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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

26
Ago22

Bolsonaro é definido como 'um dos maiores negacionistas do coronavírus do mundo' em livro didático de escolas na Noruega

Talis Andrade

Bolsonaro é citado em livro didático vendido na Noruega — Foto: ReproduçãoBolsonaro é citado em livro didático vendido na Noruega — Foto: Reprodução

 

por Luiza Tenente, g1

O livro didático "Fabel 10", da Noruega, voltado para alunos de 15 anos, dedica um capítulo às teorias da conspiração disseminadas por governantes durante a pandemia de Covid-19. Como destaque de uma das páginas (veja a reprodução acima), está a imagem do presidente Jair Bolsonaro, definido pelos autores como "um dos maiores negacionistas do coronavírus do mundo" .

 

Bolsonaro é usado [na obra] como um exemplo de líder que foi contra suas próprias autoridades de saúde, e queremos que os estudantes reflitam sobre os efeitos disso", afirma ao g1 a editora Aschehoug, uma das maiores do país europeu.

 

A legenda da foto do presidente relembra a frase dita por ele em 4 de março de 2021, em Goiás, a respeito da comoção nacional diante do número de mortos pela doença: "Chega de frescura, vão ficar chorando até quando?".

O g1 teve acesso à íntegra da obra "Fabel 10", publicada em 2021. Um dos trechos diz, em tradução livre:

Enquanto as pessoas ao redor do mundo ficaram em casa durante a pandemia, ele [Bolsonaro] reuniu grandes multidões ao seu redor e cumprimentou os apoiadores que se aglomeravam ao seu redor. Chamou a Covid de 'gripezinha".

 

O livro escolar ressalta ainda que, "embora a pandemia tenha se espalhado em velocidade recorde no Brasil", o presidente definiu a Covid-19 como "histeria criada pela mídia".

No mesmo capítulo, os autores Helge Horn, Ellen Birgitte Johnsrud , Maria Nitteberg, Åse Marie Ommundsen e Harald Ødegaard relembram a demissão do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, "após criticar publicamente a conduta de Bolsonaro na pandemia".

Por e-mail, a editora justificou a abordagem destes temas ao declarar que "a Covid, o pensamento conspiratório e a desinformação são obviamente relevantes para nossos tempos". "São questões transcurriculares que tiveram um efeito profundo em todos nós (e em particular nas crianças)", afirma a nota.

 

A Aschehoug preferiu não informar nem o número de cópias do "Fabel 10" vendidas, nem o de escolas que adotaram o livro, alegando questões estratégicas do mercado editorial.

Procurada pelo g1, a assessoria de imprensa do governo não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.

 

Livro de norueguês cita Bolsonaro como negacionista — Foto: Reprodução

Livro de norueguês cita Bolsonaro como negacionista — Foto: Reprodução

 

Na parte dedicada às teorias conspiratórias, o livro didático critica também a postura do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump nas eleições de 2020. À época, sem apresentar provas, ele disse que a votação, na qual Joe Biden foi vitorioso, havia sido fraudada.

A obra menciona ainda o episódio da invasão do Capitólio por apoiadores de Trump. "Como pôde ir tão longe? Após este incidente, ele foi banido do Twitter e do Facebook, porque havia espalhado informações falsas", cita o texto.

 

Exercícios sobre 'fake news'

 

Neste livro didático, os alunos são motivados a fazer exercícios sobre as teorias conspiratórias e o negacionismo de Bolsonaro e Trump. Devem responder a perguntas como:

 

  • "Quem foi o responsável pelo número dramaticamente alto de mortes por Covid no Brasil, na sua opinião? Os líderes políticos podem realmente ser responsabilizados por uma pandemia que estava fora de controle?"
  • "As pessoas que espalham desinformação devem ser responsabilizadas?"
  • "Por que evitar a disseminação de inverdades é essencial para garantir a democracia e a cidadania?"
12
Jun22

O combate à autocracia e a vitória do povo

Talis Andrade

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Os sucessivos golpes urdidos pelos filhos do obscurantismo ao longo da história do Brasil nos devem ensinar. A democracia é um valor em si

 

por Alberto Cantalice

- - -

A derrota dos aprendizes de autocratas, viúvas do golpe civil-militar de 1964, se aproxima. Cupins da Coisa Pública: desmontaram o Ibama, o Instituto Chico Mendes, a Funai e os setores responsáveis pela fiscalização do trabalho escravo, do desmatamento da Amazônia, da grilagem e do garimpo clandestino nas terras dos indígenas.

A razia produzida pelo desgoverno Bolsonaro deixará marcas profundas na história do país. Entreguistas, venderam a BR Distribuidora na bacia das almas, privatizaram a refinaria da Petrobras na Bahia, querem queimar a Eletrobras no saldão de fim de feira, ao mesmo tempo que tentam privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

Vergonhosamente, um grupo de militares apresenta um “documento” intitulado Brasil 2035, denotando o desejo de permanecer no poder e propondo com a cara mais lavada do mundo o enfraquecimento do Sistema Único de Saúde e a cobrança de mensalidades em Universidades Públicas. É a velha e surrada “tutela militar” – sempre que a democracia brasileira desperta ela aparece. É uma verdadeira Espada de Dâmocles sobre a cabeça da nação.

Os ataques desferidos pelo aprendiz de autocrata ao Supremo Tribunal Federal e às urnas eletrônicas não passam de “tiros de festim”. Ele tenta desesperadamente inverter a pauta que interessa de imediato ao povo trabalhador: A carestia, a miséria, o desemprego e a inflação. Mesmo assim parte do mercado financeiro e da mídia nacional-totalmente divorciados das agruras em que vive a maioria da população- apostam em uma reviravolta que tire o inominável da situação periclitante eleitoral em que se encontra.

Diferentemente do mote implantado pelo ex-presidente Juscelino Kubistchek (50 anos em 5 de crescimento econômico-social, o país viveu a partir de 2016 um período tenebroso de decréscimo econômico de 5 em 50 anos). O privilégio do fiscalismo e a contração da economia nacional nos lega 16 milhões de desempregados e mais de 20 milhões de brasileiras e brasileiros passando fome.

Esse cenário catastrófico exige das forças democráticas atitudes enérgicas em defesa do futuro da nação. Não é admissível que setores lúcidos e de boa-fé brinquem de fazer política. A hora de derrotar a autocracia e a falta de empatia popular é agora. A chamada “terceira via” nada mais é do que criar embaraços para um novo governo progressista encabeçados por Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmim.

Quanto mais forte for a chapa progressista, mais força terá para reconstruir a nação e ajudar na formação de uma ampla bancada no parlamento que dê sustentação ao futuro governo. Os sucessivos golpes urdidos pelos filhos do obscurantismo ao longo da história do Brasil nos devem ensinar. A democracia é um valor em si. Tem que ser principalizada e não pode ser negligenciada. O restabelecimento do Estado democrático de direito é o início do caminho para construção de uma verdadeira democracia inclusiva e distributiva. O contrário é a barbárie!

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26
Mai22

Polícia Rodoviária Federal de Bolsonaro participa da chacina da Vila Cruzeiro e atualiza câmara de gás nazista para matar preso

Talis Andrade

Jair Bolsonaro decidiu imitar uma pessoa com falta de ar durante a crise de falta de oxigênio na pandemia da covid

 

O poderoso chefão

 

Nesta terça-feira (24), uma chacina realizada pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, executou 25 pessoas negras, e feriu sete, gravemente no Rio de Janeiro.

Na Cidade e no Estado do Rio de Janeiro, os redutos eleitorais da família bolsonaro. Pelo Rio de Janeiro, Bolsonaro foi 28 anos deputado federal. O filho Flávio foi eleito deputado estadual duas vezes, e na última eleição senador. O filho Carlos, pelas urnas democrática e livres e transparentes, vereador no lugar da mãe. 

Rogéria Bolsonaro foi vereadora no Rio por dois mandatos, entre janeiro de 93 e janeiro de 2001. Em 1998, com a separação, perdeu o cargo para o filho Carlos Bolsonaro. 

O governo federal nada faz no Rio sem o mando presidencial, principalmente as polícias federais e milícias. O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, um apagado fantoche. 

 

PRF mílícia das favelas do Rio

 

O ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva diz que “há muito o que ser investigado, principalmente pelo Ministério Público”, na chacina da Vila Cruzeiro.

“É uma operação fracassada. Morreu uma inocente. Em relação aos demais considerados suspeitos, ainda não dá para dizer que morreram só criminosos, ainda que haja constatação de que estavam fortemente armados, uma realidade de boa parte das favelas do Rio. Mesmo que apreendidos 13 fuzis, ainda assim não vale a morte de um inocente”, diz.

Ele afirma ainda que a PRF, ao participar da ação, estava descumprindo a lei. “Há uma questão nessa ação: o que estava fazendo a PRF lá? Decerto, estava descumprindo a lei pura e simplesmente, porque o artigo 144 da Constituição, que trata da incumbência das policias, diz que a responsabilidade da PRF são rodovias federais, só que na Vila Cruzeiro não passa nenhuma via federal. Não é a primeira vez que eles saem do policiamento ostensivo para policiamento ostentação, com roupas de combate. É necessário que o Ministério Público Federal veja isso”, ressaltou.

 

Asfixia o jeitinho bolsonarista de matar
 

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Por falta de UTI nos hospitais, de cuidados paliativos, dezenas e dezenas de brasileiros morreram asfixiados. Notadamente em Manaus. 
 
Sem ar, a morte mais horrenda, que Bolsonaro, fria, sem nenhum sentimento de compaixão pelo sofrimento do povo brasileiro, imitou. Coisa doentia de psicopata. 
 

Em meio à crise vivida no sistema de saúde por conta da pandemia de Covid-19, o presidente decidiu imitar uma pessoa com falta de ar para atacar.

A “imitação” acontece diante de um colapso no sistema de saúde. Com a falta de medicamentos necessários para a intubação com oxigênio.

“Se você começar a sentir um negócio esquisito lá, você segue a receita do ministro Mandetta, que antecedeu o general da ativa Eduardo Pazuello.  Você vai para casa, e quando você estiver lá… Ugh, Ugh, Ugh, com falta de ar, aí você vai para o hospital”, disse o presidente, imitando uma pessoa se sufocando. A cena aconteceu durante a live semanal do ex-capitão, nesta quinta-feira (18). Veja vídeos:

 
 
POLÍCIA ASFIXIA PRESO COM COCAÍNA
 
Na chacina da Vila Cruzeiro as polícias estadual (Bope) e federal (PRF) tortura e mata preso com o pó de coca do kit flagante. 
 
Thainã de Medeiros, de 39 anos, ativista do Coletivo Papo Reto e funcionário do gabinete da deputada estadual Renata Souza (PSOL) na Assembleia Legislativa (Alerj), gravou o momento em que um policial faz o disparo contra ele e um grupo de aproximadamente 30 moradores.
 
Tinha esse corpo ali, que a galera disse que estava na mata. Eu subi com a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e, em determinado momento, a gente entendeu que a Defensoria [Pública] estava chegando e que seria importante eles presenciarem aquele corpo, porque ele estava com visíveis marcas de execução", informou Thainã.
 

O assessor disse que o rosto do cadáver tinha marcas de pó branco, e contou ter ouvido de moradores que o homem teria sido obrigado por PMs a comer cocaína. "A cara dele eu me lembro muito. A boca espumando...", acrescentou.

Thainã não soube dizer quem seria a homem, mas falou que uma irmã e a mãe da vítima apareceram momentos depois. Passados alguns instantes, a mãe teria decidido descer a favela com o corpo.

 

Homem asfixiado na viatura da PRF

 

Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi abordado por policiais rodoviários federais e colocado dentro de "câmara de gás" adaptada

Imagens assustadoras de um homem sendo colocado dentro de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (PRF) cheia de fumaça chamaram atenção da Ordem dos Advogados do Brasil de Sergipe. Em nota, a instituição frisa que acompanha, “de forma vigilante, os desdobramentos das investigações sobre o episódio”.
 
 

Policiais rodoviários federais colocam homem dentro de "câmara de gás" improvisada em viatura

 

“A OAB Sergipe respeita as instituições, mas não compactua com qualquer tipo de violência ou de tortura, razão pela qual se manterá atenta à apuração da responsabilidade pela fatídica morte”, pontua a entidade.

Segundo laudo do Instituto Médico-Legal (IML) de Sergipe, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, morreu por asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda após abordagem violenta da PRF na quarta-feira (25/5). O homem faleceu depois que dois policiais o prenderam dentro de uma espécie de “câmara de gás” nazista montada no porta-malas de uma viatura.

Confira vídeo do momento:

Sâmia Bomfim
@samiabomfim
A tortura e morte de Genivaldo Santos em uma câmara de gás montada pela PRF em uma viatura é um crime bárbaro! Junto com a bancada do PSOL vou acionar o MPF por uma investigação rigorosa, além de cobrar da própria PRF todas as informações relacionadas aos responsáveis pela ação.
Natália Bonavides
@natbonavides
BARBÁRIE! Genivaldo de Jesus, homem negro, foi morto de forma brutal em Sergipe. Sufocado até a morte numa viatura policial transformada em Câmara de Gás. A estrutura racista não muda, só se adapta e segue espalhando ódio e crueldade. Justiça por Genivaldo!
 
17
Nov21

Lewandowski abre inquérito contra Bia Kicis para investigar prática de racismo

Talis Andrade

(Bia Kicis. Foto Carolina Antunes/Palácio do Planalto)

 

247 - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, autorizou nesta quarta-feira (17) a abertura de um inquérito para apurar a possível prática de crime de racismo pela deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF). 

Em setembro de 2020, Bia Kicis publicou em suas redes sociais imagens dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro com “blackface” para criticar o processo seletivo em um programa de trainee exclusivo para negros, realizado pela empresa Magazine Luiza. A prática do "blackface" consiste em escurecer a pele com o objetivo de ridicularizar os negros para o entretenimento de brancos. 

A Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia encaminhado ao Supremo um pedido para a abertura de inquérito contra a deputada. O pedido foi assinado pelo vice-procurador-geral, Humberto Jacques de Medeiros, que compreendeu que a parlamentar foi racista ao escurecer a pele do ex-juiz parcial Sergio Moro e do ex-ministro da Saúde Mandetta. 

 

 

02
Nov21

Brasil Consciente e Grita!: conheça a turma que começou a turbinar a candidatura de Moro

Talis Andrade

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Grupos que já iniciaram a campanha por #Moro2022 se dizem ‘espontâneos’, mas fazem parte de um movimento orquestrado por condenados a lavajatistas

31
Out21

“ISTOÉ”, esgoto da imprensa, cola a cabeça de Moro na foto de Trump

Talis Andrade

Vergonha! candidato da "IstoÉ" é fabricado com photoshop

Vergonha! candidato da "IstoÉ" é fabricado com photoshop
 
Nem pra fazer um retrato a revista "IstoÉ" serve! Basta um photoshop tosco para fabricar o candidato da terceira via
 
18
Out21

A CPI vai amarelar diante de Braga Netto?

Talis Andrade

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por Moisés Mendes
 
Uma figura da República, recolhida à discrição desde o 7 de setembro, pode reaparecer nos próximos dias. Mas só se estiver na lista da CPI do Genocídio, entre os acusados de envolvimento nos crimes da pandemia.

É o general Braga Netto, ministro da Defesa, considerado o mais poderoso e fiel militar ao lado de Bolsonaro. Braga Netto aparece e desaparece nas listas especulativas entre os nomes que a CPI entende que devam ser indiciados.

O nome do general é dado mais como incerto do que certo, porque integrantes da CPI teriam dúvidas sobre as motivações para o pedido de indiciamento.

Devem ter dúvidas e devem ter medos, sentimentos que o senador Alessandro Vieira, do Cidadania de Sergipe, parece não ter.

Em relatório paralelo, que poderá ter apenas valor político, Vieira vai apontar Braga Netto como incurso em crimes de responsabilidade, de epidemia e contra a humanidade.

Muitos querem esquecer que Braga Netto foi, no começo da pandemia, o poderoso chefe do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19.

Sentava-se ao lado do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, nas entrevistas coletivas, e não dizia coisa com coisa. Mandetta usava o colete do SUS, e o general aparecia de terno e gravata.

Ninguém sabia ao certo o que ele fazia e do que entendia. Mais tarde, o próprio Mandetta deu informações decisivas para a compreensão da tarefa do general.

Braga Netto, pelos relatos de Mandetta, pode ter sido o primeiro grande lobista da cloroquina no governo. Era a voz escalada por Bolsonaro para desencadear o milagre do tratamento precoce.

Foi ele quem chamou Mandetta para a famosa reunião de 6 de abril do ano passado, em que um grupo tentou empurrar a minuta de decreto do governo que mudaria a bula da cloroquina, para que o remédio fosse indicado para a Covid.

Braga Netto era o coordenador dessa reunião, quando começava a se formar o gabinete paralelo dentro do Ministério da Saúde. Estava lá a médica negacionista Nise Yamaguchi.

Em uma das primeiras entrevistas sobre esse encontro pró-cloroquina, ao site Poder 360, Mandetta disse:

“Não conhecia essa médica. Talvez se ela tivesse ido ao meu gabinete para se apresentar. Perguntei o nome dela e qual a formação. Tinha um outro médico do lado que eu nunca o vi antes e nem depois, esse aí nem guardei o nome […] E tinha mais pessoas lá [na reunião]… tinha o ministro Braga Netto, pessoas fardadas também”.

Tinha o ministro Braga Netto? Era mais do que isso. Braga Netto, como comandante do gabinete da pandemia, era o chefe da reunião. Naquele momento, não poderia ser subordinado a ninguém, nem a Mandetta.

A reunião era dele, de Braga Netto. O que Mandetta sugere é que Nise, alguns subalternos, inclusive fardados, e outros infiltrados foram usados como laranjas para empurrar o decreto, que o então ministro rejeitou.

Ficaram suspeitas, depois dessa reunião, de que Braga Netto seria pelo menos o inspirador do gabinete paralelo, para que Mandetta fosse esvaziado, como acabou acontecendo.

A ascensão de Eduardo Pazuello militariza a Saúde, com sua turma de coronéis, e abre a porta também para as facções negociantes de vacinas que não existiam. 

Em julho, Braga Netto foi protagonista de um embate com o senador Omar Aziz. Aziz disse, referindo-se aos intermediários de vacinas, que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”.

O general largou uma nota: “Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

E fez uma advertência: “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”.

As Forças Armadas teriam mesmo a prerrogativa de defender a democracia de pretensos ataques de senadores? Que poder seria esse das Forças Armadas?

Pois Braga Netto é de novo candidato a personagem da pandemia. Talvez seja citado na lista dos que devem ser indiciados. Talvez não. 

A CPI pode amarelar e tirar o nome do general que peitou Aziz e o Senado? Saberemos no dia 19, quando sairá o relatório de Renan Calheiros.

É possível que fique de fora do relatório o primeiro comandante da estrutura montada por Bolsonaro para escantear Mandetta e abrir caminho para o gabinete da cloroquina, do negacionismo e da sabotagem à vacinação?

É uma dúvida que pode ser resumida numa interrogação de meia linha: a CPI tem medo de Braga Netto?

Quem tem medo das Forças Armadas?

 
 

A extrema-direita e as redes sociais

 
 
18
Ago21

Quando o brasileiro afirma que vai votar em Lula está afirmando que é contra o golpe de Bolsonaro

Talis Andrade

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O brasileiro não quer a volta do Ai-5, da ditadura militar de 1964. Ninguém quer ser jogado nos porões das delegacias, dos quartéis. 

Tortura nunca mais!

Ditadura nunca mais!

Os pobres que recebem o salário mínimo, os aposentados civis, as filhas solteiras dos civis, os sem terra, os sem teto, os sem nada, os miseráveis, os desempregados já decidiram o voto nas eleições presidenciais de 2022.

Até quando temos de aceitar o crime de ameaça? De suspense? De medo? De ameaça de golpe?

O dia do foda-se do general Augusto Heleno. O dia do golpe. O dia da volta das galinhas verdes. Dos gorilas. Da vida de gado no cercado. Vida severina. De patos amarelos de asas cortadas. 

Basta!

Acabou!

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 rodada de agosto da pesquisa XP/Ipespe mostra continuidade na tendência de crescimento das avaliações negativas do governo Jair Bolsonaro.

No levantamento atual são 54% os que dizem considerar o governo ruim ou péssimo contra 52% no mês passado. O crescimento na rejeição é constante desde outubro de 2020, quando 31% diziam considerar a gestão ruim ou péssima. 

Na outra ponta, os que veem o governo como bom ou ótimo somam 23%, 2 pontos a menos que na pesquisa de julho. Os dois números são os piores para o governo desde o início da série.

A nova rodada da pesquisa XP/Ipespe registra continuidade na tendência de crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula. No levantamento de agosto, ele aparece com 40%, 2 pontos percentuais a mais que na pesquisa anterior, enquanto Bolsonaro tem 24%, 2 pontos a menos que na última sondagem. 

Esta é a quinta pesquisa em que o ex-presidente repete a tendência de alta – ele tinha 25% em março, quando seu nome voltou a ser testado. Atrás dele e de Bolsonaro aparecem Ciro Gomes (10%), Sérgio Moro (9%), Mandetta e Eduardo Leite (4%). O petista também lidera cenário alternativo, em que João Doria (5%) é testado no lugar de Leite e em que são incluídos Datena (5%) e Rodrigo Pacheco (1%) e é excluído, descartado Sérgio Moro. 

Nesse cenário, Lula tem 37% e Bolsonaro, 28%. Lula também continua registrando crescimento no levantamento espontâneo, quando o nome dos candidatos não é apresentado ao entrevistado: ele passou de 25% para 28%, enquanto Bolsonaro segue estável com 22%.

No principal cenário de segundo turno, Lula ampliou vantagem sobre Bolsonaro. O petista oscilou 2 pontos para mais, e Bolsonaro, 3 para menos. Agora o ex-presidente venceria com 51%  contra 32% do atual presidente.

O interesse em relação ao pleito está em alta. Hoje são 49% os que dizem estar muito interessados na eleição,  contra 46% na pesquisa anterior.

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14
Ago21

Pacote eleitoral aprovado pela Câmara traz mais instabilidade para as próximas eleições

Talis Andrade

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Enquanto Bolsonaro não aceita derrota do voto impresso e usa Forças Armadas como ameaça, Congresso avança em reforma eleitoral e pode mudar novamente as regras do jogo.

 

por Raquel Miura /RFI 

Não bastasse a narrativa agressiva do presidente da República, com ataques ao sistema eleitoral, os deputados deram esta semana sua cota de contribuição para deixar mais instável o ambiente jurídico das próximas eleições. No pacote aprovado pela Câmara em primeiro turno, há desde facilidade para que partidos atinjam as cláusulas de desempenho, como a inclusão de senadores que não disputaram as urnas no cálculo, até a retirada de poder do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), cujas normas ou interpretações só terão validade se vierem um ano antes do pleito.

Os deputados incluíram também a volta das coligações, o que favorece os partidos de aluguel e deixa o eleitor confuso, já que ele vota no deputado de um partido e acaba ajudando nomes de outras siglas.

“É muito difícil a sociedade civil ter segurança com essa situação que o Brasil enfrenta. Essa questão das coligações, que a Câmara colocou de forma abrupta, pelas votações de vários partidos, que inclusive não são da base do governo, parece se tratar de uma busca por sobrevivência e de adaptação a esse contexto bastante instável”, disse à RFI a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“As votações sem nenhum debate são mais um problema para a nossa democracia. Já estamos vivendo um dos momentos mais complexos desde 1988. E sem a população participar dessas decisões que afetam o sistema eleitoral, e portanto afetam a forma como vamos eleger nossos representantes, isso é realmente preocupante”, afirmou a pesquisadora diante de mais uma reforma eleitoral.

As mudanças foram aprovadas em primeiro turno na Câmara e, por se tratar de emenda constitucional, terão de passar por uma segunda votação. Depois seguem para o Senado, que esta semana aprovou a Nova Lei de Segurança Nacional, cujo texto antigo, da época da Ditadura Militar, vinha sendo usado para enquadrar críticos do presidente Bolsonaro.

Mais transparência às urnas eletrônicas

As medidas eleitorais aprovadas vieram a reboque da proposta que propunha o voto impresso nas eleições, mas que não atingiu o mínimo exigido, de 308 votos, entre os deputados. Ainda assim surpreendeu o número de parlamentares que apoiaram a ideia, quase 230. Tanto que o presidente do TSE, Roberto Barroso, anunciou medidas para aumentar a transparência, como a abertura aos partidos, um ano antes da eleição, do código-fonte das urnas, o sistema que processa os votos.

“Não há como fraudar o programa uma vez lacrado. E nós queremos fazer isso com a participação e na frente de todos os partidos políticos, além do Ministério Público e da Polícia Federal, que já participam”, disse Barroso, lembrando que nos últimos pleitos nenhuma sigla enviou técnicos ao TSE para fazer a auditoria das urnas. “Não é porque eram contra as urnas. Não enviaram representantes justamente porque confiam no sistema”.

O presidente da Câmara Arthur Lira (PP/AL) tem sido cobrado a endurecer o discurso contra o Executivo porque levou o tema para o plenário sob argumento de que, rejeitado o voto impresso na Casa, Bolsonaro lhe teria assegurado que acolheria a decisão. Porém o presidente tem insistido na retórica contra o atual modelo. Depois de participar de uma exibição de tanques militares na Esplanada no dia da votação, o que foi visto como ameaça política, nesta quinta-feira (12) ele disse que conta com apoio total das Forças Armadas para tomar decisões em favor do país.

“Nas mãos das Forças Armadas está a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia e o apoio total às decisões do presidente para o bem da sua nação”, discursou o presidente.

Postura que o aproxima de presidentes populistas e autoritários de outros países, na visão da analista da UFSCar: “Sem apoio popular, Bolsonaro vai cada vez mais insistir em descreditar instituições. Esse na verdade é um traço comum dos autoritários populistas de países de regimes híbridos ou democracias liberais que a gente vem acompanhando no mundo. Bolsonaro então encontrou um meio de tentar minar a democracia brasileira questionando a legitimidade dessas instituições. Mas a gente aguarda os próximos passos. Me parece que a classe política tem mecanismos e meios de coibir essa tentativa.”

Críticas ao presidente

Num debate na noite dessa quinta-feira com nomes de possíveis candidatos à presidência em 2022 do chamado centro democrático, houve críticas à postura do presidente.

“A falta de respeito, o despudor, a falta de decoro com que se comporta Jair Bolsonaro tem que ter um reparo duro, sóbrio e firme das instituições. Os militares não podem desservir à pátria brasileira, transformando-se numa manipulação odienta de uma milícia a serviço do bolsonarismo boçal”, atacou Ciro Gomes (PDT/CE).

Também nesse evento promovido pelo Centro de Liderança Política, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), que foi o primeiro ministro da Saúde no governo Bolsonaro, comentou a semana tensa no país: “Não existe qualquer estratégia de melhorar a eficácia pública sem democracia. Tivemos uma semana em que o Brasil temeu pela ruptura, mais uma vez pelo tensionamento das instituições democráticas.”

E o tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que no segundo turno em 2018 apoiou Bolsonaro, também falou sobre a crise institucional: “O presidente ataca as urnas. Na verdade nós temos é que resistir, apresentar a partir de nossas instituições, como o Congresso o fez, a resistência democrática.”

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14
Ago21

TEM CLOROQUINA?

Talis Andrade

 

 

Tempos de peste. Um balconista de farmácia conta seu dia a dia durante a pandemia

 

por SANDRO AURÉLIO /Revista Piauí

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1º DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Saí de casa às 8 horas, já preparado para um dia cansativo. O movimento da farmácia não diminuiu quase nada desde o começo da pandemia. Os clientes estão mais ansiosos, tem fila para atendimento no balcão, quase sempre com discussões, porque um reclama da proximidade do outro. Desde março, a farmácia dá aos funcionários uma máscara e um par de luvas por dia. Eu prefiro álcool em gel à luva, mas uso a máscara o tempo todo e também no trem de volta para casa. Não é o ideal, mas acabo tendo que usar a mesma máscara no dia seguinte ao voltar para o trabalho, e só então pego uma nova.

Normalmente, trabalho seis dias por semana, das 10 horas às 18h20. Nesta semana, estou trabalhando todos os dias até as 19 horas para compensar a folga extra que tive no domingo passado. Pode parecer pouco, mas como ficamos em pé o dia inteiro, faz diferença para as pernas.

Minha maior dificuldade com o trabalho é, de longe, o tempo que levo para chegar lá. Eu moro em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense, e a farmácia fica em Copacabana, na Zona Sul. São duas horas para ir e duas para voltar. Faço esse trajeto seis vezes na semana, há praticamente um ano, e ainda não me acostumei. Passar quatro horas dentro de transporte público não é coisa simples.

Antes dos bloqueios por causa do novo coronavírus, eu pegava um ônibus até a Pavuna, bairro da Zona Norte, onde fica a estação de metrô mais próxima da minha cidade, e de lá seguia para Copacabana. Agora não há mais ônibus entre os municípios da Baixada e o Rio. Então, como é complicado chegar ao metrô, só me restou o trem. Todos os dias tenho que mostrar minha carteira de trabalho para os policiais que ficam na frente da estação de Nilópolis provando que estou indo para o emprego.

Os trens estão demorando mais a chegar. Passam de 30 em 30 minutos (antes era de 12 em 12 minutos). Hoje a plataforma estava cheia, menos que nos dias anteriores à pandemia, mas cheia. Quando peguei o trem, às 8h19, já não tinha nenhum lugar para sentar. Em Ricardo de Albuquerque, três estações depois da minha, o vagão lotou. Fiquei bem nervoso quando me vi em meio a tanta gente. Nunca na minha vida cheguei perto de ser hipocondríaco, mas tenho medo de pegar o novo coronavírus. Ainda mais por morar com minha mãe, que tem 63 anos.

Tirei uma foto com o vagão abarrotado de gente, postei no Twitter e marquei o perfil da SuperVia. Eles me responderam: “Sandro, bom dia. Entendemos a sua insatisfação. Por conta do cenário atual em nosso sistema, realizamos alguns ajustes na operação para adequação à nova realidade. Estamos analisando essas mudanças de perto para possíveis melhorias.” Entendi assim: “Bom dia, Sandro, o serviço vai continuar do jeito que está, esperamos que você aceite da forma mais dócil possível.” Um escárnio.

Para mim, ficou claro que a SuperVia se aproveitou da situação para diminuir o número de trens ao mínimo possível. Claro que eles poderiam oferecer viagens mais confortáveis e que ocasionassem menos aglomerações, mas isso teria um custo maior. Me lembro das sábias palavras de Bernardo Negron, vulgo BNegão: Desde que o mundo é mundo, ele nunca foi brinquedo/enquanto uns choram/outros se apressam para vender o lenço/isso nunca foi segredo. O ideal seria ir e voltar com dignidade, mas, se em mais de quinhentos anos de Brasil a classe trabalhadora não recebeu isso, não seria diferente agora.

Na farmácia, cada funcionário é responsável por uma seção diferente. Eu fico com o chamado OTC (uma sigla em inglês: over the counter), os medicamentos de venda livre, que qualquer pessoa pode pegar: paracetamol, ibuprofeno, dipirona, Novalgina, Dorflex, Neosaldina, Buscopan etc. Passei também a fazer entrega nas casas. A farmácia teve que começar com delivery para não perder a clientela. Não ganho nada a mais com as entregas, mas eu gosto, pois me permite caminhar um pouco. Me faz lembrar do período em que trabalhei no IBGE, como recenseador. Também acho legal porque, assim, posso conhecer melhor as ruas de Copacabana. Acontece muita coisa nesse bairro. Às vezes, penso que, se Gabriel García Márquez passasse uns dias vendo o que eu vejo, ele acharia o Rio de Janeiro mais realisticamente mágico do que Macondo.

Hoje fiz quatro entregas. Em uma ganhei uma gorjeta de 5 reais. Na última, no fim do dia, fiquei bem chateado. Fui levar um Xarelto 20 mg, medicamento que custa 240 reais. Ao chegar ao prédio, percebi que tinha esquecido o troco na loja. Esperei o cliente descer, entreguei o remédio em mãos e avisei que voltaria com o dinheiro. E corri até a farmácia. O rapaz viu quando eu voltava correndo, mas ele nem sequer me agradeceu. Pegou o troco e entrou no prédio sem dizer uma palavra. Eu me senti como se nem fosse um ser humano.

 

2 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Trem menos lotado do que ontem, mas ainda com muita gente. Em Deodoro, quatro estações após a minha, consegui lugar para sentar, ao lado de uma senhora de máscara. No vagão, vi apenas seis pessoas de máscara, contando ela e eu. Pouca gente está levando essa pandemia a sério. Na Baixada, as ruas ficaram até um pouco mais vazias em março, mas agora, em abril, o movimento voltou praticamente ao normal.

Lá pelas duas da tarde, uma senhora que eu atendia começou a falar mal do presidente. Adorei. Hoje em dia, muitos clientes começam, do nada, a falar mal dele. E olha que Copacabana é um bairro que, em 2018, apertou com força o 17, o número eleitoral de Bolsonaro. Passei quase um ano sem dar nenhuma opinião sobre política no trabalho. Não acho que possa ser vantajoso para mim e também não quero criar embates. O ponto de mudança foi o pronunciamento do presidente em rede nacional em 24 de março. No dia seguinte, logo que cheguei, não se falava em outro assunto: “Como assim? Um presidente se coloca contra o isolamento da população no meio de uma pandemia?” O fato de ele agir contra o que prega o mínimo bom senso foi demais para muita gente. Ver quase todos os meus colegas falando mal do presidente foi para mim uma libertação. O dia seguinte ao pronunciamento me marcou também de outra forma: pela primeira vez presenciei um panelaço ao vivo. Eram 20h30, eu ainda estava na farmácia quando ouvi muita gente bater panelas. Em Nilópolis, nem no auge do ódio contra a Dilma ouvi panelaço. Atualmente é a mesma coisa: na hora dos panelaços pelo país, que são divulgados nas redes sociais, coloco o ouvido para fora da janela da minha casa e tudo está um silêncio sepulcral.

No final do dia, fiz uma entrega perto de Ipanema, uma compra de 1 240 reais. A cliente morava no décimo andar de um prédio chique de frente para a praia. Quando ela abriu a porta do apartamento, pude avistar o mar. Eu nunca tinha visto o Oceano Atlântico de um lugar tão alto. Ela me deu uma gorjeta gorda de 10 reais (a primeira do dia) e fiquei bem feliz.

 

3 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Minha mãe voltou ao trabalho depois de uma licença de três meses. Ela é funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro, trabalha na parte administrativa de um posto de saúde na Pavuna, que fica a quinze minutos de carro de Nilópolis. Peguei uma carona com ela, embarquei no metrô e fui da Pavuna até Copacabana. Bem mais confortável e vazio que o trem. Em nenhum momento vi gente em pé.

Trabalhar em farmácia nessa época me dá a oportunidade de testemunhar o efeito prático da disseminação de notícias sobre curas milagrosas. A primeira foi que o paracetamol era bom para combater o novo coronavírus. Do nada, as pessoas passaram a comprar loucamente cartelas e caixas de Tylenol. Depois, quando propagaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam a cura da Covid-19, os medicamentos baseados nesses princípios ativos, como Reuquinol, esgotaram. Agora, só podem ser comprados com receita médica. Mas até hoje não chegou nenhuma nova remessa desses produtos. Todo dia, alguém que de fato precisa do remédio por causa de alguma doença – lúpus, por exemplo – sai frustrado da farmácia.

Um dos três farmacêuticos da loja está afastado por suspeita de Covid-19. Além dele, outra pessoa também está afastada, mas por alergia. Todos os funcionários estão aflitos com a pandemia e passam álcool em gel na mão de hora em hora. O maior medo, disparado, é o de pegar o vírus de algum cliente. Estamos trabalhando mais, com menos pessoas. O telefone toca quase que ininterruptamente.

Às 11 horas, atendi ao telefone pela primeira vez. Anotei o pedido, mas só consegui sair para entregar às 13 horas. Antes não tivesse ido. A maquininha não funcionou na casa da cliente. Voltei à farmácia para pegar outra. Mais uma vez, não havia sinal. A cada tentativa frustrada de fazer o pagamento, ela ficava mais nervosa. Já bem alterada, começou a reclamar, num tom de voz alto e angustiado, dizendo que nada na farmácia funcionava e que não deveria nem estar tendo contato comigo, pois tem 75 anos. Eu já estava a mais de 1 metro dela, de luvas e máscara, mas dei dois passos para trás para que percebesse que eu também estava incomodado. Falou ainda que eu tinha atrapalhado o seu cochilo da tarde e que ela não merecia estar passando por aquilo. Eu ouvi tudo calado, mas no final não aguentei e respondi: “Eu também não, senhora.”

Parti para a segunda entrega do dia. Quem me atendeu foi a empregada doméstica, e logo ao abrir a porta senti um cheiro maravilhoso de comida. Já eram quase 14 horas, e eu ainda não tinha almoçado. Voltei para a loja, bati meu ponto do intervalo e devorei minha marmita em dez minutos na cozinha da farmácia, onde dispomos de mesa, geladeira e micro-ondas. Às vezes, depois do almoço, deito uns vinte minutos no chão para dar uma relaxada. Foi o que eu fiz hoje.

Sempre trago comida de casa, porque é mais barato e mais saudável. Minha mãe cozinha bem demais, tenho sorte. Além disso, o auxílio-alimentação é de apenas 4 reais por dia trabalhado. Uso o tíquete no mercado. Esse mês, como vou trabalhar 24 dias, serão 96 reais.

Na parte da tarde, mais uma vez uma pessoa foi até o balcão e perguntou: “Tem Reuquinol?” Chegou mostrando a foto do medicamento no celular e me pareceu ser alguém que não precisava do remédio. O movimento na farmácia foi ininterrupto, e só consegui bater meu ponto de saída às 19h15. Estava tão exausto que mal sentia as pernas.

 

4 DE ABRIL, SÁBADO_Dia de folga. Dormi onze horas seguidas. Foi uma delícia.

 

5 DE ABRIL, DOMINGO_Ao contrário da maioria das pessoas, eu prefiro trabalhar aos domingos. É o único dia em que o movimento é menor. No trem, sentei do lado de um homem que começou a tossir. Troquei de lugar.

Primeiro atendimento do dia: um senhor perguntou sobre cloroquina. Respondi que estávamos sem o remédio e não havia previsão de recebê-lo. Ele continuou, dizendo que conhecia pessoas que tinham sido curadas do novo coronavírus em 24 horas após usarem cloroquina. A história fazia tão zero sentido que em nenhum momento pensei em questionar o homem.

A primeira entrega do dia foi para uma senhora que fez questão de dizer que estava grata por estarmos prestando o serviço de delivery. Não deu gorjeta, mas só por ter me tratado com respeito e dignidade, eu já fiquei feliz. Na parte da tarde, anotei por telefone o pedido de uma cliente, separei o que ela queria e pedi o endereço: Rua Saint Roman. Só descobri que é a rua que leva à comunidade do Pavão-Pavãozinho quando já estava lá perto.

Aos 18 anos, trabalhei por três semanas como vendedor em uma empresa que vendia purificadores de água, porta a porta, nos subúrbios e nas favelas do Rio de Janeiro. Então eu já sabia que, caso encontrasse algum trabalhador do tráfico, era só me identificar que tudo ficaria tranquilo. Traficante respeita trabalhador. A não ser, é claro, que esse trabalhador seja da polícia.

A cliente morava na parte alta do morro, de onde se tem uma vista linda de Copacabana. Tirei uma selfie. Na volta, sentei numa calçada para postar minha foto nos stories do Instagram. Um moleque magrelo de uns 15 anos veio ao meu encontro. “E aí, mano?”, ele falou. Eu respondi: “E aí, mano, suave? Tô só dando uma sentada aqui que já tô cansadão.” O menino era olheiro do tráfico e perguntou se eu andava muito. Falei que sim, que estava com as pernas exaustas.

 

6 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Hoje é aniversário do meu pai. Ele mora em Guapimirim, que fica depois de Magé. É o último município da Região Metropolitana, mas parece interior. Com a pandemia, em Guapimirim (como nos demais municípios da Região Metropolitana) só tem acesso à cidade quem mora lá. Mas, mesmo que tivesse um jeito de chegar, eu não iria, pois meu pai está no grupo de risco: é quase sexagenário, tem pressão alta e sobrepeso. Seria muita irresponsabilidade da minha parte. Postei uma foto nossa que eu amo: nós dois em frente ao Estádio do Maracanã, em 2014, antes de assistirmos ao primeiro jogo do Botafogo pela Libertadores em casa, em dezoito anos. E demos sorte, o placar foi de 4 a 0 contra o Deportivo Quito, do Equador. Em se tratando de Botafogo, assistir a uma goleada assim é sorte em dobro.

Decidi contar ao meu pai que estava escrevendo este diário para a piauí. Eu o ouvi chorando pelo telefone. Fiquei emocionado. Puxei dele a tendência a chorar sempre que dá vontade, e isso me orgulha. Ele disse que essa notícia era o melhor presente possível para ele. Se tem uma coisa que eu não curto nessa vida é me fazer de vítima. Mas o fato de eu nunca ter conseguido nada na área de comunicação depois de formado me dói, e dói muito.

Ninguém na farmácia sabe que eu fiz faculdade de jornalismo. Não contei porque, primeiro, não quero que me olhem ou me tratem de maneira diferente. Segundo, porque é doloroso lembrar como estou distante daquilo que sonhei.

Minha história com o jornalismo não é das mais usuais. Em 2007, eu fui jubilado do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca), onde eu fazia o ensino médio e também um curso técnico de eletromecânica. Eu tirava notas altas em português, história e geografia, mas me dava mal em física e matemática. Por causa dessas matérias, fui reprovado de ano duas vezes seguidas e acabei sendo expulso. A vergonha de ser expulso foi duas vezes maior que o orgulho de ter entrado na escola.

Nessa época, coloquei na cabeça que eu era incapaz de aprender certas coisas. Terminei o ensino médio em uma escola estadual e fui trabalhar numa escolinha de futebol da qual meu irmão era sócio. Com meu primeiro salário, comprei uma sandália da Mr. Cat para a minha mãe. Com o segundo, me matriculei em um curso de inglês. Era o que eu precisava para recuperar minha autoestima intelectual.

Em 2009, a Joss Stone veio tocar no Brasil. Na comunidade da cantora no Orkut, os fãs decidiram fazer uma vaquinha para dar presentes a ela: vestido, bijuterias etc. Eu resolvi dar um texto sobre dez artistas da música popular brasileira, escrito com meu inglês bem mais ou menos da época. Chamava-se “Introducing Brazilian Music”. Deixei na portaria do hotel dela. Como eu não tinha dinheiro para o ingresso do show, decidi imprimir dez cópias desse texto e tentar vender aos gringos na praia. Demorei o dia todo, mas consegui vendê-los e comprar o ingresso.

Em 2010, meus pais se separaram. Meu pai foi morar com uma médica, que o convenceu a pagar um pré-vestibular para mim. Eu estava com 20 anos. No ano seguinte, fui aprovado em letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e em jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Então me lembrei do meu texto sobre música brasileira, que na minha cabeça era um trabalho jornalístico. Em 2012, fui para Minas Gerais.

Trabalhei durante todo o curso, por isso levei seis anos para terminar a faculdade. Fui garçom, entregador de panfleto, secretário em curso de ioga, recenseador do IBGE e até segurança em show do Michel Teló (apesar de minha baixa estatura: 1,68 metro de altura). Foi na universidade que conheci a minha companheira, Regina, o melhor presente que o curso me deu. Desde que voltei para o Rio, em 2018, vivemos um relacionamento a distância: eu na Baixada, e ela em Ouro Preto, fazendo mestrado em história. Prometi conseguir um trabalho para alugar uma casa para nós dois. Ainda não cheguei lá, mas vai rolar.

Por volta de 16 horas, fui entregar uma compra de quase 1 500 reais na Avenida Atlântica. A moradora foi super mal-educada, pegou a sacola e jogou no chão, não deu nenhuma gorjeta e ainda fechou a porta com força na minha cara. Depois pude ouvi-la gritando com o marido. Quando desci, disse para o porteiro: “Pô, grossa pra caramba essa fulana, hein?” Ele respondeu: “Tu não viu nada. Ela reclama o dia inteiro. Uma vez, na reunião de condomínio, pediu para retirar a televisão que fica na portaria para os porteiros não ficarem assistindo.”

Na volta para casa, li no Twitter que o presidente pretendia demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Às vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo uma distopia. Fiquei balançando a cabeça, como se dissesse: “Não, não, não.” Uma moça sentada à minha frente ficou olhando para mim. Ela deve ter pensado que eu estava discutindo com a minha namorada.

 

7 DE ABRIL_TERÇA-FEIRA_Consegui me levantar às 4h30. Primeiro gol do dia. Peguei o trem exatamente às 5h19. Segundo gol. Cheguei na loja antes das 7 horas. Hat trick.

O bom de chegar a essa hora é que às 15h20 posso ir embora. Cheguei em casa às 17h20, e ainda deu tempo de passar no mercado e comprar o que faltava: produtos de higiene, frutas, pão, macarrão e 2 quilos de peito de frango. E duas barras de chocolate também, que ninguém é de ferro.

Eu moro só com a minha mãe, e temos uma relação muito boa. Ela está perto de se aposentar, então só trabalha às quartas e sextas. Vivemos em uma vila de seis casas, sendo três da minha família: além de nós, moram duas tias aposentadas, que agora estão também em quarentena. Só saem de casa pra ir ao mercado ou à farmácia, sempre protegidas.

Nossa casa é pequena mas confortável. Minha mãe tem o quarto dela, eu tenho o meu. Nos últimos meses, por causa das chuvas frequentes, um pedaço do teto do meu quarto abriu. Tive que dormir no quarto da minha mãe por alguns dias. Quando o sol voltou, juntamos uma grana e compramos o material necessário para consertar o estrago. Moro em uma das avenidas principais de Nilópolis e tenho uma vista privilegiada da estação de trem. Quando está muito quieto na rua, consigo ouvir da minha casa o sistema de som da SuperVia avisando em quantos minutos os trens vão chegar. É uma facilidade estar perto do principal meio de transporte público de que nós, baixadenses, dispomos para ter acesso ao Rio. Sou um suburbano privilegiado. Quase um playboy.

 

8 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Voltei para o meu horário normal de 10 horas. O gerente já me esperava para fazer duas entregas, felizmente para duas senhoras bem simpáticas, que me deram gorjetas: a primeira, 2 reais; a segunda, 5 reais. O movimento estava bem baixo, então deu tempo de esfregar com esponja e sabão duas prateleiras da minha seção.

Às três da tarde, fui fazer uma entrega para uma senhora de 94 anos, que se tornou minha mais nova cliente favorita de todos os tempos. Primeiro, porque ela me chamou para entrar na casa dela. Eu não acreditei, a maioria das pessoas nem sequer me olha. Depois, logo que entrei, ela fechou a porta e perguntou se eu queria água. Nunca nenhum cliente tinha me perguntado isso. O tempo todo ela foi educada: é a personificação daquele estereótipo da velhinha fofa. Perguntou onde eu morava. Quando eu respondi que era na Baixada, ela contou que já tinha morado em Nova Iguaçu. Ela foi gentil e carinhosa o tempo todo, e eu, como bom pisciano, amo receber carinho. Teve um momento em que ela até pediu para me dar um abraço. Mas, infelizmente, tive que recusar e explicar que não era seguro. O turno foi até mais agradável depois de fazer a entrega para a dona Augusta.

 

9 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_No momento em que eu batia o ponto ao chegar no trabalho, o gerente falou: “Sandrinho, tem cinco entregas para você fazer.” Lá fui eu. Quando voltei, havia mais duas. Sete entregas antes do almoço! Um recorde. Só fiquei um pouco chateado porque não foi um dia de pessoas generosas. Apenas duas deram gorjetas, de 2 reais e 4 reais.

À tarde, criei coragem e fui pedir ao gerente para sair vinte minutos antes do meu horário. Como sou impulsivo e sincero, fui logo explicando que o motivo era fútil: assistir ao show do cantor Péricles Faria numa live no YouTube. Eu sou muito fã do Pericão. Minha psicóloga, a Cláudia, sempre me diz que eu tenho que ter mais malícia. O consultório dela fica no Centro de Nilópolis, a cinco minutos a pé da minha casa. Vou duas vezes por mês, que é o que dá para pagar com o meu salário, economizando muito. Mas vale a pena.

O gerente me deixou ver o Pericão.

 

12 DE ABRIL, DOMINGO DE PÁSCOA_Hoje saí de casa bem arrumadinho. Passei meu spray antifrizz no cabelo e borrifei três vezes o perfume que comprei de presente de Natal para minha mãe. Tirei uma selfie. Postei. Desejei que a foto tivesse cheiro. Não o cheiro do Centro de Nilópolis, que é bem desagradável, e sim o meu. A máscara escondeu meu sorriso (eu uso máscara o tempo todo fora de casa), mas meu cabelo estava lindo na foto. Não à toa minha namorada me chama de Príncipe da Baixada.

Cheguei na farmácia às 6h55. A supervisora, que abre a farmácia, mandou mensagem dizendo que ia atrasar. Fui olhar o mar. A praia estava deserta. Tirei uma foto que gostei tanto que mandei para a Regina, para a minha mãe, para o meu pai, para os meus stories e, se pudesse, colocava num outdoor.

Tenho uma conexão bem forte com o mar, desde pequeno. Na adolescência, ver o mar se tornou uma terapia para mim quando fui jubilado do Cefet. Eu aproveitava a gratuidade do transporte a que tinha direito e ia até a Zona Sul. Não gastava um real e passava a tarde sozinho olhando o oceano. De vez em quando, pedia para alguém olhar minha mochila e dava um mergulho rápido. Só de estar diante do mar, eu já me sentia melhor.

A farmácia abriu só às 7h30. Na maior parte da manhã fiquei no caixa. Nos raros momentos em que não tinha ninguém, fui separar as caixas de produtos que haviam chegado na noite anterior. Oito caixas de álcool em gel de 440 ml e duas de frascos de bolso. Para a alegria de quem estava sem Reuquinol, chegaram três caixas do remédio. Foi o primeiro medicamento à base de cloroquina ou hidroxicloroquina que a farmácia recebeu desde que os boatos começaram. Na parte da tarde, um rapaz passou pelo meu caixa com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina, o antibiótico que geralmente é receitado junto com a cloroquina. Eu até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado.

Só fui fazer entrega a partir do meio-dia, quando chegou mais um funcionário. Não ganhei gorjeta nem votos de Feliz Páscoa. Mas a verdade é que não tem ninguém feliz nessa quarentena.

 

13 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Manhã com movimento de domingo de final de mês. Bem fraco. Até as entregas estavam devagar, apenas duas. A segunda foi na Avenida Atlântica. Na volta, comecei a ouvir uma discussão. O som da briga foi ficando mais intenso e, quando procurei de onde vinha, reparei que era de um prédio. Uma moça, num dos andares mais altos, estava ameaçando se jogar da varanda. Teve uma hora em que ela se pendurou na tela de proteção, mas alguém a puxou de volta. Gelei. Acho que nunca me recuperaria do trauma que é ver um suicídio assim. Não faço ideia de quem seja essa mulher, mas hoje estou mandando pensamento positivo para ela.

Na hora do almoço, li sobre a morte do Moraes Moreira. Que triste. Como bom estudante de ciências humanas, ouvi muito os Novos Baianos durante os anos de faculdade. Minha tia me falou que o Moraes Moreira era amigo do balconista de uma farmácia perto da casa dele. Me imaginei esse rapaz, não vou mentir. Seria uma honra. Acabou chorare.

 

15 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Hoje eu completo um ano na farmácia. É uma mistura de sentimentos. Existe a frustração por eu não estar trabalhando na área em que me formei, mas existe também o orgulho. Orgulho por saber que trabalho bem, que todo mundo, nas três lojas por onde passei, gosta de mim. Aprendi muito neste ano. Passei a pesquisar sobre os princípios ativos dos medicamentos, coisa que nunca antes tinha imaginado fazer.

Minha história com essa farmácia é um pouco curiosa. Quem me indicou foi uma amiga querida, que conheço da época em que eu frequentava a comunidade da Joss Stone no Orkut. Ela ficou com pena de mim, no ano passado, quando viu uma postagem que fiz sobre os sucos que eu estava vendendo no trem. Naquela época, eu trabalhava como massoterapeuta – o que ainda faço nas horas vagas –, mas fazia uma semana que não tinha nenhum cliente. Como estava parado, tive essa ideia dos sucos de laranja e maracujá. Preparei o suficiente para umas vinte garrafinhas e assim fui camelô de trem por dois dias. Vendi todos em menos de duas horas. Como amo um elogio, eu perguntava para alguns clientes: “Tá gostosão, né?”

Essa minha amiga é farmacêutica e trabalha na empresa há cinco anos. Com bastante moral aqui dentro, ela me indicou para uma entrevista, e fui aprovado. Comecei numa loja na Visconde de Pirajá, em Ipanema, das 7 horas às 15h20. Mas, como a gerente regional logo gostou de mim, três meses depois me transferiu para uma loja de Copacabana. De início foi horrível, porque o movimento é infinitamente maior. Demorei para acostumar meu corpo ao novo ritmo de trabalho. Em janeiro, fui promovido a atendente 2 e mudei de filial mais uma vez (mas ainda em Copacabana).

Esse tempo entre Ipanema e Copacabana serviu para que eu entendesse bem melhor a Zona Sul. Para muitas pessoas do subúrbio, a Zona Sul é uma coisa só. Agora que vou todos os dias, consigo enxergar bem as diferenças. Catete, Glória e Laranjeiras são bairros de classe média pouco elitizados. Flamengo e Botafogo são também de classe média, mas com algumas pessoas de classe alta. Copacabana é bem menos elitizado do que parece. Tem gente de classe alta, mas boa parte é falida. O que mais vejo na farmácia é gente implorando um desconto. Claro que há uma diferença abissal entre o custo de vida de Copacabana e o de qualquer lugar da Zona Norte ou da Baixada Fluminense. Mas Copacabana está longe de ser um bairro só de rico.

Ipanema, Leblon e Gávea são os bairros que mais se aproximam do imaginário propagado no subúrbio do que é a Zona Sul. Em Ipanema, eu atendia muito mais gente nitidamente endinheirada do que em Copacabana, e foi lá que vi empregadas domésticas uniformizadas, que para mim, até então, eram apenas personagens das novelas de Manoel Carlos. Como iam fazer compras na farmácia, eu conversava com elas. Eram em geral mulheres pretas, dando amor para os filhos brancos das patroas. Em Copacabana, atendo muita empregada doméstica, mas nunca vi nenhuma de uniforme. Eu também conversava muito com os gringos, por ser o único funcionário da farmácia que fala inglês. Eles eram muitos em Copacabana, durante o ano todo. Desde o início da pandemia, porém, os gringos sumiram.

Na parte da tarde, o gerente regional foi à nossa filial para falar sobre o farmacêutico que teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado e ficaria mais catorze dias afastado. Explicou que uma equipe de limpeza viria desinfetar a loja.

 

16 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Dia de folga. Dormir bem é delicioso demais.

Além da cloroquina, nos últimos dias o ministro da Ciência, Marcos Pontes, passou a apostar num outro medicamento que já existe – o vermífugo Annita – para combater o novo coronavírus. Pois bem, hoje ele virou um medicamento controlado, justamente por causa das fake news dos últimos dias. Agora, só com receita.

O que era esperado aconteceu. Mandetta foi demitido. Temos um presidente que demite um ministro por ele seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Chega a ser difícil acreditar nisso. Mais uma vez, teve panelaço em muitos lugares. Nilópolis não foi um deles.

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado”

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado” FOTO: RICARDO BORGES_2020

Sandro Aurélio, 29 anos, formou-se em jornalismo, mora na Baixada Fluminense e trabalha numa farmácia em Copacabana. No balcão ou nas entregas em domicílio, convive com clientes estressados, ouve desaforos, recebe algumas gorjetas – e ganha o dia quando é tratado com pequenos gestos de gentileza.

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