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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

29
Jul20

Há poucos negros em quadros de direção

Talis Andrade

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III -'Atuação policial contra negros chegou ao limite da irracionalidade', diz reitor da faculdade Zumbi dos Palmares

Leandro Machado entrevista José Vicente

 

BBC News Brasil - Dentro da própria estrutura do Estado há poucos negros em quadros de direção, não?

Vicente - Exato. Se pegarmos a extrema-direita conservadora, que é excludente por natureza e hoje governa o país, não há negros no primeiro, no segundo nem no terceiro escalões. Não há negros nos cargos comissionados, nas subsidiárias, nas estatais.

Mas se você vier para a cidade de São Paulo, por exemplo, governada pelo PSDB de centro-esquerda, também não há negros nos primeiros escalões — e isso porque estamos em uma cidade diversa.

Não temos um governador negro no Brasil.

Mesmo na esquerda, com Lula na presidência ou Fernando Haddad em São Paulo, não teve negros também — quando muito, havia um só.

Nas estruturas partidárias também não há negros em cargos de direção. O mesmo com o Judiciário e no Ministério Público.

 

BBC News Brasil - Nas varas de justiça criminal, pelo menos em São Paulo, também é muito difícil encontrar juízes negros.

Vicente - Por outro lado, a grande maioria dos presos no Brasil é negra. É esse racismo e essa discriminação sinuosa que todo mundo nega.

 

BBC News Brasil - Hoje a população negra tem mais acesso a cursos superiores por causa de programas como as cotas e o Prouni. Mas uma das questões que se coloca é o acesso à pós-graduação e à pesquisa científica. Como o sr. enxerga hoje esse setor?

Vicente - São duas coisas: para fazer pesquisa, a pessoa precisa ter meios de sustentação, insumos financeiros. Quem tem esses recursos é de classe média para cima.

O negro, mesmo aquele que chega à universidade, continua na periferia, com todos os limites e dificuldade. Quando se forma, ele vai fazer uma pós-graduação ou vai precisar arrumar um emprego para sustentar a família? A grande maioria vai atrás de emprego.

Quem continua tem muita dificuldade de conseguir bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), por exemplo. Na estrutura da Capes não há negros. Quem acessa os recursos são aqueles que integram esse grupo, por ser branco ou de classe média.

Quando há uma política pública, como as cotas na pós-graduação, elas não são implementadas integralmente ou acabam revogadas, como fez o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub (a medida de Weintraub acabaria revogada dias depois). O governo mostrou um grau ostensivo de oposição à política pública. O que ele quis dizer foi: 'eu não quero que esse público acesse o benefício'.

 

BBC News Brasil - Como o sr. avalia as recentes expulsões de estudantes que fraudaram as cotas raciais em universidades públicas?

Vicente - É um lampejo de esperança no sentido de garantir que a lei seja cumprida. Ela é uma lei de inclusão racial para negros, precisa ser cumprida. Qualquer um que atentar contra a legislação tem de ser punido, pois cometeu um crime.

O que assistimos até agora são pessoas loiras e de olho azul entrando em cotas para pessoas negras. Até então, não havia coragem por parte das universidades de se tomar uma medida contra essas fraudes.

 

BBC News Brasil - A lei sobre o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira nas escolas, de 2003, está sendo cumprida?

Vicente - Ela não é cumprida nem sob a ordem do Exército, da Marinha e da Aeronáutica… (risos).

Mais de 15 anos depois da aprovação, 80% das escolas públicas e privadas não cumprem a lei. E não acontece nada com o gestor da escola, com o secretário de Educação, com prefeito nem com o governador.

Não há qualquer fiscalização ou cobrança por parte dos órgãos de controle, como Ministério Público Federal, Defensoria, Assembleias ou Câmaras Legislativas.

Você até consegue construir um marco legal com muito esforço político, mas o próprio Estado não cumpre.

 

BBC News Brasil - Como a opinião do o sr. sobre o governo Bolsonaro nas questões raciais, enfrentamento ao racismo e políticas públicas para a população negra?

Vicente - O governo Bolsonaro não tem qualquer ação nessa área. Pelo contrário, o pouco que existe tem sido destruído ou desfigurado, seja por medidas administrativas, como decretos, seja com cortes no orçamento.

A própria Fundação Cultural Palmares, que é um organismo que implementa e reconhece os territórios quilombolas, neste ano terá o menor orçamento dos últimos anos. Hoje, os quilombolas e os indígenas estão morrendo por covid-19. O que o governo fez? Cortou o envio de água potável e equipamentos de higiene para essa população.

Eu digo que a senha do comportamento do governo nessa área já estava clara antes da eleição, quando Bolsonaro afirmou que os quilombolas pesavam 'sete arrobas' e que 'não serviam nem para reprodução'. Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou (durante a campanha eleitoral de 2018) que um dos grandes problemas do país era a 'indolência dos índios' e a 'malandragem dos negros'.

Ou seja, eles vieram a público para transgredir e violar a respeitabilidade do cidadão brasileiro negro. É uma violência e uma agressividade.

 

BBC News Brasil - Como o sr. vê a presença do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo?

Vicente - Ele é o que se chama de boi de piranha. Não tem muito o que comentar.

A bem da verdade, todos os governos agem dessa forma. Por exemplo, eles criam um 'conselho do negro' e colocam um negro nesse órgão. Aí, toda vez que alguém leva uma reivindicação, o governo responde: 'olha, temos aqui um espaço só para o negro, temos até um negro na direção'.

Mas, quando você pega o orçamento desse órgão, dá para pagar só o cafezinho.

Pelo menos, nesse sentido Bolsonaro é franco e honesto. Ele diz: 'não gosto de vocês mesmo, não tenho nada a ver com isso, é tudo vitimização, mimimi, todos são iguais e que vença o melhor'

 

 BBC News Brasil - Como surgiu a Universidade Zumbi dos Palmares?

Vicente - Vivíamos o período posterior à Constituição de 1988, que criou o crime racial. Os princípios das nossa nação passaram a repudiar o racismo, dizendo que a igualdade racial era o objetivo. Pensamos: 'agora vai'. Mas essa igualdade nunca chegou.

Naquela época, os negros eram 3% dos alunos no ensino superior. A USP tinha quatro professores negros. A polícia e esquadrões da morte faziam um estrago na juventude negra.

Nós éramos estudantes universitários negros, todos oriundos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Nossos professores diziam que o jovem precisa ter ambição para intervir na sociedade e mudar seu entorno.

Nos deixamos tomar por essas cantilenas. No TCC, nosso grupo conheceu as universidade negras americanas. Fui aos Estados Unidos, a convite da embaixada, para conhecer algumas delas. Fui à Universidade de Howard, em Washington.

Na hora que vi a universidade, e conheci as personalidades que passaram por ela, fiquei embasbacado. Pensei: 'vamos criar uma coisa assim no Brasil'.

Claro que sempre vem aquela pergunta: 'e quanto você tem no bolso para fazer isso?' Eu tinha um vale-transporte... (risos)

No final do curso, uma meia-dúzia topou construir o projeto, em 1998. A universidade surgiu de uma forma romântica, artesanal… Era uma ideia na cabeça, uma sola de sapato meio gasta e muita lábia para construir uma universidade negra no Brasil. Imagina você que maluquice… Abrimos as portas em 2004 e eis que estamos aqui até hoje.

Nossa experiência mostra que é fácil resolver a questão do negro no Brasil. Se com um vale-transporte nós construímos uma universidade, imagina se a sociedade e os governos colocassem a questão racial como uma prioridade.

Ao mesmo tempo, nós somos a única universidade negra na América do Sul, quando deveria existir pelo menos uma em cada capital.

Acho que a Universidade Zumbi dos Palmares mostra que existem meios de resolver esses problemas, pois definimos a força e resiliência dos negros brasileiros de construir pontes e caminhos alternativos.

Os meninos do curso de Direito aqui da Zumbi passam na prova da OAB como os da USP. Ou seja, se você colocar condições mais ou menos equilibradas, todos têm talentos e habilidades para se transformar em grandes pessoas e grandes profissionais. Nosso país abre mão disso, joga as pessoas na lata de lixo. Todos perdem quando o racismo cria essas barreiras.

 

BBC News Brasil - O sr. é esperançoso de que esse cenário possa mudar?

Vicente - Acredito nessa juventude de hoje. E passei a acreditar mais nela, pois as ferramentas tecnológicas possibilitam algo que eu não tinha na minha época: a capacidade de construir redes, de poder falar. Um dos limites para nós era não ter um canal de fala, não ter interlocução.

Esses caras de agora estão dizendo na lata, eles têm canal no Youtube, têm Instagram. Hoje, há uma juventude negra muito qualificada. E ela está falando, publicizando e construindo redes.

Mesmo a sociedade racista e elitizada não vai conseguir ludibriá-los, como ocorria muitas vezes com minha geração. Antes, a elite falava em meritocracia ou manutenção do status quo. Dizia: 'a situação vai melhorar quando o bolo crescer, daí a gente pode dividi-lo com vocês'. Muita gente acreditava nesse discurso.

Mas com essa juventude de hoje esse papo não cola mais.

 

04
Dez19

A polícia de Doria acabou a festa na favela com balas de borracha, bombas de gás e cassetetes de ferro

Talis Andrade

A violência policial massacrou nove jovens

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Na madrugada de domingo (1), nove jovens morreram pisoteados em Paraisópolis, favela na zona sul de São Paulo. As vítimas tinham de 14 a 23 anos e estavam em um evento de funk que acontece todo fim de semana no local. A festa foi atacada brutalmente por policiais militares, que encurralaram os moradores da área e abusaram da violência, com ataques de cassetete, balas de borracha e bombas de gás. Apesar da tragédia, o governador do estado de São Paulo, João Doria, afirmou que o trabalho das forças de segurança foi correto.

Por isso, a Bancada do PT na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) cobra respostas e providências do governo estadual sobre as investigações da tragédia. Em reunião na Alesp nesta terça-feira (3), os parlamentares petistas expressaram a revolta com o excesso de força dos policiais que agiram com truculência. Vídeos do massacre mostram agentes atacando moradores indefesos.



@J_LIVRES
Massacre em #paraisopolis. Os PMs encurralaram os jovens, nas vielas, espancaram, atiraram bombas. Foram às últimas consequências. Mataram os meninos que estavam dançando no baile funk.

Estava marcada para a manhã desta terça, uma reunião dos parlamentares do PT com o procurador-geral de Justiça de SP, Gianpaolo Smanio. Os deputados tinham a intenção de cobrar uma investigação profunda do massacre, deixando de lado as “versões malucas” dadas pelos policiais e com foco nos depoimentos dos moradores que foram encurralados.

O deputado Enio Tatto afirmou que a bancada já apresentou um requerimento para convocar o secretário de segurança pública do estado de São Paulo, responsável por dar explicações sobre a tragédia. Tatto declarou que “não se pode naturalizar essas mortes”. Os petistas reiteraram que vão tomar posição e vão fazer o enfrentamento aos órgãos públicos.

 

 

03
Dez19

Em Paraisópolis foi genocídio. Bolsonaro, Moro e Doria são responsáveis

Talis Andrade

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por Raimundo Bonfim

A ação criminosa da Polícia Militar no baile funk na madrugada de domingo na favela Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, que resultou no assassinato de 9 jovens e em 7 feridos, é resultado da política de estímulo à violência policial. Lembremos que o ministro Sérgio Moro, com o projeto de excludente de ilicitude, quer dar às polícias licença para matar. Se o projeto já tivesse aprovado, os policiais envolvidos na ação em Paraisópolis poderiam alegar que se encontravam com medo, foram pegos de supresa ou que estavam sob violenta emoção, e assim se livrarem de qualquer punição. 

Assim como Moro, o presidente Bolsonaro quer armar a população, como se isso fosse a solução para combater a violência. Só faltam argumentarem que se as 5 mil pessoas presentes no baile funk tivessem armadas teriam evitado a tragédia. 

O governador do estado de São Paulo, João Doria, já disse que é para atirar e matar, e que primeiro atira, depois pergunta quem é. Ou seja, a matança desses jovens indefesos é mais um ato de uma deliberada política de extermínio da população pobre, jovem, negra e periférica, infelizmente com respaldo de uma boa parcela da classe média branca e das classes dominantes. 

As cenas da ação dos agentes de Estado gravadas e divulgadas pelos moradores provam os requintes de crueldade contra pessoas sem oferecer nenhum perigo ou resistência. Apenas exercitavam o direito à cultura e ao lazer. Foram vitimas de uma emboscada. Policiais dispararam gás lacrimogêneo, balas de borracha, além de garrafas de vidros, coronhadas, tapas, socos e pontapés. Há muitas denúncias de tortura. O que ocorreu não foi confronto. Foi genocídio mesmo. 

O governador do estado de São Paulo João Doria deve ser responsabilizado pela morte de Paulo Oliveira dos Santos (16 anos), Bruno Gabriel dos Santos (22 anos), Eduardo Silva (21 anos), Denys Henrique Quirino da Silva (16 anos), Mateus dos Santos Costa (23 anos), Gustavo Cruz Xavier (14 anos), Gabriel Rogério de Moraes ( 20 anos), Dennys Guilherme dos Santos Franco (16 anos) e Laura Victória de Oliveira (18 anos). 

Já passou da hora de enfrentarmos essa política de extermínio contra o povo pobre e a juventude. Ações de repressão e assassinatos de jovens em favelas e periferias têm sido constantes no estado de São Paulo. Estamos diante do desmonte do Estado voltado para o bem-estar social. Em contrapartida, cresce as ações de repressão e matança em massa, como está promovendo o governo Bolsonaro e seus aliados. 

O caminho passa, principalmente para a juventude, por políticas de cultura, lazer, educação, emprego e inclusão social. Não se pode ignorar que o funk é expressão da arte de milhares de jovens nas favelas e periferias - local onde o Estado só chega para matar, como fez na favela Paraisópolis. 

Estima-se que mais de 2 milhões de pessoas sobrevivam em favelas na região metropolitana de São Paulo. Se o Estado não dota esses territórios de serviço públicos, como edução, saúde, saneamento, cultura e lazer, que ao menos deixe essa população se divertir em paz. Sem violência. Basta de genocídio! É preciso reagir e denunciar. Não à barbárie!

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03
Dez19

A tragédia de jovens empurrados pela PM até matarem-se uns aos outros

Talis Andrade

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por Paulo Moreira Leite 

Os vídeos sobre o massacre de jovens em Paraisópolis devem ser vistos como aqueles  imponentes murais que costumam ser exibidos  nos melhores museus do planeta.

Empurrados para a morte por pisoteamento a golpes de cassete, bombas e gás, os gritos e movimentos de sofrimneto sem fim daquela massa humana dizem tudo o que é preciso saber sobre as tragédias do Brasil de nosso tempo.

Forçados a matar-se uns aos outros por esmagamento, única forma de tentar escapar da própria morte, jovens pobres do país são conduzidos a um salve-se quem puder aonde nem todos perecem -- mas a rigor ninguém se salva. Nem os que tiveram a sorte de permanecer vivos.

Agora que ficou demonstrado que a principal herança do espetáculo da Lava Jato foi um país sem empregos, a economia destruída e  um Judiciário partidarizado, cabe reconhecer que neste fim de semana a periferia da maior cidade brasileira caminhou numa treva sem registro nos livros de história.

Atravessamos a fronteira na qual a morte violenta de inocentes torna-se a grande moeda de troca da luta política. Pois era isso -- cadáveres -- que a PM sabia que iria encontrar quando foi para cima da juventude em Paraisópolis, encurralando centenas, quem sabe milhares, contra o muro e o asfalto de becos sem saída.

Em nova erosão do  Estado Democrático de Direito, os cadáveres empilhados de nove garotos -- 14 a 23 anos -- valem como troféus num morticínio em praça pública, sem julgamento e sem piedade, a certeza de impunidade absoluta.

Houve uma época em que o Estado brasileiro  retirava garotos que residiam em abrigos de menores para executá-los na madrugada.

Agora, mata-se jovens que tentam ser jovens -- o que inclui se divertir, namorar, embrigar-se e cometer transgressões.

Num torneio de morticínios, João Doria e Wilson Witzel, governadores dos mais influentes estados brasileiros, procuram abrir seu caminho no país de Jair Bolsonaro, de quem disputam a herança.

Não há a menor preocupação com a necessidade de cultura dos jovens pobres e pretos.

Nem uma promessa -- fugidia que fosse -- de esperança de um destino melhor. Vivem largados, entre a pressão do tráfico e a falta de oportunidades reais na vida. Fora isso, nada. Apenas a morte.

Alguma dúvida?

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03
Dez19

O massacre de Paraisópolis e a nossa covardia

Talis Andrade

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por Renato Rovai

Mataram oito meninos e uma menina em Paraisópolis, São Paulo. Todos entre 14 e 23 anos. Assassinados pelo fascismo e pela violência policial. Pelo dedinho do Estado que atira na cabecinha. E nós? Que fazemos? Vamos tomar uma cerveja com os amigos e reclamar da vida e dos dias ruins que estamos vivendo?

Estamos anestesiados esperando a próxima chacina? Estamos esperando o morro descer? Estamos culpando o povo pela situação de merda que estamos passando, quando na verdade foi majoritariamente a elite e a classe média deste país que pediu a barbárie?

Nossos sindicatos, ONGs, artistas, intelectuais, estudantes, meios de comunicação vão ficar olhando jovens de periferia serem assassinados assim? Vão ficar esperando que a galera se vire sozinha?

É esta a nossa noção de solidariedade, de fraternidade e de defesa dos Direitos Humanos e de Justiça Social?

Cadê a galera chamando atos? Cadê artistas fechando teatros em protesto? Cadê a Paulista toda usando preto e gritando Luto por Paraisópolis? Cadê sindicatos parando o trânsito no Morumbi pra chamar a atenção daqueles que ali do lado podem fazer muito mais por esses meninos e meninas?

Vai passar batido? Não é com a gente? Não são nossos filhos, sobrinhos, primos?

Ou vamos esperar um movimento que exploda de forma desorganizada e complique ainda mais a complicada situação democrática?

Paraisópolis é a nossa vergonha e o rosto escroto das opções que o país tem feito, mas também é a cara da nossa covardia. Nós continuamos calados. Pasmados.

Não deveria ser assim. Não deveria ser assim.

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02
Dez19

A lista dos mortos na chacina da polícia de Doria, que considera o baile funk "um cancro que destrói a sociedade"

Talis Andrade

Nove pessoas morreram pisoteadas na ação da polícia na comunidade da Zona Sul de São Paulo na madrugada deste domingo (1º)

 

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Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos


Famílias começaram a reconhecer os corpos das nove vítimas que participaram de um baile funk na comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, na madrugada deste domingo (1º), depois de uma perseguição policial, segundo a Polícia Civil.
A primeira vítima a ser reconhecida é Marcos Paulo Oliveira dos Santos. Tinha 16 anos, era estudante e morava no Jaraguá, Zona Norte de São Paulo. De acordo com a família, foi a primeira vez que Marcos foi ao baile funk de Paraisópolis. A família não sabia que tinha ido ao baile. Ele disse para a avó que ia comer uma pizza com os amigos. O mais jovem tem apenas 14 anos, Gustavo Cruz Xavier. 

 

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Denys  Henrique Quirino da Silva, 16 anos 


Segundo o Corpo de Bombeiros, os nomes dos jovens mortos:

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos
Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos
Eduardo Silva, 21 anos
Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos
Mateus dos Santos Costa, 23 anos
Gustavo Cruz Xavier, 14 anos
Dennys Guilherme dos Santos Franca,16 anos                                                                                              Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos
Luara Victoria de Oliveira, 18 anos

As vítimas que estão internadas são:
Miryan de Araújo Macario (lesão na perna)
Giovanna Ferraz da Silva (lesão no rosto)

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Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos

Dennys Guilherme postou em rede social que estava no baile. "Hoje eu tô inspirado, vou mandar o magrão de esquina a esquina e dar um tapa na cabeça da sua vó, não quero saber de nada, meninas hj o pai vai tá online, vou surfar mais que o Medina."

Terrorismo policial

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Gustavo Cruz Xavier, 14 anos

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha publica hoje que em dezembro de 2016, quando venceu a disputa para a Prefeitura de São Paulo, Doria, definiu o pancadão (baile funk)  como  "um cancro que destrói a sociedade".

"A cidade é um lixo vivo. O pancadão [baile funk] é um cancro que destrói a sociedade. O pancadão é administrado pelo PCC  [Primeiro Comando da Capital]", disse o então prefeito eleito em evento na Fecomercio-SP.

Paraisópolis é a segunda maior comunidade da cidade, com 100 mil habitantes. De acordo com a polícia, agentes do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) realizavam a Operação Pancadão.
O baile tinha cerca de 5 mil pessoas.

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Luara Victoria de Oliveira, 18 anos


A mãe de uma adolescente de 17 anos que estava no local, e que foi agredida com uma garrafa, disse que os policiais fizeram uma emboscada para as pessoas que estavam no baile.
A jovem descreveu o momento em que foi atingida. "Eu não sei o que aconteceu, só vi correria, e várias viaturas fecharam a gente. Minha amiga caiu, e eu abaixei pra ajudá-la. Quando me levantei, um policial me deu uma garrafada na cabeça. Os policiais falaram que era para colocar a mão na cabeça."

 

16
Set18

Tirando o Rio do atraso. Carta do PT Jovem à Marcia Tiburi governadora

Talis Andrade

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Desde o golpe em 2016, que roubou de nós, a presidenta que elegemos, o Brasil vem atravessando crises profundas e ataques aos trabalhadores e juventude.

 

A reforma do ensino médio imposta pelo ilegítimo Temer ataca nosso acesso à uma educação de qualidade. O acesso às universidades federais se torna cada vez mais escasso aos mais pobres desse país.

 

As condições de vida pioraram, assustadoramente, para os brasileiros. O genocídio da juventude negra e pobre continua crescendo cada dia mais – só no bairro Vale Verde, em Volta Redonda, em 15 dias, foram 6 jovens mortos. Resende passa por ondas profundas de violência, nunca antes registrada na história da cidade. Em Angra, o crime organizado vem tornando a cidade refém da violência tanto por policiais quanto dos próprios traficantes.

 

O desemprego no Brasil chega à marcas absurdas, onde em Volta Redonda, por exemplo, milhares de jovens saem da cidade para tentar a vida em outros locais, em busca de melhores empregos e condições de vida.

 

Os estaleiros no Rio foram destruídos, os serviços públicos vem sendo sucateados, a educação agoniza e a juventude se vê sem perspectiva nenhuma de futuro, principalmente em nosso estado.

 

Para nós, jovens, na questão estadual, inicia-se por combater o plano econômico do arrocho colocado pelo acordo TEMER-PEZÃO, que junto com a fajuta Lava Jato, destroem todo o setor público, cassam os direitos que devemos ter acesso, e nos jogam num caminho de destruição de nossas vidas.

 

Esta a nossa luta. Que passa por uma candidatura que seja ponto de apoio e também voz daqueles que mais sofrem nesse estado – trabalhadores, jovens, mulheres, negros, LGBTQ+ – que se vêem hoje oprimidos por uma intervenção militar, fruto do desenvolvimento do golpe em 2016, que só aumentou os índices de violência no estado e deteriora nossas vidas.

 

Queremos a ampliação da UERJ para mais cidades do sul fluminense, e uma integração estadual no qual a juventude possa se locomover, pelo estado, sem hoje ter que gastar mais de cem reais para ir ao centro do Rio e voltar. Isso nos isola do acesso à cultura de qualidade produzida no centro, de ter acesso a museus, bibliotecas, cinemas, etc.

 

Queremos a FAETEC forte, com cursos profissionalizantes para que possamos entrar no mercado de trabalho, um governo que ajude na fiscalização de empresas como a CSN que a cada dia mais, devido a irregularidades na segurança, mata trabalhadores

 

Nos dirigirmos à companheira Márcia, por acreditar que uma candidatura petista tem como perspectiva esses combates!

 

Márcia Tiburi governadora para combater o plano Temer/Pezão, combater a intervenção militar e garantir acesso à educação, saúde, empregos e cultura de qualidade à juventude!

 

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Juventude Revolução do PT – Volta Redonda e Região Sul Fluminense.

 

19
Jul18

A mais longa duração da juventude

Talis Andrade

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É na ação que vislumbramos
“A Mais longa duração da Juventude”

A emocionante narrativa de Urariano Mota envolve o leitor, não importa a idade, basta ter espírito jovem e o sonho de um amanhã melhor.


Nas páginas deste romance de combate é contada a verdade íntima que atingiu em cheio os jovens que atravessaram a ditadura brasileira, ou como descrito na obra:

“E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência ao fugaz.

O escritor faz uma intersecção precisa e emocionante do tempo literário e político: o amor, a militância e o sexo em uma memória histórica que vai de 1970 a 2017, onde a imortalidade é construída na rebeldia que resiste.

“Nós só vivemos enquanto resistimos”


Características do Livro:
Livro: A Mais Longa Duração da Juventude
Autor: Urariano Mota
Prefácio: José Carlos Ruy
Categoria: Romance / História / Política
Editora: LiteraRUA
Páginas: 320
Dimensões: 16X23 cm.
ISBN: 978-85-66892-13-0
Ano: 2017

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04
Jul18

França: morte de jovem por policial desencadeia tumulto em bairro pobre de Nantes

Talis Andrade

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A polícia mata, e os brasileiros covarde e passivamente aceitam, sem nenhum protesto nas ruas, sem nenhum debate no legislativo, sem nenhuma condenação na fria e distante justiça das elites.

 

A polícia mata impumentemente nas republiquetas de bananas da América Latina e nos países tribais da África sob intervenção militar.

 

França: morte de jovem por policial desencadeia tumulto em bairro pobre de Nantes

 

RFI - A ministra francesa da Justiça, Nicole Belloubet, pediu calma depois da violência que tomou conta da cidade de Nantes, no oeste da França, durante a noite desta terça-feira (3). Os tumultos começaram depois da morte de um jovem de um bairro pobre da cidade, durante um controle da tropa de choque.

 

A ministra francesa anunciou que o caso será investigado pelas autoridades judiciais e a corregedoria da polícia francesa, “para que a morte desse jovem seja esclarecida de forma transparente”. A vítima foi atingida por uma bala por volta das 20h30 durante uma batida da polícia, no bairro de Breil, no noroeste de Nantes. Um membro da tropa de choque, conhecida no país como CRS, parou um veículo e pediu a carteira de identidade do motorista.

 

Segundo o diretor da Segurança Pública da região, Jean-Christophe Bertrand, o policial foi orientado a levar o jovem para a delegacia, mas ele deu marcha ré no carro e tentou fugir. Foi neste momento que um outro membro da patrulha atirou no motorista. Gravemente ferido, o rapaz foi levado para o hospital, mas não resistiu.

 

A versão de um morador ouvido pela rádio francesa France Info é diferente: segundo ele, o jovem já estava imobilizado quando o policial atirou. O sindicato dos policiais insiste que o militar agiu em legítima defesa. O incidente desencadeou graves tumultos no bairro. Grupos de jovens jogaram coquetéis Molotov na tropa de choque, incendiaram carros, latas de lixo e um posto médico situado em um centro comercial. Os bombeiros foram chamados para apagar o fogo.

 

Um habitante do bairro afima que ouviu “detonações” e que o tumulto durou “muito tempo”. Em um comunicado, o ministro do Interior francês, Gérard Collomb, condenou a violência e disse que “tudo será feitro para prevenir novos tumultos”. Nos últimos dez anos, a França registrou diversos incidentes ligados à morte de jovens durante batidas policiais.

 

Incidentes marcam periferias francesas há mais de uma década

 

As violências mais recentes envolvendo os subúrbios franceses aconteceram em novembro de 2017, depois que um jovem foi atropelado por um trem na cidade de Vienne, na região de Isère, no leste do país. A França foi palco de vários tumultos nas periferias nos últimos dez anos. O mais grave aconteceu em 2005 e durou três semanas.

 

A confusão começou depois da morte de dois adolescentes, Zyed Benna e Bouna Traoré, em 27 de outubro, em Clichy-sous-Bois, na periferia de Paris. Eles morreram eletrocutados ao tentar escapar de uma blitz da polícia. Em oito de novembro do mesmo ano, o governo francês decretou estado de emergência. No total, segundo um balanço do jornal Le Figaro, 10 mil carros foram queimados, 300 construções destruídas, e 1300 foram presas.

 

01
Set17

Um sonho que a repressão não destrói

Talis Andrade

por José Carlos Ruy

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Um dia desses, conversando com minha filha, uma moça de 21 anos que estuda Letras, ela me falava, contrariada, de tantas moças e rapazes (e movimentos e artistas “jovens”) que parecem envelhecidos pela recusa a correr riscos, e pela vontade de ter todas as garantias e segurança que a sociedade oferece. São jovens na idade, mas não no coração, dizia ela.

 

Esta lembrança me ocorre no momento em que escrevo a “apresentação” a este livro extraordinário a que Urariano Mota deu um título preciso: A mais longa duração da juventude. Um relato ficcional amplamente ancorado na memória dos jovens que, por volta de 1970, resistiam à ditadura no Recife, como tantos outros Brasil afora. E traziam inscrito em sua bandeira, com letras de um vermelho flamejante: “revolução e sexo”. Nesta ordem, adverte Urariano.

 

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Rapazes e moças que, por volta de seus vinte anos, viviam às voltas com as agruras da luta política e revolucionária, e os ardores do sexo que despertava. Agruras e ardores narrados com a precisão de acontecimentos “de ontem”, que continuam presentes, quase meio século depois, com a mesma e intensa realidade do brilho das estrelas de que conhecemos somente a luz que cruzou milhares de anos-luz, estrelas que talvez nem existam mais no momento em que sua imagem nos alcança.

 

A luz dessas estrelas é semelhante ao sonho que, hoje, meio século mais tarde, aqueles jovens ainda sonham mesmo que seus corpos já não tenham a força dos vinte anos. Mas o viço e o vigor do sonho permanecem. E fazem mais longa a duração da juventude.

 

Urariano Mota sabe do que trata. Autor de tantos livros, entre os quais se destacam Soledad no Recife (2009) e O filho renegado de Deus (2013), tecidos com o relato do vivido e do trágico (sobretudo Soledad no Recife) junto com o imaginado (como em O filho renegado de Deus) Urariano sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas. Não é filosofia, quer Urariano. Mas é reflexão fina, humanamente fina e que tem o dom de trazer à vida, com seus matizes, os debates com que aqueles jovens de esquerda, revolucionários, desenhavam seu futuro, o futuro de todos, do país e da humanidade.

 

Sonho que levou o garoto de 1969 a comprar um disco de Ella Fitzgerald onde poderia ouvir I wonderwhy, se tivesse vitrola (palavra antiga para toca-discos, também antiquada no tempo dos igualmente em superação cdplayers). Não importa que não tivesse! Teria, um dia, e ouviria a cantora cuja voz amava. Sonho semelhante ao que tantos anos depois, quando já não existia a ameaça da repressão ditatorial, queria uma bandeira do Partido Comunista do Brasil para envolver o caixão do amigo morto.

 

Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista.

 

Sonho embargado pela memória cruel da sordidez da delação do infame Cabo Anselmo, que levou Soledad e tantos outros à morte na tortura ou pelas balas da repressão da ditadura.

 

Nesta permanência da juventude não há, como há em Goethe, nenhum pacto com o demônio, como aquele pelo qual o poeta buscou a garantia da juventude permanente.

 

Não. Há o sonho fincado na herança Marx, Engels, Lênin, Mao Tse Tung, Ho Chi Minh, Che Guevara e tantos outros. Povoado por Turguêniev, Dostoievski, Tolstoi, Proust, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e também tantos outros.

 

“Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos”, diz um diálogo neste livro maravilhoso. “Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”.

 

É o resumo escrito, lembrado, do sonho. Sonho que os jovens de meio século atrás ainda sonham. Como Vargas, Zacarelli, Luíz do Carmo, Nelinha, Alberto, Soledad, a turma toda.

 

Este é um livro que une, com a arte da memória, 1970 e 2016 – se fosse possível fixar parâmetros tão fixos... É um livro que olha o passado não pelo retrovisor que encara o acontecido faz tanto tempo. É um livro que faz do passado os faróis que iluminam o caminho do futuro. E reduz a distância no tempo revivendo, tanto tempo depois, a mesma luta que uniu, e une, tanta gente.

 

Um sonho contra o qual a barbárie e a estupidez dos cabos anselmos da repressão da ditadura foi impotente. E não o destruiu. E que é a senha para a mais longa duração da juventude.

 

 

 

 

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