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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Dez20

Jornalicídio doloso – jornalista processada por interpretar a realidade

Talis Andrade

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Schirlei Alves foto arquivo

 

por Elaine Tavares

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A palavra jornalismo vem do grego diurnalis, que significa “do dia”. Quando passa a designar um fazer significa então “análise do dia”. Isso é o que está na etimologia e é o que deveria estar na cabeça de cada um de nós, os que praticamos o jornalismo todos os dias. Observar a vida, os fatos, e narrar, não como meros porta-vozes, mas como sujeitos capazes de analisar e interpretar os fatos para além da aparência. 

Pois foi exatamente isso que fez a jornalista Schirlei Alves ao cobrir o vexaminoso julgamento do caso André Aranha, acusado de estuprar uma garota numa casa noturna da capital catarinense. Na audiência, o advogado do dito estuprador coloca foco na vida da jovem estuprada, Mariana Ferrer, e a humilha em diversos momentos, tratando-a como se ela fosse culpada por ter sido estuprada. Na verdade, até aí nada de novo, pois sempre foi essa a estratégia das defesas de estupradores: virar o jogo para a vítima. “Estava bêbada, estava de vestido curto, estava com roupa transparente, provocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão comido. Como também foi pão comido o resultado do julgamento. Depois de toda a pressão sobre a vítima, o resultado foi a absolvição do Aranha. 

Com todo o rebuscamento da linguagem do juridiquês, o processo aponta que existem situações em que “o erro exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo… quando há a vontade, mas não a plena consciência”. E foi – linhas gerais – em cima disso que o homem foi absolvido. Chegaram à conclusão de que não foi estupro, porque, mesmo que tenha havido o dolo (perda da virgindade) não houvera a intenção.

Como uma boa jornalista, Schirlei Alves, se debruçou sobre o processo, leu as letras pequenas e fez suas análises e interpretações. Uma delas lhe permitiu apontar a genial expressão “estupro culposo”, que acabou ganhando destaque e levando o país inteiro a discutir o caso. Ou seja, Shirlei percebeu que a lógica usada na sentença permitia uma analogia com o que conhecemos como homicídio culposo – quando uma pessoa mata outra sem intenção de matar (o caso de um acidente, por exemplo). Claro que o que a jornalista fez foi uma ironia – porque nem isso seria. Mas , foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está subentendida nos autos. 

Como as palavras são polissêmicas, cada um que leu o texto atribuiu um sentido e a expressão foi usada para criticar de maneira jocosa o judiciário e todos os operadores que atuaram no caso. Obviamente que a exposição nacional, e até internacional do acontecido, causou indignação aos envolvidos. Então, trataram de judicializar a jornalista. E agora, ela responde processo por ter analisado um fato e interpretado o mesmo com base nas informações dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não haviam dito mas que estava subentendido nas entrelinhas.

Seria até engraçado um processo por isso, mas é claro que não é. Porque estamos no Brasil, porque a Justiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jornalismo tem de ser calado. Na verdade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jornalismo, aquele, de verdade, que interpreta, que desaloja, que desequilibra, que analisa criticamente. Mas, momentos há em que ele tem mais espaço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lembrar outro colega jornalista e professor, o Cristian Góes,  que foi processado por ter escrito um texto de ficção com o qual um desses “coronéis”  nordestinos se identificou. Cristian foi condenado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Loucura? Não! Realidade brasileira. 

O processo agora contra Schirlei segue essa lógica da tentativa do cala-boca. Diz para os jornalistas: não vejam para além das aparências, não tentem interpretar nada, não realizem a análise do dia, não façam mediações inteligentes com seus leitores, limitem-se a carregar vozes, fiquem nos seus lugares de capachos do sistema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jornalistas, dos que fazem jornalismo, dos que têm apreço pelo jornalismo.  E é preciso contar essa história, para que a jornalista não venha a ser condenada por interpretar um fato, por criar uma manchete fora do padrão. Por que se isso acontece é um tiro no peito do jornalismo e aí, não é “jornalicídio culposo”, mas doloso mesmo, porque a intenção é obviamente a de matar qualquer possibilidade de um trabalho que fuja da normose disso que alguns chamam de jornalismo, mas que é apenas um pastiche, limitando-se a dizer que: segundo fulano isso, segundo fulano aquilo. 

O jornalismo de verdade vai além do porta-voz. Ele mexe no vespeiro. Ele expõe a ferida, sangrando. O que Schirlei fez foi isso: de maneira inteligente, expôs, numa expressão tão curtinha, toda a pantomina do julgamento e da ação do estuprador. 

Que se mexam o Sindicato, a Fenaj, as instituições internacionais. A Schirlei não pode ficar sozinha nessa batalha. Notas de repúdio não são suficientes. Há que ter movimento forte. 

Tô contigo, Schirlei Alves.

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15
Dez20

Jornalista Fernando Mendonça morre aos 86 anos

Talis Andrade

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O ex-secretário de Pernambuco e jornalista Fernando Mendonça morreu, aos 86 anos, na manhã desta terça-feira, 15, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A notícia foi confirmada pelo seu filho médico Fernando Mendonça Filho, que informou que ele já estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde a última segunda-feira no Hospital Jayme da Fonte.

“Pernambuco perdeu um dos homens mais generosos que eu já conheci e que com certeza vai fazer falta nos corações dos amigos, familiares e na política de Pernambuco”, lamentou Fernando Filho emocionado.

Mendonça foi secretário na primeira gestão de Miguel Arraes . Ele comandou a pasta de Trabalho e esteve à frente do gabinete da Casa Civil. Manteve-se ao lado de Arraes durante o período da ditadura militar. 

Fernando Mendonça também atuou na Folha de Pernambuco e no Jornal do Commercio.

“Um ser humano de coração limpo, que sempre esteve do lado certo, o lado dos que precisam de justiça. Um jornalista de primeira linha, uma memória incrível dos fatos históricos. Foi nosso editor de política e depois editorialista. Brindava-nos com sua perspicácia, inteligência e senso crítico. Mendonça deixa seu exemplo e uma grande saudade”, disse Leusa Santos, editora-chefe da Folha de Pernambuco.

A jornalista Claudia Eloi prestou homenagem a Fernando Mendonça. Eloi lembrou do tempo em que Mendonça a convidou para fazer parte de sua equipe de política na Folha de PE. “Mendonça era uma pessoa sensível, uma alma caridosa, dono de uma inteligência ímpar. Com seu sorriso largo, não se cansava de ensinar aos mais jovens tudo o que sabia da política e da vida”, declarou. "Um mestre nato. Muita luz na sua nova caminhada, meu querido amigo”, completou a jornalista

 

 

24
Nov20

Como jornalistas reagiram a ataques da ultradireita em outros tempos e lugares

Talis Andrade

Gênero Textual Charge - Toda Matéria em 2020 | Críticas sociais, Henfil,  Desenho de contorno

Os ataques que Manuela e Boulos estão sofrendo da turma do Gabinete do Ódio, dos movimentos da direita - TFP, KKK, MBL -, furiosos praticantes da teocracia, da xenofobia, do racismo, da antidemocracia, da misoginia, da homofobia, do femicídio, da supremacia branca, da crença em um Estado forte, lembram as campanhas da ditadura militar, do "Pra Frente Brasil", do "Ame-o ou Deixe-o. 

Imagem representativa do artigo

Que os eleitores de São Paulo e de Porto Alegre reajam nas urnas, pelo bem do Brasil. 

Patricia Campos Melo, jornalista da Folha de S. Paulo foi atacada por uma testemunha que mentiu na CPI das fake news, e agredida em seguida pelo presidente Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro.

Cristina Serra comenta que a tática de desqualificar bons profissionais da imprensa com boa reputação é conhecida e está nos manuais da Ultradireita, e que o comportamento é feitio de governos ultradireitistas pelo mundo como na Hungria por Victor Orban, nos EUA, quando Trump parte com ofensas torpes contra jornalistas.

Cristina também analisa o comportamento das empresas de comunicação e dos jornalistas. As empresas seriam “Guedistas”? E qual seria o melhor comportamento dos jornalistas?

Cristina Serra lembra episódio de enfrentamento de jornalistas com o ex-presidente João Figueiredo, durante a Ditadura.

Fica a lição

 

 

 
15
Out20

Polarização Lula-Bolsonaro é sinuca de bico para o sistema

Talis Andrade

John-Holcroft- elite casa grande sociedade.jpg

 

Por Gustavo Conde

A indigência prossegue. As elites brasileiras e os grandes jornais continuam apoiando Bolsonaro e fingindo que não apoiam. É o mesmo protocolo usado quando o PT era governo: eles atacavam o PT e a democracia e fingiam que estavam sendo técnicos, imparciais e republicanos.

O Brasil não é para amadores e o jornalismo brasileiro idem. É para profissionais. Aliás, eles gostam de ser chamados assim: jornalismo profissional.

Profissional em obedecer o patrão, profissional em criminalizar a política, profissional na autodomesticação disciplinada que se refestela na prepotência e no arbítrio.

Para não dizerem que não dou margem ao contraditório – e que pratico o mesmo jornalismo de cabresto desses arautos da dissimulação editorial – menciono uma excelente matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo de ontem, assinada por Flávio Ferreira.

Trata-se da reportagem sobre a avalanche de processos que recaem sobre o escritor João Paulo Cuenca, muito provavelmente orquestrados pela Igreja Universal. A reportagem é equilibrada e faz jus ao conceito “jornalismo investigativo”. Ouviu todas as partes e não pendeu para nenhuma delas, oferecendo ao leitor a oportunidade de constituir juízo de valor e de, igualmente, ponderar e aguardar desdobramentos sem incitações editoriais de ódio.

A exceção faz a regra. Se a Folha, por exemplo, tratasse dos processos contra Lula com essa mesma integridade, certamente não teríamos Bolsonaro a nos destruir enquanto país, enquanto povo, enquanto economia e enquanto natureza neste preciso momento.

Há portanto, jornalistas íntegros e jornalismo responsável, mesmo nos grandes jornais. O que não há é o ‘negócio do jornalismo’ íntegro – seria ingenuidade demais acreditar que houvesse (nem os publishers acreditam nessa lorota que, para eles, é ‘moralista’).

O fato relevante, no entanto – e a despeito de toda essa precarização e covardia embutidos em nosso modo institucional de conceber a produção de informação – é o alinhamento sub reptício das elites brasileiras (cuja voz está incrustada em nosso jornalismo profissional) ao projeto Bolsonaro 2022.

Como Bolsonaro é o produto mais bem acabado deste jornalismo de guerra, a aliança ontológica entre as duas entidades consagra apenas o curso natural da história.

A equação é até simples: já que Bolsonaro não aceitou a total domesticação imposta por esses grupos de mídia, bastou e bastará reorganizar a narrativa: os arroubos verbais apopléticos consagrando tortura, morte e genocídio serão “faceta folclórica” de sua excelência, o verme.

Serão apenas um lado cômico e perturbador do ‘presidente’ e da representação política que simboliza o pós-PT, esse escândalo de democracia e soberania popular que alçou o Brasil a uma das maiores potências do mundo e que, agora, é apenas uma vaga lembrança do passado.

Não se avexem com tal prognóstico (ele é enunciado por mim para que lutemos, não para que nos acovardemos). A movimentação nas elites e no jornalismo de cabresto é forte. Eles perceberam, enfim, que as possibilidades de João Doria, Luciano Huck e Sergio Moro escoaram pelo ralo insidioso os cenários imprevisíveis pós-golpes.

À elite e a esse jornalismo não há mais opções. É Bolsonaro ou Bolsonaro. A alternativa à sequência de horrores seria o PT, mas tais segmentos são prepotentes demais para enfiar a viola no saco e reconhecer que, se há algum líder político anti-Bolsonaro nesse país, esse líder é Lula.

A evidência olímpica a essa percepção é o empuxo narrativo em todas as colunas editorializadas dos grandes jornais. Ali, “Bolsonaro se aproxima do centrão” e “ocupa o lugar de Huck, Doria e Moro”.

Eles enunciam essa fatalidade quase em tom de lamento – é divertido ler.

Isso significa duas coisas: 1) que eles não têm candidato para 2022, e 2) que entre PT e Bolsonaro, mais uma vez, eles escolherão Bolsonaro.

Isso é motivo para lamentarmos ou comemorarmos?

Depende.

Se for para julgar e processar o papel histórico da imprensa brasileira, é para lamentar aos prantos. É uma vergonha muito grande ver os grandes jornais de um país supostamente republicano apoiando um genocida confesso e mentiroso obsessivo.

Mas se for para interpretar o fenômeno à luz da história e dos desdobramentos eleitorais, abram a champagne: os setores anti-democrático estão assaz demarcados com Bolsonaro: elites e jornalismo de cativeiro de um lado e Lula, PT e defensores da soberania e do meio ambiente do outro.

É a tal da ‘polarização’ tão temida e combatida por esta imprensa cativa: eles temem a polarização porque a polarização evidencia quem é quem – e fortalece um campo democrático ‘desambiguado’, longe das contemporizações frenteamplistas e das suavizações intelectuais.

O jogo, meus caros, neste sentido, está bom. Tudo se orienta para uma eleição hiper polarizada em 2022 entre PT e Bolsonaro. O centro, povoado pelo bolsonarismo, antes de representar uma ameaça, representa uma fragilidade (para a direita): não há muito como maquiar Bolsonaro. Sempre estará à mão suas declarações-atrocidades, sua índole fascista e sua vocação familiar a práticas corruptas e criminosas.

Pari passu, estará a enxurrada de absolvições de Lula e de dirigentes do PT, bem como a execração nacional e internacional de Sergio Moro.

O bom da história e da civilização, mesmo sendo elas tão violentas e pró sistêmicas, é que elas são relativamente espontâneas e não atendem a desejos classistas nem a percepções intuitivas contaminadas com os pressupostos neoliberais.

Muitos marxistas nem suspeitam, mas a história atende às demandas simbólicas – linguísticas e semânticas – da própria história, não da dimensão que a oprime e controla, como o mercado financeiro e os grupos empresariais de mídia.

Se assim o fosse, Lula jamais teria chegado à presidência da República.

É bom lembrarmos disso antes de destilarmos nossos pessimismos e ceticismos de ocasião: historicamente, quem está encurralado é o bolsonarismo nativo e o jornalismo cativo, cânceres da mesma cepa, frutos do mesmo ódio, sobras da mesma xepa.

 

21
Ago20

Celso Marconi, 90 anos de rebeldia e cinema

Talis Andrade

O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica 

 

por Urariano Mota

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Entre os grandes personagens de 23 de agosto, a Wikipédia indica Gene Kelly, Nelson Rodrigues, Tônia Carrero, Rita Pavone, Rodolfo Valentino, Vicente Celestino e Alberto Cavalcanti. Mas não registra, em uma só linha, um dos mais importantes críticos de cinema do Brasil, o recifense Celso Marconi. Essa ausência na enciclopédia é, ao mesmo  tempo, injusta e descuidada, para dizer o mínimo. Então, em breves linhas, tento um curta dos seus 90 anos.

Sobre o aniversariante desse domingo já publiquei o texto “Celso Marconi, uma vida de cinema”, https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/urariano-mota-celso-marconi-uma-vida-de-cinema/ . Por sinal, esse artigo circula no sábado entre amigos do mestre de português Diógenes Afonso no WhatsApp.

Nesse texto, eu lembrei que Celso Marconi vinha sendo o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade. Nos seus 90 anos agora, tenho a certeza de que ele é o jornalista com mais tempo de crítica de cinema não só no Brasil, mas em todo o mundo. O paradoxo, ou paradoxal, é que na sua idade ele é o mais jovem crítico de cinema, pela expressão maravilhosa, que nos desconcerta, em meio a um texto como aqui: 

Face a Face é melhor ser visto num aparelho individual, numa TV grande, mas de maneira que você possa parar quando estiver cansado, prostrado, e sair para comer um chocolate ou tomar um café antes de continuar. Penso que, se estivesse vendo esse filme de Ernst Ingmar Bergman hoje numa sala de cinema, eu gritaria para que parassem pra gente descansar um pouco… 

Certamente hoje são poucas as pessoas que conhecem o cinema de Ingmar Bergman e isso se justifica pelo fato de que o atual presidente do País não tem a menor noção do que é Cultura, e sem dúvida nunca viu nem um filme de Ingrid Bergman – quanto mais de Ingmar! É uma pena. Com tantos elementos novos e fundamentais para mudarmos a nossa vida e podermos conhecer melhor o que é uma vida amadurecida, é lamentável que estejamos vivendo esse dilema de moralismos inúteis”

Nele, o que não é reflexão mais profunda é rebeldia, que não se contém nem se contenta. E com ele temos crescido, desde os anos 1970, quando Celso Marconi já era um crítico consagrado, guru de nossa estética de cinema. Lembro, de modo claro, que nós corríamos para aquelas críticas no Jornal do Commercio que nos revelavam o valor da programação do Cine de Arte Coliseu e de outros cinemas. Que oásis! Bebíamos o que ele nos revelava naquele deserto da ditadura. Eram linhas que faziam a cabeça de estudantes contra a ditadura e das novas gerações no Recife. Era uma alegria imensa, nos fins de semana, saber o que o Coliseu nos reservava, a partir do texto de Celso Marconi. Foi com ele que descobrimos Buñuel, artista que nos deixava tontos antes do bar, como destaco no começo do livro Soledad no Recife:

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente”.

Lá no início deste artigo, eu escrevi que Celso Marconi é um jovem. E não só na sua expressão de crítico, esclareço agora. O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica no Face, porque o seu desejo de vida é permanente. Como aqui:

A PUTA E O POETA

Sonhei que era um poeta russo
E vivia nos tempos dos soviéticos
Com uma bela puta também russa
E tinha muito prazer em trepar com ela
Que era linda e branca azulada
Tinha um ar de tristeza que ameaçava
Qualquer um que trepava com ela
Mas o seu corpo era perfeito para a função
E ela adorava que eu lesse minhas poesias
O que nem sempre era aceito pelos soviéticos
Que implicavam com um sujeito mesmo poeta
Viver comendo por conta de uma puta
Pois nós comíamos e sempre tínhamos
Borsht, solyanka, blini, frango à Kiev,
Pilmeni ou salada olivier à mesa
Que a puta fazia com todo gosto
E não tinha estória de não comer
Só porque era puta ou era poeta
E fomos vivendo com muita alegria
O pior porém era quando queríamos mudar de cidade
Sair de Vladivostoki para Irkutski na Sibéria
Pois os guardas dos aeroportos ou rodoviárias
Mesmo que achassem a gente bonitos
Não aceitavam que o poeta não trabalhasse e
Ficasse comendo com o que a puta ganhava

 

EU QUERO O PRAZER

As religiões condenam o prazer
E inclusive não querem o desejo
Você tem que sentar e esperar
Que todo o desejo se esvoace
Se a religião não quer o desejo
Por que então nascemos com essa
Possibilidade?
O desejo de prazer fujamos
Carnaval dos carnavais
Como vamos fingir o não desejo?
A natureza nos pune
Mas ao contrário nos alegra
Quando concretizamos um desejo

 

 
 
26
Jul20

Sete dicas de Luis Fernando Verissimo para quem gosta de escrever

Talis Andrade

 

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Por Marcelo Dunlop

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1. Escreve bem quem lê bem

Em palestras e entrevistas, Luis Fernando Verissimo sempre evoca o primeiro mandamento para quem pretende colocar suas histórias no papel: “Escreve bem quem lê bem”. No caso do cronista de 83 anos, “ler bem” significa ter lido um bocado. Além de seu livro predileto, O grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald, e da Bíblia (um clássico), Verissimo devorou craques da literatura como Jorge Amado, Jorge Luis Borges, Agatha Christie, Carlos Drummond, Érico (também conhecido como “Pai”), Gustave Flaubert, Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, James Joyce, Clarice Lispector, Herman Melville, Vladimir Nabokov, Edgar A. Poe, os Rubem (o Braga e o Fonseca), Mary Shelley e lá vai lombada. Destaque ainda para dois de seus humoristas favoritos: Millôr Fernandes e Evelyn Waugh.

 

2. Clareza

Na célebre crônica publicada no início dos anos 1980, “O gigolô das palavras”, Verissimo ensinava: “Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover…)”. O segundo mandamento de Verissimo, portanto, é: seja claro. O conselho vale principalmente para quem tenta fazer humor: “Quando o leitor não entende o que um jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista”, LFV disse, em outra crônica.

 

3. Professor: Pelé

Além de aprender com os autores que lia e conhecia na sala de estar de casa, muitos deles amigos de Érico Verissimo, Luis Fernando teve um professor incomum: mestre Edson Arantes de Nascimento. Como Verissimo explicou, em citação no seu Verissimas: “Sempre achei que o melhor professor de português do Brasil foi o Pelé. Quem o viu jogar ou hoje vê os seus teipes sabe que o Pelé jamais fez uma jogada que não fosse parte de uma progressão para o gol. O sentido de tudo que o Pelé escrevia com a bola no campo era o gol. O drible espetacular era apenas circunstancialmente, com perdão do longo advérbio, espetacular, porque ele existia em função do objetivo final. A lição para escritores é: defina o seu gol e tente chegar lá como o Pelé chegaria, com poucos mas definitivos toques, sem nunca deixar que os meios o desviem do fim. E se, no caminho para o gol, você fizer alguma coisa espetacular, esforce-se para dar a impressão de que foi apenas por obrigação.”

 

4. Respiração

Na impagável crônica “Carta do Fuás”, o cronista que está celebrando 50 anos de carreira revela uma de suas principais preocupações estilísticas: deixar o pobre leitor respirar. “Faz parte da arte de escrever a distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas”, explica LFV. “Assim respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão.”

 

5. O maior pecado

Há apenas duas práticas que Verissimo sempre desaconselha aos escritores iniciantes: redigir com raiva e ser repetitivo. Numa de suas citações (presente no livro Verissimas), o autor gaúcho prega: “O pecado que um escriba mais teme é o da redundância”.

 

6. Vocabulário e intimidade

Sobre a escolha das palavras, Verissimo é prudente: “Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.” A vantagem é que aumentar o vocabulário é uma missão simples: basta ler os seus autores prediletos.

 

7. Polimento em dose cavalar

Em sua longa entrevista no livro Conversa sobre o tempo, Verissimo explica aos amigos Zuenir Ventura e Arthur Dapieve como vê o ofício da escrita: para ele, a ideia de uma crônica ou livro martela tanto o autor que é impossível resistir, e ela acaba no papel. Na mesma entrevista, LFV compara o estilo de cada autor com a história do hábil escultor que fez um magnífico cavalo de mármore. Ao ser perguntado como conseguira tamanha perfeição, respondeu: “Escolhi a pedra, as ferramentas e tirei tudo o que não era cavalo.” Para Verissimo, “escrever é tirar tudo o que não é cavalo.”

 

31
Mar20

Os jornais são sempre mais pudicos do que qualquer obscena fantasia

Talis Andrade

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Por Maíra Vasconcelos/ GGN

E hoje, ao ler os jornais, percebi que a ficção está muito longe de qualquer palavra informativa e muito próxima de todas as realidades

 

Hoje, ao ler os jornais, percebi, mais uma vez, a impossibilidade de se fazer qualquer leitura das realidades e dos fatos sem o uso da ficção. Meu Deus. Como seria raso o entendimento do mundo sem a fantasia, seria tudo tão resumido como não é a própria vida. Quem diz e aponta o inconfessável da humanidade? Ora, apenas a ficção de qualquer arte. Mundo vive milésima pandemia e continua sem entender o valor da vida, diria uma não-notícia.

Afinal, diante de um comportamento aberrante, os jornais estão restritos a nada mais do que interrogar as autoridades públicas. Presidente, o senhor não se preocupa com as mortes, perguntariam os jornais. Enquanto a fantasia escreveria uma novela inteirinha para destrinchar o que simplesmente chamaria de horror. No Brasil, vírus já matou 159 pessoas, sendo 22 em um só dia, e mais de 4.500 estão infectadas.

E os jornais, mais uma vez, apenas escutariam o presidente: sabe qual é o problema? é você achar que ninguém irá morrer, quando todo dia morre alguém no mundo, e essas mortes ajudam no controle populacional, motivam a economia; não se pode pensar que toda morte é ruim, disse o presidente. Isso que a fantasia jamais escutaria sem transformar e evidenciar sua face humanamente monstruosa. Afinal, o desumano é muito humano, diria outra não-notícia.

E hoje, ao ler os jornais, percebi que a ficção está muito longe de qualquer palavra informativa e muito próxima de todas as realidades. Assim como tão longe e tão perto está das páginas de qualquer jornal o horror daquela face da guerra, de Salvador Dali. Ora, a pregação da morte não é uma irrealidade. Mas onde já viu uma pintura de Dali ser manchete de jornal, como se descrevesse a cara de um presidente? Afinal, jornais são sempre mais pudicos do que qualquer obscena fantasia.

25
Mar20

"Incendiário", "inacreditável" e "contraditório": imprensa europeia analisa pronunciamento de Bolsonaro sobre coronavírus

Talis Andrade

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A imprensa europeia destaca, nesta quarta-feira (25), as declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão realizado na noite de terça-feira (24). Para os jornais, as declarações do líder da extrema direita do Brasil são "incendiárias", "difíceis de acreditar" e vão de encontro com as próprias recomendações do Ministério da Saúde do país.

Para o jornal francês Le Mondeo presidente "minimiza os riscos relacionados à pandemia da Covid-19 ao criticar as medidas tomadas em diversas cidades e Estados do país, em um momento em que um terço da população mundial é colocada em confinamento".

O diário também destaca que Bolsonaro acusou as mídias do país de propagar "histeria", diante da pandemia que já causou mais de 18 mil mortos no mundo. "O Brasil está protegido da doença, segundo ele, devido ao clima quente e a população majoritariamente jovem", reitera a matéria.

O jornal Le Parisien lembra que, no momento do discurso de Bolsonaro, o Brasil contabilizava 2.201 casos de coronavírus e 46 mortes. "Mas as deficiências do sistema de saúde, além da pobreza e a insalubridade nas quais vivem uma grande parte da população, ameaçam agravar a epidemia na primeira economia da América Latina", afirma o diário.

 

Discurso resultou em "panelaços"

O jornal britânico The Guardian destaca que o presidente brasileiro declarou que "nada sentiria" caso fosse contaminado pela Covid-19. A matéria classifica as afirmações do presidente como "incendiárias" e ressalta que o discurso provocou grandes "panelaços" no Rio e em São Paulo.

The Guardian lembra que as duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio e muitas outras em todo o país, confinaram seus moradores "para salvar vidas". O jornal também destaca que muitos opositores de Bolsonaro acreditam que sua resposta à epidemia de coronavírus no Brasil "vai ser o fim de sua carreira política".

Em editorial, o jornal espanhol El País analisa como a América Latina lida com a pandemia e afirma que Bolsonaro "é o pior caso" entre alguns líderes da região que tentam minimizar a situação. Para o diário, o presidente está mais preocupado com a briga política com os governadores de São Paulo e do Rio – estados que concentram 60% dos casos de coronavirus do Brasil – do que com os riscos da pandemia.

"E os riscos são gigantescos!", afirma o editoralista. "As declarações oficiais de que o Brasil dispõe de recursos suficientes para enfrentar esse tsunami são difíceis de acreditar", reitera o artigo. Para El País, a situação catastrófica de falta de material médico, hospitais e profissionais da área da saúde que vivem atualmente a Europa e os Estados Unidos pode se repetir no Brasil. "O vírus se comporta de maneira similar em todas as latitudes", conclui.

 

Contra recomendações do Ministério da Saúde

Na live que faz diariamente em seu site, o jornal português Público lembra que o apelo de Bolsonaro pela reabertura das escolas e o restabelecimento do funcionamento do comércio contrariam as recomendações do próprio governo brasileiro. "No site, o Ministério da Saúde brasileiro aconselha a população a evitar aglomerações, a reduzir os deslocamentos para o trabalho, defendendo o ‘trabalho remoto’ e a ‘antecipação de férias em instituições de ensino’, especialmente em regiões com transmissão comunitária do vírus".

O jornal também destaca que Bolsonaro subestima a pandemia, ao afirmar que se fosse contaminado "não precisaria se preocupar". "O chefe de Estado do Brasil já se submeteu a dois exames ao novo coronavírus, ambos de resultado negativo, segundo o próprio. A imprensa pediu a divulgação pública dos resultados, mas sem êxito", conclui o diário. 

 

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13
Fev20

Insulto misógino contra jornalista reafirma relevância de reportagem

Talis Andrade

Desde o início de seu mandato, o próprio Bolsonaro coleciona ataques à imprensa, na maioria das vezes contra mulheres jornalistas

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por Maria Carolina Trevisan

Na falta de elementos para contestar reportagem da “Folha de S.Paulo” sobre envio em massa de notícias falsas na campanha eleitoral de 2018, Hans River do Rio Nascimento mentiu e usou de artifícios sórdidos para destruir a credibilidade da jornalista Patrícia Campos Mello, uma das melhores e mais premiadas repórteres investigativas do país. A situação fica ainda mais grave quando a insinuação é reverberada por deputados como Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Carlos Jordy (PSL-RJ) e Filipe Barros (PSL-PR). Ao insultar a repórter em sua condição de mulher – como se seu corpo fosse objeto de troca –, Hans e os deputados ratificam a relevância da reportagem. E mostram que, contra fake news, a melhor arma é o jornalismo de qualidade.

Desde o início de seu depoimento na CPMI das Fake News na Câmara dos Deputados nesta terça (11), o músico Hans River do Rio Nascimento demonstrou desgosto por ter se envolvido na reportagem. Teve uma postura displicente e respondeu de maneira imprecisa às perguntas formuladas pelos deputados. Não soube informar, por exemplo, o nome do diretor da empresa onde trabalhou, seu chefe direto, segundo ele. Tampouco conseguiu dizer a quantidade de mensagens enviadas, o que era parte de seu trabalho. “Era produto grande, não era qualquer coisinha, não.” Focou-se em tentar mostrar que foi explorado pela empresa Yacows, o que não era objeto da comissão.

Hans pareceu estar ali para se vingar. “A ‘Folha de S.Paulo’ acabou com meu nome. O prejuízo que essa jornalista me deu é um absurdo”, afirmou. Disse que não conseguiu mais emprego depois que a reportagem foi publicada e que não consegue pagar pela insulina que precisa. Culpou o jornal e a jornalista por uma situação criada pela empresa que o contratou – e que foi aceita por ele. Demonstrou e verbalizou estar “irritado”.

Foi aí que apelou. “Vou deixar mais claro, mas muito mais claro: ela queria sair comigo, eu não dei interesse para ela. Ela parou na porta da minha casa e se insinuou para entrar na minha casa com propósito de pegar a matéria, ela se insinuou para entrar, eu disse que não poderia entrar na minha casa, ela queria ver o meu computador. Não era parte do meu interesse a pessoa querer determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção.”

Pesa também contra Hans uma acusação de ameaça de morte da mãe de sua filha, que afirma que ele já quis “estrangulá-la”. A reportagem teve acesso ao Boletim de Ocorrência. Ele alega que a acusação seria inverdade e fruto de ciúme por ele ter uma nova companheira.

O cenário misógino estava colocado desde o início da sessão. A relatora da comissão, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), advertiu colegas parlamentares para que parassem de dizer que ela estava “nervosa”, na tentativa de desqualificá-la. “Toda vez que uma mulher fala e que um homem se dirige a ela dizendo que está nervosa, há um componente muito grave”, afirmou. É um comportamento típico do homem machista, como se a mulher fosse histérica ou louca ou estivesse afogada em hormônios e fosse incapaz de se controlar. É abjeto. O que se seguiu após a audiência foi também um show de machismo por parte de parlamentares e seguidores bolsonaristas.

É repugnante que se apele a isso. Mas não chega a ser uma surpresa. Desde o início de seu mandato, o próprio presidente Bolsonaro coleciona ataques à imprensa, na grande maioria das vezes contra mulheres jornalistas. A tentativa de intimidar profissionais da imprensa tem sido uma prática sistemática. Tanto é que entidades em defesa da liberdade de expressão solicitaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA um pedido de audiência temática sobre as violações neses sentido promovidas pelo Estado Brasileiro. A CIDH-OEA acolheu o pedido e a audiência ocorrerá em 6 de março, em Porto Príncipe, no Haiti. É a primeira vez que uma audiência sobre o tema será realizada no âmbito da OEA.

“Os recentes ataques à jornalista Patrícia Campos Mello são mais uma demonstração do grave cenário de ataques sistemáticos à liberdade de expressão que vivemos no país. Além disso, é abominável recorrer ao discurso machista, misógino de forma inescrupulosa como fizeram Eduardo Bolsonaro e o Hans River por ocasião da reunião da CPMI das Fake News”, afirma a jornalista Renata Mielle, coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, uma das instituições que pediram audiência à OEA.

“A falta de respeito com o papel da mulher no exercício de sua profissão, o assédio moral que tenta intimidar as mulheres é algo infelizmente recorrente na nossa atividade como jornalistas e em outras profissões. O que o governo e seus seguidores pretendem com esses ataques é calar as vozes dissonantes, é desqualificar o jornalismo. Desde a posse de Bolsonaro há uma explosão de situações de censura.” O que preocupa é o efeito cascata que dá salvo conduto para que outros políticos e poderes atuem violando a liberdade de expressão e ameaçando repórteres mulheres. A atuação da imprensa livre é um dos pilares que sustenta a democracia, bastante fragilizada neste momento.

O fato de autoridades respaldarem o comportamento desrespeitoso da testemunha faz com que outras pessoas se sintam à vontade para cometer violações contra mulheres e contra jornalistas. “O temor é que isso chancele a liberdade de atuação de repórteres mulheres, o risco aumenta”, alerta Maiá Menezes, conselheira fiscal da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Se, ao contrário, parlamentares condenassem esse tipo de atitude, não seria tão fácil cometer agressões dessa natureza.

“A verdade factual não conforta, mas desafia. Os fatos não são amigos. Não são acolhedores. Não são espelho. Os fatos são da ordem do que diferem, do que dissente e, por isso mesmo, cumprem o pape de servir como contrapeso da intolerância. Os fios demandam diálogo entre subjetividades que se hostilizam. Tecem a dimensão vital da política: a dimensão do diálogo”, escreveu Eugênio Bucci em “Existe democracia sem verdade factual?”, editora Estação das Letras.

O fato é que as mulheres são maioria nas redações, assim como somos maioria na sociedade. Não deixaremos de dar furo, de buscar a melhor reportagem, com ética e responsabilidade. Contra tudo isso, oferecemos o melhor jornalismo.

 

 

 

02
Fev20

Morre em Recife o jornalista Nagib Jorge Neto

Talis Andrade

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247 - O jornalista e escritor Nagib Jorge Neto, ex-preso político e autor de “Onde está meu filho?” — sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz, durante a ditadura militar — do romance “A Fantasia da Redenção” e “A Literatura em Pernambuco”, entre outras obras, morreu na manhã deste domingo no Recife, aos 83 anos, vítima de câncer. Ele deixa a mulher Eunice Sobral.

Colaborador do Brasil 247, Nagib começou a vida profissional como repórter em São Luís, na Rádio Timbira, em 1958. E atuava na área desde 1956, ano em que – juntamente com Brandão Monteiro, jornalista, advogado, ex-deputado federal e secretário de Estado no Rio – redigia, editava e vendia o jornal "Tribuna Estudantil". 

Em 1959 entra no "Jornal do Dia", colabora com o "Jornal Pequeno", o "Tribuna Estudantil", órgão da União Maranhense dos Estudantes Secundários, que presidiu entre 1958 e 1959. Entre 1961 e 1963 assume a Secretaria de Redação do "Jornal do Povo", de propriedade do jornalista Neiva Moreira e dirigido pelo poeta Bandeira Tribuzzi. 

Nessa fase foi presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito e Secretário Geral da UME, entidade universitária. No Golpe de 64, com o "Jornal do Povo" fechado, deixa São Luís e passa a integrar, com ajuda do poeta Lago Burnett, a equipe do "Jornal do Brasil", na sucursal do Recife. Então decide ficar na capital pernambucana  e passa a atuar no JB como repórter, chefe de Redação e sub-chefe da Sucursal Nordeste. 

Nessa época, também colabora com as revistas "Realidade" e "Veja", "Jornal da Tarde", "Jornal do Commercio" e Jornal da Semana, do qual foi editor chefe. 

Em 1968, com o texto “O Progresso Do Nordeste e A Difícil Vez De José”, publicado no JB e no "Jornal do Commercio", ganha o Prêmio Esso Nacional de Informação Econômica. 

Como jornalista, publicou os livros "Longe do País dos Sonhos" (reportagens, histórias, 1981); "Que Zorra, Camarada!" (textos políticos, 1991) e participou da elaboração do livro "Onde Está Meu Filho?" (1982), fazendo o texto final do trabalho que enfoca o desaparecimento de Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier. 

Ainda nessa  área publicou "Elogio da Resistência" (CEPE, 2001), na coleção “Perfil Parlamentar, Século XX”, da Assembleia Legislativa de Pernambuco. O trabalho evoca as idéias e lutas do advogado, escritor, político e militante comunista Paulo Cavalcanti. 

Na área de ficção publicou "O Presidente de Esporas", "As Três Princesas Perderam o Encanto na Boca da Noite", e "O Cordeiro Zomba do Lobo", todos de contos. Em 2002 publica "A Fantasia da Redenção", romance, e em 2003 o trabalho "A Literatura em Pernambuco", na coleção “Ícones Pernambucanos”, da Assembleia Legislativa, revista e ampliada entre 2007/2009.

 

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