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20
Jul23

Quando a democracia degenera em fascismo

Talis Andrade

 

 

Imagem: Kushnir
 

 

Deixando de lado o voto, o fascismo só pode ser detido por um movimento de massas, que o confronta diretamente

 

por Pete Dolack

Isso pode acontecer aqui. “Aqui” é qualquer país onde o capitalismo comanda. Quando uma democracia formal burguesa se transforma em fascismo? Essa é uma pergunta que precisa ser respondida tendo por referência muitos lugares, certamente sem a exceção dos Estados Unidos, que já experimentou uma tentativa de autogolpe com inconfundíveis conotações fascistas.

Estamos nos referindo à tentativa de autogolpe de Donald Trump, para usar a expressão latino-americana, em janeiro de 2021. Muitas pessoas, mesmo na esquerda, riem dos acontecimentos daquele dia, apontando que o pretenso golpe não teve chance de ser bem-sucedido. Não teve chance de sucesso. Isso não significa que deva ser descartado com desdém; pelo contrário, deve ser levado em conta com a maior seriedade. O golpe da cervejaria de Hitler, em 1923, também não teve chance de sucesso, e seu movimento violento permaneceu à margem, como lunático, por vários anos. Mas sabemos como foi a história alemã depois.

Não haverá comparação fácil entre os Estados Unidos contemporâneo com a Alemanha de Weimar. Não estamos vivendo nos tempos de Weimar. Não há camisas marrons organizadas correndo loucamente pelas ruas. Não há um militar profundamente hostil à democracia e pronto para agir com base nessa hostilidade, nem um número significativo de industriais financiando tropas de assalto. A história não se repete, como tragédia ou farsa, de forma organizada e certamente ela não precisa disso. No entanto, podemos tirar uma lição da história antes de fazer um balanço das condições políticas contemporâneas.

Um mito a ser dissipado é que Hitler foi eleito. Ele não foi. Ele recebeu o poder do presidente alemão, Paul von Hindenburg, que o nomeou como chanceler. Infelizmente, isso era completamente legal sob a constituição de Weimar. Ademais, foi o suficiente para o maior partido da oposição, os social-democratas, segurar as suas armas. Como se sabe, eles se recusaram a liberar sua milícia e se limitaram a dar uma ordem legal, a qual foi simplesmente destruída. O outro grande partido da oposição, os comunistas, declararam que “depois de Hitler, será a nossa vez”, um sentimento público que contrastava bastante com o fato de que os seus membros estavam sendo forçados a se esconder ou a se exilarem. Menosprezam até o fato de que os nazistas recém-empossados começaram a cercar membros do partido e a destruir seus escritórios.

Os líderes sindicais humildemente apoiaram Hitler depois que ele assumiu o poder, concordando em participar do que agora seria uma celebração do primeiro de maio, sob a liderança nazista. Dois dias depois daquele primeiro de maio, os nazistas começaram a prender líderes sindicais e a banir os sindicatos existentes; os social-democratas logo teriam o mesmo destino. Hitler levou apenas três meses para varrer toda a oposição e assumir o poder ditatorial. Com toda a oposição política varrida, as perseguições aos judeus, ciganos e às comunidades LGBT começaram com resultados que o mundo nunca deveria esquecer ou minimizar.

Por que Paul von Hindenburg promoveu Hitler a chanceler? Na última eleição antes da nomeação, em janeiro de 1933, o voto nazista na verdade havia diminuído em relação à votação anterior; o voto combinado de comunistas e social-democratas foi 1,5 milhão de votos a mais do que o voto nazista, que totalizou 33%, embora o voto combinado de esquerda tenha ficado um milhão a menos do voto combinado de nazistas e do Partido Nacional, o instrumento político restante da direita tradicional.

A maior parte do apoio aos tradicionais partidos de direita da Alemanha na década de 1920 foi transferida para os nazistas, que deram um salto gigantesco de 2,6% em maio de 1928 para 18% (segundo entre 10 partidos) em setembro de 1930. Hitler foi nomeando chanceler (o equivalente ao atual primeiro-ministro), mas foi dado aos nazistas apenas dois dos 10 cargos no gabinete. Infelizmente, um desses cargos era o do Ministério do Interior que controlava a polícia, permitindo que os nazistas inundassem a polícia com seus capangas de camisa marrom. Esse ministro do Interior, Wilhelm Frick, participou do golpe da cervejaria, mas não recebeu mais punição do que uma pena leve, depois suspensa. (continua)

 

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