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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

10
Ago22

A MENINA (DO SOBRADO) QUE ROUBAVA FLORES

Talis Andrade

A política em Clarice LispectorClarice Lispector - 10/12/2015 - Ilustrada - Fotografia - Folha de S.Paulo

Clarice Lispector (à direita) ao lado das irmãs Tania e Elisa

 

por Marcus Prado

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Não há um só detalhe da crônica Cem anos de perdão, de Clarice Lispector, do livro Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, que não seja de suprema construção literária e de inspiração poética, há uma hierarquia de começo, meio e fim (como deve ser a grande arte do cronista), um texto, impregnado de ânimo e beleza, que pede ao leitor envolvimento, eis o segredo da obra de arte. A autora alcança, nas pequenas narrativas, aquilo que Suzan Sontag (ela que é também mestríssima no campo da Fotografia), chama de elementos estruturais bem desenvolvidos. Dentro de um sistema orgânico, digo eu, singularíssimo, unitário, traço mais prontamente cativante e coeso, de significados e significantes verbais – e tal propósito é plenamente logrado na sua obra de ficção.

Nessa crônica ela retrata uma faceta da mulher quando menina, que ficava encantada ao passar por uma casa e seu jardim, algo para ela inacessível, filha de um pequeno vendedor ambulante, vindo de longe, e de uma mãe há muito sofrendo aquele tipo de dor sem esperança de cura. O jardim e o canteiro de flores são temas medievais, um dos motivos favoritos de todas as escolas de pinturas do século 15, não apenas na Itália, mas em todo o Ocidente. O caráter abstrato dos jardins não perde de foco na ficção clariciana. (Clarice saberia mais tarde que estava pisando num solo pernambucano recordista brasileiro de flores tropicais; num chão que seria berço de um jardim, o da Praça de Casa Forte, marco inicial e pioneiro de uma nova concepção estética de jardins públicos, com a marca de Burle Marx.  O filho da pernambucana Cecilia, de quem Clarice se tornaria amiga).

Não demoraria muito para Clarice ser vista entre os maiores cronistas brasileiros do seu tempo, ao lado de Lima Barreto, João do Rio, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rubem Braga, Nelson Rodrigues. Paulo Mendes de Campos, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes. Na verdade, a ucrano-pernambucana Clarice Lispector é da boa e nobre linhagem de Machado de Assis. Quando se trata do tema crônica brasileira, é quase instantâneo pensar no nome de Clarice, ninguém a supera. E é hoje amplamente traduzida e divulgada, o que faz com que seja colocada pela crítica ao lado de autores como Virginia Woolf, Kafka e Katherine Mansfield. 

Pessoalmente, um tanto maravilhada, ela gostava de roubar flores vermelhas, as flores que fizeram o encanto da vida e da obra do mais famoso jardineiro-paisagista do seu tempo, não só brasileiro, Roberto Burle Marx. Por causa das flores vermelhas, que plantava nos jardins do Recife, e porque tinha Marx no sobrenome, passou a ser visto no Instituto Arqueológico Pernambucano, leia-se Mário Melo, como comunista). Algo me diz que aquelas flores nunca saíram da memória de Clarice, dos anos mais felizes de sua vida, ela dizia isso numa outra crônica sobre o Recife e Olinda. O sobrado não tinha jardim, era como um daqueles vistos por Nelson Saldanha no clássico O jardim e a praça: ensaio sobre o lado “privado” e o lado “público” da vida social e histórica. Mas, havia um copo d`água na janela de frente, onde a flor ficava à vista de todos, soberana, e o jardim da praça, hoje invadido por sem moradias, era como parte imaginária, embora integrante, do quintal do sobrado. Portanto, a Praça Maciel Pinheiro e o Jardim, sem falar da fonte luminosa e suas figuras da mitologia grega, faziam parte dos devaneios da menina que amava os livros e as flores.

No condomínio olindense onde moro há um grande jardim de flores vermelhas adotado por minha mulher, a senhora Maria de Lourdes, é uma paixão dividida com Ricardo, nosso neto.  Da varanda, tomada por muitas flores, vemos uma vez por semana uma cena que faz lembrar a doce menina do sobrado. Ela chega de mansinho, suspende o tempo acelerado do coração, prende a respiração como um tigre anfíbio de olho na caça matinal, como quem acaricia um gato ou um passarinho, (pouco importa se o vento espalha os cabelos e deixa suas tranças desarrumadas), suas mãos ficam flutuando como uma nuvem encapsulada no firmamento, quando de repente, agora como um raio, dá o lance almejado na flor que ainda outro dia floresceu na sua ensolarada quietude. O jardineiro Reginaldo, que vê tudo à distância, tem ordem, previamente articulada, de não agir à imunidade concedida.  Porque “quem rouba flores, merece 100 anos de perdão”. 

Marcus Prado

25
Jul22

Verissimo: humor livre em praça pública

Talis Andrade

 

Nos seus 85 anos, o escritor, cronista e jazzista gaúcho, criador de Família Brasil, As Cobras e O analista de Bagé é retratado pelos melhores cartunistas do país – melhores depois dele, claro
 
 
Por Stela Pastore / Publicado em 6 de dezembro de 2021
 
 
Para marcar os 85 anos de Luis Fernando Verissimo, 85 caricaturas estarão numa mostra ao ar livre entre 9 e 11 de dezembro, na praça João Paulo I, no bairro Santana. Desenhistas de humor como Angeli, irmãos Caruso, Baptistão, Benett, Canini, Cau Gomes, Dalcio, Edgar Vasques, Fernandes, Jota Camelo entre tantos outros têm o colega gaúcho como alvo do seu traço nessa coleção reunida em 24 banners de 1,2m x 1,5m, que pode visitada das 14h às 19h.
 
 
“Não temos tamanho para presentear o Verissimo. Mas podemos em uma pequena praça da nossa cidade, da cidade dele, em um local que é público onde todos podem ter acesso, mostrar o quanto gostamos dele. Com a criatividade e a inteligência traduzida nas ilustrações dos cartunistas que vão retratá-lo”, resume Margareth Dornelles, proprietária do Baden Cafés Especiais e do Espaço Cultural Amelie, localizado em frente a praça, na esquina das ruas Jerônimo de Ornelas e Vieira de Castro.
 

 

“Não é necessário justificar o significado do escritor, poeta, desenhista, jazzista, caricaturista Luis Fernando Verissimo. Ele é um nome nacional, reconhecido internacionalmente e escolheu ficar aqui em Porto Alegre”, destaca Margarete Moraes, uma das curadoras do Espaço Amelie, juntamente com Leila Dalpiaz, que destacou o desejo antigo da ex-secretária de Cultura da capital gaúcha em homenagear esse multiartista gaúcho, filho do escritor Erico Verissimo.Verissimo: humor livre em praça pública

“Cada artista expressa em traços próprios como sente e enxerga LFV. São caricaturas inéditas, um presente para a população de Porto Alegre”, observa Fraga, curador convidado para a mostra ao ar livre Caríssimo Verissimo – Uma aclamação gráfica aos 85 anos de LFV.

 

Cronista mais querido do Brasil  

Verissimo: humor livre em praça pública

Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor, Fraga é o coletor das caricaturas e conta com apoio dos amigos Eugênio Neves, Hals e Fabio Zimbres no tratamento das imagens, design e montagem da exposição. “A proposta é um evento coletivo focado na sua figura: uma exposição de caricaturas, inclusive as dele mesmo, o seu talento gráfico menos lembrado, uma forma de celebrar a efeméride do cronista mais querido do Brasil”, destaca Fraga.

Para Margarete Moraes, o Espaço Amelie apesar de novo, compreende e busca potencializar o processo de criação artística, produção, difusão, fruição e consumo em Porto Alegre. Nesta proposta, valoriza a capacidade incessante de LFV em continuar atento, lúcido e cada vez mais criativo.

 

Como desenhista gráfico, Verissimo é mais conhecido por desenhar os quadrinhos da Família Brasil e As Cobras. Porém, tem importante produção de caricaturas que ilustraram crônicas de publicações nacionais nas décadas de 80 e 90, como a Veja ou os jornais Estado de São e Paulo e O Globo, que também farão parte da mostra ao ar livre.

“As atividades que fazemos, as pessoas que reunimos, são pessoas de quem gostamos e gostamos do que fazem. Aquele lado do bem com que nos identificamos. E o Verissimo talvez seja uma síntese de tudo isto. Da vida, da arte, da inteligência, da produção cultural (escreve, desenha, tem uma banda de jazz), e talvez algo muito, mas muito dele, a simplicidade!”, conclui Margareth Dornelles, informando que o homenageado estará presente com a família no último dia da mostra.

Verissimo: humor livre em praça pública

Verissimo: humor livre em praça pública

25
Jul22

Professora atacada por usar Luis Fernando Verissimo em aula de escola do governador Ratinho bolsonarista 

Talis Andrade

Obra Questionada

 

Patrulha e ofensas contra a professora e a direção da escola

 

por Marcelo Menna Barreto /Extra Classe

 

A ideia de discutir literatura ao ar livre com livro de Luis Fernando Verissimo acabou gerando ataques à professora Cláudia Mendonça Portero no município paranaense de Primeiro de Maio (460 quilômetros de Curitiba). Ela leciona no Colégio Estadual Marechal Castelo Branco naquela cidade há dois anos e informou que a aula para alunos do 7º e 8º ano da instituição abordava crônica, gênero onde Verissimo é considerado um mestre da atualidade.Verissimo: humor livre em praça pública

Segundo relata Cláudia, a atividade em uma praça em frente da escola foi feita sob supervisão e aprovação da coordenadoria pedagógica. O livro utilizado de Verissimo, Sexo na Cabeça (Editora Objetiva), em nenhum momento, enfatiza a professora, trata do assunto de forma explícita ou pornográfica e foi um entre 20 indicados para a leitura dos alunos. “Na realidade, tinha oito títulos do Luis Fernando Verissimo. A palavra sexo no título é que causou isso tudo”, diz a professora.Verissimo: humor livre em praça pública

Luis Fernando Verissimo, inclusive, integra os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), as diretrizes elaboradas pelo governo federal para orientar a educação brasileira). É um dos autores recomendados pelo livro didático voltado para os estudantes do 7º ano, registra. “Os alunos tiveram lá o acesso a uma pequena biografia do autor”, fala Cláudia.Verissimo: humor livre em praça pública

Patrulha e ofensas

 

A professora disse que ao chegar à praça, “tinha três mulheres, uma com uma criança de colo, e essas mulheres ficaram olhando a minha aula e os livros que eu estava trabalhando, também”.Verissimo: humor livre em praça pública

No outro dia, 17 de março, apesar de ter saído com a certeza de que os seus alunos “adoraram” o trabalho, a professora tomou conhecimento por seus colegas que havia em um dos conhecidos grupos de WhatsApp de fofocas na cidade uma série de ataques a sua reputação e também ofensas dirigidas ao corpo diretivo do Colégio.Verissimo: humor livre em praça pública

“Fui chamada de pedófila; estão dizendo que na aula abordei assuntos como estupro, aborto, orgia. Um monte de mentiras”, diz Cláudia indignada. Ela relata também que o grupo mobilizado especialmente por duas mães chegou a fazer uma reunião, chamando os alunos e entraram com uma denúncia no MPPR que solicitou esclarecimentos à direção do estabelecimento de ensino.Verissimo: humor livre em praça pública

Ministério Público do ParanáVerissimo: humor livre em praça pública

Em nota, a assessoria de imprensa do Ministério Público do Paraná (MPPR) informou ao Extra Classe: “O Ministério Público do Paraná foi acionado em razão de reclamações formuladas por mães de alunos do Colégio Estadual Mal. Castelo Branco, que noticiavam que a professora teria ministrado aulas utilizando-se dos livros Sexo na Cabeça e Orgia, além de outros no mesmo sentido, do acervo patrimonial da docente, cujo conteúdo foi reputado como inadequado pelas mães, em razão das idades dos alunos (11 e 12 anos). As mães noticiaram que a professora adotaria conduta incompatível com a moralidade esperada na sala de aula, com dizeres de cunho sexual aos alunos. Em razão de tais comunicações, as mães pediram providências do Ministério Público, razão pela qual foi instaurada Notícia de Fato para apuração dos fatos”.

Verissimo: humor livre em praça pública

Apoio à professora e Boletim de OcorrênciaVerissimo: humor livre em praça pública

É nos estudantes que a professora Cláudia tem arregimentado suas forças. “Me sinto fortalecida pela quantidade de alunos que vêm me abraçar. Alguns até chorando”, diz.Verissimo: humor livre em praça pública

Cláudia ainda registra que, além do apoio dos alunos, se ampara e agradece à direção, equipe pedagógica e todos os seus colegas do Marechal Castelo Branco.Verissimo: humor livre em praça pública

Ainda diante dos fatos, um Boletim de Ocorrência (BO) já foi registrado pela professora na delegacia de polícia local, assim como um advogado que a representa já tem se manifestado na ação aberta no MPPR.Verissimo: humor livre em praça pública

No fechamento dessa matéria, Extra Classe foi informado que as duas mães que estão questionando a professora estão arregimentando um grupo de pais para pressionar a exoneração da professora em frente ao MPPR.

Verissimo: humor livre em praça pública

Este correspondente usou retratos de Verissimo pelos melhores cartunistas do país - "melhores depos dele, claro", conforme reportagem de Stela Pastore in Extra Classe

17
Mai22

“Pagu foi múltipla, complexa e não apenas musa”

Talis Andrade

Ficha na polícia como mulher de 'vida fácil', cirurgias e militância: livro  revela temporada de Pagu em Paris | Livros | O Globo

 

Diz autora de livro sobre a militante feminista

 

Quando se pensa no nome Pagu, logo vem à cabeça a musa do modernismo brasileiro. Porém, a pioneira do feminismo foi muito mais do que isso, aponta a escritora carioca, Adriana Armony. Ela seguiu as pistas deixadas por Patricia Galvão na capital francesa nos anos 1930 para compor o seu novo livro "Pagu no Metrô".

“Eu viajei a Paris para entender como foi esta temporada, entre 1934 e 1935, que é praticamente desconhecida. Se sabia que a Pagu havia feito um périplo pelo mundo e Paris foi um lugar fundamental, onde ela participou de manifestações contra o fascismo e assumiu a identidade de Léonie Boucher”, conta a autora.

Adriana Armony, que é também professora, com doutorado em literatura comparada pela UFRJ, passou um ano em Paris, em 2019, fazendo a pesquisa para um pós-doutorado na Universidade de Paris 3 - Sorbonne Nouvelle. O romance, que mistura ficção, relato pessoal e pesquisa histórica, contempla um lado menos conhecido da jornalista, autora e ícone do feminismo brasileiro.

“A princípio, eu não sabia como seria este formato, que foi se estabelecendo em tempo real, à medida que eu ia investigar nos arquivos estas pistas da Pagu, ao mesmo tempo em que eu fazia leituras sobre ela e ia descobrindo, não apenas coisas reais, mas também questões subjetivas, porque a própria Pagu era cheia de pseudônimos”, explica Adriana Armony sobre o processo de criação do livro.

Numa época de grande agitação política, Patrícia Galvão desembarcou na França em meados de 1934, depois de uma volta ao mundo como correspondente de jornais brasileiros. Em Paris, ela aderiu ao Partido Comunista Francês (PCF). Como uma detetive, Adriana Armony reuniu arquivos de polícia, de hospitais e fotografias inéditas para retratar esse período.

“Na verdade, ela foi mandada pelo Partido Comunista brasileiro nessa viagem pelo mundo. Na Rússia, ela se reuniu com os dirigentes e ficou decepcionada quando viu que era uma casta e que havia muita miséria. Boa parte de seus ideais comunistas foi abalada", relata a autora.

Quando chegou em Paris, Pagu participou de vários eventos políticos, distribui panfletos na praça e foi detida pela polícia. "Ela é fichada e presa como uma estrangeira em situação irregular”, completa Adriana.Ficha na polícia como mulher de 'vida fácil', cirurgias e militância: livro  revela temporada de Pagu em Paris | Livros | O Globo

 

Autobiografia não cita Paris

 

"Pagu no Metrô", lançado pela Editora Nós, retrata um período que a própria Pagu deixou de fora na sua autobiografia. “Isso é um mistério. Eu até brinco com isso no livro, que narra também as minhas perplexidades de leitora e as minhas dúvidas”, diz Adriana Armony.

“Nessa autobiografia, ela faz um relato para o Geraldo Ferraz sobre a vida dela desde a infância, mas principalmente esta vida subjetiva, imaginária, das emoções, que vai até o momento da viagem dela a Paris. E a carta se interrompe sem nenhuma despedida. Eu fiquei me perguntando o que aconteceu? E começam os delírios e as hipóteses. Será que ela interrompeu ou alguém tirou esta parte porque não queria que se soubesse de alguma coisa? Aí vai a imaginação da romancista, se somando à imaginação da pesquisadora”, relata.

Para falar de Pagu, a autora precisa falar de si mesma. O texto é recheado de confidências em primeira pessoa, que se misturam a momentos da história real, num testemunho de vida de duas mulheres. “A gente conhece muito esse mito da Pagu bonita, de baton roxo. O nome Pagu já é algo mítico, que não parte da realidade”, explica.

 

Musa dos modernistas

 

Pagu teve grande destaque no Movimento Modernista, iniciado pela Semana de Arte de 1922. Nessa época, ainda adolescente, ela se tornou a musa dos modernistas. Até integrar, anos mais tarde, o movimento Antropofágico, sob influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Ela viria a ter um relacionamento com Oswald de Andrade, quando o casal se torna militante do Partido Comunista brasileiro. Após a separação, ela vai morar sozinha, quebrando vários tabus para a época.

“A Pagu não participou diretamente de 1922, mas ela é uma figura importante do Modernismo e da Antropofagia, em 1928. Ela escreve no estilo taquigráfico e, mais do que isso, se torna um ícone feminista porque é uma mulher muito libertária, muito corajosa, que se colocava ativamente no campo da literatura, no campo das artes, ela fazia quadrinhos, tinha uma coluna chamada ‘A Mulher do Povo’ em que falava da mulher e criticava as mulheres burguesas, tinha uma relação forte com a classe operária, foi uma mulher batalhadora”, resume Adriana Armony.

“Eu acho importante a gente resgatar uma outra Pagu que é a Patrícia Galvão, a Pagu mais velha que é uma ativista cultural importante, que forma atores, que tem ligação com o teatro, que apresenta autores da literatura francesa”, diz Armony. “A gente vê que não foi fácil pagar este preço de mulher libertária, pois ela continuou sendo vista como um objeto e depois ela denuncia isso. Então, a gente fala de Pagu, de Patsi, de Mara Lobo, de Ariel, dessa Patrícia que tem que ser vista como uma mulher múltipla, complexa e não apenas musa no sentido de mulher bonita”, conclui.   

11
Set21

Um sonho que a repressão não destrói

Talis Andrade

 

juventude revolução urariano.jpg

 

Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais

 

por José Carlos Ruy

Um dia desses, conversando com minha filha, uma moça de 21 anos que estuda Letras, ela me falava, contrariada, de tantas moças e rapazes (e movimentos e artistas ‘jovens’) que parecem envelhecidos pela recusa a correr riscos, e pela vontade de ter todas as garantias e segurança que a sociedade oferece. São jovens na idade, mas não no coração, dizia ela.

Esta lembrança me ocorre no momento em que escrevo a ‘apresentação’ a este livro extraordinário a que Urariano Mota deu um título preciso: A mais longa duração da juventude. Um relato ficcional amplamente ancorado na memória dos jovens que, por volta de 1970, resistiam à ditadura no Recife, como tantos outros Brasil afora. E traziam inscrito em sua bandeira, com letras de um vermelho flamejante: ‘revolução e sexo’. Nesta ordem, adverte Urariano.

Urariano autógrafo.jpg

 


Rapazes e moças que, por volta de seus vinte anos, viviam às voltas com as agruras da luta política e revolucionária, e os ardores do sexo que despertava. Agruras e ardores narrados com a precisão de acontecimentos ‘de ontem’, que continuam presentes, quase meio século depois, com a mesma e intensa realidade do brilho das estrelas de que conhecemos somente a luz que cruzou milhares de anos-luz, estrelas que talvez nem existam mais no momento em que sua imagem nos alcança.

A luz dessas estrelas é semelhante ao sonho que, hoje, meio século mais tarde, aqueles jovens ainda sonham mesmo que seus corpos já não tenham a força dos vinte anos. Mas o viço e o vigor do sonho permanecem. E fazem mais longa a duração da juventude.

Urariano Mota sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas. Não é filosofia, quer Urariano. Mas é reflexão fina, humanamente fina e que tem o dom de trazer à vida, com seus matizes, os debates com que aqueles jovens de esquerda, revolucionários, desenhavam seu futuro, o futuro de todos, do país e da humanidade.

Sonho que levou o garoto de 1969 a comprar um disco de Ella Fitzgerald onde poderia ouvir I wonderwhy, se tivesse vitrola (palavra antiga para toca-discos, também antiquada no tempo dos igualmente em superação cdplayers). Não importa que não tivesse! Teria, um dia, e ouviria a cantora cuja voz amava. Sonho semelhante ao que tantos anos depois, quando já não existia a ameaça da repressão ditatorial, queria uma bandeira do Partido Comunista do Brasil para envolver o caixão do amigo morto.

Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista.

Sonho embargado pela memória cruel da sordidez da delação do infame Cabo Anselmo, que levou Soledad e tantos outros à morte na tortura ou pelas balas da repressão da ditadura.

Nesta permanência da juventude não há, como há em Goethe, nenhum pacto com o demônio, como aquele pelo qual o poeta buscou a garantia da juventude permanente.

‘Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos’, diz um diálogo neste livro maravilhoso. ‘Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua’.

Este é um livro que une, com a arte da memória, 1970 e 2017 – se fosse possível fixar parâmetros tão fixos... É um livro que olha o passado não pelo retrovisor que encara o acontecido faz tanto tempo. É um livro que faz do passado os faróis que iluminam o caminho do futuro. E reduz a distância no tempo revivendo, tanto tempo depois, a mesma luta que uniu, e une, tanta gente.

Um sonho contra o qual a barbárie e a estupidez dos cabos anselmos da repressão da ditadura foi impotente. E não o destruiu. E que é a senha para a mais longa duração da juventude.

04
Set21

Três poemas de Ana Vilarejo

Talis Andrade

Image

 

Vem aqui

 

Buscar

teu cheiro

 

Que em me

deixou

 

E devolver

os beijos

 

De amor

que me roubou

- - -

Será

 

Que

Você vai

 

Se afogar

De desejos

 

Quando olhar

Em meus olhos

 

E sentir

Os meus beijos

 

Tocar

Tua pele

 

Com sabor

De mar

 

Será?

- - -

Pensei em escrever

 

Sobre

Você

 

Escrevi

Saudade

 

À semana

Inteira

 

Um pingo

De lágrima

 

Em cada

Letra

 

Virou

Poesia

 

01
Ago21

A mais longa duração da juventude

Talis Andrade

Foto Francêsca Mota 

 

“Vocês são a resistência permanente. Talvez não saibam, mas vocês estão em páginas do meu romance ‘A mais longa duração da juventude"

 

por Urariano Mota

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Ontem, hoje e sempre 

Eu não reprimi o impulso ao ver o casal acima protestando na calçada da Avenida Conde da Boa Vista, em 24 de julho no Recife. E me lembrei dos amigos, das amigas, dos companheiros, das companheiras que resistem todos os dias. Aquilo me fez pedir emocionado à minha esposa que batesse uma foto desse lindo casal.  

Enquanto Francêsca acionava o seu celular, eu falava pra eles: “Vocês são a resistência permanente. Talvez não saibam, mas vocês estão em páginas do meu romance ‘A mais longa duração da juventude’”.  Eles fizeram então um silêncio comovido que só falava em gestos. E como se fosse uma lembrança daqueles tempos de feroz repressão, eu nem quis perguntar os seus nomes.  

Depois, ao ver a foto em minha página no Face, o médico Paulo Dantas esclareceu quem era o casal:  

“Excelente a sua iniciativa de homenagear e documentar com foto o casal Paulo Figueredo e Natália. Companheiros da luta de resistência contra a Ditadura de 64, educadores, participantes ativos de movimentos sociais por desenvolvimento e justiça social e meus queridos amigos”.   

Eu não sabia os seus nomes, mas bem sabia que possuíamos uma identidade comum. Então, para Natália e Paulo Figueiredo, e para todos Paulos e Natálias, com um beijo fraterno dedico um trecho do romance “A mais longa duração da juventude”. Trata-se de uma página em que o narrador recebe uma surpresa, quando pensava que a vida toda era perdida:  

“E volto os olhos para os manifestantes, que são muitos e ruidosos. Pareço ouvir ‘abaixo a ditadura’ em outras vozes, em novas bandeiras. Olho de novo e não acredito: aqueles a quem eu procurava estão todos ali. E eu a pensar que estavam mortos, velhos, doentes, alquebrados. Que míope eu sou. Então abro melhor os olhos, os ouvidos, a percepção. Meu Deus, nós somos estes jovens. Então me ponho a sorrir, a gargalhar de quem gargalhava de mim. E vejo o mais íntimo do outro nome da felicidade”

juventude revolução urariano.jpg

 

04
Jun21

A ditadura brasileira, literatura e denúncia, agora em áudio

Talis Andrade

 

por Urariano Mota

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A Tocalivros, que é a principal plataforma de audiolivros do Brasil,  anunciou esta semana que o áudio de “Soledad no Recife” está disponível para todos aqui 

O livro , que foi publicado pela Boitempo em 2009, ganhou  esta síntese da Tocalivros neste junho de 2021:  

“O amor e a paixão pela bela guerrilheira, o terror e morte na ditadura, a traição de um companheiro infiltrado, que a levou à morte pela ditadura militar. Ficção impressionante, a verdade de um crime sem punição. Grávida, foi delatada pelo próprio companheiro Daniel, depois conhecido como o Cabo Anselmo”.  

Daí que julgo necessário divulgar as duas primeiras páginas de Soledad no Recife: 

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.    

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de  madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

- Conspirando no Aroeira?  

- A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

- Esses intelectuais ... Conhecem? Soledad, Daniel.  

- Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou,  descuidado:  

- São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.  

- Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.  

- Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.  

- Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.  

- Sei.  

- Está com medo?  

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

- Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

- Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

- É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse,  apontando a Igreja de São Pedro.  

- Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.  

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.  

- Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.   

- Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha”  

Para essas primeiras páginas da abertura do livro, assim ficou o trailer do áudio: escute aqui.   

Desejo que tenham uma boa audição para o terror e trauma da nossa juventude no Recife.  

23
Mai21

A CPI da Poesia: os poetas mortos

Talis Andrade

 

por José Ribamar Bessa Freirea /Taqui Pra Ti

“Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia”
 (Mário Quintana)

Quem está tentando matar a poesia no Brasil? Para identificar os autores de tais ações foi criada na Câmara de Deputados a CPI da Poesia, que tem o poder de convocar até os mortos. No entanto, como seu foco abrange narrativas literárias e outras formas de expressão artística, indo além do ato poético em si, talvez devesse se chamar a CPI da Poética. De qualquer forma, sua presidente, a deputada federal Joênia Wapixana (Rede/RR), intimou várias testemunhas, advertindo que os mentirosos podiam sair dali presos.

O primeiro depoente vivo foi o cartunista e poeta Ziraldo, 88 anos, criador na época da ditadura militar de uma cor denominada Flicts, que servia de vacina contra a tristeza e a depressão e era o encanto das crianças. Ele fez um histórico da quadrilha poeticida cujo comandante, nascido em 1955 em Glicério (SP), odiava versos, uivava e latia cada vez que via um poeta vivo. O seu lema era “Ódio a Ode”. Perseguia ferozmente o Flicts, ameaçando-o com uma “arminha”, quando então exibia cor e esgar estranhos. Por isso, foi apelidado de Grrrr-au-au.    

Convocado do céu, onde reside há quase dois anos, o cantor João Gilberto, inventor da bossa nova e celebrado no mundo inteiro, confirmou à CPI que Grrrr-au-au abominava aquilo que ignorava. O comandante da quadrilha nunca havia ouvido uma música sua, não decretou luto oficial por sua morte, limitando-se a comentar: “Parece que era uma pessoa conhecida”. Citou Caetano Veloso que na ocasião se manifestou chocado com o tom de desprezo e a ignorância de Grrrr-au-au. No final, o depoente indagou à presidente se podia cantar “Chega de Saudade”.

–  Não. Quem tem que cantar aqui é o MC Reaça – interrompeu aos berros o Pit Bull Rachadinha, que nem era membro da CPI, mas sugeriu que fosse convocado do inferno, onde reside, o autor do Proibidão do Grrrr-au-au para quem “as feministas merecem ração na tigela e minas de esquerda tem mais pelo que cadela”. Instaurou-se uma balbúrdia e a sessão foi suspensa. 

O idiota e os bocós

Os trabalhos foram retomados com o depoimento de um vizinho de João Gilberto no céu. Era o poeta e cronista Aldir Blanc, vascaíno doente, coautor de A Cruz do Bacalhau, morto em decorrência do Covid-19, sem que houvesse qualquer manifestação da então fugaz secretária de cultura Regina Duarte, emudecida também diante das mortes do escritor Rubem Fonseca, do cantor Moraes Moreira, do ator Flavio Migliaccio e do teatrólogo Jesus Chediak.

Aldir, autor de Mestre Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, chutou o pau-da-barraca ao traçar o perfil do chefe da quadrilha com aquele estilo que desenvolveu em sua coluna nos semanários O Pasquim Bundas:

– Grrrr-au-au nunca leu um único soneto em sua vida e queixou-se dos livros “que têm excesso de palavras”. Taxou as publicações com impostos altos, mas eliminou a tributação para a compra de armas. Quando se apropriou da cor verde-amarela foi para enganar os incautos e trouxas e, dessa forma, disfarçar a sua baba gosmenta, o seu olhar alucinado de cachorro doido, como no poema de Zeca Baleiro. Declarou guerra à literatura, alegando que o Brasil tem que deixar de ser um país de maricas. Destilou preconceitos homofóbicos ao afirmar que quem gosta de poesia é gayzinho. Chamou de idiotas as pessoas que em razão da pandemia até hoje ficam em casa escutando música e lendo poemas.

Em seguida, a CPI quis ouvir o poeta Manoel de Barros, vindo do Pantanal do Olimpo, a toca de Zeus. O relator Mário Juruna indagou se a poesia merecia ser exterminada como pregava o Imbrochável Grrrr-au-au e se era mesmo diversão de “idiotas”.

– Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas.  Bocó é aquele homem que fala com as árvores e com as águas como se namorasse com elas – respondeu o poeta. 

– Mas afinal, o que é poesia? – perguntou o relator.

– Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. A linguagem da poesia força a realidade a se manifestar, escava suas profundezas e traz à tona as situações fundamentais da condição humana, como queria Alfred Doblin. Por isso ela é odiada pelo Grrrr-au-au.

O outro capitão 

O último a depor nesta primeira etapa da CPI foi o ator estadunidense Robin Williams, que reside hoje no andar de cima, mas viveu na tela o papel do professor de literatura no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Ele declarou que rompeu com o autoritarismo do colégio tradicional, uma espécie de “escola sem partido”, combatendo seu caráter castrador e repressivo. Seu depoimento forneceu elementos para a CPI dimensionar a poesia:

– Nós não lemos e escrevemos poesia porque é algo bonitinho, mas porque somos membros da raça humana, existe um poeta dentro de cada um de nós – ele disse.

Confessou ainda que orientou seus alunos a escreverem poemas, lidos em um clube secreto que funcionava numa caverna perto da escola. Lá, escondidos da repressão, promoviam saraus de poesia. O diretor, que estudou na mesma cartilha de Donald Trump, demitiu o professor e mandou-o recolher seus pertences na sala de aula. Ali, ele recebe uma homenagem dos estudantes, que sobem nas carteiras da sala seguindo a lição de rebeldia contra a autoridade burra, saudando-o e reconhecendo sua liderança: “Captain, my captain”. Esse era o “outro capitão”, o capitão inteligente.

– É simples assim – disse o professor aos membros da CPI. Um manda e os outros desobedecem. Ordens que atentam contra a espécie humana não devem ser cumpridas.

A CPI da Poesia vai ouvir ainda inúmeros poetas e músicos: Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral, Castro Alves, Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Patativa do Assaré, Cecília Meirelles, Adélia Prado. Cora Coralina, os poemas eróticos de Hilda Hilst e tantos outros.  Drummond vai dizer por que perguntou em A Flor e a Náusea: “Crimes da terra, como perdoá-los?” e explicar se existe ódio sadio expresso nos versos: “Meu ódio é o melhor de mim, com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima”. Qual a diferença deste para o ódio do Grrrr-au-au?

Serão convocados poetas amazonenses, entre eles Thiago de Mello para saber se continua cantando no escuro, além de Luiz Bacellar, Elson Farias, Aldizio Filgueiras, Dori Carvalho, Luiz Pucu, que devem se pronunciar sobre as ameaças à Zona Franca feita por Grrrr-au-au com o objetivo de impedir que a CPI da Poesia identifique os autores do poeticidio.

Por último, a CPI ouvirá poetas indígenas, entre eles Eliane Potiguara, Graça Graúna, Zélia Puri, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Dauá Puri, Ademário Payayá, Cristino Wapixana, Tapixi Guajajara e Daniel Munduruku que acaba de se apresentar para uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eles dirão se o poema abaixo de Miguel Panemaxeron Surui está mesmo anunciando o fim dos latidos de Grrrr-au-au e do pesadelo vivido pelo Brasil.

Passam os anos, passa a vida
Passa o tempo, passam as coisas,
Passam perto de mim as pessoas,
Passa dentro de mim o amor.
Por que isso comigo se passa,
Se já nem sei mais quem sou?

P.S. 1 – O ódio de Grrrr-au-au aumentaria se soubesse que no sábado (22) foram lançados dois novos livros. De manhã Pequenas conquistas perdidas com 45 crônicas do poeta Dori Carvalho. E logo onde? Nada menos que no Amazonas, que ele sonha deixar sem uma árvore em pé. E à tardinha, no Rio, o romance Morte Certa de Dau Bastos, professor de literatura na UFRJ.

P.S. 2 – Este texto se inspirou numa conversa telefônica com meu amigo Guillermo David, diretor nacional de Coordenação Cultural da Biblioteca Nacional da Argentina. Ele está relendo Guimarães Rosa e eu revisitando Julio Cortazar. “Os que amam a literatura estão salvos porque têm onde se refugiar nesses tempos sombrios” – ele disse. Daí a ideia de que a poesia é uma vacina de esperança. 

14
Mai21

A bondade negra de uma vagabunda

Talis Andrade

Urariano autógrafo.jpg

 

 

por Urariano Mota

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Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores

Para o dia de ontem, 13 de maio, lembro de uma pessoa grande que fiz personagem. Sobre ela, compreendo o que os fascistas chamam de vagabundo, palavra definida nos dicionários como um ser infame, canalha, desonesto, ordinário, inferior. Um insulto atirado, enfim, por bandidos contra a decência, que age por justiça. Em resumo, eu quero apenas dizer Severina, do romance “A mais longa duração da juventude” em uma página:  

Penso na cozinheira da pensão, dona Severina, uma senhora negra, analfabeta, que lia como ninguém as necessidades dos fodidos. Mais e melhor que a Irene de Manuel Bandeira, “Irene boa, Irene preta, Irene sempre de bom humor”, maior foi Severina, porque a sua bondade era ativa. Ela não era aquela bondade da criada perfeita, sempre a serviço dos patrões, que por isso entrará no céu, apesar de negra. Não, sob risco, na conspiração sem palavras e sem bandeira, muda, quanto devemos a ela? Severina lia em nossos olhos a angústia, e um sorriso se insinuava em seu rosto, quando nos olhava com olhos graúdos como se nos dissesse: “Eu te compreendo, futuro, se para a humanidade houver algum, eu te compreendo futuro camarada”. Esta lembrança vem na escrita. A gente tem que escrever para não ser um filho da puta, ou um ingrato, pior que os gatos domésticos. Por quê? Eu pagava somente a minha vaga e alimentação. Almoçava lá embaixo, mas lá em cima, Luiz do Carmo estava trancado sem comer. Então eu comia até a metade do meu prato. E ao me levantar da mesa com os meus 50% deixados, eu falava para me justificar do modo exótico de comer: 

- Levo para o meu lanche, mais tarde. 

Severina doce, Severina bondosa, Severina indispensável, sorria com os olhos para minha desculpa, eu podia ver. A partir do terceiro dia do almoço pela metade, ela punha mais feijão e mais pedaços de carne em meu prato, “por engano”. Na hora da refeição, a velha dona fiscalizava a quantidade de comida posta para os inquilinos. Severina atrasava o momento de pôr a minha refeição até que a dona saísse, e quando mais não era possível, escondia o excesso de carne sob camadas de feijão e arroz. Eu, percebendo a cumplicidade, comia rápido os meus pedaços, de tal modo que na volta da megera dona o meu prato estivesse equilibrado. Se pudesse fazer mais, Severina nos levaria para a sua casa, nos cobriria com a sua saia para esconder aqueles terroristas sem futuro, a não ser a morte. Que chegaria para todos, é certo, mas não tão cedo. Para mim, agora, a sua cara negra e redonda cresce. Com os olhos grados e um sorriso bom. Nela poderíamos ter a unidade com o povo tão sonhada, e não víamos, porque buscávamos o popular idealizado, macho, de armas engatilhadas como o exército vietcongue. Mas o popular estava no sorriso de Severina. Ela apenas queria ser nossa irmã naquela hora repleta de angústia. Ela apenas nos cobria como uma negra fugida abrigava os seus negros perseguidos. Enquanto nós, os perseguidos delirantes, procurávamos o popular sublevado. O engraçado é que tão criminoso me sentia pelo furto de comida sob a vigilância da senhoria, que eu fazia de conta que o almoço vinha a mais por acaso, embora repetido, e Severina fingia que errava a mão, sempre no mesmo prato. Na verdade, eu era o seu negro preferido, o filho especial da negra Severina, que para os outros era madrasta. Estrela Vésper riscava no céu até nós, e a sua luz era negra, num deserto branco de ossos. 

Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores. Os conhecidos como subalternos veem, leem e conhecem a vida, mas como são tidos como cegos, surdos e estúpidos, podem melhor observar o que passa despercebido aos senhores.  

Um abraço e beijo tardios, Severina. 

A mais longa duração da juventude  - LiteraRUA

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