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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

13
Dez21

"Brasil passa mensagem ambígua e pode atrair turistas não vacinados"

Talis Andrade
O governo brasileiro determinou uma quarentena obrigatória de cinco dias para não vacinados que entrarem no Brasil por via aérea.
O governo brasileiro determinou uma quarentena obrigatória de cinco dias para não vacinados que entrarem no Brasil por via aérea. AP - Andre Penner

Em um momento em que o Brasil consegue atingir números bons da imunização contra o coronavírus, o governo federal lança mão de uma medida controversa que pode prejudicar os avanços alcançados. Essa é a opinião de especialistas ouvidos pela RFI acerca da portaria que libera a entrada de estrangeiros no país, mesmo que não apresentem comprovante de imunização contra a Covid-19. Para eles, o ideal seria exigir o esquema vacinal completo e teste negativo para todo mundo que chega de fora.

Essa também era a recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao governo federal. Mas, se não tiver o comprovante de imunização em mãos, o turista não volta para casa. Além do teste na chegada, terá de fazer uma quarentena de apenas cinco dias e, depois disso, um exame viral. 

O governo ainda precisa explicar os detalhes de como a portaria será aplicada na prática. Como nenhum estado tem estrutura para abrigar visitantes, esse período será cumprido, por exemplo, na casa de algum parente indicado pelo turista. 

"Essa quarentena de cinco dias e depois um teste PCR são para burlar o que realmente é necessário, que é o passaporte da vacina. Imagina a pessoa ficar dentro de uma casa, ela pode já estar com o coronavírus, e até transmitir para outras pessoas”, afirmou o médico Julival Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

 

Agente sanitário fará fiscalização

O turista que tiver o comprovante de vacinação anticovid e o teste negativo, entra direto no Brasil. Já quem chegar sem comprovante, se enquadra nas novas regas. Caberá ao agente sanitário fazer essa fiscalização, em princípio telefonando ao viajante para ver se ele realmente está no local indicado - tudo isso em uma época em que a maioria não tem mais telefone fixo e só usa celular, que se carrega para todo lugar.

Em 2019, antes da pandemia, o país recebeu mais de 6,5 milhões de turistas. “Isso traz sobrecarga em cima de uma rede de vigilância que já está muito debilitada, que deveria estar focada em rastrear casos e contatos de pessoas com sintomas, e não gastar energia numa medida que estimula pessoas que não receberam a vacina a viajar”, disse o sanitarista Jonas Carvalho, da Universidade de Brasília.

"Qualquer quarentena para uma pessoa que teve uma possível exposição ao vírus é benéfica porque a gente sabe que a maioria dos casos se desenvolve até o quinto dia, sétimo dia. E mesmo assim o indicado seriam 14 dias. Mas isso ainda não seria suficiente. E aí mandamos para o mundo uma mensagem ambígua. Nós estamos enfrentando uma pandemia. E, ao mesmo tempo, dizendo para o mundo que quem não tomou a vacina pode vir passear no Brasil, que isso não é um problema. Então existe um risco para o país. O ideal seria barrar quem não foi vacinado”, disse Carvalho.

 

Estados divergem

Na guerra eleitoral da pandemia, enquanto o governo de Rondônia publicou lei proibindo a exigência do passaporte da vacina no estado, São Paulo quer que o visitante comprove que foi imunizado. O presidente Jair Bolsonaro elogiou o primeiro e criticou o segundo.

“Um governador do Sudeste ameaça ‘quem não tomar não entra no meu estado’. Seu estado, o cacete! Não podemos aceitar isso. Devemos protestar”, declarou.

 

Os especialistas ouvidos nesta reportagem ressaltam que o Brasil só conseguiu respirar na pandemia porque avançou com a vacinação, provando que esse é o caminho mais seguro na luta contra o vírus. Para eles, não faz sentido que o governo permita o ingresso de não imunizados em um país que já sofreu tanto com a crise sanitária.

“Graças a uma estrutura eficaz e robusta, o Brasil enfim alcançou um patamar muito bom de vacina, embora tenha começado tarde. Mas estamos falando de um vírus, ainda mais com as variantes delta e ômicron, que tem alta velocidade de transmissão. E a vacina não impede a infecção. Ela é eficaz contra casos graves e mortes, mas não impede a infecção. Então é preciso uma vacinação maciça para conter a doença. E aí qualquer pessoa não vacinada, daqui ou de fora, ajuda a fazer com que o vírus continue circulando”, afirmou o sanitarista Jonas Carvalho.

Eles também alertam que, diante da probabilidade de surgirem novas variantes até o progresso da imunização em escala global, será preciso uma política sanitária de fronteiras à altura do desafio de barrar um vírus que pôs de joelho todo um planeta.

“Ainda precisamos esperar análises sobre a ômicron. Muita coisa precisa ser respondida. Não é para alarmar a população, é preciso aguardar esses estudos. Mas algumas observações apontam que em muitos lugares se tem registrado mais casos em crianças. Hoje alcançamos uma boa cobertura vacinal no Brasil, mas não começamos ainda a vacinar crianças menores de 11 anos aqui”, lembrou o infectologista Julival Ribeiro.

 

10
Out21

600 mil mortes no Brasil: "liberou geral" pode fazer curva da Covid-19 voltar a subir

Talis Andrade

 

Estádios de futebol com mais público, cidades cogitando o fim do uso obrigatório de máscaras, espaços de lazer liberados em condomínios. O Brasil, que chega aos 600 mil mortos por Covid 19 nesta sexta-feira (8), já pode mesmo se dar ao luxo de afrouxar as medidas sanitárias contra o coronavírus?

Com cerca de 450 óbitos diários pela doença, o país de fato tem o que comemorar porque já teve índices bem piores, chegando a 4 mil mortes por dia no auge da pandemia este ano e ao dramático platô de mil vidas perdidas diariamente durante vários meses.

Hoje, mais da metade dos municípios brasileiros celebra o fato de não ter registro de óbitos, graças ao avanço da vacinação. Mas especialistas dizem que o ‘liberou geral’ que muitos querem para ontem pode colocar a perder esse quadro que, finalmente, parece caminhar para a redenção pandêmica coletiva.

A especialista em saúde pública e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ligia Bahia disse à RFI que o foco deve ser o retorno consistente das atividades essenciais como as aulas nas escolas e universidades, com as medidas sanitárias respeitadas. “A gente nunca teve um quadro tão favorável na pandemia. Entretanto, ainda não dá para dizer que acabou. Nós demoramos muito tempo para chegar a esse patamar de vacinação e, mais de oito meses depois, a gente ainda não tem 70% da população com duas doses”, explica. "Além disso, o número de novos casos e de mortos ainda é relativamente alto. Então não podemos bobear agora. Não estamos num patamar seguro ainda e a variante delta circula por aqui.”

O epidemiologista Julival Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirmou à RFI que a falta de cuidado nesse momento pode trazer consequências imprevisíveis. “Essa falsa impressão de que a pandemia acabou é muito preocupante. A pandemia está aí presente e temos que observar o que pode acontecer nos meses vindouros, não só aqui no Brasil, mas também no mundo inteiro. Lembrar que Israel, mesmo com a vacinação da população adiantadíssima, está sugerindo a terceira dose para toda população por causa da variante delta”, ressalta o especialista.

 

CPI na reta final

No Congresso, a CPI da Covid deve finalizar os trabalhos, com a votação do relatório final até o dia 20. Nessa fase derradeira, parlamentares se concentram no tenebroso caso da operadora de saúde Prevent Senior, que virou símbolo do descaso com a vida e da insistência fatal em remédios sem eficácia contra a doença. O paciente Tadeu Andrade, de 65 anos, contou no Senado que quase morreu porque a empresa convencia parentes a aceitar tratamento paliativo, encerrando a internação na UTI, mesmo quando ainda havia chance de sobrevivência.

Minha família não concordou, nessa reunião, com o início dos cuidados paliativos, se insurgiu, ameaçou ir à justiça para buscar uma liminar e impedir que eu saísse da UTI, ameaçou procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recuou e cancelou o início do tratamento paliativo, ou seja, eu, em poucos dias, estaria vindo a óbito e hoje eu estou aqui”, disse, emocionado, à CPI.

O último a ser ouvido deve ser o ministro da saúde Marcelo Queiroga, que já está de volta ao Brasil depois da quarentena que fez nos Estados Unidos por contrair Covid 19. Ele foi convocado pela terceira vez após um órgão técnico subordinado à sua pasta ter adiado a análise de um parecer que contraindica o uso da cloroquina e outras drogas no tratamento da Covid. O adiamento se deu por pressão do Planalto.

 

02
Mar21

Sem lockdown, várias cidades podem repetir drama de Manaus, alerta infectologista

Talis Andrade

No primeiro dia de lockdown, Pernambuco atinge maior índice de isolamento  social do País, diz governoJustiça nega pedido do MP para decretar "lockdown" em Pernambuco - Roberta  Jungmann

Recife

O médico Julival Ribeiro diz que há um risco muito alto de várias cidades repetirem o drama de Manaus e critica inanição do governo Bolsonaro que, segundo ele, nada fez até aqui para combater a pandemia. O especialista também alerta que novas variantes têm levado pacientes cada vez mais novos para os hospitais

 

por Raquel Miura /RFI 

Os números de brasileiros mortos e infectados pelo novo coronavírus não param de subir, levando muitos prefeitos e governadores a temer pelo pior. O drama de Manaus, onde pacientes morreram sem oxigênio, pode se generalizar Brasil afora. “Eu sou totalmente a favor do lockdown em algumas cidades. Você já tem o número de leitos com a capacidade quase toda ocupada, o número de casos aumentando assustadoramente. Temos que tanto ter retaguarda de leitos, quanto impedir a transmissão", diz o infectologista, à RFI.

"Além das medidas preventivas, temos que fazer de uma maneira ou de outra o lockdown, parar mesmo o que for possível, para a gente frear na realidade essa transmissão. Será que nós vamos esperar um milhão de mortes para a sociedade acordar? Para que vejam que todos estamos no mesmo barco? Nós precisamos de medidas duras para dar um basta ao vírus, se não a própria economia não se recupera”, atesta.

Ribeiro ressalta que a situação já é dramática em vários Estados, como Goiás, Bahia, Distrito Federal e São Paulo. Imagine com essas novas variantes, que têm maior volume de transmissão, o que vai acontecer com o sistema de saúde?", frisa o especialista. Ele chama a atenção para um estudo recém publicado, que mostra que a carga viral da variante de Manaus "é altíssima".

"Com maior número de transmissão, precisamos de mais hospitalizações, mais leitos de terapia intensiva, e infelizmente, cresce o número de mortos. É esse o período que estamos vivendo”, sublinha o infectologista.

Mais jovens internados

Julival Ribeiro diz que, em princípio, as mutações do vírus não têm capacidade de provocar uma infecção mais severa, porém médicos têm observado que pacientes cada vez mais jovens têm sido acometidos pela doença. “Conversando com colegas de vários estados brasileiros, todos infectologistas, o que está se vendo é: o período de incubação que vai de dois a 14 dias está mais curto, uma média de cinco, seis dias. E a doença acomete mais jovens, sobretudo casos de jovens com pneumonia, ocupando maior parte do pulmão. Essas mutações estão ocorrendo na parte mais importante do vírus, chamada proteína ‘spike’. É onde se faz a ligação do vírus com as células humanas”, explica.

Para o enfrentamento dessa situação, o médico é favorável a medidas restritivas e mesmo ao fechamento total em alguns lugares, mas acha que as escolas poderiam continuar abertas, desde que sigam rigorosamente os protocolos de higiene. Ele defende que cada turma viva numa espécie de bolha nos colégios, com intervalos específicos para cada classe, separadamente.

“Assim, se tivermos alguém contaminado numa turma, as aulas serão suspensas apenas para esse grupo, e não para o restante. Mas é preciso, repito, haver um protocolo muito firme de higiene”, insiste.

Ribeira ressalta que, até o momento, as pesquisas não apontam contágio maior das novas cepas entre as crianças. Entretanto, a disseminação das novas linhagens ameaça as campanhas de vacinação em curso em diversos países. "O mundo está muito preocupado porque essas variantes podem realmente diminuir a eficácia da vacina ou mesmo evadir a resposta da vacina.”

Governo inerte

Para explicar como o país chegou a esse nível de transmissão, Ribeiro aponta para a Esplanada dos Ministérios e não poupa críticas ao governo Bolsonaro. “Na realidade, desde o primeiro momento que começou a pandemia na China, depois para os outros países, nós nunca tivemos neste país qualquer planejamento estratégico em relação à Covid. E o mais grave: nós nunca tivemos uma coordenação que deveria ser ocupada pelo Ministério da Saúde, com direcionamento para estados e municípios", critica.

"Desde o início da pandemia, infelizmente o Brasil não fez o papel que deveria ter feito para evitar a atual situação. O que nós vimos no decorrer de um ano foram troca de ministros no governo federal e uma verdadeira campanha política em cima da Covid. E hoje, estamos vendo o resultado", lamenta o especialista. 

O país já registra mais de 250 mil mortes e a vacinação avança devagar na maioria do país, ressalta. "O cenário é realmente dramático. Eu diria que é muito alto o risco de um colapso geral ou de outras cidades repetirem Manaus”, reitera.

O infectologista também condenou as declarações do presidente da República, que além de desdenhar o tempo inteiro da pandemia, chegou a condenar o uso de máscaras no dia em que o Brasil batia recorde de mortos. “Ninguém tem dúvida:  hoje, há estudos mostrando que as máscaras têm impacto, sim, na transmissão. Na Europa, além dos Estados Unidos, através do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, estão recomendando usar duas máscaras, devido a essas variantes.  Você usa uma máscara cirúrgica por baixo e depois uma máscara de pano por cima", explica. "Portanto, enquanto um renega e debocha da máscara, o presidente Joe Biden está liberando 25 milhões de máscaras para americanos que não têm condição de comprar esse item importante. Veja a grande diferença de atitude entre os presidentes daqui e de lá: um defende a vida, o outro defende a contaminação."

 

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