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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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26
Set21

Respeito ao jornalismo: a violência contra os jornalistas não pode ser naturalizada

Talis Andrade

PCDF diz que Wassef não cometeu assédio antes de briga em restaurante

Coiteiro Frederick Wassef prefere ameaçar jornalistas mulheres

 

por Ricardo José Torres /objETHOS

 

Erros, desacertos, problemas de apuração e da aplicação das técnicas jornalísticas. Os jornalistas podem receber críticas por uma série de ações que realizam ou deixam de realizar nas suas atividades cotidianas; no entanto, o posicionamento crítico em relação aos profissionais não pode ser confundido com ataques e desrespeito. O que estamos acompanhando há algum tempo é a naturalização da violência contra os jornalistas. As ações contra os profissionais e contra a atividade se manifestam de diferentes formas e causam inúmeros danos de ordem psicológica, moral e física.

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Casos recentes, como o da jornalista Juliana Dal Piva, que foi vítima do que classificamos de ataque digital, diante de ameaças realizadas por Frederick Wassef por meio do WhatsApp são exemplares. Os ataques pessoais buscaram intimidar a jornalista: “Faça lá o que você faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema político que você tanto ama faria com você. Lá na China você desapareceria e não iriam nem encontrar o seu corpo”. A mensagem que foi enviada no dia da divulgação do 4º episódio do podcast “UOL Investiga – A vida secreta de Jair” não é uma novidade para os jornalistas que atuam no Brasil.

O curso de Jornalismo da UFSC divulgou uma nota sobre o caso na qual lembra: “É premissa fundamental do Estado Democrático de Direito, no qual deve imperar o respeito à dignidade da pessoa humana, o livre exercício do jornalismo e a liberdade de expressão”. A nota ainda destaca: “É inadmissível, portanto, que seja atacada e ameaçada ao realizar seu trabalho, em um claro movimento de intimidação”. Alguns dos elementos presentes no texto da nota do curso de Jornalismo, do qual a profissional é egressa, nos lembram da necessidade de preservação da liberdade de atuação dos jornalistas em um contexto democrático e de respeito às prerrogativas da profissão.

Estas condições nos levam a outro caso recente tratado aqui no objETHOS pela mestra Tânia Giusti no comentário: A intimidação a Leandro Demori e o reflexo da nossa frágil democracia. O texto lembra que o jornalista Leandro Demori foi intimidado pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), após publicar informações sobre um possível grupo de matadores na Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), grupo especial de operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Esse grupo estaria envolvido no Massacre do Jacarezinho, que deixou 27 mortos no dia 6 de maio de 2021. “Demori, exercendo sua função social de cobrar autoridades, pedia no texto que o fato fosse investigado pela PC, após o número inadmissível de letalidade das operações realizadas em comunidades vulneráveis”. O profissional foi acusado de cometer calúnia contra a Polícia Civil.

O cenário de violência e perseguição contra os jornalistas foi ratificado pelo relatório “Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil” da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) de 2020. Conforme o documento, o ano de 2020 foi o mais violento para os jornalistas brasileiros, desde o início (em 1990) da série histórica dos registros dos ataques à liberdade de imprensa. Em 2020 foram registrados 428 casos de violência; este número é 105,77% acima do número de casos registrados (208) em 2019.

O relatório registrou duas mortes de profissionais, o que representa mais um indicativo de que há insegurança para o exercício da profissão no Brasil. Os dois assassinatos são exemplos de situações de riscos contextuais encontrados no país. De acordo com o documento, Léo Veras foi morto na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, que faz divisa com Ponta Porã, onde atuava na cobertura de casos relacionados ao crime organizado na fronteira. O jornalista Edney Menezes foi assassinado em Peixoto de Azevedo, município do interior de Mato Grosso.

Os casos são a materialização das ameaças recorrentes realizadas por grupos de ódio, milícias e crime organizado local. O crescimento progressivo da violência envolve casos de censura, agressões verbais, ataques virtuais, entre outros. A perseguição por grupos de ódio e a consequente devassa da vida pessoal dos profissionais é um aspecto que chama atenção no contexto atual da atividade jornalística. Convivemos diuturnamente com ataques e ameaças que buscam promover a modulação pelo medo.

Esta é uma estratégia sorrateira que se inicia no receio, no incômodo, no desconforto e pode acabar na anulação pela ausência da ação dos jornalistas. Em tempos de “lacração” os ataques são armadilhas que desestruturam a democracia de dentro para fora.  Ao colocar a informação jornalística em uma posição de vulnerabilidade, grupos digitais atuam na estruturação de ambientes de informação fomentados por estratégias obscuras de convencimento. Nestas condições, a atividade jornalística é dilacerada por simulacros que promovem ignorância e desinformação.

Liberdade para exercer o jornalismo

No Brasil, está se tornando natural jornalistas serem agredidos por populares nas ruas e no ambiente virtual. Mídias sociais e aplicativos de mensagens tornaram-se armas de destruição de reputações e arenas para agressões e ameaças. Este contexto hostil é perpassado pela possibilidade de utilização de ferramentas de vigilância das comunicações.

Em julho de 2021, um novo caso de intrusão comunicacional trouxe à tona esta forma de cerceamento e restrição da liberdade jornalística. De acordo com matéria divulgada pela BBC Brasil: “O mais recente escândalo de espionagem e roubo de dados foi revelado em investigações feitas pela ONG Forbidden Stories, com sede em Paris, e pelo grupo de direitos humanos Anistia Internacional. As denúncias sobre o uso do software, conhecido como Pegasus, foram divulgadas no domingo pelos jornais Washington Post, The Guardian, Le Monde e 14 outras organizações de mídia ao redor do mundo”. A utilização do malware Pegasus, produzido pela empresa israelense NSO Group, contra jornalistas é uma ação recorrente.

Práticas de intrusão comunicacional são ações inerentes aos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de informação, o que a Repórteres sem Fronteiras (RSF) classifica de “predadores da liberdade de imprensa”. Na liderança deste grupo estão regimes autoritários que adquiriram e continuam abastecendo-se com tecnologia que lhes permite traçar o mínimo ato ou gesto de jornalistas investigativos. O Pegasus possibilita acesso remoto aos telefones a partir de links que expõem o sistema operacional dos dispositivos, tendo grande capacidade invasiva, praticamente irrestrita, e em tempo real.

Em 19 maio de 2021, o portal UOL divulgou a matéria: “Carlos Bolsonaro intervém em compra de aparelho espião e cria crise militar”, sendo que a reportagem informa que o vereador Carlos Bolsonaro, teria participado de negociações para que a NSO Group participasse de uma licitação do Ministério da Justiça para compra do sistema. Conforme a reportagem, o envolvimento do vereador teria gerado insatisfação em militares do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Agência Nacional de Inteligência (Abin), já que o tema estaria fora da sua alçada. Na ocasião, o vereador negou que tivesse articulado qualquer negociação.

A NSO nega qualquer irregularidade e assegura que seus produtos são vendidos exclusivamente para governos e operacionalizados por agências governamentais autorizadas. Nos últimos anos, diversos casos de intrusão, armazenamento e manipulação de dados pessoais de jornalistas foram registrados em diferentes partes do mundo por inúmeros relatórios produzidos por organizações não governamentais nacionais e internacionais.

Neste cenário de intrusão, as restrições podem se tornar regras e o silêncio se tornar rotina. O silêncio está na essência da ação de repressão e perseguição, é a sombra que alimenta a violência.

As notas de repúdio são um expediente que demonstra desacordo e evidencia condutas nocivas. No entanto, carecemos de medidas práticas, ações que possam engajar a sociedade na defesa da atividade jornalística. O respeito pelo jornalismo deve estar no horizonte de todos os cidadãos. Os profissionais precisam reagir a esse cenário nocivo sob pena de não haver mais tempo para reação; precisamos exigir respeito ao jornalismo.

Referências

BBC Brasil – Pegasus: o que é o sistema que espionou jornalistas, ativistas e advogados. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57885795. Acesso em 24/07/2021.

Christofoletti, R., & Torres, R. J. (2018). Jornalistas expostos e vulneráveis: ataques digitais como modalidade de risco profissional. Revista FAMECOS, 25(3), ID29210. https://doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.29210.

FENAJ. Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil 2020. Disponível em: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2021/01/relatorio_fenaj_2020.pdf. Acesso em: 24/07/2021.

Giusti, Tânia. A intimidação a Leandro Demori e o reflexo da nossa frágil democracia. Disponível em: https://objethos.wordpress.com/2021/06/21/a-intimidacao-a-leandro-demori-e-o-reflexo-da-nossa-fragil-democracia/. Acesso em: 24/07/2021.  

Jornalismo UFSC repudia ameaça do advogado Frederick Wassef à repórter investigativa Juliana Dal Piva. Disponível em: https://jornalismo.ufsc.br/jornalismo-ufsc-repudia-ameaca-do-advogado-frederick-wassef-a-reporter-investigativa-juliana-dal-piva/. Acesso em: 24/07/2021.

RSF. Pegasus: “uma ferramenta repugnante e sórdida apreciada por predadores da liberdade de imprensa”. Disponível em: https://rsf.org/pt/noticia/pegasus-uma-ferramenta-repugnante-e-sordida-apreciada-por-predadores-da-liberdade-de-imprensa. Acesso em: 24/07/2021. 

UOL. Advogado do presidente ataca colunista do UOL. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/juliana-dal-piva/2021/07/09/advogado-do-presidente-ataca-colunista-do-uol.htm. Acesso em: 24/07/2021.

UOL. Carlos Bolsonaro intervém em compra de aparelho espião e cria crise militar. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/05/19/briga-entre-militares-e-carlos-bolsonaro-racha-orgaos-de-inteligencia.htm. Acesso em: 24/07/2021.

15
Fev20

Escalada contra jornalistas ganha corpo com execução, ataque sexista e intimidação

Talis Andrade

Após morte na fronteira e operação contra jornalista, repórteres apurando caso Adriano da Nóbrega são detidos na Bahia. Entidade lista 38 casos de violação à liberdade de imprensa na regiãoLéo Veras, Valério Luiz, Patrícia Campos Mello e Glenn Greenwald.Léo Veras, Valério Luiz, Patrícia Campos Mello e Glenn Greenwald

Nesta semana, a execução do jornalista Léo Veras, na fronteira entre Brasil e Paraguai, reacendeu os temores de que a violência venha a cercear a atuação de mais profissionais da imprensa na América Latina. “Todo assassinato de jornalista é uma tentativa de calar o mensageiro, comprometendo a liberdade de imprensa”, manifestou-se a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ao cobrar apuração rigorosa sobre o caso. A entidade desenvolve um programa que financia a investigação de delitos contra jornalistas, já que, de acordo com levantamento do Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ), o Brasil é um dos 10 países com os maiores índices de impunidade nesse tipo de crime, em ranking encabeçado por Somália, Síria e Iraque.

MAIS INFORMAÇÕES

Segundo o mais recente estudo do CPJ, o Brasil acumula 15 casos de assassinatos de jornalistas não resolvidos ou julgados.

O de maior repercussão é a denúncia do Ministério Público Federal contra Glenn Greenwald, fundador do The Intercept, acusado de envolvimento na invasão de celulares de autoridades como o ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, da Operação Lava Jato. Para entidades como a ONG Anistia Internacional, a denúncia “representa uma escalada na ameaça à liberdade de imprensa no Brasil”.

Além da prisão e agressão dos fotojornalistas Rodrigo Zaim e Daniel Arroyo pela PM de São Paulo, durante a cobertura de protestos contra o aumento das passagens, o relatório ainda cita dois episódios protagonizados por Jair Bolsonaro, em que o presidente acusou —sem especificar o motivo— repórteres da Folha de S. PauloUOL e Globo de mentir. Chegou a qualificar jornalistas como “raça em extinção” no Brasil ao dizer que cancelou todas as assinaturas de publicações no Planalto, afirmando que “envenena a gente ler jornal”.

Na última terça-feira, um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, endossou a fala de Hans River do Rio, ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa, que em audiência na CPMI das Fake News acusou a repórter Patricia Campos Mello, da Folha, de ter sugerido um encontro sexual a troco de acesso a informações. Após a acusação, a jornalista divulgou as conversas que manteve com Hans, que não continham nenhuma insinuação de sexo, desmentindo o relato do depoente. No entanto, o deputado já havia divulgado vídeos da falsa denúncia, gatilho para uma campanha difamatória impulsionada por bolsonaristas contra Mello nas redes sociais, com montagens misóginas, ofensas e até ameaças direcionadas à repórter.

Em 2018, depois de publicar uma reportagem sobre a contratação de empresas para disparo ilegal de mensagens pelo Whatsapp, na última eleição presidencial, Mello já havia sido alvo de ataques parecidos e precisou bloquear suas contas em mídias sociais. Em apoio a Patricia Campos Mello, um grupo de mulheres e jornalistas assinou um manifesto cobrando providências da CPMI em relação aos propagadores da mentira. Entidades como a Abraji, Associação Brasileira de Imprensa e Instituto Vladimir Herzog divulgaram uma nota conjunta em solidariedade à repórter. “Em tempos de banalização do ódio e do absurdo, é preciso denunciar a estratégia de destruição de reputações e instituições. Os democratas deste país não podem observar calados à busca sistemática de degradação da reputação de jornalistas, adversários políticos, organizações da sociedade civil e todos os que façam críticas ao governo.”

Para denunciar intimidações a profissionais de imprensa, as jornalistas Anabela Paiva, Roberta Jansen e Cecília Olliveira criaram uma conta no Twitter que compila casos e oferece suporte às vítimas de linchamento virtual. Um dos episódios replicados esta semana envolve o apresentador André Rizek, do Sportv, ameaçado pelo empresário Will Dantas após criticar ao meia-atacante Pedrinho. “A minha vontade era encontrá-lo tête-à-tête e esfregar a cara desse baitola no asfalto. Ele não perde por esperar. Vai achando que você está blindado por trabalhar em um grande veículo de comunicação. Até os grandes capos caem”, publicou Dantas, que é agente do jogador do Corinthians, no dia seguinte à crítica de Rizek.

Nesta sexta-feira, assim como acontece na Turquia ou na Venezuela, o repórter Hugo Marques e o fotógrafo Cristiano Mariz, da revista Veja, foram detidos pela Polícia da Bahia quando tentavam localizar uma testemunha da ação policial que matou Adriano da Nóbrega, ex-capitão da PM próximo à família Bolsonaro. Eles foram abordados por policiais com armas em punho, revistados e conduzidos à delegacia, onde tiveram um gravador apreendido. Depois de prestar depoimento, acabaram liberados. A Secretaria da Segurança Pública informou que a prisão ocorreu após uma denúncia de moradores locais, que estranharam o carro ocupado pelos repórteres. No desfecho da ocorrência, o gravador foi devolvido.

Casos de homicídio de jornalistas com a Abraji

Entre os casos atualmente investigados pelo programa da Abraji está o de Jefferson Pureza, radialista assassinado no começo de 2018 em Edealina, sul de Goiás. No fim do ano passado, Leandro Cintra da Silva, dono de um lava jato na cidade, foi condenado a 14 anos de prisão pelo crime. Porém, o vereador José Eduardo Alves da Silva (PR) e o amigo Marcelo Rodrigues Santos, acusados de arquitetar o homicídio, acabaram absolvidos. O Ministério Público de Goiás recorre da decisão.

O julgamento relativamente rápido pela morte de Pureza foge às regras de crimes semelhantes contra jornalistas. Em 2012, também em Goiás, o comentarista esportivo Valério Luiz de Oliveira, de 49 anos, foi atingido à queima-roupa quando deixava a Rádio Jornal 820, região sul de Goiânia. Em um programa de TV, onde o jornalista também atuava, Valério criticou a diretoria do Atlético Goianiense e afirmou que “quando o barco está enchendo de água, os ratos são os primeiros a pular fora”. De acordo com a investigação policial, as recorrentes críticas do comunicador à cúpula atleticana teriam motivado o homicídio.

Indiciado como mandante da execução, o cartola Maurício Sampaio chegou a ficar detido por 94 dias, mas aguarda em liberdade o julgamento. O processo não impediu que vencesse uma eleição a presidente no Atlético. Após dezenas de recursos na Justiça, seu júri popular e de outros quatro acusados de participação no crime só foi marcado na última quarta-feira, para junho, oito anos depois do assassinato. “Meu pai era um jornalista de posições fortes, que morreu por confrontar dirigentes de futebol poderosos. O julgamento ocorrerá a despeito das resistências institucionais de anos e anos”, afirma Valério Luiz Filho. A defesa de Sampaio informa que ele diz ser inocente e rechaça ter ordenado a execução. [Transcrevi trechos]

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