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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Jul21

Os Supranuméricos

Talis Andrade

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Por Ângela Maria Konrath

 

“Metade da humanidade não come, e a outra metade não dorme com medo da que não come”. Josué Apolônio de Castro, citado em Geografia da fome.

 

Marilena Chauí apresenta o livro de Paul Lafarge, intitulado O direito à preguiça, com a seguinte indagação: “como e quando o horror pelo trabalho transformou-se no seu contrário? (…) Quando e por que se passou ao elogio do trabalho como virtude e se viu no elogio do ócio o convite ao vício, impondo-se negá-lo pelo neg-ócio?”. 

A construção valorativa do trabalho está atrelada aos ciclos econômicos da história e passou, ao menos, pelos estágios da sociedade escravista para o regime de servidão feudal, contando com a presença das/os artesãs/os e suas corporações de ofício, avançando para as locações de mão de obra (empreitada) para, finalmente, chegar ao trabalho livre da sociedade salarial.

As modificações introduzidas no mundo do trabalho desde a Revolução Industrial se intensificaram nas quatro últimas décadas, quando o capitalismo assumiu sua nova forma de atuação internacionalizada e emancipada da economia real, na busca do lucro pelo lucro, provocando o aprofundamento da flexibilização e a desregulamentação normativa, acentuando a informalidade nas contratações e imprimindo a heterogeneização das relações de trabalho, com a ampliação desmedida das terceirizações.

Com isso, deu-se a descentralização e fragmentação dos processos de negociação coletiva, enfraquecendo as formas de reação da luta sindical e reduzindo a bandeira reivindicatória a apena uma: o emprego.

A pandemia causada pelo CORONAVÍRUS – COVID 19, além das milhares de vidas ceifadas pelo mundo e incontáveis pessoas vitimadas pelo vírus, abalou todas as economias do planeta, afetando substancialmente o modo de vida da generalidade das pessoas em todas as comunidades humanas, pelo isolamento e distanciamento sociais impostos.

A doença, a morte, o isolamento social, o distanciamento social e a queda na economia fulminaram a renda e o trabalho das pessoas, disseminando a pobreza e atingindo, de forma contundente, as/os trabalhadoras/es de baixa renda de todo o país.

Além disso, a pandemia acelerou o incremento de tecnologias que vinham avançando na última década, na chamada Revolução 4.0, merecendo destaque a disseminação do trabalho por plataformas digitais e a aceleração do trabalho remoto, que antes do fetiche de poder ser realizado em qualquer lugar, invade o asilo inviolável da/o trabalhadora/r.

Nessa dinâmica precarizante e de revolução tecnológica, a classe trabalhadora perde seu lugar de pertencimento através do trabalho ou do exercício de uma profissão de vida inteira: as relações de emprego passam a ser marcadamente efêmeras, instáveis, incapazes de laços de reconhecimento e solidariedade, realizada a distância. Com isso, vem o isolamento do sujeito trabalhador, que já não se insere no espaço público de construção de um objetivo em comum.

O desemprego mostra uma nova face para além de sua invencibilidade, a saber: a expulsão do excedente do exército de reserva que não é mais necessário, não tem mais utilidade para o sistema nem como força de trabalho, nem como sujeito consumidor. 

São os supranuméricos, referidos por Robert Castel em As metamorfoses da questão social, a indicar urgência na reorientação das políticas públicas de emprego e renda mínima.

Todo esse cenário mostra o esgotamento do sistema capitalista em resposta aos anseios sociais, o que é agravado pelas crises cíclicas que assolam o sistema e se dão em paralelo com a crise política, a crise ecológica, a crise social e a crise humana.

Sabe-se que a lógica do pleno emprego consiste em um conjunto de políticas públicas para viabilizar a abertura de postos de trabalho. Essas políticas passam, necessariamente, pela inserção de todo o trabalho exercido profissionalmente na categoria de relação de emprego, referida por Adriana Goulart de Sena Orsini, no artigo O efeito expansionista do Direito do Trabalho frente a revolução 4.0 no Brasil, ou em alguma forma de proteção que contemple os direitos sociais reconhecidos no art. 7 da Constituição da República, , bem como pela redução drástica das horas de trabalho, em níveis adequados ao desenvolvimento científico e tecnológico contemporâneos. 

O desafio que a realidade coloca, para além da resistência à degradação do trabalho humano e resgate de seus sentido de trabalho vivo e ressignificado, é de avanço para uma nova visão de vida e trabalho, que ouse abandonar a retórica da luta pelo trabalho e passe a lutar pela distribuição dos resultados da genialidade humana por todas/os as/os integrantes da família humana que dependem do trabalho para obter seu sustento.

Propõe-se, nesta ótica, rever os conceitos de uma economia que clama pelo aquecimento, para analisar os impactos das atividades econômicas, industriais e do hiperconsumismo no meio ambiente, desde a afetação climática até a extinção de espécies, questões estas atravessadas pelo problema da pobreza.

A devastação do meio ambiente, o esgotamento dos recursos naturais e a dizimação de outras espécies, além da própria perda de valor da vida humana, resultam da busca de um crescimento econômico sem limites. Ora, a exploração desmedida de um planeta com recursos finitos quase sempre se dá sob a justificativa de falsas necessidades criadas para acumulação da riqueza.

Vale lembrar que na construção do eixo de subordinação jurídica foi subtraído da/o trabalhara/r a participação decisória sobre o que produzir, como produzir, por que produzir.

Assume-se aqui a necessidade de transposição de obstáculos criados para condicionar a ação reivindicatória a causas perdidas (o emprego) num mundo de expansão tecnológica que não requer mais tantos empregos, mas antes requer redução drástica da jornada e garantia de renda mínima a todas as pessoas que dependem do trabalho (e não o tem) para sobreviver.

Tempo livre. Salário justo. Participação política. Renda básica universal. Respeito aos limites da Pachamama.

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03
Dez19

O que é o 'Baile da 17', pancadão em Paraisópolis onde 9 jovens morreram pisoteados

Talis Andrade

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Leandro Machado
Da BBC News Brasil

Nove jovens morreram pisoteados durante uma ação da Polícia Militar no Baile da 17, uma festa de funk que costuma reunir milhares de jovens em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo. Entre eles, há quatro menores de idade, incluindo um adolescente de 14 anos.

Vídeos publicados na internet mostram alguns policiais agredindo com chutes e golpes de cassetete alguns jovens que estavam rendidos e desarmados em um beco — a BBC News Brasil não conseguiu confirmar a autenticidade dos vídeos de forma independente. Em entrevista a jornalistas, uma das frequentadoras, que não quis ser identificada, afirmou que um policial quebrou uma garrafa em sua cabeça, além de machucá-la com um cassetete.

Segundo a PM, havia cerca de 5 mil pessoas no Baile da 17 no momento da operação.

O Baile da 17 foi criado no início dessa década nas ruas de Paraisópolis. Segundo moradores, o número 17 é uma referência a um bar de drinks que existia na favela.
Inicialmente, a festa teria surgido como um pagode em frente a esse boteco, mas, nos intervalos, os frequentadores ouviam funk em carros estacionados na rua.
Com o tempo, a festa cresceu e invadiu as madrugadas, focando principalmente em funk. Hoje, ela costuma ocorrer nas noites de sexta e sábado. Mas, de acordo com moradores ouvidos pela BBC News Brasil, há semanas em que o pancadão começa na noite de quinta-feira e se estende até domingo.
A festa já chegou a reunir cerca de 30 mil pessoas nas vielas de Paraisópolis — ela se concentra em quatro ruas da favela. Semanalmente, o baile recebe excursões de jovens de cidades do interior de São Paulo e até de outros Estados, como o Rio de Janeiro.
Ao longo das vielas, DJ's estacionam carros com aparelhos de som acoplados. Grupos de jovens se reúnem no entorno desses veículos para dançar e se divertir.
O alto barulho, no entanto, fez com que moradores se mudassem da área, dando espaço para estabelecimentos comerciais voltados aos frequentadores, como tabacarias e bares. Parte do baile é bancado por esses comerciantes.

A BBC News Brasil conversou com um DJ de 20 anos que regularmente leva o carro ao baile. Ele diz receber R$ 500 de um comerciante para tocar por cinco horas seguidas em frente a um estabelecimento. "Mas tem DJ que chega a receber uns R$ 2 mil, dependendo do tempo em que ele toca e da potência do som", afirmou ele, que preferiu não se identificar.
O fenômeno dos pancadões de rua, como o Baile da 17, tem sido discutido nos últimos anos tanto pela prefeitura quanto pelo governo do Estado de São Paulo. Existem centenas deles em bairros pobres e com poucas opções de lazer para os jovens.

Por outro lado, há quem critique a ação repressiva da polícia, que muitas vezes interrompe os eventos com bombas e tiros, ferindo inocentes. No caso de Paraisópolis, por exemplo, houve 45 ações de repressão ao Baile da 17 apenas nesse ano, segundo a Polícia Militar.
Para Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, o pancadão é uma "alternativa de lazer" para jovens que têm poucas opções de divertimento em seus bairros.
"Não temos áreas de lazer em Paraisópolis. Temos um campo de futebol e hoje inauguramos uma praça. Ao invés do Estado proporcionar estruturas de lazer para o jovem, ele reprime por meio da polícia", diz.
Apesar da poluição sonora e o fechamento de vias da favela, o Baile da 17 não está entre as principais reclamações dos moradores da comunidade. Ele ocupa a 5º colocação nesse ranking, que é liderado pelos problemas no recolhimento do lixo, segundo uma pesquisa da União de Moradores e Comerciantes.


Paraisópolis

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Paraisópolis fica ao lado do Morumbi, bairro nobre na zona oeste de São Paulo.
Estima-se que a favela tenha cerca de 100 mil habitantes e 8 mil estabelecimentos comerciais — a maioria pertence a moradores. Cerca de 21% dos habitantes trabalham dentro da própria favela, segundo a associação de moradores.
Por outro lado, apesar do comércio aquecido e da fama adquirida com uma novela da TV Globo que usava suas vielas como cenário, a comunidade ainda tem uma série de problemas comuns a toda favela do Brasil, como pobreza extrema, falta de saneamento básico e violência.
Obras de urbanização estão paradas há anos, como canalização de um córrego e a construção de moradias sociais. Cerca de 5 mil famílias da comunidade vivem de bolsa-aluguel pagos pela prefeitura.
Nos últimos anos, a União de Moradores e Comerciantes criou uma série de projetos para tentar melhorar a vida no bairro, como um banco comunitário, restaurantes populares, escolas de balé e música para crianças.
Recentemente, Paraisópolis participou da criação do G-10 das favelas do Brasil, grupo que pretende desenvolver a economia local por meio do empreendedorismo. Transcrevi trechos  

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03
Dez19

Doria e o pancadão de Paraisópolis

Talis Andrade

doria paraisopolis chacina favela pancadao.jpeg

 

 

por Helena Chagas

Com pretensões presidenciais, o governador de São Paulo, João Doria, vem tentando se distinguir de Jair Bolsonaro e sua turma como uma opção conservadora mais palatável e civilizada. Uma direita limpinha e cheirosa, mais liberal nos costumes, politicamente correta em temas como o repúdio à ditadura e a defesa de valores democráticos. Mas Doria vive agora um teste decisivo com a ação troglodita da PM de São Paulo que resultou na morte de nove jovens num baile funk em Paraisópolis.

Todos os indícios — e não há como negar vídeos, esconder ferimentos e calar depoimentos — mostram que a operação Pancadão foi mais uma lamentável demonstração do retrocesso civilizatório que atingiu o país depois das eleições de 2018. A violência policial, os abusos das autoridades que têm a força e o desrespeito em relação a direitos humanos estão, aos poucos, sendo naturalizados. Discute-se o excludente de ilicitude — na verdade, uma licença policial para matar — como se fosse banalidade.

Não é. Mas a brutalidade, estimulada pelo poder público, passou a ser aceita por alguns, na ilusão de que ela só atinge os “bandidos” nas periferias, e que eles merecem. Nao é assim. Um dia, o seu filho pode estar no baile. E, se não houver um freio a essa onda por parte de quem foi eleito para governar para todos, um dia ela vai engoli-los também.

Doria cobrou investigações rigorosas e responsabilização dos culpados — o discurso praxe dos governantes nesses momentos. É muito pouco. A morte brutal dos jovens de Paraisópolis em razão da violência policial exige demissões, corte de cabeças e intervenção profunda na PM de São Paulo.

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