que vou todos os dias, consigo enxergar bem as diferenças. Catete, Glória e Laranjeiras são bairros de classe média pouco elitizados. Flamengo e Botafogo são também de classe média, mas com algumas pessoas de classe alta. Copacabana é bem menos elitizado do que parece. Tem gente de classe alta, mas boa parte é falida. O que mais vejo na farmácia é gente implorando um desconto. Claro que há uma diferença abissal entre o custo de vida de Copacabana e o de qualquer lugar da Zona Norte ou da Baixada Fluminense. Mas Copacabana está longe de ser um bairro só de rico.

Ipanema, Leblon e Gávea são os bairros que mais se aproximam do imaginário propagado no subúrbio do que é a Zona Sul. Em Ipanema, eu atendia muito mais gente nitidamente endinheirada do que em Copacabana, e foi lá que vi empregadas domésticas uniformizadas, que para mim, até então, eram apenas personagens das novelas de Manoel Carlos. Como iam fazer compras na farmácia, eu conversava com elas. Eram em geral mulheres pretas, dando amor para os filhos brancos das patroas. Em Copacabana, atendo muita empregada doméstica, mas nunca vi nenhuma de uniforme. Eu também conversava muito com os gringos, por ser o único funcionário da farmácia que fala inglês. Eles eram muitos em Copacabana, durante o ano todo. Desde o início da pandemia, porém, os gringos sumiram.

Na parte da tarde, o gerente regional foi à nossa filial para falar sobre o farmacêutico que teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado e ficaria mais catorze dias afastado. Explicou que uma equipe de limpeza viria desinfetar a loja.

 

16 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Dia de folga. Dormir bem é delicioso demais.

Além da cloroquina, nos últimos dias o ministro da Ciência, Marcos Pontes, passou a apostar num outro medicamento que já existe – o vermífugo Annita – para combater o novo coronavírus. Pois bem, hoje ele virou um medicamento controlado, justamente por causa das fake news dos últimos dias. Agora, só com receita.

O que era esperado aconteceu. Mandetta foi demitido. Temos um presidente que demite um ministro por ele seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Chega a ser difícil acreditar nisso. Mais uma vez, teve panelaço em muitos lugares. Nilópolis não foi um deles.

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado”

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado” FOTO: RICARDO BORGES_2020

Sandro Aurélio, 29 anos, formou-se em jornalismo, mora na Baixada Fluminense e trabalha numa farmácia em Copacabana. No balcão ou nas entregas em domicílio, convive com clientes estressados, ouve desaforos, recebe algumas gorjetas – e ganha o dia quando é tratado com pequenos gestos de gentileza.

14
Jul21

O impeachment é urgente para derrubar o homem que já assassinou mais de 525 mil brasileiras e brasileiros

Talis Andrade

Manifestantes protestam contra Bolsonaro em São Paulo, no dia 3 de julho de 2021.

 

Bolsonaro é mito, sim

Para destruir a criatura mítica será preciso refundar o Brasil

 
 
 
 

Bem antes da eleição de 2018, ao ouvir pela primeira vez a massa de crentes políticos ovacionar Jair Messias Bolsonaro como “mito”, minha primeira reação foi horror. Horror por testemunhar que havia gente —muita gente— disposta a chamar aquele homem violento, obsceno e estúpido de “mito”. Tentei entender o porquê, mas sempre pensando na nomeação de “mito” como um tremendo equívoco. Agora, que o “mito” tornou-se o maior responsável pelo extermínio de mais de 525 mil brasileiras e brasileiros, percebo que Bolsonaro é, sim, um mito. E é por ser mito que está tão difícil fazer o impeachment mais do que justificado e mais do que urgente, o impeachment que é a melhor chance de evitar a ampliação da semeadura de cadáveres. É por Bolsonaro ser mito que (ainda) não conseguimos impedi-lo de seguir nos matando.

Não olho para o “mito” dos crentes políticos que seguem Bolsonaro, este que vem da popularização do termo nas redes sociais, pela palavra “mitou”, quando alguém faz ou diz algo considerado incrível. Ou “divou”.  Também não olho pela lente do mito pop, como seria Marilyn Monroe ou Elvis Presley, por exemplo, parte da mitologia que alicerça o soft power dos Estados Unidos pela produção de Hollywood. Olho para o mito como a narrativa/imagem/enredo que explicam  uma sociedade, povo, país. Bolsonaro é criatura-mito.

Neste exercício de interpretação, Bolsonaro inverte o percurso, ao realizar-se no plano que chamamos realidade para então nos levar a origens brutalmente reais, mas encobertas por mistificações como “país da democracia racial” ou “nação miscigenada” ou “povo cordial”, entre outras que nos falsificaram para nos formar —ou deformar.

Precisamos compreender que Bolsonaro é um mito para poder destruí-lo como mito. Parto dos gritos de “mito” da massa embrutecida para interpretar Bolsonaro como uma criatura mitológica feita de todos os nossos crimes. Ele é rigorosamente isto. Se fôssemos enumerar todas as violências que constituíram e constituem o que chamamos de Brasil, elas estão todas representadas e atualizadas em Bolsonaro. Este Messias é feito de cinco séculos de crimes, esta humana monstruosidade é constituída por todo o sangue criminosamente derramado.

Em Bolsonaro estão o os indígenas quase tão “humanos como nós”, estão os negros que “nem para procriadores servem mais”, estão as mulheres paridas nem da costela de Adão, mas de uma “fraquejada” do macho sujeito homem na cama, está a homofobia que prefere “um filho morto em um acidente de trânsito a um filho gay”, está a execução de todos aqueles que não são feitos a sua imagem e semelhança por “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”.

Bolsonaro contém a trajetória completa. Da fundação do Brasil pela destruição dos povos originários ao último país das Américas a abolir a escravidão negra. Da política de branqueamento da população, executada desde o Império pela importação de europeus, à República fundada por um golpe militar e abalada ciclicamente por golpes ou tentativas de golpes militares. Se Bolsonaro é filho de seu pai e de sua mãe, ele é também e muito mais filho de todas as políticas que fizeram de um território não circunscrito, intensamente povoado por populações originárias humanas e não humanas, o estado-nação circunscrito que chamamos Brasil.

Bolsonaro realiza em seu corpo-existência todas as políticas que fizeram do Brasil o que ele é —todos os crimes que fizeram do Brasil o que ele é. E os afirma como valor, como origem e como destino. Seu DNA é Brasil. Se todas as políticas que alicerçaram os genocídios indígenas e negros, assim como as grandes violências, fossem convertidas em carne, elas seriam Bolsonaro. Elas são. Que essa criatura mitológica tenha irrompido no momento em que os negros ampliavam sua participação e sua demanda por participação, a população indígena crescia apesar de todos os processos de extermínio e as mulheres ocupavam as ruas com seus corpos não é, obviamente, coincidência. A criatura irrompe para interromper, barrar, interditar uma disputa que ameaça sua própria gênese.

Quando Bolsonaro invoca para si a “verdade”, neste sentido, o do mito, ele está rigorosamente afirmando a verdade. Ele é a verdade sobre o Brasil. Não toda a verdade, nunca toda a verdade, mas uma parte substancial da verdade da nação fundada sobre corpos humanos e não humanos, sobre a violação e esgotamento da natureza, sobre a corrupção dos corpos e do patrimônio comum. Nação fundada e ativamente assim mantida até hoje. O grande mentiroso mente sobre tudo, mas não sobre o que é —nem sobre o Brasil.

Quando Bolsonaro simula uma arma com os dedos, ou um de seus rebentos, ele está apontando para onde? Para a população. Para nós. E atira, como a pandemia nos mostrou. O que pode ser mais explícito? A criatura mitológica do país que mata parte do seu povo de forma sistemática só pode ser um matador compulsivo.

Eu, que gosto de literatura de fantasia, cinema de fantasia, séries de fantasia, fico imaginando um blockbuster. Um país que torturou e matou por cinco séculos de repente é assombrado por uma criatura humanamente monstruosa que passa a torturar e a matar à luz do dia, no centro da República. Em algum momento, passa a matar também as elites que a engendraram em suas igrejas, o “mercado” entre elas. Como ficção, Bolsonaro é um personagem ruim, plano e inverossímil. Como realidade, porém, é mais aterrador do que qualquer personagem de ficção.

Penso que precisamos criar ficção para enfrentar a realidade de Bolsonaro. Em 21 de abril, por exemplo, o movimento #liberteofuturo, que invoca a imaginação do futuro como instrumento de ação política no presente, fez o julgamento de Bolsonaro por genocídio numa plataforma de manifestação virtual (manifão). O artista Mundano criou o troféu “genocida”: uma escultura à base de lama de Brumadinho (80%) e resina (20%), com acabamentos usando óleo do vazamento do Nordeste, spray e um pedaço de luva emborrachada amarela. Imaginávamos o que lutamos para que aconteça, mas não acontece, imaginávamos justiça. Ao imaginar e realizar, interviemos no presente. Ao mesmo tempo, denunciávamos, por meio de um julgamento real, que produz realidade embora não possa colocar Bolsonaro na cadeia, a omissão tanto das cortes brasileiras quanto das internacionais diante do extermínio e do genocídio liderados por Bolsonaro usando a covid-19. Mais do que ficção, precisamos de arte para retomar o presente.

A dificuldade de fazer o impeachment de Bolsonaro, assim como a dificuldade de julgá-lo por seus crimes, é justamente porque Bolsonaro é mito. O que ele explica do Brasil está ativo, absolutamente ativo, no processo de impeachment. Arthur Lira (PP) tem o supertraseiro sentado sobre osuperpedido de impeachment e escorado pelos parlamentares de aluguel do Centrão. Entre os líderes da CPI que investiga a atuação de Bolsonaro e de seu Governo na pandemia, despontam Renan Calheiros (MDB) e Omar Aziz (PSD). Se a citação dos nomes não for autoexplicativa, basta fazer um Google. Assim, mesmo quando Bolsonaro, o homem, é investigado e enfraquecido, como está acontecendo agora, Bolsonaro, o mito, se fortalece, porque é o Brasil encarnado por Bolsonaro que está em ação. É o Brasil sendo Brasil, é um acerto entre semelhantes.

Bolsonaro precisa ser impedido dentro da Constituição, e quanto antes for, menos mortos haverá. Defendo o impeachment há muito tempo. Mais. Quero vê-lo no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional, em Haia, julgado por extermínio contra a população não indígena e por genocídio contra os indígenas, ambos crimes contra a humanidade. Sem estes dois atos formais, não haverá justiça. Mas tudo isto se refere ao homem Bolsonaro. Para o mito, é muito mais complicado. E ainda mais importante.

O que está em curso hoje é (mais) um rearranjo. Um dos grandes, porque este é um dos grandes momentos da história do Brasil. Bolsonaro, o homem, levou a extremos a devoração da Amazônia e de outros enclaves da natureza, fez a ponte entre as milícias de cidades como Rio de Janeiro e as milícias da Amazônia, converteu parte das polícias militares em milícias autônomas. E, finalmente, o que não estava no programa, usou a covid-19 como arma biológica para matar —e matar muito mais os indígenas e os negros que estão mais expostos ao vírus. Matar os indígenas para eliminar a principal resistência à exploração predatória da floresta, os negros porque o racismo os declara como “a carne mais barata (e abundante) do mercado”.

Bolsonaro, o homem, usou a pandemia para levar a extremos a matança “normal” do Brasil, criando um “novo normal” de assassinatos em massa cometidos sem máscaras —em todos os sentidos— desde o centro do poder. E, assim, superou extasiado sua própria profecia: não 30 mil numa guerra civil, mas mais de 525 mil numa pandemia. O plano de disseminação do vírus para alcançar “imunidade de rebanho”, supostamente para manter a economia ativa, já está amplamente demonstrado. As últimas denúncias de corrupção na compra de vacinas mostram também que Bolsonaro pode ter atrasado a imunização da população para faturar e/ou deixar outros faturarem propinas. Puramente Brasil. Assassinato e corrupção amalgamados.

Bolsonaro, o homem, serve a Bolsonaro, o mito. Ele vem com a praga, é a própria praga gestada desde dentro. Mas, quando se torna praga, é apenas o homem a serviço do mito. Ao levar a matança declarada a extremos, Bolsonaro converte os protagonistas da destruição continuada, aquela que é tratada como “normal”, em lideranças “equilibradas”, “sensatas”, “respeitadoras da Constituição”. Democratas, até humanistas. Este serviço de lavanderia feito pelo homem é a melhor oferenda ao mito.

É a relação entre Ricardo Salles, até o mês passado ministro do meio ambiente, e Tereza Cristina, que segue sendo ministra da Agricultura. Salles fazia o serviço sujo de forma espetaculosa para que Tereza Cristina posasse como agronegócio moderno, costurando os ataques aos suportes naturais de vida em diligência silenciosa e persistente, como o recorde absoluto de aprovação de agrotóxicos. Esta estratégia é espichada até quase além de seus limites, e então Salles cai —não para mudar, mas para que a política de fundo não mude. O chanceler Ernesto Araújo foi mantido até quase além do possível, e então, quem o derruba? Katia Abreu, símbolo do ruralismo, articuladora importante das relações com a China, a grande potência mundial emergente, principal parceira comercial do Brasil, consumidora de mercadorias que antes eram natureza, potência que busca ampliar sua presença na Amazônia e no setor energético do Brasil.

Até aqui, eu cometi uma violenta imprecisão neste texto. Ela está no uso do “nós”. Não existe no Brasil esta unidade chamada “nós”. Nunca existiu. Há uma maioria massacrada e uma minoria que massacra. Esta é a história que Bolsonaro, o mito, nos conta. Em diferentes episódios, parte dos massacrados adere a seus próprios algozes na expectativa de faturar alguma sobra ou por acreditar que este é o único caminho possível para mudar de lugar. Como, em parte, aconteceu na eleição de 2018.

Em algum momento, que esperamos seja logo, o homem Bolsonaro será sacrificado para que o mito permaneça ativo. E mesmo aqueles que enxergam o tabuleiro inteiro precisam, devem ir às ruas pelo impeachment, para que menos morram. É preciso ter presente, porém, que quando Bolsonaro cair, seguiremos governados pelo mito e declaradamente por aqueles que só mudam de nome na história do Brasil. É preciso ter presente que não será possível respirar nem por um segundo.

A luta será então muito mais complexa, mais difícil e mais acirrada porque alguns dos mais nefastos jogadores, antes reconhecidos como nefastos jogadores, agora posam de democratas e até de humanistas. Não é outra coisa que Renan Calheiros, Omar Aziz, Tereza Cristina, Katia Abreu e até mesmo Luiz Henrique Mandetta fazem, entre muitos, muitos outros. Ou, pegando os novos nomes do velho sistema, que alquimia extraordinária Bolsonaro fez ao converter em democratas equilibrados figuras como Kim Kataguiri e outros milicianos digitais do MBL, que apenas ontem destruíram reputações com fake news, perseguiram professores de escola pública e levaram artistas a ser ameaçados de morte. Ou ainda a alquimia de tornar Joice Hasselmann e Alexandre Frota defensores da ética na política. Sem contar alguns expoentes da imprensa que colaboraram ativamente para que Bolsonaro fosse eleito e hoje se “horrorizam”, antirracistas e feministas desde o nascimento.

As diferenças fundamentais, hoje pasteurizadas pela cortesia de Bolsonaro ao prestar este serviço de lavanderia inestimável aos donos do país, ressurgirão. E a carnificina elevada a outro padrão seguirá sendo executada. O mito nasce da realidade. Só é possível destruir um mito alterando radicalmente a realidade que ele ecoa e representa. Sem a realidade, o mito se esvazia.

O que quero dizer é que devemos assumir o “nós”, mas sem perder a perspectiva das diferenças vitais, e lutar para derrubar —pela Constituição, sempre pela Constituição— o homem Bolsonaro. Aqueles que podem devem se insurgir nas ruas com vacina no braço, máscaras bem ajustadas no rosto e distância física rigorosa, se insurgir para que o Brasil não chegue a um milhão de mortos pela covid-19 propagada por Bolsonaro e pelo seu Governo. Mas o impeachment de Bolsonaro não é o fim. É só recomeço. Uma ruptura prevista na Constituição para a continuidade da luta de fundo. Porque só será possível derrubar o homem. O mito seguirá.

Para destruir o mito precisaremos refundar o Brasil. Os massacrados de cinco séculos, que são também a encarnação de uma capacidade de resistência monumental, porque sobrevivem mesmo depois de cinco séculos de destruição sistemática de seus corpos, devem tomar o centro que a eles legitimamente pertence para criar uma sociedade capaz de bem viver sem destruir os suportes de vida do planeta, as outras espécies e a si mesma. Só destruiremos o mito criando outra realidade, um Brasil que não negue sua origem de sangue, mas seja capaz de se inventar de outro jeito.

Esta é a luta. Porque não há tempo, ela precisará ser feita junto com o luto dos mortos e com a documentação da memória dos mortos. Ao destruir a floresta amazônica, o Brasil se tornou um dos líderes da corrosão do planeta. Estamos em emergência climática. O tempo está contra nós. A derrubada do homem Bolsonaro é um pequeno passo, a destruição do mito é o caminho. E ela é estratégica para que este planeta ainda possa ser uma casa.Image

 
 
29
Jun21

Peça chave em denúncia de vacina é indicação de Barros e Lupion

Talis Andrade

 

Luís Miranda diz em entrevista que Roberto Ferreira Dias é parte central de esquema

 

 
27
Jun21

Bolsonaro pode ser julgado em Haia por gestão da pandemia?

Talis Andrade

Charge: Imunidade de rebanho. Por Laerte

Bolsonaro, imunidade de rebanho, por Laerte

 

  • Paula Adamo Idoeta /BBC News 

 

A discussão em torno da tese da imunidade de rebanho por contaminação em vez de por vacinação, e se essa tese foi ou não colocada em prática no Brasil durante a pandemia - potencialmente contribuindo para as mais de 500 mil mortes por covid-19 no país -, pode ganhar um novo capítulo jurídico, embora longo e de difícil resolução.

Senadores da CPI da Covid têm discutido a possibilidade de denunciar o presidente Jair Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional (TPI), corte em Haia, na Holanda, encarregada de julgar indivíduos acusados de quatro tipos de crimes graves: crimes contra a humanidade, genocídio, crimes de guerra e crimes de agressão — em que políticos e militares podem ser responsabilizados por invasões ou ataques de grandes proporções.

A discussão de Bolsonaro se tornar alvo do TPI por conta da gestão da pandemia já ocorria no ano passado, mas volta a ganhar corpo com os depoimentos da CPI. O argumento de parte dos senadores é de que já há indícios de que teria havido intencionalidade da administração federal em "infectar" deliberadamente a população na busca pela imunidade de rebanho - algo negado oficialmente pelo governo e seus defensores.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam, no entanto, que um caso do tipo teria grandes obstáculos para avançar no TPI - como, por exemplo, comprovar que houve dolo por parte do presidente brasileiro (ou seja, intenção de infectar deliberadamente a população) até explicar por que a Justiça brasileira não daria conta de lidar com a questão (entenda abaixo).

Além disso, a maioria das denúncias que chegam ao TPI costumam não passar pelo crivo rigoroso da Procuradoria do tribunal, e um dos motivos disso é que a corte internacional não tem como atribuição substituir os sistemas judiciais nacionais dos países.

Consultada pela BBC News Brasil, a assessoria do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, afirmou que até o momento não foi formalizada nenhuma intenção de entregar o relatório final da CPI ao tribunal internacional - trata-se apenas de uma possibilidade discutida por senadores da comissão.

O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da CPI, afirmou na terça-feira (22/6) que é muito cedo para pensar em levar o caso a Haia, mas não descartou que a medida seja adotada caso se conclua nas investigações da CPI que houve "crime contra a humanidade" por parte do presidente.

"Ainda é muito cedo para essa especulação", disse Costa à BBC News Brasil, embora ele ao mesmo tempo opine que, a partir dos depoimentos ouvidos até agora, "já existem elementos suficientes para colocar que o governo adotou isso [imunidade de rebanho] como estratégia. A ideia era o maior número possível de pessoas se contaminarem na expectativa de com isso gerar uma imunidade de uma parcela delas e o vírus parar de circular".

Jair Bolsonaro já é alvo de cinco representações criminais no TPI, e uma nova queixa relacionada à gestão da pandemia foi apresentada por profissionais de saúde em julho de 2020.

Imunidade de rebanho

Do ponto de vista científico, a imunidade de rebanho é obtida por meio de vacinação, criando-se uma proteção coletiva contra determinada doença. Em contrapartida, a ideia de imunidade de rebanho por contaminação não tem respaldo científico e é algo que, no caso da covid-19, potencialmente aumenta o número de adoecimentos e mortes e dá oportunidade para o vírus se proliferar descontroladamente e, por consequência, desenvolver novas variantes mais perigosas.

Embora o Ministério da Saúde nunca tenha oficialmente adotado a estratégia de imunidade de rebanho sem vacinas, Bolsonaro afirmou diversas vezes que a contaminação da maioria da população era inevitável e que "ajudaria a não proliferar" a covid-19.

"Muitos pegarão isso [o vírus] independente [sic] dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde", afirmou Bolsonaro em 15 de março de 2020 à CNN Brasil.

No mês seguinte, Bolsonaro afirmou que "o vírus vai atingir 70% da população, infelizmente é uma realidade".

Em live no último dia 17 de junho, Bolsonaro afirmou, erroneamente, que "todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina". Isso não é verdade: a infecção por covid não impede uma reinfecção, principalmente diante da circulação de cepas mais perigosas do coronavírus. Além disso, os cientistas ainda não sabem, com clareza, o quanto uma infecção de fato produz de imunidade no corpo.

E na última sexta-feira (25/6) o ministro da Economia, Paulo Guedes, também mencionou, em uma audiência, da aposta na imunidade de rebanho. "A ideia de imunidade de rebanho foi uma ideia difundida lá no início (da pandemia). Não se falou em barreira sanitária, testagem em massa, vacinas, nada disso. A ideia é vamos aos poucos porque, se for todo mundo ao mesmo tempo, explode a capacidade hospitalar".

Em depoimento à CPI da Covid em 11 de junho, o médico sanitarista Claudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa, afirmou que se tentou "produzir imunidade de rebanho à custa de vidas humanas".

"O governo se manteve na posição de produzir imunidade de rebanho, com essa conotação toda, para a população, em vez de adotar medidas reconhecidas pela ciência para enfrentar a crise", declarou Maierovitch.

Esse argumento é a base das discussões sobre uma possível queixa contra Bolsonaro no TPI - de intencionalidade na adoção de uma política que acabaria se provando danosa à população.

No entanto, a jurista brasileira Sylvia Steiner, que foi juíza do TPI entre 2003 e 2016, explica que seria preciso coletar um conjunto robusto de provas para que um caso do tipo conseguisse avançar na corte internacional.

"Em relação à CPI, seria necessário aguardar um pouco mais os depoimentos para ver se, para além de uma política desastrosa, houve um projeto de forçar a imunidade de rebanho por contaminação. Se isso ficar demonstrado, não digo que possa configurar crime contra a humanidade, mas pode ser melhor explorado [juridicamente]", diz Steiner à BBC News Brasil.

Ela explica que uma política de saúde, mesmo que mal executada, por si só não necessariamente vai ser entendida pelo TPI como um ataque deliberado à população.

"Se houve uma política de Estado para forçar a contaminação, aí a coisa pode mudar. Mas é cedo para chegar a essa conclusão."

O jurista Belisário Santos Junior também aponta obstáculos que conheceu em primeira mão na tramitação do TPI: ele é integrante da Comissão Arns, entidade de direitos humanos que é coautora de uma das queixas já apresentadas contra Bolsonaro no tribunal internacional. Trata-se de um pedido feito em 2019 por uma investigação preliminar das ações do presidente brasileiro por "incitação ao genocídio e ataques sistemáticos contra populações indígenas". No momento, a queixa está sob análise da Procuradoria do TPI.

Santos explica à BBC News Brasil que qualquer denúncia relacionada à gestão da pandemia teria de demonstrar claramente o eventual "atentado doloso deliberado contra a saúde", além de explicar por que a Justiça brasileira não teria sido capaz de reagir a isso, gerando-se portanto a necessidade de se recorrer à Justiça internacional.

Isso é algo difícil de ser demonstrado em um momento em que a própria CPI ainda está em andamento, explica o jurista - embora ele destaque que o número de mais de 500 mil mortos por covid-19 no Brasil seja "algo dantesco e maior do que muitos genocídios somados", algo que pode ter um peso importante em uma eventual denúncia.

O jurista destaca ainda que o TPI "não é o remédio para todos os males" jurídicos, inclusive porque as denúncias feitas à corte têm um caminho longo a percorrer até de fato serem convertidas em julgamentos - quando o são.

Osmar Terra na CPI; deputado fez defesas públicas da imunidade de rebanho, mas em seu depoimento negou que tenha defendido isso como "proposta de governo"

 

Nos quase 20 anos desde sua implementação, o TPI promoveu 30 julgamentos, resultando na prisão de 17 pessoas. Outras 13 são consideradas foragidas, entre elas políticos internacionalmente conhecidos, como Omar al-Bashir, ex-presidente do Sudão e acusado de homicídio, extermínio, tortura e estupros na região de Darfur; e o líder rebelde Joseph Kony, do Exército de Resistência do Senhor, grupo acusado de homicídios, escravidão sexual e estupro e outros atos desumanos em Uganda.

'Resultado final de pandemias'

O tema da imunidade de rebanho começou a ser investigado pela CPI da Covid a partir de depoimentos como o do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que afirmou ter tido a "impressão" de que o governo Bolsonaro pretendia adotar essa medida no país.

"A impressão que eu tenho é que era alguma coisa nesse sentido [de buscar a imunidade de rebanho], o principal convencimento, mas eu não posso afirmar", afirmou o ex-ministro à CPI.

Uma minoria de cientistas internacionais chegou a aventar essa ideia ou colocá-la em prática em alguns países, como o Reino Unido, mas ela foi rapidamente abandonada depois que estudos começaram a mostrar que ela resultaria na perda de milhares de vidas.

Isso porque a contaminação pelo novo coronavírus, além de potencialmente levar à morte pessoas de diferentes idades e condições de saúde, não necessariamente impede uma reinfecção, nem protege contra variantes mais perigosas do vírus.

Apontado como um dos principais influenciadores de Bolsonaro nesse tema, o deputado Osmar Terra (MDB-RS) afirmou nesta terça (22/6) à CPI da Covid que nunca defendeu a "tese de imunidade de rebanho".

"Essa ideia de imunidade de rebanho ser uma proposta [de governo] é um absurdo. A imunidade de rebanho é um resultado final" de pandemias, disse. "A imunidade de rebanho nunca foi uma estratégia, é uma constatação de como termina uma pandemia. Isso está em todos os livros."

No entanto, declarações prévias de Terra contradizem isso. Em 12 de dezembro de 2020, quando tinham se passado nove meses de pandemia, ele afirmou que "é bem provável que em algumas semanas cheguemos a imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho".

Essa e outras falas de Terra sobre o assunto foram exibidas em vídeo na CPI durante o depoimento do deputado.

Terra afirmou, ainda, que não acredita que suas opiniões tenham tido influência sobre as decisões tomadas por Jair Bolsonaro.

Senadores governistas, porém, têm defendido o direito de o presidente se consultar com pessoas de fora do Ministério da Saúde.

"Pedir sugestões, filtrar, é uma obrigação de cada gestor. Não tem nada a ser recriminado de qualquer gestor público, seja ele prefeito, governador, presidente", declarou o senador Jorginho Mello (PL-SC) durante o depoimento de Terra. "Ouvir as pessoas é uma coisa muito salutar e evita o erro. Se aconselhar e depois tomar a posição que quiser tomar."

Daniel A. Dourado
@dadourado
Vejam aí a declaração do Osmar Terra da semana passada. Ele continua sendo o mentor dessa política completamente absurda do governo Bolsonaro.
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25
Jun21

Carta de pesquisadoras: o que o Brasil precisa fazer para controlar a pandemia

Talis Andrade

 

Na Nature Medicine, Ester Sabino, Lorena Barberia e Silvia Figueiredo Costa pedem uma abordagem cooperativa e coordenada para lidar com a crise sanitária que se prolonga em altos índices de casos e mortes

 
por Jornal da Usp
 

As professoras da USP Lorena Barberia , Silvia Figueiredo Costa e Ester Sabino assinam uma carta publicada na revista Nature Medicine nesta segunda-feira, 21 de junho.

Dando um panorama do cenário brasileiro na pandemia, após mais de 14 meses de seu início, as cientistas lembram que os brasileiros ainda sofrem com milhares de mortes todos os dias, aumento de casos, superlotação de hospitais e alta letalidade do vírus. “Quem está na linha de frente entende que o Brasil está em guerra com a covid-19”, declaram. 

Entre os muitos fatores que explicam por que o número de vítimas da pandemia no Brasil é tão alto, elas incluem sua estreita conexão com os mercados mundiais, a vulnerabilidade socioeconômica de grande parte da população e a desigualdade persistente no País.

Mas um dos fatores mais cruciais da crise sanitária no Brasil, argumentam, é a falta de comando centralizado, planejamento estratégico e recomendações claras baseadas em evidências desde o começo.

Enquanto o quarto ministro da Saúde a ser nomeado desde o início da pandemia tenta orientar a resposta à crise, o Brasil continua sendo o epicentro da pandemia na América Latina. “A batalha contra o sars-cov-2 será perdida sem um comando central e deixará para trás um país terrivelmente dividido”, alertam.

Elas sugerem que o plano deve começar reconhecendo as ações, fora e dentro do próprio país, que estão dando certo. “Nos poucos casos em que foram impostos bloqueios mais rígidos, como em Araraquara (SP), e adotadas estratégias de vigilância voltadas para a atenção básica, como em São Caetano do Sul (SP), essas medidas se mostraram extremamente eficazes.”

As cientistas ressaltam o papel de líderes que possam construir consensos, e que uma comunicação clara e concisa com a população, mas sempre com base em evidências, é crucial. Para elas, os governantes precisam agir com o objetivo de construir confiança e cooperação, valorizando a ciência. “Não há mais espaço para os governantes priorizarem o oportunismo político e a divulgação de notícias falsas.”

Além disso, reafirmam que o Brasil precisa adotar medidas mais rígidas de distanciamento físico e, em alguns Estados, lockdown. Intervenções não farmacêuticas devem ser coordenadas entre os Estados, e os programas de assistência social devem ser direcionados para atender às necessidades das populações vulneráveis.

Sem essas políticas mais rígidas, argumentam, “o nível de adesão ao distanciamento social é baixo, em parte porque a maioria das pessoas no Brasil não pode trabalhar em casa”. 

Elas defendem, entretanto, que um lockdown estrito só será eficaz se a capacidade do País de prever e responder à transmissão do sars-cov-2 for melhorada. E isso deve feito com testagem acelerada e em massa, “focada na identificação de pessoas que estão transmitindo o vírus a outras, além do rastreamento e testagem de seus contatos”. Como solução para as regiões com menor infraestrutura para testagem, sugerem como alternativa o uso generalizado de testes rápidos de antígenos. O sequenciamento genético para detectar variantes existentes e novas de interesse também é necessário. 

Quanto à vacinação, as autoras dizem que a velocidade precisa ser ainda maior. A produção no Brasil sofre com “atrasos na importação de insumos farmacêuticos ativos e entregas abaixo dos níveis combinados”. E enquanto isso não se resolve, num contexto de “fornecimento global de vacinas limitado”, os líderes nacionais precisam preparar a população para outras intervenções que reduzam a disseminação.

Por fim, elas defendem que esforços para conter a pandemia no Brasil também precisam da participação da comunidade internacional.

Por exemplo, “em vez de concentrar esforços na introdução de passaportes de vacinas e na propagação do nacionalismo de vacinas, a Europa e os Estados Unidos devem liderar esforços para garantir que os custos de testes, medicamentos, equipamentos médicos e vacinas sejam acessíveis para garantir um suprimento adequado no Sul Global”, declaram.

E cobram: “Não há desculpa para atrasos na entrega de reagentes de vacinas previstos em contratos, especialmente porque os ensaios das vacinas Sinovac [CoronaVac] e ChAdOx1 [Oxford-AstraZeneca] foram conduzidos e parcialmente pagos pelo Brasil.”

(Trechos em aspas em tradução livre)

04
Jun21

NISE YAMAGUCHI E IRMÃOS TIVERAM REUNIÕES SECRETAS COM A CÚPULA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Talis Andrade

Médica que CPI da Covid suspeita ser parte do “gabinete paralelo” de Bolsonaro fez encontros em Brasília sem registro em agendas oficiais. Inclusive defendeu a imunização de rebanho sem uso da vacina

 

por Paulo Motoryn /The Intercept
 

A MÉDICA NISE YAMAGUCHI, que depõe à CPI da Covid nesta terça-feira, 1º de junho, foi apontada como “conselheira paralela” de Jair Bolsonaro pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e o diretor-presidente da Anvisa, o militar da ativa da Marinha Antonio Barra Torres.

Agora, documentos mostram que ela frequentou o Ministério da Saúde, ao longo de seis meses, para reuniões nos gabinetes do então ministro interino Eduardo Pazuello e do secretário-executivo – o número dois da pasta – Elcio Franco. Nise estava tão à vontade que escalou até os irmãos para encontros com a área responsável pela indicação de medicamentos ao  SUS.

Nenhuma das visitas consta nas agendas oficiais de Pazuello e de Franco, nem foi divulgada publicamente. Mas elas indicam a influência direta da entusiasta da cloroquina sobre o alto escalão da pasta. As reuniões secretas são mais um indício da existência do que a CPI da Covid chama de “ministério paralelo”: um grupo de negacionistas que influenciou a tomada de decisões de Bolsonaro na pandemia, contrariando evidências e políticas de saúde.

Os registros das ida da médica ao ministério estão em documento que recebi via Lei de Acesso à Informação, no qual constam os registros de todos os visitantes da sede do ministério em Brasília em 2020. De acordo com a lista, Nise Yamaguchi esteve no prédio em pelo menos quatro datas em junho, julho e dezembro de 2020. Em duas delas, a médica passou pela recepção mais de uma vez, nos períodos da manhã e da tarde – o que indica que teve reuniões que ocuparam todo o dia.

As visitas secretas dos Yamaguchi ao Ministério da Saúde

Da portaria ao gabinete de Pazuello

Em resposta a requerimentos feitos por senadores da oposição, a Casa Civil da Presidência entregou à CPI documentos que mostram quatro visitas de Nise ao Palácio do Planalto. Agora, os registros de acesso ao Ministério da Saúde mostram que a influência da médica e de seus irmãos também foi exercida diretamente no comando da pasta.

As reuniões de Nise Yamaguchi e seus irmãos no Ministério da Saúde, porém, não haviam sido reveladas nem mesmo pela médica.

Nise se encontrou pela primeira vez com Bolsonaro após o início da pandemia de covid-19 em 6 de abril de 2020, quando, a convite dele, foi a um almoço no Palácio do Planalto, em Brasília. À época, o presidente já reclamava publicamente da resistência do então ministro Luiz Henrique Mandetta em defender o uso maciço da cloroquina contra a covid-19.

Dois meses depois do primeiro encontro com Bolsonaro, em 10 de junho, Nise pisou pela primeira vez no Ministério da Saúde. À época, Eduardo Pazuello já era ministro interino.

A lista de visitas indica que a médica entrou às 9h41 no prédio e foi encaminhada ao órgão descrito como “GM” – identificação usada para o gabinete do ministro da Saúde. Foi um dia cheio. Nise voltou a passar pelas catracas do prédio à tarde, às 14h50. Desta vez, foi encaminhada à “SE”, sigla para a secretaria-executiva, então comandada pelo coronel da reserva do Exército Elcio Franco.

Naquele dia, como em todas as outras visitas de Nise à sede da pasta, as agendas oficiais de Pazuello e Franco não registraram os encontros. A Lei de Conflito de Interesses, de 2013, prevê que agentes públicos em cargos de confiança ou de comando divulguem diariamente suas agendas de compromissos, mesmo que reservadas a despachos internos. Quando se trata de ministros e secretários-executivos, a publicação é obrigatória e visa a transparência na administração pública. Nesse caso, a falta de anotação indica que Pazuello e Franco acharam melhor esconder as visitas de Nise.

Naquele 10 de junho, ela não estava sozinha. Foi acompanhada da irmã, Greice Naomi Yamaguchi, que entrou no prédio nos mesmos horários que ela. Greice sequer é médica. Diz ser graduada pela Fundação Getúlio Vargas e ter feito mestrado e doutorado na França em administração de empresas. Participou do governo de transição de Bolsonaro, é adepta de teorias da conspiração e tentou carreira política pelo Novo e pelo PSL.

Nessa e em suas outras visitas ao Ministério da Saúde, Greice Naomi tomou um rumo diferente da irmã: foi encaminhada ao oitavo andar do prédio. Ali, funciona a Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. É o setor responsável por “formular e implementar políticas nacionais de assistência farmacêutica”, fomentar “parcerias público-privadas na produção de produtos estratégicos” e “coordenar o processo de incorporação e desincorporação de tecnologias em saúde no âmbito do SUS”.

Aquela não havia sido a primeira visita de Greice Naomi ao ministério. Na tarde de 6 de abril – logo após a irmã Nise almoçar com Bolsonaro –, ela e outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi, dono de um consultório na Avenida Brasil, uma das regiões mais caras de São Paulo, já haviam ido ao oitavo andar do prédio em que funciona a pasta.

Dois dias depois, em 12 de junho, as duas irmãs voltaram ao ministério para reuniões no período da tarde. No dia seguinte, 13, um sábado, Nise se reuniu no Palácio do Planalto com o então assessor da Presidência Arthur Weintraub.

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Os irmãos Charles Takahito, Nise e Greice Naomi Yamaguchi posam para foto durante evento. Foto: Reprodução/Twitter

 

Em 18 de junho – ou seja, seis dias após a terceira visita de Greice –, a secretaria passou a ser comandada por Hélio Angotti Neto, médico e discípulo de Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira. Ele é mais um defensor do inexistente tratamento precoce da covid-19, que inclui a cloroquina, e chegou a encomendar um manual com orientações sobre a medicação.

Depois da posse de Angotti, Greice Naomi não voltou ao ministério. Mas Nise, sim. A médica voltou a aparecer na lista de visitantes do Ministério da Saúde pouco mais de 15 dias depois, em 2 de julho. Desta vez, passou pelas catracas em dois horários diferentes, às 10h40 e 16h58. Nas duas ocasiões, foi enviada para o gabinete do ministro interino Pazuello.

A médica voltaria a Brasília em 8 de setembro, quando se reuniu com o assessor da Presidência Filipe Garcia Martins no Palácio do Planalto. A última visita dela ao Ministério da Saúde em 2020 ocorreu em 30 de dezembro, quando foi encaminhada à secretaria-executiva comandada por Elcio Franco.

Um levantamento mostra que, enquanto Nise frequentava sigilosamente o Palácio do Planalto e o Ministério da Saúde, de março de 2020 a janeiro de 2021, o governo Bolsonaro implementou ao menos quatro medidas federais promovendo ou facilitando a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina.

Em março, retirou a exigência de receita médica especial para pacientes que recebem os remédios. Em maio, um protocolo do Ministério da Saúde recomendou uso de cloroquina em todos os casos de covid-19, inclusive com sintomas leves; em junho, flexibilizou a prescrição de ivermectina, nitazoxanida, cloroquina e hidroxicloroquina. Em janeiro deste ano, lançou o TrateCov, aplicativo que indicava automaticamente cloroquina em casos de suspeita de covid-19.

Nesse período, Bolsonaro também atuou como garoto-propaganda do remédio, usando o currículo de Nise para sustentar seus argumentos. Contaminado pela covid-19 no início de julho, ele disse a jornalistas, no dia 7 daquele mês, que usou cloroquina para tratar a doença.

“Estou muito bem e credito isso não só ao atendimento dos médicos, mas pela forma como ministraram a hidroxicloroquina, que [teve] reação quase imediata. Poucas horas depois [de tomar], já estava me sentindo muito bem”, disse o presidente. Cinco dias antes da declaração, Nise havia passado o dia no Ministério da Saúde.

Duas semanas depois, em 24 de julho, Bolsonaro foi fotografado por jornalistas oferecendo caixas do medicamento às emas que vivem no gramado da residência oficial.

BRASILIA, DF,  21-05-2020:  A médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi, que defende o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, chega ao palácio do Planalto na manhã de hoje. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Nise Yamaguchi: portas abertas – às escondidas – no governo federal para defender remédios sem efeito contra a covid-19. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

 

Ministério paralelo

Nascida em Maringá, interior do Paraná, em 1959, Nise Yamaguchi se formou em Medicina na Universidade de São Paulo, a USP, em 1982 e se tornou imunologista e especialista em oncologia. Até os primeiros meses da pandemia, atuava no Hospital Israelita Albert Einstein, um dos mais prestigiados no Brasil. Mas foi afastada do corpo clínico da instituição em julho do ano passado, após fazer analogia entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do Holocausto.

Em meados de março de 2020, Nise se tornou conhecida do grande público por conceder entrevistas para diversos veículos de comunicação e gravar vídeos fazendo a defesa do que chama de tratamento precoce com cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19. As sociedades brasileiras de ImunologiaPneumologia e Infectologia afirmam que os remédios são inócuos contra o novo coronavírus, mesma posição da Organização Mundial de Saúde, a OMS, e das autoridades sanitárias dos Estados Unidos e de países da Europa.

O alinhamento de Nise ao bolsonarismo é recente. A médica chegou a ser chefe de gabinete do Ministério da Saúde em São Paulo de 2007 a 2010, quando a pasta estava sob o comando do então ministro José Gomes Temporão no segundo mandato de Lula. Em reportagem publicada na revista piauí em 2007, a jornalista Daniela Pinheiro investigou os bastidores da atuação do então ministro da Saúde e ouviu de Nise que ela mesma havia sido a autora da indicação dele a ministro do governo petista.

Luiz Henrique Mandetta disse à CPI suspeitar de ‘assessoramento paralelo’ a Bolsonaro sobre pandemia.

“Um dia, encontrei-me com o [Roberto] Kalil [médico que atendia o ex-presidente Lula] na porta do Incor. Foi muita coincidência. Eu falei que tinha que ser o Temporão [o novo ministro da Saúde]. Era preciso um nome da área, suprapartidário, competente. Era a nossa chance de conseguir isso. Ele me perguntou: ‘ele é seu amigo? Você confia nele? Então vai ser’”, disse.

A CPI da Covid tem colhido indícios de que a política de combate à pandemia do governo Bolsonaro foi desenhada por um grupo informal de assessores sem atuação formal dentro do Ministério da Saúde. Chamado de “gabinete paralelo”, “ministério paralelo”, grupo de “aconselhamento paralelo” ou de “assessoramento paralelo”, ele teria insuflado o negacionismo do presidente e, ao mesmo tempo, lhe dado argumentos para defendê-lo.

Além de Nise, os suspeitos de integrar o grupo são os médicos Luciano Dias Azevedo, Paolo Zanotto, Anthony Wong e Osmar Terra, além do empresário Carlos Wizard. Os assessores especiais da Presidência, Arthur Weintraub e Filipe Garcia Martins, também podem ter participado do grupo.

Em seu depoimento à CPI, Mandetta afirmou acreditar que Bolsonaro recorria a “outras fontes” e citou o termo “assessoramento paralelo” para caracterizar a busca do presidente a informações sobre a pandemia de coronavírus diferentes das fornecidas pelo Ministério da Saúde.

“Isso não é nenhuma novidade para ninguém. Havia por parte do presidente um outro olhar, uma outra decisão, um outro caminho. Todas as vezes que a gente explicava, o presidente compreendia. Ele falava: ‘ok, entendi’. Mas, passados dois ou três dias, ele voltava para aquela situação de quem não havia talvez compreendido, acreditado ou apostado naquela via. Era uma situação dúbia. Era muito constrangedor para um ministro da Saúde ficar explicando por que estávamos indo por um caminho, se o presidente estava indo por outro”, afirmou Mandetta aos senadores.

O relator da CPI, Renan Calheiros, do MDB alagoano, e o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues, da Rede do Amapá, disseram nos últimos dias estarem convencidos de que a atuação do grupo pró-cloroquina junto ao presidente realmente existiu.

Em audiência na Câmara dos Deputados, Nise Yamaguchi defendeu a imunização de rebanho sem uso da vacina.

“Acho que já temos muita coisa comprovada com relação à existência do ‘gabinete paralelo’. Já temos até o número de reuniões que eles tiveram”, disse Calheiros. Esse gabinete paralelo apostava – e insiste – em cloroquina, aglomeração e imunização de rebanho”, afirmou Randolfe, durante audiência.

Em 28 de outubro do ano passado, por sugestão do líder do governo na Câmara dos Deputados Ricardo Barros, do PP do Paraná, uma comissão da Câmara discutiu a possibilidade de se buscar a imunidade de rebanho da covid-19 no país, que seria obtida evitando-se o isolamento e permitindo que um alto percentual da população se infectasse pelo coronavírus. Entre os debatedores, estavam Nise, Zanotto e Wang – os três defenderam a estratégia de contaminação em massa da população.

“Nesse momento, não vai existir ninguém no mundo que possa dizer que você vai sair na rua e não vai pegar uma tuberculose, ou uma outra infecção viral”, disse Nise à comissão. A médica chegou a ser cogitada como nova ministra da Saúde depois das demissões de Mandetta, em abril, e de Nelson Teich, seu sucessor, em maio. Nas duas ocasiões, foi preterida.

Entrei em contato com Nise, Greice Naomi e Charles Yamaguchi através dos e-mails e telefones disponíveis em suas redes sociais. Na única ligação atendida, às 11h18 da segunda-feira, 31 de maio, uma secretária do consultório de Nise disse que informaria a médica sobre meu pedido de entrevista. Não tive retorno.

O Ministério da Saúde foi procurado na sexta-feira, 28 de maio. A assessoria de comunicação disse que enviaria as justificativas para as visitas dos irmãos Yamaguchi até a manhã de segunda-feira, 31 – o que não ocorreu. O espaço segue aberto para manifestações.

16
Mai21

Com medo da CPI do genocídio procurador manda a polícia federal intimar Luis Nassif

Talis Andrade

Nassif diz que Paulo Guedes ainda é movido pelo modelo Pinochet

Será o Benedito, CPI da pandemia? 

É ele sim. O Benedito da Cloroquina

"Fui intimado pela Policial Federal por denúncia do procurador Ailton Benedito. Que também denunciou seu colega Luiz Francisco. Entrou com ação para obrigar o Estado a entregar cloroquina", informou o jornalista Luis Nassif (foto), em seu twitter.

Ailton, o Benedito, de parceria com Ernesto Araújo, queria uma guerra do Brasil com a Venezuela, pois é doutor em terraplanismo, e acredita que a Antártica faz parte do território brasileiro.

Disse Luis Nassif: "Ailton é o procurador que, anos atrás, intimou o Itamaraty a intervir na Venezuela devido à cooptação de jovens brasileiros. O caso se referia à Vila Brasil de Caracas".  

A denúncia do procurador é uma desastrada, malévola e perniciosa vingança. Em 5.11.2016, Luis Nassif escreveu no portal Outras Palavras:

Ailton é o procurador que intimou o Itamaraty a exigir explicações da Venezuela sobre a cooptação de jovens do Brasil. A operação referia-se à Vila Brasil, em Caracas. Recentemente, quis proibir manifestações políticas em universidades. Aliás, a indicação de Ailton para a PRDC de Goiás é a demonstração acabada dos prejuízos que o sistema de eleição direta traz para o MPF. Equivale à indicação do pastor Marcos Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Quem julga que faço blague, que consulte os escritos desse procurador. Candidatar-se a uma função com o objetivo de frustrar seus fins é, no mínimo, uma atitude antiética. Não consta até hoje que o CNMP tenha se pronunciado sobre esses abusos"

Tem mais: o procurador ameaçou médicos a receitar cloroquina e ivermectina. Publicou o jornal O Globo:

"Em suas redes sociais, Ailton Benedito costuma defender o uso da cloroquina, tem criticado a obrigatoriedade da vacinação contra Covid-19, posiciona-se contra a prática do lockdown e se refere com ironia a uma frase que era utilizada pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. "A 'ciência, ciência, ci ênnn cia!' ainda não mostrou evidência de que a Covid-19 respeite lockdown". 

"A manutenção de Ailton na PGR compromete Augusto Aras", reafirmou Nassif, um jornalista que, diferente do Benedito, honra a profissão.Guinada à direita

 

 

07
Mai21

A história secreta da cloroquina, o novo documentário da TV 247

Talis Andrade

 

Documentário de Joaquim de Carvalho, na TV 247, revelará os interesses bilionários por trás do uso de um remédio ineficaz, que já matou milhares de brasileiros

Enquanto o mundo inteiro correu atrás de vacina, o governo brasileiro, sob a gestão de Jair Bolsonaro, apostou em cloroquina, um remédio ineficaz contra a Covid-19, que foi distribuído a milhares de pacientes como “tratamento precoce”. Em razão desta política desastrosa, o Brasil registrava, no dia 5 de maio de 2021, nada menos do que 12,8% das mortes por coronavírus no mundo (414 mil de um total de 3,2 milhões), muito embora tenha menos de 3% da população mundial.

O Brasil foi, portanto, o epicentro da segunda onda da Covid-19 no mundo, que se alastrou a partir da cidade de Manaus, capital do Amazonas. Distribuir cloroquina, quando já se sabia que era um remédio ineficaz contra a covid-19, foi uma política oficial do Ministério da Saúde, conforme já foi até confessado pela médica Mayra Pinheiro, secretária de gestão de Trabalho da pasta, curiosamente batizada como “capitã cloroquina”.

A cloroquina é o tema central da CPI da Pandemia, que já fez descobertas importantes. Dois ex-ministros da Saúde, Henrique Mandetta e Nelson Teich, revelaram que deixaram seus cargos porque se negaram a ceder às pressões do presidente Jair Bolsonaro, e também de seus filhos, para prescrever a cloroquina. Mais grave do que isso, a CPI também revelou a existência de um decreto para alterar a bula da cloroquina. O que explica o grande interesse pelo tema de Jair Bolsonaro, que chegou até a propagandear o remédio, mesmo sem ser médico? Promover a “imunidade de rebanho”, para que o comércio fosse aberto mais rapidamente? Ou defender interesses privados na produção e na comercialização deste remédio? Por que o Exército brasileiro foi obrigado a produzir cloroquina, enquanto as forças armadas de outros países dedicaram-se a produzir máscaras e Equipamentos de Proteção Individual? Por que o governo brasileiro recebeu do governo de Donald Trump doações de comprimidos de cloroquina, que não foram utilizados nos Estados Unidos?

Para responder a estas questões, o jornalista Joaquim de Carvalho, um dos maiores repórteres investigativos do País, irá a campo para produzir uma grande reportagem sobre o tema. Joaquim entrevistará cientistas, técnicos em saúde, parlamentares e representantes da indústria farmacêutica, envolvidos na produção de cloroquina e também de vacinas, que seriam a saída mais eficiente no combate à Covid-19. Representantes dos conselhos de medicina também serão ouvidos. O documentário entrevistará ainda familiares de vítimas do tratamento precoce, ou seja, pessoas que perderam seus entes queridos após a ingestão de remédios ineficazes.

Os interesses econômicos em torno da cloroquina serão também desvendados. Ao mesmo tempo em que Jair Bolsonaro mentia sobre a cloroquina (ou hidroxicloroquina), um dos fabricantes do remédio no Brasil, a Apsen, que obteve empréstimos do BNDES, aumentava o seu faturamento. As vendas de cloroquina ajudaram o laboratório a alcançar uma receita recorde em 2020, em torno de R$ 1 bilhão, o que representou alta de 18% em relação ao ano anterior. Bolsonaro correu atrás de um ema, no Palácio da Alvorada, com cápsulas de cloroquina por ser incapaz ou porque defendia interesses privados?

No caso do laboratório, o dono da empresa, Renato Spallicci, é militante bolsonarista na rede social. E Bolsonaro apareceu em mais de uma oportunidade exibindo caixa do medicamento com a marca da empresa, inclusive num encontro com líderes do G-20. Outros laboratórios que produzem o medicamento também tiveram aumento expressivo em suas vendas, como a EMS. Um fabricante francês de cloroquina, o laboratório Sanofi-Aventis, autorizado pela Anvisa a vender o remédio no Brasil, também foi prestigiado pela família Bolsonaro. O filho Eduardo publicou uma foto em que Donald Trump, então presidente dos EUA, segurava uma caixa do medicamento. Detalhe: Trump é acionista da empresa.

Orçamento do financiamento coletivo

Joaquim de Carvalho, que realizou o documentário da TV 247 sobre Walter Delgatti, terá em sua equipe a experiente jornalista Denise Assis, que já atuou na produção de diversas reportagens investigativas, e do cinegrafista Eric Monteiro. Os recursos arrecadados serão utilizados para custear as viagens, o deslocamento para as entrevistas e todo o trabalho de edição do documentário, que não terá fins lucrativos. Em nome da TV 247, agradecemos antecipadamente pelo apoio de todos os internautas, que terão seus nomes divulgados como patrocinadores do filme. Apoie neste link: catarse.me/cloroquina.

 

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