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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Jun21

A ditadura brasileira, literatura e denúncia, agora em áudio

Talis Andrade

 

por Urariano Mota

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A Tocalivros, que é a principal plataforma de audiolivros do Brasil,  anunciou esta semana que o áudio de “Soledad no Recife” está disponível para todos aqui 

O livro , que foi publicado pela Boitempo em 2009, ganhou  esta síntese da Tocalivros neste junho de 2021:  

“O amor e a paixão pela bela guerrilheira, o terror e morte na ditadura, a traição de um companheiro infiltrado, que a levou à morte pela ditadura militar. Ficção impressionante, a verdade de um crime sem punição. Grávida, foi delatada pelo próprio companheiro Daniel, depois conhecido como o Cabo Anselmo”.  

Daí que julgo necessário divulgar as duas primeiras páginas de Soledad no Recife: 

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.    

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de  madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

- Conspirando no Aroeira?  

- A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

- Esses intelectuais ... Conhecem? Soledad, Daniel.  

- Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou,  descuidado:  

- São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.  

- Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.  

- Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.  

- Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.  

- Sei.  

- Está com medo?  

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

- Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

- Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

- É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse,  apontando a Igreja de São Pedro.  

- Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.  

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.  

- Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.   

- Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha”  

Para essas primeiras páginas da abertura do livro, assim ficou o trailer do áudio: escute aqui.   

Desejo que tenham uma boa audição para o terror e trauma da nossa juventude no Recife.  

23
Mai21

A CPI da Poesia: os poetas mortos

Talis Andrade

 

por José Ribamar Bessa Freirea /Taqui Pra Ti

“Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia”
 (Mário Quintana)

Quem está tentando matar a poesia no Brasil? Para identificar os autores de tais ações foi criada na Câmara de Deputados a CPI da Poesia, que tem o poder de convocar até os mortos. No entanto, como seu foco abrange narrativas literárias e outras formas de expressão artística, indo além do ato poético em si, talvez devesse se chamar a CPI da Poética. De qualquer forma, sua presidente, a deputada federal Joênia Wapixana (Rede/RR), intimou várias testemunhas, advertindo que os mentirosos podiam sair dali presos.

O primeiro depoente vivo foi o cartunista e poeta Ziraldo, 88 anos, criador na época da ditadura militar de uma cor denominada Flicts, que servia de vacina contra a tristeza e a depressão e era o encanto das crianças. Ele fez um histórico da quadrilha poeticida cujo comandante, nascido em 1955 em Glicério (SP), odiava versos, uivava e latia cada vez que via um poeta vivo. O seu lema era “Ódio a Ode”. Perseguia ferozmente o Flicts, ameaçando-o com uma “arminha”, quando então exibia cor e esgar estranhos. Por isso, foi apelidado de Grrrr-au-au.    

Convocado do céu, onde reside há quase dois anos, o cantor João Gilberto, inventor da bossa nova e celebrado no mundo inteiro, confirmou à CPI que Grrrr-au-au abominava aquilo que ignorava. O comandante da quadrilha nunca havia ouvido uma música sua, não decretou luto oficial por sua morte, limitando-se a comentar: “Parece que era uma pessoa conhecida”. Citou Caetano Veloso que na ocasião se manifestou chocado com o tom de desprezo e a ignorância de Grrrr-au-au. No final, o depoente indagou à presidente se podia cantar “Chega de Saudade”.

–  Não. Quem tem que cantar aqui é o MC Reaça – interrompeu aos berros o Pit Bull Rachadinha, que nem era membro da CPI, mas sugeriu que fosse convocado do inferno, onde reside, o autor do Proibidão do Grrrr-au-au para quem “as feministas merecem ração na tigela e minas de esquerda tem mais pelo que cadela”. Instaurou-se uma balbúrdia e a sessão foi suspensa. 

O idiota e os bocós

Os trabalhos foram retomados com o depoimento de um vizinho de João Gilberto no céu. Era o poeta e cronista Aldir Blanc, vascaíno doente, coautor de A Cruz do Bacalhau, morto em decorrência do Covid-19, sem que houvesse qualquer manifestação da então fugaz secretária de cultura Regina Duarte, emudecida também diante das mortes do escritor Rubem Fonseca, do cantor Moraes Moreira, do ator Flavio Migliaccio e do teatrólogo Jesus Chediak.

Aldir, autor de Mestre Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, chutou o pau-da-barraca ao traçar o perfil do chefe da quadrilha com aquele estilo que desenvolveu em sua coluna nos semanários O Pasquim Bundas:

– Grrrr-au-au nunca leu um único soneto em sua vida e queixou-se dos livros “que têm excesso de palavras”. Taxou as publicações com impostos altos, mas eliminou a tributação para a compra de armas. Quando se apropriou da cor verde-amarela foi para enganar os incautos e trouxas e, dessa forma, disfarçar a sua baba gosmenta, o seu olhar alucinado de cachorro doido, como no poema de Zeca Baleiro. Declarou guerra à literatura, alegando que o Brasil tem que deixar de ser um país de maricas. Destilou preconceitos homofóbicos ao afirmar que quem gosta de poesia é gayzinho. Chamou de idiotas as pessoas que em razão da pandemia até hoje ficam em casa escutando música e lendo poemas.

Em seguida, a CPI quis ouvir o poeta Manoel de Barros, vindo do Pantanal do Olimpo, a toca de Zeus. O relator Mário Juruna indagou se a poesia merecia ser exterminada como pregava o Imbrochável Grrrr-au-au e se era mesmo diversão de “idiotas”.

– Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas.  Bocó é aquele homem que fala com as árvores e com as águas como se namorasse com elas – respondeu o poeta. 

– Mas afinal, o que é poesia? – perguntou o relator.

– Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. A linguagem da poesia força a realidade a se manifestar, escava suas profundezas e traz à tona as situações fundamentais da condição humana, como queria Alfred Doblin. Por isso ela é odiada pelo Grrrr-au-au.

O outro capitão 

O último a depor nesta primeira etapa da CPI foi o ator estadunidense Robin Williams, que reside hoje no andar de cima, mas viveu na tela o papel do professor de literatura no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Ele declarou que rompeu com o autoritarismo do colégio tradicional, uma espécie de “escola sem partido”, combatendo seu caráter castrador e repressivo. Seu depoimento forneceu elementos para a CPI dimensionar a poesia:

– Nós não lemos e escrevemos poesia porque é algo bonitinho, mas porque somos membros da raça humana, existe um poeta dentro de cada um de nós – ele disse.

Confessou ainda que orientou seus alunos a escreverem poemas, lidos em um clube secreto que funcionava numa caverna perto da escola. Lá, escondidos da repressão, promoviam saraus de poesia. O diretor, que estudou na mesma cartilha de Donald Trump, demitiu o professor e mandou-o recolher seus pertences na sala de aula. Ali, ele recebe uma homenagem dos estudantes, que sobem nas carteiras da sala seguindo a lição de rebeldia contra a autoridade burra, saudando-o e reconhecendo sua liderança: “Captain, my captain”. Esse era o “outro capitão”, o capitão inteligente.

– É simples assim – disse o professor aos membros da CPI. Um manda e os outros desobedecem. Ordens que atentam contra a espécie humana não devem ser cumpridas.

A CPI da Poesia vai ouvir ainda inúmeros poetas e músicos: Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral, Castro Alves, Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Patativa do Assaré, Cecília Meirelles, Adélia Prado. Cora Coralina, os poemas eróticos de Hilda Hilst e tantos outros.  Drummond vai dizer por que perguntou em A Flor e a Náusea: “Crimes da terra, como perdoá-los?” e explicar se existe ódio sadio expresso nos versos: “Meu ódio é o melhor de mim, com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima”. Qual a diferença deste para o ódio do Grrrr-au-au?

Serão convocados poetas amazonenses, entre eles Thiago de Mello para saber se continua cantando no escuro, além de Luiz Bacellar, Elson Farias, Aldizio Filgueiras, Dori Carvalho, Luiz Pucu, que devem se pronunciar sobre as ameaças à Zona Franca feita por Grrrr-au-au com o objetivo de impedir que a CPI da Poesia identifique os autores do poeticidio.

Por último, a CPI ouvirá poetas indígenas, entre eles Eliane Potiguara, Graça Graúna, Zélia Puri, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Dauá Puri, Ademário Payayá, Cristino Wapixana, Tapixi Guajajara e Daniel Munduruku que acaba de se apresentar para uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eles dirão se o poema abaixo de Miguel Panemaxeron Surui está mesmo anunciando o fim dos latidos de Grrrr-au-au e do pesadelo vivido pelo Brasil.

Passam os anos, passa a vida
Passa o tempo, passam as coisas,
Passam perto de mim as pessoas,
Passa dentro de mim o amor.
Por que isso comigo se passa,
Se já nem sei mais quem sou?

P.S. 1 – O ódio de Grrrr-au-au aumentaria se soubesse que no sábado (22) foram lançados dois novos livros. De manhã Pequenas conquistas perdidas com 45 crônicas do poeta Dori Carvalho. E logo onde? Nada menos que no Amazonas, que ele sonha deixar sem uma árvore em pé. E à tardinha, no Rio, o romance Morte Certa de Dau Bastos, professor de literatura na UFRJ.

P.S. 2 – Este texto se inspirou numa conversa telefônica com meu amigo Guillermo David, diretor nacional de Coordenação Cultural da Biblioteca Nacional da Argentina. Ele está relendo Guimarães Rosa e eu revisitando Julio Cortazar. “Os que amam a literatura estão salvos porque têm onde se refugiar nesses tempos sombrios” – ele disse. Daí a ideia de que a poesia é uma vacina de esperança. 

14
Mai21

A bondade negra de uma vagabunda

Talis Andrade

Urariano autógrafo.jpg

 

 

por Urariano Mota

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Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores

Para o dia de ontem, 13 de maio, lembro de uma pessoa grande que fiz personagem. Sobre ela, compreendo o que os fascistas chamam de vagabundo, palavra definida nos dicionários como um ser infame, canalha, desonesto, ordinário, inferior. Um insulto atirado, enfim, por bandidos contra a decência, que age por justiça. Em resumo, eu quero apenas dizer Severina, do romance “A mais longa duração da juventude” em uma página:  

Penso na cozinheira da pensão, dona Severina, uma senhora negra, analfabeta, que lia como ninguém as necessidades dos fodidos. Mais e melhor que a Irene de Manuel Bandeira, “Irene boa, Irene preta, Irene sempre de bom humor”, maior foi Severina, porque a sua bondade era ativa. Ela não era aquela bondade da criada perfeita, sempre a serviço dos patrões, que por isso entrará no céu, apesar de negra. Não, sob risco, na conspiração sem palavras e sem bandeira, muda, quanto devemos a ela? Severina lia em nossos olhos a angústia, e um sorriso se insinuava em seu rosto, quando nos olhava com olhos graúdos como se nos dissesse: “Eu te compreendo, futuro, se para a humanidade houver algum, eu te compreendo futuro camarada”. Esta lembrança vem na escrita. A gente tem que escrever para não ser um filho da puta, ou um ingrato, pior que os gatos domésticos. Por quê? Eu pagava somente a minha vaga e alimentação. Almoçava lá embaixo, mas lá em cima, Luiz do Carmo estava trancado sem comer. Então eu comia até a metade do meu prato. E ao me levantar da mesa com os meus 50% deixados, eu falava para me justificar do modo exótico de comer: 

- Levo para o meu lanche, mais tarde. 

Severina doce, Severina bondosa, Severina indispensável, sorria com os olhos para minha desculpa, eu podia ver. A partir do terceiro dia do almoço pela metade, ela punha mais feijão e mais pedaços de carne em meu prato, “por engano”. Na hora da refeição, a velha dona fiscalizava a quantidade de comida posta para os inquilinos. Severina atrasava o momento de pôr a minha refeição até que a dona saísse, e quando mais não era possível, escondia o excesso de carne sob camadas de feijão e arroz. Eu, percebendo a cumplicidade, comia rápido os meus pedaços, de tal modo que na volta da megera dona o meu prato estivesse equilibrado. Se pudesse fazer mais, Severina nos levaria para a sua casa, nos cobriria com a sua saia para esconder aqueles terroristas sem futuro, a não ser a morte. Que chegaria para todos, é certo, mas não tão cedo. Para mim, agora, a sua cara negra e redonda cresce. Com os olhos grados e um sorriso bom. Nela poderíamos ter a unidade com o povo tão sonhada, e não víamos, porque buscávamos o popular idealizado, macho, de armas engatilhadas como o exército vietcongue. Mas o popular estava no sorriso de Severina. Ela apenas queria ser nossa irmã naquela hora repleta de angústia. Ela apenas nos cobria como uma negra fugida abrigava os seus negros perseguidos. Enquanto nós, os perseguidos delirantes, procurávamos o popular sublevado. O engraçado é que tão criminoso me sentia pelo furto de comida sob a vigilância da senhoria, que eu fazia de conta que o almoço vinha a mais por acaso, embora repetido, e Severina fingia que errava a mão, sempre no mesmo prato. Na verdade, eu era o seu negro preferido, o filho especial da negra Severina, que para os outros era madrasta. Estrela Vésper riscava no céu até nós, e a sua luz era negra, num deserto branco de ossos. 

Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores. Os conhecidos como subalternos veem, leem e conhecem a vida, mas como são tidos como cegos, surdos e estúpidos, podem melhor observar o que passa despercebido aos senhores.  

Um abraço e beijo tardios, Severina. 

A mais longa duração da juventude  - LiteraRUA

06
Mai21

Como não consigo matar a injustiça, escrevo

Talis Andrade

 Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo

por Urariano Mota

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Respostas que falei por email a Ney Anderson, do site  Angústia Criadora

O que é literatura?

À primeira vista, é o texto escrito. Mas essa primeira visão é falha no geral e no específico. Primeiro, porque existe a poesia oral, que muitas vezes é feita em seus melhores momentos por geniais repentistas do Nordeste brasileiro. Isso para não entrar nas raízes históricas da poesia. Segundo, porque o jornalismo impresso não é literatura. Então resta a pergunta: o que é literatura? 

Literatura é ficção, no sentido mais comum. Mas isso, esclareço, não é uma narração mentirosa. A literatura fala da vida de que apenas desconfiávamos existir. Ela é uma compreensão da realidade. E no escritor, em geral, a memória é a própria compreensão do mundo. Os escritores são melhores quando escrevem sem pretensiosa fantasia. É natural que todos não alcancemos a compreensão da vida que lembramos. Isto é, a maioria não tem consciência da memória que reside no seu ser. Ou até mesmo nem deseja ter essa consciência, que a literatura revela, quando a memória é trauma

Mas nem sempre literatura é ficção, naquele sentido que o vulgo e a ignorância confundem sempre com mentira, quando falam que determinada impostura de autoridade ou réu é ficcional. 

Tomemos o exemplo de Os Sertões de onde cito este máximo:

"Canudos não se rendeu... caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."

Isso está acima de nós, por força do seu lugar sobre esta linha, e por força da expressão. Isso acima de nós não é objetivo, por maior verdade que fale e expresse. Isso é imagem subjetiva, voz de um escritor parcial, com parcialidade escrita, porque indignada contra o massacre de uma gente rude, que desejava o céu na terra. Canudos não é uma ficção, infelizmente é um fato real, um massacre objetivo. Mas em Os Sertões é literatura, porque mantém uma qualidade de escrita acima do comum, porque é narrado com vigor, maestria e paixão, somente abaixo da grandeza da injustiça que narra.

 

O que é escrever ficção?

O escritor de ficção, em vez de narrar ideias gerais, narra pessoas, personagens particulares. É da natureza do nosso gênero, é a nossa forma de trabalhar. Ainda que estejamos escrevendo sobre as coisas mais abstratas, algo como a Constituição Federal atualizada, ainda assim o escritor, o que tem gênese e característica da literatura, falará da Constituição Federal conforme a biografia sentida da própria vida. É como um louco ou doente sem remédio. Em muitos significados, ele é um funcionário permanente. O escritor me lembra um bancário que não conseguia sair do banco. Ia pra casa, o banco o acompanhava. Ia dormir, lá estava o banco. Ia pro bar, e quando no calor da cerveja se discutia sobre a estratégia da França com a Linha Maginot depois da 1ª. Guerra Mundial, o bancário concluía: “Entendo, eu também faço isso. Eu pego os livros de relatórios e empilho na minha frente, pra ninguém me perturbar. Essa Maginot é como lá no banco”.

Não é que o escritor seja um monstro biográfico, que possua um misterioso talento onde não cresçam e frutifiquem ideias. Pelo contrário, não se conhece um só bom autor que não possua uma concepção do mundo e dos seus desconcertos. Mas é que nele, no escritor, as ideias sofrem uma interpretação particular, que se mostram no que ele escreve. Nele não há lugar para a sobrevivência da tese, que é do ofício de todo ensaio científico ou acadêmico. Na literatura, os personagens não são bonecos de ideias gerais. São gente, de cara e dente, onde as ideias se batem, se violentam e mantêm o conflito. Como na vida fora da escrita.

Nos livros, falo do que vi em minha juventude, tão perto de mim, como eu gostaria de crer. Neles falo da repressão da ditadura, de pessoas heroicas, covardes e loucas, ou em profundo desespero, que eu vi. Falo da minha infância em um subúrbio periférico do Recife, que tem o nome de Água Fria, que não se pronuncia em boa conversa, porque seria o mesmo que falar um palavrão. O melhor de mim está quando volto os olhos para esse mundo sem nome, de pessoas que desaparecem sem nome, cujo sepultamento é apenas um alternativa precária da carniça para os abutres. É para esse imortal escárnio que me volto. Essa gente, gentinha gentalha da minha genética é que me sustenta. Antes, durante suas vidas e depois.

A literatura é a terra da democracia. Ela permite a um filho do povo escrever e por isso ser recebido com tapete vermelho em qualquer palácio. E a honra será dos palácios. Essa democracia da literatura, esta literatura que me permitiu ser menos insignificante, é a minha terra e o meu destino. Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo.

 

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Retiro de um texto que escrevi sobre Joaquim Nabuco: 

No Brasil, e no exterior também, há uma corrente de liberais que separa o cultural do político. E de maneira quase unânime, separa a literatura da política. Isso não é bom nem fecundo para a política ou para a literatura. Na política, assim separada do mundo literário, procura-se amesquinhar, rebaixar o seu nível à discussão apressada, ignorante e mal pensada. Ou seja, a prática ausente do conhecimento literário, que se fez presente nos clássicos há muito, essa ausência não é normal nem é a norma. Penso em Marx, Lênin, Gramsci, José Marti. E no Brasil, penso nos clássicos Astrojildo Pereira, Pedro Pomar, Nelson Werneck Sodré, Miguel Arraes, e outros que minhas limitações não permitiram alcançar. Nesta altura, lembro aqueles versos de Camões citados por Diógenes de Arruda Câmara, numa peça de acusação contra a ditadura no Brasil:

“Metida tenho a mão na consciência,

E não falo senão verdades puras

Que me ensinou a viva experiência”.

Por outro lado, ou pelo mesmo lado, na literatura separada da política me ocorre a imagem de cortinas que se abrem para as trevas. E nesse escuro, o abismo não é pequeno. Seria o mesmo que um mundo sem os gregos, e não só os trágicos, mas um mundo sem Platão, esse grande escritor que criou o personagem Sócrates, e a maioria só o nota como filósofo. Mas de modo mais óbvio, a literatura sem política seria um mundo sem Shakespeare, Dante, Cervantes, Tolstói, Balzac… e se querem exemplos mais próximos de nós, pelo tempo e pelo idioma, teríamos um mundo triste mundo sem Castro Alves, Lima Barreto, Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Saramago. Um mundo tão medíocre quanto mutilado em suas melhores forças.

Mas isso ainda não é dizer tudo dessa literatura que ficaria tão desfigurada. Num rápido avanço, e tão rápido que não me afaste do título acima desenhado, uma das maiores incompreensões é a que retira do mundo da literatura a obra de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere. Uma negação estética que vem a ser estúpida, maldosa e desonesta. Em outro ataque, mais recente, desconhece-se a leitura literária nas crônicas de Dom Hélder Câmara, de textos altíssimos no rádio, que ele chamava de Um Olhar sobre a Cidade. E agora chego mais perto do que me trouxe até aqui. Separar o literário do político e o político do literário seria o mesmo que não ver em Joaquim Nabuco um dos nossos mais geniais escritores. O que isso quer dizer? – Simples, digamos: o seu pensamento político, abolicionista, possuía uma forma de expressão que se não for literatura será literatura sob transparentes véus. Eu me refiro, por exemplo, a estas iluminações:

“A raça negra fundou, para outros, uma pátria que ela pode, com muito mais direito, chamar sua. Suprima-se mentalmente essa raça e o seu trabalho, e o Brasil não será, na sua maior parte, senão um território deserto…

Os escravos, em geral, não sabem ler, não precisam, porém, soletrar a palavra liberdade para sentir a dureza da sua condição”.

 

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Respondo com o meu romance “A mais longa duração da juventude” em um trecho: 

“E se a revolução não vier, como vamos fazer? eu lhe pergunto, e a pergunta é tão sincera que só poderia fazê-la bêbado. Estamos os dois no cais, ele bem entende o significado do ‘fazer’, que substitui o verbo ‘viver’. Como vamos viver se a revolução não chegar? 

‘Não tem como ela não vir. Eu tenho a certeza’. Eu, não, lhe digo, mas quero dizer não sei, não sei se o que desejamos virá. O que significa: amor, trabalho, justiça, felicidade coletiva, sociedade sem opressão, liberdade, isso tudo é possível, Luiz? Mas aí ele se volta para mim e pergunta, direto: ‘Você acredita na revolução?’. Meu passo imediato é responder eu não tenho a certeza, mas respondo ‘Sim, claro, se eu não acreditasse, não cumpria tarefas’. Ao que ele ergue a voz para o oceano: ‘Você é meu companheiro’. E nos apertamos as mãos. E saímos da praça para o Gambrinus, onde pretendemos tomar a última. Quando vem a cerveja, eu lhe falo: ‘Olhe, eu acredito na literatura’, quando ia lhe falar ‘Eu acredito na literatura, mas a revolução é meu horizonte’. No entanto, só tenho 20 anos e não estou tão bêbado para tal franqueza. Luiz do Carmo entende o que desejei dizer, me põe os olhos grados e pergunta: ‘Sério? Para você o que é a literatura?’. 

E eu: ‘É tudo’ ”. 

 

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Não, a literatura não é uma “extensão da realidade”. Assim posta, poderiam confundi-la com um braço, uma perna, ou mesmo um apêndice de tese acadêmica ou mesmo como um curso de extensão na universidade. Não, ainda, mesmo fora da caricatura da frase anterior. Não, ainda, se a isolarmos no substantivo “extensão”. Isso porque a literatura é arte, a mais desenvolvida forma de arte que o homem já inventou. Ou seja, ela é uma prova da nossa humanidade, e de tal maneira, que deveríamos ter deixado em Marte um volume do Dom Quixote. Mas em 1997 os cientistas da Nasa escolheram para o robô em Marte o samba Coisinha do Pai, na voz da cantora Beth Carvalho. 

Assim, essa “extensão” nos faz crescer como deuses humanos, porque fala do pior e melhor de nós mesmos, como se fôssemos um homem editado. Enfim, talvez venha a ser um “mundo paralelo”, se com isso queremos dizer o mundo que ilumina o ambiente de trevas em que estamos, do lado de cá. 

 

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem? 

Os sentimentos e sensações vêm antes, bem antes dos dias de começo. É meio como se fôssemos almas penadas que fingem ser normais e comer e beber e falar para que não nos tomem como anormais ou loucos. Mas o que sentimos enquanto andamos por aí ou vagamos é aquela maravilhosa expressão de Camões nestes versos que destaco em um soneto: 

“Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei por quê”

Mas em seu começo, sei o “assunto”, o personagem ou personagens, o destino para onde posso ir, mas as surpresas e obstáculos são tamanhos, que o destino se altera, e autor e personagens também. É como iniciar um novo amor. Há um ponto de partida, mas não se sabe para que inferno ou céu estão nos levando. 

 

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita? 

Dos dois, e não sei como sair dessa, assim como na pergunta do ovo ou da galinha quem nasceu primeiro. Copio de uma entrevista minha ao poeta Natanael Lima Jr: 

Comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa
 

“Muito embora as estrelas do Infinito

Lá de cima me acenem carinhosas

E desça das esferas luminosas

A doce graça de um clarão bendito;

 

Embora o mar, como um revel proscrito,

Chame por mim nas vagas ondulosas

E o vento venha em cóleras medrosas

O meu destino proclamar num grito,
 

 

Neste mundo tão trágico, tamanho,

Como eu me sinto fundamente estranho

E o amor e tudo para mim avaro...

 

Ah! como eu sinto compungidamente,

Por entre tanto horror indiferente,

Um frio sepulcral de desamparo!”

 

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem  estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido? 

Escrevo para entender melhor o que conheço. E até mesmo para entender o que pensava conhecer e de nada sabia, até o ponto em que escrevi. 

 

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores....etc? 

Tudo. Mas o problema a ser narrado vem antes. Depois, personagens, cena, cenário, tempo, narrador, nessa ordem. 

 

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim? 

Para mim, há uma contradição no personagem bem construído em um texto ruim. No romance, no conto, é quase impossível. Grandes personagens se encontram em grandes narrações. Imensos romances são de imensos personagens. As criaturas - mais que personagens – de Andersen estão em contos imortais, de todos os tempos. Mas entendo ser natural que personagens inesquecíveis não se encontrem na maioria dos romances de José de Alencar. Aqueles índios que encarnam a nobreza idealizada são de doer. Por outro lado, penso que é possível encontrar personagens indigestos em poemas narrativos.  

 

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir? 

A verdade. A verdade do problema, do personagem, do autor, do tempo narrado. 

 

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Toda e total. A boa literatura é fonte de enriquecimento destas horas de angústia e pesadelo. Não importa em que meio: em livro físico, em ebook, na internet, em áudio. E adianto aqui uma notícia, que a ninguém anunciei ainda: “Soledad no Recife” será acessível em áudio, no próximo mês.                      

 

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno? 

Retiro de um texto de Celso Marconi que o Vermelho publicou há pouco:

“Quem trabalha com a mente e tenta criar algo, de forma geral é considerado fora da normalidade. O ‘normal’, desde que a sociedade estabeleceu critérios para julgar o ser humano, é quem trabalha para ganhar a sobrevivência sua e de sua família. Quase sempre quem pensa em trabalhar para criar é considerado, principalmente pelos que mandam no mundo, como malucos malditos”. 

Ao que acrescento: o passatempo da humanidade é fingir que a morte não existe. Que a vida não importa. Que o amor é bobagem. E que portanto são fracassados os que pensam, refletem e criam sobre essas coisas inúteis. 

 

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso? 

E quem doma? São indomáveis. O autor no máximo se acostuma ao imprevisível que traz dentro de si. 

 

O inconsciente, o acaso, a dúvida...o que mais faz parte da rotina do criador?

Tudo faz parte. Também o trauma e o beijo impossível que não se pôde dar. 

 

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Eu não sei. Ah, se soubesse!

 

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento? 

Quando o escritor toca na sua alma. Aquilo de Goethe: "Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair." 

 

O leitor ideal existe?

Sim, aquele que o texto alcança e atinge. É um ideal sem idealismo. Um leitor de todas as classes, gêneros e raças, mas fundamentalmente os que se solidarizam pela sorte dos marginalizados.  Ou que sentem a sua dor. 

 

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos? 

O simples é que é a maior sofisticação. Penso no samba de Paulinho da Viola, nas composições de Caymmi, nos poemas de Manuel Bandeira, nos contos de Machado de Assis, nas crônicas de Antônio Maria. 

 

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

No livro “É isto um homem?”, de Primo Levi: 

“Agora, todo o mundo está raspando com a colher o fundo da gamela para aproveitar as últimas partículas de sopa; daí, uma barulheira metálica indicando que o dia acabou. Pouco a pouco faz-se silêncio. Do meu beliche, no terceiro andar, vejo e ouço o velho Kuhn rezando em voz alta, com o boné na mão, meneando o busto violentamente. Kuhn agradece a Deus porque não foi escolhido para a morte. Insensato! Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem 20 anos e depois de amanhã irá para o gás e bem sabe disso, e fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem falar, sem pensar? Não sabe, Kuhn, que da próxima vez será a sua vez? Não compreende que aconteceu, hoje, uma abominação que nenhuma reza propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação, nada que o homem possa fazer, chegará nunca a reparar?
Se eu fosse Deus, cuspiria fora a reza de Kuhn.” 

 

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria? 

Dom Quixote. 

 

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

Qual a sua angústia criadora? 

Não poder evitar a morte de quem muito amei. 

*Angústia Criadora https://www.angustiacriadora.com/urariano-mota-eu-nao-sei-atirar-esmurrar-e-assim-nao-posso-combater-e-matar-a-injustica-com-as-maos-cheias-de-bombas-balas-e-misseis-como-nao-posso-escrevo/ 

05
Fev21

Cinco poemas para lembrar Maria Lúcia Alvim

Talis Andrade

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'.

A poeta Maria Lúcia Alvim, em imagem do seu último livro, 'Batendo passo'. SEBASTIÃO ROCHA REIS 
 
 

Poeta mineira, que lançou livros de inéditos em 2020 após hiato de 40 anos, morreu de covid-19 aos 88 anos

 

A poeta mineira Maria Lúcia Alvim morreu nesta quarta-feira por complicações da covid-19 em Juiz de Fora, Minas Gerais. A autora tinha 88 anos e lançou, no ano passado, um livro de poemas inéditos após quatro décadas de hiato. Batendo Pasto (Relicário, 2020) foi planejado por Maria Lúcia Alvim como uma obra póstuma, mas Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck a convenceram a publicá-lo. Mineira de Araxá (1932), a poeta é irmã de outros dois nomes da poesia contemporânea e brasileira Francisco Alvim e Maria Ângela Alvim. “Estou adorando que os jovens se aproximem de mim e de minhas coisas. Quero que cheguem cada vez mais perto, a um palmo de distância de mim, para a gente poder se entender um pouquinho”, disse ela em entrevista à Tribuna de Minas sobre o lançamento do novo livro. “Estou adorando. Depois que você fica velho, fica se odiando. É horrível.” A seguir, Lígia Gonçalves Diniz, professora de literatura na UFMG e autora de Imaginação com presença: o corpo e seus afetos na experiência literária (UFPR, 2020), indica 5 poemas para lembrar a autora. In El País

XIV

Quisera tanto que durasse

qualquer desejo em qualquer dia

que mesmo sendo em demasia

eu deles nunca me fartasse;

assim enquanto não houvesse

nada mais que vos sugerisse

então que a vida ressurgisse

e só desejos refizesse;

porque deixei vossa verdade

ó coisas já feitas de espera

quando sempre tudo soubera

tão cheio de realidade;

pois bem sei que ando consumida

mas por desejos que são vida.

(De XX Sonetos, 1959)

 

CARTÃO POSTAL

Repente de tarde. Plana. Ceifada.

Âncoras amortecem o peso e se liquefazem.

Apagam-se ruivos outeiros.

 

Dois namorados olham o mar.

 

Um pássaro de insólito voo

roçou-lhes o ombro.

— Seremos assim potentes?

E subitamente puseram-se

a ferir-se a ferir-se

a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

 

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria

ser feito

para cumprir mandamentos, para

povoar

a solidária solidão de pares amorosos, improvisados e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido

seria para

provar apenas isto: 

a matéria ou

mistério

ou vida

desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

 

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,

marejados de sono, navegamos —

que esse rio de amor e de abandono

seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente

sacudimos a tarja temporária -

e a alma se evapora: tarlatana

sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo

impreciso e profuso, pelo pranto

que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos

entre quiosques, domos e coretos

sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

 

(SEM TÍTULO)

Manhã sem rusga

pequeno depósito de agrura na poça

exorbitei de alegria

a abóbada celeste não dá vazão

silos de silêncio

ó ser astral

o capim é minha grande reserva interior

a esperança

desleixo

(De Batendo pasto, 2020)

 

12
Jan21

ESQUIFE ENCARNADO

Talis Andrade

por Talis Andrade

1

Que cavaleiro reerguerá a bandeira
posto à prova nas batalhas
como apreendido o amor
no ventre ardente
a fornalha
em que se malha
o frio aço
da lâmina flamejante

Desde criança o vaticínio
trovejado pela espumante boca
do profeta
Montado em um cavalo branco
os pés nos estribos
na mão esquerda a bandeira
na mão direita a espada
para degolar os exércitos mercenários
os vendedores do Templo
os moedeiros falsos

Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo

2

Veio o demônio a morte
e tomou a espada
Os livros não ensinam
a espada
tem que ser fincada na pedra do sonho
de onde manarão fontes
cantantes símbolos do Verbo

Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
Os livros não ensinam
uma bandeira apenas um fetiche
de pano e haste
A bandeira tecida
para tremular ao vento
poderia ser pisoteada
pelas hostes inimigas

A bandeira da cor de papoula
cobre o caixão
A bandeira agitada nos estádios
saudada nas passarelas do samba
reverenciada nos terreiros de macumba e capoeira
a bandeira benzida nas procissões
a ensangüentada bandeira das passeatas e comícios
cobre o caixão

3

A vida poderia ter sido feita
de cousas rotineiras

O amor da namorada
no vestido encarnado
de mestra do pastoril
a cantar a vinda do Menino Jesus
que veio ao mundo
para nos salvar

O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário

O romantismo dos camaradas
nas barricadas levantadas no ar
contra os daltônicos escribas da corte
O romantismo dos camaradas
nas barricadas cavadas no asfalto
contra os salários de fome

O dinheiro contado
da lista corrida
entre os companheiros
o dinheiro repartido
para comprar leite e pão
o dinheiro arrecadado para encomendar
as seis tábuas de um caixão
A vida teria sentido
o povo marchasse unido
para expulsar as quatro bestas espreitando
nas quatro esquinas do medo
a ganância do patronato
a covardia dos fura-greves
a brutalidade da polícia
a conivência da justiça
quatro bestas espreitando
coas presas sujas de sangue

4

Benfazeja realidade benfazeja
para quem vê os próprios interesses
E de crime em crime vai juntando
o precioso dinheiro
– o dinheiro indivisível e invisível
o dinheiro que não tem cor
o dinheiro que não tem cheiro
apenas o número secreto do dono

O povo coisa sem importância
As pistas dos latrocínios e pilhagens
desaparecem na lavagem do sangue dos inocentes
os cadáveres sob o peso do cimento
e do aço das obras públicas inacabadas
A lavagem do dinheiro nos bancos
clandestino batismo
dos adoradores do bezerro de ouro

5

Diante da glória passageira
o atordoante desespero
de não reconhecer as vermelhas nuances

Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados
a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus
a cruz da Ordem dos Templários
a cruz gamada dos soldados de Hitler
a bandeira dos operários de Lenine
a bandeira dos piratas
com a ampulheta a caveira e a espada

Vermelho o lenço amarrado
no pescoço dos revolucionários de Trinta
Vermelho o pedaço de pano
o sinal abominável
os leprosos carregavam
pendurado nas vestes brancas
Vermelho o laço de fita
no alto da cabeça da menina
para quem o poeta recitou
rimados versos de amor
em noites de serenatas 

Como espanta
o controverso oportunismo
todos quererem uma bandeira
quando sequer entendem
o que seja vermelho


In livro Esquife Encarnado. A Tribuna, Recife, 1957.
Este é o poema título do livro Esquife Encarnado.
Livro publicado em parceria com Djalma Tavares, e premiado em Goa, em um Festival de Poesia Internacional.
Djalma, além de excelente poeta, era pintor. Capa e ilustrações do livro são de Djalma Tavares. De uma família de poetas. Irmão de Odorico e Cláudio Tavares, primo de Deolindo Tavares, e tio de Gladstone Bello e Carlos Pena Filho.

02
Dez20

Sol Negro Edições (RN) lança campanha pra financiar livro

Talis Andrade

Os-vivos-e-os-mortos-capa f monteiro.jpeg

 

A Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díaz, e uma campanha no Catarse pra ajudar no custo da publicação.

O livro tem um projeto gráfico desenvolvido especialmente para acompanhar e dialogar com o texto do poema, criado em parceria pelo editor e designer Márcio Simões e o ilustrador Chico Díaz.

Conhecido por seu trabalho como ator, especialmente para a rede Globo de televisão e para o Cinema, Díaz também é artista visual e esse é o primeiro livro ilustrado por ele.

Participe da campanha no Catarse AQUI

Na edição, o texto do poema aparece na cor branco, em páginas negras, intercalado em cada uma de suas partes pelas imagens vorazes e torturadas de Díaz, que também abrem e encerram o livro, reforçando e intensificando o tema tratado.

O papel utilizado, mais espesso que o comum, tem gramatura de 120g/m2, de melhor acabamento, garantindo a opacidade entre as páginas e a melhor impressão possível para o livro. A edição conta ainda com uma apresentação do poeta e professor Sérgio de Castro Pinto.

Casa-da-Morte-Petropolis f monteiro.jpg

Casa da Morte de Petrópolis, imóvel situado na Rua Arthur Barbosa, no bairro Caxambu, que abrigou na década de 1970, durante a ditadura militar, um centro clandestino de torturas e desaparecimentos políticos. 

Orelha

Dando continuidade ao seu projeto poético de livros da Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díazcom longos poemas temáticos (Vi uma foto de Anna AkhmátovaMattinataMuseu da Noite), Fernando Monteiro aborda neste “Os vivos (?) e os mortos” o abjeto aparato de perseguição e tortura da ditadura militar brasileira instaurada em 1964.

O poema gira em torno da chamada “casa da morte”, residência localizada no número 668 da rua Arthur Barbosa em Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada por membros do regime militar para torturar e assassinar presos políticos durante os anos 1970.

Centro clandestino, do qual ninguém saía vivo, sua localização e história só se tornaram conhecidas graças às denúncias da única sobrevivente entre os que foram levados ao local, a dirigente da organização var-Palmares Inês Etinne Romou, que foi torturada e estuprada por três meses no local antes de ser jogada, aparentemente morta, numa rua nos subúrbios do Rio (os mortos da casa eram normalmente esquartejados e enterrados nas cercanias da própria residência).

Mas, ao mesmo tempo que trata dos “mortos” da ditadura e da geração altruísta que lutou contra ela, Monteiro traz o seu poema até os dias atuais, expondo os contrastes entre aquela geração combativa e os “vivos (?)” da geração atual, passiva e enfeitiçada como Narciso pelo espelho das telas e algoritmos.

Os-vivos-e-os-mortos_CAPA_livro f monteiro.jpg

Edição tem texto do poema na cor branco, em páginas negras, intercalado com imagens de Díaz, que também abrem e encerram o livro.

Biografias

Fernando Monteiro nasceu no Recife, em 1949. Escritor, poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Editora Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 ‒ Leilão Sem Pena (Edições Pirata) ‒ e, em 1993, quando lançou, pelo selo do lendário editor paulista Masso Ohno, o premiado Ecométrica.

Após o que, voltou-se para o romance, e veio a publicar, em Portugal, pela prestigiosa editora Campo das Letras, o também premiado Aspades, Ets Etc.

Fernando-MOnteiro- rosto.jpg

Fernando Monteiro é escritor e cineasta

 

Seu segundo romance foi distinguido com o primeiro Prêmio bravo! de Literatura/1998, e vieram, nos anos seguintes, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro e Armada América (pela W11 Editora, sp), O Grau Graumann pela Editora Record e As Confissões de Lúcio pela Francis Editora.

Em 2009, ano em que foi o homenageado do sétimo Festival de Literatura [“A Letra e a Voz”] retornou ao verso com o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, a que se seguiu Mattinata (2012), em coedição da Sol Negro Edições com a Edições Nephelibata.

Em 2017, foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco, e prosseguiu na poesia com Museu da Noite (Editora Confraria do Vento, 2018).

Chico Díaz nasceu na Cidade do México em 1959, ator, arquiteto, artista plástico. Viajante. Infância passada entre Costa Rica, Peru, EUA, Brasil e Paraguai. Formado em arquitetura pela UFRJ, nos tempos das sombras fugiu para o  teatro e logo foi sequestrado pelo cinema.

Chico-Diaz- .jpg

Chico Díaz é ator, arquiteto e artista plástico

 

Em 1981 fez O sonho não acabou, de Sérgio Rezende, que acabou sendo o primeiro de mais de 80 filmes nacionais e internacionais, reconhecidos e premiados, entre eles Corisco e Dadá de Rosemberg Cariri, Amarelo manga de Cláudio Assis, Os matadores de Beto Brandt, dentre outros.

Trabalha também na televisão brasileira e no teatro. A lua vem da Ásia de Campos de Carvalho é seu monólogo mais visto. Recentemente esteve em Lisboa no Teatro do Bairro, sob direção de Antônio Pires com a peça Biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade e filmou com João Botelho, em 2019, O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago, com lançamento previsto para 2020.

 

30
Nov20

Sol Negro Edições (RN) lança campanha pra financiar livro

Talis Andrade

Os-vivos-e-os-mortos-capa f monteiro.jpeg

 

A Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díaz, e uma campanha no Catarse pra ajudar no custo da publicação.

O livro tem um projeto gráfico desenvolvido especialmente para acompanhar e dialogar com o texto do poema, criado em parceria pelo editor e designer Márcio Simões e o ilustrador Chico Díaz.

Conhecido por seu trabalho como ator, especialmente para a rede Globo de televisão e para o Cinema, Díaz também é artista visual e esse é o primeiro livro ilustrado por ele.

Participe da campanha no Catarse AQUI

Na edição, o texto do poema aparece na cor branco, em páginas negras, intercalado em cada uma de suas partes pelas imagens vorazes e torturadas de Díaz, que também abrem e encerram o livro, reforçando e intensificando o tema tratado.

O papel utilizado, mais espesso que o comum, tem gramatura de 120g/m2, de melhor acabamento, garantindo a opacidade entre as páginas e a melhor impressão possível para o livro. A edição conta ainda com uma apresentação do poeta e professor Sérgio de Castro Pinto.

Casa-da-Morte-Petropolis f monteiro.jpg

Casa da Morte de Petrópolis, imóvel situado na Rua Arthur Barbosa, no bairro Caxambu, que abrigou na década de 1970, durante a ditadura militar, um centro clandestino de torturas e desaparecimentos políticos. 

Orelha

Dando continuidade ao seu projeto poético de livros da Sol Negro Edições lança “Os vivos (?) e os mortos”, grande poema do pernambucano Fernando Monteiro, com ilustrações de Chico Díazcom longos poemas temáticos (Vi uma foto de Anna AkhmátovaMattinataMuseu da Noite), Fernando Monteiro aborda neste “Os vivos (?) e os mortos” o abjeto aparato de perseguição e tortura da ditadura militar brasileira instaurada em 1964.

O poema gira em torno da chamada “casa da morte”, residência localizada no número 668 da rua Arthur Barbosa em Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada por membros do regime militar para torturar e assassinar presos políticos durante os anos 1970.

Centro clandestino, do qual ninguém saía vivo, sua localização e história só se tornaram conhecidas graças às denúncias da única sobrevivente entre os que foram levados ao local, a dirigente da organização var-Palmares Inês Etinne Romou, que foi torturada e estuprada por três meses no local antes de ser jogada, aparentemente morta, numa rua nos subúrbios do Rio (os mortos da casa eram normalmente esquartejados e enterrados nas cercanias da própria residência).

Mas, ao mesmo tempo que trata dos “mortos” da ditadura e da geração altruísta que lutou contra ela, Monteiro traz o seu poema até os dias atuais, expondo os contrastes entre aquela geração combativa e os “vivos (?)” da geração atual, passiva e enfeitiçada como Narciso pelo espelho das telas e algoritmos.

Os-vivos-e-os-mortos_CAPA_livro f monteiro.jpg

Edição tem texto do poema na cor branco, em páginas negras, intercalado com imagens de Díaz, que também abrem e encerram o livro.

Biografias

Fernando Monteiro nasceu no Recife, em 1949. Escritor, poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Editora Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 ‒ Leilão Sem Pena (Edições Pirata) ‒ e, em 1993, quando lançou, pelo selo do lendário editor paulista Masso Ohno, o premiado Ecométrica.

Após o que, voltou-se para o romance, e veio a publicar, em Portugal, pela prestigiosa editora Campo das Letras, o também premiado Aspades, Ets Etc.

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Fernando Monteiro é escritor e cineasta

 

Seu segundo romance foi distinguido com o primeiro Prêmio bravo! de Literatura/1998, e vieram, nos anos seguintes, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro e Armada América (pela W11 Editora, sp), O Grau Graumann pela Editora Record e As Confissões de Lúcio pela Francis Editora.

Em 2009, ano em que foi o homenageado do sétimo Festival de Literatura [“A Letra e a Voz”] retornou ao verso com o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, a que se seguiu Mattinata (2012), em coedição da Sol Negro Edições com a Edições Nephelibata.

Em 2017, foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco, e prosseguiu na poesia com Museu da Noite (Editora Confraria do Vento, 2018).

Chico Díaz nasceu na Cidade do México em 1959, ator, arquiteto, artista plástico. Viajante. Infância passada entre Costa Rica, Peru, EUA, Brasil e Paraguai. Formado em arquitetura pela UFRJ, nos tempos das sombras fugiu para o  teatro e logo foi sequestrado pelo cinema.

Chico-Diaz- .jpg

Chico Díaz é ator, arquiteto e artista plástico

 

Em 1981 fez O sonho não acabou, de Sérgio Rezende, que acabou sendo o primeiro de mais de 80 filmes nacionais e internacionais, reconhecidos e premiados, entre eles Corisco e Dadá de Rosemberg Cariri, Amarelo manga de Cláudio Assis, Os matadores de Beto Brandt, dentre outros.

Trabalha também na televisão brasileira e no teatro. A lua vem da Ásia de Campos de Carvalho é seu monólogo mais visto. Recentemente esteve em Lisboa no Teatro do Bairro, sob direção de Antônio Pires com a peça Biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade e filmou com João Botelho, em 2019, O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago, com lançamento previsto para 2020.

 

17
Nov20

Carolina de Jesus

Talis Andrade

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Ao classificar o título de um de seus livros “Quarto de Despejo: Diário de uma favela” (1960), Carolina de Jesus afirmou que a favela é o quarto de despejo de uma cidade.
 
“Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, acrescentou a escritora.
 
Nada mais lúcido e atual que a descrição da mineira de Sacramento, que chegou a São Paulo em 1947, aos 33 anos. Trabalhadora, mãe de três filhos e moradora da Favela Canindé, ela escreveu mais de 20 cadernos com seus diários.
 
O tempo era curto pra tanto trabalho, catando papelão nas ruas, faxinando casas, lavando roupas pra fora, pra sustentar os filhos, Carolina nem assim se afastou de alfabetizar outras pessoas em casa. Pra ela, instintivamente ou conscientemente, a arma da mudança estava na educação.
 
Talvez fosse esse o seu quilombo, pra organizar e mobilizar outras e mais outros para a luta contra o racismo e as desigualdades; para que deixassem de ser tratados como “trastes velhos”.
 
Foi descoberta e lançada à carreira literária pelas publicações de seus textos na imprensa. O dia a dia da mulher negra na periferia. Aí está a potência de sua obra. A genialidade de Carolina está na poesia, em letras de músicas e livros traduzidos para 13 idiomas e publicados mundo afora.
 
Morreu o corpo em 1977, em Parelheiros, zona Sul. A ideia jamais. A grandeza, força e nobreza da luta contra um sistema de morte segue semeando muitas Carolina´s nesse chão.
 
Carolina de Jesus é símbolo de luta e demonstração do quão ignorante e cruel é o racismo. E mais: precisa ser superado.
 
 

 

24
Ago20

“Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”

Talis Andrade

Urariano Mota.jpg

 

 

Natanael Lima Jr entrevista Urariano Mota

Urariano Mota é escritor e jornalista, nascido em Água Fria, subúrbio do Recife. Autor de Soledad no Recife, que reconstrói a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973, e a traição que levou à sua prisão, tortura e morte pelo governo militar. Publicou ainda O filho renegado de Deus (Prêmio Guavira de Romance 2014), Dicionário Amoroso do Recife e A mais longa duração da juventude, que narra o amor, política e sexo em uma viagem de memória no Recife de 1970 a 2017. Atualmente, é colunista do Vermelho, Brasil 247 e Jornal GGN.


Natanael Lima Jr. - Meu caro Urariano Mota, um prazer grande entrevistá-lo e podermos conhecer um pouco da sua vasta trajetória como jornalista e escritor. Quem é Urariano Mota?

Urariano Mota - Sou fundamentalmente escritor. Meus textos jornalísticos têm, ao mesmo tempo, rebeldia às normas dos jornais e realização literária de outra maneira. Neles sempre está presente a voz do escritor. Sou filho de João e Maria, em um bairro popular, cuja formação possui traumas dos quais às paredes confesso. De outros traumas, nem às paredes falo de viva voz. Meu crescimento intelectual se deu à força de uma persistente autoeducação, porque desejava falar desse mundo submerso.

 

NLJ - Quando você começou a se interessar pelo jornalismo e a literatura?

UM - Por jornalismo, porque eu desejava trabalhar em algo que exigisse de mim o texto escrito. Nem adivinhava que a liberdade estética, para ganhar dinheiro com jornalismo, eu não teria. Mas comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa:

“Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro...

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

 

NLJ - Para você escrever é dom ou consequência de trabalho, leitura e transpiração?

UM - A resposta já foi esboçada antes. Escrever é, em primeiro lugar, uma necessidade. E se pensamos na semelhança que pode guardar com outra expressão de humanidade, é como o amor. Ninguém pergunta se o amor é dom, trabalho, leitura ou transpiração. É tudo. E guarda semelhança também com as formas da escrita. Ela se faz de todas as maneiras, do certo, do errado, dionisíaca, apolínea, sucinta, seca ou larga, barroca. Não há formas superiores, únicas, Há formas diversas e infinitas, todas dignas do seu nome. Mas se quer uma resposta sintética, eu digo: necessidade, talento, leitura, trabalho.

 

NLJ - De onde vem o caráter político das suas obras?

UM - Natanael, o escritor e crítico literário Flávio Aguiar assim escreveu na apresentação do livro Soledad no Recife: “Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”. Com efeito, essa tem sido uma fala dos mais diversos leitores sobre o que tenho publicado. E não há truque, não há “técnica”, efeitos especiais de circo para essa manifestação. Trata-se, apenas, ou melhor, um apenas entre aspas, trata-se “apenas” de que reflito, penso e medito sobre a memória do que vivi e tenho vivido. Às vezes, ou quase sempre, lembrança do mergulho da mais funda angústia. Quando escrevo sobre a esquerda no Recife, quando publico páginas sobre os militantes contra a ditadura, quando retomo um trauma antigo, do século passado, eu não invento. Ou melhor, procuro não inventar, na medida da minha consciência. Aos companheiros mortos e vivos, eu dedico sempre o que escrevo. Sem eles, eu sou nada, ou menos que nada, se isso for possível.

Agora noto que sou de esquerda antes de ser de esquerda. Não é um paradoxo, porque pretendo dizer: sou de esquerda desde a morte precoce da minha mãe, quando eu era um ser em crescimento aos 8 anos de idade. A revolta foi a mais funda que um homem pode ter, revolta que com os anos só veio crescendo. Aquilo me pôs num caso pessoal com Deus. Caso de raiva permanente contra um absoluto que permitia a negação da vida de modo mais absoluto. Mas para expressar, escrever sobre esse mundo, desde a infância ao tempo de juventude, eu tive e tenho que estudar muito. Ler, reler, apanhar para aprender, apanhar para refletir sobre o fracasso. Porque com revolta só não se faz literatura. Além dela, é preciso conhecer, trabalhar e trabalhar, ler e estudar. Só assim o sentimento íntimo se torna sentimento do mundo.

A literatura é uma atividade sobre a qual sempre estamos aprendendo, não importa a idade do escritor, ou quantos cabelos brancos tomem conta da sua cabeça. Todos os dias fracassamos. E como um Sísifo todos os dias tentamos erguer a dura rocha da felicidade para o alto. Mas ela volta a rolar até os nossos pés, todos os dias. Então recomeçamos.

 

NLJ - Para você, qual o valor da literatura?

UM- Caro Natanael, tento responder com uma reflexão sobre a minha experiência: sempre procurei falar para jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Aqui e ali, eu era obrigado a ouvir:

“O que eu ganho com a literatura, professor?”

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas. E ficava a gaguejar coisas absurdas, do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

Mas quando a pergunta era feita por jovens da periferia, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta; porque não me via em suas condições e rostos. Mas dos periféricos, era demais. Então eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência.

Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa; algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura. Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

 

NLJ - Entre as suas obras publicadas, destacam-se Soledad no Recife (2009), O filho renegado de Deus (2013) e A mais longa duração da juventude (2017). Fale-nos um pouco sobre cada uma dessas obras?

UM - Eu prefiro falar com trechos curtos de cada uma. Assim, talvez eu consiga algum distanciamento, digamos.

Soledad.jpg

 

Soledad no Recife – “ 'Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto'. O depoimento da advogada Mércia Albuquerque sobre o corpo de Soledad é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. 'A boca de Soledad estava entreaberta' ”

urariano o filho renegado.jpg

 

O filho renegado de Deus – Agora entendo, mãe, o quanto odeio a miséria, no mesmo passo em que amo os miseráveis. Eu, que sou filho do teu leite, eu que sou filho de Filadelfo, sei agora que também sou filho da miséria, e assim em terror quero extirpá-la de mim, com força, vigor, violência: Maldita, o teu nome é crime. Naquela hora sei que havia movimentos no teu ventre, e depois vinha uma breve quietação, que parecia opressa, porque respondia com pequenas pontadas laterais, à semelhança de pequenos braços em convulsão. (Por Deus, eu não queria ter esta memória. Por Deus!)

juventude revolução urariano.jpg

 

A mais longa duração da juventude - “- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe - digo.

- Por quê, rapaz?

- Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

- Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la, se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

- Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

- Você se nega à sua idade?

- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”

 

NLJ - O romance O filho renegado de Deus lhe deu o primeiro lugar do Prêmio Guavira 2014, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O que representou essa premiação para a sua trajetória literária?

UM - Foi a segunda vez em que ganhei dinheiro com a literatura. Na primeira, com o conto “Uma noite na Bahiana”, na antologia de humor da Revista Ficção, transformei o dinheiro em galeto e cerveja no Savoy. No segundo, paguei o IPTU atrasado da casa. Mas, falando sério, o prêmio apenas confirmou o que eu tinha consciência: o romance estava à altura de cantar uma mulher do povo, desprezada nos becos do Recife.

 

NLJ - W. H. Auden, escritor e poeta inglês naturalizado norte-americano, afirmara que “a mera criação de uma obra de arte é em si um ato político”. Você concorda?

UM - Sim, concordo. O que realiza o político na obra de arte não é o tema. É a sua criação como uma voz alta de humanidade. E, portanto, uma voz de protesto contra todo tipo de canalhice ou injustiça. A literatura vai sempre contra a corrente. Ou será aquilo que Manuel Bandeira falava: “contabilidade tabela de cossenos secretário dos amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres”

 

NLJ - Na sociedade de consumo irrestrito em que vivemos a literatura ainda sobrevive, isso não é pouca coisa. Em sua opinião, pode-se viver de literatura no Brasil?

UM – De literatura mesmo, é difícil, raro ou impossível. O que se ganha com livros no Brasil é aquele samba de Pedro Caetano:


“O que se leva dessa vida
É o que se come,
É o que se bebe,
É o que se brinca, ai, ai...
O que tenho nessa vida
São as ruas pra andar”

 

NLJ - Como sabemos, a internet possibilitou novas formas de comunicação com pessoas do mundo inteiro. No caso específico da literatura, a internet contribuiu para a sua difusão?

UM - Sim, e digo mais: a internet é capaz de estabelecer ligações e conquistas antes inimagináveis. Por exemplo, todos os meus romances foram publicados com o envio de originais por email. Esse é um procedimento que não se recomenda. Há editoras que até rejeitam. Mas comigo tem sido assim.

 

NLJ - A sobrevivência do interesse por literatura nestes tempos de informações frenéticas, contudo descartáveis, seria em sua opinião, um estágio cultural já superado ou não?

UM – É claro que não. As informações descartáveis são a antiliteratura. Onde os jovens, homens e mulheres encontrarão a expressão máxima do amor e da morte? A não ser que estejam satisfeitos com a existência de robôs. E logo, logo, os robôs viram sucata, enquanto a vida se vai e esvai.

 

NLJ - O que você deixaria como mensagem neste momento de distanciamento social provocado pelo Coronavírus?

UM – Leiam os clássicos. Ouçam Bach. E Pixinguinha também.

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

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