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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

21
Dez21

Protesto cobra demissão de professor que se fantasiou com roupas da Ku Klux Klan em escola

Talis Andrade

 

Coletivos e estudantes convocaram ato em frente à escola pública na região do ABC nesta quarta-feira (22)

 
por Paulo Motoryn /Brasil de Fato 
 
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Uma manifestação convocada para quarta-feira (22) cobra a demissão de um professor que foi à uma escola pública em Santo André (SP) fantasiado com roupas que fazem referência à Ku Klux Klan, organização racista, antissemita, anticatólica e anticomunista fundada no século 19 no Sul dos Estados Unidos.

O ato reunirá estudantes e professores da Escola Estadual Amaral Vagner, no ABC, às 15 horas, além de coletivos e movimentos negros que atuam na região. "Não podemos permitir que a apologia à violência e ao racismo seja naturalizada e banalizada", dizem os organizadores.

Uma das pautas do protesto é a demissão do professor, que não foi identificado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Em nota, a pasta afirmou "que iniciou os trâmites para afastamento imediato do professor envolvido, que é efetivo, até o término da apuração".

A Diretoria de Ensino de Santo André formou uma comissão interracial para averiguar os fatos. O caso ganhou repercussão nas redes sociais nos últimos dias. Um vídeo mostra o professor caminhando pela escola, chamando a atenção dos alunos, que aparentemente estão em período de intervalo entre aulas.

::: Em Porto Alegre, manifestante se veste como Ku Klux Klan e é denunciado na polícia

O governo estadual afirmou ainda que "não admite qualquer forma de discriminação e injúria racial" e que "trabalha veemente na formação de toda a rede com a Trilha Antirracista, bem como atua na promoção de um ambiente solidário, colaborativo, acolhedor e seguro nas escolas".

Em reação, o deputado estadual Carlos Gianazzi (PSOL-SP) acionou a Secretaria de Educação para cobrar providências contra o que definiu como uma "cena racista e deplorável de um professor fantasiado com a roupa da Ku Klux Klan, dentro da EE Amaral Vagner".

A deputada estadual Professora Bebel (PT-SP), presidenta da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), e outros congressistas também se manifestaram nas redes sociais para cobrar providências contra o episódio.

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::: Artigo | Ku Klux Klan, Brilhante Ustra e Adolf Hitler: referências do bolsonarismo :::

 

Coletivos e movimentos ligados à pauta racial também se posicionaram sobre o caso. O Quilombo Dandara, coletivo que atua na região do Grande ABC, é um dos grupos que estão mobilizando apoio à manifestação desta quarta-feira.

Em abril deste ano, em Porto Alegre (RS), um manifestante também se vestiu como os integrantes da Ku Klux Klan em um ato de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na campanha eleitoral de 2018,  o historiador norte-americano David Duke, tido como porta-voz oficioso da Ku Klux Klan, manifestou sua simpatia pela candidatura de Bolsonaro, dizendo que “ele soa como nós”. 

A fala aconteceu no programa de rádio que Duke comanda e foi reproduzida pelo site da BBC. O então candidato do PSL, porém, rejeitou o apoio, argumentando curiosamente que Duke deveria apoiar “a esquerda” que “segrega”.

05
Dez21

Capital mais negra do Sul, Curitiba passou por branqueamento estratégico, aponta pesquisa

Talis Andrade
 

Pesquisa da geógrafa Glaucia Pereira mostra que, ao contrário do imaginário social que se criou de uma Curitiba branca e europeia, o número de pessoas declaradas negras (24%) é o maior entre as capitais sulistas

31
Out21

A máquina de moer esperança

Talis Andrade

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Parece começou 2022, a tortura do governo militar de Bolsonaro apressou a máquina de moer esperança, apressou o tempo dos nababos proprietários de partidos políticos faturarem grana para uma vida fácil, que se renova a cada dois anos, que temos bilionárias campanhas eleitorais nos anos pares. 

Temos empresários candidatos para sonegar impostos, esquentando notas frias, e coronéis que alugam legendas e vendem partidos inteiros nos pregões das pesquisas falsas.

2022, mais um ano de colheita, de meter a mão nos fundos partidários e eleitorais de mais de trinta partidos, que a justiça eleitoral é tarda e sempre falha na mais valia das conveniências. 

Revela o Correio Braziliense: 

Tal como fazem os ursos, depois de uma longa hibernação no inverno, os proprietários das legendas políticas, aqui no país, vão despertando lentamente, um a um, depois de quase quatro anos em estado de cataplexia profunda, que geralmente ocorre entre uma eleição e outra. Agora partem famintos em busca da manutenção do mecanismo que, mais uma vez, possibilitará a interlocução entre os eleitores e o Estado, de modo a dar continuidade a nossa peculiar engrenagem democrática.

Somente os partidos são autorizados a estabelecer essa ponte entre o cidadão e o Estado, de modo que a eles é conferido todo o protagonismo político que resulta nas eleições. É esse o poder que dá às siglas e aos seus dirigentes um aspecto questionável que extrapola todo e qualquer sentido de cidadania. Os mais de trinta partidos que hoje parasitam o Estado, num autêntico papel de despachantes, utilizam dessa faculdade legal, para, em nome da democracia, auferirem lucros fáceis que depois são rateados entre a cúpula tal como fazem outras empresas privadas.

Eis aqui, em linhas gerais, como funciona a nossa máquina de fazer democracia. O eleitor entra no sistema como matéria-prima bruta a ser processada e refinada pela engrenagem partidária, resultando, adiante, num produto que é a imagem e semelhança da legenda. Muito distante daquilo que desejava o eleitor.

Terminado o pleito, os eleitores, pela falta de um recall, que poderia corrigir falhas desse produto, e que é tão comum hoje nas montadoras de automóveis, é descartado como resíduo ou sucata. Diante de uma situação tão surreal como essa que experienciamos calados, e em que os donos das legendas, mais do que mestres de cerimônia da festa da democracia, se tornam os verdadeiros senhores de todo esse processo, pouco ou nada se pode esperar em termos de evolução e amadurecimento do nosso distorcido modelo de representação.

A questão é saber até quando esse processo enviesado, que coloca a nossa jovem democracia no colo desses velhos magnatas políticos, prosseguirá. O pior é que a nossa jabuticaba, representada pela disléxica Justiça Eleitoral, nada vê de anormal em todo esse processo. E pensar que todo esse degenerado processo eleitoral poderia ser dissipado movendo-se apenas algumas pequenas peças nessa engrenagem perversa. A começar pela possibilidade de eleição com candidatura avulsa, sem vínculos e amarras partidárias. Ou, quem sabe, pela extração de um pequeno parafuso que hoje impede a máquina de cumprir a cláusula de barreira.

Pequenos ajustes nessa máquina de moer esperanças poderiam fazer toda a diferença, como é o caso da introdução da ficha limpa. Melhor ainda seria obrigar todo esse robô gigante a caminhar com seus próprios pés, retirando-lhe as muletas representadas pelo fundo eleitoral e partidário públicos. Talvez, quem sabe, por meio de uma profunda reforma eleitoral, fossem criados apenas quatro partidos com assento no Congresso, distribuídos entre esquerda, direita, centro-esquerda e centro-direita.

São ajustes que o eleitor consciente gostaria de ver implementados, dando um basta definitivo nessa pantomima, que faz das nossas eleições uma festa apenas para os dirigentes partidários e seus grupos.

Humor Político – Rir pra não chorar | Página: 467
30
Out21

Por que você acredita em mamadeira de piroca?

Talis Andrade

 

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O Brasil acredita no fake da mamadeira de piroca, porque o incesto constitui uma tradição, e o estupro um costume das senzala e casa grande, desde as Capitanias Hereditárias ao Império de Pedro II, quando da primeira menstruação da negrinha. Tem mais: a idade dos casamentos no Brasil Colonial, segundo o Direito Romano e o Canônico, era, em Portugal e no Brasil, de 12 anos para as meninas e 14 para os meninos.

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Fica justificado porque no comício golpista de 7 de Setembro último, Dia da Independência, os nazifascistas, com suas raízes nos movimentos TFP, CCC e KKK (depois de Trump) fizeram erguer um enorme pênis inflável no coração da cidade de São Paulo. 

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A cada 2 horas, o Brasil recebe uma denúncia de estupro de meninas até 14 anos.

Informa a Agência IBGE (30.09.2021):

  • Mais de 20% das adolescentes de 13 a 17 anos diz já ter sido tocada, manipulada, beijada ou ter tido partes do corpo expostas contra a sua vontade.
  • E 8,8% das meninas nessa idade já foram forçadas ao sexo, a maioria antes dos 14 anos.
  • Dentre estudantes da rede privada de ensino houve mais relatos desse tipo de violência do que dentre os da rede pública: 16,3% contra 14,4%.

O eleitor alfabetizado político, maior de 16 anos, acreditar os governos petistas de Lula e Dilma distribuíam mamadeiras de piroca, madeiras em forma de pênis, nas creches e jardins da infância, precisa ter a mente doentia, perturbada por pensamentos devassos, e desejos sexuais reprimidos.

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Os anormais, que admitem e divulgam uma mentira escabrosa e impraticável, são os doentes que praticam incestos, os pedófilos que estupram criancinhas, anormais chamados de papa-anjo.

E o papa-figo. Lenda urbana nordestina,  que havia indivíduos que se alimentavam do fígado de criancinhas, do sangue de anjinhos, para curar 'doenças de sangue ruim' como a sífilis, a hanseníase. 

O papa-figo um velho rico. Que tem aliciadores de crianças, o 'homem do saco'.

No "Folclore Tradicional Brasileiro", a informação de que os ajudantes do papa-figo usam de todos os artifícios para atrair as vítimas. Para isso vale distribuir presentes, doces, moedas ou cédulas de dinheiro; brincar fazendo caretas, oferecer brinquedos ou comida. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou locais com pouco movimento, e sempre longe das vistas dos adultos.

Depois de atrair as distraídas ou solitárias crianças, estas são levadas para o verdadeiro papa-figo, um sujeito estranho, rico, que sofre de uma doença rara e sem cura. Alguns sintomas dessa doença seriam o crescimento anormal de suas orelhas, ou o corpo leproso.

Diz a lenda que, para aliviar os sintomas dessa terrivel doença ou maldição, o papa-figo precisa se alimentar do fígado de uma criança. Feito a extração do fígado, eles costumam deixar junto com a vítima, uma grande quantia em dinheiro, que é para o enterro e também para compensar a perda junto à família.

A lenda é divulgada, inclusive, pelo seu valor pedagógico: o aviso de que a criança não deve conversar com estranhos, principalmente aceitar presentes.

Quando uma criança desaparecia nas cidades do interior nordestino culpavam também o palhaço, quando da passagem de um circo, ou uma estranha mulher velha, judia, com uma trouxa na cabeça, um preconceito religioso, xenófabo, originário da Santa Inquisição. 

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Os atos dos tarados sexuais terminam mistificados pelas vítimas de estupro, de incesto, como acontece com a nossa atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. O crime sexual passa a ser aceitável como segredo de família. 

Renan Melo Xavier, in Metrópoles, noticiou que Damares "afirmou ter visto Jesus Cristo em cima de uma goiabeira.

Segundo a pastora evangélica, o episódio teria ocorrido após ela tentar suicídio por ter sido vítima de abusos sexuais quando criança. A ministra afirmou não estar ofendida com a repercussão do relato: 'Quero que todo mundo pergunte o que é o pé de goiaba. Encham as redes sociais de pés de goiaba, porque eu quero falar sobre isso. Não estou ofendida”.

A desconhecida Damares, com essa história foi apresentada ao Brasil. 

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Irene Cavaliere, in 'Hanseníase na História', define:

Também conhecida como lepra ou mal de Lázaro, antigamente a enfermidade era associada ao pecado, à impureza, à desonra. Por falta de um conhecimento específico, a hanseníase era muitas vezes confundida com outras doenças, principalmente as de pele e venéreas. Daí o preconceito em relação ao seu portador: a trasmissão da doença pressupunha um contato corporal, muitas vezes de natureza sexual e, portanto, pecaminoso.

Narrativas religiosas associavam as marcas na carne aos desvios da alma: eram os sacerdotes, e não os médicos, que davam o diagnóstico. No Velho Testamento, o rei Uzziah foi punido por Deus com a doença, por ter realizado uma cerimônia exclusiva aos sacerdotes. Mesmo sendo rei, teve que ir morar numa casa isolada e não foi enterrado no cemitério dos soberanos. Já no Novo Testamento, é marcante o episódio em que Cristo “limpa” um leproso.

Quando não eram enviados para leprosários e excluídos da sociedade, os doentes não podiam entrar em igrejas, tinham que usar luvas e roupas especiais, carregar sinetas ou matracas que anunciassem sua preseça e, para pedir esmolas, precisavam colocar um saco amarrado na ponta de uma longa vara. Não havia cura e ninguém queria um leproso por perto

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Damares vai completar três anos no ministério, e não realizou nenhuma campanha educatica contra o estupro, contra o incesto, e jamais negou o # fake das mamadeiras eróticas. Tudo indica que compactua com essa estória inventada pela propaganda mentirosa, pela propaganda enganosa da campanha de Jair Bolsonaro. Disse Damares: “Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar". Disse mais numa entrevista para o BBC News, 18 dezembro 2019:

"Eu vou para a região ribeirinha e lá a gente encontra a lenda do boto. Mas o boto que engravidava a menina era o pai, que botava a culpa no boto. O incesto é de verdade no Brasil e vamos enfrentar isso."

As frases polêmicas que costumam gerar manchetes são abundantes. "Tem criança que conversa com duende. Tem crianças que falam com fadas. Tem crianças que falam com pôneis. Eu não posso falar com Jesus?", diz.

Também afirma que é "a ministra mais bonita do Brasil". O silêncio de Damares é cúmplice. Hoje mesmo publica o G1 (importante repetir): "É # Fake que o PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país". 

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Escreve Moacyr Scliar, in História do Conceito de Saúde:

O conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas. O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças. Aquilo que é considerado doença varia muito. Houve época em que masturbação era considerada uma conduta patológica capaz de resultar em desnutrição (por perda da proteína contida no esperma) e em distúrbios mentais. A masturbação era tratada por dieta, por infibulação, pela imobilização do "paciente", por aparelhos elétricos que davam choque quando o pênis era manipulado e até pela ablação da genitália. Houve época, também, em que o desejo de fuga dos escravos era considerado enfermidade mental: a drapetomania (do grego drapetes, escravo). O diagnóstico foi proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, médico do estado da Louisiana, no escravagista sul dos Estados Unidos. O tratamento proposto era o do açoite, também aplicável à "disestesia etiópica", outro diagnóstico do doutor Cartwright, este explicando a falta de motivação para o trabalho entre os negros escravizados.

Real ou imaginária, a doença, e sobretudo a doença transmissível, é um antigo acompanhante da espécie humana, como o revelam pesquisas paleontológicas. Assim, múmias egípcias apresentam sinais de doença (exemplo: a varíola do faraó Ramsés V). Não é de admirar que desde muito cedo a Humanidade se tenha empenhado em enfrentar essa ameaça, e de várias formas, baseadas em diferentes conceitos do que vem a ser a doença (e a saúde). Assim, a concepção mágico–religiosa partia, e parte, do princípio de que a doença resulta da ação de forças alheias ao organismo que neste se introduzem por causa do pecado ou de maldição. Para os antigos hebreus, a doença não era necessariamente devida à ação de demônios, ou de maus espíritos, mas representava, de qualquer modo, um sinal da cólera divina, diante dos pecados humanos. Deus é também o Grande Médico: "Eu sou o Senhor, e é saúde que te trago" (Êxodo 15, 26); "De Deus vem toda a cura" (Eclesiastes, 38, 1–9).

A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino. A enfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma visível, como no caso da lepra Trata–se de doença contagiosa, que sugere, portanto, contato entre corpos humanos, contato que pode ter evidentes conotações pecaminosas. O Levítico detém–se longamente na maneira de diagnosticar a lepra; mas não faz uma abordagem similar para o tratamento. Em primeiro lugar, porque tal tratamento não estava disponível; em segundo, porque a lepra podia ser doença, mas era também, e sobretudo, um pecado. O doente era isolado até a cura, um procedimento que o cristianismo manterá e ampliará: o leproso era considerado morto e rezada a missa de corpo presente, após o que ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário. Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média, em parte porque o rótulo de lepra era freqüente, sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças.

Os preceitos religiosos do judaísmo expressam–se com freqüência em leis dietéticas, que figuram, em especial, nos cinco primeiros livros da Bíblia (Torá, ou Pentateuco). Sua finalidade mais evidente é a de manter a coesão grupal, acentuando as diferenças entre hebreus e outros povos do Oriente Médio. Essas disposições eram sistemas simbólicos, destinados a manter a coesão do grupo e a diferenciação com outros grupos, mas podem ter funcionado na prevenção de doenças, sobretudo de doenças transmissíveis. Por exemplo, um animal não poderia ser abatido por pessoa que tivesse doença de pele, o que faz sentido: lesões de pele podem conter micróbios. Moluscos eram proibidos, e dessa forma certas doenças, como a hepatite transmitida por ostras, podiam ser evitadas. Isso não significa que a prevenção fosse exercida conscientemente; as causas das doenças infecciosas eram desconhecidas. Seria muito difícil, por exemplo, associar a carne de porco à transmissão da triquinose. Para isto há uma explicação ecológica, por assim dizer. A criação de suínos, no Oriente Médio, seria um contra–senso. Trata–se de uma região árida, sem a água de que esses animais necessitam como forma de manter seu equilíbrio térmico. Além disso, povos nômades teriam dificuldades em manter um animal que se move pouco, como o porco. Finalmente, ao contrário dos bovinos, que servem como animal de tração e que proporcionam leite, o suíno só fornece a carne – uma luxúria, portanto, uma tentação que era evitada pelo rígido dispositivo da lei.

Em outras culturas era o xamã, o feiticeiro tribal, quem se encarregava de expulsar, mediante rituais, os maus espíritos que se tinham apoderado da pessoa, causando doença. 

Entre os índios Sarrumá, que vivem na região da fronteira entre Brasil e Venezuela, o conceito de morte por causa natural ou mesmo por acidente praticamente inexiste: sempre resulta da maldição de um inimigo. Ou, então, conduta imprudente: se alguém come um animal tabu, o espírito desse animal vinga–se provocando doença e morte.

A tarefa do xamã é convocar espíritos capazes de erradicar o mal. Para isso ele passa por um treinamento longo e rigoroso, com prolongada abstinência sexual e alimentar; nesse período aprende as canções xamanísticas e utiliza plantas com substâncias alucinógenas que são chamarizes para os espíritos capazes de combater a doença.

Neste Brasil tomado pelo negacionismo de Jair Bolsonaro o fake da mamadeira de piroca volta a circular. 

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por Louise Queiroga /O Globo

Um vídeo que bombou durante a campanha eleitoral de 2018 em que um homem mostra uma mamadeira com o bico no formato de um órgão genital masculino dizendo que o item foi distribuído em creches pelo PT a mando de Fernando Haddad tem voltado a circular na web. Ele é #FAKE.

 — Foto: G1

“Olha aqui ó, vocês que votam no PT. Essa aqui é a mamadeira distribuída na creche", diz o homem, no vídeo. "Distribuída na creche para seu filho, com a desculpa de combater a homofobia. Olha o bico como é, ó. Tá vendo? O PT e o Haddad pregam isso para o seu filho (...) Isso faz parte do 'kit gay'. Invenção de Haddad", complementa.

O conteúdo foi desmentido na época por agências de checagem, como o Projeto Comprova, e pelo próprio Ministério da Educação (MEC), que deixou claro que cada município é autônomo, que a gestão da educação básica é dos entes federados e que, portanto, não houve nenhuma distribuição de material do tipo por parte do governo federal.

Um outro detalhe que denota a falsidade da mensagem é que o homem dá a entender que se trata de algo atual na filmagem e em 2018 o PT já não estava mais no poder.

Procurada por O Globo, a assessoria de imprensa do Partido dos Trabalhadores (PT) reforça que a informação dita no vídeo é totalmente falsa. "É mentira que governos do PT tenham produzido ou distribuído a qualquer tempo qualquer material que pudesse ser chamado de 'kit gay'. É falso e criminoso todo conteúdo associado a esse tema nas redes sociais", afirma, em nota.

Assim que o vídeo surgiu, aliás, o site do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma nota destacando que o conteúdo é falso e descrevendo-o como um "boato maldoso". "O PT jamais distribuiu nenhum tipo de material erótico, muito menos para crianças."

Fato ou Fake já desmentiu a informação de que o então candidato Fernando Haddad criou um "kit gay" para crianças. Em razão da propagação do material falso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou o então candidato Jair Bolsonaro remover os vídeos da internet por gerar desinformação e prejudicar o debate político.

'Kit gay'

O que ficou conhecido como "kit gay", na verdade, era um material que fazia parte do projeto Escola sem Homofobia, que, por sua vez, estava dentro do programa Brasil sem Homofobia, do governo federal, em 2004. Ele era voltado à formação de educadores, e não tinha nenhuma previsão de distribuição do material para alunos. Ou seja, nunca foi destinado para crianças. Além disso, o programa não chegou a ser colocado em prática.

Elaborado por profissionais de educação, gestores e representantes da sociedade civil, o kit era composto de um caderno, uma série de seis boletins, cartaz, cartas de apresentação para os gestores e educadores e três vídeos. A distribuição do material foi suspensa em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.

É #FAKE que PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país — Foto: Reprodução

É #FAKE que PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país — Foto: Reprodução

 
 
14
Set21

General Heleno preocupado com moral da tropa

Talis Andrade

 

Por Altamiro Borges

O general-gagá Augusto Heleno está preocupado com a moral das tropas fascistas. Em vídeo postado na sexta-feira (10), o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) afirmou que os fiéis seguidores corneados com a patética “declaração à nação” do presidente Jair Bolsonaro, uma típica carta de arrego, “não podem desistir do Brasil”. 

O milico disse entender que “alguns fatos deixaram muitos de nós desanimados”, mas insistiu: “Isso não pode acontecer”. Ele voltou a assustar o gado bolsonarista com o eterno fantasma do comunismo. “A esquerda, apesar de sua passagem desastrosa, segue unida e querendo voltar”, gaguejou o recalcado. 

O general de pijama Augusto Heleno ainda garantiu que a carta foi um recuo tático e que não houve traição ao projeto original do neofascista. "Nosso presidente possui formidável senso político”, postou o bajulador endinheirado. "Vamos completar mil dias de governo sem nenhum escândalo de corrupção", completou o farsante na maior caradura. 

Rodrigo Constantino e outros corneados

O vídeo do general da GSI talvez tenha evitado o suicídio de Rodrigo Constantino, o ex-pateta da Veja e atual jagunço da rádio Ku Klux Pan. Ele andava magoado e deprimido. Logo após a carta, tuitou: "Dia 7: multidão nas ruas com pauta patriótica condena o arbítrio. Dia 9: Bolsonaro elogia China como essencial e pede desculpas ao STF. Game over". 

Outros bolsonaristas também estavam “desanimados”. Além de bajular os comunistas chineses e trair os caminhoneiros otários, o “frouxo e traidor” – segundo vários ex-seguidores – ainda divulgou a carta de arrego e telefonou para Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) xingado um dia antes. 

Segundo o site Metrópoles e a Folha de S.Paulo, o telefonema do presidente “cagado” foi mediado por Michel Temer, o golpista traíra. "Nesta quinta-feira (9), Jair Bolsonaro mandou um avião a SP para levar Temer até Brasília. Durante conversa entre ambos, Temer ligou para Moraes, que foi indicado por ele para o STF, e passou o celular para Bolsonaro", descreveu com ironia o jornal. 

"Segundo quem acompanhou a conversa, o diálogo foi institucional e Bolsonaro adiantou o que divulgaria posteriormente na carta, escrita com a ajuda de Temer: que nunca teve a intenção de agredir, que foi afetado pelo calor do momento e que acredita na harmonia entre os Poderes". Haja vídeos do general-gagá, aquele da musiquinha contra o Centrão, para convencer os bolsonaristas corneados.

 

04
Set21

Genealogia do fascismo no Brasil

Talis Andrade

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por Alberto Cantalice

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Herdeiros do escravagismo, da tentativa permanente do apagamento dos povos originários, do mandonismo, do autoritarismo, do fundamentalismo religioso de cuja matriz surgiram as insígnias que os mantêm: Deus, pátria e família. O que hoje convencionamos chamar de fascismo à brasileira tem profundas raízes históricas.

Colônia de exploração e não de povoamento, o Brasil veio ao longo de sua trajetória se constituindo como entreposto de mercadorias: primeiramente de Portugal e posteriormente da Inglaterra. Desenvolvendo-se tardiamente, foi só com a transferência da Corte portuguesa em 1808, fugindo de Napoleão que chegava às portas de Lisboa, que o Brasil e mais especificamente a sede da Coroa, o Rio de Janeiro, começou a ganhar ares de nação.

Talvez, dado ao seu extenso território-cujo primeiro jeitinho, ou jabuticaba, foi a distribuição das “capitanias hereditárias”, o país ao longo de sua história jamais enfrentou um conflito de natureza mudancista como foram a “guerra de secessão” nos EUA, ou a Revolução Francesa. Uma miríade de conflitos localizados deu a tônica da formação brasileira. As guerras de Canudos e o desmonte do Quilombo dos Palmares são exemplos cristalinos do uso do aparato de um Estado ainda incipiente e totalmente capturado pelos interesses do latifúndio em “guerras” localizadas e não universalizadas – sempre em defesa dos interesses colonizadores e da rapina do além-mar.

Esses feitos são cantados e decantados nos “sermões” do Padre Antônio Vieira e foram amalgamados sempre por interesses da pequena casta de senhores de engenho e agentes do Império colonial.

Surge, então, o desejo e a necessidade de consolidar e demarcar o espaço português na América e para isso era preciso gente.

A captura e escravização de africanos – mão de obra de exploração das riquezas do território – em substituição ao indígena é a pedra de toque que faltava. Começa aí a formação do caldo de cultura que nos faz hoje a nação com o maior número de afrodescendentes no mundo, só perdendo para a Nigéria – a maior população da África.

A exploração dos corpos negros; a tentativa de apagamento de suas culturas; a incidência dos castigos físicos; a criação de uma ideologia do branco como superior; a demonização do indígena rotulado como um ser preguiçoso e indolente; a transformação de mestiços e negros domesticados em capitães do mato cuja função central era em nome do “Senhor” manter a disciplina e promover a captura dos rebelados e recalcitrantes; foram constituindo o germe da manta autoritária brasileira.

O negro está na gênese da formação social do Brasil. É parte preponderante da civilização tropical moderna que, malgrado as suas graves insuficiências, avanços e recuos, vamos nos constituindo. A imensa luta por direitos e pela visibilização surge em contraste com a superveniência do racismo estrutural. Chaga aberta na história do Brasil o racismo é um dos pilares fundantes do fascismo à brasileira e será fruto de reflexões posteriores desse pequeno ensaio.Image

O país dos conchavos

A série de deformações no processo constitutivo do Brasil nos transformou em “case” de resolução de conflitos e soluções pelo alto. Isso vem de longe!

Com exceção da Guerra do Paraguai, da disputa territorial com a Holanda no Nordeste e a participação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, as chamadas forças de segurança do país, se notabilizaram pela “guerra interna”. Isto é, o controle da população e em especial dos pobres e seus horizontes de conflitos, quando em jogo os interesses das casas-grandes.

Garantidos pela instituição dessas forças, o que garantiria em última instância permanência do status quo, os “senhores” foram moldando os interesses da nação aos interesses dos donos das terras, os donos do comércio, os donos do estado, os donos do dinheiro.

A grande massa da população foi ao longo da história mera espectadora dos pactos de elites. Inclusive na destituição do Império e a assunção da República, à qual segundo Aristides Lobo, “o povo assistiu aquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada” (militar).

O que também se deu, um pouco antes, na Independência, na famosa “batalha de Itararé”, a batalha que não houve. Onde as margens do Rio Ipiranga, em São Paulo Pedro I teria dito: “diga ao povo que fico”, proclamando a separação da colônia Brasil da matriz Portugal.

Inicia-se o longo percurso da idealização de uma “casta superior”, brasileira, educada inicialmente em Lisboa e depois em Paris, letrada e possuidora de bens materiais e imateriais em contraposição a uma massa de incultos, coloridos e diferentes. O ideário central não poderia sedimentar democracia. Não há democracia com a exclusão da vida real da imensa maioria.

O que se gestou foi a cultura do autoritarismo. Do “puritanismo” canhestro e das ideias trazidas de fora. Já que o país foi um dos últimos na América Latina a contar com faculdades.

Essa “elite” é a espinha dorsal do exclusivismo e do apartamento do povo das decisões a ele inerentes.

Donos do poder contaram sempre com a captura do Estado e do direcionamento de suas ações, inclusive no seu braço jurídico, como elementos de controle social e de repressão aqueles que teimaram ou não se acomodaram com a sua própria condição.

Sedimentou-se a lógica do patronato, dos serviçais. As tarefas degradantes ou de baixa estratificação foram e são delegadas aos de baixo. Não à toa a profusão de domésticas, auxiliares de serviços gerais e babás. Elevadores de serviços e entradas preferenciais nas residências e edifícios das classes médias e alta.

Qualquer movimentação no sentido de questionar a ordem dominante foi recebida pela mais cruel repressão e perseguição. Usando-se os órgãos de imprensa, alguns púlpitos e o, sempre combustível, dinheiro, como consolidador da ordem verdadeira.

Aplica-se de forma quase automática o simbolismo encarnado na Microfísica do Poder, de Michel Foucault, sem tirar, nem por.

Buscas as raízes do fascismo em nossas fronteiras é cavar fundo. É desentranhar e colocar à céu aberto a gênese da nossa formação. Estão aí, o abandono dos negros e negras ao Deus dará, quando da Abolição da escravatura. E que hoje buscam, com a instituição da tardia política de cotas e ao esforço hercúleo de grande parte, um lugar ao sol.

Vítimas do conservadorismo falso moralista, a comunidade LGBT+ vem a duras penas lutando para garantir seus direitos básicos em um Estado democrático e sofrem diuturnamente a perseguição, o preconceito e até uma lógica de extermínio sem paralelo em outros países.

Golpeada em suas iniciativas de construir uma lógica igualitária, ou menos concentradora das rendas nacional, as forças democráticas sempre tiveram suas iniciativas tolhidas pelas classes dirigentes. Aí estão o Estado Novo, a indução ao suicídio do Vargas democrata, a tentativa de emparedamento de Juscelino, o impedimento à posse de João Goulart e a sua deposição pelo golpe militar de 1964, que liberou as entranhas da fascistização do elemento brasileiro e cujo acobertamento pela nova República levou a significativa parte do que hoje estamos vivendo.

Esse corolário de situações entorpecidas nos governos Sarney e Fernando Henrique Cardoso começou a despontar com a vitória de Lula no pleito de 2002.

A mera expectativa de mudanças na trágica situação dos pobres colocou os setores dominantes em um constante jogo de tentativa e erro com o governo Lula. Aí pontifica uma certa “ilusão de classe” de setores da esquerda brasileira e a sua busca incessante por aceitação nos salões do poder.

A “denúncia do Mensalão” e o cerco que foi protagonizado contra o governo de Lula foi uma demonstração de que a velha casa-grande estava ativa. A volta por cima operada a partir da reeleição de Lula em 2006 e o ciclo virtuoso de crescimento econômico do país fez diminuir o ímpeto golpista das elites econômico-financeiras e criou um ambiente de paz social que levou o então presidente a ter o patamar de 83% de aprovação popular.

Há que se destacar que a despeito de “colocar o pobre no orçamento”, várias iniciativas poderiam fortalecer o caixa do tesouro, como a manutenção da CPMF e a maior tributação de heranças, foram derrotadas no Congresso Nacional numa demonstração de que mesmo tendo à frente do Executivo elementos progressistas, no Legislativo manteve-se durante todo o período uma maioria de corte conservador. Isso sem dúvida foi o dificultador da consolidação de políticas de viés estruturantes.

A volta dos que não foram

A indicação de Dilma Rousseff para a sucessão de Lula suscitou no imaginário político uma série de indagações. Desde misoginia até o puro preconceito pelo fato da candidata ser uma ex-presa política. Sem experiência no trato da política do dia a dia, avessa aos colóquios e salamaleques da política tradicional, Dilma desde o primeiro dia de campanha foi vítima das depois notabilizadas fakes news.

A campanha de 2010 foi a campanha da ficha falsa, da bolinha de papel e da demonização, tudo ancorado nas páginas e nos telejornais da mídia empresarial.

Nesse ínterim, surgem as “marchas de 2013”. Nascidas de uma justa reivindicação contra o aumento do preço das passagens de ônibus em São Paulo, a posterior repressão pela PM paulista levou à capilarização das manifestações pelo país e a captura do movimento pelas forças de direita.

Em 2014, já sob o fogo cruzado da malfadada Operação Lava-Jato a campanha de reeleição de Dilma foi paulatinamente sendo minada pelo reagrupamento de grande parte do establishment no entorno da candidatura de Aécio Neves e do descolamento de parte dos apoiadores do governo para o outro lado.

Vitorioso por pequena margem, o governo eleito não teve o devido reconhecimento pelo perdedor, ocasionando uma série de questionamentos nos tribunais superiores da validade do resultado eleitoral.

Eleito presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha logo de início começa a conspirar. A aprovação das chamadas “pautas bombas”, o repique da crise de 2008 e os erros de condução da política econômica foram criando as condições para o golpe de 2016.

Fora do ambiente político, o juiz Moro e os procuradores de Curitiba vinham sorrateiramente construindo as bases da perseguição à Lula e o descrédito e criminalização do Partido dos Trabalhadores.

Episódios de xingamentos à Dilma, como VTNC no Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo; o Não Vai Ter Copa e as marchas de 2013 ajudaram a compor o caldeirão da desgraça nacional.

Amedrontados com o cerco midiático-judicial, descontentes com mais uma vitória das forças democráticas, estimulados pelos interesses do capital financeiro e do agronegócio, setores do governo liderados pelo vice-presidente Michel Temer começaram a conspirar.

Cavalgando a fajuta Ponte para o Futuro, Temer rearticula os setores dominantes com a promessa de “reformas”. Com o discurso de que essas ações tirariam o país da crise e o colocariam novamente na rota do crescimento, aplicou-se um dos maiores engodos políticos da nossa história republicana.

O fascismo em ação

A busca e apreensão na casa de Lula, sua condução coercitiva e o fatídico power point de Deltan Dallagnol deram início à perseguição judicial que culminou com sua condenação pelo então juiz Moro e confirmada de forma acelerada pelo TRF 4, tudo com o intuito claro de obstaculizar sua candidatura ao pleito de 2018. O lawfare que se estabeleceu contra Lula teve o apoio entusiasmado dos grandes veículos da mídia brasileira. Todas as vezes que o Jornal Nacional da Rede Globo noticiava a Lava Jato, aparecia uma imagem de um duto de óleo jorrando dinheiro.

A mídia devidamente alimentada pelo juiz, pelos procuradores de Curitiba e com o auxílio luxuoso de parte da Polícia Federal e da Receita Federal foi montando o enredo que visava demonizar as forças progressistas, o PT em particular e sua maior liderança Lula. O peso da imagética constituída pela mídia empresarial foi de tal intensidade que conseguiu aglutinar e despertar os “demônios” da sociedade brasileira e sua face mais obscura e não transparente: as hordas de milicianos armados e desarmados que passaram a ocupar às ruas e as redes sociais propalando o discurso do ódio.

Substituindo Lula, Fernando Haddad assumiu como candidato a presidente em curto espaço de tempo começou a despontar. Sua candidatura é bombardeada inicialmente pela mídia empresarial e em seguida por um esquema clandestino de fake news, gestado no exterior e disseminado por uma rede articulada de forma profissional pelo WhatsApp. Está aí a “mamadeira de piroca” e o “kit gay” como exemplos.

Na arquitetura montada neste consórcio midiático-judicial vê-se os tentáculos do Departamento de Justiça norte-americano e suas inside informations abastecendo os procuradores e o juiz, como relatado pela Vaza Jato.

No bojo desse movimento destampa-se a figura do capitão Jair Bolsonaro. Ultrarreacionário, viúva inconteste do golpe de 1964, admirador de torturadores e defensor da base mais truculenta das polícias estaduais, Bolsonaro coube com exatidão no figurino montado. Trazendo na garupa o general Hamilton Mourão, Bolsonaro com a omissão de parte das elites e da classe média e o apoio velado dos militares e do fundamentalismo evangélico neopentecostal, espalma a Presidência da República.

Frisa-se a valorosa contribuição da chamada “república de Curitiba” com seus vazamentos clandestinos e divulgação de delações na vitória de Bolsonaro no segundo turno.

Ainda está na memória recente o presente recebido por Sérgio Moro por ocasião da vitória: o Ministério da Justiça.

Primando pela coerência – já que nunca disse o contrário –, o presidente eleito começa seu governo impondo sua pauta regressiva. Governa como se um soberano fosse e desconsiderando todos os limites do Estado democrático de direito. Ao enfrentar a tragédia instalada com a pandemia da Covid-19 vêm à tona sua ausência total de empatia, seu desprezo pela ciência, que nos faz legatários de perto de 600 mil mortos.

Vendo o buraco em que meteram o Brasil, parte da mídia começa a questionar o governo. O Judiciário, que se omitiu na crise da Lava Jato, vê-se obrigado a reagir. Acuado, Bolsonaro propala o golpe.

Quanto mais se desmascara o véu do autoritarismo e da incompetência mais Bolsonaro açula seus “radicais”. Ameaça as instituições com o emprego das forças militares, sem uma resposta à altura. Estimula a horda miliciana com a proposta de voto impresso – um recuo civilizatório, como uma cortina de fumaça de reação a uma possível e benfazeja derrota nas eleições de 2022.

Tal qual um Luís Bonaparte, sonha com a possibilidade de um golpe de caráter fascista; “para fazer o que o regime militar não fez”. Segundo o linguajar dele e de parte de seus apoiadores.

Bolsonaro e seus apoiadores estimulam a guerra cultural e a guerra de versões. Ataca um propalado comunismo, que nunca esteve na ordem do dia no país. Instiga os instintos primitivos de seus asseclas e ao estilo Mussolini faz motociata nas várias regiões.

Orientados pela parceria Steve Bannon-Olavo de Carvalho são hoje a principal cidadela do conservadorismo negacionista do mundo.

Querendo fazer a história se repetir como tragédia ou farsa, como pontuou Marx, no seu O 18 de Brumário.

O papel a ser desempenhado pelas forças democráticas, progressistas e de esquerda na resistência à necropolítica é o de fortalecer os vínculos com a saída democrática para a grave situação brasileira. Mobilizar os mais amplos setores em defesa da civilização e da vida no enfrentamento da barbárie bolsonarista.

28
Ago21

Bolsonaro chama de idiota quem afirma que é preciso comprar feijão em vez de fuzil

Talis Andrade

27
Nov20

Sentindo eleição ameaçada, direita apela para ódio e terrorismo eleitoral

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

Com a divulgação de pesquisas sobre o 2º turno, o pânico tomou conta dos comitês de Brunos Covas/PSDB em São Paulo e de Sebastião Melo/MDB em Porto Alegre.

Tanto na capital paulista como na gaúcha, levantamentos indicam queda das intenções de votos nos candidatos da oligarquia dominante, e crescimento das candidaturas de esquerda de Guilherme Boulos/PSOL e Manuela D’Ávila/PCdoB/PT.

A disputa avança dramaticamente nestas 2 cidades na reta final de campanha, e o resultado do próximo domingo [29/11] tende a ser parelho em ambas.

Em São Paulo e em Porto Alegre observa-se o amontoo automático do chamado centro político, mais direita e mais extrema-direita bolsonarista para enfrentar as candidaturas de esquerda apoiadas pela centro-esquerda.

É interessante notar como os xingamentos e as brigas selvagens entre os candidatos e partidos do bloco conservador magicamente desapareceram. Agora, todos atuam em ordem unida para enfrentar o que consideram ser o inimigo comum – a esquerda e o campo progressista.

Para a oligarquia racista, o relevante não é apresentar propostas concretas para enfrentar problemas como finanças municipais, desemprego, moradia, saúde, educação, creches, saneamento básico, Plano Diretor e o desenvolvimento da cidade. A única obsessão deles é impedir que a esquerda vença para promover mudanças profundas no governo.

Está claro que a oligarquia não se junta a favor de um plano para a cidade. Eles apenas se amontoam em aglomerados reacionários para combater a esquerda. Não sem histeria, bradam contra a “ameaça comunista”, como se estivessem na Guerra Fria.

Até há alguns dias, as campanhas de Covas/PSDB em São Paulo e de Melo/MDB em Porto Alegre simulavam civilidade em público, ao mesmo tempo em que promoviam toda sorte de vilania e patifaria no subterrâneo das redes sociais e do WhatsApp.

Com os números das pesquisas recentes, contudo, as campanhas deles passaram a apelar para o ódio e o terrorismo abertos, inclusive promovendo sectarismo religioso na propaganda eleitoral.

Nos últimos dias começaram circular vídeos com sionistas defendendo o voto em Covas e acusando Boulos de antissemita. Na mesma linha, cristãos conservadores [católicos e evangélicos] transformaram igrejas, cultos e templos religiosos em comitês eleitorais do Covas, a partir dos quais proferem toda sorte de infâmias e demonizam Boulos.

O próprio Covas, talvez desesperado com o risco da derrota, parece esquecer que a disputa é para o governo da cidade de São Paulo, mas mesmo assim provoca Boulos a responder acerca de problemas de Cuba e da Venezuela …

Em Porto Alegre a chapa do Melo/MDB, integrada pelo fundador e coordenador do MBL no Rio Grande do Sul [Ricardo Gomes/DEM], é especializada em industrializar mentiras, ataques e baixarias.

Desde o 1º turno, Manuela tem sido alvo da pistolagem e banditismo político deste bando da direita extremista – mais detalhes aqui. A campanha dela derrubou na justiça mais de 530 mil publicações ofensivas, notícias falsas e calúnias no facebook.

Agora circula um áudio com relato da reunião do Ricardo Gomes com o poderoso sindicato patronal da construção civil, o SINDUSCON, no qual empresários são conclamados a votar no Melo, “porque se entrar essa vadia aí vai ser um problema muito sério para a cidade”.

Os programas de TV do Melo também ficaram mais violentos e apelativos. Melo finalmente saiu do esconderijo das redes e passou a atacar Manuela na TV e nas entrevistas. O candidato da direita racista tenta assustar a população com uma retórica anticomunista e antipetista, para infundir medo e pavor nos eleitores da Manuela.

É arriscado predizer alguma tendência de resultado no próximo 29 de novembro, dadas as incertezas das pesquisas, que acertam cada vez menos os prognósticos.

Mas, por outro lado, o comportamento desesperado dos candidatos da direita bolsonarista e bolsonarizada – em São Paulo e em Porto Alegre – autoriza supor-se que são bem realistas os “riscos” de vitória da esquerda e do campo progressista em São Paulo com Boulos, e em Porto Alegre com Manuela.Image

 
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24
Nov20

Como jornalistas reagiram a ataques da ultradireita em outros tempos e lugares

Talis Andrade

Gênero Textual Charge - Toda Matéria em 2020 | Críticas sociais, Henfil,  Desenho de contorno

Os ataques que Manuela e Boulos estão sofrendo da turma do Gabinete do Ódio, dos movimentos da direita - TFP, KKK, MBL -, furiosos praticantes da teocracia, da xenofobia, do racismo, da antidemocracia, da misoginia, da homofobia, do femicídio, da supremacia branca, da crença em um Estado forte, lembram as campanhas da ditadura militar, do "Pra Frente Brasil", do "Ame-o ou Deixe-o. 

Imagem representativa do artigo

Que os eleitores de São Paulo e de Porto Alegre reajam nas urnas, pelo bem do Brasil. 

Patricia Campos Melo, jornalista da Folha de S. Paulo foi atacada por uma testemunha que mentiu na CPI das fake news, e agredida em seguida pelo presidente Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro.

Cristina Serra comenta que a tática de desqualificar bons profissionais da imprensa com boa reputação é conhecida e está nos manuais da Ultradireita, e que o comportamento é feitio de governos ultradireitistas pelo mundo como na Hungria por Victor Orban, nos EUA, quando Trump parte com ofensas torpes contra jornalistas.

Cristina também analisa o comportamento das empresas de comunicação e dos jornalistas. As empresas seriam “Guedistas”? E qual seria o melhor comportamento dos jornalistas?

Cristina Serra lembra episódio de enfrentamento de jornalistas com o ex-presidente João Figueiredo, durante a Ditadura.

Fica a lição

 

 

 
22
Nov20

"Imagens assustadoras" do "racismo sistêmico", diz imprensa francesa sobre morte de João Alberto

Talis Andrade

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RFI - A imprensa francesa repercute neste sábado (21) o fim insuportável do soldador negro João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado à morte em uma loja do Carrefour em Porto Alegre.

"As imagens são assustadoras", escreve o Le Monde. "No vídeo, filmado por uma testemunha, João Alberto (...) pode ser visto estendido no chão, sendo espancado até a morte por dois seguranças brancos (...). Também é possível ouvir o choque dos socos no rosto e os gritos de angústia de um homem que agoniza. No piso alaranjado, iluminado por néon, podemos ver gotas de sangue", descreve o respeitado jornal francês.

"Essa morte aconteceu em um contexto trágico, na véspera de uma data simbólica para o Brasil, o Dia da Consciência Negra", celebrado em 20 de novembro, continua o texto. "Uma morte que comove e revolta uma grande parte do Brasil", relata o Le Monde. "A causa desse drama ainda não foi estabelecida pela Justiça, mas familiares da vítima não têm dúvida de que o crime foi um ato de racismo, disse o pai de João Alberto", informa a reportagem do correspondente.

O diário progressista Libération também evoca a onda de indignação que tomou conta do Brasil nesta sexta-feira. "O grupo francês está sob o fogo das críticas, apesar de ter reagido rapidamente, garantindo que tomaria 'medidas cabíveis' contra os 'implicados neste ato criminoso'", explica o jornal.

"O movimento #VidasPretasImportam replica intensamente os vídeos amadores que mostram que o soldador foi agredido repetidamente no rosto por um segurança do Carrefour, enquanto um segundo agente o segurava", relata o Libération. Outro vídeo, filmado momentos depois, mostra o homem de 40 anos deitado no chão e sendo cuidado por paramédicos, que realizam uma massagem cardíaca. Sem sucesso.

 

"Uma série de artistas, ativistas e políticos convocaram comícios em todo o país", conta o Libération, sublinhando a revolta da candidata do PC do B à prefeitura de Porto Alegre, Manuela d'Ávila. "Não é possível nos calarmos diante do racismo que mata diariamente milhares de negros no Brasil", reagiu Manuela. “Acordamos chocados com um ataque brutal”, declarou o ex-presidente Lula.

O jornal aponta que a morte de João Alberto recorda, com tristeza, que três quartos das vítimas de homicídios no Brasil são negros ou mestiços. Eles representam 56% da população, mas continuam penalizados por "um racismo sistêmico", observa o Libération.

Grupo francês no centro de outros casos controversos

Tanto o Libération quanto o Le Monde destacam que o grupo francês Carrefour já estava envolvido em polêmicas no país. "Em agosto, o funcionário de um fornecedor morreu dentro de uma loja da rede varejista em Recife. Em vez de fecharem o estabelecimento, seu corpo foi deixado para trás, simplesmente coberto por guarda-chuvas, e a atividade continuou por várias horas", relatam.

Outro caso controverso envolvendo o Carrefour aconteceu em 2018, quando um segurança massacrou um cachorro com uma barra de metal, novamente provocando indignação dos brasileiros. "Em ambos os casos, o grupo pediu desculpas publicamente e até doou um milhão de reais (150.000 euros) para um fundo de proteção de animais." Mas desta vez, trata-se de um crime de uma brutalidade insustentável contra um homem negro.

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