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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

23
Set22

E da costela de Bolsonaro foi criado o pior canalha brasileiro

Talis Andrade

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Ilustração: Victor Vilela para o Intercept Brasil

 

Nem mesmo o doutor Werneck, o cafajeste maior de Nelson Rodrigues, imaginaria o canalha forjado e recriado sob a organização e influência bolsonarista.

 

por Xico Sá /The Intercept

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O MILITAR Jair Messias Bolsonaro não criou o canalha nacional no laboratório do ódio do Palácio do Planalto. Isso é obra de séculos. O cafajeste “imbrochável” do palanque do 7 de setembro tampouco é uma criação original – a patente, óbvio, é da pornochanchada, o ciclo da sacanagem com humor do cinema brasileiro.

O presidente, no entanto, é pioneiro ao organizar e influenciar a canalhice para ataques contra as mulheres durante o seu mandato no governo. Haja covardia e perversidade, embora os seus seguidores fundamentalistas jurem (ajoelhados no milho do cinismo) que se trata apenas do combate ao “politicamente correto”, promessa de campanha de 2018.

Nem mesmo na galeria dos canalhas criados pelo cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues é possível encontrar um personagem que se compare, em atrocidade machista, à figura presidencial. Reli agora quase todos os episódios da série “A vida como ela é” e repassei as principais peças rodriguianas. Nem o doutor Werneck, no seu moralismo religioso de araque, alcança esse patamar bolsonarista no texto de “Bonitinha, mas ordinária”.  O Peixoto, no mesmo drama, também não é páreo. Muito menos o pobre Edgard diante daquele cheque de 5 mil cruzeiros que o sogro usa para testar o seu caráter.

Não há um só canalha de véspera ou canalha do dia seguinte – como Nelson definia o homem brasileiro na sua tragédia – capaz de imitar um paciente de covid-19 morrendo por falta de oxigênio. E olhe que o Peixoto topava qualquer tarefa degradante de um “cidadão de bem” da sua época. O Peixoto seria capaz de negar uma marmita a uma dona de casa faminta. Duvido, porém, que o Peixoto zombasse de uma vítima de tuberculose – era um sujeito cerimonioso diante da morte.

Bolsonaro imitou pessoas sem ar em live em março de 2021

Bolsonaro imitou pessoas sem ar em live em março de 2021

 

No critério de ataque direto às mulheres, a gestão do presidente se estabeleceu com as agressões provocadas por ele mesmo ou pelos seus  dublês que se multiplicaram como gremlins na água suja que escorreu da goteira bolsonarista. Somente na última quinzena, a prática banalizada e autorizada por Bolsonaro teve como alvo uma mesma jornalista, Vera Magalhães.

No primeiro ato de violência, o próprio capitão da extrema direita agrediu a colunista de “O Globo” ao falar da sua intimidade sexual e chamá-la de “vergonha para o jornalismo brasileiro”, em debate na TV Bandeirantes. O discípulo Douglas Garcia, deputado estadual do Republicanos de São Paulo, fez o bis do ataque, copiando as mesmas palavras, na TV Cultura – o parlamentar estava na claque do candidato a governador Tarcísio de Freitas, seu colega de partido.

Douglas Garcia - 1070 Dep Federal on Twitter: "Hoje mais cedo recebemos o  PR Bolsonaro em agenda oficial na cidade de SP. https://t.co/5mQ1SPqHKk" /  Twitter

Ameaças e patadas nas mulheres se tornaram rotina no mandato de Bolsonaro. Um dos mais prestigiados homens do clube dos cafajestes bolsonaristas, Pedro Guimarães foi obrigado a deixar o cargo de presidente da Caixa ao acumular dezenas de acusações de assédio sexual de funcionárias do banco.

 

Nem mesmo na galeria dos canalhas criados pelo cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues é possível encontrar um personagem que se compare, em atrocidade machista, à figura presidencial.
 

Seria injusto, porém, dizer que o militar só começou a agredir jornalistas depois de abastecido da testosterona presidencial. Em 1987, fez o gesto de arminha com os dedos e ameaçou de morte a repórter Cássia Maria: “Você vai se dar mal”. Ela havia publicado na revista Veja, um plano terrorista do então capitão do Exército para jogar bombas em quartéis e caixas d´águas do sistema de abastecimento do Rio de Janeiro. O objetivo seria um protesto contra a baixa remuneração da tropa. A reportagem rendeu um castigo de 15 dias de prisão para Jair Messias.

Em 2003, o então deputado federal da bancada carioca seguiu amplificando em Brasília sua brutalidade com as mulheres: “Só não te estupro porque você não merece”, atacou a colega de parlamento Maria do Rosário, do PT gaúcho. Nos ensaios preparativos para a disputa à Presidência, em 2016, elaborou “melhor” a fala criminosa, ao dizer os motivos pelos quais não estupraria a deputada: “Porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”. A torcida da macharada misógina vibrou como um gol de final de campeonato.

No mesmo ano, ainda teve o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ali o machismo brabo desceu e chafurdou nos porões da ditadura. Bolsonaro dedicou a sua decisão ao coronel Brilhante Ustra, torturador da ex-presidente, o maior carrasco das mulheres entre os militares assassinos. Pra frente, Brasil.

Nem mesmo o doutor Werneck – o cafajeste maior de “Bonitinha, mas ordinária” – imaginaria o canalha forjado e recriado sob a organização e influência bolsonarista. É o canalha que odeia as mulheres, ataca jornalistas nos cercadinhos de Brasília ou nos debates, tira onda de playboy de clube de tiro e humilha donas de casa famintas com lacrações gravadas para o grupo de WhatsApp da motociata. Até o Peixoto cancelaria esse tipo.

16
Set22

Faça como Ciro em 2018 pregue o voto útil para o Brasil livre das ameaças golpistas

Talis Andrade

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Bernardo Mello Franco
@BernardoMF
Ciro Gomes está nervoso. Na reta final da campanha, o candidato do PDT lançou uma cruzada contra o voto útil. Há quatro anos, ele defendia essa opção em causa própria

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15
Set22

A mentira como base para a instalação de um regime fascista

Talis Andrade

Dois sujeitos sádicos que nasceram na pobreza e odeiam pobres 

 

Ato falho de Bolsonaro no programa do Ratinho pai

 
 
Mais um ato falho de Bolsonaro. Na última terça-feira, em conversa amigável no programa do Ratinho, do SBT, oferecida ao público como se fosse uma entrevista de verdade, Bolsonaro disse:
 

“Caiu assustadoramente no Brasil o número de casos de violência contra as mulheres”.

 

Assustadoramente? Se tivesse caído, não seria coisa para assustar a ninguém, mas para ser comemorado. Verdade que Bolsonaro é um analfabeto funcional que não sabe usar as palavras.

De resto, nesse caso, ele mentiu, outra vez. Bolsonaro mente com tamanha frequência e naturalidade que é incapaz de se dar conta disso. A mentira compulsiva é uma das armas do fascista.

Não caiu o número de casos de violência contra as mulheres no Brasil; pode ter caído, por variadas razões, o registro do número de casos. Bolsonaro não consegue esconder sua aversão às mulheres.

E, entre essas, às jornalistas, de preferência. Por que? Porque elas perguntam ou dizem o que ele não gostaria de responder nem de escutar. Sua misoginia contamina seus seguidores.

Segundo o Repórter sem Fronteira, no primeiro mês de campanha das eleições deste ano no Brasil, apareceram nas redes 2,8 milhões de posts com ofensas a jornalistas, 88% deles mulheres.

14
Set22

Vera Magalhães é hostilizada por deputado bolsonarista após debate

Talis Andrade

 (crédito: Reprodução/Twitter @veramagalhaes)

O covarde agressor

Cena foi registrada em vídeo pela própria jornalista durante o debate para o governo de São Paulo

 

jornalista Vera Magalhães foi hostilizada pelo deputado estadual paulista Douglas Garcia (Republicanos), apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL), durante o debate para o governo de São Paulo na noite desta terça-feira, 13. Usando um celular para gravar o ato, o parlamentar foi até ela e reiterou os ataques feitos pelo chefe do Executivo há duas semanas a chamando de "vergonha para o jornalismo brasileiro", em seguida, reproduziu uma falsa notícia sobre a remuneração anual dela na TV Cultura.

"Não tenho medo de homem que ameaça e intimida mulher", escreveu Vera Magalhães, no Twitter. Ela afirmou que precisou sair escoltada por seguranças do Memorial da América Latina - local onde aconteceu o debate - e adicionou que irá registrar um boletim de ocorrência pela ameaça sofrida. "Um país que condescendendo com esse tipo de ameaça à imprensa não é uma democracia plena. Basta!", adicionou a jornalista.

Vera Magalhães
Aqui o deputado me agredindo. Mentindo que meu contrato é de 500 mil reais. Respondi no vídeo dele. Não tenho medo de homem que ameaça e intimida mulher. Não tenho medo de homem público que usa o cargo para acossar a imprensa

13
Set22

No Brasil, jornalistas mulheres são vítimas de um ataque a cada três dias

Talis Andrade

 

Levantamento da Abraji apontou que 52% dos autores por trás dos ataques eram autoridades públicas

 

por Isabela Alves

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Em 2021, houve um aumento de 79% de ataques contra jornalistas mulheres ou com viés de gênero no Brasil. O dado é de um mapeamento produzido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). 

Foram 119 ocorrências ao longo do ano, o que corresponde a um ataque a cada três dias. As jornalistas mais atacadas foram Daniela Lima (CNN Brasil), Patrícia Campos Mello (Folha de S. Paulo) e Juliana Dal Piva (UOL).

95% dos responsáveis pelos ataques eram homens e 68% das agressões começaram na internet. Em 60% dos casos, as agressões contra as jornalistas ocorreram por conta da cobertura política. 

Um dado alarmante apontou que 52% dos autores por trás dos ataques eram autoridades públicas. Entre as personalidades que mais agrediram as profissionais foram o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal Carlos Jordy (União-RJ),com oito ataques cada um; o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o assessor especial da Presidência Tercio Arnaud Tomaz, com sete ataques cada; e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (União-SP), responsável por cinco ataques.

O relatório “Violência de gênero contra jornalistas” aponta ainda que, em 2021, profissionais da imprensa e veículos foram alvos de 45 ataques direcionados, utilizando gênero, sexualidade ou orientação sexual como argumentos para a agressão. Os “discursos estigmatizantes”, narrativas que utilizam agressões verbais com o intuito de hostilizar e descredibilizar jornalistas, representam 75% dos episódios identificados pela Abraji. 

O levantamento também apontou que as hostilidades são predominantemente direcionadas a repórteres e analistas (85,7%) de meios de comunicação. Os profissionais mais afetados pela violência atuam na televisão (47%); jornais nativos impressos (20,1%); e jornais nativos digitais (14,3%). A região Sudeste lidera o número de ocorrências, com 66,4% dos ataques, seguida por Nordeste (12,6%) e Centro-Oeste (11,7%). Publicado em 10/03/2022

13
Set22

Os ataques a mulheres jornalistas e a omissão das empresas de mídia

Talis Andrade

Jornalistas mulheres são agredidas e não têm apoio dos colegas homens e dos empregadores. Fonte: Freepik

 

Janara Nicoletti
Doutora em Jornalismo e pesquisadora do objETHOS

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A última semana começou com o ataque misógino do então ocupante da cadeira do Planalto a uma jornalista no debate eleitoral da Band, e terminou com o mesmo personagem atiçando sua militância contra uma comunicadora grávida ao postar indiretas contra ela em suas redes sociais. Em ambos os casos, além do ódio à mulher, o desrespeito à liberdade de expressão alheia e a falta de decoro, os ataques da militância cega mostraram como a violência de gênero contra as jornalistas brasileiras é usado para intimidar e deslegitimar a voz das mulheres que cometem o sacrilégio de fazer o seu trabalho. Mais importante, o que se viu em comum nesses e tantos outros casos de violência contra jornalistas é o silêncio dos donos da mídia. A falta de posicionamento dos contratantes das profissionais atacadas não apenas evidencia a falta de proteção da categoria frente aos ataques, mas também revela o descaso com um problema presente, mas invisibilizado pela omissão: a misoginia e os assédios contras as mulheres jornalistas nas redações. 

No dia 28 de agosto, a Band, em parceria com Folha de S. Paulo, UOL e TV Cultura, promoveu o primeiro debate eleitoral de 2022 com os candidatos à presidência da República. No terceiro bloco, quando jornalistas das empresas promotoras faziam perguntas aos candidatos, Vera Magalhães, da TV Cultura, perguntou a Ciro Gomes, com comentário de Jair Bolsonaro sobre a baixa cobertura vacinal e sua relação com informações falsas. Ao ter seu momento de comentário, Bolsonaro disparou: “Vera, não podia esperar outra coisa de você. Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão por mim. Você não pode tomar partido num debate como esse, fazer acusações mentirosas ao meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro”. Em seguida, atacou a candidata Simone Tebet que atuou na CPI da Covid após sua reação solidária à jornalista.

O que se viu no primeiro debate dos presidenciáveis 2022 foi a representação clara da violência de gênero como forma de desqualificar uma profissional. Ao comentar o caso, o presidente da república usou do ataque duplo às mulheres no lugar de dar resposta. Como consequência, a repercussão da atitude machista e grosseira tomou o espaço do que deveria ter sido dedicado ao questionamento da jornalista. Mais uma vez, a misoginia foi usada como forma de evitar responder o óbvio.

Naquele domingo, um segundo fator de misoginia chamou a atenção: o descaso dos demais candidatos. Enquanto Bolsonaro atacou a jornalista e a candidata Simone Tebet, Ciro Gomes riu e depois passou a mão na cabeça parecendo estar desconcertado com a situação. Porém, em seu momento de fala sequer demonstrou qualquer tipo de aversão ou repúdio ao sexismo do seu oponente, falando em pacificar o país. Depois daquilo, as mulheres reagiram de alguma forma, mesmo buscando capitalizar para si. Entre os homens, apenas Luiz Inácio Lula da Silva manifestou solidariedade à jornalista, mas somente nas considerações finais do debate. O silenciamento dos homens que estavam em condições de agir imediatamente contra o ataque no seu primeiro momento de fala escancarou o descaso com a agressão misógina. Eles não disseram nada, assim como as empresas de mídia organizadoras do debate transmitido em TV aberta e pela internet.

 

Responsabilidade por omissão

 

Logo após o episódio, uma onda de declarações contra a fala do presidente e em solidariedade à jornalista tomou conta das redes sociais, desencadeando por lá uma nova onda de ataques. Jornalistas, a maioria mulheres, e entidades representativas repudiaram a fala agressiva. Porém, até o último domingo (4), as empresas organizadoras do debate não se posicionaram a respeito. Infelizmente, esta é uma prática recorrente no caso de violência contra jornalistas: profissionais são agredidos, ofendidos ou atacados online e offline e as corporações empregadoras não se manifestam publicamente. Muitos jornalistas sequer recebem suporte, enquanto outros acabam punidos.

A omissão nesses casos evidencia um vácuo na proteção dos profissionais da mídia. Faltam mecanismos de defesa dos trabalhadores, principalmente às mulheres vítimas de qualquer tipo de violência. Um relatório da organização Repórteres Sem Fronteiras demonstrou que o Brasil ainda precisa avançar muito neste sentido. Na prática, os mecanismos de Estado existentes não atendem aos jornalistas brasileiros. 

Nos últimos anos aumentou o número de ações para monitorar e dar suporte às jornalistas vítimas de violência. Elas aparecem como reação à escalada de hostilidade contra a mídia, porém, ainda há muito a ser feito, especialmente do ponto de vista organizacional. É preciso que as empresas de mídia, assim como as novas iniciativas, tenham como princípio desenvolver ações para ampliar a segurança dos profissionais e oferecer suporte àqueles que sofrerem violência, especialmente as mulheres, que estão mais expostas e vulneráveis a assédios moral e sexual. Ações que precisam levar em conta a misoginia presente dentro do próprio setor e omitida por vários empregadores.

De acordo com o monitoramento Violência de Gênero da Abraji, somente em 2022 foram registrados 55 ataques com viés de gênero contra jornalistas no Brasil, sendo que 56,4% dos casos contêm discursos estigmatizantes, que buscam difamar ou constranger as vítimas. Segundo o monitoramento, 30,9% dos casos são ataques de gênero. Em 2021, foram 119, sendo 38% considerados violência de gênero. Já a pesquisa “O impacto da Desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e LGBT+” constatou que 53% das jornalistas que sofreram violência online admitiram que isso impactou sua rotina de trabalho. 

Em “The Chilling: global trends in online violence against women journalists; research discussion paper”, 73% das mulheres jornalistas afirmaram já terem sido atacadas online, porém, somente um quarto delas informaram os casos a seus empregadores. Mesmo assim, parte delas não recebeu suporte. Entre as respostas recebidas, segundo o estudo da Unesco, estavam o descaso, orientações para endurecerem frente aos ataques, além de casos em que elas foram questionadas sobre o que haviam feito para provocar as agressões.

Em 2022, a Unesco lançou um novo relatório para debater soluções e a responsabilização das empresas de mídia na proteção das jornalistas. Segundo o documento, as ações dos empregadores frente à violência de gênero era inexistente ou inadequada. Muitas vezes, elas acabavam gerando ainda mais dolo às mulheres expostas à violência. Com isso, o relatório destaca a sensação de abandono de muitas profissionais. As autoras do estudo avaliam que a relutância em denunciar os ataques online pode estar ligada a falhas sistêmicas como culturas organizacionais misóginas, patriarcais ou hostis no local de trabalho. Além de lideranças fracas e ausência de protocolos de denúncia e tratamento destas situações.

A violência contra mulheres na mídia deve ser observada a partir de uma perspectiva interseccional, uma vez que mulheres pertencentes a grupos considerados minoritários estão mais vulneráveis à violência, como por exemplo, indígenas, LGBTQIA+, negras, quilombolas. “Em outras palavras, uma abordagem feminista para a proteção de mulheres jornalistas consideraria sua segurança não apenas no trabalho, mas também no caminho para o trabalho, nas redações, e como preucupações com segurança podem envolver aspectos de suas vidas privadas”, aponta o relatório Equally Safe: Towards a feminist approach to the safety of journalists, da Artigo 19.

Devido à natureza da profissão, a jornalista é uma pessoa pública. Independente de estar ou não em uma empresa de mídia, a pessoa física se confunde com a identidade profissional. Esta visibilidade, somada ao mundo digital, a coloca num teto de vidro, amplificando a exposição e os riscos aos quais está exposta. No caso das mulheres que são jornalistas, pensar e expor suas opiniões, acaba sendo o suficiente para se tornar alvo de ataques misóginos. Muitas vezes, eles extrapolam a vida profissional e afetam também familiares. 

Em 2020, a Comissão de Direitos Humanos das Organizações das Nações Unidas destacou que no universo midiático é esperado que as mulheres se encaixem em papeis estereotipados e atuem em um sistema com relações de poder desiguais entre homens e mulheres. Segundo o texto, elas são frequentemente visadas pelo seu trabalho, devido a sua voz, “especialmente quando estão quebrando as regras de desigualdade de gênero e estereótipos”.

No final de 2020, Andressa Kikuti alertou que a misoginia é um risco à liberdade de expressão ao debater os ataques online contra jornalistas mulheres. “Se eu dissesse que a maior parte das pessoas responsáveis por noticiar os assuntos mais importantes do dia o fazem sob condições de vulnerabilidade e violência? Seria preocupante, não é mesmo? Pois bem, infelizmente essa não é apenas uma afirmação hipotética.” Essas pessoas são as mulheres, afirmou a pesquisadora. Em 2021, Kikuti debateu outro tipo de violação de gênero presente no jornalismo brasileiro: a desigualdade do mercado de trabalho e suas consequências. As mulheres são maioria nas redações, são as que trabalham mais horas, recebem menos e estão mais expostas a assédios e violências.

A violência de gênero não se limita aos abusos e ataques feitos por terceiros. Ela aparece em estruturas de poder e dominação que as coloca em condição de inferioridade frente aos seus colegas homens, que são maioria em cargos de chefia. Se materializa por toques inadequados de colegas ou chefes, comentários ofensivos ou embaraçosos sobre corpo, peso, comentários depreciativos de suas habilidades e qualificações profissionais, entre outras situações cotidianas que aparecem naturalizadas no dia a dia das redações, porém, podem gerar danos profissionais e psicológicos em longo prazo.

Para se ter uma ideia, 83,6% das participantes da pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro afirmaram já terem sofrido algum tipo de violência psicológica nas redações. Outras 70,4% admitiram já ter recebido cantadas que as deixaram desconfortáveis enquanto exerciam seu trabalho. O estudo de 2017 mostra que  65,7% das participantes tiveram sua competência questionada por colegas ou superiores ou viram uma colega nesta situação, enquanto 64% relataram abuso de poder ou autoridade de chefes ou fontes. Além disso, 46% das respondentes informaram não existirem canais adequados para denúncias de assédio ou discriminação de gênero em seu local de trabalho.

É imprescindível que as empresas de mídia assumam seu papel em defesa das jornalistas e desenvolvam medidas efetivas de proteção às profissionais vítimas de violência, dentro e fora do seu local de trabalho. Além de posicionamento público, defesa jurídica e suporte psicológico, é preciso implementar protocolos de ações efetivas que combatam as violações aos direitos das mulheres, além de mecanismos de segurança para combater ataques externos. O relatório “The Chilling: What More Can News Organisations Do to Combat Gendered Online Violence?” destaca medidas que vem sendo adotadas por algumas organizações jornalísticas ao redor do mundo para garantir a proteção às jornalistas. Entre elas, estão os empregadores defenderem publicamente seus jornalistas vítimas de ataques, ampliar ações sobre questões interseccionais que precisam ser enfrentadas e criação de novas funções dedicadas a enfrentar de forma mais efetiva a violência contra os jornalistas.

Também é essencial que jornalistas homens tomem partido. É triste ver que maior parte das notas de repúdio a agressões contra mulheres venham de mulheres. Homens jornalistas devem assumir o papel de defensor da liberdade de expressão também quando mulheres são atacadas. E muito mais que cobrar decoro e se solidarizar pela vítima, a sociedade civil organizada precisa cobrar insistentemente a responsabilização das empresas de mídia pelo suporte e proteção de seus profissionais. O caso do primeiro debate eleitoral de 2022 escancarou a permissividade dessas organizações ao ataque misógino. Duas mulheres foram agredidas verbalmente em cadeia nacional. No decorrer da semana, a jornalista sofreu ainda mais ataques. Uma nota de repúdio não resolveria o problema central, porém ao menos demonstraria respeito a quem foi violada no seu direito profissional e civil de se expressar.

Mulheres jornalistas sofreram 6 ataques por mês em 2021 – Home | ABI –  Associação Bahiana de Imprensa

13
Set22

A primeira vítima

Talis Andrade

O jornaleiro

 

Cesar Valente /objETHOS

Vocês, que nasceram ontem, talvez não consigam avaliar o tamanho da decepção que sinto sempre que vejo um colega, que tem quase tanto tempo de vida e profissão quanto eu, tratar com desleixo, incompetência ou mesmo má fé as informações que publica em seus espaços. A dor é ainda maior quando esse espaço é num veículo de comunicação que o remunera, teoricamente, por um trabalho profissional.

Esse sofrimento, embora possa parecer, não é coisa nova. Não surgiu com a popularização da internet e suas ferramentas. Bem antes, havia colegas que se entregavam ao uso preguiçoso e não raro delituoso do off. O off, como imagino que todos saibam, é aquela informação cuja fonte quer permanecer oculta.

Trata-se de um recurso muito útil em algumas situações. Na ditadura militar que infelicitou o Brasil, por exemplo, poderia ser necessário não citar o nome, para garantir a segurança daquela pessoa. Ou o emprego.

E, claro, é campo fértil para engodos, trapaças e plantações. Um jornalista aético pode servir a vários senhores publicando, como “de fonte próxima aos fatos”, informações de interesse deste ou daquele, para atingir algum objetivo situado a léguas de distância do que deveria ser o objetivo de uma informação jornalística.

Sem muita surpresa, mas nem por isso com menos tristeza, vez por outra vejo que o mesmo colega que me espantou fazendo mau uso do off, décadas atrás, agora faz mau uso do material que recebe em grupos de WhatsApp.

Houve tempo em que chamávamos alguns colegas apanhados no mau exercício da profissão, de “picaretas”. Era uma enorme vergonha, para a maioria de nós, ser chamado de “picareta”. Significava, no mínimo, que era possível comprar citações elogiosas, menções abonadoras, em textos revestidos daquela aura jornalística que lhes emprestava, em certa medida, fé pública.

Nem todos os leitores desconfiavam que as críticas (ou elogios) não eram resultado de uma apuração honesta dos fatos e suas circunstâncias, mas de um acerto financeiro qualquer, realizado sob um manto espesso de sigilo. E quem sabia de tais descaminhos, não tinha muito o que fazer. Ou nem sabia como reagir.

Olhávamos com certa inveja para os Conselhos Federais de outras profissões, no que eles representavam de possibilidade de controle do exercício profissional. Não só nunca conseguimos nos organizar para criar uma instituição semelhante, como em algumas das vezes em que essa ideia foi à público, houve um bombardeio intenso e de múltiplas origens, rotulando a coisa como “tentativa de censurar a imprensa”. Era o contrário, mas ninguém parecia disposto a ouvir, muito menos a conversar e entender.

Passaralhos e o muro

Durante algum tempo, em várias cidades, grupos grandes de jornalistas faziam a avaliação ética e moral da forma como a profissão era exercida, nas mesas dos bares. Não por acaso, alguns dos bares frequentados por jornalistas depois do expediente, onde essas discussões fundamentais se davam, tinham nomes como “Pé Sujo” ou “Sujinho”.

Os “maus jornalistas”, segundo as atas das reuniões de final de noite, escritas em papéis manchados de molho de pimenta e selados com a marca circular de algum copo de cerveja, não estavam nesses bares: jantavam nos restaurantes finos frequentados pelos donos das empresas jornalísticas. O que pode ser apenas rancorosa maledicência.

Mas, coincidência ou não, enquanto voejavam os passaralhos (nome vulgar que identifica uma leva de demissões de jornalistas. Nunca ficou muito claro a partir de que número de demissões simultâneas se autoriza o uso desse nome. Mas quando são demitidos mais de dez jornalistas de uma vez, trata-se, sem dúvida, de um passaralho), aqueles colegas que nos espantavam porque suas colunas vertebrais tinham uma flexibilidade quase olímpica, em geral sobreviviam e não eram alcançados nem pelas garras da contenção de despesas, nem da reacomodação organizacional.

Uma das lendas do jornalismo (surgida, como tantas, nos jornais dos Estados Unidos) era o muro que deveria separar a redação (onde era produzido o material editorial), do comercial (de onde vinham os recursos que financiavam a operação editorial). Como toda utopia, parecia não só muito razoável, como até exequível.

Ao comercial cabia oferecer, aos clientes interessados em fazer suas mensagens chegar aos leitores, ouvintes, telespectadores, espaços naquele veículo. Que seriam ocupados, mediante remuneração, por material publicitário produzido pelo cliente que, de maneira alguma, poderia confundir-se com o material editorial do veículo.

Tudo ia muito bem até que um dia um cliente, cheio da grana, fez a seguinte proposta para o vendedor de espaços comerciais de algum jornal: “Se o jornal fizer uma reportagem assim e assim, mostrando isto e aquilo, eu fecho um contrato de seis meses com vocês”. Claro que essa historinha é inventada. Acabei de pensar nela para exemplificar uma das tentações que atacavam diariamente os veículos. O que é verdade é que propostas como essa sempre fizeram brilhar os olhinhos de muita gente.

E o muro? Ora, quando se trata de dinheiro, os donos dos veículos nunca ficam em cima do muro. Sempre se preocupam com a viabilidade do negócio. Mais ou menos como os governos brasileiros sempre se preocupam com a governabilidade. Em nome da governabilidade, digo, da viabilidade, não custa nada reunir a chefia da redação e a chefia do comercial, para encontrar um ponto comum. Provavelmente no centro.

É importante lembrar a quem, apesar do que já foi dito, continua lendo, que ainda estamos no final do século passado, quando ainda havia jornais e veículos onde o comercial (ou o marketing) não estava hierarquicamente acima da chefia da redação. E essas conversas entre comercial e redação, intermediadas por figurões da “alta direção” da empresa, eram também conhecidas como “conversa de levar gato para tomar banho”.

Entre os chefes alguns eram mais resistentes, outros mais compreensivos e alguns decididamente coniventes. Alguns aceitavam pensar na possibilidade de incluir os temas na pauta, mas informavam que o material seria tratado com rigor profissional. Outros só faltavam pedir que o cliente mandasse o texto e as fotos. E, se não fosse possível, que não se preocupasse, que ele mandaria o texto para uma revisão antes da publicação.

Tive a felicidade de trabalhar num jornal cujas chefias estavam entre as que ainda resistiam ao assédio, ao charme, aos apelos e às vezes às ameaças do comercial e (não raro) dos acionistas controladores da empresa. Por incrível que possa parecer, o jornal se chamava Gazeta Mercantil e tratava, essencialmente, de economia e negócios.

Uma das formas que o jornal encontrou para ampliar as possibilidades de anúncio, foi a criação de cadernos especiais (chamados de Relatórios). Como fazer isso sem se entregar de corpo e alma ao “inimigo”? E respeitando o que o minucioso manual de redação do jornal prescrevia?

Conheço essa história porque fui, por alguns anos, “editor de Relatórios”, que era como me apresentava e pouca gente na própria redação ouvia sem perguntar “o que é mesmo que tu fazes? Qual é tua editoria?” E funcionava assim: eu e uma pequena equipe fixa produzíamos, com ajuda de repórteres da casa, chamados conforme a área, esses cadernos, que não eram diários.

Alguns temas, como “Oportunidades na Amazônia”, “Transporte Ferroviário”, “Bancos”, poderiam parecer, à primeira vista, caça-níqueis, uma capitulação editorial às pressões dos interesses dos anunciantes. Mas, para tranquilidade da minha consciência, eram elaborados com esmero jornalístico: jornalistas da sede eram enviados para reportagens que duravam vários dias, correspondentes em várias capitais eram acionados, a pauta era discutida internamente, sem a participação (e sem o conhecimento) do comercial.

O comercial sabia, claro, que estava sendo preparado um relatório sobre tal tema, com circulação tal dia. Alguns dos temas tinham sido sugeridos por eles. E cessava ali a troca de gentilezas. Mas eles sabiam que podiam oferecer a seus clientes da área, espaços num material que teria apuração cuidadosa, texto informativo e abundante: os relatórios tinham em média de oito a dez páginas tamanho standard.

Sem teto, mas com colunas

Claro que essas tentativas de relacionamento sadio com os financiadores da operação sempre muito cara que é o jornalismo de qualidade não foram suficientes. No começo do século XXI, o jornal definhou, rastejou e depois fechou, como tantos outros.

Com a crise se alastrando, e o desconhecimento de que crise, afinal, é essa, os jornais e veículos sobreviventes, assustados, começaram a entregar os anéis para tentar preservar os dedos. Se quisermos usar uma imagem bem educada.

A primeira vítima em toda crise que tenha componentes financeiros, nos veículos de comunicação, é a vergonha na cara. Desaparece. O pudor que eventualmente alguém teve, um dia, de vender uma pauta, de aceitar matéria paga, de cobrar por notinhas nas colunas, some completamente.

E, pior, foi substituída por uma volúpia aética de fazer caixa a qualquer custo. Por que ter motoristas para conduzir repórteres? Basta exigir, na contratação, carteira de habilitação para dirigir. Por que ter fotógrafos se os celulares têm câmeras ótimas e se o repórter que fará o texto tem celular? Por que ter repórteres se as principais informações estão na internet e custa nada transcrevê-las? Ou, se “todo mundo” tem assessoria de imprensa e manda material prontinho e grátis?

Aos poucos, os jornais sobreviventes ganharam uma aparência daquele antigo templo grego na Acrópole, o Partenon: dezenas de colunas que não sustentam coisa alguma, porque o teto já ruiu. Dezenas de colunas. Pra nada. Alguns jornais chegam ao ponto de cobrar dos colunistas para que publiquem suas colunas. Outros ainda remuneram (mal, claro) os colunistas, mas fazem vista grossa, ou até estimulam, os usos pouco republicanos daquele espaço.

E acabamos voltando ao lamento cheio de mimimi com que iniciei este comentário: o último dos moicanos, um dos escassos jornalistas ainda remunerados para escrever, que tem a dádiva de uma coluna (local onde, teoricamente, poderia tratar, com maior liberdade do que numa reportagem, das questões fundamentais da humanidade, ou pelo menos da rua onde ele/ela vive), joga décadas de história profissional na lata do lixo porque achou uma boa ideia aceitar a sugestão da esposa, do dono do jornal, de algum “empresário” cuja lancha usa de vez em quando e transcreveu, acriticamente, uma bobagem que recebeu pela internet.

O triste fim da história é que nem adianta chamar a atenção, avisar do equívoco, do desvio. Lembram que disse, há poucos parágrafos, que a primeira vítima nessas “crises” é a vergonha na cara? Pois é. Só quem ainda tem vergonha na cara, quando confrontado com algum equívoco ou erro que tenha cometido, trata de remendar, corrigir, desculpar-se. Não é, portanto, o caso.

 

 

13
Set22

Repórter que denunciou esquema de fake news pró-Bolsonaro é ameaçado

Talis Andrade

A linguagem combativa das charges no Brasil - Portal Jornalismo ESPM

 

Reportagem revela que grupos estão dispostos a pagar pela criação de conteúdos falsos em favor do presidente Bolsonaro

 

por Thays Martins /Correio Braziliense

O repórter Lucas Neiva, do site especializado em política Congresso em foco, foi ameaçado de morte após a publicação de uma reportagem que denuncia um esquema de produção de fake news com o intuito de beneficiar o presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Após a divulgação da reportagem, Lucas Neiva chegou a ter dados pessoais vazados e recebeu diversas ameaças em fóruns da internet. “Parece que alguém vai amanhecer morto”, escreveu uma pessoa. O site Congresso em Foco também foi derrubado por um ataque hacker neste domingo (5/6). De acordo com o site, a página deles chegou a ficar fora do ar por nove horas. Também foram feitos ataques à editora do site, Vanessa Lippelt. 

O jornalista registrou um Boletim de Ocorrência e o caso será investigado pela 9ª Delegacia de Polícia de Brasília.

A reportagem do Congresso em Foco revela que usuários da plataforma imageboard, um fórum anônimo, estão dispostos a pagar com recursos próprios a criação de conteúdos falsos em favor do presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha eleitoral deste ano. Na publicação, ainda há a orientação para que o conteúdo seja viral. 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) emitiram uma nota em solidariedade ao repórter. "Esperamos que a investigação policial sobre o caso seja rápida e precisa para que os responsáveis pelas ameaças e ataques possam ser identificados e devidamente processados nos termos legais", diz trecho da nota.

No ano passado, o Brasil registrou uma média de quase três ataques a jornalistas por semana, segundo relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foram registrados 430 ataques a jornalistas em 2021, o maior número desde que foi iniciado o levantamento, na década de 1990.

Os jornalistas e as eleições

 
 

 

13
Set22

Senadores cobram investigação por ameaça de morte a jornalista do Congresso em Foco

Talis Andrade

Chargista da Gazeta sofre ameaça de agressão física • Gazeta de Rosário

As ameaças de morte direcionadas ao jornalista Lucas Neiva, do site Congresso em Foco, foram classificadas por senadores como grave ataque à liberdade de expressão e ao livre exercício profissional

 

Fonte Agência Senado

As ameaças de morte direcionadas ao jornalista Lucas Neiva, do site Congresso em Foco, foram classificadas por senadores como grave ataque à liberdade de expressão e ao livre exercício profissional. Pelas redes sociais, eles se solidarizaram com o profissional, pediram investigação célere do caso e asseguraram apoio da Comissão de Direitos Humanos (CDH) para elucidação do crime. 

Lucas Neiva virou alvo de ameaças de morte e teve seus dados pessoais vazados após a publicação de uma reportagem de sua autoria, no sábado (4), em que denuncia a tática de um fórum anônimo para produzir fake news em favor do presidente Jair Bolsonaro. Além das ameaças, o grupo também atacou e derrubou o site do Congresso Foco no domingo  (5).

 O presidente da CDH, senador Humberto Costa (PT-PE), disse que recebeu a notícia com muita “indignação e consternação”. Em nota, ele assegurou que o colegiado tomará as providências necessárias para que o crime seja elucidado. 

“É fundamental que estas ações sejam amplamente investigadas. Esses criminosos não calarão as vozes daqueles que diuturnamente trabalham para nos trazer informação e conhecimento; esses criminosos não cercearão a imprensa brasileira; esses criminosos não rasgarão  a Constituição Federal. A democracia não ficará a mercê de pessoas sem caráter que trabalham para espalhar o caos”, afirma em nota divulgada à imprensa. 

Os senadores Jean Paul Prates (PT-RN) e Fabiano Contarato (PT-ES) também reforçaram o pedido pela urgência nas investigações. Para eles, a liberdade de expressão e o livre exercício da imprensa são fundamentais numa democracia. Na avaliação de ambos, o Estado e a sociedade devem assegurar esse princípio constitucional. 

“As autoridades policiais e judiciárias precisam punir com celeridade mais um ataque criminoso da extrema-direita bolsonarista contra o jornalismo. Solidariedade ao jornalista Lucas Neiva e ao Congresso em Foco, para os quais nosso mandato está à disposição. É dever do Senado reagir em defesa da imprensa e da democracia, e o começo pode ser aprovando meu projeto de lei (PL 4.522/2020) que criminaliza hostilidade contra profissionais da imprensa. A proposta garante pena mais dura para quem atacar jornalistas”, defendeu Contarato. 

O projeto defendido por Contarato altera o Código Penal estabelecendo uma pena de detenção de um a seis meses, acrescida de multa, a quem praticar hostilidades com o objetivo de impedir ou dificultar a atuação dos profissionais de imprensa. A pena será aumentada em caso de emprego de violência ou vias de fato que se considerarem aviltantes.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também se somou as críticas aos autores dos ataques.  

“O que esperar de um bando de criminosos, milicianos e corruptos? O Lucas Neiva descobriu e divulgou um grande esquema de fake news pró-Bolsonaro e, por isso, recebeu ameaças de morte. São uns bandidos que têm que sair da presidência direto para a cadeia.”

Senadores se solidarizaram ainda com a jornalista Vanessa Lippelt, editora do Congresso em Foco Insider, que também foi vitima de ameaças em razão de sua atuação em reportagens investigativas.

07
Set22

Jornalista atacada por Bolsonaro em debate é alvo de ofensas no Rio

Talis Andrade

vera magalhães guindaste

 

Vera Magalhães publicou imagem de guindaste que exibia sua foto e frase repetida por presidente: "Vergonha para o jornalismo"

 
 
A jornalista Vera Magalhães, apresentadora do programa Roda Viva, denunciou nesta quarta-feira (7/9) o uso de um banner com uma foto sua em meio aos protestos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro. Ela tonou-se alvo de ataques após questionar o presidente no debate presidencial da Band sobre vacinação e ser ofendida por ele durante a resposta.
 
Na ocasião, Vera perguntou sobre a diminuição da cobertura vacinal no país. “Vera, não podia esperar outra coisa de você. Eu acho que você dorme pensando em mim, tem uma paixão por mim. Você não pode tomar partido num debate como essa, fazer acusações mentirosas ao meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro”, disparou o mandatário.
 
A jornalista questionou quem teria arcado com os custos do guindaste que exibia o banner, com uma foto dela e parte da fala de Bolsonaro. “Por que a virulência? Porque o desgaste para Bolsonaro pelo que ele respondeu, não o que eu perguntei, foi grande”, disse.
Vera Magalhães
@veramagalhaes
Sabem o que isso faz? Volta uma horda violenta e fanatizada contra mim. Coloca minha segurança e minha integridade física em risco. Coloca um alvo na minha cara. Isso sim é vergonhoso. Isso não é democracia. E é dessa maneira que essas pessoas enxergam a mulher e a imprensa
Amanda Klein: Quem é a jornalista cujo marido foi citado por Bolsonaro
 

Nessa terça-feira (6/9), Bolsonaro também se irritou com os questionamentos de outra profissional da imprensa. Ele acusou Amanda Klein, da Jovem Pan, de ser leviana, ao ser questionado sobre a compra de imóveis em dinheiro vivo por ele e seus familiares.

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