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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

05
Fev21

Cinco poemas para lembrar Maria Lúcia Alvim

Talis Andrade

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'.

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'. SEBASTIÃO ROCHA REIS 
 
 

Poeta mineira, que lançou livros de inéditos em 2020 após hiato de 40 anos, morreu de covid-19 aos 88 anos

 

A poeta mineira Maria Lúcia Alvim morreu nesta quarta-feira por complicações da covid-19 em Juiz de Fora, Minas Gerais. A autora tinha 88 anos e lançou, no ano passado, um livro de poemas inéditos após quatro décadas de hiato. Batendo Pasto (Relicário, 2020) foi planejado por Maria Lúcia Alvim como uma obra póstuma, mas Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck a convenceram a publicá-lo. Mineira de Araxá (1932), a poeta é irmã de outros dois nomes da poesia contemporânea e brasileira Francisco Alvim e Maria Ângela Alvim. “Estou adorando que os jovens se aproximem de mim e de minhas coisas. Quero que cheguem cada vez mais perto, a um palmo de distância de mim, para a gente poder se entender um pouquinho”, disse ela em entrevista à Tribuna de Minas sobre o lançamento do novo livro. “Estou adorando. Depois que você fica velho, fica se odiando. É horrível.” A seguir, Lígia Gonçalves Diniz, professora de literatura na UFMG e autora de Imaginação com presença: o corpo e seus afetos na experiência literária (UFPR, 2020), indica 5 poemas para lembrar a autora. In El País

XIV

Quisera tanto que durasse

qualquer desejo em qualquer dia

que mesmo sendo em demasia

eu deles nunca me fartasse;

assim enquanto não houvesse

nada mais que vos sugerisse

então que a vida ressurgisse

e só desejos refizesse;

porque deixei vossa verdade

ó coisas já feitas de espera

quando sempre tudo soubera

tão cheio de realidade;

pois bem sei que ando consumida

mas por desejos que são vida.

(De XX Sonetos, 1959)

 

CARTÃO POSTAL

Repente de tarde. Plana. Ceifada.

Âncoras amortecem o peso e se liquefazem.

Apagam-se ruivos outeiros.

 

Dois namorados olham o mar.

 

Um pássaro de insólito voo

roçou-lhes o ombro.

— Seremos assim potentes?

E subitamente puseram-se

a ferir-se a ferir-se

a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

 

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria

ser feito

para cumprir mandamentos, para

povoar

a solidária solidão de pares amorosos, improvisados e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido

seria para

provar apenas isto: 

a matéria ou

mistério

ou vida

desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

 

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,

marejados de sono, navegamos —

que esse rio de amor e de abandono

seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente

sacudimos a tarja temporária -

e a alma se evapora: tarlatana

sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo

impreciso e profuso, pelo pranto

que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos

entre quiosques, domos e coretos

sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

 

(SEM TÍTULO)

Manhã sem rusga

pequeno depósito de agrura na poça

exorbitei de alegria

a abóbada celeste não dá vazão

silos de silêncio

ó ser astral

o capim é minha grande reserva interior

a esperança

desleixo

(De Batendo pasto, 2020)

 

12
Jan21

ESQUIFE ENCARNADO

Talis Andrade

por Talis Andrade

1

Que cavaleiro reerguerá a bandeira
posto à prova nas batalhas
como apreendido o amor
no ventre ardente
a fornalha
em que se malha
o frio aço
da lâmina flamejante

Desde criança o vaticínio
trovejado pela espumante boca
do profeta
Montado em um cavalo branco
os pés nos estribos
na mão esquerda a bandeira
na mão direita a espada
para degolar os exércitos mercenários
os vendedores do Templo
os moedeiros falsos

Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo

2

Veio o demônio a morte
e tomou a espada
Os livros não ensinam
a espada
tem que ser fincada na pedra do sonho
de onde manarão fontes
cantantes símbolos do Verbo

Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
Os livros não ensinam
uma bandeira apenas um fetiche
de pano e haste
A bandeira tecida
para tremular ao vento
poderia ser pisoteada
pelas hostes inimigas

A bandeira da cor de papoula
cobre o caixão
A bandeira agitada nos estádios
saudada nas passarelas do samba
reverenciada nos terreiros de macumba e capoeira
a bandeira benzida nas procissões
a ensangüentada bandeira das passeatas e comícios
cobre o caixão

3

A vida poderia ter sido feita
de cousas rotineiras

O amor da namorada
no vestido encarnado
de mestra do pastoril
a cantar a vinda do Menino Jesus
que veio ao mundo
para nos salvar

O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário

O romantismo dos camaradas
nas barricadas levantadas no ar
contra os daltônicos escribas da corte
O romantismo dos camaradas
nas barricadas cavadas no asfalto
contra os salários de fome

O dinheiro contado
da lista corrida
entre os companheiros
o dinheiro repartido
para comprar leite e pão
o dinheiro arrecadado para encomendar
as seis tábuas de um caixão
A vida teria sentido
o povo marchasse unido
para expulsar as quatro bestas espreitando
nas quatro esquinas do medo
a ganância do patronato
a covardia dos fura-greves
a brutalidade da polícia
a conivência da justiça
quatro bestas espreitando
coas presas sujas de sangue

4

Benfazeja realidade benfazeja
para quem vê os próprios interesses
E de crime em crime vai juntando
o precioso dinheiro
– o dinheiro indivisível e invisível
o dinheiro que não tem cor
o dinheiro que não tem cheiro
apenas o número secreto do dono

O povo coisa sem importância
As pistas dos latrocínios e pilhagens
desaparecem na lavagem do sangue dos inocentes
os cadáveres sob o peso do cimento
e do aço das obras públicas inacabadas
A lavagem do dinheiro nos bancos
clandestino batismo
dos adoradores do bezerro de ouro

5

Diante da glória passageira
o atordoante desespero
de não reconhecer as vermelhas nuances

Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados
a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus
a cruz da Ordem dos Templários
a cruz gamada dos soldados de Hitler
a bandeira dos operários de Lenine
a bandeira dos piratas
com a ampulheta a caveira e a espada

Vermelho o lenço amarrado
no pescoço dos revolucionários de Trinta
Vermelho o pedaço de pano
o sinal abominável
os leprosos carregavam
pendurado nas vestes brancas
Vermelho o laço de fita
no alto da cabeça da menina
para quem o poeta recitou
rimados versos de amor
em noites de serenatas 

Como espanta
o controverso oportunismo
todos quererem uma bandeira
quando sequer entendem
o que seja vermelho


In livro Esquife Encarnado. A Tribuna, Recife, 1957.
Este é o poema título do livro Esquife Encarnado.
Livro publicado em parceria com Djalma Tavares, e premiado em Goa, em um Festival de Poesia Internacional.
Djalma, além de excelente poeta, era pintor. Capa e ilustrações do livro são de Djalma Tavares. De uma família de poetas. Irmão de Odorico e Cláudio Tavares, primo de Deolindo Tavares, e tio de Gladstone Bello e Carlos Pena Filho.

02
Dez20

Sol Negro Edições (RN) lança campanha pra financiar livro

Talis Andrade

Os-vivos-e-os-mortos-capa f monteiro.jpeg

 

A Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díaz, e uma campanha no Catarse pra ajudar no custo da publicação.

O livro tem um projeto gráfico desenvolvido especialmente para acompanhar e dialogar com o texto do poema, criado em parceria pelo editor e designer Márcio Simões e o ilustrador Chico Díaz.

Conhecido por seu trabalho como ator, especialmente para a rede Globo de televisão e para o Cinema, Díaz também é artista visual e esse é o primeiro livro ilustrado por ele.

Participe da campanha no Catarse AQUI

Na edição, o texto do poema aparece na cor branco, em páginas negras, intercalado em cada uma de suas partes pelas imagens vorazes e torturadas de Díaz, que também abrem e encerram o livro, reforçando e intensificando o tema tratado.

O papel utilizado, mais espesso que o comum, tem gramatura de 120g/m2, de melhor acabamento, garantindo a opacidade entre as páginas e a melhor impressão possível para o livro. A edição conta ainda com uma apresentação do poeta e professor Sérgio de Castro Pinto.

Casa-da-Morte-Petropolis f monteiro.jpg

Casa da Morte de Petrópolis, imóvel situado na Rua Arthur Barbosa, no bairro Caxambu, que abrigou na década de 1970, durante a ditadura militar, um centro clandestino de torturas e desaparecimentos políticos. 

Orelha

Dando continuidade ao seu projeto poético de livros da Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díazcom longos poemas temáticos (Vi uma foto de Anna AkhmátovaMattinataMuseu da Noite), Fernando Monteiro aborda neste “Os vivos (?) e os mortos” o abjeto aparato de perseguição e tortura da ditadura militar brasileira instaurada em 1964.

O poema gira em torno da chamada “casa da morte”, residência localizada no número 668 da rua Arthur Barbosa em Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada por membros do regime militar para torturar e assassinar presos políticos durante os anos 1970.

Centro clandestino, do qual ninguém saía vivo, sua localização e história só se tornaram conhecidas graças às denúncias da única sobrevivente entre os que foram levados ao local, a dirigente da organização var-Palmares Inês Etinne Romou, que foi torturada e estuprada por três meses no local antes de ser jogada, aparentemente morta, numa rua nos subúrbios do Rio (os mortos da casa eram normalmente esquartejados e enterrados nas cercanias da própria residência).

Mas, ao mesmo tempo que trata dos “mortos” da ditadura e da geração altruísta que lutou contra ela, Monteiro traz o seu poema até os dias atuais, expondo os contrastes entre aquela geração combativa e os “vivos (?)” da geração atual, passiva e enfeitiçada como Narciso pelo espelho das telas e algoritmos.

Os-vivos-e-os-mortos_CAPA_livro f monteiro.jpg

Edição tem texto do poema na cor branco, em páginas negras, intercalado com imagens de Díaz, que também abrem e encerram o livro.

Biografias

Fernando Monteiro nasceu no Recife, em 1949. Escritor, poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Editora Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 ‒ Leilão Sem Pena (Edições Pirata) ‒ e, em 1993, quando lançou, pelo selo do lendário editor paulista Masso Ohno, o premiado Ecométrica.

Após o que, voltou-se para o romance, e veio a publicar, em Portugal, pela prestigiosa editora Campo das Letras, o também premiado Aspades, Ets Etc.

Fernando-MOnteiro- rosto.jpg

Fernando Monteiro é escritor e cineasta

 

Seu segundo romance foi distinguido com o primeiro Prêmio bravo! de Literatura/1998, e vieram, nos anos seguintes, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro e Armada América (pela W11 Editora, sp), O Grau Graumann pela Editora Record e As Confissões de Lúcio pela Francis Editora.

Em 2009, ano em que foi o homenageado do sétimo Festival de Literatura [“A Letra e a Voz”] retornou ao verso com o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, a que se seguiu Mattinata (2012), em coedição da Sol Negro Edições com a Edições Nephelibata.

Em 2017, foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco, e prosseguiu na poesia com Museu da Noite (Editora Confraria do Vento, 2018).

Chico Díaz nasceu na Cidade do México em 1959, ator, arquiteto, artista plástico. Viajante. Infância passada entre Costa Rica, Peru, EUA, Brasil e Paraguai. Formado em arquitetura pela UFRJ, nos tempos das sombras fugiu para o  teatro e logo foi sequestrado pelo cinema.

Chico-Diaz- .jpg

Chico Díaz é ator, arquiteto e artista plástico

 

Em 1981 fez O sonho não acabou, de Sérgio Rezende, que acabou sendo o primeiro de mais de 80 filmes nacionais e internacionais, reconhecidos e premiados, entre eles Corisco e Dadá de Rosemberg Cariri, Amarelo manga de Cláudio Assis, Os matadores de Beto Brandt, dentre outros.

Trabalha também na televisão brasileira e no teatro. A lua vem da Ásia de Campos de Carvalho é seu monólogo mais visto. Recentemente esteve em Lisboa no Teatro do Bairro, sob direção de Antônio Pires com a peça Biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade e filmou com João Botelho, em 2019, O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago, com lançamento previsto para 2020.

 

30
Nov20

Sol Negro Edições (RN) lança campanha pra financiar livro

Talis Andrade

Os-vivos-e-os-mortos-capa f monteiro.jpeg

 

A Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díaz, e uma campanha no Catarse pra ajudar no custo da publicação.

O livro tem um projeto gráfico desenvolvido especialmente para acompanhar e dialogar com o texto do poema, criado em parceria pelo editor e designer Márcio Simões e o ilustrador Chico Díaz.

Conhecido por seu trabalho como ator, especialmente para a rede Globo de televisão e para o Cinema, Díaz também é artista visual e esse é o primeiro livro ilustrado por ele.

Participe da campanha no Catarse AQUI

Na edição, o texto do poema aparece na cor branco, em páginas negras, intercalado em cada uma de suas partes pelas imagens vorazes e torturadas de Díaz, que também abrem e encerram o livro, reforçando e intensificando o tema tratado.

O papel utilizado, mais espesso que o comum, tem gramatura de 120g/m2, de melhor acabamento, garantindo a opacidade entre as páginas e a melhor impressão possível para o livro. A edição conta ainda com uma apresentação do poeta e professor Sérgio de Castro Pinto.

Casa-da-Morte-Petropolis f monteiro.jpg

Casa da Morte de Petrópolis, imóvel situado na Rua Arthur Barbosa, no bairro Caxambu, que abrigou na década de 1970, durante a ditadura militar, um centro clandestino de torturas e desaparecimentos políticos. 

Orelha

Dando continuidade ao seu projeto poético de livros da Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díazcom longos poemas temáticos (Vi uma foto de Anna AkhmátovaMattinataMuseu da Noite), Fernando Monteiro aborda neste “Os vivos (?) e os mortos” o abjeto aparato de perseguição e tortura da ditadura militar brasileira instaurada em 1964.

O poema gira em torno da chamada “casa da morte”, residência localizada no número 668 da rua Arthur Barbosa em Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada por membros do regime militar para torturar e assassinar presos políticos durante os anos 1970.

Centro clandestino, do qual ninguém saía vivo, sua localização e história só se tornaram conhecidas graças às denúncias da única sobrevivente entre os que foram levados ao local, a dirigente da organização var-Palmares Inês Etinne Romou, que foi torturada e estuprada por três meses no local antes de ser jogada, aparentemente morta, numa rua nos subúrbios do Rio (os mortos da casa eram normalmente esquartejados e enterrados nas cercanias da própria residência).

Mas, ao mesmo tempo que trata dos “mortos” da ditadura e da geração altruísta que lutou contra ela, Monteiro traz o seu poema até os dias atuais, expondo os contrastes entre aquela geração combativa e os “vivos (?)” da geração atual, passiva e enfeitiçada como Narciso pelo espelho das telas e algoritmos.

Os-vivos-e-os-mortos_CAPA_livro f monteiro.jpg

Edição tem texto do poema na cor branco, em páginas negras, intercalado com imagens de Díaz, que também abrem e encerram o livro.

Biografias

Fernando Monteiro nasceu no Recife, em 1949. Escritor, poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Editora Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 ‒ Leilão Sem Pena (Edições Pirata) ‒ e, em 1993, quando lançou, pelo selo do lendário editor paulista Masso Ohno, o premiado Ecométrica.

Após o que, voltou-se para o romance, e veio a publicar, em Portugal, pela prestigiosa editora Campo das Letras, o também premiado Aspades, Ets Etc.

Fernando-MOnteiro- rosto.jpg

Fernando Monteiro é escritor e cineasta

 

Seu segundo romance foi distinguido com o primeiro Prêmio bravo! de Literatura/1998, e vieram, nos anos seguintes, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro e Armada América (pela W11 Editora, sp), O Grau Graumann pela Editora Record e As Confissões de Lúcio pela Francis Editora.

Em 2009, ano em que foi o homenageado do sétimo Festival de Literatura [“A Letra e a Voz”] retornou ao verso com o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, a que se seguiu Mattinata (2012), em coedição da Sol Negro Edições com a Edições Nephelibata.

Em 2017, foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco, e prosseguiu na poesia com Museu da Noite (Editora Confraria do Vento, 2018).

Chico Díaz nasceu na Cidade do México em 1959, ator, arquiteto, artista plástico. Viajante. Infância passada entre Costa Rica, Peru, EUA, Brasil e Paraguai. Formado em arquitetura pela UFRJ, nos tempos das sombras fugiu para o  teatro e logo foi sequestrado pelo cinema.

Chico-Diaz- .jpg

Chico Díaz é ator, arquiteto e artista plástico

 

Em 1981 fez O sonho não acabou, de Sérgio Rezende, que acabou sendo o primeiro de mais de 80 filmes nacionais e internacionais, reconhecidos e premiados, entre eles Corisco e Dadá de Rosemberg Cariri, Amarelo manga de Cláudio Assis, Os matadores de Beto Brandt, dentre outros.

Trabalha também na televisão brasileira e no teatro. A lua vem da Ásia de Campos de Carvalho é seu monólogo mais visto. Recentemente esteve em Lisboa no Teatro do Bairro, sob direção de Antônio Pires com a peça Biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade e filmou com João Botelho, em 2019, O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago, com lançamento previsto para 2020.

 

17
Nov20

Carolina de Jesus

Talis Andrade

Carolina_Maria_de_Jesus_ 1960.jpg

 

 
 
Ao classificar o título de um de seus livros “Quarto de Despejo: Diário de uma favela” (1960), Carolina de Jesus afirmou que a favela é o quarto de despejo de uma cidade.
 
“Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, acrescentou a escritora.
 
Nada mais lúcido e atual que a descrição da mineira de Sacramento, que chegou a São Paulo em 1947, aos 33 anos. Trabalhadora, mãe de três filhos e moradora da Favela Canindé, ela escreveu mais de 20 cadernos com seus diários.
 
O tempo era curto pra tanto trabalho, catando papelão nas ruas, faxinando casas, lavando roupas pra fora, pra sustentar os filhos, Carolina nem assim se afastou de alfabetizar outras pessoas em casa. Pra ela, instintivamente ou conscientemente, a arma da mudança estava na educação.
 
Talvez fosse esse o seu quilombo, pra organizar e mobilizar outras e mais outros para a luta contra o racismo e as desigualdades; para que deixassem de ser tratados como “trastes velhos”.
 
Foi descoberta e lançada à carreira literária pelas publicações de seus textos na imprensa. O dia a dia da mulher negra na periferia. Aí está a potência de sua obra. A genialidade de Carolina está na poesia, em letras de músicas e livros traduzidos para 13 idiomas e publicados mundo afora.
 
Morreu o corpo em 1977, em Parelheiros, zona Sul. A ideia jamais. A grandeza, força e nobreza da luta contra um sistema de morte segue semeando muitas Carolina´s nesse chão.
 
Carolina de Jesus é símbolo de luta e demonstração do quão ignorante e cruel é o racismo. E mais: precisa ser superado.
 
 

 

24
Ago20

“Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”

Talis Andrade

Urariano Mota.jpg

 

 

Natanael Lima Jr entrevista Urariano Mota

Urariano Mota é escritor e jornalista, nascido em Água Fria, subúrbio do Recife. Autor de Soledad no Recife, que reconstrói a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973, e a traição que levou à sua prisão, tortura e morte pelo governo militar. Publicou ainda O filho renegado de Deus (Prêmio Guavira de Romance 2014), Dicionário Amoroso do Recife e A mais longa duração da juventude, que narra o amor, política e sexo em uma viagem de memória no Recife de 1970 a 2017. Atualmente, é colunista do Vermelho, Brasil 247 e Jornal GGN.


Natanael Lima Jr. - Meu caro Urariano Mota, um prazer grande entrevistá-lo e podermos conhecer um pouco da sua vasta trajetória como jornalista e escritor. Quem é Urariano Mota?

Urariano Mota - Sou fundamentalmente escritor. Meus textos jornalísticos têm, ao mesmo tempo, rebeldia às normas dos jornais e realização literária de outra maneira. Neles sempre está presente a voz do escritor. Sou filho de João e Maria, em um bairro popular, cuja formação possui traumas dos quais às paredes confesso. De outros traumas, nem às paredes falo de viva voz. Meu crescimento intelectual se deu à força de uma persistente autoeducação, porque desejava falar desse mundo submerso.

 

NLJ - Quando você começou a se interessar pelo jornalismo e a literatura?

UM - Por jornalismo, porque eu desejava trabalhar em algo que exigisse de mim o texto escrito. Nem adivinhava que a liberdade estética, para ganhar dinheiro com jornalismo, eu não teria. Mas comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa:

“Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro...

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

 

NLJ - Para você escrever é dom ou consequência de trabalho, leitura e transpiração?

UM - A resposta já foi esboçada antes. Escrever é, em primeiro lugar, uma necessidade. E se pensamos na semelhança que pode guardar com outra expressão de humanidade, é como o amor. Ninguém pergunta se o amor é dom, trabalho, leitura ou transpiração. É tudo. E guarda semelhança também com as formas da escrita. Ela se faz de todas as maneiras, do certo, do errado, dionisíaca, apolínea, sucinta, seca ou larga, barroca. Não há formas superiores, únicas, Há formas diversas e infinitas, todas dignas do seu nome. Mas se quer uma resposta sintética, eu digo: necessidade, talento, leitura, trabalho.

 

NLJ - De onde vem o caráter político das suas obras?

UM - Natanael, o escritor e crítico literário Flávio Aguiar assim escreveu na apresentação do livro Soledad no Recife: “Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”. Com efeito, essa tem sido uma fala dos mais diversos leitores sobre o que tenho publicado. E não há truque, não há “técnica”, efeitos especiais de circo para essa manifestação. Trata-se, apenas, ou melhor, um apenas entre aspas, trata-se “apenas” de que reflito, penso e medito sobre a memória do que vivi e tenho vivido. Às vezes, ou quase sempre, lembrança do mergulho da mais funda angústia. Quando escrevo sobre a esquerda no Recife, quando publico páginas sobre os militantes contra a ditadura, quando retomo um trauma antigo, do século passado, eu não invento. Ou melhor, procuro não inventar, na medida da minha consciência. Aos companheiros mortos e vivos, eu dedico sempre o que escrevo. Sem eles, eu sou nada, ou menos que nada, se isso for possível.

Agora noto que sou de esquerda antes de ser de esquerda. Não é um paradoxo, porque pretendo dizer: sou de esquerda desde a morte precoce da minha mãe, quando eu era um ser em crescimento aos 8 anos de idade. A revolta foi a mais funda que um homem pode ter, revolta que com os anos só veio crescendo. Aquilo me pôs num caso pessoal com Deus. Caso de raiva permanente contra um absoluto que permitia a negação da vida de modo mais absoluto. Mas para expressar, escrever sobre esse mundo, desde a infância ao tempo de juventude, eu tive e tenho que estudar muito. Ler, reler, apanhar para aprender, apanhar para refletir sobre o fracasso. Porque com revolta só não se faz literatura. Além dela, é preciso conhecer, trabalhar e trabalhar, ler e estudar. Só assim o sentimento íntimo se torna sentimento do mundo.

A literatura é uma atividade sobre a qual sempre estamos aprendendo, não importa a idade do escritor, ou quantos cabelos brancos tomem conta da sua cabeça. Todos os dias fracassamos. E como um Sísifo todos os dias tentamos erguer a dura rocha da felicidade para o alto. Mas ela volta a rolar até os nossos pés, todos os dias. Então recomeçamos.

 

NLJ - Para você, qual o valor da literatura?

UM- Caro Natanael, tento responder com uma reflexão sobre a minha experiência: sempre procurei falar para jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Aqui e ali, eu era obrigado a ouvir:

“O que eu ganho com a literatura, professor?”

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas. E ficava a gaguejar coisas absurdas, do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

Mas quando a pergunta era feita por jovens da periferia, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta; porque não me via em suas condições e rostos. Mas dos periféricos, era demais. Então eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência.

Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa; algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura. Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

 

NLJ - Entre as suas obras publicadas, destacam-se Soledad no Recife (2009), O filho renegado de Deus (2013) e A mais longa duração da juventude (2017). Fale-nos um pouco sobre cada uma dessas obras?

UM - Eu prefiro falar com trechos curtos de cada uma. Assim, talvez eu consiga algum distanciamento, digamos.

Soledad.jpg

 

Soledad no Recife – “ 'Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto'. O depoimento da advogada Mércia Albuquerque sobre o corpo de Soledad é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. 'A boca de Soledad estava entreaberta' ”

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O filho renegado de Deus – Agora entendo, mãe, o quanto odeio a miséria, no mesmo passo em que amo os miseráveis. Eu, que sou filho do teu leite, eu que sou filho de Filadelfo, sei agora que também sou filho da miséria, e assim em terror quero extirpá-la de mim, com força, vigor, violência: Maldita, o teu nome é crime. Naquela hora sei que havia movimentos no teu ventre, e depois vinha uma breve quietação, que parecia opressa, porque respondia com pequenas pontadas laterais, à semelhança de pequenos braços em convulsão. (Por Deus, eu não queria ter esta memória. Por Deus!)

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A mais longa duração da juventude - “- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe - digo.

- Por quê, rapaz?

- Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

- Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la, se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

- Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

- Você se nega à sua idade?

- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”

 

NLJ - O romance O filho renegado de Deus lhe deu o primeiro lugar do Prêmio Guavira 2014, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O que representou essa premiação para a sua trajetória literária?

UM - Foi a segunda vez em que ganhei dinheiro com a literatura. Na primeira, com o conto “Uma noite na Bahiana”, na antologia de humor da Revista Ficção, transformei o dinheiro em galeto e cerveja no Savoy. No segundo, paguei o IPTU atrasado da casa. Mas, falando sério, o prêmio apenas confirmou o que eu tinha consciência: o romance estava à altura de cantar uma mulher do povo, desprezada nos becos do Recife.

 

NLJ - W. H. Auden, escritor e poeta inglês naturalizado norte-americano, afirmara que “a mera criação de uma obra de arte é em si um ato político”. Você concorda?

UM - Sim, concordo. O que realiza o político na obra de arte não é o tema. É a sua criação como uma voz alta de humanidade. E, portanto, uma voz de protesto contra todo tipo de canalhice ou injustiça. A literatura vai sempre contra a corrente. Ou será aquilo que Manuel Bandeira falava: “contabilidade tabela de cossenos secretário dos amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres”

 

NLJ - Na sociedade de consumo irrestrito em que vivemos a literatura ainda sobrevive, isso não é pouca coisa. Em sua opinião, pode-se viver de literatura no Brasil?

UM – De literatura mesmo, é difícil, raro ou impossível. O que se ganha com livros no Brasil é aquele samba de Pedro Caetano:


“O que se leva dessa vida
É o que se come,
É o que se bebe,
É o que se brinca, ai, ai...
O que tenho nessa vida
São as ruas pra andar”

 

NLJ - Como sabemos, a internet possibilitou novas formas de comunicação com pessoas do mundo inteiro. No caso específico da literatura, a internet contribuiu para a sua difusão?

UM - Sim, e digo mais: a internet é capaz de estabelecer ligações e conquistas antes inimagináveis. Por exemplo, todos os meus romances foram publicados com o envio de originais por email. Esse é um procedimento que não se recomenda. Há editoras que até rejeitam. Mas comigo tem sido assim.

 

NLJ - A sobrevivência do interesse por literatura nestes tempos de informações frenéticas, contudo descartáveis, seria em sua opinião, um estágio cultural já superado ou não?

UM – É claro que não. As informações descartáveis são a antiliteratura. Onde os jovens, homens e mulheres encontrarão a expressão máxima do amor e da morte? A não ser que estejam satisfeitos com a existência de robôs. E logo, logo, os robôs viram sucata, enquanto a vida se vai e esvai.

 

NLJ - O que você deixaria como mensagem neste momento de distanciamento social provocado pelo Coronavírus?

UM – Leiam os clássicos. Ouçam Bach. E Pixinguinha também.

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21
Ago20

Celso Marconi, 90 anos de rebeldia e cinema

Talis Andrade

O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica 

 

por Urariano Mota

- - -

Entre os grandes personagens de 23 de agosto, a Wikipédia indica Gene Kelly, Nelson Rodrigues, Tônia Carrero, Rita Pavone, Rodolfo Valentino, Vicente Celestino e Alberto Cavalcanti. Mas não registra, em uma só linha, um dos mais importantes críticos de cinema do Brasil, o recifense Celso Marconi. Essa ausência na enciclopédia é, ao mesmo  tempo, injusta e descuidada, para dizer o mínimo. Então, em breves linhas, tento um curta dos seus 90 anos.

Sobre o aniversariante desse domingo já publiquei o texto “Celso Marconi, uma vida de cinema”, https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/urariano-mota-celso-marconi-uma-vida-de-cinema/ . Por sinal, esse artigo circula no sábado entre amigos do mestre de português Diógenes Afonso no WhatsApp.

Nesse texto, eu lembrei que Celso Marconi vinha sendo o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade. Nos seus 90 anos agora, tenho a certeza de que ele é o jornalista com mais tempo de crítica de cinema não só no Brasil, mas em todo o mundo. O paradoxo, ou paradoxal, é que na sua idade ele é o mais jovem crítico de cinema, pela expressão maravilhosa, que nos desconcerta, em meio a um texto como aqui: 

Face a Face é melhor ser visto num aparelho individual, numa TV grande, mas de maneira que você possa parar quando estiver cansado, prostrado, e sair para comer um chocolate ou tomar um café antes de continuar. Penso que, se estivesse vendo esse filme de Ernst Ingmar Bergman hoje numa sala de cinema, eu gritaria para que parassem pra gente descansar um pouco… 

Certamente hoje são poucas as pessoas que conhecem o cinema de Ingmar Bergman e isso se justifica pelo fato de que o atual presidente do País não tem a menor noção do que é Cultura, e sem dúvida nunca viu nem um filme de Ingrid Bergman – quanto mais de Ingmar! É uma pena. Com tantos elementos novos e fundamentais para mudarmos a nossa vida e podermos conhecer melhor o que é uma vida amadurecida, é lamentável que estejamos vivendo esse dilema de moralismos inúteis”

Nele, o que não é reflexão mais profunda é rebeldia, que não se contém nem se contenta. E com ele temos crescido, desde os anos 1970, quando Celso Marconi já era um crítico consagrado, guru de nossa estética de cinema. Lembro, de modo claro, que nós corríamos para aquelas críticas no Jornal do Commercio que nos revelavam o valor da programação do Cine de Arte Coliseu e de outros cinemas. Que oásis! Bebíamos o que ele nos revelava naquele deserto da ditadura. Eram linhas que faziam a cabeça de estudantes contra a ditadura e das novas gerações no Recife. Era uma alegria imensa, nos fins de semana, saber o que o Coliseu nos reservava, a partir do texto de Celso Marconi. Foi com ele que descobrimos Buñuel, artista que nos deixava tontos antes do bar, como destaco no começo do livro Soledad no Recife:

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente”.

Lá no início deste artigo, eu escrevi que Celso Marconi é um jovem. E não só na sua expressão de crítico, esclareço agora. O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica no Face, porque o seu desejo de vida é permanente. Como aqui:

A PUTA E O POETA

Sonhei que era um poeta russo
E vivia nos tempos dos soviéticos
Com uma bela puta também russa
E tinha muito prazer em trepar com ela
Que era linda e branca azulada
Tinha um ar de tristeza que ameaçava
Qualquer um que trepava com ela
Mas o seu corpo era perfeito para a função
E ela adorava que eu lesse minhas poesias
O que nem sempre era aceito pelos soviéticos
Que implicavam com um sujeito mesmo poeta
Viver comendo por conta de uma puta
Pois nós comíamos e sempre tínhamos
Borsht, solyanka, blini, frango à Kiev,
Pilmeni ou salada olivier à mesa
Que a puta fazia com todo gosto
E não tinha estória de não comer
Só porque era puta ou era poeta
E fomos vivendo com muita alegria
O pior porém era quando queríamos mudar de cidade
Sair de Vladivostoki para Irkutski na Sibéria
Pois os guardas dos aeroportos ou rodoviárias
Mesmo que achassem a gente bonitos
Não aceitavam que o poeta não trabalhasse e
Ficasse comendo com o que a puta ganhava

 

EU QUERO O PRAZER

As religiões condenam o prazer
E inclusive não querem o desejo
Você tem que sentar e esperar
Que todo o desejo se esvoace
Se a religião não quer o desejo
Por que então nascemos com essa
Possibilidade?
O desejo de prazer fujamos
Carnaval dos carnavais
Como vamos fingir o não desejo?
A natureza nos pune
Mas ao contrário nos alegra
Quando concretizamos um desejo

 

 
 
26
Jul20

Sete dicas de Luis Fernando Verissimo para quem gosta de escrever

Talis Andrade

 

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Por Marcelo Dunlop

- - -

1. Escreve bem quem lê bem

Em palestras e entrevistas, Luis Fernando Verissimo sempre evoca o primeiro mandamento para quem pretende colocar suas histórias no papel: “Escreve bem quem lê bem”. No caso do cronista de 83 anos, “ler bem” significa ter lido um bocado. Além de seu livro predileto, O grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald, e da Bíblia (um clássico), Verissimo devorou craques da literatura como Jorge Amado, Jorge Luis Borges, Agatha Christie, Carlos Drummond, Érico (também conhecido como “Pai”), Gustave Flaubert, Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, James Joyce, Clarice Lispector, Herman Melville, Vladimir Nabokov, Edgar A. Poe, os Rubem (o Braga e o Fonseca), Mary Shelley e lá vai lombada. Destaque ainda para dois de seus humoristas favoritos: Millôr Fernandes e Evelyn Waugh.

 

2. Clareza

Na célebre crônica publicada no início dos anos 1980, “O gigolô das palavras”, Verissimo ensinava: “Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover…)”. O segundo mandamento de Verissimo, portanto, é: seja claro. O conselho vale principalmente para quem tenta fazer humor: “Quando o leitor não entende o que um jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista”, LFV disse, em outra crônica.

 

3. Professor: Pelé

Além de aprender com os autores que lia e conhecia na sala de estar de casa, muitos deles amigos de Érico Verissimo, Luis Fernando teve um professor incomum: mestre Edson Arantes de Nascimento. Como Verissimo explicou, em citação no seu Verissimas: “Sempre achei que o melhor professor de português do Brasil foi o Pelé. Quem o viu jogar ou hoje vê os seus teipes sabe que o Pelé jamais fez uma jogada que não fosse parte de uma progressão para o gol. O sentido de tudo que o Pelé escrevia com a bola no campo era o gol. O drible espetacular era apenas circunstancialmente, com perdão do longo advérbio, espetacular, porque ele existia em função do objetivo final. A lição para escritores é: defina o seu gol e tente chegar lá como o Pelé chegaria, com poucos mas definitivos toques, sem nunca deixar que os meios o desviem do fim. E se, no caminho para o gol, você fizer alguma coisa espetacular, esforce-se para dar a impressão de que foi apenas por obrigação.”

 

4. Respiração

Na impagável crônica “Carta do Fuás”, o cronista que está celebrando 50 anos de carreira revela uma de suas principais preocupações estilísticas: deixar o pobre leitor respirar. “Faz parte da arte de escrever a distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas”, explica LFV. “Assim respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão.”

 

5. O maior pecado

Há apenas duas práticas que Verissimo sempre desaconselha aos escritores iniciantes: redigir com raiva e ser repetitivo. Numa de suas citações (presente no livro Verissimas), o autor gaúcho prega: “O pecado que um escriba mais teme é o da redundância”.

 

6. Vocabulário e intimidade

Sobre a escolha das palavras, Verissimo é prudente: “Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.” A vantagem é que aumentar o vocabulário é uma missão simples: basta ler os seus autores prediletos.

 

7. Polimento em dose cavalar

Em sua longa entrevista no livro Conversa sobre o tempo, Verissimo explica aos amigos Zuenir Ventura e Arthur Dapieve como vê o ofício da escrita: para ele, a ideia de uma crônica ou livro martela tanto o autor que é impossível resistir, e ela acaba no papel. Na mesma entrevista, LFV compara o estilo de cada autor com a história do hábil escultor que fez um magnífico cavalo de mármore. Ao ser perguntado como conseguira tamanha perfeição, respondeu: “Escolhi a pedra, as ferramentas e tirei tudo o que não era cavalo.” Para Verissimo, “escrever é tirar tudo o que não é cavalo.”

 

26
Jun20

Bernardo Kucinski conta a história de uma mulher que descobriu ter sido roubada da mãe verdadeira militante de esquerda

Talis Andrade

O escritor e jornalista Bernardo Kucinski.

 

II - ‘Julia’, um ficção que traz memórias reais sobre o sequestro de crianças pela ditadura no Brasil

por EDUARDO REINA/ EL PAÍS

- - -

Imagine chegar aos 40 anos de idade e descobrir que você não é você. Que a família onde vem vivendo há décadas não é a sua. Que as pessoas ao seu lado não são e nunca foram seus pais. E que tudo o que você sente e sentiu não vale mais nada. É essa situação que Kucinski imaginou e escreveu sobre Julia, uma bióloga. Após a morte de seus pais, Julia passa por atritos com os irmãos. O centro da discussão é um apartamento da família. Em meio a reformas do imóvel, ela descobre documentos que revelam seu passado “invisibilizado” e um passado obscuro da história brasileira, envolvendo o regime militar, os militares, uma ala da igreja e uma série de outras pessoas. Descobre que sua mãe biológica era militante de esquerda, no interior de São Paulo. Seu pai, arguto professor, escondeu a verdadeira história por anos a fio.

Uma situação com enorme verossimilhança vivida pelos personagens reais, de carne e osso, cujas histórias estão retratadas no livro reportagem “Cativeiro sem fim”, ouvindo histórias reais que o Brasil viveu durante o governo militar. Uma dessas personagens, Rosângela Serra Paraná, aos supostos 46 anos de idade, após uma discussão em família, se vê diante da realidade desconhecida e da violência de Estado. Descobre que sua mãe biológica (desconhecida) era uma “agitadora política”, segundo esses familiares. Rosângela foi apropriada possivelmente no fim da década de 1960 por uma família de militares, depois de ter sido retirada da mãe biológica. O pai apropriador, Odyr de Piava Paraná, um soldado do Exército, com família com integrantes de vários escalões militares, era motorista do então general e presidente da República Ernesto Geisel.

Kucinski, que é professor da Universidade de São Paulo, viveu na pele o que a ditadura no Brasil foi capaz de fazer. Perdeu uma irmã Ana Kucinski, professora universitária e militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), sequestrada e desaparecida junto com o marido Wilson Silva, em 1974. A história de Ana se transformou em livro, K – Relato de uma busca (Expressão Popular, 2011), que recebeu versão em 13 idiomas e revela a sordidez da ditadura brasileira. Nesta obra, Kucinski mistura fragmentos da história real da irmã e do cunhado com memórias pessoais e da família e muita imaginação.

Em Julia, Kucinski mostra que a cadeia de pessoas envolvidas em roubo de crianças envolve escrivão, delegado, despachante, religiosos, militares, servidores públicos. Expõe ainda a existência de outros crimes correlatados a essa situação, que carecem de investigação e apuração jornalística: o envio dos filhos sequestrados de oposicionistas para outros países. No livro de Kucinski, eles vão para a Itália, por 10.000 dólares cada. Mas na ditadura chilena, por exemplo, esses bebês eram vendidos a 2.000 dólares cada um. Será que isso não ocorreu também por aqui no Brasil, de verdade?

O enredo criado por Kucinski prende o leitor até o ponto final do texto, num paralelo com a realidade escondida da ditadura civil-militar e com o Brasil atual do negacionismo, das fake news e das narrativas distópicas. Nem os próprios militares poderiam ter imaginado uma situação dessas. Cidadãos se descobrindo vítimas do crime cometido pelos militares. [Continua]

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25
Jun20

‘Julia’, um ficção que traz memórias reais sobre o sequestro de crianças pela ditadura no Brasil

Talis Andrade

Manifestantes mostram placas com fotos de vítimas da ditadura durante protesto em julho de 2019.

Manifestantes mostram placas com fotos de vítimas da ditadura durante protesto em julho de 2019. AMANDA PEROBELLI / REUTERS
 
 

Obra de Bernardo Kucinski chega às livrarias este mês e conta a história de uma mulher que depois de adulta descobriu ter sido roubada da mãe verdadeira, uma militante de esquerda

por EDUARDO REINA/ El País
 

O nome dela é Julia. Mas podia ser Rosângela, Iracema, Ieda, Lia Cecília, Juracy, Giovani, Miracy, José, Antônio, tantos outros. Todos esses nomes pertencem a vítimas de um dos crimes mais cruéis cometidos pelas forças de repressão durante a ditadura civil-militar entre 1964 a 1985: foram sequestrados ainda bebês e crianças, e entregues a famílias de militares ou ligadas a eles. Um crime que permaneceu escondido do povo brasileiro, dos livros de história, das universidades e da mídia em geral por quase 40 anos, e que só agora vem sendo denunciado.

Julia é a personagem criada por Bernardo Kucinski no romance Julia: nos campos conflagrados do Senhor (Alameda, 2020). Ele narra a história ficcional de uma mulher que depois de adulta descobriu ser vítima do crime de Estado cometido pelas forças militares na ditadura. Forças da repressão tiravam bebês e crianças de suas famílias biológicas, por acreditar que poderiam criar um Brasil “livre do comunismo”, com a anuência de parte do empresariado, intelectuais e Igreja. Foi criado um esquema de operação envolvendo cartórios, hospitais, Justiça, funcionários públicos e os próprios militares.

O livro de Kucinski, que chega às livrarias este mês, contribui, em demasia, para quebrar essa narrativa de paz e prosperidade criada pelos militares desde o golpe de 1964 no Brasil. Quebra a patente de que as histórias militares são as verdadeiras e a oposição inimiga era totalmente criminosa e desqualificada. Ajuda a revelar a existência de brasileiros que hoje não têm nome, não têm RG, desconhecem seus pais biológicos, não sabem quantos anos têm, ou qual a data de seus aniversários. São apenas fantasmas à procura de sua verdadeira identidade, de sua família real. Mortos socialmente (Continua)

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