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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Jun19

quatro poemas de Jussara Salazar

Talis Andrade

poesia jussara .jpg

 

 

à revelia

rabisque um caramujo
rabisque outro
no campo erguido
sobre o tecido branco
devagar risque o primeiro ponto
enlace
o mapa de estrelas
se espraiando

sobre a nascente do rio
segure o bezerro
que sangrou
na faca do tempo
sem pressa risque mais caramujos
sobre o papel áspero e escuro
suavemente
da trama do algodão
verás que se ergue um mapa
à revelia

 

na hora das almas

A lua risca fios
na cumeeira

A lagarta tece
um casulo
entre as vigas

Feixes de linha
perfuram
o molde bruto

Partitura
cercos
mapas aprisionados

Costurados
entre as frestas
do telhado

 

a morte da vaca

sob a geografia santa
deste mapa
urdido entre espinhos e azuis
te arvoras
ruminando a terra
lavorando o pasto

a asa negra ronda
paciente aguarda
teu manto malhado tombar sob o sol

por isto foge
que teu desterro
já foi anunciado na secura do céu

 

eu queria lençóis brancos

vindos do algodão
que brilha ao sol de junho

mas o algodão brotou
no meu quintal
veio do chão escuro

e seus fios
cortam o dia
ao fio da faca

armam guerras
costuram
a terra ao sol

fingem ser ouro
ou fios
de um terço antigo

mas são fios
de outro brilho
que as filhas da terra enlaçam
em cardumes de mãos
nas tardes perdidas
e noites escuras

são fios que atam
o limo frio
à poeira do catimbau

 

19
Mai19

de Jussara Salazar

Talis Andrade

o mar jussara.jpg

 

O mar é de mamãe
O mar
Como o medo
Um esquecimento
Ou uma lembrança
Como uma infância
E seu ninar de ondas
Como uma infância
Saturada
de seus pesadelos
Carregada
de suas utopias
o mar
com suas oferendas
Sim
o mar
para ir e voltar
para ver-se
para o outro
para o ar
para aprender no que se vai
e que vagueia
para voltar
O mar
Todo mar
É de quem ama
o mar
o mar

 

odo mi yia

 img tema lisa kokin

08
Fev19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

sentinela

|img tema elizabeth Perice|

peixes.jpg

 


Uma mulher
na penumbra da casa
pássaro de papel negro
caminha


toada de rebanho escuro
o verde sobre o peito da mulher é áspero
sobre o vestido de louça
e sobre o negro da noite sussurra para as velas brancas
escuto quando a mulher passa
olhos voltados para o dia
segura dois peixes silenciosos
amarelos
azuis
e depois voa
com asas de penumbra

11
Jan19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

jussara vestido.jpg

 

 

a língua das facas


não há poema
apedrejaram a estátua do bandeira
e os tambores soaram às seis da manhã
não há palavra
e quero palavras macias
palavras antigas e suaves
como os tapetes da mesquita
que flutuaram sob meus pés
naquele domingo de março
não há letra suficiente
os signos falam uma língua de facas
os signos foram destruídos
os signos foram esquecidos
os signos fugiram pelas ruas
e ninguém mais consegue decifrá-los
estamos balbuciando sons
como numa infância
com sua mudez de aprendizes
como numa infância
de brinquedos quebrados
de caminhos partidos
como "veredas que se bifurcam"

 

img tema Pia-Lotta Rock

 

08
Set18

de Jussara Salazar

Talis Andrade

os olhos de teresa

(imagem tema heather murray)

 

os olhos.jpg

 



olhos abertos
miúdos
infantis
perplexos
no tempo em que
havia quintais
e cigarras tontas
de sono e bebida
que nenhum beijo amansava
e cavalos em fúria
soltos
na cidade vazia
moviam um mundo
chamado tereza
e os olhos diziam
        o teu cavalo são ossos
        o teu cavalo sem nervos
        o teu cavalo-moça
trota
no reino de lobos
sem heróis ou dentes
apenas galinhas
aves
cães vadios
manadas de patas
imóveis
e imaginários
meus olhos
roubados
de unicórnios

17
Jun18

TECE: TUA LAVOURA DE PONTOS

Talis Andrade

 

 

De Jussara Salazar

 

jussara salazar js.jpg

 

 


desde o vazio faz
tua rede no tempo

 

Teu fado: atravessar a noite
a noite e o dia talvez
um século até a aurora

 

A gárgula: ri de ti sob o teto antigo
na hora que dorme
a tua romaria de pontos

 

A terra pergunta: como te nutres
saltando sobre as flores áridas
deste chão?

 

 

 

---

fia com tema de sergey rimashevski

13
Jun18

DE JUSSARA SALAZAR / Exercício sobre a matéria e o amor

Talis Andrade

com tema de auguste rodin

 

rodin.jpg

 

 

Paolo e Francesca emergem de um bloco
pedra sem forma
massa de mármore

 

Rodin esculpiu
a sublime delicadeza do amor
         Dante
         Beatriz
entre o inferno e o paraíso


unidos
contraditórios

 

a claridade da pedra
a escuridão da noite
a leveza do amor
o peso do corpo
ou ainda a matéria bruta do solo
e a fragilidade da carne

 

Camille Claudel
Camille Claudel
chego a ti
ao teu tempo soterrado
entre o amor e
a violência de amar

 

 

13
Jun18

Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas

Talis Andrade

de Jussara Salazar

 

poesia jussara salazar.jpg

 

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido


os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

 

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes

 

 

---


com tema de Beth Moysés| Reconstruindo Sonhos

Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007

02
Jun18

Borborema pedra encantada

Talis Andrade

com tema de João Urban

Jussara Salazar na Pedra do Ingá.jpg

 

 

 

por Jussara Salazar

 

Atravessei 5.000 anos
Na pedra do ingá
Atravessei seus guerreiros
Órion com seus luminares
Atravessei antigos oceanos
Agora adormecidos
Na quietude da terra
Atravessei mulheres
As mulheres
Com seus cabelos ensolarados
Com suas marcas gravadas
Volutas
Fios ancestrais
Sobre o coração

 

Atravessei meu corpo
quando meus dedos
tocaram o sol
dessas pedras
onde as deusas me atravessaram
gravando seus uivos
Em um tempo
próximo
em um tempo
longínquo

 

E adormeci

 

 

---

ILUSTRAÇÃO Jussara Salazar na Pedra do Ingá

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