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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

11
Abr21

Kassio: o cafofo de Deus e a maloca Tarumã

Talis Andrade

por José Ribamar Bessa Freire /Taqui Pra Ti

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Deus, oh Deus! Onde estás que não respondes?”
Castro Alves. Vozes d’África. 1876

 

Diante da tragédia do coronavirus, o Brasil se pergunta: afinal, onde está Deus? Quem respondeu no séc. XVII foi Karabaina, cacique Tarumã, com argumentação sólida capaz de desmontar a xaropada do ministro do STF, Kássio Nunes, para quem templos e igrejas devem permanecer abertos em plena pandemia, porque só assim os fiéis podem encontrar Deus lá no seu cafofo. Os nove ministros do Supremo derrubaram esta decisão genocida na quinta (8), mas – data vênia – eles teriam reduzido Kássio a subnitratus pulvis peidorum, se tivessem traduzido a fala do cacique para o latim, depois de situar historicamente esse povo de fala Arawak e o uso que fizeram do catecismo.

Habitantes da margem esquerda do rio Negro, zona Oeste de Manaus, os Tarumã eram refinados ceramistas e exímios “fabricantes de ralos de mandioca”. Mas – oh desgraça! – “os estrangeiros chegaram” ou, em língua tarumã, “madakina wanicú”, como registrou Loukotka, linguista tcheco que dedicou a vida a buscar em arquivos documentos sobre línguas indígenas. Os primeiros forasteiros foram os missionários jesuítas, que ensinaram a língua geral e o catecismo aos Tarumã, logo substituídos pelos carmelitas.

O trocano

O catecismo é um gênero literário usado pelas ordens religiosas com diferentes versões em língua geral elaboradas por autores diversos: Anchieta (séc. XVI), Araújo (1618), Bettendorff (1687) entre outros, analisados por Cândida Barros e Ruth Monserrat em Notas sobre um catecismo manuscrito na língua geral “vulgar” da Amazônia (séc. XVIII). O modelo de todos eles foi aquele escrito em português, em 1566, pelo jesuíta Marcos Jorge – Doctrina Christã ordenada à maneira de Diálogo pera ensinar os mininos. Tinha o formato textual de diálogo com perguntas e respostas destinadas a adultos “rudes” e crianças.

Os poucos catecismos escritos em línguas particulares seguiram o mesmo modelo como a Doutrina Christã na Língua Brasílica da Nação Kiriri, (sec. XVII) que vivia às margens do rio São Francisco e o Caderno da Doutrina pella lingoa dos Manaos (séc. XVIII), vizinhos dos Tarumã do rio Negro, composto com “algumas palavra nam mui alegantez” na opinião do índio que auxiliou na tradução. Eles eram destinados aos novos missionários para que pudessem atuar com mais eficácia na catequese.

O catecismo levado aos Tarumã na sua versão menor abreviada indagava na primeira pergunta:

– “Quem é Deus”?

Os Tarumã repetiram diariamente durante três anos:

– “Deus é um espírito perfeitíssimo, eterno, criador do céu e da terra”.

Depois que haviam decorado essa e dezenas de questões, de cor e salteado, foram convidados pelo missionário a “descer” para um “aldeamento de repartição” em Belém do Pará. Mas os Tarumã sabiam o que os esperava lá. As notícias corriam celeremente pelos rios em canoas e através do som do trocano – uma tora de madeira escavada –  que podia ser ouvido em malocas situadas a 12 kms de distância. E o que lhes dizia esse “telégrafo indígena”?

Dizia, em outras palavras, que o “descimento” era uma forma de recrutar a força de trabalho indígena. Os missionários convenciam as comunidades a “descerem” de suas aldeias de origem para os “aldeamentos de repartição” próximos aos centros coloniais. Lá, os indígenas “descidos”, falantes de diferentes línguas, eram comandados por um colono ou missionário com o título de “capitão da aldeia”, encarregado de “repartir”, de distribuir os índios aos diversos agentes coloniais num sistema de trabalho compulsório.  Perdiam assim a autonomia e o controle sobre sua organização social que se esfacelava.

Dá ou desce

Os que de lá fugiam relatavam aos demais as condições infernais de trabalho dos índios “repartidos”, sem pausas nos domingos e dias santos, sem tempo para descanso, com jornada de 14 e até 16 horas. Era “um trabalho excessivo e nele muitos morrem” – testemunhou o padre Antônio Vieira. Há registro de “ombros esfolados e em carne viva” de índios que carregavam pesados troncos de madeira para exportação.

Por isso, os Tarumã se recusaram a “descer”. Diante do argumento do missionário de que no “aldeamento de repartição” eles estariam perto de Deus e poderiam receber assistência espiritual dos padres, o cacique Karabaina ensinou Pai-Nosso a vigarista, citando a segunda pergunta do catecismo com a respectiva resposta:

– Onde está Deus?

– Deus está no céu, na terra e em toda parte.

– Padre – ele disse – a gente aprendeu no catecismo quem é o Deus de vocês que agora é também o nosso. Vocês ensinaram que Ele está em todos os lugares, em Belém, mas também aqui na nossa aldeia. Então, a gente fica com Deus, mas aqui na nossa maloca.

O missionário ficou com aquela cara boboca do Kássio Nunes. Bo-bo-ca, como silabou didaticamente uma militante do Grotão para ninguém duvidar que se dirigia a sementes de bolsominions.

Com a recusa de “descer”, a cruz cedeu lugar ao canhão. A “guerra justa” comandada por Pedro da Costa Favela, entre 1665 e 1669, massacrou os Tarumã. Quem sobreviveu e não fugiu, trabalhou como escravo na construção do Forte de São José do Rio Negro, origem de Manaus. Em 1690, Samuel Fritz viu o cacique Karabaina “condecorado” com cicatrizes no corpo, marcas das violências sofridas, conforme conta John Hemming em “Red Gold”, usando imagem do padre Vieira para denominar o ouro vermelho que era a maior riqueza do Grão-Pará: o sangue indígena explorado na produção de riqueza.

Começou, então, o longo êxodo dos sobreviventes. Eles subiram o rio Negro, numa longa marcha de 2.000 km, que durou mais de um século. Foram parar na Guiana Inglesa, onde vivem até hoje, conscientes de que o discurso religioso colonial usava Deus como pretexto para extrair deles um sobretrabalho responsável por tanto sofrimento e tantas mortes. É isso que Kássio Nunes fez agora.  

Sacanagem espiritual

A lição dos Tarumã está implícita na fala do teólogo Antônio Carlos Costa, pastor da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro e autor do livro “Convulsão Protestante: quando a teologia foge do templo e abraça a rua”. Em entrevista a Regiane Soares da Folha de SP (9/4), ele declarou que o argumento da liberdade de culto usado para abrir templos na crise sanitária é um “infantilismo espiritual”. Na realidade é mais do que isso: é uma “sacanagem espiritual”, um atentado à vida, que obriga o uso de transporte público e a aglomeração dos fiéis, aumentando o risco de contaminação.  

– “Para nós, cristãos, –  disse o pastor – o verdadeiro culto a Deus não se dá dentro das chamadas quatro paredes da igreja. O verdadeiro culto a Deus tem relação estreita com o modo de viver […] subindo morro para levar comida aos desempregados, telefonando para amigos endividados, trazendo palavras a pessoas que caíram em depressão em razão do risco de morte ou por ter perdido um ente querido”.

Por que Kassio Nunes usou esse argumento furado para empurrar tanta gente para o cemitério na fase mais crítica da pandemia, com mais de 4 mil mortos por dia? Por razões políticas para agradar quem o nomeou e manter sua base eleitoral? Por razões econômicas? O pastor Antônio Carlos não descartou essas razões:

– Não resta dúvida, conhecendo parte da liderança religiosa evangélica no país, nós somos levados a crer que há muita preocupação com a arrecadação da igreja. Eles sabem que [com os templos fechados] não têm à sua disposição os recursos psicológicos para manipular pessoas e delas arrancar dinheiro”.

No passado, os aldeamentos de repartição queriam lucrar com o trabalho dos Tarumã. Hoje se quer arrancar o dízimo, que permite ao bispo Macedo atacar a imunização e viajar para ser vacinado em Miami.

O deus de Kássio Nunes é o mesmo do vereador Jairinho. Em diálogo com Marcelo Crivella que viralizou nas redes, o covarde assassino de uma criança de quatro anos invoca a deus para esconder crimes hediondos. Quando é que as ovelhas desses pastores vão poder perceber aquilo que o cacique Karabaina viu com tanta nitidez?

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04
Abr21

O Testamento de Judas na pandemia. Por José Ribamar Bessa Freire

Talis Andrade

por José Ribamar Bessa Freire /TaquiPraTi

- - -

“Eu sei que alguém descobre / Falhas no meu testamento”.
Joaquim Apolinário. Testamento do Judas.  1886. (*)

Neste sábado de aleluia, Judas Iscariotes, ministro das Finanças do Inferno, visitou países de cinco continentes, entre eles a America First e o Brasil abaixo de tudo. Aqui viu bonecos de pano com a cara do genocida pendurados em postes das cidades. Fugiu ao se deparar com 330 mil mortos pelo coronavirus. Passou antes por Manaus. No bairro de Aparecida, sofreu a tradicional malhação e se vingou deixando seu testamento em versos psicografado pelo irreverente e desabusado Edilson, o Gaguinho, gênio da poesia popular. Tirem as crianças da sala. Ei-lo aqui. 

1 
Sou Judas Iscariotes / Neguei máscara, vacina.
Dei cloroquina pra Cristo / Olhem só a minha sina.

2
Por isso sou malhado / com porrada na cacunda
No sábado de Aleluia vou / moer vidro com a bunda.

3
Mas antes de me ferrarem / e de me enforcar outra vez
Eis aqui o inventário /  do que eu lego pra vocês.

4
Ao Trump bundão eu deixo  / o túmulo do faraó
E a espada do centurião / pra enfiar no fiofó.

5
Pra atormentar sua vida / deixo o discurso do Lula.
Ao mentiroso Jair Messias / Burro como uma mula 

6
Deixo o exemplo do Temer / ao vice Mourão Mourão
Catuca por baixo que ELE cai / com impeachment e lockdown.

7
Deixo ao Dudu, o 03 / a embaixada em Mianmar
Pra ele fritar hamburger / no Burger King de lá

8
A Carlucho, o 02 da fake news / que escorrega no quiabo
Deixo a máscara que não usa / para enfiar no seu rabo.

9
As trintas moedas repasso / ao 01 da Rachadinha
Mansão, chocolate, iate / Queiroz deu sua lavadinha

10
Ao ministério do Zero Zero / escolhido no capricho
As ratazanas do Centrão / jogo na lata do lixo.

11
Lego armas, vacina não/ à familícia e ao gado
Tudo pau de amarrar égua / com o orifício corrugado

12
O Posto Ipiranga vazio / que nem pastel do Beiçola
Paulo Guedes nega tudo / e põe no PIB meia sola.

13
Ernesto Araújo, seu pária / Que merda de chanceler!
Te deixo spray de Israel / Ninguém te ama nem te quer.

14
Ao obediente Pazzuelo / Lego o mapa do Amapá
O Zé Gotinha com fuzil / no dia D na hora H.

15
Para o Marcelo Quidroga / que não sabe o que quer!
Deixo a vachina da China / pra ele virar jacaré.

16
A corda que me enforquei / e a tripa cagaiteira
Lego ambas pra Damares / se pendurar na goiabeira.

17
Ao “imprecionante” Weintraub / de Kafta um grande fã
Deixo cannabis no campus / e as balbúrdias do Satã.

18
Ao ministro Milton Ribeiro, / da palmatória defensor.
De pedagogo oprimido  / a “paudagogo” opressor.

19
Nem tudo que reluz é Moro / mas cai tudo que balança
Ao “conje” suspeito eu deixo / a Edith Piá de herança

20
Ao incendiário da Amazônia / ao Salles abridor de porteira
Deixo o fogo do inferno / Pra ele arder na caldeira

21
Ao general Heleno de Troia / Que gosta de um tititi
Deixo toda a lambança / Cometida no Haiti.

22
À senadora Kátia Abreu / Que ficou no ora veja
A mão que te  afaga / É a mema que te apedreja.

23
Tou certo ou tou errado? / Para a Regina Porcina,
Que foi sem nunca ter sido / Deixo um trono na latrina.

24
Lego a Amargo dos Palmares / Pra aprender a ser gente,
Um pixaim de pentelho / Na careca reluzente.

25
Ao garantista Kássio Nunes / Que pensa que a lei destrincha
Deixo-lhe o Gilmar Mendes / Pra chamar ele na chincha.

26
Ao Procurador Augusto Aras / Deixo-lhe muitas gavetas
Que nunca serão abertas / Pra esconder do Bozo as tretas

27
Palloci minh’alma gêmea / Teu destino é como o meu
Pra tirar o loló da seringa, / Traíste mais do que eu.

28
Ao bode libidinoso / Metido num trumbico
Defendo a Isa Penna / Até o Cury fazer bico

29
Para  Wilson Lima governador / Lego a operação sangria,
Com dinheiro da saúde,/ Não se faz patifaria.

30
De mãos dadas com o povo? / Ventiladores de hospital
Comprados em adega de vinho / É coveiro em funeral.

31
Lá onde perdi as botas / Ao mulato inzoneiro
Lego o nojo desses pulhas / E a crença no brasileiro.

32
Agora eu volto pro inferno / lá tá melhor do que aqui
Neste fim de Quaresma / Deixo-vos o Taquiprati.

P.S. – Agradeço sugestões da Teca, Fabico, Celeste e Elisa Souto e a inspiração do Edilson, filho da Pequenina e Marcolino.

(*) O potiguar Joaquim Apolinário de Medeiros (1852-1919) fez um testamento do Judas em 1886, preservado na memória da mãe do Câmara Cascudo, que transmitiu oralmente os versos para seu filho. Trechos foram publicados por ele em “Vaqueiros e Cantadores”. Rio. Ediouro. 200 (pgs 65-66).

(**) Malhação de Judas

06
Dez20

Vacunación para usted, general Pazuello

Talis Andrade

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por José Ribamar Bessa Freira /Taqui Pra Ti

- - -

O ministro da Saúde do Brasil, general Eduardo Pazuello, na quinta-feira (3) participou da reunião dos titulares da Saúde do Mercosul, todos falantes de espanhol. Apesar de não entender chongas de medicina, prestava muita atenção e exibia expressão sagaz de quem estava sacando tudo o que os seus colegas hablaban sobre el combate al coronavirus. Ele tem uma cara inteligente, não tem não? Logo a seguir, falou tanto quiquiriqui sobre a vacina, que trouxe à tona a história vivida por Stanislaw Ponte Preta, humorista responsável por nos alegrar nos anos 1960 com sua coluna no jornal Última Hora

Aconteceu dentro de um avião da Varig lotado com jornalistas brasileiros que iam cobrir a Copa do Mundo de 1962 em Santiago do Chile. O cronista Paulo Mendes Campos, sentado a seu lado, conta que na escala em Buenos Aires, um argentino careca, de barba ruiva, vestido de branco com estetoscópio no pescoço que não deixava dúvidas sobre sua condição de médico da saúde pública, entrou na aeronave pedindo a cada passageiro o atestado de vacina. Quando chegou a vez de Stanislaw, o médico estendeu a mão cobrando:

–  Vacunación, señor!

Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw apertou a mão do médico, balançou-a várias vezes e respondeu efusivamente:

– Vacunación para usted también.

Era brincadeira inocente. Mas Stanislaw, pseudônimo de Sérgio Porto, tinha um humor considerado “corrosivo”, apimentado. “Fazia graça descobrindo verdades e tinha a coragem de ser odiado por dizê-las”. Como todo homem de sensibilidade, “desprezava os mesquinhos, os medíocres, os debilóides, os cretinos” – escreve Paulo Mendes Campos. Numa crônica em que desenha seu autorretrato, Stanislaw se define como “humorista a sério” e revela de quem não gostava: “puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista”. 

Vossas xexelências

Foi para combater as vossas excelências e as vossas xexelências, que Stanislaw criou o FEBEAPÁ – Festival da Besteira que Assola o País. Lá registrava diariamente as asneiras dos “cocorocas”: ministros, deputados, senadores, bispos, juízes, generais, delegados, externando tudo aquilo que estava engasgado na garganta de cada um de nós, nos vingando da babaquice oficial, com um estilo inconfundível.

Pretapress – sua “agência de notícias – não daria conta de tanta bobagem proferida pelas “novas otoridades”, pelos negacionistas e terraplanistas. O general Pazuello, o ex-capitão Jair e quase todo o atual ministério seriam pratos feitos para o Febeapá, que hoje é representado pelos memes irônicos nas redes sociais.

O nosso general, para tranquilizar o país, sustentou que a pior fase da pandemia havia passado, porque as regiões do Norte e do Nordeste do Brasil estão situadas no Hemisfério Norte e sofreram mais com o inverno. Alguém comentou nas redes que o ministro deu “uma aula de geografia da terra plana”.

– “Rezamos para o impacto [do coronavirus] ser menor, mas terá algum grau do impacto” – disse ele sobre a expansão da epidemia para o interior do país.

Quando o seu Ministério tentou escamotear os dados de mortos e infectados, os deputados o pressionaram durante sessão da Comissão Externa de Ações contra o coronavirus e ele, então, admitiu que “os dados são inescondíveis”.

Ele fala besteira, mas pelo menos foi sincero quando disse:

– “Eu nem sabia o que era o SUS, porque passei a minha vida sendo tratado, também em instituição pública, mas do Exército. Vim conhecer o SUS, a partir de agora desse momento da vida”.

– “Ele continua sem saber” – comentou o deputado Alexandre Padilha (PT-SP), ex-ministro da Saúde.

Com “zero” experiência em saúde pública, o ministro foi convidado por deputados e senadores, nesta quarta (2), para explicar a denúncia de que o Brasil corre o risco de perder, por data de validade, 6,86 milhões de testes para diagnóstico do coronavirus, segundo reportagem do Estadão. E no dia seguinte, participou da reunião com ministros do Mercosul. Em ambas, fez uma ginástica intelectual, com declarações que levariam Stanislaw Ponte Preta ao delírio, se vivo fosse.  

O Febeapá

O ministro Pauzello anunciou aos parlamentares que o Ministério busca uma vacina eficiente, mas que se depender do governo, a população não será obrigada a se imunizar. Disse ainda que até o momento – e essa é a posição do ministério – “a nossa estratégia será a de não obrigatoriedade da vacina” e que falava como ministro, mas em total consonância com o presidente da República. “Obedece quem tem juízo”, havia dito o general de divisão quando levou um chega-prá-lá do capitão Jair, que o desautorizou a comprar “a vacina chinesa do Dória”. O general na ativa só faz o que manda o capitão excluído do Exército.  Uma humilhação pública.

Nos próximos dias, o plenário virtual do STF deve julgar ação do PDT que quer garantir a competência de estados e municípios para decidir sobre a obrigatoriedade da vacina, quando o que se deve discutir é o acesso da população à imunização e a informação sobre esse processo. Enquanto a Inglaterra já começa a imunizar seus cidadãos na próxima semana e outros países europeus ainda este ano ou em janeiro, o ministro prevê para o Brasil iniciar só no mês de março. Ele não mencionou nem a Pfizer, nem a CoronaVac produzida pela China com o Instituto Butantan de São Paulo. 

– Ignorar a possibilidade de comprar vacina da Pfizer é um crime – afirmou o fundador e ex-presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina Neto em entrevista à CNN Brasil. O governo está contando só com uma, a AstraZeneca, que será insuficiente para cobrir a demanda do país. Além disso – pergunta Vecina – por que começar só em março, quando podemos iniciar em janeiro? Isso num momento em que o país se aproxima dos 180.000 mortos, com mais de 6.5 milhões de pessoas infectadas e, segundo especialistas, à beira de uma 2ª ou 3ª onda.

Enquanto isso, Pazuello horroriza seus colegas do Mercosul ao preconizar “o tratamento precoce que fez e faz a diferença para Covid” e ao defender, nas entrelinhas, a cloroquina, mesmo com pesquisas indicando que seu uso pode causar sequelas graves. Os especialistas assinalam que a mensagem faz as pessoas acreditarem na fantasia de que existem remédios contra o coronavirus, criada pelo capitão curandeiro da cloroquina e chancelada por uma compra de mais de R$1,5 milhão para a fabricação do medicamento pelo Laboratório do Exército, decisão de Bolsonaro que não passou pela análise técnica da Anvisa, segundo o ex-ministro Luiz Mandetta.

O Ministério da Saúde já gastou R$ 162, 4 milhões em publicidade, dos quais R$ 88 milhões em propaganda, sendo um terço (R$ 30 milhões) em campanha sobre o agronegócio, a reabertura do comércio e os “feitos” do governo, em vez de informações sobre o distanciamento social e o combate à pandemia, segundo apuração do Repórter Brasil em matéria assinada por Diego Junqueira, que informa estar o Tribunal de Contas da União de olho nesses gastos que fogem da pauta do Ministério. 

O general Pazuello merece mesmo o diploma de sócio honorário do FEBEAPÁ conferido por Stanislaw Ponte Preta, na falta de um FECRUAPÁ – Festival das Crueldades que Assolam o País. Suspeito que a história vai fazê-los pagar caro por isso.  

Os ministros da Saúde do Mercosul só faltaram dizer ao seu colega do Brasil:  Vacunación para usted también.  Quanto a Stanislaw, morto em 1968 aos 45 anos, só resta pedir emprestado a Paulo Mendes Campos o final de sua crônica que homenageava o humorista:

– “Não sei por que essa lembrança me comove e serve para fechar esta página que eu não queria triste. Que a tristeza fique conosco, os amigos que o amavam”.

P.S.1 – Ainda estudante, entrevistei Stanislaw Ponte Preta para um trabalho na disciplina ministrada por Zuenir Ventura, em 1966, no Curso de Comunicação da UFRJ. Sai daquela conversa com vontade de ser jornalista. Leitor fiel de Stanislaw, meu grande sonho, não realizado, era construir uma ponte sobre o igarapé de Manaus batizada de Ponte Preta. (Ver http://taquiprati.com.br/cronica/336-iii–lalau-as-certinhas-e-os-cocorocas)

P.S. 2 – Três dias de homenagem a Bartomé Meliá com mesas e cinedebates entre conferencistas e o público.

12
Out20

Essas mulheres psicólogas: o cipó e o jerimum

Talis Andrade

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Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille

(Sagesse populaire. Aparecida, quartier de Manaus) 

-

 

por José Ribamar Bessa Freire/ Taquiprati

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Eu não confio em psicóloga mulher. Você confia? Entre um cirurgião e uma cirurgiã, quem você escolheria para te operar?   

A frase contundente, dita em francês pela mãe de uma colega de doutorado na EHESS de Paris, tinha o desplante de cobrar minha cumplicidade na negação da competência feminina em qualquer profissão. Foi em 1982. A filha Louise, envergonhada, se arrependeu de ter me apresentado sua mãe que, se fosse brasileira, votaria em Bolsonaro. Uma pobre coitada! Juro que deu vontade de contra-atacar em português do bairro de Aparecida:

- Minha senhora, não confunda cinto com bunda, nem cipó com jerimum.

Considerando o meu francês macarrônico, o tradutor oficial do Taquiprati, Pascal Foucher, regiamente pago, traduziu assim: 

Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille.  Só não fui grosseiro porque a “salade d’asperges aux pignons” que ela fez estava supimpa e também porque madame havia falhado, felizmente, na educação da filha que era – vejam só! – feminista e militante da Lutte Ouvrière liderada por uma mulher, a sindicalista Arlette Laguiller.

Por que lembrei agora dessa história? É que acabo de ler o belo artigo “Oito de outubro - Dia da psicóloga latino-americana: mulheres na luta” escrito por Ana Jacó, publicado na Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia. A data, instituída em 2006 na Assembleia da União Latino-americana de Psicologia, é uma homenagem a Ernesto Che Guevara, assassinado neste dia e que se tornou símbolo da luta pela liberdade e contra o imperialismo.

As torturadas

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No entanto, Ana Jacó, que reverencia o Che, faz uma pergunta inquietante que desconcertaria a mãe da Louise: por que homenagear em pleno séc. XXI um homem, que não é da área de psicologia, numa profissão que é majoritariamente feminina? O próprio homenageado certamente faria o mesmo questionamento.

Diretora do Instituto de Psicologia da Uerj e com pós-doutorado em História e Historiografia da Psicologia na Universidade de Barcelona, Ana Jacó, apoiada em documentos e em uma bibliografia consistente, compõe trajetórias de luta de psicólogas e estudantes de psicologia que enfrentaram as ditaduras em diferentes países latinos, mas permanecem no olvido. Entre elas, as psicólogas brasileiras Iara Iavelberg, Pauline Reichstul e as estudantes de psicologia Marilene Villas-Boas Pinto e Aurora Maria Nascimento Furtado, assassinadas quando tinham pouco mais de vinte anos”.

Na clandestinidade ou na prisão, elas souberam usar o que haviam aprendido na formação profissional. “Lúcia Maria Salvia Coelho (um pouco mais velha, nascida em 1937) realizou acolhimento psicológico de presas que haviam acabado de ser torturadas, isto dentro da cela que dividiam, enquanto ela mesma estava presa”. Outro exemplo foi Iara que “defendeu o cuidado psicológico em relação aos militantes na luta armada” e “sugeriu que a organização criasse um local onde pudessem descansar das tensões a que eram submetidos”.

Não podia ficar de fora da lista a Madre Cristina, pioneira na criação de cursos de especialização para formação de psicólogos, que abrigou perseguidos políticos e apoiou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e as Diretas-já. Mas a autora cita ainda profissionais que enfrentaram a repressão em outros países como a argentina Beatriz Perosio, presidente da Associação de Psicólogos de Buenos Aires, sequestrada e “desaparecida” em agosto de 1978. A colombiana Viviana Muñoz Marin, que cuidava da transição à vida civil de ex-combatentes e foi assassinada em 2018.

Urucum e jenipapo

Rede Psicologos Indigenas.png

 

Essa história pode ser enriquecida com a abertura dos arquivos das ditaduras militares no nosso continente. Por isso, o artigo nos convida a lembrar outras mulheres de luta como Cecília Coimbra, doutora em Psicologia pela USP, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais e docente da Universidade Federal Fluminense, que batalha pelo acesso à informação negada pelos militares. Se o torturador coronel Ulstra foi mesmo brilhante, um “herói” como quer Bolsonaro, porque não permitir que o povo brasileiro conheça seus feitos?

Cecília Coimbra continua atuante e apesar de ter sido barbaramente torturada não perdeu a alegria de viver. Em depoimento à Comissão da Verdade, ela identificou 11 torturadores que a submeteram a choques elétricos no bico dos seios, na vagina e por todo o corpo, enquanto gritavam palavrões. O delegado Mário Borges do DOPS/RJ berrava: “Fale sua puta comunista, com quantos você trepou”.

Em especial, a tortura perpetrada à mulher é violentamente machista. Inicialmente são os xingamentos, as palavras ofensivas e de baixo calão, ditas agressiva e violentamente como forma de nos anular – disse Cecilia em seu depoimento. Cecilia vive. Borges, que precisava de tratamento, está morto, menos um voto para Bolsonaro.

Por fim cabe destacar a recente criação, em maio de 2020, em plena pandemia, da Articulação Brasileira dos Psicólogos Indígenas (ABIPSI), “que luta por uma psicologia pintada de urucum e jenipapo”. Eles estão buscando “uma nova forma de pensar a psicologia e agir ativamente na construção de políticas públicas”, que levem em conta os códigos culturais indígenas.

Uma das psicólogas da ABIPSI, Itaynara, da etnia Tuxá - um povo com mais de duas mil pessoas que vivem na Bahia, Alagoas e Pernambuco - deu um chega-pra-lá na mãe de Louise ao escrever:

- “A inserção da mulher indígena na história trouxe incômodos ao sistema patriarcal, filho do colonialismo, que de uma forma sistemática e opressora, tenta deslegitimar e inferiorizar esse protagonismo e corpo geopolítico”. 

A psicóloga Tuxá chama ainda atenção para o fato de que a psicologia nasceu no berço do capital cultural monopolizado e construiu suas teorias e práticas a partir de uma realidade que não considerava a diversidade, contribuindo assim para tornar invisível qualquer sujeito que não se enquadrasse nessas exigências sociais.

De fato, não podemos confundir “ceinture avec cul et vigne avec citrouille”. Ofendido pessoalmente por me colocar na pele das minhas nove irmãs, todas elas competentes em suas áreas, respondi à mãe de Louise que conheço psicólogos competentes, incluindo dois sobrinhos, mas competência por competência, fico com as psicólogas, de preferência indígenas. Não entregaria minha alma a qualquer marmanjo.

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P.S. – Lucilene Marques, professora do Colégio Lato Sensu, de Manaus, morreu de Covid-19, nesta terça (6). Deixou esposo, irmã e sobrinhos. Os professores reivindicam a suspensão das aulas que foram retomadas no dia 6 de julho, de acordo com cronograma determinado pelo Estado. Enquanto isso, a Polícia Federal investiga desvio de recursos destinados ao combate à Covid-19 e superfaturamento de contratos, cujo principal suspeito é o vice-governador Carlos Almeida (PTB vixe vixe). Que sacripantas! O governador Wilson Lima (PSC vixe vixe) também é investigado. O inspirador de todos eles, Amazonino Mendes, que ameaça voltar para a Prefeitura, está garimpando votos entre as Louises de Manaus. Não terá um voto sequer das Lucilenes.

 

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