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19
Dez21

Os jovens brasileiros descobrem o livro de papel

Talis Andrade

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Surpreende o comparecimento à Bienal do Livro do Rio quando temos um presidente que deprecia a cultura

 

 

por Juan Arias /El País

Tradução Ricado Noblat

 

A tradicional Bienal do Livro do Rio, que acaba de celebrar sua vigésima edição, foi uma surpresa para seus organizadores e para a sociedade em geral porque há desmentiu muitos dos mitos atuais, como o de que os jovens já não se entusiasmam pelos livros de papel. Eles seriam somente os filhos da era digital.

Surpreendem os números desta Bienal, a primeira que se celebra de maneira presencial e virtual. Apesar de que não era fácil acessar o lugar, no bairro da Tijuca, compareceram presencialmente 250 mil pessoas, 80% de jovens de idade entre 18 e 25 anos. Foram vendidos dois milhões de livros. “As vendas foram surpreendentes”, comentou feliz Marcos Veiga Pereira, do Sindicato Nacional de Editores de Livros. Mais de um milhão de pessoas assistiram aos atos presenciais com autores.

A Bienal foi seguida virtualmente por 750 mil pessoas, a maioria jovens. Todos os autores sublinharam o entusiasmo deles ao tocar no livro físico e poder conhecer os escritores pessoalmente. Um dos espaços mais visitados foi o dedicado a novos títulos da literatura LGBTI.

À Bienal assistiram 70 mil estudantes das escolas públicas com seus 5 mil professores. As cifras não deixam de chamar atenção porque o Brasil vive um momento trágico na cultura provocado por um presidente, Jair Bolsonaro, que não dá importância ao conhecimento, inclusive o deprecia. Há alguns dias, Bolsonaro deu uma amostra a mais do desapreço que professa à cultura e, sobretudo, à leitura. Conversando com um grupo dos seus seguidores mais fanáticos, um deles lhe ofereceu um livro. O presidente recusou e disse: “Eu não leio livros. Faz três anos que não leio nada”. De fato, ele fala e escreve mal o português. Sobre os livros e sua força cultural tem opinado todos os grandes pensadores desde a Antiguidade. É unânime e significativo o ódio aos livros e a cultura de todos os tiranos da história. A célebre frase do poeta alemão Heinrich Heine “ali onde se queimam os livros se acaba queimando os homens”, como nas fogueiras feitas com livros que precederam o Holocausto, se casa hoje com a de Vargas Llosa quando afirma que “aprender a ler é o mais importante que aconteceu em minha vida”.

Os jovens de hoje que se entusiasmaram com a Bienal do Livro do Rio e parece terem descoberto o valor do tato, talvez em mais alguns anos não possam fazer isso porque o papel poderá deixar de existir. Mas nunca esquecerão a felicidade de acariciar o livro físico, de pedir um autógrafo ao seu autor. E, sobretudo, o prazer da leitura que amplia a mente e permite descobrir as dobras mais escondidas da alma humana.

Nunca esquecerei que meu pai, que foi professor rural na Galícia, Espanha, nos tempos de escassez e do pós-guerra, onde as crianças, entre elas meus irmãos menores e eu, tínhamos um só livro para todo o curso primário, nos reuniu ao lado de sua cama para dar-nos seu último conselho. Eram tempos em que se ia preso ou se era fuzilado não por ser criminoso, mas por terem-se ideias contrárias às do ditador. “Quando forem maiores, vocês já terão muitos livros”, nos disse, e acrescentou: “Não esqueçam nunca que até numa prisão se é menos infeliz os que gostam de ler”.

Meu pai, que inventava testes de inteligência e nos dava a maioria das lições nas ruas, acabou castigado pelo regime franquista a vários meses sem salário porque diziam que as crianças que saíam da escola rural para cursar a secundária “faziam demasiadas perguntas” aos professores ao invés de escutar em silêncio.

Sim, os livros, a leitura, a reflexão, a curiosidade do saber são os eixos de nossa riqueza cultural cada dia mais depreciada em um mundo acossado pela nefasta cultura das fakes news e do aplauso a vulgaridade proclamada por negacionistas que se nutrem nos esgotos da ignorância.

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