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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

08
Out23

Poemas para não perder

Talis Andrade
 
Eliezer Markowich Lissitzky, Proun 93. Espiral flutuante, 1924
 

 

Comentário sobre o livro de Golondrina Ferreira

 

por Alexandre Marinho Pimenta 

“Nos interstícios desse deslizar cinzento, entrevejo uma guerra de usura da morte contra a vida e da vida contra a morte. A morte: a engrenagem da linha de montagem, o imperturbável deslizar dos carros, a repetição de gestos idênticos, a tarefa jamais terminada […]. E se nos dissermos que nada disso tem importância, que basta habituar-se a fazer os mesmos gestos de uma maneira sempre idêntica, num tempo sempre idêntico, aspirando unicamente à plácida perfeição da máquina? Tentação da morte. Mas a vida revolta-se e resiste. O organismo resiste. Os músculos resistem. Os nervos resistem. Alguma coisa, no corpo e na cabeça, defende-se contra a repetição e o nada. […] Tudo o que, nos homens da linha de montagem, grita silenciosamente: “Eu não sou máquina!” (Robert Linhart, Greve na fábrica).

“O proletariado passa por diversos estádios de desenvolvimento. A sua luta contra a burguesia começa com a sua existência” (Marx e Engels, Manifesto Comunista).

 

No final do ano passado, foi publicada uma nova edição – a quarta – do livro de Golondrina Ferreira, Poemas para não perder. O livro é ilustrado com desenhos de Marco Antonio. Poemas para não perder é uma obra que talvez possa ser encaixada na nova literatura marginal. Afinal, o livro é de uma editora independente, sua autora é uma operária e seus versos abordam a vida dos explorados e das exploradas desse país. Na apresentação, a autora assume estar na “trincheira da poesia” daqueles poetas “que nunca tiveram holofotes, nem nunca agradaram a quem tinha o que perder”.

Ou ainda, o livro integraria as novas formas de realismo que hoje recolocam o proletariado no centro do esforço literário, por exemplo com Luiz Ruffato. Uma literatura proletária contemporânea que usa a prosa e o verso para narrar as memórias e as experiências atuais do trabalhador e da trabalhadora no Brasil.

Mas a melhor síntese e caracterização do livro foi dada pela própria autora, em recente entrevista para o site Cem Flores:[i] “poesia de luta”. Isso porque, a descrição das situações de opressão típicas da vida proletária que percorrem os poemas, organizados em angustiantes dias da semana (segunda, terça, quarta…), não só são intercalados com protestos formulados em versos.

Protestos singelos, diga-se de passagem, representativos do momento atual de recuo da luta operária, mas que dizem da luta de classes travada “sem interrupção, embora de maneira surda e não visível do exterior, por não ser consagrada pela legalidade existente, em todos os momentos da prática da produção e muito além dessa prática” (Althusser, 1999, p. 130). Atos de protestos que são o sentido mesmo de todos os versos juntos, compondo assim um singular manifesto político, uma arte enquanto ferramenta de mobilização. O estético, na obra de Golondrina Ferreira, só é alcançado para e por meio do político. Como diz novamente a poeta, em entrevista já citada: “a poesia é quem faz trançar a luta e a falta dela, povoa a segunda da primeira para ver onde vai dar”.

Os poemas de Golondrina Ferreira servem, portanto, não apenas para falar das vidas e das dores que se forjam na produção das mercadorias e na valorização do capital. Poemas esses forjados nesse próprio terreno, guardados nos bolsos “para não perder”. A captura dessa realidade é concomitante ao seu intento de destruí-la – para a classe trabalhadora ser capaz de outra produção e reprodução da vida, não mais baseada na “escravidão assalariada”, sistema já dissecado por Marx.

O livro de Golondrina Ferreira, cuja primeira edição é de 2019, surge em mais um período histórico no qual a classe operária está amordaçada, como diz Edelman (2016). Tanto lá fora, quanto aqui, ela sofre os efeitos devastadores de contínuas transformações tecnológicas na produção e de crises econômicas e seus respectivos pacotes e “reformas”. Junto às demais classes trabalhadoras, vê suas condições de trabalho e de vida piorarem em vários níveis. A ponto de não saber bem o que é o pior: amargar no desemprego, na miséria, ou no ritmo alucinante de trabalho que adoece, mutila e mata.

Embora importantes e valiosas, poucas são as suas rebeliões nos últimos anos, sob frágil ou quase nula organização. Os movimentos, sindicatos e partidos ditos dos trabalhadores, majoritariamente, não estão a serviço de qualquer coisa que se aproxime de uma revolução, mas a serviço sim de rodadas intermináveis de ilusões e de acordos com o capital – acordos resumidos por Maiakovski (2001, p. 135) mais de um século atrás: “Para um – a rosca, para os outros – o buraco dela. / A república democrática é por aí que se revela”.

É sob esses escombros da vida e da luta do proletariado, em suas velhas e novas paisagens, que Golondrina Ferreira ousa cantar. Exercício de autoria que não parte de si – uma identidade que se nega a ser encerrada em apenas um nome próprio. Como diz na Apresentação: “a beleza e a força eu agradeço e dedico a todos que as produziram indiretamente: à militância que vem sobrevivendo às últimas décadas de descenso […]. Aos intelectuais de dentro e de fora das organizações […]. A quem ousou não se entregar aos convites de conciliação […]. O que ele ainda pode ser, eu ofereço aos personagens desse livro, os operários da minha fábrica, do meu país, e a tantos outros em Xangai, Singapura, Chicago, Buenos Aires, Berlim…”.

O esforço é de dizer o que se tem enfrentado na luta cotidiana na atual conjuntura, e também transformar em poesia aquilo que se vive por quem trabalha.

Nos poemas de Golondrina Ferreira a primeira dimensão da luta que aparece é entre o capital morto e esse estranho capital variável que acorda cedo para ganhar o pão de cada dia. O maquinário, animado que é pela fome infinita de valorização, torna-se uma personagem. Como é dito no poema que abre o livro: “A fábrica tem fome, / passou o dia inteiro / de barriga vazia. / Então abre suas bocas de catraca / e nos seus dentes vamos passando / um a um”. Ou ainda no poema Quinta, onde a operária, frente à máquina, “Se entrega / à sua potência e regularidade, / se submete / às suas exigências e seu tempo”.

O processo de consumo intenso da força de trabalho é retratado em diversos poemas. Ou melhor, remoído, em sua materialidade. Seja denunciando a brutal e cínica “liberdade” que subjaz a contratação “livre” e o assalariamento – em última instância, liberdade do patrão para substituir o trabalhador como quem troca uma peça.

Seja abordando a falácia dos ditos direitos trabalhistas para a grande maioria, que não pode reclamar, não pode adoecer, por vezes nem conversar, na ditadura insalubre chamada produção. Seja na descrição em verso da linha de montagem (“Mais um / Mais um / Mais um” ou “Liga / ajusta / alimenta”), ou ainda da situação de trabalhadores e trabalhadoras, como no poema Patrícia, onde se retrata a exaustão física e psíquica no trabalho: “Somente olhos e mãos e os tendões entre eles, sem parar, sem fechar, sem cair, queimando pra dentro de nós indissolúveis, sem nós…”. 

Aliás, a sensação de limite físico, psíquico e moral, e de seu cotidiano cruzamento, na fábrica, na rua, na casa, é o caracteriza a própria condição proletária, como mostram os poemas de Golondrina Ferreira. “Viver / é tecnicamente inviável”, diz no poema Constância. Os pensamentos do eu lírico e seus versos surgem quase como uma reação corporal espontânea em espanto e resistência a tal situação de cansaço, pobreza e risco. Pensamentos e versos que se questionam: até quando? O poema Diálogo de fim de turno diz: “Já era? – pergunta o Alemão. / Antes fosse, Alemão, / antes fosse”.

Essa mesma pulsão que surge e depois se apaga, que por vezes encontra voz, por vezes se cala, é tratada como material poético e político pela poeta. Essa insistência de um corpo vivo, apesar do processo de mutilação e dessubjetivação imposto pelo capital, pe o ponto de partida de onde se tenta construir versos mais explosivos. Versos que não apenas digam da dor e da necessidade de suportar, mas da força e do ódio que podem ser armas, da luta que pode fazer algo avançar e da possibilidade de outro amanhã. No poema Quarta, sintetiza a alegria e a potência que surge ao se atingir o inimigo: “Avisem os supervisores / – mais por tesão que por pauta – / paramos a produção!”.

O domínio do capital, como já se sabe há muito, é contraditório. A guerra cotidiana e coletiva pela sobrevivência pode também ser o pontapé para construir outra guerra, que construa o novo; a luta da classe burguesa contra o proletariado alimenta também o seu reverso. Essa luta dos debaixo hoje se faz pequena, praticamente sem vitórias, afinal “o inimigo ainda é soberano”. Mas é desse tempo que partimos, e não de outros. Hoje “a tarefa é silenciosa, subterrânea / sem glórias”, diz o poema Panfletagem I.

A poesia de luta de Golondrina Ferreira é um singelo alívio aos que ainda não abandonaram a bandeira da “abolição definitiva do sistema de trabalho assalariado”, como dizia Marx. Aos que têm suportado os últimos anos de barbárie nesse país de uma nota só, como dizia o poeta Marighella. Singelo, mas germinal, lembra-nos o poema Panfletagem II.

Aos que desanimam, Golondrina insiste:

Gostaria de te consolar com um abraço
e boas notícias,
mas você tem razão
– somos poucos e estamos cansados,
no entanto ninguém,
senão nós,
poderá fazê-lo.

Nós, com todos os nossos defeitos,
com nosso cansaço,
com as marcas da derrota,
com nossos mortos por vingar.

 

Referência


Golondrina Ferreira, Poemas para não perder. São Paulo, Editora Trunca, 2019, 126 págs.

Bibliogafia


ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis, Vozes, 1999.

EDELMAN, Bernard. A legalização da classe operária. São Paulo: Boitempo, 2016.

FERREIRA, Golondrina. Poemas para não perder. Brasil: Edições Trunca, 2022.

MAIAKOVSKI, Vladimir. Mistério-Bufo. São Paulo: Musa, 2001.

Nota


[i] https://cemflores.org/2023/01/06/entrevista-com-a-operaria-poeta-e-militante-golondrina-ferreira-por-cem-flores/

05
Ago23

A educação no estado de São Paulo ou a perversa política da queima de livros

Talis Andrade

 

por Marcia Tiburi

O secretário da educação de São Paulo, Renato Feder (um sobrenome metafórico?), decidiu privar as crianças do ensino público estadual de livros que seriam doados a elas gratuitamente pelo governo federal. Políticos de extrema-direita nunca surpreendem com seus gestos desumanos e sempre podemos esperar o pior deles.

A chacina no Guarujá é complementar ao que parece ser uma verdadeira política de queima de livros, monumental e sem fumaça, pelo extermínio desses objetos do conhecimento. Os judeus nos campos de concentração eram transformados em fumaça na solução final. Imaginem que não há nem fumaça na solução do governo paulista. Mata-se uns adolescentes de um lado e se priva os pré-adolescentes de livros do outro, quem sabe para que sejam mortos mais adiante pelo mesmo estado que lhes tira oportunidades básicas como é o acesso à educação e ao livro que dela faz parte. Será isso a “educação do futuro”?

Todos sabem que a imensa maioria das crianças das escolas públicas pertencem às classes desfavorecidas e exploradas e precisam de todo apoio escolar para ter uma vida digna. Criança é sinônimo de escola. E livro infantil é bem de primeira necessidade. Na rejeição ao livro para as crianças há também uma atitude elitista, pois sabemos que essas crianças terão menos acesso a livros do que as crianças cujos pais podem pagar - ou se esforçam desesperados por conseguir pagar - uma escola particular para seus filhos. A educação deveria ser para todos, generosa e de qualidade, mas o estado vampirizado pelos neoliberais não quer ser decente com os pobres e nem com as crianças pobres.

A pergunta que não quer calar é: como um homem que não vê valor em livros, como o secretário Feder, tem um livro na lista dos mais vendidos? Quem comprou? Talvez a investigação do Ministério Público venha a elucidar o que se passa. Vamos esperar. Enquanto isso, a educação vai de mal a pior, o estado de São Paulo, sequestrado pelas milícias cariocas, segue seu triste destino. Pobre do povo que não sabe em quem vota.

28
Abr23

Os clubes de leitura que desafiam a crescente censura de livros nos EUA

Talis Andrade

 

 (crédito: Getty Images)
(crédito: Getty Images)

 

Mais de 2.500 proibições de livros foram emitidas por distritos escolares em 32 estados. A maioria dos pedidos de censura envolve obras que lidam com identidade racial e sexual

 

por BBC News

Ella Scott e Alyssa Hoy estavam apenas tentando concluir o ensino médio — até que encontraram sua vocação: defender o direito de escolher quais livros ler.

A mãe de Hoy, que é professora, disse a elas em dezembro de 2021 que as autoridades educacionais de Leander, cidade do estado do Texas, estavam proibindo vários livros de instituições acadêmicas, alegando que haviam recebido "reclamações" dos pais.

A conversa levou as duas adolescentes a iniciar um clube de leitura de livros proibidos.

Desde então, muitos mais surgiram nos Estados Unidos em resposta à crescente censura de obras literárias em escolas e bibliotecas públicas.

"Não tínhamos ideia do que estava acontecendo com a proibição e sentimos que algo precisava ser feito para aumentar a conscientização", disse Scott, de 17 anos, à BBC.

"É definitivamente desconcertante pensar que isso está acontecendo em um lugar como os Estados Unidos, onde temos uma cultura de liberdade."

O clube do livro de Scott e Hoy começou com um grupo de meninas em sua classe e depois cresceu para incluir alunos da Vandergrift High School, uma escola estadual com 2.709 alunos.

"As pessoas vêm de diferentes classes e origens. É ótimo ouvir as várias conversas que surgem quando falamos sobre um assunto que afeta a todos nós", acrescenta Hoy, também de 17 anos.

Milhares de livros proibidos

Leander está longe de ser um caso isolado em que as autoridades educacionais restringiram o acesso a obras literárias consideradas polêmicas.

A American Library Association informou em março que os pedidos de retirada de livros de escolas e bibliotecas públicas em 2022 atingiram o maior número desde que os registros começaram, há 20 anos.

Em seu relatório mais recente, cobrindo o ano letivo de 2021-2022 nos EUA, a PEN America, uma ONG com sede em Nova York que rastreia a censura de livros, relatou que mais de 2.500 proibições de livros foram emitidas por distritos escolares em 32 estados.

A PEN America estima que essas decisões afetaram cinco mil escolas e quase quatro milhões de alunos.

Jovens segurando livros em seus rostos.
VHS BANNED BOOK CLUB
O estado do Texas, onde Scott e Hoy moram, teve o maior número de proibições de livros (801)

 

O estado do Texas, onde Scott e Hoy moram, teve o maior número de proibições de livros (801), seguido pela Flórida (566) e Pensilvânia (457).

Os números podem aumentar ainda mais nos EUA.

No final de março, a Câmara dos Representantes, liderada pelos republicanos, aprovou uma legislação conhecida como Declaração dos Direitos dos Pais, que, segundo os críticos, daria aos pais o direito de veto sobre os livros no sistema escolar.

O projeto ainda precisa passar pelo Senado, que tem maioria democrata.

"É natural que sempre haja alguém que se sinta desconfortável com determinados tópicos", diz Scott. "Mas isso não é necessariamente uma razão para remover os livros ou tirar a oportunidade de outros formarem sua própria opinião."

'Tentando silenciar a verdade'

A maioria dos pedidos de proibição envolve obras que lidam com identidade racial e sexual.

A PEN America diz que, dos mais de 1.600 títulos que sofreram algum tipo de censura de 2021 a 2022, mais de 80% apresentavam pessoas proeminentes LGBTQ+ ou não brancas.

Um desses livros foi All Boys Aren't Blue (Nem todos os garotos são azuis, em tradução livre), de George M. Johnson, um livro de memórias sobre crescer negro e queer, que se tornou o terceiro título mais banido pelas autoridades escolares.

"Toda vez que você escreve um livro em que fala sobre sua verdade, haverá pessoas que querem silenciá-lo", disse Johnson em uma entrevista em 2022 à rádio pública americana NPR.

O escritor e jornalista, que usa os pronomes neutros, acredita que o currículo ensinado na maioria dos sistemas escolares americanos ainda é fortemente voltado para o adolescente branco, masculino e heterossexual, e que as pessoas que tomam essas decisões têm dificuldade em aceitar a diversidade.

"É como, 'Oh meu Deus, quão perigoso seria para adolescentes brancos aprenderem sobre outras pessoas na sociedade?'"

George M. Johnson
Getty Images
O popular livro de George M. Johnson é um dos mais proibidos

 

Mas a censura também afeta textos básicos que são lidos por estudantes americanos há décadas.

Um exemplo é To Kill a Mockingbird (O Sol é Para Todos, na tradução publicada no Brasil), romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Harper Lee publicado em 1960 que explora a injustiça racial nos EUA. Foi banido pelos distritos escolares de Oklahoma e Carolina do Norte em 2021.

Organizações que defendem a liberdade de expressão argumentam que a frequência e o volume de objeções se intensificaram devido à polarização política desencadeada após as disputadas eleições presidenciais de 2016 e 2020 nos EUA.

A PEN America diz que identificou pelo menos 50 grupos que defendem as proibições nos níveis local, estadual e nacional. A maioria, diz a ONG, parece ter se formado em 2021.

"Pais e membros da comunidade desempenham um papel importante na formação do que os alunos aprendem na escola", disse Suzanne Nossel, diretora executiva da PEN America, em um comunicado.

"Mas isso vai muito além das expressões orgânicas de preocupação ou da troca normal entre pais e educadores em um ambiente escolar saudável".

protesto para banir determinados livros
Getty Images
Acusações de 'obscenidade' geralmente aparecem em campanhas para proibir livros

 

Além disso, as regras sobre quem pode questionar um determinado livro variam em cada distrito escolar.

Alguns até permitem que pessoas que não são pais de alunos expressem suas preocupações.

Confrontando as autoridades

Scott e Hoy querem que suas vozes sejam ouvidas neste debate.

Um dos livros discutidos recentemente em sua reunião de clube é outro título frequentemente banido, Out of the Darkness (Fora da escuridão, em tradução livre), de Ashley Hope Perez, um romance centrado na história de amor entre um adolescente mexicano-americano e um adolescente afro-americano na década de 1930 no Texas.

"É tão estranho que em uma sociedade tão individualista como a dos Estados Unidos haja pessoas tentando eliminar histórias que mostram diferentes individualidades", diz Hoy.

"Isso cria um tipo de pessoa 'ideal' que você deveria ser. É assustador crescer em tempos assim."

As adolescentes do Texas fazem parte de um movimento de base que está fazendo mais do que desafiar as proibições de livros lendo-os.

No Missouri, dois estudantes levaram o distrito escolar de Wentzville ao tribunal no ano passado por uma decisão de remover oito livros considerados "obscenos", incluindo O Olho Mais Azul de Toni Morrison, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993.

Sete títulos foram devolvidos voluntariamente às bibliotecas escolares pelas autoridades educacionais.

Outro caso que ganhou as manchetes nos EUA foi um protesto de longa data de estudantes do ensino médio na Pensilvânia em 2021 sobre a decisão de restringir o acesso a mais de 300 livros, filmes e artigos ligados principalmente a autores negros e latinos.

Campanhas para facilitar o acesso a obras específicas também fazem parte desse movimento.

Na Flórida, o ativista e poeta Adam Tritt criou a Fundação 451, que compra livros proibidos e os distribui em locais públicos como cafeterias e sorveterias.

Protesto contra a proibição de livros
Getty Images
Também houve protestos contra a proibição de livros

 

"Distribuímos quase 3.000 desses livros para crianças e jovens, e meu sonho é arrecadar mais fundos para fazer o mesmo em todo o país", disse Tritt, de 58 anos, à BBC.

Tritt, professor de inglês de uma escola secundária na cidade de Palm Bay, iniciou a campanha em maio do ano passado após receber uma mensagem das autoridades locais de educação solicitando a retirada de dois livros de sua turma (O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini e Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut) porque as obras foram consideradas "pornográficas" e "anti-cristãs" .

"Sinais de alarme dispararam na minha cabeça e eu soube imediatamente que uma ação era necessária."

Tritt diz que sua campanha provoca dois tipos de reações: por um lado, agradecimentos dos jovens, alguns da comunidade LGBTQ+, e de seus pais. Do outro, raiva de pessoas que se opõem à iniciativa.

"Eles me insultam e me acusam de pedofilia. Muitas vezes recebo ameaças de morte", acrescenta o professor.

Ele diz que é importante aumentar a conscientização para uma causa que, ironicamente, a maioria dos americanos apoia em princípio.

Pesquisas nacionais mostram que a maioria das pessoas de todas as convicções políticas se opõe às proibições.

O problema, acredita Tritt, é que essa maioria não está envolvida no debate.

"Por isso é importante ver os jovens protestando. Eles podem ainda ser jovens demais para votar e mudar a lei, mas já estão lutando."

Estande da Fundação 451, que promove a distribuição de livros proibidos na Flórida.
ADAM TRITT
A Fundação 451 promove a distribuição de livros proibidos na Flórida

 

Isso é música para os ouvidos das estudantes do Texas Ella Scott e Alyssa Hoy e seu clube de livros proibidos.

"Estamos assumindo uma posição em um debate que achamos que está acontecendo principalmente nas reuniões do conselho escolar e sendo criado por pais que não querem que seus filhos leiam determinado livro", diz Scott.

"Tudo bem se sentir desconfortável e não ler um livro. Mas tirar isso de todo mundo não é justo", acrescenta Hoy.

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