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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

26
Dez18

Marielle Franco nome de rua na Alemanha. No Brasil deputados machistas de Bolsonaro quebram placa

Talis Andrade

Ato de vandalismo ajudou a eleger o governador e deputados do PSL

 

placa marielle.jpg

 

 

Transcrevo do jornal O Globo:

Um vídeo gravado ao vivo, no domingo anterior à eleição, mostra Witzel junto com Daniel Silveira, eleito deputado federal pelo PSL, e Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do Rio, também pelo PSL, durante ato de campanha em Petrópolis, na Região Serrana.

No começo do vídeo, Witzel pede votos para Silveira e depois a câmera mostra o discurso de Amorim em cima do carro de som:

"Marielle foi assassinada. Mais de 60 mil brasileiros morrem todos os anos. Eu vou dar uma notícia para vocês. Esses vagabundos, eles foram na Cinelândia, e à revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa da Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, e botaram uma placa escrito Rua Marielle Franco. Eu e Daniel essa semana fomos lá e quebramos a placa. Jair Bolsonaro sofreu um atentado contra a democracia e esses canalhas calaram a boca. Por isso, a gente vai varrer esses vagabundos. Acabou Psol, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, p***", gritou Amorim pelo microfone.

marielle .png

 

 
Quero ver se esses covardes apologistas da execução de políticos esquerdistas e defensores do feminicídio vão quebrar as placas de rua com o nome de Marielle Franco mundo afora.
 
A vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março no Rio de Janeiro, foi homenageada com o nome de uma rua na cidade de Colônia na Alemanha. "Aqui no meu bairro na Alemanha uma mulher negra, brasileira, é homenageada. Obrigada, ela merece!" Essas são as palavras de Tamara Soliz em seu perfil nas redes sociais, comemorando. 
 
12 Poemas para Marielle Franco
 

quinho.jpg

Ilustração Quinho

DIREITAS
por Líria Porto

 

mulheres
mirem-se no espelho de amélias marcelas
carminhas
respaldem o grande
o rico homem branco
e nem pensem nas marielles nas beneditas
nas jandiras
estas devem ficar nas senzalas
caladas e debaixo de relho

(as que falem por pobres e pretos
silenciamos à bala)

 

Leia mais onze poemas aqui

 

 

 

22
Jul18

Lula, por Líria Porto

Talis Andrade

lula____brady_izquierdo_rodrguez.jpg

 



lula


quem não te quer presidente
os ricaços os ruralistas os banqueiros
os egoístas os privilegiados os entreguistas
os que desdenham a pátria
negociam até a alma
favorecem as elites
(daqui e de fora)


e os analfabetos políticos
que desconhecem a história
da exploração dos pobres
do massacre de que são vítimas


os trabalhadores os patriotas
estes estão contigo e te esperam
em brasília

 

Ilustração Brady Izquierdo Rodríguez

11
Jun17

A força gravitacional de Líria Porto – Cadela Prateada

Talis Andrade

 

 

 

cadela.jpg

 Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

 

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

 

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

 

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

 

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

 

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

 

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra

 


biografia

 

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis

 


adiamentos

 

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã

 


poder

 

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá

 


minguante

 

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

 

***

 

Cadela prateada
Líria Porto
Editora Penalux
2016

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