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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

05
Nov22

Instituto Brasil-Israel repudia Michelle Bolsonaro por 'tentativa de colonização do judaísmo e sionismo'

Talis Andrade

 

Michelle Bolsonaro e Instituto Brasil-Israel

 

 

"Não se engane. A bandeira na camiseta de Michelle Bolsonaro não é do Estado de Israel, mas da Israel imaginaria construída pelo bolsonarismo", afirmou o Instituto

 

 

247 - O Instituto Brasil-Israel classificou a atitude de Michelle Bolsonaro de votar com camisa em homenagem a Israel, neste domingo (30), como uma "tentativa de colonização do judaísmo e do sionismo" que "cria a falsa ideia de que judeus apoiam o candidato" Jair Bolsonaro (PL).

"Não se engane. A bandeira na camiseta de Michelle Bolsonaro não é do Estado de Israel, mas da Israel imaginaria construída pelo bolsonarismo", afirmou o Instituto em nota publicada nas redes sociais.
 
"O uso de símbolos judaicos e sionistas já virou uma marca do bolsonarismo. Mas isso não significa similaridade de valores, ainda mais quando questões antidemocráticas estão em jogo. Chega a ser surpreendente, uma vez que o país do Oriente Médio adota medidas progressistas no campo dos costumes, como acesso ao aborto, proteção de direitos a pessoas LGBTs e o controle rígido de armamentos. Muito diferente do que Bolsonaro defende por aqui", acrescentou a nota.
 
"Para além disso, esse uso cria a falsa ideia de que judeus apoiam o candidato. Somos contrários à tentativa de colonização do judaísmo e do sionismo por qualquer polo político. A estigmatização de um grupo é o ingrediente principal para o antissemitismo", concluiu o Instituto Brasil-Israel.
19
Out22

Líder religioso que usa culto para pedir voto arrisca multa e, em casos de ameaça, prisão

Talis Andrade

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Templos religiosos também são considerados pessoas jurídicas e, pela lei, nenhum candidato pode ser financiado por empresas

 

por Julia Braun /BBC News

 

 

Dois dias após o primeiro turno das eleições presidenciais, o presidente Jair Bolsonaro (PL) participou de um culto na Assembleia de Deus Ministério do Belém, na zona leste de São Paulo, ao lado da primeira-dama Michelle Bolsonaro e de outros parlamentares.

Durante a celebração, que reunia centenas de fiéis, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da Convenção Fraternal das Assembleias de Deus do Estado de São Paulo (Confradesp), defendeu a campanha à reeleição do atual mandatário.

O poderoso chefão da Assembleia de Deus confessa seus pecados

O líder religioso pediu que os presentes falassem com "o nosso povo, com as famílias, com as mulheres" e com "parentes no Nordeste" para angariar votos para Bolsonaro. "Espero em Deus que no dia 30 de outubro estaremos confirmando o nosso voto e reelegendo o presidente da República", disse.

No mesmo culto, outros líderes religiosos criticaram o ex-presidente e adversário de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O próprio mandatário e a primeira-dama tiveram espaço para falar com o público.

 

Jair Bolsonaro participa de culto evangélico na manhã deste domingo

A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidente Jair Bolsonaro em culto na Assembleia de Deus em SP

 

"Precisamos convencer aqueles que ainda não sabem em quem votar. A igreja não pode ser omissa neste momento", disse Michelle.

Os pedidos de voto aconteceram apesar da proibição do uso de templos religiosos para propaganda eleitoral. Ganhos eleitorais dentro de igrejas, templos ou terreiros também podem ser considerados prática de abuso de poder econômico pelas campanhas.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Assembleia de Deus e com a Confradesp para esclarecimentos sobre o culto de 4 de outubro, mas não obteve resposta.

A reportagem também não encontrou no sistema de consulta eletrônica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decisões relacionadas ao episódio até a publicação deste texto.

Segundo especialistas em Direito Eleitoral consultados pela reportagem, violações às normas eleitorais por líderes e associações religiosas e candidatos podem levar à aplicação de multas e, em casos graves, a sentenças de prisão e até cancelamento do registro da candidatura.

O último caso, porém, nunca foi aplicado para campanhas à Presidência da República e requer infrações muito graves.

Entenda a seguir o que pode e o que não pode ser feito na campanha eleitoral por templos e líderes religiosos.

Templos religiosos, tais como igrejas, terreiros, sinagogas e mesquitas, são considerados "bens de uso comum" pela lei brasileira. E segundo a Lei das Eleições, de 1997, "é vedada a veiculação de propaganda de qualquer natureza" nesses locais.

"Falar bem de um determinado candidato não é propaganda eleitoral, mas comparar dois nomes e dizer, por exemplo, que um representa o bem e o outro o mal, pode ser considerado propaganda", explica o advogado eleitoral Alberto Rollo.

A lei estabelece como propaganda eleitoral não apenas declarações, mas também exposição de placas, faixas, cavaletes, pinturas ou pichações. O mesmo vale para ataques a outros candidatos — a chamada campanha negativa.

O descumprimento da norma pode gerar multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil. "A multa é aplicada para quem fez a propaganda ou para o candidato beneficiado", diz Rollo.

"Por vezes, alguns acham que vale a pena praticar a ilegalidade já que o valor da multa não é tão alto, principalmente quando se trata de campanha para presidente ou governador."

Segundo o ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e presidente do Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral (Ibrade), Marcelo Ribeiro, o TSE costuma analisar caso a caso para determinar o que será ou não considerado propaganda.

"Pelo entendimento do TSE, um líder religioso não pode transformar o culto em um comício, mas poderia manifestar pessoalmente preferência por um dos candidatos", disse à BBC News Brasil.

"É preciso analisar casos de exagero e de desvio de função, ou seja, de transformação de uma celebração religiosa em outra coisa."

 

Abuso de poder econômico

Templos religiosos também são considerados pessoas jurídicas e, pela lei, nenhum candidato pode ser financiado por empresas.

Por isso, transgressões são consideradas abuso de poder econômico e podem levar ao cancelamento do registro da candidatura ou à perda do cargo dos candidatos envolvidos e a multa para a instituição.

São exemplos de transgressões a distribuição de materiais impressos ou organização de eventos financiados por igrejas, propaganda nas redes sociais oficiais do templo religioso ou até o uso do espaço religioso, cadastrado em um CNPJ, para propaganda.

Pessoas físicas, porém, estão isentas da regra. Dessa forma, líderes religiosos podem individualmente fazer doações a campanhas.

A norma está prevista na Lei Complementar nº 64, de 1990. O Artigo 22 do texto estabelece que casos suspeitos devem ser investigados pela Justiça Eleitoral, com a apresentação de provas e testemunhas e direito a defesa.

A lei estabelece ainda que, para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade do fato alterar o resultado da eleição, mas a gravidade das circunstâncias.

Segundo Marcelo Ribeiro, isso significa que infrações pequenas ou de menor repercussão tendem a não levar à cassação.

"Se um candidato a governador, por exemplo, participou de um ato de campanha com mil pessoas presentes em que se identificou abuso, mas ele foi eleito com 1 milhão de votos a mais que o adversário, o bom senso leva a crer que não se deve cassar a candidatura."

"Em casos de campanhas à Presidência, é ainda mais difícil que se chegue a uma cassação. Um caso assim requeriria um movimento nacional, todo irregular", diz o ex-ministro do TSE.

O Artigo 22 da lei de 1990 também se aplica a casos de utilização indevida de veículos ou meios de comunicação social, incluindo os religiosos, que também não podem atuar em benefício de um candidato ou partido político.

Em 2020, o TSE julgou a possibilidade de ampliar o Artigo 22 e incluir também a proibição de "abuso de poder religioso" na lei. O tribunal, porém, rejeitou a tese.

 

Coação e ameaças

Há ainda um caso mais grave de infração, relacionado ao uso de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido.

A infração está prevista no Código Eleitoral, Artigo 301. A pena sugerida é de reclusão de até quatro anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa.

"Nesses casos estamos falando de um crime. Um líder religioso que ameaça expulsar um fiel da igreja ou ameaça aplicar um corretivo em quem votar em determinado candidato, por exemplo", diz Alberto Rollo.

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 TSE cogitou incluir 'abuso de poder religioso' entre crimes eleitorais, mas ideia acabou rejeitada
 

 

O Artigo 299 do Código fala ainda na proibição de "dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto".

Nenhum dos dois artigos menciona nominalmente líderes ou templos religiosos, mas as normas se aplicam também nesse contexto, segundo os advogados.

Redes sociais

Os especialistas consultados pela BBC News Brasil explicam, porém, que líderes religiosos são livres para manifestar sua opinião política ou pedir votos para candidatos em suas redes sociais ou relações pessoais.

"O debate público sobre política é normal e a população deve ter liberdade para discutir esses temas", diz Marcelo Ribeiro.

O advogado lembra, porém, que mesmo para as redes sociais há regras. O TSE estabelece que a propaganda eleitoral paga na internet deve ser feita somente por candidatos e partidos, e precisa ser identificada como tal onde for exibida.

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Líderes religiosos são livres para manifestar sua opinião política ou pedir votos para candidatos em suas redes sociais ou relações pessoais

 

O tribunal não considera propaganda eleitoral publicações com elogios ou críticas a candidatos feitas por eleitores em suas páginas pessoais.

Mas os apoiadores não devem recorrer ao impulsionamento pago para alcançar maior engajamento. Também é proibido contratar pessoas físicas ou jurídicas para fazer posts de cunho político-eleitoral.

"Os pastores são cidadãos e pessoas físicas, não jurídicas, portanto aquilo que dizem em suas redes sociais pessoais não está sujeito a essa lei. Mas essas declarações não podem acontecer nas redes sociais da própria igreja, por exemplo", complementa Alberto Rollo.

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15
Out22

"Quebrando Mitos": filme que faz uma autópsia da grande tragédia brasileira

Talis Andrade

 

QUEBRANDO MITOS - a frágil e catastrófica masculinidade de Bolsonaro -  YouTube

Documentário que todos deveriam ver se possível antes da eleição de 2 de outubro

 

por Ricardo Kotscho /UOL

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Que porrada! Poucas vezes na vida me senti tão arrasado ao terminar de ver um filme e, ao mesmo tempo, encantado com a excelência que atingiu o cinema brasileiro, após anos de destruição sistemática da nossa cultura.

No dilacerante filme-documentário "Quebrando Mitos" sobre a "masculinidade catastrófica" do governo de Jair Bolsonaro, de Fernando Grostein Andrade e Fernando Siqueira, lançado esta semana no país, o Brasil é um corpo estendido no chão, recolhido pelos dois jovens cineastas para fazer a mais completa autopsia da grande tragédia brasileira.

Partindo dos seus dramas pessoais, Andrade e Siqueira, homossexuais assumidos num país homofóbico, machista, misógino e violento, que glorifica a ignorância e a estupidez humana, tiveram que sair do Brasil para um autoexílio em Los Angeles, quando Bolsonaro assumiu o poder, para poder montar em paz e segurança o filme das suas vidas, ameaçadas pela intolerância galopante.

Como foi possível chegarmos a esse ponto de degradação humana, tão bem retratado no filme, com o país de cócoras, devastado por um exército de ocupação?

Bolsonaro seria incapaz de fazer isso sozinho. Foi preciso um trabalho coletivo, envolvendo muita gente de poder político, religioso e militar, amplos setores da elite nacional, e eu diria que até com a ajuda de forças de fora, para abalar os alicerces institucionais desta grande nação.

Essa gente agora não vai querer largar o osso. É tudo muito assustador. Vai levar décadas para apagarmos essa chaga da nossa história.

"Está tudo ali, a ponto de doer", escreve o amigo Fabio Altman, em sua brilhante resenha na revista Veja, sobre o "tempo da insensatez", onde recolhi esta síntese do que acabei de ver:

"A apologia do machismo. o ataque às políticas de proteção ao meio ambiente; a promoção das milícias; o descaso irresponsável com a pandemia; a transformação da fé dos evangélicos em massa de manobra e o culto às mentiras como atalho de ascensão nos corredores de Brasília, até a eleição de um deputado apagado como presidente da República".

O primeiro capítulo dessa tragédia, contado com grande destaque no filme, aconteceu na verdade antes da posse do inominável: o assassinato da vereadora Marielle Franco, até hoje não esclarecido, que revela as origens milicianas do grupo levado ao poder em Brasília nas ondas da Operação Lava Jato, numa joint venture com a polícia e a justiça americanas.

Está lá o cenário macabro das covas rasas abertas nos cemitérios da Amazônia, durante a pandemia, tendo ao fundo a floresta que arde em chamas com a cumplicidade do governo que liberou as boiadas, o garimpo ilegal e a pesca predatória, sem esquecer de falar no assassinato de Dom e Bruno, os esquartejados símbolos da resistência.

Estão lá as marchas dos fanáticos gritando "Mito!", as poças de sangue dos pobres lavadas nas favelas, os desafios à Justiça, a grosseria das declarações cafajestes do presidente, como se estivéssemos assistindo a um thriller de terror, mas é tudo real.

"Tem história que um dia dormirá nos livros e enciclopédias, mas tem também a sensibilidade de tocar no que sempre soou tabu, mas que não pode mais: a repressão, por vezes silenciosa, imposta ao grupo LGBT", assinala Fabio Altman. Na narração em primeira pessoa, Gostein conta ter sido estuprado duas vezes e forçado a perder a virgindade com uma coelhinha da Playboy aos 17 anos (seu pai, Mario de Andrade, foi editor da versão brasileira da revista).

Em meio a esse circo de horrores, tem espaço também para as belas cenas da história de amor de Grostein e Siqueira, em contraste com os gritos de "imbrochável" pronunciados por Bolsonaro e repetidos por seus devotos em Brasília, na pajelança cívico militar do último dia 7, em que até tratores e grupos religiosos desfilaram pela Esplanada dos Ministérios num espetáculo grotesco, que prosseguiu no Rio de Janeiro com exibições da Marinha e da Aeronáutica, motociatas e corridas de jet-sky, com a apoteoso sobre um trio elétrico de Silas Malafaia.

Nenhuma ficção de Glauber Rocha seria capaz de superar a realidade desta grande tragédia brasileira autopsiada pelos dois Fernandos nesse documentário que todos deveriam ver _ se possível, antes da eleição de 2 de outubro.

Mas, preparem-se: é uma porrada na boca do estômago.

Vida que segue.

 

08
Jul22

Crianças LGBT: “Esta é só mais uma característica do seu filho”, defende integrante de ONG

Talis Andrade

Depoimentos de jovens e adultos LGBTQIA+ ao Mães pela Diversidade revelam os traumas vividos na infância e na adolescência, “toda a dor que eles sentiram por não terem tido um colo para onde voltar” (foto ilustrativa).Depoimentos de jovens e adultos LGBTQIA+ ao Mães pela Diversidade revelam os traumas vividos na infância e na adolescência, “toda a dor que eles sentiram por não terem tido um colo para onde voltar” (foto ilustrativa).

Depoimentos de jovens e adultos LGBTQIA+ ao Mães pela Diversidade revelam os traumas vividos na infância e na adolescência, “toda a dor que eles sentiram por não terem tido um colo para onde voltar” (foto ilustrativa). © PIxabay / rubberduck1951

Fim do preconceito no mercado de trabalho, direito ao casamento homoafetivo, à adoção de filhos por casais de pessoas do mesmo sexo: a luta da comunidade LGBTQIA+ é pensada, na maioria das vezes, pela ótica adulta, deixando crianças e adolescentes em uma invisibilidade social que torna suas experiências pessoais ainda mais desafiadoras. Por isso mesmo, é preciso “marcar de uma maneira muito forte a existência dessas crianças”, alerta Regiani Abreu, que integra a ONG Mães pela Diversidade.

Criada em 2014, essa associação, formada por pais e mães que se posicionam contra a homofobia e a transfobia, coloca crianças e adolescentes LGBTQIA+ no centro de sua atuação e enfatiza a importância do acolhimento da sociedade, e principalmente da família, para a superação de uma fase da vida já tradicionalmente complexa.

“Todos nós convivemos com crianças LGBT, inclusive na nossa infância, mas essas vivências são suprimidas, apagadas. Então um primeiro movimento é [pelo reconhecimento da] existência dessas crianças, e um segundo movimento é chamar toda a sociedade para que abrace nossos filhos, no sentido de admitir que existe um bullying, que existe uma supressão dessa existência”, destaca Abreu.

Representante da Mães pela Diversidade em São Paulo, ela enfatiza duas condições muito particulares em crianças e adolescentes LGBTQIA+: a falta de emancipação, financeira e legal, para que deixem seus lares quando não são aceitos por suas famílias, além de já estarem vivenciando fases especialmente delicadas de formação e afirmação de sua individualidade, personalidade.

“Mas se você tem acolhimento dentro da sua casa, se você tem para onde voltar apesar de todas as violências que possa vivenciar na rua, na escola, todo o bullying, se você tiver sua família para se refugiar, você consegue crescer de maneira íntegra, saudável, você consegue desenvolver suas potencialidades”, acredita Regiani Abreu.

 

“Um colo para onde voltar”

 

Entre os pais e mães que tendem a negar a sexualidade de seus filhos, ela conta ser comum que estes acreditem que seus comportamentos sejam ou para afrontá-los, ou apenas uma fase, ao que ela responde sem hesitar: “Nós somos feitos de fases. Então, por que não acolher esta fase dos nossos filhos?”.

Aos pais e mães que integram a ONG e trocam experiências para melhor acolher — e proteger — seus filhos, filhas e filhes, Abreu sugere: “É muito importante que as famílias saibam que esta é só mais uma característica do seu filho, e você não pode se pautar somente por ela. Então observe também se seu filho está alegre, se está aprendendo na escola, se está feliz, se alimentando bem, se tem amigos, como toda criança”.

Depoimentos de jovens e adultos LGBTQIA+ ao Mães pela Diversidade revelam os traumas vividos na infância e na adolescência, “toda a dor que eles sentiram por não terem tido um colo para onde voltar”.

 

Abrace nossos filhos

 

Para potencializar essa luta pela visibilidade de crianças e adolescentes LGBTQIA+, o Mães pela Diversidade criou a campanha “Abrace nossos filhos”, que busca sensibilizar a sociedade sobre a condição desses jovens: “Agora, nesse momento, tem uma mãe aqui falando na rádio, mas também tem uma mãe falando em uma fábrica, uma mãe acolhendo outra mãe, acolhendo um jovem que foi expulso de casa, tem uma mãe que está distribuindo marmitas para LGBT’s em situação de rua. Nós somos muitas mães”.

 

12
Mai22

Brasil registrou uma morte violenta de LGBTs a cada 27 horas em 2021

Talis Andrade

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Ao todo, foram registradas 316 mortes, número 33,33% maior que em 2020, quando ocorreram 237 óbitos

 
 

Dossiê divulgado nessa quarta-feira (11/5) aponta que, em 2021, a cada 27 horas uma pessoa morreu vítima da violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no Brasil. Ao todo, foram registradas 316 mortes, o que representa um aumento de 33,33% em relação a 2020, quando ocorreram 237 óbitos.

Entre as causas, 262 foram vítimas de homicídio e, 23, de latrocínio. Juntos, os crimes violentos representam 90,19% das causas dos óbitos relacionados à orientação sexual e identidade de gênero. Também foram documentados 26 suicídios e cinco pessoas morreram por outras causas.

As principais populações afetadas foram homens gays (145) e travestis e mulheres trans (141), que somaram 286 óbitos. Em menor número, aparecem mulheres lésbicas (12), homens trans e pessoas transmaculinas (8), bissexuais (3), outros segmentos (3) e aqueles que não tiveram a identidade de gênero ou orientação sexual não informada (4).

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Subnotificação

O documento foi produzido por meio do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+, coordenado pelo Acontece – Arte e Política LGBTI+ e pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em parceria com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT).

As organizações apontam que, apesar dos índices serem alarmantes, os números ainda podem ser subnotificados. Isso ocorre porque o levantamento tem notícias publicadas em veículos de imprensa como principal fontes dos dados. Além disso, quando também são consultadas denúncias feitas por meio das redes sociais.

 

“Como dependemos do reconhecimento da identidade de gênero e da orientação sexual das vítimas por parte dos veículos de comunicação que reportam as mortes, é possível que muitos casos de violências praticadas contra pessoas LGBTI+ sejam omitidos.”

 

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26
Mar22

Mostra tua cara

Talis Andrade

 

Você acha que a aids ficou na década de 1980? A doença ainda persiste. E as mesmas ideias preconceituosas, estereótipos e discursos conservadores também

A manchete de 1988 intitulada “Paciente zero”, a respeito da aids nos Estados Unidos, transpassa uma ideia da realidade da época. Mas são os rabiscos agressivos em vermelho na imagem [“Pervertido” apontando para a foto de Gaetan Dugas] que realmente expõem o que de certa forma ainda é atual. O estereótipo do homem gay como culpado e ao mesmo tempo vítima da doença.

No livro “Doença como metáfora / AIDS e suas metáforas”, Susan Sontag explica que encarar a aids metaforicamente seria vê-la como uma espécie de peste, condenação moral da sociedade. Essa manchete não é um acaso. Mas foi a forma encontrada de aterrorizar a população e reforçar a homofobia e as pautas conservadoras. A liberdade sexual, que é luta constante da comunidade LGBTQIA+, naquele momento foi ameaçada pelo vírus e pelo preconceito.

A metáfora da aids era o castigo desse grupo, tido como merecedor – pelo comportamento fora dos padrões sociais impostos. Mas, ao contrário do que pensavam, a doença não tinha cara. Enquanto o número de mortes de pessoas LGBTQIA+ aumentava, o governo norte-americano se mantinha calado.

A situação não foi muito diferente no Brasil – com a narrativa conservadora de terror e os homens gays como a “cara” da aids.

 

Estava tudo bem. Praia, festas, amor; ficar com quem quisesse quando quisesse. A liberdade estava finalmente chegando, e os brasileiros ansiavam por ela. A doença estava longe, não era motivo de preocupação. Até que ela atingiu, e não foi só pela saúde que as vítimas tiveram que lutar.

A população LGBTQIA+, especialmente os homens gays, viraram alvos. O grande sensacionalismo na imprensa – chamando a aids de “peste gay”, por exemplo – inflou o preconceito e o medo. Se a economia do país fosse prejudicada, seria culpa deles. Se o sistema de saúde colapsasse, seria culpa deles. Se mulheres e crianças contraíssem a doença, seria culpa deles. Se morressem, bom, bem-feito.

“Não tenho nenhuma direção, é horrível, eu simplesmente não sei o que fazer, vazio.” As palavras do artista cearense Leonilson, no início dos anos 1990, refletem a situação dos soropositivos. Sem saída, acometidos pela solidão e sem apoio de ninguém além dos seus. A sociedade não queria olhar para eles, desviava os olhos. Até que não pôde mais ignorar.

 

No meio de tanta desinformação, temor, veio um grito: Cazuza revelava que era soropositivo. Esse primeiro grito mudou a trajetória da aids no Brasil: agora ela não estava mais às margens, estava no centro da sociedade. Um homem jovem, promissor, popular, cheio de vida. Apesar de tudo, ele não perdeu essa vivacidade.

“Eu acho que a aids caiu como uma luva no modelinho da direita e da Igreja”, disse Cazuza, no programa “Cara a Cara”, em 1988. Ele via as campanhas contra a aids não como algo para trazer esperança para quem estava doente, eram “propagandas da morte”. Dizer “a aids mata” ou “a aids não tem cura” servia mais para condenar o infectado do que para realizar um trabalho de prevenção.

Cazuza não queria ser associado a isso, a essa visão da aids como sentença de morte. Por isso ele continuou compondo e cantando. Sua música levou a vivência como soropositivo mais longe: “O meu tesão/ Agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock and roll”.

E as pessoas ouviram: sua honestidade trouxe a pauta para a discussão pública. Graças à pressão de movimentos sociais, o Brasil organizou uma resposta eficiente à epidemia. No começo, o que eram apenas redes de solidariedade e apoio se transformou em reconhecimento internacional ao programa de acesso universal aos medicamentos antirretrovirais implantado no país.

A doença, porém, não foi embora. E o preconceito, também não.

 

 

A mídia, a família e os amigos, todos diziam que eles iriam morrer. Porém, muitos sobreviveram e o que restou foi o isolamento e a dor. A manchete acima é de 2012, mas o sentimento ainda persiste. A discriminação se dá de diferentes formas em diversos ambientes. A perda do emprego, a exclusão de atividades sociais e os comentários preconceituosos. Enquanto essa for a realidade de pessoas que vivem com HIV, a discussão será necessária. O debate precisa de vozes dispostas a quebrar paradigmas. Mostrar a cara não é fácil, mas é necessário.

A questão é que o tema precisa estar em evidência para que o preconceito possa ser combatido. Ainda hoje é um tabu. As medidas de saúde públicas e de exames são pouco divulgadas e o senso comum sobre a doença continua arcaico. A primeira reação diante de um teste positivo de HIV não deveria ser de medo ou desespero, mas de saber que não se está sozinho e que o tratamento é eficiente e de fácil acesso.

Felizmente, mais figuras públicas têm se pronunciado sobre o diagnóstico positivo nos últimos anos e mostrado que é possível ter uma boa qualidade de vida apesar dele. Desde jogadores de basquete a personalidades de reality shows: o HIV não deve mais ser visto como uma condição restrita à determinada sexualidade ou a um estilo de vida. Precisamos que ela não seja mais chocante do que o diabetes, por exemplo, e que seus portadores não sejam alvo de julgamentos.

A aids ainda existe, não é um problema que já foi resolvido e podemos esquecer. Ela está presente na sociedade, afeta milhares de pessoas e precisa ser discutida, não empurrada para debaixo do tapete: evoluímos demais para cometer esse erro novamente. A aids não tem cara, mas os portadores do HIV não são invisíveis. Temos que ver seus rostos, ouvir suas histórias e não deixar que uma doença de 40 anos atrás os impeça de viver em liberdade.

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SAIBA MAIS

07
Mar22

Nazistas atacam em Natal centro de cidadania LGTB e terreiros de Iemanjá

Talis Andrade

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A nova e a antiga escultura. Foto José Aldenir

 

Os nazistas ameaçam a cidade libertária de Natal. A cidade que aprendi a amar lendo e andando pelas ruas com Woden Madruga, Berilo Wanderley, Newton Navarro, Márcio Marinho, Sanderson Negreiros, Zila Mamede, Mirian Coeli, Walflan de Queiroz,  Cascudo, Veríssimo de Melo. Andanças pelos bares e reisados de Djalma Marinho e Djalma Maranhão. 

Os nazistas ousam profanar os terreiros de Iemanjá. Ameaçam, com uma longa noite escura, uma longa noite das facas longas os gays.

Os nazistas precisam ser processados e presos. São psicopatas. Têm sede de sangue. Urge contê-los, antes que apareça um serial killer. Ou um tarado tipo Mamãe Falei, deputado Arthur do Val, candidato de Sergio Moro a governador de São Paulo, que discursa: “se ela cagar, você limpa o c* dela com a língua”. Um autêntico caso de coprofagia.

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A deputada federal Natalia Bonavides acionou o Ministério Público denunciando os ataques dos grupos neofacistas contra o Centro Municipal de Cidadania LGTB de Natal. 

"Que as ameaças sejam investigadas o mais rápido possível", exige a parlamentar. "Não passarão!", promete.

 

Vandalismo em Natal levanta debate sobre a cor de Iemanjá

 
por Cláudio Oliveira /Tribuna do Norte
 
 
Depois de ter sido pintada de preto, sem autorização, a estátua de Iemanjá, instalada na Praia do Meio, zona Leste de Natal, esteve mais uma vez no centro de uma polêmica. O questionamento é sobre a cor da pele da divindade. Representantes dos povos tradicionais de matriz africana em Natal dizem que o ato foi criminoso e que não representa nenhum “protesto construtivo” para que a imagem da orixá (divindade africana) represente melhor sua origem negra. Mais que isso, eles acreditam que esse discurso  gera a aprovação do ato de vandalismo, semelhante ao que ocorreu outras vezes, sem que ninguém seja responsabilizado e fazendo com que a intolerância religiosa ganhe força.
 

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Representantes de terreiros apontam que membros de comunidades tradicionais respeitam representação branca de Iemanjá. Foto Alex Régis

 
A imagem de uma mulher magra, de pele clara, cabelos longos e pretos, com vestido azul, braços abertos e pairando sobre as ondas, rodeada de rosas, certamente é a imagem mais popular e que permeia o imaginário dos brasileiros quando se fala em Iemanjá. Ela se popularizou em meados do século passado no Brasil através da Umbanda, religião brasileira que adotou elementos do catolicismo ou espiritismo, da cultura africana e indígena, no fenômeno conhecido como sincretismo religioso. Essa mesma imagem passou a servir como referência no culto afro-brasileiro em várias partes do mundo, incluindo a própria África. Porém, a Iemanjá dos ancestrais africanos não difere somente na cor.
 
“Uma mulher negra, quartuda, careca ou com pouco cabelo feito cocó, seios avantajados. Essa é nossa visão dentro de uma versão de africanidade. Porém, também falamos de uma divindade numa essência divinal, que obrigatoriamente, não tem a essência da cor em si”, explica o Babá Cláudio de Oxalá (Pai Claudinho), do Movimento dos povos tradicionais de Matriz Africana.
 
Ele é do Candomblé, religião afro-brasileira formada a partir de tradições religiosas de povos iorubás e que reconhece Iemanjá como uma mulher negra, mas não impõe essa versão. “Sou de candomblé e existe um diálogo da possibilidade da construção de uma estátua com os vestígios negros. Mas também dialogamos que, dentro da visão do movimento, independente da estrutura da estátua, existe toda uma luta, respeitando o trabalho da Umbanda, dos nossos irmãos que trabalham dentro da visão de uma Iemanjá americanizada”, reforça o Pai de Terreiro.
 
Ele defende que o sincretismo, que transformou a Iemanjá africana em uma mulher branca, ajudou na sobrevivência das tradições dos povos tradicionais. “Precisamos entender que durante todo o tempo, os nossos povos se mantiveram vivos graças ao sincretismo e a Umbanda aderiu a essa branquitude que nós respeitamos. Por mais que entendamos que Iemanjá é negra, respeitamos esse ponto de vista, assim como respeitamos o Jesus dos cristãos, que a gente sabe que não é branco dos olhos azuis, mas, sim, negro e nem por isso a pessoa tem o direito de entrar nas igrejas e depredar as imagens dele, pintando-as de preto”, destacou o Babá Cláudio de Oxalá.
 
Para a Juremeira Suely Costa, do Terreiro de Jurema Mestre Aroeira, de Pai Aurino, o respeito pela tradição umbandista deve prevalecer sobre a cor da divindade. Ela relembra que a religião de matriz chega ao Brasil com a escravidão e representatividade negra e a Umbanda é criada depois, com influência europeia e não apenas na tendência africana. “Há o misticismo do orixá com o santo católico. E, antes de tudo isso existir, já existiam as vertentes indígenas, entre elas a Jurema Sagrada que já estava no Brasil quando tudo isso chegou”, aponta Suely Costa.
 
A questão da cor também é algo que para o Pai Freitas, do Instituto Cultural e Religioso Mestre Benedito Fumaça, não deveria sobrepor o debate em torno do respeito ao culto das religiões afro-brasileiras. “Essa é a única imagem de Orixá genuinamente umbandista e a qual devemos boa parte da popularização de Iemanjá. Aquela estátua não foi feita negra, mas baseada na tradição umbandista que respeitamos e admiramos. Acho que tem que permanecer da forma que estava, respeitando essa tradição”, sugere o religioso.
 
 
Imagem continuará branca
 
A cor da pele da estátua de Iemanjá, na Praia do Meio,  permanecerá em tons claro, como era antes de pintarem de preto sem autorização. O trabalho deve começar nos próximos dias e vai custar R$ 3 mil ao Município.
 
“Nós já solicitamos a abertura do processo para autorização do serviço. Agora é só tramitação, apenas a burocracia que é necessária: análise jurídica, análise da Comissão de Controle Interno, autorização e assinatura do secretário e depois segue para o financeiro que faz a ordem cronológica de pagamento. É o tempo que o artista deverá levar para providenciar o material e inciar os trabalhos”, disse a diretora da Fundação Capitania das Artes (Funcarte).
 
O artista será o próprio escultor, Emanoel Câmara. Ele diz que será preciso remover toda a tinta preta através de um processo cuidadoso de raspagem, para depois refazer partes danificadas, como a mão direita da imagem, a estrela na cabeça e parte do seio que sofreram danos com a ação dos vândalos. Depois disso, a peça receberá nova tintura sem precisar removê-la da praia.
 
 
Terreiros apontam crime e cobram segurança
 
Os dirigentes de Terreiros frisam que interpretar o ato de, sem autorização, pintar de preto a estátua de Iemanjá, como sendo um ato de protesto para corrigir a cor original da orixá, pode ser uma forma de disfarçar o ato de vandalismo e preconceito, quando o debate deveria ser em torno da falta de segurança para aquele patrimônio público.
 
“Na minha visão o mais importante ao invés da questão da cor é a segurança pelo patrimônio. Não é a primeira vez que a imagem sofre ataques. Se observar, poderia ter uma praça, um gradeado para o culto das pessoas deixarem suas flores, realizarem suas orações e proteger a imagem”, diz a juremeira Suely Costa, do Terreiro de Jurema Mestre Aroeira de Pai Aurino.
 
Ela também é bacharel em Direito e destaca que a câmera instalada na Avenida Café Filho, em frente à estátua, não está funcionando, de modo que não foi possível identificar os autores da ação. “Isso mostra a vulnerabilidade da estátua. A câmera deveria sinalizar atos de vandalismo e intolerância, mas há tempos que está quebrada”, reclama a juremeira.
 
Sobre ser ou não um ato de protesto, ela ressalta que, se houver esse interesse, pode-se fazer de uma forma não agressiva. “De qualquer maneira, a forma que foi feita é um ato de vandalismo. Pode juntar um grupo, reivindicar, até aproveitar agora o ato de restauração e se a maioria das casas de terreiro achar que deve ser reformada na cor negra, tudo bem”, sugere.
 
O Pai Claudinho, do Movimento dos povos tradicionais de Matriz Africana, discorda da idéia de que se tratou de uma reivindicação. “O pensamento de que é protesto reveste o ato criminoso de opinião. Se for uma pessoa de comunidade tradicional ela sabe a importância que aquela estátua tem, não pela questão da pedra, mas pelas pessoas que ali vão, pedem, rogam, pelo envolvimento sagrado independente da cor. Uma pessoa que tem conhecimento tradicional jamais praticaria esse tipo de crime”, disse ele.
 
Além de vandalismo, o Pai Freitas, do Instituto Cultural e Religioso Mestre Benedito Fumaça, interpreta o ato como racismo. “A intenção foi racismo e preconceito porque se tivesse sido posta uma imagem negra teriam pintado de branco. Já arrancaram a mão e fizeram outros atos. É uma perseguição que não é de hoje”, pontuou.
 
De acordo com a Secretaria Municipal de Defesa Social (Semdes), tanto a Polícia Militar quanto a Guarda Municipal mantém o patrulhamento na área. Além disso, uma investigação está sendo realizada pelo setor de Inteligência da Guarda Municipal e outra deve correr na 2ª Delegacia de Polícia de Natal, onde foi registrado um Boletim de Ocorrências, para identificar os autores da pintura preta na estátua.
 
 
Estátua tem sido alvo de vandalismo
 
Os fatos comprovam o quanto a intolerância tem perseguido o monumento à Iemanjá ao longo dos anos. A estátua anterior, construída em 1999 pelo escultor potiguar Etewaldo Santiago (já falecido), também sofreu vários ataques. Alguns marcaram a história daquele espaço de oração à orixá. Em 2012, na véspera do Dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, a escultura teve as duas mãos arrancadas.  Em março de 2014, arrancaram-lhe o braço esquerdo. Já no dia da orixá, em 2015, danificaram a estátua no pescoço e parte do busto. A Polícia não definiu se esse ataque foi a tiros ou pedradas.
 
Em junho de 2018, os vândalos arrancaram mais uma vez o braço direito. Em 2019 a Secretaria de Cultura de Natal (Funcarte) decidiu remover a estátua do local e substituir pela atual que foi inaugurada no dia da deusa, em 2020. O trabalho custou R$ 18 mil, mas recebeu fortes críticas nas redes sociais sobre os traços fortes do rosto, fazendo com que a escultura fosse considerada esteticamente “feia”, em comparação com a antiga. A reação do público fez com que o escultor Emanoel Câmara fizesse ajustes para suavizar as expressões da deusa.
 
A estátua, feita de pedra calcária, tem 3,5 metros de altura e pesa quase 4 toneladas.
10
Fev22

Usar ‘liberdade de expressão’ para justificar ideias nazistas revela ignorância jurídica, dizem analistas

Talis Andrade

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Especialistas ouvidos pela RFI dizem que polêmica gerada por podcast de Monark revela falta de conhecimento sobre a crueldade da ideologia nazista e a legislação brasileira e expõe o discurso que prega a liberdade total em nome da democracia, atropelando pilares constitucionais, como a dignidade humana.

 

por Raquel Miura/RFI 

Evocar a liberdade de expressão para defender partidos ou ideias nazistas revela total desconhecimento da legislação brasileira, como também mostra a frágil memória histórica em torno da crueldade do regime alemão de Adolf Hitler. A opinião é de analistas ouvidos pela RFI, que destacaram o crescimento de grupos de extrema direita no país que justamente se apropriam dessa narrativa para expor opiniões racistas.Uma grande foto de Adolf Hitler, uma bandeira com a suástica e a frase "Alemanha acorda", um uniforme e outros objetos com símbolos nazistas encontrados na casa de um homem acusado de estuprar uma menor, no Rio de Janeiro, em 6 de outubro de 2021.

A polêmica veio à tona após as repercussões em torno de um debate conduzido por Bruno Aiub, conhecido como Monark, no programa de podcast Flow na última segunda-feira (7), em que ele defendeu a criação de um partido nazista no país e o deputado federal Kim Kataguiri disse ter sido um erro criminalizar o nazismo depois da Segunda Guerra.

Os dois disseram que foram mal interpretados. "O que eu defendo, e acredito que o Monark também defenda, é que por mais absurdo, idiota, antidemocrático, bizarro, tosco o que o sujeito defenda, isso não deve ser crime porque a melhor maneira de você reprimir uma ideia antidemocrática, tosca, bizarra, discriminatória é você dando luz àquela ideia, pra que aquela ideia seja rechaçada socialmente", afirmou Kataguiri numa rede social.

Mas para Robson Sávio, doutor em Ciências Sociais e professor da PUC Minas, “a legislação brasileira é clara, não se pode associar a liberdade de expressão quando tais liberdades vão contra princípios basilares da sociedade, especialmente cláusulas pétreas como a dignidade humana. Há um discurso enviesado de liberdade como se isso desse guarida a falar e fazer qualquer coisa sem controle, sem responsabilidade”.

Para ele toda a polêmica traz um aprendizado que precisa ser levado em conta. “Para que a sociedade discuta e veja quais são os pilares que precisam ser mantidos, que devem ser respeitados e reafirme que não pode haver exceção para discursos extremistas em nome da liberdade de expressão. Uma sociedade precisa ter memória histórica, não podemos esquecer o que foi o nazismo. Não podemos esquecer o que foi a escravidão para jamais repetirmos”.

 

“Partido nazista”

Monark, que falou de partido nazista no Brasil, disse que sua frase foi retirada de contexto e pediu desculpas, afirmando que estava bêbado e que o nazismo é abominável. O procurador-geral da República, Augusto Aras, abriu investigação para apurar se houve apologia ao nazismo nessas declarações.

“Nossa tradição jurídica não permite a criação de partidos nazistas ou neonazistas porque eles têm como ponto basilar a desigualdade entre as pessoas, pregando a existência de um grupo superior e de grupos inferiores. Isso por si fere nossas leis. Um partido que tenha essas ideias é inviável no regime democrático brasileiro. Então não há como esse tipo de ideologia ter abrigo em nossa Constituição”, afirmou Nelson Gonçalves Gomes, professor aposentado de filosofia da Universidade de Brasília.

 

Sites neonazistas

Em 2021, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da Safernet, ONG que monitora e denuncia violação de direitos humanos na internet, recebeu e processou 14.476 denúncias anônimas de neonazismo na rede. O número é 60,7% maior que as 9004 denúncias registradas em 2020, que já haviam representado um salto de mais de 700% na comparação com o ano anterior.

No ano passado foram 894 páginas de diferentes fontes da internet diferentes com ataques de cunho nazista. Desse total de páginas, 318 já foram tiradas do ar por ordem de autoridades. 

O limite entre liberdade de expressão e apologia ao crime encontra até mesmo na Alemanha de hoje momentos de tensão. Considerado um país exemplar ao reconhecer os erros da Segunda Guerra e implementar medidas de reparação aos judeus, a Alemanha proibiu o nazismo após a queda de Hitler, mas se em meio a um intenso debate quando a Suprema Corte reconheceu um partido de matriz neonazista.

“Recentemente, o partido de extrema direita, declaradamente neonazista, o Partido Nacional Democrático da Alemanha, foi questionado na justiça. A Suprema Corte Alemã, embora tenha assumido que o partido tenha finalidades antidemocráticas, pasme você!, manteve sua constituição porque, na prática, de acordo com a corte, ele não teria força para alcançar seus objetivos. Talvez a Alemanha esteja, novamente, chocando ovo da serpente e esperando que nasça um pombo da paz. Claro que discordo e acho profundamente perigoso. Essa constatação parece contraditória ao fato de que o partido nazista foi proibido na Alemanha no pós-Guerra”, disse à RFI Clarita Maia, doutora em Direito e presidente da Comissão de Relações Internacionais da OABDF.

Para Maia, a polêmica envolvendo o podcast de Monark mostra que além da discussão em torno do que é liberdade de expressão existe um abismo de informações e conhecimento que, pelo avanço das redes sociais e internet, dá microfone a opiniões carentes de bagagem histórica. “As confusões conceituais do apresentador Monark, a não compreensão da total dimensão do conceito do nazismo e suas implicações, são retrato fiel da falta de conhecimento generalizada sobre o tema. Nesse sentido, o que devemos extrair, proativamente, do havido é a necessidade de maior educação sobre o fascismo e o nazismo e o Holocausto”.

O professor da UnB Nelson Gonçalves lamenta que situações como essa sejam frequentes hoje em dia. “No Brasil os debates têm sido ideológicos, as pessoas não pensam sobre o que estão falando, falam sem ter base, sem ter conhecimento daquilo. E aí dizem coisas que não deveriam falar e depois tentam se desculpar”.

O episódio, na opinião dos analistas, reforça a ideia de que nem tudo se pode fazer em nome da liberdade. “O conceito do livre mercado de ideias seria o desenvolvimento da liberdade de expressão na sua máxima extensão: deixemos todos os tipos de ideologia serem vocalizadas e a boa razão, naturalmente, rechaçará aquelas que não estiverem de acordo com a ética coletiva, as absurdas, e fará vitoriosas as que atendam aos critérios de justiça, as razoáveis. Embora falaciosa e muito combatida, é uma tese que não está totalmente vencida. Ela pressupõe atores políticos com o mesmo nível de instrução, mesmas competências cognitivas, com as mesmas informações para o debate, sem agendas ocultas e o mesmo compromisso com a verdade. Isso não é realista”, afirmou Clarita Maia.

“Não apenas há um nível imenso de analfabetismo no mundo, como analfabetismo funcional, analfabetismo político, sequestro ideológico nos debates pretensamente neutros, como humores de toda sorte. Mais ainda, vivemos a realidade das fakenews, do deepfake, do bombardeio de informações (que fazem todos informados na superficialidade e desinformados na profundidade). O livre mercado de ideias, no dia de hoje, é tudo, mesmo organizado e tão instrutivo quanto queremos que seja, ao modelo de uma praça ou ágora grega”, concluiu.ImageImageImageImage

Grupos neonazistas

Especialistas chamam a atenção para o crescimento de grupos informais de ultra direita, que se autodenominam como neonazistas. “Esses grupos têm ganhado força nos últimos anos no mundo todo, inclusive no Brasil, e com destaque para os Estados Unidos. Surgem onde há liberdade. Em geral são muito violentos”, disse o Nelson Gonçalves.

Não é de hoje a presença no país de pessoas ligadas à ideologia propagada por Hitler. Porém é visível que hoje eles têm uma atuação mais evidente na sociedade. “O Brasil tem uma longa tradição de grupos nazistas. Durante a década de 1940 vieram nazistas para cá e, mesmo minoritários ou informais, sempre estiveram presentes de alguma forma na política brasileira. Mas na última década e nos últimos anos, com o recrudescimento da direita global, os grupos neonazistas se espalharam e se sentiram mais à vontade”, afirmou Robson Sávio.

“Há pesquisas que mostram inclusive que eles se beneficiam desse afrouxamento nas leis sobre armamento. Eles se organizaram mais e espraiaram pelo país, criando novas cédulas e tem se apresentado mais publicamente com menos temor, com opiniões e mesmo ações, como foi o atentado ao grupo Porta dos Fundos e atos especialmente contra pessoas LBGTBI+”, completou o analista da PUC Minas.

O peso que o governo Bolsonaro tem no aumento desses grupos não é consenso entre os especialistas. Para Robson Savio, “um governo de extrema direita como esse do Brasil hoje favorece o fortalecimento desses grupos, que se sentem mais à vontade para agir”. Já para Gonçalves, da UnB, “é um fenômeno global, complicado então apontar causas locais. Acredito que esses grupos apoiem o Bolsonaro, mas é difícil precisar a influência do governo no crescimento desses grupos”, afirmou.

No entanto, pesquisas reconhecidas internacionalmente como as da antropóloga brasileira Adriana Dias, que se dedica a pesquisar o neonazismo no Brasil desde 2002, demonstram claramente a ligação entre Bolsonaro e os grupos neonazistas brasileiros desde 2004. 

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04
Dez21

Bolsonaro no espelho de Hitler

Talis Andrade

Max Beckmann, The Night, 1918–19.
 

Por Luiz Marques /A Terra É Redonda 

 

Mito bolsonarista equivale ao Führer hitlerista

Bolsonaro alarga o conceito de raça, ao abrigar sob a marquise do racismo os negros, a misoginia contra a mulher, a lgbtfobia contra a autonomia das sexualidades, o estigma social contra os pobres e imigrantes e a discriminação contra manifestações que confrontam o fundamentalismo católico ou evangélico. Embora seja inaceitável, compreende-se que o pária abjeto tenha destruído os avanços institucionais do Estado, reconhecidos pelos governos progressistas. Hitler substituiu a luta de classes pela antissemita luta de raças e, ao escrever Mein Kampf, na prisão, delineou um movimento que assumiu a forma radical de uma cosmovisão alternativa ao social-bolchevismo.

Mito bolsonarista equivale ao Führer hitlerista, sinônimo de “verdade” na interpretação de Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo. Em ambos os casos, a função e o encarregado se confundem. As duas personalidades são representativas de um irracionalismo de raiz. A potência na configuração dos respectivos líderes extraiu a aura carismática das entranhas de um mal-estar sociocultural.

No Brasil, ao mesclar o ressentimento imaginário da classe média por – aparentemente – descer na hierarquia social, em função das políticas de promoção social que possibilitaram a uma dependente de empregada doméstica estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), como no filme Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert. Situação agravada pela subjetivação das pesadas estruturas remanescentes da sociedade colonial-escravista na consciência dos setores privilegiados. Na Alemanha, ao mesclar o ressentimento após a Primeira Guerra dada a derrota seguida da paz humilhante com a tendência totalitária para uma sociedade holística. O Terceiro Reich não confirmou um destino. Aprofundou o antidemocratismo preexistente.

André Singer alerta para o cuidado com “analogias entre épocas”, pois “precisam ser tomadas cum grano salis”. Com a justa ressalva, comparou a mobilização comemorativa da Independência aquém-mar com a Marcha sobre Roma, organizada para pressionar com sucesso o rei Vittorio Emanuele a nomear Il Dulce primeiro-ministro da Itália. O enfoque, em tela, coteja a experiência do Nationalsozialische Deutsche. O fracasso do Sete de Setembro em Brasília reatualiza o putsch de Munique. Que as similitudes cessem por aí. Não raro, tragédias debutam com fiascos no teatro político.

 

Uma Weltanschauung pré-moderna

A concepção da extrema-direita, hoje como ontem, remete a uma Weltanschauung pré-moderna. Ver, a propósito, o excelente livro de Benjamin Teitelbaum, Guerra da Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista (Unicamp). Quatro estágios associados à dominação de castas demarcariam os ciclos da humanidade: 1) Na idade grandiosa, prevaleceriam os arianos de espírito; 2) Na sequência, os guerreiros do movimento de restauração; 3) Abaixo, destes, os agentes de negócios qual os comerciantes e; 4) Na rapa do tacho, os corpos programados para o trabalho manual, cuja expressão política residiria nos sistemas da democracia liberal e do socialismo. Sistemas que acenam a uma sociabilidade pró-igualdade, formal e/ou material.

O Tradicionalismo é uma herança dos valores medievais da honra e da fidelidade presentes nas Cruzadas cristãs dos séculos XI a XIII, que saíam da Europa em direção à Terra Santa e à Jerusalém para conquistá-las, manu militari. O indisciplinado capitão burla as normas procedimentais para matricular a filha (sem concurso) no suposto farol do civismo, o Colégio Militar, “a certeza que podemos sonhar com dias melhores”. Enquanto o medíocre artista que teve rejeitada duas vezes a inscrição na Academia de Belas Artes, de Viena, tinha no Exército a “Escola da nação”. Alavanca para fazer da condenação do Tratado de Versalhes a antessala de uma doutrina de superioridade para instalar um “império expansionista”, com traços do medievo. O paralelo revela o semelhante desejo de disciplina, camaradagem de caserna e armas, e um patriotismo polissêmico que, se na América Latina neoliberal é entreguista, na Europa foi beligerante in extremis.

“Nesse combate, os mais fortes e os mais hábeis levam a melhor sobre os mais fracos e os mais ineptos. A luta é a mãe de todas as coisas. Não é em virtude dos princípios de humanidade que o homem pode viver ou manter-se acima do mundo animal, mas unicamente pela luta mais brutal”. O extrato de Mein Kampf que ecoa Nietzsche é citado por Louis Dumont, em O individualismo (Rocco). De maneira apaixonada, para ouvir o demagogo da Barra da Tijuca destilar rancores, o espetáculo da multitude de bandeiras e camisetas verde-amarelas reencena os desfiles nazistas que estetizavam os eventos políticos e fundiam as pessoas na multidão, com passos de ganso.

Já o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” aponta para um nacionalismo com a inflexão do neoliberalismo, de fronteiras abertas ao livre comércio. E para um Estado antirrepublicano onde a soberania não decorre do povo, mas do viés fundamentalista de crenças confessionais. O pangermanismo racista, por sua vez, se exprimiu na consigna “nacional-socialista”, em que o último termo – então de múltiplos significados – indicava a “organização global das massas” sob a liderança da nação. Nada a ver com o socialismo marxista ou internacionalista, inclusive em contradição.

 

Os nomináveis porteiros do inferno

A própria “legalidade” está submetida ao mandamento da “luta mais brutal”. Não é um fim, senão um meio. Entre nós, vale lembrar as investidas que testam a Constituição: os ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF); o Orçamento secreto para a compra de votos no Congresso com recursos do Erário; o aparelhamento da Polícia Federal; os insultos às Universidades federais; a interferência no conteúdo das provas do ENEM; o frustrado golpe para derrotar a democracia representativa; a desqualificação das autoridades sanitárias no caos pandêmico e; o paralelismo ministerial que alguns reputaram “legítimo”, num atestado de ignorância ou má-fé sobre os deveres de transparência dos atos dos governantes numa República. Há um método na construção da desordem.

Alhures, vide o incêndio do Reichstag no mês seguinte à posse na Chancelaria, que permitiu impor a clandestinidade aos comunistas e socialistas, em 1933. E, ainda, a “Noite dos Cristais” antissemítica posterior ao Acordo de Paz entre Reino Unido, França, Itália e Alemanha, assinado por Neville Chamberlain, Édouard Daladier, Benito Mussolini e Adolf Hitler, em 1938. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, o ditado ancestral traduz a estratégia do nazismo germânico. Ensaio e erro, alternados. “O problema de nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser”, lamenta Paul Valéry.

O genocídio está assentado na imunização de rebanho por meio da contaminação pelo coronavírus, e não pela vacinação. Obsessão que retardou os imunizantes. Ao invés de um inevitável desdobramento do bolsonarismo, pesou na criminosa decisão a personalidade de Bolsonaro que cultua a necropolítica desde os anos de chumbo do regime civil-militar. Não à toa, ao longo dos mandatos eletivos (profissão antes de vocação, na famiglia) homenageou covardes torturadores. O holocausto produzido em escala industrial nos campos de concentração, mais do que o desaguadouro do hitlerismo, foi obra da personalidade de Hitler que antecipara o morticínio macabro na sua autobiografia.

O antissemitismo de Hitler é racial. Fosse religioso, bastaria queimar as sinagogas e os centros de estudo e pesquisa da tribo de Judá. Terrores tidos por “mera tagarelice”. Racial, exigiu o extermínio dos seres com identidade judaica. O arco contemporâneo de inimigos, a saber, o marxismo, o capitalismo, as regras do jogo democrático e a mensagem pia para “repartir o pão” do cristianismo foram condensados no ódio ao judaísmo, para catalisar uma repulsa à Modernidade. A desvalia dos alemães retroalimentou a violência dirigida, com sarcasmo. Nas cerimônias do Yom Kippur, o Dia da Expiação entre os hebreus, o “bode expiatório” era apartado para transportar e distar os pecados. Agora os hebreus eram convertidos no animal que deveria aliviar a culpa dos demais.

 

Comunidade de raça e antipluralismo

Os bolsonaristas se consideram campeões do idealismo. Sem ironia, engolem em seco: a devastação da floresta amazônica; a invasão das terras indígenas; a disparada do preço da gasolina; a inflação; o desemprego; a precarização do trabalho; a fome; as fake news; a corrupção das “rachadinhas”; a incompetência; a prevaricação. Seu amor serviçal pelo clã familiar (a metonímica coletividade) imita o lema conferido às SS por Himmler: “Meine Ehre heisst Treue / Minha honra chama-se fidelidade”. A ex-ativista neofascista, Sara Winter, descreve o fanatismo da bolha: “Não tem mais como defender Bolsonaro. Mas se ele pedir para os bolsonaristas comerem merda, vão comer”.

Os nazistas também se julgavam idealistas puros, capazes dos maiores sacrifícios pela comunidade, diferente das elites econômicas – judeus e capitalistas, por definição, individualistas e materialistas à espera de recompensas pelos esforços despendidos. Na acepção dos arianos, os semitas se caracterizariam pelo “instinto de conservação do indivíduo” e o “egoísmo atomizado”. Contudo, seu gregarismo oportunista se dissolve longe das ameaças iminentes à sobrevivência individual. Pudera.

Os membros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE, Tropa de Elite) têm uma tatuagem no braço direito com uma caveira rodeada de louros como símbolo e a máxima “Força e Honra”. Faltou a Inteligência, que lástima. São autores de chacinas planejadas para atacar a pobreza e a miséria pela via da eliminação física de favelados, com ações eugênicas de limpeza étnico-racial em áreas da periferia. Votaram em uníssono no candidato que, na campanha presidencial, se notabilizou pela alegoria da “arminha” com dedos da mão em riste, em cenas nauseantes da propaganda eleitoral que mirava na cabeça dos Direitos Humanos. A caveira que evoca uma ameaça de morte na Cidade Maravilhosa faz alusão à farda das SS (Schutzstaffel / Tropas de Proteção) do nazismo.

“O país só vai melhorar fazendo o que a ditadura não fez, matando uns 30 mil. Se vão morrer inocentes, tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”, disparou Bolsonaro (1999). Anos depois, no palanque, ressignificou a meta: “Vamos fuzilar toda a petralhada” (2018). Foi além. Acabou conduzindo a óbito mais de 600 mil vítimas. Se a polícia desvendar o nome dos mandantes dos tiros milicianos em Marielle e Anderson, quiçá se descubra sob o “segredo de Polichinelo” os podres poderes. O antipluralismo homicida é a contraface da comunidade de raça. Não há Dr. Jekyll no cotejo, só Mr. Hyde.

 

A primazia do combate sobre a ideia

São inúmeras as intersecções do bolsonarismo com o hitlerismo, tipo o primado do “combate” sobre a “ideia”. E o “lugar de fala” dos seguidores, superior ao dos intelectuais responsáveis por teorias de legitimação do racismo e da eugenia. Os preconceitos propagados estão isolados de qualquer reflexão teórica. O secretário de Cultura defenestrado do desgoverno brasileiro podia resenhar Joseph Goebbels, o que não podia era dar pistas sobre os mestres do esgoto ideológico. Daí o guru Olavo de Carvalho não ser tratado como o argumento de autoridade, que é. Arthur de Gobineau, autor do influente Essai sur l’Inégalité des Races Humaines (1855), não estava na ponta da língua de todos os que aderiram com entusiasmo à suástica. A publicidade sobre os mentores provocaria uma onda de resistência negativa à manipulação das mentes e corações.

Cá e lá, os movimentos recusam a centralidade da economia na relação com a vontade política e a tese de que, aquela, engloba a esfera do político. O vendaval bolsonarista – para triunfar – fez uma aliança de ocasião com o teto de gastos, as privatizações e a retirada perversa de direitos sociais e trabalhistas. Mas, ao abjurar o dogma da austeridade fiscal com o calote de precatórios para financiar o Auxílio Brasil, cortou as unhas dos Chicago Boys no Ministério da Economia. O mercado achou que o populismo direitista aceitaria ser colonizado pelas finanças. Ledo engano. Seu compromisso primordial é com “o poder pelo poder”. O resto é secundário. A crise do liberalismo, na origem do fenômeno nazi, mostrara que a economia não era uma categoria independente do mando.

A esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores (PT) em particular são acusados de desfraldarem os preceitos do igualitarismo jacobino, como judeus o foram historicamente. Subjaz à especulação a “guerra de todos contra todos”, de Thomas Hobbes, que contabiliza a sociedade como um somatório de individualidades belicosas garroteadas por intermédio de um contrato social de dominação e subordinação. Se avaliarmos a possibilidade de constituir sujeitos coletivos (as classes sociais, o povo) a partir da identidade de interesses, em prol do bem comum na sociedade e da felicidade pública, não há por que especular fundadores seculares para os ideais igualitaristas – que a teologia cristã atribui a Jesus. Nem por que sobrevalorizar o individualismo como cartógrafo do mundo.

Os empiristas anglo-saxões satirizam o construto de “sujeitos coletivos” e de “consciência coletiva”. Perguntam quem viu tais fantasmagorias na rua. Uma maneira de eclipsar o processo civilizatório na criação de espaços para a sociabilidade, sem riscos à integridade. O temor da coerção estatal e os hábitos adquiridos são reguladores de conduta. Muitos são os exemplos de comunidades culturais, alicerçadas na interatividade dialógica e em valores transversais. Para o bem, ilustra o Quilombo de Palmares. Para o mal, ilustra o assassinato em massa ocorrido na seita do reverendo Jim Jones, na Guiana.

 

Bolsonaro e Hitler, réus na história

Bolsonaro e Hitler habitam o memorial dos monstros – pelo genocídio; o holocausto; o anti-humanismo; a multiplicidade de racismos; o negacionismo; a fusão de milícias com o Estado; a destruição sócio-ambiental; a corrupção da democracia; o fundamentalismo totalitarista; o controle das escolhas privadas; o obscurantismo contra o conhecimento e a ciência; a censura ao pensamento, à cultura e às artes; a destruição da igualdade e das liberdades; o cometimento da justiça facciosa de toga; a barbarização da sociedade. Hora de retirar o espelho da maldade, pendurado no título do artigo.

Durante a Segunda Guerra, corria uma piada entre o povo alemão que – adaptada aos novos tempos sombrios – seria assim. Hitler, Goebbels e Goering juntos com Bolsonaro, Guedes, Damares e Moro, que chegou de gaiato no navio, estão num cruzeiro no oceano Atlântico. Numa tempestade, a embarcação de notáveis afunda. Quem se salva? A Alemanha e o Brasil. Nuvens plúmbeas cobrem o Palácio do Planalto.

 

22
Ago20

As raízes autoritárias, machistas e racistas de nossa sociedade que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro

Talis Andrade

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III - Governo Bolsonaro é "estado de golpe"

Giulia Afiune entrevista Lilia Schwarcz

 

Em “Brasil: uma biografia“, você fala de vários traços que definem o Brasil: o familismo (quando questões privadas se sobrepõem às públicas), o autoritarismo, o patrimonialismo. O Bolsonaro encarna muitos desses traços. Você acha que ele simboliza o Brasil?

Ele simboliza um certo Brasil. Eu sinto que minha geração falhou: eu sou de uma geração que acreditou que, depois da Constituição de 1988, esse era o nosso Brasil e agora era importante a gente investir na educação, investir na cultura, sanear a economia e por aí vamos. 

O que muitos analistas não viram é esse outro Brasil que é contrário às pautas identitárias, aos novos agentes – nisso eu me refiro às populações negras, às mulheres, à população LGBTQI+, aos ribeirinhos. Há um Brasil que acredita piamente na questão da hierarquia, do patrimonialismo, do familismo, ou seja, acredita na ideia de que a política se ganha nas urnas, mas também entre e nas famílias. Basta ver a quantidade de estados em que o familismo é vigente. Jair Bolsonaro representa sim um tipo de Brasil: que ficou na Revolução Militar, que faz um elogio ao golpe de Estado e aos anos de ditadura e que não concorda com esse Brasil mais plural e generoso.

 

Você estudou a história do D. Pedro II no livro “As barbas do Imperador“. Há semelhanças entre as grandes figuras da política brasileira com D. Pedro II? Existe algum arquétipo de líder que vive no imaginário brasileiro?

Sim, e eu acho que ele explica o Bolsonaro também. Os brasileiros carregam esse arquétipo de que o presidente não é igual a você: o presidente é um grande pai, e, como todo pai, ele é bondoso, mas também muito austero quando precisa. Basta a gente ver a figura do Getúlio Vargas, a figura de D.Pedro II, a figura que o Lula também foi construindo para si. E também a figura de Jair Bolsonaro, que é esse modelo de um pai muito autoritário, muito severo, mas ao mesmo tempo bondoso. Veja como ele está se vinculando ao Bolsa Família, como ele está tentando recriar um projeto nessas bases para 2022. Eu acredito que sim, é um arquétipo do pai, e não da mãe. A gente viu a quantidade de preconceito e discriminação contra a Dilma Rousseff. A ideia de que as mulheres são fracas, que gaguejam. É impressionante como esses discursos são particularmente violentos contra as mulheres. 

 

Por que a grande maioria dos governantes no Brasil continua sendo homens brancos, ricos, e conservadores, sendo que o povo brasileiro é muito mais diverso que isso? É claro que esse “grupo” detém muitos dos recursos financeiros e políticos para ganhar uma eleição e se manter no poder. Mas porque não votamos em quem realmente nos representa?

Existem vários elementos. O primeiro elemento é esse que já falamos, do arquétipo do pai. Outra questão fundamental que eu trato no livro é o machismo que reina na sociedade brasileira, a ideia de que são os homens que devem governar. Quando Heloísa Starling e eu publicamos “Brasil: Uma biografia“, mais de um jornalista falou, “como você se sente, enquanto mulher, escrevendo uma história do Brasil?”. Eu adoro o historiador Boris Fausto, é o meu mestre querido, mas eu duvido que tenham perguntado pra ele: “como você se sente como homem escrevendo uma história do Brasil?” Quer dizer, isso é um machismo atroz, a ideia de que quem pode dar uma grande interpretação ou ser o presidente do país, não pode ser uma mulher, tem que ser um homem.

Há também a questão do nosso pensamento colonial, ou seja, nossa história é eminentemente branca, europeia e masculina. A maior parte dos nossos personagens públicos são homens. Isabel é filha de D.Pedro II, a sua identidade vem do fato de ser filha. 

E tem uma questão que é preciso discutir, que é a questão da branquitude. A gente fala muito de racismo, mas é como no discurso do Vieira: falar do pássaro e não falar da sombra, ou seja, é preciso falar dos dois. É preciso falar do racismo, mas é preciso falar de quem produz o racismo, que é essa sociedade branca, é a branquitude.

Nós naturalizamos o homem branco de classe média alta ou rico como o nosso presidente por causa da união de todos esses elementos.

 

Você enfrentou fortes críticas na semana passada depois da publicação do seu texto na Folha sobre a nova obra da Beyoncé, “Black is King”. Você poderia explicar melhor qual foi a sua crítica à obra e quais foram os pontos positivos que você observou?

Eu gosto muito da Beyoncé, não é a primeira vez que eu escrevo sobre ela. O que era muito positivo era o fato da Beyoncé pegar uma história clássica do Ocidente, Hamlet, e ler essa história a partir das realidades negras. Ou seja, o que seria traição, o que seria ético, dentro de uma história negra, que é profundamente diversa. Há um grande elogio a essa questão.

Por outro lado, ao final, há uma crítica aos essencialismos, que também está sendo feita nos Estados Unidos e em outros lugares. Ou seja, se nós somos contra essencializar a história ocidental, há de se perguntar, pelo menos, se é importante essencializar a história africana. Mas eu eu concordo que essa crítica não foi bem feita – como disse no meu vídeo de desculpas de forma absolutamente sincera. Eu não deveria ter aceitado fazer um artigo tão rápido, eu não sou jornalista, não tenho a capacidade de escrever rápido, tudo na minha vida demora, cada livro demora uns 9, 10 anos. São todas culpas minhas.

As críticas que eu gostei e que me fizeram pensar, me chamaram bastante atenção sobre o afrofuturismo: como você pode imaginar uma outra possibilidade, uma outra literatura, uma outra cultura e inverte dessa maneira também. Essas foram as críticas procedentes e eu acho que há um diálogo que pode ser feito.

Mas, eu repito que eu não imaginava essa reação. Teve também a questão de ter sido prejudicada pelo título, a própria ombudsman da Folha reconheceu que há uma discrepância entre o título e o que eu digo no texto. No artigo eu não fico dando lição de moral, e nem digo que a Beyoncé erra, como sugere o título. São termos e truques que o editor colocou para atrair o leitor. Não é que eu queira me valer do erro da Folha, mas eu acho que a Folha também deveria pegar para si, como fez agora, a parte que é dela. Eu quero viver em um país que a gente pode errar e sair melhor do erro, e foi isso que eu tentei fazer naquele momento.

É claro que a gente lamenta aquele diálogo que não foi bom e que foi mais violento, à sua maneira muito autoritário. Mas eu tentei da minha parte ver qual era o meu lugar naquele latifúndio. Eu acho que se o racismo é, de fato, estrutural, todos estão sujeitos a ele e todo mundo tem que lidar com essa parte da questão da sociabilidade brasileira. (Continua)

 

 

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