Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Mar21

Reinaldo: se Bolsonaro não é psicopata, ele os imita muito bem

Talis Andrade

ouviram o grito.jpg

 

 

247 – "O presidente Jair Bolsonaro fez a sua 'Live Al Qaeda' de ontem [quinta-feira] falando manso, quase baixo. Jogo de cena. Note-se que, como é quem é, fez uma caricatura de uma pessoa sufocada pela Covid-19. Tentou ser engraçado. Impossível não trazer à memória o que diz a literatura especializada sobre a falta de empatia dos psicopatas. Se o presidente não é um deles, ele os imita muito bem", disse ele em suas redes sociais

Reinaldo Azevedo
“Até quando, Bolsonaro, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda hás de zombar de nós a tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia desenfreada? (….) Nem os temores do povo, nem a confluência dos homens honestos, nada consegue te perturbar?
 
Não percebes que teus planos foram descobertos? Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem? Quem, entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?”
O presidente Jair Bolsonaro fez a sua "Live Al Qaeda" de ontem falando manso, quase baixo. Jogo de cena. Note-se que, como é quem é, fez uma caricatura de uma pessoa sufocada pela Covid-19. Tentou ser engraçado. Impossível não trazer a memória...
 
... o que diz a literatura especializada sobre a falta de empatia dos psicopatas. Se o presidente não é um deles, ele os imita muito bem. 
 

Reinaldo Azevedo
Não partam do princípio de q só uma pessoa desinformada apoia Bolsonaro. É nosso idealismo q quer ver assim. Não! Os defensores mais virulentos sabem de tudo e dão de ombros. Os q se fingem de imprensa ainda têm a tarefa adicional de mentir. Aí já é interesse mesmo.
 
Como é possível q reste apoio a um governo cuja incompetência e negacionismo matam aos milhares? Então os fanáticos ñ sabem? Apoiadores de Hitler, Mussolini ou Franco sabiam o q eles faziam. E gostavam. Tinham o mesmo caráter dos respectivos líderes. Daí q debater seja inútil.
 
Anotem aí: o país está ficando também sem oxigênio. A produção não atende à demanda. Mas o novo Sabujo da Saúde, consta, quer visitar hospitais para saber se é memo verdadeiro o colapso nas UTIs. Terá de viajar o Brasil inteiro.
 

conferida nos hospitais.jpg

Reinaldo Azevedo
Bolsonaro e Pazuello deixaram q estoque de remédios de intubação chegasse ao fim. Requisitou o q restava disponível nos fornecedores. No SUS, podem acabar em 15 dias. Em hospitais privados, em 2 dias. E o psicopata ameaça o país com golpe. Exército se orgulha de Pazuello?

troca na saude.jpg

 

01
Mar21

Reinaldo Azevedo: Decisão de juíza que torna Boulos réu é aberração rara até nesta era louca

Talis Andrade

Juíza Federal que está sob ameaça do crime organizado condenou 700 em um  ano - Cidades - Campo Grande News

 

Por Reinaldo Azevedo

Ou Guilherme Boulos, líder do MTST, e dois outros militantes do movimento foram declarados donos do tríplex de Guarujá — aquele do processo que levou à prisão de Lula —, o que já seria, digamos, obra da literatura fantástica, ou estamos diante de uma decisão da Justiça Federal ainda mais, como posso dizer?, estupefaciente.

Prestem atenção!

A juíza Lisa Taubemblatt, da 6ª Vara Federal de Santos (SP), aceitou uma denúncia contra Boulos, Anderson Dalecio e Andreia Barbosa da Silva evocando o Artigo 346 do Código Penal. Por quê?

Lembro: em abril de 2018, num ato de protesto contra a prisão de Lula, manifestantes ligados ao movimento entraram no apartamento, que está no centro da ação penal que levou Sergio Moro a condenar o ex-presidente. Não se tem notícia de que tenham provocado danos ao imóvel. Mas isso, vejam bem, passou a ser irrelevante.

Vamos ver, então, o que diz o tipo penal que consta da denúncia do Ministério Público, acatada pela juíza:
“Tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha em poder de terceiro por determinação judicial ou convenção:
Pena – detenção, de seis meses a dois anos, e multa.”

Coisa própria?

A menos que Boulos e seus parceiros de movimento sejam donos do tríplex, que está sob guarda judicial, como é que eles poderiam invadir “coisa própria”?

Vá lá. A Lava Jato insistiu na tese, sem conseguir provar — na verdade, todas as provas exibidas em juízo evidenciaram o contrário — que Lula era o dono oculto do tal tríplex.

Assim, por associação de ideias, poder-se-ia fazer a ilação de que o líder do MTST e os outros agiram de forma terceirizada. Nesse caso, no entanto, o acusado deveria ser Lula, certo? E assim seria se prova houvesse de que o imóvel é seu e de que incitou a invasão.

Sim, o ex-presidente também foi denunciado pelo MPF. Mas a juíza rejeitou a denúncia, o que torna tudo ainda mais exótico.

As coisas não param por aí: a denúncia é absurda, mas Dalécio e Andreia ao menos estiveram no apartamento naquele dia. Boulos nem isso. Ele, comprovadamente, não estava no Guarujá.

É um fundamento basilar do direito penal, numa acusação, individualizar a conduta no ato criminoso. Ainda que crime houvesse, qual teria sido a atuação do líder do MTST?

A Justiça deu 10 dias para o trio apresentar a defesa por escrito.

Os três, dado o tipo penal evocado, poderiam responder com uma frase: “O apartamento não é nosso”.

Boulos, em particular, teria de acrescentar uma outra bem curta: “Eu nem estava lá”.

Estamos vivendo a era do surrealismo judicial.

Tem havido exotismos em penca.

Mas é raro uma aberração desse nível.

Publicado no UOL /Prerrô

 
 
 
 
 
13
Jan21

Secretários estaduais de Saúde consideram "perversidade" e "loucura" pressão do general Pazuello por cloroquina

Talis Andrade

Charge – 16 de julho de 2020 | Jornal Tribuna Ribeirão

O general ministro da Saúde  é tão genocida quanto o capitão presidente. Quantos brasileiros a dupla Bolsonaro/Pazuello vai matar hoje? 

247 - Secretários estaduais de Saúde repudiaram a pressão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para que autoridades prescrevam a cloroquina contra o coronavírus. Dirigentes trataram o documento da pasta como "esdrúxulo", "loucura" e "perversidade". A informação foi publicada pela coluna Painel, da Folha

O ofício do ministério, assinado por Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde, afirmou que não utilizar estes medicamentos é "inadmissível". Incentivado pelo silêncio da Associação Médica Brasileira. Idem Sociedade Brasileira de Infectologia. E Conselho Federal de Medicina. O documento foi enviado para a secretaria municipal de Saúde de Manaus.

Os deputados federais Alexandre Padilha (PT-SP) e Marcelo Freixo (PSOL-RJ) anunciaram ações no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Ministério Público Federal contra o ministério. 

Folha de S.Paulo Twitterissä: "Esta é a charge de @Benett_ publicada na  #Folha desta quinta (2). Quer ver mais charges do jornal? Acesse  https://t.co/SYBMd91i4u #folha #fsp #folhadespaulo #coronavirus  #coronavirusbrasil #covid19 #charge #humor #

14
Out20

Trump, o ‘Superman’. A realidade delira mais que as metáforas

Talis Andrade

trumpman.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

Assustei-me hoje com o que li na coluna de Nélson de Sá, na Folha. sobre Trump ter planejado, usar uma camiseta de Super-Homem na sua primeira aparição na Casa Branca.

Eu havia escrito, naqueles dias, que “aquilo “que você está assistindo não é somente uma pantomima de quinta categoria quando vê Donald Trump sair de um hospital, em meio ao tratamento de sua infecção pela Covid-19 e assomar à sacada da Casa Branca para, como nos filmes de Super-Homem, arrancar a máscara e proclamar sua invulnerabilidade”.

Pensei que estava sendo metafórico, mas as repórteres Annie Karni e 

Em vários telefonemas no último fim de semana da suíte presidencial do Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, Trump compartilhou uma ideia que estava considerando: quando saiu do hospital, ele queria parecer frágil a princípio quando as pessoas o vissem, de acordo com pessoas com conhecimento das conversas. Mas por baixo de sua camisa de botão, ele usaria uma camiseta do Superman, que ele revelaria como um símbolo de força quando rasgasse a camada superior. No final das contas, ele não prosseguiu com a façanha.

Não era metáfora, era loucura, mesmo.Image

19
Jun20

Prisão de Queiroz ameaça expor vísceras da milicia

Talis Andrade

milicia queiroz bolsonaro.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

A leitura dos documentos anexados à ordem de prisão emitida pelo juiz Flávio Itabaiana contra Fabrício Queiroz mostra que o ex-braço-direito dos Bolsonaro estava sendo regiamente mantido durante seu “sumiço” e, antes disso, em sua missão de “apanhador” de dinheiro para a família.

As situações descritas ali são estarrecedoras.

Queiroz pagava, em dinheiro vivo, mensalidades escolares e plano de saúde da Família 01, recolhia recursos do falecido miliciano Adriano da Nóbrega, encobria (e continuava encobrindo, após o escândalo) provas do esquema de “fantasmas” do qual coletava dinheiro para abastecer os gastos de Flávio Bolsonaro.

Era, afinal, uma espécie de arremedo tosco de Paulo César Farias.

E acabará por tornar Jair Bolsonaro um ainda mais tosco arremedo de Fernando Collor.

A diferença – grave e perigosa – é que no seu caso as Forças Armadas foram levadas, por oficiais saudosos do autoritarismo, a embarcar nesta loucura medíocre.

Erro do qual, ao que parece, os fatos estão os fazendo desembarcar.

22
Abr20

Vamos falar de neuroses, psicoses e perversões?

Talis Andrade

Crédito da imagem: Sensacionalista.

II - Pandemia, presidência, psicanálise

Por Cezar Tridapalli

- - -

 

Não são poucas as matérias de jornal e entrevistas que ligam o presidente à loucura, à psicose, ao narcisismo, à paranoia, ao delírio, à perversão.

Não serei eu a diagnosticá-lo, ninguém estaria em condições de fazê-lo, à exceção do analista ou do psiquiatra dele. Como duvido que o presidente faça análise ou tenha um psiquiatra, posso continuar dizendo que ninguém estaria em condições de dizer qual é seu quadro psíquico. E ainda: mesmo que ele estivesse em análise, o analista não viria a público alardear diagnósticos. Então, quanto a isso, paramos por aqui.

Mas podemos aproveitar a ocasião para esclarecer nomenclaturas.

A psicanálise, de onde saem termos como loucura, psicose, paranoia, delírio, perversão, aproxima-se da ciência por sua capacidade de produzir saber, de produzir um saber novo a respeito do sujeito, de perscrutar o senso-comum das historinhas contadas pela própria consciência, das versões que contamos de nossa vida e que nos parecem verdadeiras. A psicanálise revolve o discurso oficial que o indivíduo tem de si, o mito individual que construímos para contar a nossa história. Afinal, sem investigação, a Terra até parece mesmo plana. Sem explicação melhor, não parece má ideia achar que trovão é berro divino.

Porém, embora se aproxime da ciência, a psicanálise não é capaz de produzir experimentos que possam ser repetidos e validados para todos os sujeitos de modo uniforme. Aproxima-se da arte ao produzir questão no um a um, de sujeito a sujeito, dando substância à ideia de que nenhuma análise é igual a outra, e cada sujeito tem uma história que é só sua, irrepetível.

A psicanálise trabalha, no entanto, com três estruturas psíquicas: as neuroses, as psicoses, as perversões. Elas costumam ser usadas no plural justamente porque cada sujeito tem a sua neurose, ou a sua psicose, ou a sua perversão. E sobre elas já foram escritas milhões de páginas. É prepotência minha tentar explicá-las aqui. Mas vou tentar. Aos mais entendidos, peço que perdoem as generalizações, mas não os erros conceituais que porventura apareçam. Façam-me saber, corrijam-me.

Vamos então falar de neuroses, psicoses e perversões?

Nasceu um bebê! Esse bebê chora. Esse bebê apenas chora. Esse bebê só sabe chorar. O que ele quer? Perguntamos a ele e que resposta obtemos? Buá, bué. Não podemos deixá-lo chorando, está com frio, está com fome, está assustado, chora pelo estupor de ter sido desabituado, desabitado. Só não podemos ficar discutindo muito e deixá-lo lá, no abandono. Se ficar desamparado, ao contrário de muitos animais, ele morre. Nasceu um organismo ali, mas ainda não nasceu um sujeito, há apenas o infans lacaniano, pedacinho de carne sem bordas, cria do humano, vida nua. Fure-lhe a boca com um mamilo suculento, amamente-o, supra suas necessidades, lave-o, tire-lhe as viscosidades de nariz e olhos, limpe dobras e os orifícios todos, molde-o. Vista-o com os tiptops da tia, mas também com as palavras, para que se comece o banho de linguagem, das lalações às nomeações e às descrições e pareceres do mundo. O bebê vai gostar. Vai gostar tanto que não vai querer trocar isso por nada, afinal basta eu gritar que imediatamente encontro socorro e conforto, colo, leite, água morna, carinho e calor. Quem é esse Outro que cuida de mim, que não pode me ver gritar que já vem me satisfazer as necessidades que nem ao certo sei quais são? Se me dizem que é fome, acabo acreditando na fome, se me dizem que é sono, quem sabe seja mesmo, se me dizem que estou doente, quem sou eu para duvidar, se me chamam de manhoso, como rebater se ainda nem sei que sentido dar a esse significante?

Esse Outro que cuida de mim é minha mãe. Ou: é alguém a ocupar uma função materna. Mas eu não sei que ela é mãe, ela e eu somos a mesma massa indissociada, ela sou eu, eu sou ela, eula. Completamo-nos e meu único interesse é manter essa estabilidade. Choro, sou atendido com um gesto e um nome para o meu choro. Somos um, enfim. Identificamo-nos, preciso dessa identificação para saber – se não ainda quem sou – ao menos para saber que sou.

O bebê, depois de alguns meses, é colocado em frente a um espelho e, eureca de fraldas, age de um jeito diferente: sorri, estranha, olha para a imagem de si e do outro, descobre-se descolado, seu corpo desenha silhueta no espaço, a mãe abre sorriso ainda maior, o pai, satélite meio bobo, gira em torno. E o bebê descobre a mãe, ama a mãe, deseja ainda ser tudo para a mãe, pois ela se satisfaz com ele e ele com a ela, então fará o que puder para que a mãe jamais deixe de amá-lo, vai se perguntar o que essa aí quer de mim, vai se submeter às vontades dela para não perder amor.

Até que algo sai errado, bastou crescer um pouco. Agora chora e recebe em troca um “já vai”, “agora a mãe não pode”, “a mãe vai trabalhar”, e um olhar que não se volta exclusivamente para ele, mas olha através, mira outros olhos e horizontes, e – o horror, o horror! – deseja coisas além dele, ex-majestade!

Uma vida feita de sim ganha gesto e som novos: não. Um não a que Jacques Lacan chamou de “Não-do-pai”, “Nome-do-Pai” (o non e o nom du père). Dá-se esse nome a qualquer elemento que exerce a função de cindir mãe e bebê, que abre a bocarra da mãe – pronta para engolir o filho – e diz chega, há mais vida fora disso, você deseja outras coisas, você trabalha, você ama outro, você tem múltiplos horizontes de desejo.

Ao bebê, antes estável e satisfeito, resta a falta e o aprender a lidar com ela, resta sair andando, resta sair falando, resta sair em busca de alguma coisa que todos nós, hoje adultos, continuamos buscando, posto que somos sujeitos de desejo. Haverá sempre um não que nos interdita, que nos diz que não podemos tudo, que não sabemos tudo, que não podemos querer tudo, que precisamos adiar o gozo, que precisamos dosar o gozo, que gozamos apenas parcialmente em troca de convivência, em troca de contratos sociais, em troca de não repetirmos a experiência do pai da horda primitiva, do pai tirano que se valia da autoridade da força para gozar sem freios e que precisou ser morto pelos filhos, no mito efabulado por Freud. Tudo em troca de alguma segurança, de inserção no processo civilizatório, em que pese o mal-estar de precisarmos o tempo todo negociar o escoamento das pulsões, refrear libidos, recalcar afetos.

Segundo a psicanálise, esse não inscrito de modo indelével no sujeito cria nele uma estrutura neurótica. Neurótico é quem tem o não inscrito em si, é alguém que aceita a castração para poder, a partir dela, desejar, é alguém que sabe que para jogar o jogo do desejo é preciso demarcar o campinho, é quem construiu em torno de si bordeamentos e bordados capazes de, como paredes de uma casa, cercar o vazio, esse espaço que, sem paredes, se torna ilimitado, indissociável, indistinguível, território do vale-tudo.

Acabo de descrever o que a psicanálise costuma chamar de os Três tempos do Édipo: no primeiro, o bebê quer ser o falo da mãe, satisfazê-la integralmente, ser ele o objeto de sua satisfação, os dois são um, o mundo está fechado, não há vagas; no segundo tempo, surge a figura paterna com o não, você não terá tudo, não poderá tudo, sua mãe deseja além; no terceiro tempo, depois do choque do não, o pai ensina ao sujeito que ele não pode tudo, mas pode muita coisa. Que seja desejo.

(Parênteses necessários: a estrutura neurótica passa por esses três tempos. Não há, no entanto, estrutura considerada “melhor” ou mais “normal”, como muitas vezes o senso-comem costuma repetir. A neurose também desencadeia patologias, sofrimentos, como as histerias, as obsessões e as fobias).

Em muitos casos, devido a uma série de contingências, encontros e desencontros, esse não que marcará a estrutura neurótica deixa de se inscrever e o sujeito permanece como falo imaginário da mãe, não inscreve limites em torno do corpo, não tem em si a castração responsável pelo adiamento ou dosagem do gozo (vou traduzir aqui o gozo como um “faço tudo que eu quiser, não me importa a censura dos outros e do Outro”, que é algo, portanto, muito diverso do desejo). Essa ausência do não, psicanaliticamente chamada de “foraclusão do Nome-do-Pai”, retira a barreira entre o “até onde posso” e o “até onde não posso ir”. A foraclusão – termo que Lacan emprestou do Direito – do Nome-do-Pai caracteriza a estrutura psicótica. (Continua)

06
Mar20

La lógica de la locura de Bolsonaro

Talis Andrade

“Ha lógica na sua loucura.” 
(Shakespeare, Hamlet)

ALIENARO bolsonaro hacker.jpg

 

por Emir Sader


Entrevistas como a do ex-ditador argentino Jorge Videla à revista espanhola Cambio 16, expressam momentos de sinceridade em que se reproduzem, de forma precisa, a lógica que levou aos regimes de terror que imperaram no cone sul latino-americano há poucas décadas.

Olhada desde agora, tudo parece uma loucura, da qual todos tratam de se distanciar, como se fosse expressão da loucura de alguns, que precisa ser reduzida ao passado e a alguns personagens particulares, uma parte dos quais processada e condenada. Teria sido “um momento ruim”, do qual os países teriam virado a página. Esquecer o passado, curar as feridas, voltar-se para o futuro – essa a proposta dos que protagonizaram aquele “loucura”.

Por isso incomoda muito quando algum daqueles personagens que dirigiram, com representação deles, os regimes de terror, retomam a lógica que os uniu. A leitura da entrevista do Videla é muito saudável, porque reproduz a mesma lógica do bloco que se formou para dar o golpe e deu sustentação à ditadura militar. Bastaria mudar alguns nomes e circunstâncias concretas, para que se tivesse um documento adequado ao que aconteceu no Brasil. É o discurso que sobrevive em setores militares e civis saudosos dos tempos do terror contra a democracia e contra o povo. Escutemos o que disse Videla.

“Na Argentina não há justiça, mas vingança, que é algo bem distinto.” “Houve uma assimetria total no tratamento das duas partes enfrentadas no conflito. Fomos acusados como responsáveis, simplesmente, de acontecimentos que não fomos nós que desencadeamos.” 

Desqualificação da Justiça, como revanchismo, para o que eles tem que aparecer como salvadores providenciais de um pais à beira do abismo, com “vazio de poder”, dominado pelo caos. A Justiça os trataria de forma desigual, porque assumem agora a teoria dos “dois demônios”, dos dois bandos em guerra, buscando descaracterizar que foram os agentes do golpe militar, da ruptura da democracia e da instauração de uma ditadura do terror.

Relata Videla que o principal dirigente da oposição, Ricardo Balbin, do Partido Radical, lhe telefonava para incentivar que dessem o golpe. Nada diferente da UDN no Brasil e da Democracia Crista de Eduardo Frei no Chile. 

“Os empresários também colaboraram e cooperaram conosco. Nosso próprio ministro da Economia, Alfredo Martinez de Hoz, era um homem conhecido da comunidade de empresários da Argentina e havia um bom entendimento e contato com eles".

“A Igreja cumpriu com o seu dever, foi prudente...” “Minha relação com a Igreja foi excelente, mantivemos uma relação muito cordial, sincera e aberta. Tinhamos inclusive aos capelães castrenses assistindo-nos e nunca se rompeu esta relação de colaboração e amizade.”

No Brasil a Igreja Católica participou ativamente na mobilização para o golpe militar, com o qual romperia e teria papel muito importante na denuncia e na resistência à ditadura. Na Argentina, ao contrário, a Igreja continuou apoiando a ditadura, a ponto de mandarem capelães participarem dos vôos da morte, quando duas vezes por semana eram jogados ao mar presos políticos.

“Foi um erro nosso aceitar e manter o termo de desaparecidos digamos como algo nebuloso; em toda guerra há mortos , feridos, aleijados e desaparecidos , isto é, gente que não se sabe onde está. Isto é assim em toda guerra. Em qualquer circunstância do combate, aberto ou fechado, se produzem vitimas. Para nós foi cômodo então aceitar o termo de desaparecido, encobridor de outras realidades (sic), mas foi um erro pelo que ainda estamos pagando e sofrendo muitos de nós. É um problema que pesa sobre nós e não podemos livrar-nos dele. Agora já e’ tarde para mudar essa realidade. O problema é que não se sabe onde está o desaparecido, não temos resposta a essa questão. No entanto já sabemos quem morreu e em que circunstâncias. Tambem mais ou menos quantos morreram, aí cada um que invente suas cifras.”

Essa a lógica da loucura das ditaduras militares, dos regimes militares, que uniu às elites dos países do cone sul, dirigidos pela alta oficialidade das FFAA, congrengando grandes empresários, donos das grandes empresas dos meios de comunicação, com apoio dos EUA. Esse o discurso que os uniu, expresso de forma fria e articulada.

 

 

30
Jan20

Chico Buarque: temos um país governado por loucos

Talis Andrade

governo de choque.jpeg

 

 

O compositor e escritoor Chico Buarque defendeu nesta quinta-feira, o documentário Democracia em Vertigem, que concorre ao Oscar de melhor documentário. 

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Chico declarou:

“A cineasta Petra Costa soube captar, com sensibilidade os bastidores da cena política, principalmente a partir de 2014, quando os derrotados não aceitaram o resultado das urnas e passaram a tramar, com apoio de grande parte da classe política, com a grande mídia e com a complacência da Justiça, começaram a tramar contra o governo de Dilma Rousseff. Não souberam esperar mais quatro anos, quando talvez pudessem implantar um governo liberal”.

“O que a gente vê ali dá a impressão que eles estavam brincando  com a democracia. E o resultado está aí: temos hoje um país governado por loucos”, disse o romancista.

 

24
Dez19

Quem tentou sequestrar Lauro Jardim?

Talis Andrade

deadbolzo bolsonaro morte.jpg

 

 

Por Jeferson Miola, em seu blog:                  

Em momentos de aperto e dificuldades, Bolsonaro apela para a técnica diversionista do vigarista: despista para desviar a atenção do principal.

Nesses dias em que foram revelados detalhes dos negócios criminosos conduzidos pelo seu dublê de filho e preposto Flávio em associação com Fabrício Queiroz e com o chefe miliciano Adriano da Nóbrega, do Escritório do Crime, Bolsonaro ressuscitou o episódio da facada para desviar a atenção pública.

Bolsonaro insinuou que foi vítima de uma trama planejada por um ex-ministro do seu governo para matá-lo. E deixou subentendido que o conspirador, presumivelmente interessado em ocupar a vaga de vice na chapa presidencial, seria Gustavo Bebbiano.

O tiro, contudo, saiu pela culatra.

Bolsonaro não só não conseguiu tirar o foco do mega-escândalo de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa do clã como, além disso, foi desancado por Bebbiano.

O ex-coordenador da campanha e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência conhece o clã Bolsonaro na intimidade. E por isso sentiu-se confortável em dizer o que disse em entrevista à rádio Jovem Pan [assistir aqui] em resposta ao ataque do Bolsonaro.

A entrevista do ex-aliado íntimo de Bolsonaro – que, apesar do rompimento político com o clã miliciano, continua defensor do programa e do governo bolsonarista – contém afirmações duríssimas e, sobretudo, graves.

Bebbiano entende que Bolsonaro “fica entre vagabundo ou quadro grave de loucura. Ou as 2 coisas combinadas”. Para ele, o país “está nas mãos de pessoa tão desequilibrada que pode colocar o Brasil em risco”.

Ele diz que “o presidente da 8ª economia do planeta [é] assessorado por um bando de fanáticos liderados por um lunático” [Olavo de Carvalho] e, por isso, pedirá a interdição de Bolsonaro na justiça. Bolsonaro “precisa ser interditado, não tem condições de governar o país”, afirma Bebbiano.

Ele considera que “a situação é muito preocupante porque o Brasil está sob comando de uma pessoa que demonstra ora traços graves de mau-caratismo, ora fortes sinais de loucura no último grau e assessorado por irresponsáveis e fanáticos”.

A declaração mais grave de Bebbiano, entretanto, não se refere à sociopatia do clã e às características paranóicas ou criminais da “familícia”, mas à tentativa de seqüestro do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, por uma pessoa do entorno do Bolsonaro.

Ele relata os detalhes do ocorrido [a partir do minuto 11:40 da entrevista]:

“O presidente parece que escolhe a dedo pessoas muito perigosas. Inclusive há uma pessoa muito próxima a ele que recentemente tentou seqüestrar um jornalista do sistema Globo. Pegou o jornalista Lauro Jardim na saída de um restaurante em São Paulo e tentou enfiar o Lauro Jardim dentro de um automóvel. Uma coisa meio forçada.

O Lauro ficou muito nervoso, muito preocupado, o assunto foi levado à direção da TV Globo, foi parar no departamento jurídico do Jornal O Globo e essa pessoa foi notificada inclusive pelo sistema Globo para que não se aproximasse mais do Lauro Jardim.

Essa mesma pessoa já ameaçou uma outra jornalista da revista Época e já fez ameaças veladas também a uma outra jornalista do jornal O Globo. Enfim, são essas as pessoas que estão ao redor do Presidente”.


O relato do Bebbiano dá conta de grave atentado não só contra jornalistas da Globo – a Lauro Jardim, à jornalista da Época e à outra jornalista do Globo – mas de um atentado perpetrado contra a liberdade de imprensa e contra o pouco que ainda vigora de ordenamento democrático no Brasil.

O grupo Globo não se manifestou sobre o assunto. Nem para desmentir Bebbiano, nem para justificar seu silêncio e omissão diante de um ato de terror de extrema gravidade.

A providência do departamento jurídico da Globo de notificar o agressor “para que não se aproximasse mais do Lauro Jardim” para deixar tudo por isso mesmo é tão eficaz quanto pedir ao estuprador que se “abstenha” de estuprar sua vítima.

A Globo precisa se explicar por que, afinal, silencia sobre a pessoa “muito perigosa” e próxima a Bolsonaro que tentou seqüestrar o jornalista Lauro Jardim e ameaçou outras jornalistas da empresa.

Se a Globo continuar em silêncio, será legítimo pensar que a família Roberto Marinho ou se acovardou ou tem algum arreglo com milicianos que não escondem o desejo de implantar uma ditadura fascista no Brasil.

jornalista__fadi__abou_hassan_faditoon.jpg

 

07
Dez19

'Coringa' e o medo da burguesia histérica

Talis Andrade

coringa em araripina.jpg

 

 

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento,

mas ninguém diz violentas às margens que o comprimem”  

Bertold Brecht

 

Por João Paulo Rillo
Viomundo

Depois de 10 dias em cartaz, fui assistir ao filme Coringa e notei relativo esvaziamento nas salas de exibição.

Já era recorde de público no mundo inteiro, por isso estranhei a não lotação. Sucessos inferiores de bilheteria lotaram por mais tempo as salas dos shoppings paulistas pelo Estado.

Mas o estranhamento durou pouco, logo fui abduzido pela magia da sétima arte, comi um saco de pipoca e aproveitei cada segundo da obra de arte projetada na tela.

Tudo é encantador, o roteiro, a fotografia e a brilhante interpretação de Joaquim Phoenix.

O filme é sensível e profundo. Traduz com exatidão e urgência os conflitos e as letais doenças sociais produzidas pelo capitalismo.

Passei a indicar o filme aos amigos e conhecidos. E encontrei a mesma resistência e preocupação em várias pessoas: “ah, mas não é muito violento?”.

Eis a principal a razão do esvaziamento precoce das confortáveis salas de cinemas.

Os mesmos que naturalizam a violência real contra pretos e pobres e inflam o peito para dizer que “passou da hora de adotar a pena de morte nesse país” se assustaram ao verem desmoronar a ilusão pré-concebida do super-herói.

Passaram a difamar e a demonizar o filme que tanto os incomodou.
 
Nenhuma tese sociológica explicaria de forma tão impactante o caos que a indiferença social pode causar.

O protagonista é o anti-herói, um cidadão emocionalmente quebrado, perturbado e completamente solitário.

À medida que a sociedade do consumo empurra tudo que não é espelho para a margem, cria um ambiente paralelo extremamente imprevisível e perigoso.

Quem não se sente parte do mundo oficial não tem compromisso com ele. Esse é o detalhe sórdido que a burguesia produz e não admite.

Longe de ser panfletário e avesso ao maniqueísmo trivial dos filmes de heróis, Coringa é extremamente poético e assume lado nessa atmosfera de ódio e intolerância que acomete o mundo em seus quatro cantos.

Denuncia a degradação do tecido social e a ausência de Estado na vida dos mais desprovidos de renda e afeto.

Incomoda os opressores e seus cúmplices. Impossível não se mexer na poltrona, não se sentir opressor ou cúmplice pelo menos uma única vez durante a exibição.

O riso desesperado do protagonista – inconsciente do seu papel político – desperta indignação e insurgência nos moradores da cidade.

O filme desvenda, de maneira genial, a origem da violência e radicaliza a problemática do germinar da semente ao desmoronar da árvore.

Ele tira o espectador da zona de conforto e apresenta uma perspectiva utópica e revolucionária.

No meio do caos econômico e social que vive a cidade, o filme propõe que uma classe derrote a outra. Que os muito ricos e opressores paguem com a própria vida todo mal que causaram ao mundo.

Um final apoteótico para alguns e aterrorizador para outros.

Por isso que parte da burguesia nacional passou a militar contra o filme, dizendo se tratar de um palhaço marxista e doutrinador.

Incapaz de olhar em torno e assumir sua responsabilidade nessa tragédia social, a burguesia histérica prefere eleger fantasmas e confundir a realidade.

Para essa gente, a culpa é sempre dos outros; dos pobres, dos pretos, dos marginais, das prostitutas, dos gays e dos comunistas.

Uma obra de arte verdadeira carrega sempre uma beleza livre e subjetiva aos olhos de quem aprecia. Cada um entende como quiser a narrativa exposta.

Eu gosto da metáfora de que precisamos derrotar tudo que nos faz sofrer. Como alcançar esse objetivo é a busca diária dos que lutam por um mundo menos injusto.

O caos na velha Nova York fez-me lembrar de uma frase do jurista e ex-governador de São Paulo Claudio Lembo sobre os ataques do PCC em 2006:

“Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”.

Em tempo, Claudio Lembo não é um marxista, muito pelo contrário, é um liberal clássico.

gervasio coringa moro dallagnol.jpg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub