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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Nov19

Novo projeto de poder de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil é o primeiro partido neofascista do país

Talis Andrade

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por João Filho

BOLSONARO ALUGOU um partido nanico, ajudou a transformá-lo em um dos maiores partidos do Brasil e agora o abandona após uma tentativa fracassada de golpe para tomar o seu controle e abocanhar o fundo partidário. Pela ótica da dinâmica política tradicional, esse jogo é uma loucura que levaria ao enfraquecimento e isolamento do governo. Mas não é assim que pensa quem tem como objetivo destruir a democracia como a conhecemos.

O presidente da República já mostrou que não tem nenhum interesse em formar uma maioria no Congresso que o ajude a governar. É um governo que renega as mediações democráticas e busca a radicalização para atingir seus objetivos.

Desde a posse, a família Bolsonaro vem implodindo grandes aliados construídos durante a campanha. Bebianno, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Witzel, João Doria e Luciano Bivar são alguns nomes que foram expurgados de maneira desleal. A tropa de choque bolsonarista vai ficando cada vez mais reduzida e isso não parece ser um problema para a família Bolsonaro. Ao que tudo indica, a intenção é ir empurrando o governo com a barriga, rezar para a economia sair do buraco e continuar apostando na fidelização da sua militância alucinada nas redes sociais. Não é novidade que este é um governo preocupado exclusivamente em agradar um séquito de reacionários e lunáticos catequizados por Olavo de Carvalho.

O presidente anunciou essa semana a criação da Aliança pelo Brasil, a futura nova casa da extrema-direita governista brasileira. Mais que isso: será uma sigla controlada pela família Bolsonaro e formada apenas por devotos fiéis do presidente.

Não se sabe ainda se a Aliança pelo Brasil será criada a tempo de disputar as eleições municipais do ano que vem. Se tudo for feito como manda a lei, será quase impossível. Mas estamos no Brasil 2019 e sabemos que as leis não têm sido garantia de muita coisa.

Será necessário coletar quase 500 mil assinaturas em pouco mais de quatro meses, o que seria um feito inédito. Mas os bolsonaristas contam que isso será possível com assinaturas digitais, feitas através das redes sociais e de um aplicativo que será lançado pelo partido. Acontece que a lei não prevê a possibilidade das assinaturas digitais, apenas em papel. Como será impossível juntar quase meio milhão de assinaturas em papel em quatro meses, o bolsonarismo vai conseguir as assinaturas digitais e tentar jogar essa disputa pro campo jurídico. Diante da escalada dos discursos autoritários do governo, alguém duvida que haverá radicalização e incitação do povo contra os tribunais quando esse caso for julgado? Ou será que os Bolsonaro vão mandar logo um cabo e um soldado ao TSE? Me parece bastante claro que o bolsonarismo não irá retroceder nem aceitar qualquer decisão que não seja a criação do partido do presidente. Eles não entraram nessa empreitada para depois ficarem sem partido.

É possível que haja, como houve nas eleições, uma grande mobilização das igrejas evangélicas pela criação do partido. Será que teremos pastores na porta da igreja trocando assinatura por um pedacinho no céu? O bispo e prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella já colocou a máquina da Igreja Universal à disposição para a coleta de assinaturas.

O manifesto de fundação do partido é um ajuntamento de chavões fascistoides. Não há nada ali que lembre um projeto de país, que pregue a conciliação, que apresente propostas para a economia e para o desenvolvimento social. É só um panfleto rancoroso que aposta no maniqueísmo e no confronto como método de governo, tendo Jair Bolsonaro como um líder messiânico. “Muito mais que um partido, é o sonho e a inspiração de pessoas leais ao Presidente Jair Bolsonaro, de unirmos o país com aliados em ideais e intenções patrióticas”, diz o manifesto. A palavra democracia não é citada em nenhum momento do texto. O partido se apresenta oficialmente como um grupo político formado por pessoas leais a um único político. É essa lealdade incondicional ao Messias que motivou o rompimento dos bolsonaristas com o PSL. Não havia divergências ideológicas ou programáticas entre eles. A separação se deu porque o núcleo bolsonarista queria o controle do partido e não admitia conviver com correligionários que não demonstrem lealdade cega e absoluta ao seu grande líder.

Em outro trecho, o manifesto diz que “a Aliança pelo Brasil é o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumes”. As “boas práticas” e os “bons costumes” certamente não se referem às rachadinhas no gabinete do Flávio Bolsonaro nem ao conteúdo pornográfico que o presidente publicou no Twitter. É só a velha ladainha moralista que os moralistas gostam de pregar, mas não de cumprir.

Nos perfis do projeto de apresentação do novo partido de Bolsonaro, as palavras “Deus”, “pátria” e “família” são exibidas. Não parece coincidência o fato de esse ser o lema dos integralistas.

 

Inspirados no fascismo italiano, os integralistas são um movimento ultrarreacionário, criado há oito décadas no Brasil para abrigar o ideário fascista. A Ação Integralista Brasileira teve papel fundamental no golpe militar de 64 e hoje apóia o governo Bolsonaro. Durante as eleições, o grupo formalizou apoio à candidatura do ex-capitão e chegou a participar de um ato de campanha na avenida Paulista. Muitos integralistas são filiados ao PRTB de Levy Fidelix, cujo lema da campanha para deputado federal também era “Deus, pátria, família”.

Mas não é só o lema. Tudo na Aliança pelo Brasil lembra os integralistas, desde a estética à ideologia. A defesa dos valores cristãos, a rejeição à democracia liberal, o nacionalismo autoritário — tudo parece ser uma cópia dos integralistas. Não dá nem para chamar de versão moderna do integralismo, porque tudo no bolsonarismo cheira a mofo.

A Aliança pelo Brasil pode ser classificada com tranquilidade como o primeiro partido neofascista do Brasil. Sim, neofascista. Todos os elementos estão ali: o ultranacionalismo, o anticomunismo, a contestação permanente da democracia liberal, a veneração por um líder populista, o discurso autoritário. Será um partido neofascista de cunho religioso e que já nascerá com alguma relevância no jogo político partidário, já que foi criado pelo presidente da República e tem como uma de suas principais bandeiras a exaltação de sua figura. É uma pena que a grande imprensa nacional, que até hoje evita chamar o governo Bolsonaro de extrema-direita, jamais chamará o neofascismo pelo nome.

A democracia brasileira está prestes a fornecer espaço para um partido cujos fundadores ameaçam constantemente a democracia, atacam princípios constitucionais e exaltam os criminosos do regime militar. É um partido que resgatará oficialmente o legado do fascismo brasileiro. O Partido Social Liberal, que foi temporariamente ocupado para a extrema-direita poder entrar na democracia, ficou pequeno. Faltava um partido genuíno, criado para unir todos as tribos neofascistas que desejam exaltar Bolsonaro e o Deus cristão. Não falta mais.

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01
Nov19

É repulsivo ouvir um deputado falar de um repugnante AI-5

Talis Andrade

Fala de deputado Eduardo Bolsonaro é um dos pontos mais baixos do seu mandato e revela a falta de confiança do parlamentar na capacidade do Governo do seu pai de driblar dificuldades

18
Out19

PSL X Bolsonaro e a linguagem de bandidos

Talis Andrade

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por Wevergton Brito Lima

Para decifrar o que está acontecendo na briga do Clã Bolsonaro contra parte do PSL é preciso, fazendo uma analogia, entender a linguagem de bandidos. Bandido, pra começo de conversa, em público, nega ser bandido. E se um bandido poderoso decide matar algum antigo aliado no crime ele, em primeiro lugar, para evitar suspeitas e pegar o novo inimigo de surpresa, vai se desdobrar em gentilezas para com a futura vítima.

Não é segredo para ninguém em Brasília que Bolsonaro foi avisado sobre (ou ele mesmo orientou) a investida da Polícia Federal contra o presidente do seu partido, PSL. Investida que aconteceu no dia 15/10.

Corresse tudo de forma sigilosa, poderia ser um “assassinato político” perfeito. Quem iria chorar pelo Bivar?

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Sempre ressalvando que faço aqui apenas uma analogia para facilitar o entendimento do leitor já que ninguém mencionado neste texto pode ser diretamente acusado de bandido ou miliciano, pelo menos até que provas sejam apresentadas neste sentido. Voltando à analogia: Acontece que Bolsonaro é o que seria chamado nos morros do Rio de “bandido que dá mole pra Kojak”.

E assim, dias antes do planejado “assassinado político” o boquirroto deixa escapar para um aliado: “afaste-se do Bivar pois ele está queimado”. Pronto, entornou o caldo.

Em uma quadrilha funciona assim: se o chefe número um manda eliminar um outro líder e a operação é bem-sucedida, todo o restante do bando, inclusive ex-aliados do falecido, conformam-se com a situação pois, na linguagem deles, “quem morre é que tá errado”.

Mas se o plano é descoberto previamente, a quadrilha entra em guerra, com uma parte acusando a outra de traição.

E a guerra foi deflagrada. Nesta quinta-feira (17), gravado por um infiltrado do presidente, um aliado do Bivar, “delegado” Waldir, líder do partido do presidente na Câmara (!) disse, pensando que falava a portas fechadas, que Bolsonaro era “vagabundo” e que tinha em seu poder uma gravação que iria “implodir” o presidente.

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Era uma declaração com endereço certo: “delegado” Waldir, experiente em guerra de quadrilhas, sabia que havia infiltrado (ou infiltrados) de Bolsonaro na reunião e seu objetivo era revelar ao “inimigo” que iria morrer atirando, talvez até com uma bala de prata.

Não contava o “delegado” Waldir que estava sendo gravado e o vazamento do que disse - que pode diminuir um pouco o efeito do que porventura tenha realmente em mãos mas não anula um possível poder destrutivo - só lhe deixou uma alternativa, colocar panos quentes “não tenho nada contra o presidente”, “falei de cabeça quente”, etc. Este apaziguamento vai ser o tom a partir de agora. Tudo que o que o setor mais poderoso da quadrilha queria era um “assassinato limpo”, e para os dois lados não interessa uma guerra sem quartel onde todos podem terminar mortos. Mas o conflito existe, não está totalmente sobre controle e vai continuar com lances na surdina, tentativas de acordo ou golpes públicos. Nesta guerra não temos em jogo ideologia ou interesses nacionais, são apenas negócios e poder. Em um combate deste tipo tudo pode acontecer. Lembrem-se que Tommaso Buscetta, o famoso líder da Cosa Nostra siciliana, só decidiu romper a omertà depois que o rival, Salvatore Riina, matou dois filhos seus, além do irmão, sobrinho e cunhado. O que lhe restou foi a vingança de entregar o algoz de seus familiares.

Sem algo do tipo, podemos nutrir pouca esperança de que a lei alcance a quadrilha. Lembremos, para recordar apenas um aspecto da blindagem, que o Ministro da Justiça atende pelo nome de Sergio Moro e este fato - gravíssimo - infelizmente, ao contrário do restante do texto, não é uma analogia.

Na verdade, só uma rebelião cívica, dos que nutrem algum amor pelo Brasil, por seu povo e por seu futuro, pode impedir que prospere tal descalabro que assombra o mundo. Rebelião que deve ter, como principal ator, a mobilização popular.

 

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16
Out19

Em foto de capa, Estadão mostra Bolsonaro executando Moro, para impressionante espanto de Paulo Guedes

Talis Andrade

A foto de Gabriela Biló, feita durante a cerimônia de hasteamento da bandeira nesta terça-feira (15), ilustra a reportagem sobre a nova crise instaurada por Bolsonaro após a ação da Polícia Federal, comandada por Moro, contra o presidente do PSL, Luciano Bivar

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Mônica Bergamo, no Folha, tasca a seguinte chamada: Bivar divulga gastos de R$ 340 mil do PSL com advogada de Bolsonaro.

Karina Kufa diz que valores 'são totalmente correspondentes aos praticados no mercado de Brasília'

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Revista FórumDe forma metafórica, a imagem mostra um Moro rendido às ordens de Bolsonaro, a quem teria antecipado as informações sobre a operação da PF contra o presidente da sigla que levou o capitão ao poder.

Em 2011, o mesmo Estadão divulgou em sua edição impressa uma foto da então presidenta Dilma Rousseff (PT) levemente arqueada com a espada de um cadete parecendo trespassar seu corpo. Abaixo da foto, o título “Honras Militares” – e um texto anódino, sobre a participação de Dilma numa cerimônia militar.

Bem representativa a imagem passiva e submissa de Moro, de cabeça baixa, conformado com seu novo papel de pau-mandado de Bolsonaro. 

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PAU-MANDADO.
(Dibob)

Como é que eu posso entender.
Se o que escolheu na vida foi sofrer.
(isso bem antes da hora)
Se o que eu falei nunca valeu.
E nunca quis, foi um conselho meu.

Ela mandou, voçê cumpriu.
Onde já se viu?
Ainda ter que aceitar.

Só sai se ela deixar.
Tem hora pra voltar.
Se é asim que voçê quer viver.
Os outros vão falar.
Melhor deixar pra lá.
Se não voçê vai se arrepender.
Disfarça.
Pra não deixar ninguem te ver sem graça.
Vergonha de não perceber.

Bolsonaro usou PF para intimidar Bivar

 

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A reconstituição dos fatos ajuda a entender os motivos para a Polícia Federal ter efetuado operação de busca e apreensão em endereços do deputado federal e presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, em Pernambuco, na manhã de hoje.

Há dez dias, a Folha de S. Paulo revelou que a PF havia encontrado indícios, em notas fiscais, de que dinheiro público de verbas eleitorais do PSL de Minas, de candidatas-laranja, havia sido desviado não só para a campanha do atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, mas também para a de Jair Bolsonaro, o que foi confirmado por um assessor e coordenador de campanha do então deputado.

Dias depois, Bolsonaro falou, à saída do Palácio da Alvorada para esquecer o PSL e que Bivar estava queimado – mas preservou seu ministro no cargo.

Em seguida, exigiu que Bivar mostrasse as contas do partido.

Bivar reagiu pedindo auditoria na campanha de Bolsonaro.

Na sequência, o presidente reuniu-se com o ministro da Justiça e com o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Aleixo, em encontro sigiloso.

Hoje, a PF realizou o que chamou de Operação Guinhol, mas que poderia ser chamada de Operação Delenda Bivar.

Se fosse para de fato investigar o laranjal, e não para queimar Bivar, a PF deveria ter feito busca e apreensão numa pequena gráfica de Amaraji, interior de Pernambuco, chamada Vidal, na qual sete candidatos do PSL – dentre os quais a candidata laranja Érica Santos, assessora de Gustavo Bebbiano - declararam ter gasto mais de R$ 1 milhão e 200 mil de suas verbas de campanha e cujo dono, Luis Alfredo Vidal Nunes da Silva, presidente do partido na cidade, exibe orgulhosamente uma foto na qual aparece ao lado de um Bolsonaro sorridente, os dois com o polegar direito para cima.

Só não fez para não correr o risco de encontrar planilhas comprometedoras.

Ficou muito claro que Bolsonaro usou a máquina do estado em proveito próprio, para intimidar um desafeto político, no que contou com a conivência do ministro da Justiça e do diretor-geral da PF, como acontecia no tempo dos coronéis.

Estado policial começa assim.  

 

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12
Dez18

Coaf, os Bolsonaro e o estado policial

Talis Andrade

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por Luis Nassif
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Peça 1 – cronologia do fator Flávio Bolsonaro

14/11/2017 – deflagrada a Operação Cadeia Velha, que manda para a prisão vários deputados estaduais do Rio de Janeiro, entre eles Jorge Picciani.

16/11/2017 – manutenção da prisão de Jacob Barata, o todo-poderoso presidente da Fetransporte, a associação das empresas de transporte público do Rio de Janeiro, alvo da operação.

17/01/2018 – o Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), concede habeas corpus e há uma manifestação da Procuradora Geral da República Raquel Dodge solicitando a manutenção da prisão dos deputados Jorge Picciani e Paulo Cesar de Mello junto ao STF (https://goo.gl/tu7pL1). Ou seja, o caso chegou ao comando do MPF (Ministério Público Federal).

08/10/2018 – termina o primeiro turno das eleições e o deputado estadual Flávio Bolsonaro é eleito senador. Pelo Twitter, recebe os cumprimentos piedosos do juiz Marcelo Bretas, titular da Operação Cadeia Velha. “Parabenizo os novos Senadores, ora eleitos para representar o Rio de Janeiro a partir de 2019, Flavio Bolsonaro e Andrade de Oliveira. Que Deus os abençoes!” Ao que responde o piedoso Flávio: “Obrigado, Dr. Bretas e que Deus nos dê muita sabedoria, todos os dias, para fazermos a Sua vontade!”.

15/10/2018 – treze dias antes do segundo turno, são exonerados Fabricio de Queiroz, o militar que servia o gabinete de Flavio Bolsonaro, e sua filha Natália, contratada pelo gabinete do pai Jair (clique aqui).

28/10/2018 – encerra-se o segundo turno das eleições, com Jair eleito.

08/11/2018 – prisão preventiva de diversos deputados e assessores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no âmbito da Operação Furna da Onça, tocada pelo MPF do Rio e pelo juiz Bretas (clique aqui)

14/11/2018 – o MPF justifica as prisões alegando suspeitas de vazamento de informações da operação (clique aqui). As demissões dos assessores dos Bolsonaro ocorreram no período em que já se suspeitava dos vazamentos.

23/11/2018 – Flávio Bolsonaro se encontra por duas horas com o juiz Bretas. O encontro foi a pedido de Flávio. A troco de quê um senador eleito vai visitar o juiz que comanda o processo que envolve a Assembleia? Mais que isso. “Interlocutores próximos a Jair” informam O Globo ser intenção do novo presidente indicar Bretas para um tribunal superior (clique aqui).“Essa indicação pode acontecer tanto para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), como para o Supremo Tribunal Federal (STF)”, diz o jornal. Quase certamente a tal “fonte próxima a Bolsonaro” era o próprio filho Flávio, falando em off.

Modestamente, o juiz minimiza o encontro, mas não rejeita um possível convite:

- Não tem nada disso, foi apenas um encontro amistoso. Já ouvi essas especulações (sobre as indicações). Mas, não tratamos sobre o tema.

Qual a intenção desse afago a Bretas?

06/12/2018 – a denúncia do Estadão em cima do relatório da COAF.

A narrativa mais óbvia:

1- Bem antes das eleições, as investigações sobre os esquemas da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tinham identificado as principais operações suspeitas. E o nome dos assessores de Flávio Bolsonaro já constavam da relação do COAF.

2- Treze dias antes do segundo turno, são exonerados o militar Fabrício Queiroz – que trabalhava com Flávio há mais de dez anos – e sua filha Natália. É a indicação mais evidente de que Flávio foi informado das descobertas do COAF. Ao segurar a informação, os órgãos de segurança garantem a eleição de Jair Bolsonaro.

3- As peripécias dos filhos de Bolsonaro já eram bastante difundidas. Fotógrafos do Congresso flagraram uma troca de mensagem de Jair com o filho Eduardo, alertando-o para as consequências de seus atos (clique aqui). Dizia um dos trechos da mensagem: “Jair: “Se a imprensa te descobrir ai, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Peça 2 – o jogo político da segurança

Na fase inicial, de formação do governo, o general Hamilton Mourão tinha dossiês prontos para torpedear grande parte das indicações bancadas pelos financiadores de campanha - o advogado Gustavo Bebiano, o dono do PSL, Luciano Bivar, e o lobista carioca Paulo Marinho – e pelos olavetes.

Em “Xadrez da nova corte e a fragilidade de Bolsonaro” há uma descrição dos grupos que se digladiam.

A desenvoltura e as trapalhadas da família Bolsonaro ganharam uma dimensão tal, a ponto de comprometer até a base aliada. Encrencaram-se com todos e, hoje em dia, são minoritários dentro do PSL. Há informações de que a maioria dos parlamentares eleitos planeja transferir-se para o DEM.

As declarações estapafúrdias dos Ministros das Relações Exteriores, Educação, Direitos Humanos, bancados pelos irmãos, estão sendo fontes de desmoralização internacional do Brasil. E tinha-se um dilema. De um lado, filhos insaciáveis ; do outro, um pai incapaz de qualquer atitude para enquadrá-los.

Mal terminaram as eleições, Flávio Bolsonaro combinou com Wilson Witzel, governador eleito do Rio de Janeiro, uma ida a Israel para compras milionárias mal explicadas de equipamentos de segurança. Witzel acabou indo sem Flávio. Aliás, é questão de tempo para se revelar sua verdadeira dimensão.

Os Bolsonaro se tornaram, portanto, uma ameaça à estabilidade do novo governo. E seria impossível que as estripulias da família Bolsonaro passassem despercebidas dos serviços de informação do Exército.

Até agora, nesse relatório do COAF, apareceu apenas a ponta do iceberg. Rompida a blindagem, certamente haverá uma enxurrada de novas acusações. Os Bolsonaro nunca tiveram envergadura para jogadas dos políticos do alto clero, bancados por empresas. No baixo clero, as jogadas são com esquemas de Detran, caixinhas de prestadores de serviço e, no caso do Rio de Janeiro, alianças com milícias, de muito mais fácil identificação. Em muitos casos, se misturam crimes de colarinho branco com crimes de sangue, como se viu no episódio Marielle.

Peça 3 – o COAF e estado policial

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O relatório da COAF teve duas funções. Enquanto oculto, não comprometeu a eleição de Jair. Depois de eleito, ajudará a excluir a família presidencial do processo decisório. O jogo político-jurídico extrapolou o combate ao PT e entrou de cabeça nas disputas pelo poder. O bate-pronto do general Mourão, exigindo explicações do motorista e do filho, não deixam espaço para dúvidas.

A única dúvida é se, o fato de ter vindo à tona antes da posse de Bolsonaro, foi fruto de um vazamento não planejado ou se foi necessário antecipar a denúncia para conter a fome dos rapazes.

Haverá uma de duas possíveis consequências.

1- Depois de empossado, um processo rápido de impeachment de Jair Bolsonaro, assumindo o vice-presidente Mourão.

2- Mais provável, ter-se-á um Jair sem os filhos. E, sem os filhos, Jair Bolsonaro é apenas uma figura frágil, facilmente controlável por patentes superiores. Terá papel meramente decorativo, e com as rédeas do governo transferidas definitivamente para os ministros militares.

Consolida-se, de forma nítida agora, a aliança entre os setores militares e o juiz Sérgio Moro. E, nesse ponto, torna-se inexplicável a falta de reação da Febraban, da OAB e das instituições em geral ao projeto de transferir o COAF do Ministério da Fazenda para o da Justiça. Não se trata de uma mera movimentação burocrática, mas do capítulo mais grave de transformação do país em um estado policial.
 

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A Lei que criou o COAF (Lei 9613/98) colocou o Conselho no "âmbito do Ministério da Fazenda". Em todos os grandes países, são os Ministérios das Finanças que abrigam órgãos tipo COAF. O órgão recebe dados de todas as transações acima de R$ 10 mil.

É uma função da área financeira dos governos, porque é essa área que tem acesso aos dados. O Ministério da Fazenda tem a rede conectada ao sistema bancário para extrair esses dados.

Os auditores têm acesso a todas as transações, mas selecionam para análise apenas as operações suspeitas. Estima-se que, de cada mil transações, 998 são regulares e apenas 2 são consideradas suspeitas. Mas todas elas são acessíveis aos técnicos do COAF. Seu pessoal é concursado do Ministério da Fazenda. São quadros diferentes da Justiça. Os auditores fiscais têm status superior ao pessoal da Justiça e cultivam a cultura da proteção do sigilo bancário e fiscal, que não existe no Ministério da Justiça.

No COAF, nunca houve vazamento. E na Justiça? Até agora, essa transferência é o principal instrumento de suspeita sobre a criação de um estado policial. Ficarão à mercê de Moro dados fiscais de congressistas, políticos, empresários, jornalistas, líderes da oposição.

O que se tem de concreto é que, nesses tempos de estado de exceção, o relatório ajudou a eleger um presidente, levando junto um vice-presidente militar. E ajudará a entregar ao vice o comando do governo.
 

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27
Nov18

A nova corte e a fragilidade de Bolsonaro

Talis Andrade

 

por Luis Nassif, no Jornal GGN

 
Peça 1 – as fragilidades de Bolsonaro

Prosseguimos na tentativa de decifrar Jair Bolsonaro, juntando mais fragmentos do homem e do grupo trazidos por pessoas que transitam por lá. Como Bolsonaro é um ator político totalmente não-convencional, esses bastidores são mais reveladores do que a cobertura da mídia brasiliense, espremida por pressões dos veículos ou pela necessidade de construir boas relações com as novas fontes.

Ontem, no Twitter, o jornalista norte-americano Vincent Bevins – que foi correspondente no Brasil do Los Angeles Times – traçou um retrato cruel da cobertura sobre Bolsonaro.

Disse ele:

"Os jornalistas estão tão desesperados para parecer neutros que toda vez que Bolsonaro diz algo que não é uma mentira ou um incitamento ao genocídio, eles praticamente quebram os dedos tentando retwittar (...)

O cara pode falar por uma hora incentivando eliminar uma classe de pessoas, mas se o discurso incluir "2 + 2 = 4" jornalistas aparentemente têm que dizer "Ele pediu por extermínio, o que é controverso, mas, para ser justo, sua matemática passou na checagem (...).

Eu digo que, como um americano confortável que nem vive mais em tempo integral no Brasil, muitos jornalistas brasileiros estão sob séria pressão financeira que os levam a ficar com a cabeça baixa. Mas isso não é verdade para os grandes nomes e vozes que têm a liberdade de serem melhores, mas não são (...)

E o mais engraçado é que os fãs de Bolsonaro ainda pensam que os jornalistas que fazem isso são comunistas que provavelmente não deveriam poder escrever".


Por isso mesmo, é mais produtivo tentar decifrá-lo através de olhos de terceiros, mais perspicazes, do que pela cobertura tradicional.

Uma primeira impressão, que tem chamado a atenção de pessoas que têm mantido contato com Bolsonaro, é sua fragilidade: física sim, devido à facada recebida; fragilidade intelectual óbvia, mas, principalmente, fragilidade social. Ele não fica à vontade quando confrontado com temas relevantes, se mostra incomodado presidindo reuniões ou se relacionando formalmente com pessoas de fora do círculo.

É significativo de ampla ignorância, o deslumbramento com o encontro agendado com John Bolton, assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Bolton não vem se encontrar com Bolsonaro. Ele vai a um encontro do G20 em Buenos Aires e fará uma parada no Rio para conhecer Bolsonaro. A notícia foi recebida por Bolsonaro com um autêntico êxtase cívico, divulgando seu deslumbramento pelas redes sociais.

Bolton é odiado da portaria à copa do Departamento de Estado. Só existe porque Trump o retirou da lata do lixo. Tornou-se inimigo declarado do Brasil quando fez o diretor geral da Organização contra as Armas Químicas, o diplomata brasileiro José Bustami, ser demitido do cargo porque recusou-se a endossar a informação de existência de armas químicas no Iraque.

Bustami estava certo e Bolton errado, o Itamaraty nunca esqueceu. Em Washington, sua credibilidade é nula. Na Europa é um paria diplomático. Que Bolsonaro de importância a Bolton diz muita coisa sobre seu nível de informação.


Peça 2 – os personagens da trama

Esse personagem socialmente inseguro está no meio de um jogo com vários personagens sem afinidade entre si, disputando espaço e comando de uma das sete maiores economias do planeta.

Personagem 1 – o apoio dos filhos

Bolsonaro demonstra necessitar da proximidade dos filhos. Estes, por sua vez, criam conflitos por todos os cantos com vários personagens da nova corte. Um dos filhos tem bom discernimento em análises de caráter, mas em nada ajudando para entender como trabalhar a lógica do poder.

Personagem 2 – os financiadores vorazes

O núcleo que deu base partidária e recursos para a campanha – o advogado Gustavo Bebiano, o dono do PSL, Luciano Bivar, e o lobista carioca Paulo Marinho – têm-se mostrado voraz, pretendendo controlar todos os grandes contratos do governo.

Personagem 3 – Onix Lorenzoni

O deputado Lorenzoni tem provavelmente a maior unanimidade contrária do Congresso. Ficou do lado da Lava Jato, mesmo tendo sido beneficiado por financiamentos de caixa 2. Hoje em dia é uma alma penada, sem trânsito algum no Congresso. E a ele está sendo conferido o papel de coordenador político.

Personagem 4 – o Imperador Paulo Guedes

Dia desses, houve uma reunião com Bolsonaro. Todos os presentes quedavam em atitude respeitosa normal. De repente, ouviu-se uma agitação. Era Paulo Guedes chegando, como se fosse o Imperador da Alemanha. Entrou, todos se levantaram para cumprimenta-lo, enquanto Bolsonaro permanecia quieto, em sua cadeira, observando. Parecia que Guedes era o presidente. Esses superpoderes sempre acabam se voltando contra quem os utiliza, sem deter o poder originário, a Presidência.
 

Peça 3 – a arbitragem de Mourão

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Todos os personagens acima giram em torno de Bolsonaro. Mas há um componente extra-Bolsonaro na história: o vice-presidente general Hamilton Mourão.

Em sua coluna de hoje, na Folha, Jânio de Freitas traz mais algumas informações relevantes sobre seu papel (clique aqui). Segundo Jânio, há indícios (ainda não confirmados por ele) de que Bolsonaro foi "aconselhado" na área militar a ceder o lugar de vice para Mourão.

Jânio reparou, corretamente, que Mourão tem uma segurança afirmativa que não se assemelha mais a meros arroubos, como passava a impressão durante a campanha eleitoral.

Por exemplo:

"Tenho certeza absoluta de que nós não vamos brigar" [com a China]. A mudança da embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, já reafirmada por Bolsonaro, "é uma decisão que não pode ser tomada de afogadilho, de orelhada". Sobre o fim do Mercosul, também dado como decisão, "antes de pensar em extinguir, derrubar, boicotar, temos que fazer os esforços necessários para que atinja os seus objetivos".
 

Peça 4 – a lógica do Congresso


Congressos repetem indefinidamente os mesmos vícios e virtudes do Senado romano. Entram os cidadãos mais abonados, muitas vezes comprando os mandatos com campanhas caras e/ou herança política, com o objetivo de negociar com o Imperador os filtros a seus atos.

A lógica política demandaria um acordo com o Centrão, apoiando a eleição de Rodrigo Maia na Câmara e Renan Calheiros no Senador. Seria um acordo de sobrevivência, não de adesão. Mas há convicção de que os círculos íntimos de Bolsonaro farão tudo para impedir e partir para o confronto.

Na hipótese de Bolsonaro ganhar a presidência de uma das casas, os perdedores irão retaliar. Mesmo porque há um clima pesado, por conta da indicação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, entendida como tentativa do grupo de Moro de intimidar o Congresso.

O resultado da eleição para o Congresso mostrará melhor o rumo do governo. Entre velhas raposas há a convicção de que Bolsonaro sabe que o melhor caminho – para seu governo – seria o acordo de sobrevivência. Mas duvidam que ele tenha força para enfrentar os lobbies internos, constituído de um pessoal primário que acha que poderá domar o Congresso – algo que nem o governo militar de 1964 conseguiu, a ponto de fechar o Congresso pela impossibilidade de controla-lo.
 

Peça 5 – os primeiros conflitos

Os primeiros conflitos à vista provavelmente serão entre os filhos, contra a gana dos financiadores e de Onix Lorenzoni.

A eles se somarão os generais Hamilton Mourão e Augusto Heleno, agastados com a fritura a que foi exposta o general Ferreira por Onix e o grupo dos financiadores.

Conforme observamos semanas atrás, as únicas ideias consistentes, sistematizadas, que poderiam ser entendidos como um projeto de governo era o plano integrado de infraestrutura, preparado pelo general Ferreira, contemplando o curto, médio e longo prazo.

E nem houve espaço para falar do novo Ministro da Educação Ricardo Velez Rodrigues e do inacreditável chanceler Ernesto Araújo.
 
 

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