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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Ago20

A LUA DE LORCA

Talis Andrade

 

poets.org — Six drawings by Federico García Lorca (1898-1936)


Federico:
- Que tem teu divino
coração de festa

A menina:
- Tenho uma rosa
uma linda rosa
amarela

Federico:
- Ai menina
não se faça
tão bela

A menina:
- O sol
me fez assim
hoje é manhã
de primavera

Federico:
- Ai menina
a noite
uma longa noite
me espera

A menina:
- Triste sina tua
querer a lua
que no céu
sorri distante

Federico:
- Ai menina                                                                                                                                                muito mais triste
não saber
se de verdade
desejo a lua
como amante

 

- - -

Talis Andrade, Vinho Encantado, p. 31, Livro Rápido, 2004, Recife

Ilustração Federico García Lorca

06
Set17

de Sophia de Mello Breyner Andresen

Talis Andrade

sophia-de-mello-breyner-andresen.jpg

Bebido o luar



Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

 

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

 

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

 

26
Jun17

LUNAS DE JULIETA VIÑAS ARJONA

Talis Andrade

Julieta.jpg

Quando se foi o sol

Julieta no balcão

se fez poesia

esperando o rouxinol

 

As mãos de Julieta deslizam

pelas cordas de uma harpa

os dedos dando voltas

pela lua de Lorca

 

Seus dedos vão dando voltas

na lua de inúmeras faces

Seus dedos vão dando voltas

na luna violácea

donde unos poetas

beben cazalla

y otros traman

nuevos despropósitos

 

Julieta no balcão

se fez música

amanhecia o dia

nem percebeu

a companhia

de uma cotovia  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  

 

 

---

Ilustração: Foto de Julieta Viñas Arjona

Texo: Talis Andrade

 

mulher balcão julieta por Anita Malfatti.jpg

ROMEU E JULIETA, WILLIAM SHAKESPEARE, ATO III, Cena V

JULIETA - Já vais partir?

O dia ainda está longe.

Não foi a cotovia,

mas apenas o rouxinol

que o fundo amedrontado do ouvido

te feriu.

Todas as noites

ele canta

nos galhos da romeira.

É o rouxinol, amor;

crê
no que eu digo.

 

ROMEU - É a cotovia,

o arauto da manhã;

não foi o rouxinol.

Olha, querida,

para aquelas estrias invejosas

que cortam pelas nuvens

do nascente.

As candeias da noite

se apagaram;

sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe,

no pico das montanhas úmidas.

 

JULIETA - Não é do dia aquela claridade,

podes acreditar-me.

É algum meteoro

que o sol exala,

para que te sirva de tocheiro

esta noite

e te ilumine no caminho.

Assim, espera.

Não precisas partir
assim tão cedo.

 

---

Ilustração: Mulher no balcão. Julieta,

tela de Anita Malfatti

 

 

 

11
Jun17

A força gravitacional de Líria Porto – Cadela Prateada

Talis Andrade

 

 

 

cadela.jpg

 Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

 

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

 

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

 

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

 

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

 

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

 

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra

 


biografia

 

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis

 


adiamentos

 

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã

 


poder

 

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá

 


minguante

 

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

 

***

 

Cadela prateada
Líria Porto
Editora Penalux
2016

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