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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

23
Jul22

Caso Bruno e Dom: 10 perguntas que a denúncia deixa no ar

Talis Andrade

Caso Bruno e Dom: 10 perguntas que a denúncia deixa no ar

Já aceita pelo juiz Adriano Verli, da Vara Federal Cível e Criminal de Tabatinga (AM), a peça acusatória dos procuradores afirma que os réus já presos agiram por motivo fútil.(Fotos: José Medeiros/Agência Pública; Reprodução TV Globo e Avener Prado/Agência Pública)

 

Por Cicero Pedrosa Neto /Amazônia Real

Belém (PA) – Finalizada com a data de 21 de julho e aceita já nesta sexta-feira (22) pela Justiça Federal de Tabatinga, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) deixa pelo menos dez perguntas no ar em relação aos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips. Pela denúncia, os réus Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, Oseney da Costa de Oliveira, seu irmão, e Jefferson da Silva Lima cometeram o duplo homicídio por “motivo fútil, mediante emboscada”. O motivo, segundo o MPF, seria o pedido do indigenista para que o jornalista britânico tirasse uma foto de “Pelado”, um dia antes, ou mesmo uma imagem tirada pelo indigenista no dia do crime.

Pela narrativa construída pelos procuradores da República Nathália Geraldo de Santo, Samir Cabus Nachef Júnior, Edmilson da Costa Barreiros Júnior, Bruno Silva Domingos e Ricardo Pael Ardenghi, “Pelado” e Jefferson teriam decidido matar o indigenista Bruno e o jornalista Dom Phillips acabou sendo morto “para assegurar a ocultação e a impunidade” pelo primeiro crime.

O juiz Adriano Verli, da Vara Federal Cível e Criminal de Tabatinga (AM), aceitou a denúncia do MPF e tornou réus Amarildo, o “Pelado”, Oseney e Jefferson. Eles já estão presos e vão responder pelos crimes de duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver. 

Na confissão, os réus informaram que Bruno foi atingido por pelo menos dois tiros, enquanto estava de costas, e um derradeiro, no rosto,  enquanto Dom, por apenas um disparo.  Segundo a perícia, os corpos dos dois foram esquartejados, queimados e enterrados em solo argiloso da região, com a participação de parentes e outras pessoas identificadas na denúncia, mas que não foram acusadas ainda. De acordo com o MPF, outras investigações serão conduzidas “a fim de esclarecer a autoria e participação dos demais agentes na prática da ocultação dos cadáveres e do próprio homicídio”. 

A denúncia do MPF cita os nomes de “Sirinha”, Edvaldo, “Guerão” e “Patuti”, que seriam os “demais agentes” envolvidos no caso. Sirinha é Elicley Oliveira da Costa e irmão de “Pelado”; enquanto Papa é cunhado dele, casado com a sua irmã Bete.

 

Dúvidas em aberto

Comunidade de São Rafael em Atalaia do Norte (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

A reportagem da Amazônia Real, que acompanha o caso desde o princípio, esmiuçou a denúncia do MPF, ancorada nas investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e Polícia Civil do Amazonas, e a confrontou com base nas entrevistas feitas com suas fontes ao longo da cobertura jornalística. A peça acusatória aceita pela Justiça Federal é baseada quase que exclusivamente na confissão de um criminoso. A agência considera que ainda existem lacunas em aberto não resolvidas. São elas:

  1. A denúncia cita a perseguição da fiscalização da EVU a “Pelado”, numa lancha motor 60 HP, no rio Itacoaí, por volta das 5h40 do sábado, 4 de junho. O réu estava acompanhado de mais dois homens: Franciney Lopes Andrade e Elicley, respectivamente padrasto e irmão de “Pelado”. Os três apontaram espingardas para Bruno e Dom, segundo relato de uma testemunha à Amazônia Real.  A denúncia afirma que Bruno filmou essas ameaças e que Jefferson confirmou o caso. Bruno levaria a denúncia no dia 6 à Polícia Federal (PF), com sede em Tabatinga (AM). Em depoimento, “Pelado” conta outra versão sobre esses fatos. Isso não indicaria que o crime foi premeditado?  
  1. No domingo, 5 de junho, Bruno e Dom visitaram a comunidade São Rafael para uma reunião previamente marcada com Manuel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”, que é tio do “Pelado”, mas ele não foi encontrado na comunidade. A preparação da emboscada aconteceu após a visita a São Rafael? A denúncia do MPF cita a palavra “emboscada”, mas não a descreve em detalhes.
  1. Segundo Jânio Freitas de Souza, o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 (9h20 no horário de Brasília) de domingo (5). Conforme Jânio, Bruno estava “avexado” (apressado) porque tinha uma reunião em Tabatinga com a PF [onde entregaria as provas, filmagens de Dom, de crimes ambientais de “Pelado”. Logo após essa visita, Bruno e Dom foram assassinados. Eles deveriam chegar em Atalaia do Norte às 8 horas. Que horas ocorreram as mortes?
  1. Onde estão o celular, o notebook e a câmera fotográfica do jornalista britânico Dom Phillips? Uma testemunha disse à reportagem que Dom registrou a rotina e as imagens dos indígenas da EVU para seu livro no período em que esteve acompanhando o trabalho da equipe. Onde foram parar esses registros? A morte do Dom foi pelo chamado “dano colateral”?
  1. Por que o MPF denunciou apenas três pessoas, ignorando as que ajudaram a ocultar os corpos queimados e esquartejados de Bruno e Dom? As pessoas que estão em liberdade por determinação da Justiça Federal passaram quatro horas cuidando da ocultação. São: Edivaldo, Elicley Oliveira da Costa, o “Sirinha”, Otávio, o “Guerão”, e “Patuti”. Segundo o delegado da PF Eduardo Fontes, todos são do “clã da família do Pelado”.  
  1. Por que o peruano Rubem Dario da Silva Villar, o “Colômbia”, comerciante da pesca e suspeito de ser o mandante dos crimes, preso por documento falso no dia 7 de julho, sequer foi citado na denúncia do MPF, embora ele seja um nome diversas vezes citado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja)?
  1. Afinal de contas, a PF conseguiu esclarecer quem é o “Colômbia”, o seu nome real, e qual é a sua nacionalidade? 
  1. Por que só na data de 22 de julho a PF fez buscas e apreensão de documentos na casa de “Colômbia”? Segundo testemunhas, o comerciante tem uma residência na cidade de Benjamin Constant, no Amazonas, vizinha de Atalaia do Norte, e seus parentes fugiram para o Peru após sua prisão 15 dias atrás.  
  1. Por que as relações entre pescadores ilegais, traficantes e invasores da Terra Indígena Vale do Javari e políticos da região nunca foram levadas a sério nas investigações? E também por que as investigações ignoraram inúmeras denúncias e mais relatos testemunhais dos indígenas, que acompanharam Bruno Pereira e Dom Phillips o tempo todo?
  1. Por que procuradores das cidades de Atalaia do Norte e de Benjamin Constant chegaram a participar da defesa dos agora réus no caso dos assassinatos?

 

“Tira a foto dele”

Bruno Pereira e Dom Phillips no Vale do Javari (Foto Gary Carlton/The Observer)

Para acusar Amarildo e Jefferson, o MPF se baseou na confissão deles como executores do crime na manhã do dia 5 de junho. Já a participação de Oseney, o “Dos Santos”, irmão de “Pelado”, é sustentada por menções feitas a ele no depoimento de testemunhas, cujos nomes foram preservados tanto pela investigação quanto pela denúncia do MPF.

O que chama a atenção na denúncia é que os procuradores dão crédito ao inquérito da PF, apontando que o motivo para o crime foi simplesmente porque o indigenista Bruno teria dito a Dom Phillips: “Tira a foto dele”, referindo-se a “Pelado” na manhã do sábado, 4 de junho, e “esse é o bote do invasor”, no dia 5, quando o indigenista passou na frente da comunidade do acusado, e tirado uma foto do barco.

A primeira frase, segundo “Pelado”, conforme consta na denúncia do MPF, teria sido dito por Bruno na varanda da casa de Raimundo Bento da Costa, o Raimundinho (tio de “Pelado”), onde o indigenista e Dom pernoitaram. No entanto, no início da manha do dia 4, “Pelado” e outras duas pessoas cruzaram com Dom e Bruno e com indígenas da EVU no rio, e fizeram ameaças exibindo armas em tom ameaçador. Neste momento, Dom fotografou “Pelado” e seus acompanhantes. Segundo a fonte da Amazônia Real, “Pelado” não falou com Bruno na varanda da casa de Raimundinho.

Embora o indigenista e “Pelado” tenham tido conflitos antigos – e frisado na denúncia do MPF -, era comum que a base da EVU ficasse ancorada no trapiche (porto) por questões logísticas, em frente à casa de “Raimundinho”. A distância entre a embarcação da EVU e a casa de Raimundinho era de centímetros porque o nível do rio Itacoaí estava cheio naquele período (início de junho).

Segundo a testemunha – que estava com Bruno e Dom nos dias que antecederam o assassinato – ouvida pela Amazônia Real sob a condição de não revelar seu nome, temendo mais ameaças, todos os dias em que a base da EVU esteve neste local “Pelado” foi avistado pela equipe, ora sozinho, ora acompanhado por outros pescadores ilegais de pirarucu e tracajá, prática vigiada e frequentemente denunciada pela EVU e por Bruno Pereira.

“Quando o rio está alagado, a gente costuma deixar o canoão da EVU na frente da casa do Raimundinho. Foi de lá que a equipe [de vigilância da Univaja] avistou “Pelado” na quinta e na sexta”, afirmou a testemunha.

Segundo pessoas ouvidas pela reportagem em Atalaia do Norte, Bruno mantinha boa relação já há alguns anos com Raimundinho. E era justamente o irmão de Raimundinho, Manuel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”, que Bruno deveria encontrar na comunidade São Rafael – último lugar onde a dupla foi vista antes da emboscada, como narrado na reportagem “Os minutos finais de Bruno e Dom em São Rafael”, publicada pela Amazônia Real.

Conforme essa testemunha, no sábado seguinte (um dia antes do assassinato), por volta das 5h30, Bruno, Dom e membros da EVU partiram em direção à base da Funai para pedir ao técnico responsável do órgão que avisasse a Força Nacional sobre a presença de “Pelado” naquelas imediações, considerando se tratar da TI do Vale do Javari. No caminho, encontraram “Pelado”, que estava acompanhado de mais dois homens: Franciney Lopes Andrade e Elicley, respectivamente seu irmão e padrasto. Eles estavam em duas embarcações: “Pelado” e o irmão em uma balieira, embarcacão típica da região, equipada com um motor 60 HP, e Franciney em um barco de pesca de pequeno porte. Ao cruzar com a equipe no rio, “Pelado” e Elicley teriam levantado armas em direção ao grupo em tom de ameaça.

“Era como se eles estivessem ameaçando a gente porque ele [o “Pelado”] sabia que a gente estava indo na base da Funai”, afirma a testemunha ouvida pela reportagem.

A testemunha não sabe informar se Vitor (como se chamaria o técnico da Funai com quem Bruno esteve em contato na base) tomou alguma providência. 

No dia do crime, por volta das 7 horas, “Pelado” e Bruno se cruzaram mais uma vez, antes da emboscada. Na ocasião, o indigenista chegou a tirar uma foto da embarcação de “Pelado” e ainda descreveu a imagem como “esse é o bote do invasor”. E, segundo o MPF, esse foi o estopim para que “Pelado” dissesse a Jefferson: “Lá vai o cara, bora matar ele?”. 

A Amazônia Real tentou contato com o advogado Edilson Tananta, que representa Amarildo dos Santos (o “Pelado”), mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta.

 

Veja o que diz a Univaja

Eliésio Marubo, advogado da Univaja, divulgou vídeo criticando o desfecho do inquérito e o teor da denúncia do MPF. Ele disse que o inquérito deixou de considerar informações de suma relevância.

“A autoridade não indicou quem é de fato o mandante. Nós entendemos que há mandante. Há informações que indicam participação de outras pessoas, como uma quadrilha e como mando. É necessário que a autoridade dê as respostas não só para as famílias das vítimas, mas para sociedade e paro mundo que tem acompanhado esse caso horrendo na nossa região”, disse ele (veja vídeo acima).

 

Motivo fútil?

Policiais federais com os restos mortais de Dom Phillips e Bruno Pereira (Foto: Avener Prado/Agência Pública)

A tese de um crime por motivo fútil é mais um capítulo de açodamento com que esse caso vem sendo conduzido pelas autoridades, a despeito de todas as evidências de que houve um crime premeditado, conforme narrado pela Amazônia Real ainda na terça-feira, dia 7 de junho, e nos dias seguintes. 

O desaparecimento de Dom e Bruno foi informado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e pelo Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) ainda em 6 de junho.  Pressionado, o governo federal enviou equipes da PF, da Marinha e do Exército, que só foram a campo a partir do dia seguinte. O Ministério Público Federal também dizia estar monitorando o caso.

“Pelado” foi preso no dia 8 de junho. Mas os corpos de Bruno e Dom só foram encontrados uma semana depois, quando decidiu confessar o crime. No dia 17 de junho, a Superintendência da PF, em Manaus, emitiu uma nota afirmando que “as investigações também apontam que os executores agiram sozinhos, não havendo mandante nem organização criminosa por trás do delito”.

A nota da PF foi duramente criticada, já que as investigações, que àquela altura ainda estavam no início, descartavam outras hipóteses para o crime. A tese de não haver indícios da existência de um mandante para o assassinato foi reforçada pelo superintendente da PF, Eduardo Fontes, em audiência pública ocorrida no dia 12 de julho, na Câmara Federal, no âmbito da Comissão Temporária Externa que acompanha as investigações do duplo assassinato. 

Nesta sábado (23), a Polícia Federal informou que transferiu os réus Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos” e Jefferson da Silva Lima, o “Pelado da Dinha”, do sistema prisional de Tabatinga para Manaus. Na capital amazonense, já estavam na cadeia da PF desde o dia 9 de julho, “Pelado” e “Colômbia”, que cumpre preventiva por falsificação de documentos. Após serem apresentados no Instituto Médico Legal (IML) para o exame de corpo de delito, “Colômbia” e “Pelado da Dinha” serão transferidos para o sistema prisional de Manaus. Os irmãos “Pelado” e “Dos Santos” continuaram presos na cadeia de PF.(Colaboraram Elaíze Farias, Kátia Brasil e Eduardo Nunomura)

 

09
Jun22

Na passagem da boiada do governista Ricardo Salles o desaparecimento do jornalista Dom Phillips e indigenista Bruno Pereira

Talis Andrade

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Parece que vão arranjar um bode expiatório para o desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e do brasileiro, perseguido pelo chefe boiadeiro da Funai, indigenista  Bruno Pereira, no Vale do Javari, onde "passa a boiada" do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. 

Antes do sumiço, Anne Moura, "guardiã da floresta", escreveu: 

"Recentemente, um grupo de garimpeiros invadiu uma aldeia na Terra Indígena Vale do Javari, oeste do estado do Amazonas, e obrigaram indígenas a beber água com gasolina e suco com etanol. Além disso, cometeram crimes de abuso sexual contra mulheres indígenas da aldeia, que fazem parte dos povos Kanamari e Tyohom-dyapa. Mas não pára por aí, em Coari, a exploração sexual de meninas e jovens mulheres e o favorecimento à prostituição é endossado por familiares e políticos.

As violências sofridas por mulheres na defesa da Amazônia também são demonstradas em dados alarmantes. De acordo com o Instituto Igarapé, 8 em cada 10 defensoras de direitos e do meio ambiente, sofreram alguma forma de violência enquanto atuavam na Amazônia brasileira, em 2021. A maioria delas, vítimas de violência motivadas por disputa pela posse de terra, exploração ilegal de madeira e minérios preciosos ou por causa da expansão do agronegócio. Violência moral e física são os tipos mais frequentes entre os casos reportados".

O chefe de Salles, Jair Bolsonaro falou como vidente ou provável pessoa mais bem informada:

Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça, tudo pode acontecer.  disse o presidente. Pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados, tudo pode acontecer. 

A jornalista e escritora Eliane Brum, internacionalmente conhecida fez uma indagação, que hoje considero uma denúncia:
 
"O que vocês entendem desta declaração oficial do Comando Militar da Amazônia? "...o Comando Militar da Amazônia (CMA) está em condições de cumprir missão humanitária de busca e salvamento, contudo as ações serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior."
 
Essa demora passou a ser comentada por importantes jornalistas brasileiros: Reinaldo Azevedo, Bernardo Mello Franco ("Antes tarde do que ainda mais tarde").
 
Tudo depende da burocracia. Presidente autoriza o ministro da Defesa que autoriza o comandante do Exército que autoriza o Comando Militar da Amazônia que autoriza fulano que autoriza sicrano que autoriza beltrano que autoriza fuão...
 
No dia 7 último, Eliane Brum voltou a alertar: "Na data de ontem a Marinha do Brasil ainda não havia iniciado as buscas e apenas 01 agente da Polícia Federal havia sido deslocado para a região".
 
Eis que de repente cai nas malhas da Polícia Federal um peixe pequeno. Reportagem de Kátia Brasil do dia 8 destaca o "furo":
 

"Um dia antes do desaparecimento do jornalista britânico e do indigenista, o pescador Amarildo da Costa de Oliveira, o ‘Pelado’, tentou intimidá-los apontando armas (no plural) para o grupo que combatia as invasões da TI Vale do Javari. Na imagem, momento da prisão de “Pelado” (Foto Reprodução TV Globo).

 

“Pelado” é peça-chave no caso de Dom Phillips e Bruno Pereira Misteriosa e secreta fonte informou: "Pelado é um dos caras mais perigosos da região"

 
Acrescenta Kátia Brasil: "Em coletiva na sede da Polícia Federal, em Manaus, o superintendente Eduardo Alexandre levantou a hipótese de o narcotráfico estar relacionado ao desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips. 'As investigações apuram o envolvimento de quadrilhas de tráfico de drogas na região. Estamos buscando saber se houve algum crime nesse desaparecimento', disse.
 

Além das invasões na TI Vale do Javari, o narcotráfico usa rotas dentro e fora da terra indígenas para escoar em embarcações carregamentos de drogas produzidas no Peru e na Colômbia. Uma fonte ouvida pela Amazônia Real afirma que Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado” [boi de piranha], tem envolvimento com o tráfico de drogas. “Ele (Pelado) é envolvido com o Janeo, Churrasco, Nei, Valmir Benjamin, Caboco, Colômbia, o peruano que comanda o tráfico na região”.

O Governo do Rio de Janeiro (Cláudio Castro) e o Governo Federal (Polícia Rodoviária Federal) realizaram invasões policiais militares no Jacarezinho e na Vila Cruzeiro, para matar miseráveis negros e mulatos, favelados traficantes de drogas. Jamais ousaram prender no Brasil de Dentro e no Brasil de Fora algum traficante de cocaína rico, algum milionário empresário garimpeiro e/ou traficante de madeira nobre. 

Pobre Brasil da "boiada": o tráfico de minério raros, nióbio, ouro, pedras preciosas,  produtos florestais.

 
Editores mais importantes jornais do mundo pedem Bolsonaro "faça mais"
 
 
Eliane Brum
@brumelianebrum
Editores dos mais importantes jornais do mundo e das mais notáveis agências de jornalismo pedem que Bolsonaro faça mais - muito mais - para encontrar Bruno Pereira e Dom Phillips, desaparecidos desde domingo no Vale do Javari.
 

Full list of signatories to the letter

Katharine Viner, editor-in-chief, Guardian News & Media

Sally Buzbee, executive editor, the Washington Post

Dean Baquet, executive editor, the New York Times

Sérgio Dávila, editor-in-chief, Folha de S.Paulo

Nancy Barnes, senior vice-president of news and editorial director, NPR

John Micklethwait, editor-in-chief, Bloomberg News

Julie Pace, SVP & executive editor, the Associated Press

Juan Forero, South America bureau chief, Wall Street Journal

Marina Walker Guevara, executive editor, Pulitzer Center

Rozina Breen, editor-in-chief and CEO, the Bureau of Investigative Journalism

Stephen Engelberg, editor-in-chief, ProPublica

Paul Webster, editor, the Observer

Jason Ukman, managing editor, Stat

Thiago Domenici, director, Agência Pública de Jornalismo Investigativo

Rhett Butler, founder and CEO, Mongabay

Peter Wolodarski, editor-in-chief, Dagens Nyheter

Roger Hodge, deputy editor, the Intercept

Felipe Maciel, executive director, epbr agency

Phil Chetwynd, global news director, AFP

Roula Khalaf, editor, the Financial Times

Emmanuel Colombié, Latin America director, Reporters Without Borders

Lynette Clemetson, director, Wallace House Center for Journalists

Quinn McKew, executive director, Article 19

Gregory Feifer, executive director, Institute of Current World Affairs

Lindsey Hilsum, international editor, Channel 4 News

Christina Lamb, chief foreign correspondent, Sunday Times

Krishnan Guru-Murthy, presenter Channel 4 News

Jon Lee Anderson, biographer and staff writer, the New Yorker

Leonardo Sakamoto, director, Repórter Brasil

Nelly Luna Amancio, editor-in-chief, OjoPúblico

Katia Brasil, executive director, Amazônia Real

André Petry, Editor-in-Cheif, Revista Piauí 

 

 

16
Mar21

Irmão de Pazuello foi acusado de participar de grupo de extermínio no Amazonas

Talis Andrade

A história de Alberto, irmão e sócio do general Pazuello, é um conto de  terror. Por Luis Felipe Miguel

Alberto Pazuello foi preso em flagrante, em 1996, sob a acusação de estuprar e torturar adolescentes e mantê-las sob cárcere privado; ele também responde, 25 anos depois, a um processo por homicídio ocorrido nessa época, em Manaus

Por Alceu Luís Castilho e Leonardo Fuhrmann /De Olho nos Ruralistas /Combate

Irmão e sócio do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, o empresário Alberto Pazuello foi acusado de participar nos anos 90 de “A Firma”, um grupo de extermínio que atuava em Manaus. Com a participação de policiais civis e militares e o apoio ou conivência de autoridades da segurança pública estadual, os primeiros esquadrões da morte surgiram durante a ditadura e foram precursores do que hoje muita gente chama de milícias.

Um texto publicado no Estadão, no dia 30 de maio de 1996, traz detalhes relevantes sobre a prisão de Alberto dois dias antes, em sua casa, em Manaus. Título: “Empresário é preso por estupro e tortura”. A repórter Kátia Brasil abriu a notícia da seguinte forma:

— Sexo, drogas e videoteipe. Assim vivia o empresário Alberto Pazzuelo, 42 anos, em sua residência, numa área nobre de Manaus, com adolescentes mantidas em cárcere privado. Elas eram atraídas com anúncios em jornal oferecendo R$ 350 para copeiras e domésticas.  

Há um equívoco na grafia do sobrenome, mas se trata mesmo de Eduardo, irmão mais velho de Alberto Pazuello. Nos anos 70, quando o ministro da Saúde ainda era adolescente, ambos eram sócios em uma financiadora no Rio, a S. B. Sabbá, ligada a outro clã amazonense. E eles continuam sócios, agora de três empresas. Uma delas, J. A. Leite Navegação, com longa trajetória nos rios do Amazonas, onde os Pazuello têm histórico familiar e empresarial relacionado à logística.

POLÍCIA APREENDEU PASTA DE COCAÍNA, ARMAS E FITAS COM CENAS DE SEXO

O texto do Estadão, disponível somente no acervo do jornal, continuava descrevendo o flagrante. Alberto estava com as adolescentes J.F.C., de 14 anos, e J.L.F.C., de 17 anos. A vítima mais velha estava beijando os pés do empresário quando a polícia entrou, conforme o relato da delegada. “Com ele, foram apreendidas uma escopeta, pistola automática, cocaína em pó e pasta, maconha, uma filmadora e fitas com cenas de sexo das garotas”.

Alberto Pazuello foi para o presídio sob a acusação de porte de drogas e de armas, estupro, atentado violento ao pudor e cárcere privado. Era a segunda vez em que ele era preso. No ano anterior, contava o Estadão em 1996, outra adolescente de 17 anos tinha sido mantida em cárcere privado: “O empresário a deixou cinco dias com os braços amarrados ao exaustor da sauna da casa. A mão direita da jovem teve de ser amputada”.

O segundo flagrante foi possível porque duas pessoas — uma delas, uma adolescente de 14 anos — fugiram da mansão, um dia antes da prisão, e denunciaram Alberto. “C.E.P. foi estuprada, já temos o laudo”, dizia à reportagem uma segunda delegada, Catarina Torres, da Delegacia de Crimes Contra a Mulher. Na 7ª Delegacia do Amazonas, então comandada por Vera Lúcia Oliveira, J.L.F.C. se viu em um vídeo com lágrimas nos olhos: “Ele me forçava com uma arma e me torturou”.

Seriam só crimes praticados por um indivíduo, até hoje sócio do irmão em empresas da família, ou os fatos estavam ligados a um determinado contexto político? O texto da Folha, assinado por André Muggiati dias após a notícia do Estadão, e investigações posteriores sobre Alberto Pazuello mostram que a segunda hipótese foi a mais levada em conta na época.

As notícias do Estadão, em 30 de maio de 1996, estavam relacionadas: Alberto Pazuello era investigado em várias frentes. (Imagem: Reprodução)

 

Título da Folha no dia 4 de junho de 1996: “Testemunha liga empresário a grupo de extermínio do AM“. A grafia do sobrenome continua errada, mas novamente se trata do irmão e sócio do ministro. Vejamos o início do texto:

— Uma testemunha relacionou o empresário Alberto Pazzuelo, preso desde o último dia 28, a um grupo de extermínio que, segundo ela, atua em Manaus (AM). A testemunha, cujo nome vem sendo mantido em sigilo, depôs na semana passada na polícia e no Ministério Público. É uma ex-empregada, que trabalhou na casa de Pazzuelo por três meses. Ela identificou oito policiais como integrantes do grupo, auto-intitulado “A Firma”.

O que era A Firma?

CRIMES FORAM INVESTIGADOS POR COMISSÃO DA CÂMARA

Em 1996, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados fez uma série de viagens de apoio às investigações contra essas quadrilhas. Os parlamentares tiveram destaque nas investigações contra a Scuderie Le Cocq, criada no Rio de Janeiro e que na época tinha forte atuação no Espírito Santo. O presidente da comissão era o então deputado federal Hélio Bicudo (PT-SP), falecido em 2018, que havia se destacado nos anos 70 como promotor de Justiça no combate ao esquadrão da morte de São Paulo.

Foi o próprio Bicudo que esteve em Manaus, como líder da caravana da comissão. A situação era vista como muito grave pelos próprios parlamentares. O ex-deputado federal Nilmário Miranda (PT-MG) lembra que o grupo tinha vínculos com a elite econômica do município e diversos tentáculos dentro dos três poderes do estado. Havia suspeitas de ligação do próprio secretário de Segurança Pública — hoje também falecido — com a Firma, além de pelo menos um deputado estadual. Um radialista ligado a eles divulgava as ações do grupo.

Como acontecia com outros desses grupos, a criação vinha sob o argumento de combater a criminalidade fora do sistema judicial. No entanto, como lembra Miranda, os próprios grupos passam a cometer outros crimes. A Firma era acusada de manter uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia. Um desembargador chegou a ser apontado como um dos clientes da rede.

Hoje procurador de Justiça aposentado, o promotor Carlos Cruz teve papel central nas investigações contra o grupo. “Foi um caso muito difícil, a gente recebia muitas ameaças e teve até ciladas”, conta. O apoio da comissão nacional e até de organismos internacionais foram importantes para o prosseguimento das investigações. “O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz em 1980, esteve em Manaus e aproveitou para se reunir comigo para falar sobre o assunto”, recorda.

EX-EMPREGADA CONTOU TER VISTO DOIS ASSASSINATOS NA CASA DO EMPRESÁRIO 

O nome de Alberto Pazuello apareceu nas investigações pela primeira vez graças ao depoimento a Cruz de uma ex-empregada de sua casa. Ela apontou um compartimento secreto na casa do empresário, que seria usado para guardar grandes quantidades de drogas. E contou ter presenciado dois assassinatos no local. A polícia encontrou diversas marcas de balas nas paredes do quintal. A trabalhadora reconheceu oito policiais como integrantes do grupo.

Quando a testemunha depôs, Alberto estava na cadeia, durante inquérito conduzido pelo delegado Wilsomar Grana. O Jornal do Commercio do dia 23 de junho de 1995 fez o seguinte relato (novamente o sobrenome Pazuello está com grafia incorreta) sobre a prisão dele, no dia anterior, em sua mansão no Parque das Laranjeiras:

— Ao dar voz de prisão a Alberto, este recebeu os policiais civis a bala, e a polícia militar enviou ao local uma tropa da Polícia de Choque, que conseguiu a mansão [sic], desarmar e deter o revoltado Pazzuello.

Enquadrado por porte de armas e de drogas, Alberto Pazuello era apresentado nessa reportagem como o dono da firma J. Leite. É a mesma empresa, a J. A. Leite Navegação, da qual ele se tornou sócio no ano passado, junto com o ministro Eduardo Pazuello e outros irmãos, como mostrou a Agência Sportlight.

O empresário foi solto no mesmo dia, por decisão de um desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ele ficou foragido por dez meses, até ser preso novamente em maio do ano seguinte, graças a uma denúncia anônima. Na ocasião, o empresário se declarou “inocente” e afirmou que as pessoas estavam “mentindo para prejudicá-lo”.

Do período, resta um processo que Pazuello responde no 2º Tribunal do Júri de Manaus por homicídio, sem qualquer decisão nesses 25 anos. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério Público estadual do Amazonas, um dos motivos para a demora foi que alguns documentos do processo foram perdidos e estão tendo de ser restaurados nos autos.

ALBERTO É SÓCIO DE EDUARDO PAZUELLO DESDE A DITADURA

Além de irmãos, o empresário e o general são sócios em pelo menos três empresas, duas fundadas e uma adquirida pelo pai deles, o empresário Nissim Pazuello: a J.A. Leite Navegação, a Petropurus Representações e Comércio de Petróleo (uma rede de postos de combustível) e a N Pazuello E Cia Manaus. Além deles, outros irmãos e parentes têm participação nos negócios.

A J. A. Leite foi criada em 1966, mas a última entrada de Eduardo e Alberto Pazuello na sociedade ocorreu no ano passado. O mesmo ocorreu com a N. Pazuello e Cia, criada pelo pai Nissim Pazuello. Em novembro de 1971, Nissim e os filhos — entre eles Eduardo e Alberto Pazuello — apareciam como sócios da S.B. Sabbá – Crédito, Financiamento e Investimento S/A., controlada por Samuel Benayon Sabbá.

Em uma ata, a família aparece representada na empresa por Artur Soares Amorim, chefe de gabinete do ministro do Planejamento, Roberto Campos, durante o governo Castello Branco. Era o início da ditadura no Brasil — o regime apoiado pelos clãs Pazuello e Sabbá — e as famílias multiplicavam seus tentáculos empresariais.

Com pouco mais de 70 anos, Pazuello leva uma vida discreta no Rio de Janeiro, com a maioria das suas redes sociais fechadas e sem menções ao irmão mais famoso. É possível ver algumas críticas antigas a políticos de esquerda, como a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a ex-senadora Marina Silva (Rede). E, principalmente, muitas menções ao seu time do coração, o Flamengo. Outro ponto em comum com o irmão mais novo, que chega a dar entrevistas com uma máscara rubro-negra.

Tanto Alberto Pazuello — por meio de uma das empresas da família — como o ministro Eduardo Pazuello foram procurados pela reportagem para falar desses casos policiais e da história empresarial da família. Até o momento não houve retorno.

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