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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Jul21

Aliança de golpe e eleição

Talis Andrade

 

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A Abin é sempre esquecida quando o golpe é citado, e esse é um erro

Janio de Freitas /Folha

Um indicador visível e seguro dos efeitos do bolsonarismo nas Forças Armadas, segundo a parte mais notória da opinião pública, veio da opção de confiança depositada em duas repórteres ou no general de quatro estrelas e ministro da Defesa que as contestou, Walter Braga Netto. Mesmo sem possibilidade de oferecer prova do que noticiaram, as duas jornalistas viram-se acreditadas enquanto a nota contestatória do general-ministro ruía em desconsideração imediata e irremediável.

Com muitas razões para tanto, foi logo aceita como verdadeira a notícia de um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira, no qual o ministro da Defesa o advertia de que “sem o voto auditável [ou impresso], não há eleição em 2022”.

O bordão de Bolsonaro, repetido no dia do recado. Não seria senão para isso, e outras atitudes assim, que foram substituídos os comandantes da Marinha e da Força Aérea, assumindo dois oficiais tidos como bolsonaristas. Também o do Exército, passado a um presumido manobrável, e posta a Defesa em mãos do ex-braço direito (e direita) de Bolsonaro no Planalto.

A articulação antidemocrática foi fortalecida, portanto, e fez agora a segunda demonstração de sua índole. Prever a terceira não é temeridade.

Fatos sobrepostos, o incidente da reportagem e a substituição do general Luiz Eduardo Ramos na chefia da Casa Civil, substituído pelo camaleônico senador Ciro Nogueira, deram origem a uma interpretação que se expandiu com facilidade idêntica à da sua formulação. “Os militares recuam do centro do governo”, “estão perdendo a guerra”, “o centrão atua para defenestrar os militares” do governo.

A poderosa função de Ciro Nogueira, liderança do centrão, vem do que ele pode obter para suprir as carências do governo na Câmara. Não é outra coisa que os militares bolsonaristas desejam, de olhos postos na eleição que ameaçam e nas pesquisas que os ameaçam abraçados a Bolsonaro. Militares bolsonaristas não se contrapõem: são aliados. De ocasião, é verdade, e de igualdade de caráteres, lembrando-se que o general Augusto Heleno volta à moda pelo que cantava: “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”. Nem o Ciro Nogueira com quem o general agora se enlaça.

Golpe e eleição se misturam. O Ciro Nogueira que dará a deputados o que faça aprovar concessões eleitoreiras pró Bolsonaro, fará o mesmo para a sua pretendida candidatura ao governo do Piauí. Onyx Lorenzoni, no Trabalho, tem igual tarefa para Bolsonaro e para sua ambição no Rio Grande do Sul.

Nas presidências da Câmara e do Senado, Arthur Lira e o amorfo Rodrigo Pacheco jogam o jogo de Bolsonaro, inclusive digerindo as ameaças militares, também para benefícios a suas sonhadas candidaturas aos governos de Alagoas e Minas.

Bolsonaro ficou de apresentar nesta semana as tais provas de fraude nas urnas eletrônicas. Caso mostre alguma coisa, será obra que a Abin, inconfiável por definição, está fazendo há meses. A Abin é sempre esquecida quando o golpe é citado, e esse é um erro. A “procura de fraudes”, por exemplo, ativada pelo diretor da agência, delegado bolsonarista Alexandre Ramagem, deve ser o apelido de outra coisa. Talvez o que apareça como fraude da urna, ou fraude fraudada.

Andreza Matais e Vera Rosa, além do trabalho jornalístico, tiveram a coragem de se expor às contestações problemáticas, dada a ausência de prova disponível para suas informações. O Estado de S. Paulo merece igual reconhecimento pela publicação. Que a mim fez lembrar a serena firmeza do velho Octavio Frias, em tantas situações e decisões semelhantes. Mas há quem ache que o jornalismo está morrendo.

 

Falou Neles

 

Em proposta de delação, viúva de Adriano aponta quem mandou matar Marielle  | VEJA

A delação espontânea da viúva de Adriano da Nóbrega, o ex-capitão miliciano assassinado por PMs na Bahia, encalhou no Ministério Público do Rio. É que Júlia Lotufo falou muito e, embora se disponha a falar ainda mais, já deixou o sobrenome Bolsonaro na pior situação.

A ex-mulher e a mãe de Adriano integraram o esquema das rachadinhas e o convívio da família —processo que justificaria, ele mesmo, um inquérito. As duas sabem muito, mas Júlia Lotufo é quem sabe até a atualidade.

Viúva de Adriano da Nóbrega se casa com empresário que patrocinou clubes do  Rio e que devia dinheiro ao miliciano, morto na Bahia - Jornal O Globo

17
Jul21

‘O Brasil tem muito a crescer nos quadrinhos’

Talis Andrade

Claudinei Plaza/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

por Sérgio Ribeiro Lemos
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Gilmar Machado, 52 anos, nasceu em Presidente Dutra, na caatinga baiana, em 1965, a cerca de 400 quilômetros ao Norte de Salvador. Com 8 anos, antes mesmo de entrar na escola, Gilmar deixou a roça onde trabalhava com seus cinco irmãos e sua mãe para se juntar a seu pai, que tinha saído de lá um ano antes para trabalhar no Grande ABC a convite de um tio vindo de São Paulo, cidade que nenhum deles imaginava existir. No pau de arara – meio de transporte precário utilizado no Nordeste –, Gilmar lembra que passou três dias e três noites vomitando após comer frango com farofa dentro de uma lata de leite em pó.

 

Gilmar Machado e o Diário

Como tantos outros retirantes que vieram parar no Grande ABC com suas famílias e progrediram profissionalmente, o nordestino Gilmar Machado, que teve duas passagens pelo Diário, não só descobriu na região seu dom para o desenho de humor como também atuou e militou no jornalismo sindical em época de repressão militar, quando o simples fato de entregar panfleto em portas de fábricas era motivo suficiente para tomar um ‘chá de cadeira na delegacia’. “Estava em frente a uma empresa em greve para desenhar detalhes do movimento quando veio um policial e me deu uma borrachada que não esqueço até hoje.”

 

Sérgio Ribeiro Lemos entrevista Gilmar MachadoImage

Quando o senhor descobriu a vocação para o desenho?

Desde 1974 morava em Mauá e foi lá que, aos 12 ou 13 anos, fiz os primeiros traços por conta de uma série que tinha na televisão chamada Bang-Bang à Italiana, que passava todas as quartas-feiras. Eu também gostava muito de futebol e desenhava num campo de terra, que parecia grande tapete. Pegava um pedaço de madeira e ia traçando os caubóis gigantes que depois eu contemplava de cima de um morrinho para ver o resultado dos traços antes de o resto do time chegar. Eu gostava desses filmes e isso aconteceu de maneira instintiva.

 

Geralmente é na adolescência que surge o talento. O que o senhor fez depois disso?Depois, com 15 anos, fui trabalhar em fábrica de porcelana em Mauá. Era bizarro, porque a empresa contratava muitos menores de idade. E o que acontecia chegava a ser medonho. A garotada entrava lá e acabava mutilada. Todo mundo que trabalhava na fábrica acabava perdendo um membro. E comigo não foi diferente, perdi pedaço do dedo. Era cruel, pois a gente estudava à noite e dava aquele sono durante o dia. Se distraía e trocava os movimentos. Em vez de tirar as peças da prensa, a gente coloca a mão nela. E esse tipo de acidente era coisa normal. Vira e mexe um garoto sofria acidente. Não tinha isso de leis de trabalho. Eu ficava sozinho num departamento onde fazia massa de cerâmica. Tinha muita poeira e a parede ficava inteiramente branca. Aí eu desenhava nas paredes com os dedos e viajava nas figuras. Num determinado dia, um encarregado entrou, viu aquilo e brigou comigo. Eu voltei para casa revoltado e decidido a não retornar para trabalhar lá. Eu já fazia vários rafes (esboço) e fui procurar trabalho como desenhista. Nem sabia para onde ir, não tinha a menor perspectiva ou objetivo. Trabalhei em agência de publicidade em Santo André, sem salário. O teste foi assim: ‘Desenha o João Figueiredo (último presidente militar do Brasil)’, disse o dono. Desenhei o general com caneta esferográfica mesmo. Eles gostaram. Fiquei seis meses sem ganhar nada. Mas também não fazia nada. Alimentava trabalho que não existia.

 

Qual foi seu primeiro contato com jornal impresso?

Publiquei pela primeira vez no jornal A Voz de Mauá. Era charge sobre a morte de Tancredo Neves. Publiquei mais alguns desenhos. Aí os caras me indicaram o Diário. Me falaram: “Vai lá procurar trabalho. Lá tem o Juarez (trabalhou no Diário de 1981 a 1991), tem o Fernandes (é ilustrador no Diário desde 1982). Eu gostava muito do trabalho dos dois. Recortava os desenhos deles e tenho até hoje. Quando fui lá, encontrei os dois no elevador. Aí fui até a Redação e vi que tinha uma coisa aberta, isto é, existia a apresentação das ideias das charges de todos os caras para uma editora e a que fosse aprovada seria publicada no dia seguinte. No fim do mês eram somados os trabalhos publicados e o chargista recebia por isso. Quando cheguei lá já tinha uma equipe inteira: Juarez, Adelmo, Pathé, Fernandes, Luiz Gustavo, tinha uma equipe bastante grande que ficava ali revezando os espaços, iam produzindo e formavam um salário no fim do mês. Eu nem lembro exatamente quem era contratado efetivamente e quem não era. Fiquei muito intimidado, pois achei um clima já muito preenchido. Até consegui publicar uma charge no espaço nobre do jornal, no Editorial. Foi uma grande realização. Mas não peguei muito bem essa coisa da disputa por espaço. Então fui embora na primeira semana. Procurei outro caminho.

 

Foi o caminho do cartum sindical?

Achei um jornal do PT regional e fui lá mostrar meus desenhos. Nisso apareceu o jornalista Nilton Hernandes, que trabalhava no Sindicato dos Condutores de Veículos e me falou que estavam precisando de um desenhista. Fui contratado logo de cara, sem muita conversa. Passei a fazer as charges dos boletins diários. Enfim, foi meu primeiro trabalho registrado.

 

O desenhista sindical, além de auxiliar na montagem dos jornais, chegava a militar junto aos operários. Isso aconteceu com o senhor também?

Teve um episódio curioso. Fiquei preso durante cinco horas. Houve greve em uma empresa em São Bernardo e fomos entregar os boletins do sindicato para os representantes das entidade. Ficamos na calçada em frente ao piquete. Nem deu tempo. A polícia chegou e já me prendeu ali. Me jogaram no camburão me acusando de portar material subversivo, incentivando a greve e coisa e tal. Em outra oportunidade estava em frente a uma empresa em greve para desenhar detalhes do movimento quando veio um policial e me deu uma borrachada que não esqueço até hoje. Depois disso, trabalhei por dez anos na maioria dos sindicatos do Grande ABC e de São Paulo produzindo boletins e charges. Durante um período me tornei cartunista fixo no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, que depois foi unificado com o de São Bernardo, onde montou-se grande departamento de imprensa, com 25 profissionais entre fotógrafos, jornalistas redatores e cartunistas. Eu e o Paulo César, o PC, nos revezávamos entre tiras e charges. Lembro que um dos jornais que produzíamos, A Tribuna Metalúrgica, tinha tiragem de 45 mil exemplares. Nessa época, aprendi muito, pois nunca tive formação acadêmica nem nada. Sempre fui autodidata. Com essa experiência em sindicato aprendi muito sobre ética, sobre aquelas coisas que você pode ou não fazer, enfim, toda essa questão social do trabalho.

 

Como apareceram as tiras para a grande imprensa?

Nessa época conheci muitos profissionais de grandes jornais, pois eles iam aos sindicatos cobrir pautas sobre os trabalhadores e economia. Dessa forma conheci um jornalista do Diário Popular, o Antonio Diniz, que me contou que o contrato de antigos colaboradores estava terminando. Fui lá e logo de cara foi aprovada minha tirinha que se chamava Ócios do Ofício e fui fazendo as peças sem personagem fixo. Eu não tinha que ir ao jornal, mandava as tiras de casa diariamente. O curioso é que depois de uma semana fui demitido do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo por motivos econômicos e administrativos. Publiquei no Diário Popular cerca de sete anos e acabei gostando muito dessa linguagem das tiras, tanto que criei um patrimônio em torno de 2.500 tiras, que me renderam quatro livros de coletâneas. Depois, o Dipo (apelido do Diário Popular) mudou de nome e de dono. Fui demitido.

 

Nas redes sociais, se intitula o ‘Cartunista das Cavernas’. Explica isso.

Eu passei a trabalhar em casa e percebi que dessa forma poderia produzir muito e atender vários jornais. Passei a publicar tiras no suplemento Folhateen da Folha de S.Paulo. As tiras que eu produzi no Diário Popular passei a distribuir para jornais de outros Estados e do Interior de São Paulo e também Portugal. Fiz dois livros pela editora Devir que depois foram adquiridos pelos governos federal e estadual através de programas de incentivo cultural. Lembro que tivemos boas tiragens por meio desses programas. Na época, em 2004 e 2005, quem vendeu muito para o governo na Devir fomos eu, o Will Eisner e o Fernando Gonsalez. Foram 33 mil exemplares, um marco bem significativo para venda de livro no Brasil. Fiz também tiras para outras editoras, como a Globo, Abril. Sempre tirinhas, uma linguagem que dominava bem.

 

Ainda não explicou o ‘Cartunista das Cavernas’.

Estava conversando com o Fernandes e decidimos trabalhar juntos, entrando em contato com editoras. Achei o máximo trabalhar junto com ele, pois já era fã de seu trabalho. Abrimos a Boitatá Ilustrações em maio de 2005 e começamos a fazer livros didáticos para editoras como a Moderna, FTD e outras durante muito tempo. Um dia ele me perguntou se não queria trabalhar no jornal. Na época, em 2007, o Ricardo Girotto, outro ilustrador, havia saído e fiquei com receio, pois estava muito estabilizado produzindo sozinho sem muita relação com seres humanos (risos). Tenho dificuldade de me relacionar. Somatizo muito os problemas periféricos. Mas era coisa que eu precisava resolver, pois se você mora em uma região que tem um grande jornal e é ilustrador, logicamente vai querer trabalhar naquele veículo. Tinha chegado a hora de resolver essa questão. Topei. Aí fui ilustrar para o Diário, fazendo coisas para o Diarinho, outras ilustrações para colunas e revezando as charges com o próprio Fernandes e o Seri.

 

Por que saiu do jornal?

Por problemas pessoais, depois de dois anos e dois meses resolvi sair. Tem aquela coisa turbulenta de um jornal. Acho que tem caras que são de redação. Eu não sou e descobri isso ali. Caras como o Fernandes e o Seri têm dispositivo para se dar bem, fazendo piadas. É dispositivo para sobreviver à pressão de uma redação. Senti que não consegui. Primeiro que para fazer as criações é muito barulho, televisão ligada, repórter saindo correndo, aquele frisson, adrenalina e eu agitado por conta disso. Aí voltei para casa como colaborador do Diário por mais algum tempo. Fiz tiras e ilustrações para outras revistas e jornais, até que a coisa degringolou para o lado da imprensa. Vários jornais fecharam, alguns ainda respiram por aparelho, todo o mercado editorial em crise e isso afetou muito a gente, cartunistas e ilustradores. Hoje são poucos veículos como o Diário, que mantêm ilustradores contratados trabalhando na própria redação. Isso praticamente não existe mais em lugar nenhum. É muito raro.

 

E daqui para a frente, quais são as suas perspectivas?

O lance é se readaptar, reciclar, ver novos caminhos para se manter vivo no mercado. Agora mesmo estou encarando desafio que é o de fazer história em quadrinhos, projeto de HQ de 120 páginas junto a um roteirista. Já fiz livros em quadrinhos em parceria com o Fernandes, dividindo tarefas, mas pegar a peteca sozinho é novidade para mim.

 

Por que quadrinhos?

Participei de muitos eventos de quadrinhos nestes últimos anos, como o Festival Internacional de Quadrinhos em Minas gerais (FIQ), outro em Curitiba (Gibicom), em São Paulo (CCXP) e no Rio. Quis sentir isso de perto. Era uma coisa meio estranha para a gente, ter o autor ali em frente aos fãs, coisa que já acontece há muito tempo na Europa e nos Estados Unidos. Novidade por aqui. Agora estes acontecimentos deram uma esfriada porque muitos autores apareceram, gente nova, muito boa, mas o mercado não ofereceu crescimento de leitores de quadrinhos. Não houve aumento no consumo. Então, você produz um livro em quadrinhos para público de 1.000 pessoas. O que se precisa fazer é ampliar o leque de leitores. A gente está esperando retomada nesse setor, pois o Brasil ainda tem muito que crescer nesse mundo dos quadrinhos. Minha expectativa é que isso se renove nos próximos anos.

 

Como o senhor vê o mercado de desenho de humor no Grande ABC?

O mercado do Grande ABC é muito fraco. Tem muita gente boa. Mas eles não têm onde exibir seus trabalhos. Os artistas daqui fazem o que se faz no Interior: vão para fora. Temos artistas daqui que fazem quadrinhos para os Estados Unidos. Aqui deveria ter mais exposições, mais contato com o público. A região segue muito carente no aspecto artístico. Acho que as pessoas nem sabem que existem cartunistas. Mas quem é que vai fazer isso? Quem vai produzir tudo isso? A nossa tarefa é ali na prancheta, produzindo. 

 

10
Jul21

MÍDIA Advogado de Bolsonaro faz ameaça de morte contra jornalista que revelou esquema do clã de desvio de salários

Talis Andrade

Frederick Wassef e Juliana Dal Piva

247 - O advogado e amigo de Jair Bolsonaro, Frederick Wassef, enviou mensagem ameaçadora nesta sexta-feira (9) à jornalista Juliana Dal Piva, colunista do UOL que tem revelado áudios que, entre outras coisas, comprovam a prática de rachadinha por Bolsonaro enquanto este era ainda deputado federal. No início de junho, Wassef recebeu de Bolsonaro uma procuração para representá-lo judicialmente.

Entre outras declarações, o advogado miliciano mandou Juliana ir para a China: "faça lá o que você faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema político que você tanto ama faria com você. Lá na China você desapareceria e não iriam nem encontrar o seu corpo".

Juliana afirmou que tomará "as medidas cabíveis com relação à mensagem enviada por Wassef". "Aos amigos, aviso que estou bem. Muito bem cuidada pela família e por uma série de pessoas queridas que estão me apoiando nesse momento. Obrigada!", escreveu ela no Twitter.

Alexandre Gimenez, gerente-geral de Notícias e Entretenimento do UOL, saiu em defesa da jornalista: "repudiamos o ataque cometido pelo advogado do presidente Jair Bolsonaro, Frederick Wassef, contra nossa colunista Juliana Dal Piva e reiteramos nosso apoio ao seu trabalho e nosso compromisso com o jornalismo sério, independente, apartidário e voltado para atender o interesse público".

Leia na íntegra a mensangem de morte enviada por Wassef (contém erros de português):"Queria te entrevistar. Voce e socialista ?? Comunista ???? Soldada da esquerda brava ??? E daquelas comunistas gauchas guerreira ??? Voce acredita mesmo que este sistema politico e bom para a sociedade e as pessoas ???? Por que voce nao vai realizar seu sonho comunista em Cuba, Venezuela , Argentina ou Coreia do Norte ??? Por que nao se muda para a grande China comunista e va tentar exercer sua profissao por la ???? Faca la o que voce faz aqui no seu trabalho, para ver o que o maravilhoso sistema politico que voce tanto ama faria com voce . La na China voce desapareceria e nao iriam nem encontrar o seu corpo. O mesmo ocorre na Venezuela , Cuba e outros paraisos comunistas. Entao pergunto a voce, por que faz o que faz com quem tenta livrar o Brasil da maldita esquerda ??? Voce teve este mesmo empenho e obsessao com aqueles da esquerda que desviaram BILHOES DE DOLARES atravez de mil esquemas fraudulentos ??? A parte de seu amor pelo comunismo, voce vai continuar atendendo os pedidos de sua parceira/chefa para me atacar sem parar . Ela te paga ??? Ou e so muito amor por ela ??? Voces estao namorando ???? Se eu financiar todos os custos de viagem para Caracas na Venezuela , voce iria para la fazer umas materias sobre o que esta acontecendo la ??? Se eu te comprar um belo imovel por la, voce moraria la para realizar seu sonho comunista ???? Por que nao experimenta primeiro na sua pele o que e a esquerda, para depois lutar tanto para atingir o Presidente de seu Pais e trazer o comunismo para o meu amado Brasil. Voce e inimiga da patria e do Brasil. Voce sabia que apos o fim da 2 guerra mundial o mundo foi dividido em 2 blocos??? Esquerda e direita ?? Capitalismo e Comunismo ??? Luz e trevas ???? Voce sabia que a maldita esquerda falhou em metade do planeta terra ??? Em todos oa paises e culturas em que se instalou ??? E que ao contrario do comunismo, o capitalismo deu certo em todos os paises e siatemas ??? Entao por que voce luta fanaticamente com suas materias direcionadas e distorcidas da verdade para induzir em erro o publico ??? A esquerda te paga ??? Voce esta feliz e realizada por atacar e tentar destruir o Presidente do Brasil, sua familia e seu advogado ?????".

21
Jun21

A intimidação a Leandro Demori e o reflexo da nossa frágil democracia

Talis Andrade

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por Tânia Giusti /objETHOS

O ano é 2021 mas o passado autoritário, que nos transporta para 1964, infelizmente, ainda se faz presente. No meio de um país mergulhado numa crise sanitária – uma tragédia humanitária que tirou a vida de mais de 500 mil pessoas – econômica e política, a Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCRJ) decidiu de forma arbitrária, investigar o jornalista catarinense Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil.

A “intimação” que na verdade é uma intimidação, veio da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), após a publicação de uma newsletter, no dia 8 de maio, sobre a existência de um possível grupo de matadores na Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), grupo especial de operação da PC do RJ. Esse grupo estaria envolvido no Massacre do Jacarezinho, que deixou 27 mortos no dia 6 de maio.

Demori, exercendo sua função social de cobrar autoridades, pedia no texto que o fato fosse investigado pela PC, após o número inadmissível de letalidade das operações realizadas em comunidades vulneráveis.

O jornalista postou alguns trechos da newsletter em suas redes sociais, e, quatro dias depois, foi acusado de cometer calúnia contra a Polícia Civil. No dia 10 de junho, o The Intercept divulgou uma nota elencando os motivos pelos quais Demori não prestaria depoimento.

Em entrevista à diversos veículos, o editor-executivo destacou a inversão ética do acontecimento. “O estado policial que vem erodindo a democracia no Brasil não parece interessado em investigar policiais. Em vez disso, prefere perseguir jornalistas. Ameaças como essa não nos intimidam. Apesar dos esforços de alguns, ainda vivemos em uma democracia. E nossa Constituição garante a liberdade de imprensa e protege o sigilo de fonte”, ressaltou o site em nota.

 

Herança de um passado autoritário

 

A conduta arbitrária por parte do Estado não pode ser normalizada, e os servidores públicos envolvidos neste episódio, certamente também deveriam saber que jornalistas não são obrigados a prestar informações acerca de provas e evidências, o que o inquérito pedia. A liberdade de expressão e o sigilo da fonte são preceitos constitucionais.

Vale lembrar que gestos autoritários como este, eram comumente utilizados no Brasil para silenciar jornalistas, artistas ou qualquer outro crítico durante os anos de chumbo.

O ataque a Demori não foi isolado. Faz parte de uma série de covardias cometidas contra jornalistas nos últimos anos, sobretudo desde que um político de extrema-direita passou a comandar (se é que podemos chamar assim) o país. O discurso autoritário do presidente, e os constantes ataques à imprensa, encorajam autoridades policiais e políticas a agirem de forma repressiva.

Vale lembrar também que o inquérito aberto contra Demori veio da mesma Delegacia que intimou o youtuber Felipe Neto por suposta violação da Lei de Segurança Nacional, além de William Bonner e Renata Vasconcellos.

 

Ataques naturalizados e uso da Lei de Segurança Nacional

 

Criada no final dos anos de chumbo, em 1983, a Lei de Segurança Nacional (LSN) tinha como objetivo perseguir críticos e opositores da ditadura militar. Mesmo não acolhida pela Constituição de 1988, a Lei, que não deveria ter espaço em uma democracia, vem sendo amplamente utilizada nos últimos anos, sobretudo no Governo Bolsonaro.

Entre 2019 e 2020, de acordo com dados de um relatório produzido pelo Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), com dados da Agência Fiquem Sabendo, houve um aumento de 285% no número de inquéritos policiais abertos com base na LSN.

Thiago Amparo, professor de Direito Internacional e Direitos Humanos na FGV Direito São Paulo, em entrevista ao Podcast Café da Manhã, destacou que “a lei é um resquício de um país que não lida bem com seu passado autoritário”.

 

A força do jornalismo

 

O uso da Lei de Segurança Nacional ou qualquer outra forma de abuso jurídico, não só fere o direito à liberdade de expressão e profissional, como no caso de Demori, bem como desencoraja que outros profissionais continuem denunciando arbitrariedades, sejam elas quais forem. Atenta também contra a liberdade de imprensa.

O totalitarismo visto atualmente no Brasil é uma ameaça não só ao jornalismo ético e comprometido, mas a todos os brasileiros. Vale mencionar a importância do posicionamento de todos os órgãos. Em menos de 24 horas um manifesto de apoio, iniciativa de docentes do curso de Jornalismo da Unisinos, ao editor-executivo do TIB alcançou mais de 1.500 assinaturas, no Brasil.

O jornalismo e a liberdade de imprensa são os pilares da democracia. Sem um, o outro não existe. Porém, num contexto de Governo onde o presidente da República ataca quase diariamente jornalistas e a imprensa, as autoridades policiais se sentem legitimadas para convocar a imprensa para explicações.

Apesar de injusta e grave, a intimidação confirma o que o The Intercept Brasil se propôs a fazer em 2016, quando chegou ao Brasil: um jornalismo que não se intimida e incomoda os poderosos. Confirma também a força do jornalismo: enquanto pudermos contar com profissionais comprometidos e éticos, o sistema democrático brasileiro, apesar de sua fragilidade, seguirá respirando.

Referências

Anna Carolina Venturini, Conrado Hübner Mendes, Adriane Sanctis, Danyelle Reis Carvalho, Luisa Mozetic Plastino, Mariana Celano de Souza Amaral, Marina Slhessarenko Barreto, Pedro Ansel. DIAGNÓSTICO DA APLICAÇÃO ATUAL DA LS – Relatório do LAUT mostra que Lei de Segurança Nacional é usada em estratégia de intimidação judicial do governo.

Disponível em: https://laut.org.br/wp-content/uploads/2021/05/Relato%CC%81rio-LSN-formatado.vf-novo.pdf

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/06/manifesto-contra-intimacao-de-jornalista-do-intercept-ja-tem-mais-de-cem-assinaturas.shtml

https://www.ecodebate.com.br/2021/05/23/lei-de-seguranca-nacional-como-estrategia-de-intimidacao-judicial/

https://theintercept.com/2021/06/10/por-que-o-intercept-decidiu-que-leandro-demori-nao-vai-se-submeter-ao-depoimento-policial-contra-nosso-jornalismo/

 

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19
Jun21

Cristina Serra e o “resto de comida”de Guedes

Talis Andrade

Falta gente, é verdade, para fazer do jornalismo um brado pela dignidade humana e um libelo contra certa elite podre que acha que um país pode ser alicerçado na humilhação de seus cidadãos.

Ajudar com doações aos que têm fome, perfeitamente normal quando se trata de indivíduos ou instituição humanitárias atuando sobre situações de emergência, quando se transforma em política de Estado é a exclusão e a divisão oficial entre os brasileiros: os que comem e os que comerão restos, se restos houver.

Pois saiba Guedes que ainda há quem escreva, sem medo, que a elite que ele representa é desprezível, como faz hoje Cristina Serra, na Folha.

 

Guedes e o ódio aos pobres

 

Cristina Serra, na Folha

Paulo Guedes não falha. Sempre oferece variações sobre o mesmo tema, qual seja, sua aversão às pessoas pobres. Mas, agora, ele se superou. Disse que as sobras e os excessos dos almoços da classe média e dos restaurantes podem ser utilizados para alimentar mendigos e desamparados.

Ele enunciou tamanho absurdo sem corar, muito à vontade, sabendo que expressa ponto de vista de setor bastante representativo da sociedade brasileira, do qual é porta-voz. É a mesma visão de mundo por trás da famigerada “farinata”, ração feita com produtos próximos da data de vencimento e que o então prefeito João Doria tentou oferecer a famílias carentes.

É isso também que explica as pedras pontiagudas sob viadutos para afastar pessoas sem teto para bem longe da vista, medida revista pela prefeitura paulistana. O incômodo com o pagamento de direitos trabalhistas às empregadas domésticas, o desgosto de ver pobres viajando de avião, expresso em redes sociais, tudo isso é ódio de classe. E encontra sua síntese em Paulo Guedes.

Incapaz de formular uma política pública de combate à fome e à insegurança alimentar de milhões de brasileiros, limita-se a oferecer-lhes migalhas. Para o ministro, quem sobrevive nas bordas da sociedade tem é que comer o resto da mesa abastada. Viajar para o exterior? Sonhar com filho na universidade? Viver “100 anos”? Ora, onde já se viu.

Guedes achava que um auxílio de R$ 200,00 por mês seria suficiente para as famílias enfrentarem a pandemia e não podia ser por muito tempo, “aí, ninguém trabalha (…) e o isolamento [social] vai ser de oito anos porque a vida está boa”. A imunidade de rebanho que fizesse o resto. E fez. Neste fim de semana, chegamos aos 500 mil mortos. Essa marca inimaginável não é obra exclusiva do vírus. As políticas excludentes e de base eugenista da dupla Bolsonaro-Guedes também compõem a causa mortis desses brasileiros. Presidente e ministro assinam os atestados de óbito.

 
20
Dez20

Jornalicídio doloso – jornalista processada por interpretar a realidade

Talis Andrade

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Schirlei Alves foto arquivo

 

por Elaine Tavares

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A palavra jornalismo vem do grego diurnalis, que significa “do dia”. Quando passa a designar um fazer significa então “análise do dia”. Isso é o que está na etimologia e é o que deveria estar na cabeça de cada um de nós, os que praticamos o jornalismo todos os dias. Observar a vida, os fatos, e narrar, não como meros porta-vozes, mas como sujeitos capazes de analisar e interpretar os fatos para além da aparência. 

Pois foi exatamente isso que fez a jornalista Schirlei Alves ao cobrir o vexaminoso julgamento do caso André Aranha, acusado de estuprar uma garota numa casa noturna da capital catarinense. Na audiência, o advogado do dito estuprador coloca foco na vida da jovem estuprada, Mariana Ferrer, e a humilha em diversos momentos, tratando-a como se ela fosse culpada por ter sido estuprada. Na verdade, até aí nada de novo, pois sempre foi essa a estratégia das defesas de estupradores: virar o jogo para a vítima. “Estava bêbada, estava de vestido curto, estava com roupa transparente, provocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão comido. Como também foi pão comido o resultado do julgamento. Depois de toda a pressão sobre a vítima, o resultado foi a absolvição do Aranha. 

Com todo o rebuscamento da linguagem do juridiquês, o processo aponta que existem situações em que “o erro exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo… quando há a vontade, mas não a plena consciência”. E foi – linhas gerais – em cima disso que o homem foi absolvido. Chegaram à conclusão de que não foi estupro, porque, mesmo que tenha havido o dolo (perda da virgindade) não houvera a intenção.

Como uma boa jornalista, Schirlei Alves, se debruçou sobre o processo, leu as letras pequenas e fez suas análises e interpretações. Uma delas lhe permitiu apontar a genial expressão “estupro culposo”, que acabou ganhando destaque e levando o país inteiro a discutir o caso. Ou seja, Shirlei percebeu que a lógica usada na sentença permitia uma analogia com o que conhecemos como homicídio culposo – quando uma pessoa mata outra sem intenção de matar (o caso de um acidente, por exemplo). Claro que o que a jornalista fez foi uma ironia – porque nem isso seria. Mas , foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está subentendida nos autos. 

Como as palavras são polissêmicas, cada um que leu o texto atribuiu um sentido e a expressão foi usada para criticar de maneira jocosa o judiciário e todos os operadores que atuaram no caso. Obviamente que a exposição nacional, e até internacional do acontecido, causou indignação aos envolvidos. Então, trataram de judicializar a jornalista. E agora, ela responde processo por ter analisado um fato e interpretado o mesmo com base nas informações dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não haviam dito mas que estava subentendido nas entrelinhas.

Seria até engraçado um processo por isso, mas é claro que não é. Porque estamos no Brasil, porque a Justiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jornalismo tem de ser calado. Na verdade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jornalismo, aquele, de verdade, que interpreta, que desaloja, que desequilibra, que analisa criticamente. Mas, momentos há em que ele tem mais espaço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lembrar outro colega jornalista e professor, o Cristian Góes,  que foi processado por ter escrito um texto de ficção com o qual um desses “coronéis”  nordestinos se identificou. Cristian foi condenado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Loucura? Não! Realidade brasileira. 

O processo agora contra Schirlei segue essa lógica da tentativa do cala-boca. Diz para os jornalistas: não vejam para além das aparências, não tentem interpretar nada, não realizem a análise do dia, não façam mediações inteligentes com seus leitores, limitem-se a carregar vozes, fiquem nos seus lugares de capachos do sistema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jornalistas, dos que fazem jornalismo, dos que têm apreço pelo jornalismo.  E é preciso contar essa história, para que a jornalista não venha a ser condenada por interpretar um fato, por criar uma manchete fora do padrão. Por que se isso acontece é um tiro no peito do jornalismo e aí, não é “jornalicídio culposo”, mas doloso mesmo, porque a intenção é obviamente a de matar qualquer possibilidade de um trabalho que fuja da normose disso que alguns chamam de jornalismo, mas que é apenas um pastiche, limitando-se a dizer que: segundo fulano isso, segundo fulano aquilo. 

O jornalismo de verdade vai além do porta-voz. Ele mexe no vespeiro. Ele expõe a ferida, sangrando. O que Schirlei fez foi isso: de maneira inteligente, expôs, numa expressão tão curtinha, toda a pantomina do julgamento e da ação do estuprador. 

Que se mexam o Sindicato, a Fenaj, as instituições internacionais. A Schirlei não pode ficar sozinha nessa batalha. Notas de repúdio não são suficientes. Há que ter movimento forte. 

Tô contigo, Schirlei Alves.

cativeiro jornalista prisioneiro.jpg

 

15
Dez20

Jornalista Fernando Mendonça morre aos 86 anos

Talis Andrade

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O ex-secretário de Pernambuco e jornalista Fernando Mendonça morreu, aos 86 anos, na manhã desta terça-feira, 15, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A notícia foi confirmada pelo seu filho médico Fernando Mendonça Filho, que informou que ele já estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde a última segunda-feira no Hospital Jayme da Fonte.

“Pernambuco perdeu um dos homens mais generosos que eu já conheci e que com certeza vai fazer falta nos corações dos amigos, familiares e na política de Pernambuco”, lamentou Fernando Filho emocionado.

Mendonça foi secretário na primeira gestão de Miguel Arraes . Ele comandou a pasta de Trabalho e esteve à frente do gabinete da Casa Civil. Manteve-se ao lado de Arraes durante o período da ditadura militar. 

Fernando Mendonça também atuou na Folha de Pernambuco e no Jornal do Commercio.

“Um ser humano de coração limpo, que sempre esteve do lado certo, o lado dos que precisam de justiça. Um jornalista de primeira linha, uma memória incrível dos fatos históricos. Foi nosso editor de política e depois editorialista. Brindava-nos com sua perspicácia, inteligência e senso crítico. Mendonça deixa seu exemplo e uma grande saudade”, disse Leusa Santos, editora-chefe da Folha de Pernambuco.

A jornalista Claudia Eloi prestou homenagem a Fernando Mendonça. Eloi lembrou do tempo em que Mendonça a convidou para fazer parte de sua equipe de política na Folha de PE. “Mendonça era uma pessoa sensível, uma alma caridosa, dono de uma inteligência ímpar. Com seu sorriso largo, não se cansava de ensinar aos mais jovens tudo o que sabia da política e da vida”, declarou. "Um mestre nato. Muita luz na sua nova caminhada, meu querido amigo”, completou a jornalista

 

 

24
Nov20

Como jornalistas reagiram a ataques da ultradireita em outros tempos e lugares

Talis Andrade

Gênero Textual Charge - Toda Matéria em 2020 | Críticas sociais, Henfil,  Desenho de contorno

Os ataques que Manuela e Boulos estão sofrendo da turma do Gabinete do Ódio, dos movimentos da direita - TFP, KKK, MBL -, furiosos praticantes da teocracia, da xenofobia, do racismo, da antidemocracia, da misoginia, da homofobia, do femicídio, da supremacia branca, da crença em um Estado forte, lembram as campanhas da ditadura militar, do "Pra Frente Brasil", do "Ame-o ou Deixe-o. 

Imagem representativa do artigo

Que os eleitores de São Paulo e de Porto Alegre reajam nas urnas, pelo bem do Brasil. 

Patricia Campos Melo, jornalista da Folha de S. Paulo foi atacada por uma testemunha que mentiu na CPI das fake news, e agredida em seguida pelo presidente Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro.

Cristina Serra comenta que a tática de desqualificar bons profissionais da imprensa com boa reputação é conhecida e está nos manuais da Ultradireita, e que o comportamento é feitio de governos ultradireitistas pelo mundo como na Hungria por Victor Orban, nos EUA, quando Trump parte com ofensas torpes contra jornalistas.

Cristina também analisa o comportamento das empresas de comunicação e dos jornalistas. As empresas seriam “Guedistas”? E qual seria o melhor comportamento dos jornalistas?

Cristina Serra lembra episódio de enfrentamento de jornalistas com o ex-presidente João Figueiredo, durante a Ditadura.

Fica a lição

 

 

 
15
Out20

Polarização Lula-Bolsonaro é sinuca de bico para o sistema

Talis Andrade

John-Holcroft- elite casa grande sociedade.jpg

 

Por Gustavo Conde

A indigência prossegue. As elites brasileiras e os grandes jornais continuam apoiando Bolsonaro e fingindo que não apoiam. É o mesmo protocolo usado quando o PT era governo: eles atacavam o PT e a democracia e fingiam que estavam sendo técnicos, imparciais e republicanos.

O Brasil não é para amadores e o jornalismo brasileiro idem. É para profissionais. Aliás, eles gostam de ser chamados assim: jornalismo profissional.

Profissional em obedecer o patrão, profissional em criminalizar a política, profissional na autodomesticação disciplinada que se refestela na prepotência e no arbítrio.

Para não dizerem que não dou margem ao contraditório – e que pratico o mesmo jornalismo de cabresto desses arautos da dissimulação editorial – menciono uma excelente matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo de ontem, assinada por Flávio Ferreira.

Trata-se da reportagem sobre a avalanche de processos que recaem sobre o escritor João Paulo Cuenca, muito provavelmente orquestrados pela Igreja Universal. A reportagem é equilibrada e faz jus ao conceito “jornalismo investigativo”. Ouviu todas as partes e não pendeu para nenhuma delas, oferecendo ao leitor a oportunidade de constituir juízo de valor e de, igualmente, ponderar e aguardar desdobramentos sem incitações editoriais de ódio.

A exceção faz a regra. Se a Folha, por exemplo, tratasse dos processos contra Lula com essa mesma integridade, certamente não teríamos Bolsonaro a nos destruir enquanto país, enquanto povo, enquanto economia e enquanto natureza neste preciso momento.

Há portanto, jornalistas íntegros e jornalismo responsável, mesmo nos grandes jornais. O que não há é o ‘negócio do jornalismo’ íntegro – seria ingenuidade demais acreditar que houvesse (nem os publishers acreditam nessa lorota que, para eles, é ‘moralista’).

O fato relevante, no entanto – e a despeito de toda essa precarização e covardia embutidos em nosso modo institucional de conceber a produção de informação – é o alinhamento sub reptício das elites brasileiras (cuja voz está incrustada em nosso jornalismo profissional) ao projeto Bolsonaro 2022.

Como Bolsonaro é o produto mais bem acabado deste jornalismo de guerra, a aliança ontológica entre as duas entidades consagra apenas o curso natural da história.

A equação é até simples: já que Bolsonaro não aceitou a total domesticação imposta por esses grupos de mídia, bastou e bastará reorganizar a narrativa: os arroubos verbais apopléticos consagrando tortura, morte e genocídio serão “faceta folclórica” de sua excelência, o verme.

Serão apenas um lado cômico e perturbador do ‘presidente’ e da representação política que simboliza o pós-PT, esse escândalo de democracia e soberania popular que alçou o Brasil a uma das maiores potências do mundo e que, agora, é apenas uma vaga lembrança do passado.

Não se avexem com tal prognóstico (ele é enunciado por mim para que lutemos, não para que nos acovardemos). A movimentação nas elites e no jornalismo de cabresto é forte. Eles perceberam, enfim, que as possibilidades de João Doria, Luciano Huck e Sergio Moro escoaram pelo ralo insidioso os cenários imprevisíveis pós-golpes.

À elite e a esse jornalismo não há mais opções. É Bolsonaro ou Bolsonaro. A alternativa à sequência de horrores seria o PT, mas tais segmentos são prepotentes demais para enfiar a viola no saco e reconhecer que, se há algum líder político anti-Bolsonaro nesse país, esse líder é Lula.

A evidência olímpica a essa percepção é o empuxo narrativo em todas as colunas editorializadas dos grandes jornais. Ali, “Bolsonaro se aproxima do centrão” e “ocupa o lugar de Huck, Doria e Moro”.

Eles enunciam essa fatalidade quase em tom de lamento – é divertido ler.

Isso significa duas coisas: 1) que eles não têm candidato para 2022, e 2) que entre PT e Bolsonaro, mais uma vez, eles escolherão Bolsonaro.

Isso é motivo para lamentarmos ou comemorarmos?

Depende.

Se for para julgar e processar o papel histórico da imprensa brasileira, é para lamentar aos prantos. É uma vergonha muito grande ver os grandes jornais de um país supostamente republicano apoiando um genocida confesso e mentiroso obsessivo.

Mas se for para interpretar o fenômeno à luz da história e dos desdobramentos eleitorais, abram a champagne: os setores anti-democrático estão assaz demarcados com Bolsonaro: elites e jornalismo de cativeiro de um lado e Lula, PT e defensores da soberania e do meio ambiente do outro.

É a tal da ‘polarização’ tão temida e combatida por esta imprensa cativa: eles temem a polarização porque a polarização evidencia quem é quem – e fortalece um campo democrático ‘desambiguado’, longe das contemporizações frenteamplistas e das suavizações intelectuais.

O jogo, meus caros, neste sentido, está bom. Tudo se orienta para uma eleição hiper polarizada em 2022 entre PT e Bolsonaro. O centro, povoado pelo bolsonarismo, antes de representar uma ameaça, representa uma fragilidade (para a direita): não há muito como maquiar Bolsonaro. Sempre estará à mão suas declarações-atrocidades, sua índole fascista e sua vocação familiar a práticas corruptas e criminosas.

Pari passu, estará a enxurrada de absolvições de Lula e de dirigentes do PT, bem como a execração nacional e internacional de Sergio Moro.

O bom da história e da civilização, mesmo sendo elas tão violentas e pró sistêmicas, é que elas são relativamente espontâneas e não atendem a desejos classistas nem a percepções intuitivas contaminadas com os pressupostos neoliberais.

Muitos marxistas nem suspeitam, mas a história atende às demandas simbólicas – linguísticas e semânticas – da própria história, não da dimensão que a oprime e controla, como o mercado financeiro e os grupos empresariais de mídia.

Se assim o fosse, Lula jamais teria chegado à presidência da República.

É bom lembrarmos disso antes de destilarmos nossos pessimismos e ceticismos de ocasião: historicamente, quem está encurralado é o bolsonarismo nativo e o jornalismo cativo, cânceres da mesma cepa, frutos do mesmo ódio, sobras da mesma xepa.

 

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