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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Out21

O vídeo com Marcos do Val obriga a CPI da Covid a reconvocar Carlos Wizard a depor

Talis Andrade

RETRATO DE CARLOS WIZARD MARTINS

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Folhapress

 

Reunião secreta revela que o gabinete paralelo do Ministério da Saúde não era informal, mas organizado e com amplo acesso à alta cúpula do governo, inclusive ao presidente

 
 
por João Filho /The Intercept

 

EM JUNHO deste ano, a CPI da Covid recebeu um vídeo que confirmou a suspeita dos senadores sobre a existência de um Ministério da Saúde não oficial, que ficou conhecido como gabinete paralelo. Nele, é possível ver Bolsonaro em uma reunião com Osmar Terra e outros médicos negacionistas defendendo o tratamento precoce com remédios comprovadamente ineficazes contra covid.

Lá também estava o biólogo negacionista Paolo Zanotto, grande amigo de Jair Bolsonaro e contra a vacinação em massa. No vídeo, Zanotto fala abertamente sobre o gabinete paralelo, o qual ele chama de “shadow board” e coloca em dúvidas a eficácia da vacinação — contrariando todas as evidências científicas. As imagens da reunião deixaram claro porque Pazuello foi negligente no processo de compra das vacinas. Ele não era o ministro de fato, mas uma marionete comandada pelas decisões desse gabinete paralelo.

No mês passado, apareceu mais um vídeo do gabinete paralelo. Dessa vez, Zanotto aparece em uma reunião online com Pedro Batista Jr., diretor-executivo da Prevent Senior. A conversa entre os dois deixou claro que o protocolo macabro idealizado pela Prevent Senior para aplicar os medicamentos do kit covid em pacientes era de conhecimento do governo federal. O gabinete paralelo não só sabia que a Prevent Senior tratava pacientes como cobaias humanas como acompanhou de perto os experimentos.

Nesta semana, o Intercept publicou um outro vídeo que traz novos elementos sobre o gabinete paralelo. As imagens mostram uma reunião online secreta em junho deste ano comandada pelo empresário Carlos Wizard. Wizard é aquele bilionário bolsonarista que fugiu da CPI como o diabo foge da cruz, e quando finalmente apareceu, preferiu se esconder atrás da Bíblia e fazer proselitismo religioso.

O empresário carola teve a oportunidade de demonstrar sua inocência na CPI, mas preferiu se proteger atrás de um habeas corpus. O silêncio soou como um berro de confissão de culpa. Se ele ficou quieto na CPI para não se incriminar, no escurinho da reunião secreta ele era o mais falante e atuava claramente como um coordenador das ações negacionistas do gabinete paralelo.

No vídeo, Wizard parece atuar como um diretor-executivo do gabinete das sombras. Médicos representantes de 27 estados participaram da reunião. Entre eles estava Emmanuel Fortes, um dos vice-presidentes do Conselho Federal de Medicina, o CFM. Suas declarações no vídeo confirmam que a entidade trabalha 100% alinhada ao governo na implementação do tratamento precoce em massa. Fortes chegou a dizer na reunião que é “mais seguro” para médicos receitar do que não receitar a cloroquina — o que, já naquele momento, contrariava todas as evidências científicas.

O médico nunca escondeu sua admiração por Jair Bolsonaro. Pelo contrário, fez questão de demonstrar isso ao publicar uma foto ao lado do presidente em suas redes sociais em março deste ano. O vice-presidente do CFM aproveitou a postagem para tecer elogios e prometer fidelidade ao genocida em suas redes sociais: “Estive em solenidade onde estava o presidente Bolsonaro e aproveitei para fazer o registro e declarar que continuo confiando em seu governo”. E completou prometendo apoio à sua reeleição e contando uma série de mentiras sobre a atuação do presidente na presidência: “Estarei consigo em 2022 porque, nesses últimos trinta anos foi o presidente que mais investiu em construir a infraestrutura em normativos, leis, decretos, portarias e programas para efetivamente termos políticas de estado, não políticas de governo”.

A presença de Fortes nessa reunião e em diversas outras lives públicas com médicos negacionistas do Médicos pela Vida demonstram como o CFM investiu diretamente no impulsionamento das mentiras sobre o kit covid.

Emmanuel Fortes ao lado do presidente Jair Bolsonaro, para quem fez campanha em 2018.

 

Outra figura importante da tropa de choque negacionista é o senador Marcos do Val, do Podemos do Espírito Santo. Ele, que é integrante da CPI da Covid, aparece no vídeo dizendo que trabalha para convencer autoridades sobre a eficácia do kit covid e organizar a sua distribuição. Na reunião fica claro que Do Val atuava como um dos braços políticos do esquema negacionista. Ele revelou ter tratado do assunto com políticos, militares e integrantes do Ministério Público.

Do Val era uma espécie de faz-tudo do gabinete paralelo para ajudar a promover medicamentos comprovadamente ineficazes. No vídeo, Wizard apresenta o senador como um representante do grupo “seja diante do Ministério Público, seja diante de alguma questão com a Anvisa, seja diante do Exército (…) seja alguma intermediação com o seu governador, com o prefeito local”. Ou seja, temos um senador bolsonarista atuando como lobista dos interesses de um gabinete que é objeto de investigação da CPI, da qual ele é membro.

O “padrinho” do gabinete paralelo atuava dos dois lados do balcão, fingindo investigar o grupo para o qual trabalhava com afinco. Trata-se de um escândalo por si só.

Durante o depoimento de Wizard na CPI, o senador mentiu ao dizer que o gabinete nunca lhe pediu alguma coisa. Já no depoimento do deputado Luis Miranda, em que ficou demonstrada a prevaricação do presidente diante de uma denúncia de corrupção no Ministério da Saúde, Do Val levantou-se da cadeira e o empurrou como um cão de guarda do bolsonarismo.

 

Mas ninguém pode se dizer surpreso com a desfaçatez da atitude do senador. Ele é o cara que se elegeu na onda do bolsonarismo depois que conquistou milhões de seguidores nas redes sociais se vendendo como um ex-policial da Swat sem nunca ter sido um policial da Swat. Do Val nem policial é. É um professor de taekwondo que deu treinamentos de imobilizações táticas para a polícia americana.

 

Teve algum destaque no Senado como relator na Comissão de Constituição e Justiça do pacote anticrime proposto pelo ex-ministro da Justiça, Sergio Moro. Graças à sua atuação na defesa da flexibilização de armas nessa CCJ, ele foi condecorado pelo presidente da República com a Ordem do Mérito da Defesa. Entidades da sociedade civil apontaram conflito de interesses pelo fato do senador ter um histórico de relacionamento com a Taurus, fabricante de armas. Do Val é também aquele senador que demitiu a namorada do seu próprio gabinete para que ela pudesse ser recontratada graças à ajuda de “amigos do Senado” que lhe deram um cargo na Diretoria-Geral do Senado, onde passou a receber um salário maior.

Então ficamos assim: a tropa de choque do Ministério da Saúde paralelo era liderado por um bilionário bolsonarista, protegido politicamente por um senador bolsonarista e contava com o apoio de um médico bolsonarista integrante do CFM — e mais um punhado de médicos que flertam com o charlatanismo. O “”Conselho Científico Independente” — nome eufemístico que Wizard deu para o gabinete negacionista — tinha largo acesso às principais figuras do governo, inclusive ao presidente da República, e contava com grande espaço na estatal TV Brasil para boicotar as vacinas e difundir um tratamento comprovadamente ineficaz.

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Enquanto estendia o tapete vermelho para a picaretagem, o governo federal dava um perdido na Pfizer e boicotava a compra de vacinas. Quantas mortes podem ser colocadas na conta de um gabinete que trabalhou contra um medicamento que salva-vidas de pacientes com covid e investiu pesado em outros que comprovadamente não salvam? Quantas vidas seriam poupadas se esse gabinete paralelo não tivesse se mobilizado para difundir o protocolo macabro da Prevent Senior à revelia da ciência?

Hoje, depois de todas as provas divulgadas pela imprensa e pela CPI, dizer que houve um genocídio comandando pelo governo Bolsonaro e sua tropa de choque é a mera constatação de um fato. Mas, se a CPI ainda quiser mais provas, bem poderia reconvocar o falante Carlos Wizard para se sentar no banco dos depoentes.

MAIS VÍDEOS

 

Nos EUA, rede de saúde de direita ganha milhões com kit covid de hidroxicloroquina e ivermectina

 
19
Set21

Temer é o retrato do desespero das elites pela terceira via

Talis Andrade

O "festim diabólico" na visão de Nando Motta 

 

A terceira via só existe nos sonhos do mesmo grupo de empresários e políticos que ajudaram a eleger Bolsonaro e agora zombam dele

 

 

por João Filho /The Intercept
 

MICHEL TEMER FOI RECOLOCADO  no tabuleiro do jogo político como uma peça importante. Logo após o ato golpista no 7 de setembro, Bolsonaro mandou um avião da FAB trazer o antecessor a uma reunião em Brasília. O objetivo era reconstruir pontes de diálogo com o ministro Alexandre de Moraes, indicado ao cargo pelo ex-presidente. Dias antes, Bolsonaro havia implodido o que restava das pontes ao dizer durante a manifestação em São Paulo que não cumpriria mais nenhuma decisão de Moraes. Mas diante da movimentação dos partidos pelo impeachment e da possível prisão iminente de seus filhos, o machão imbrochável sucumbiu e teve de pedir ajuda para acalmar o ministro o qual ataca há meses.

Não é de hoje que Temer tem atuado como um domador de Bolsonaro. Desde o início do governo, é um conselheiro informal do presidente em momentos de crise. Já entrou em campo para amenizar o mal-estar com a China e aproximá-lo do Centrão. Sua influência no governo Bolsonaro não é pequena. Segundo o ex-bolsonarista Alexandre Frota, Bolsonaro pediu para que ele, então secretário de Cultura, desse um cargo para Osmar Terra para atender a um pedido de Michel Temer. Terra acabou se tornou influente na condução desastrosa do combate à pandemia. Bolsonaro já se referiu ao negacionista Terra como a “principal autoridade na área da Saúde”.

Dias após ajudar a colocar panos quentes na relação do presidente com o Supremo, faixas pedindo “Volta, Temer” foram exibidas por dez gatos pingados na Avenida Paulista na manifestação pelo impeachment organizada pelo MBL — que mais parecia um ato de campanha eleitoral da terceira via. Cada um deles recebeu R$ 50 para estar ali, o que demonstra haver uma movimentação para recolocar Temer de volta no jogo eleitoral.

Isso se confirmou com o banquete oferecido por Naji Nahas em seu palacete para Temer e outros políticos e empresários. Foi um jantar exclusivo para pessoas muito ricas, poderosas e algumas envolvidas em escândalos, como é o caso do anfitrião, que chegou a ser condenado a 24 anos de cadeia em primeira instância por crimes contra a economia popular e o sistema financeiro e foi posteriormente absolvido pelo TRF-2. João Carlos Saad, fazendeiro e dono do grupo Bandeirantes, e Roberto D’Ávila, jornalista da Globo, eram os representantes da grande mídia no encontro. Gilberto Kassab, do PSD, e Paulo Marinho, ex-PSL e atualmente no PSDB, eram os representantes dos políticos que sonham com a terceira via.

Quem é quem no jantar em que Temer ri de imitação de Bolsonaro - BBC News  Brasil

O humorista André Marinho imitou o presidente para deleite da plateia de milionários.

 

 

Todos os presentes no jantar, sem exceção, foram apoiadores de Bolsonaro ou ficaram neutros no segundo turno, mesmo diante dos discursos fascistas do candidato. Alguns deles, como Marinho e seu filho, lideraram a campanha eleitoral da extrema direita. Agora todos gargalham das imitações que o filho do tucano faz caçoando da incompetência de Bolsonaro como se não tivessem nada a ver com isso. O que se viu ali naquela mesa é a chamada “direita civilizada” tentando reorganizar sua volta ao poder e evitar a vitória de Lula ou Bolsonaro. Tudo isso após ter patrocinado a ascensão do fascistoide que hoje taca fogo no país.

O vídeo que registrou o banquete de Temer com os ricaços foi estrategicamente vazado por Elsinho Mouco, o marqueteiro político do ex-presidente — aquele mesmo que confessou ter sido pago pela JBS para ajudar a derrubar Dilma. Elsinho já atuou como elo de ligação entre Bolsonaro e Temer em vários momentos. Foi ele quem articulou para que Temer chefiasse a delegação do governo Bolsonaro em viagem ao Líbano no ano passado. Também foi o responsável pela comunicação do candidato de Bolsonaro para a prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno. O entrosamento político entre Temer e Bolsonaro não é de hoje e é mais afinado do que se imagina.

Não é possível cravar que Temer é o candidato da terceira via, mas está claro que um balão de ensaio da sua candidatura foi colocado na praça. Mas é um balão que encontrará muitas dificuldades para subir. Temer é um ex-presidente altamente rejeitado: foi eleito o mais impopular da história do país. Saiu do cargo que usurpou com 62% da população considerando seu trabalho ruim ou péssimo. Para se ter uma ideia do tamanho da sua rejeição, até a desastrosa gestão Bolsonaro tem uma desaprovação menor — 53% da população. A manifestação do MBL, que foi marcada pelo “nem Lula nem Bolsonaro”, foi um fracasso de público e oferece um indicativo de como será difícil levantar algum candidato da terceira via.

A grande imprensa também parece tentar renovar a imagem de Michel Temer. Os grandes veículos têm dado destaque para o republicanismo do ex-presidente e começaram a pipocar no noticiário colunistões tecendo elogios. Esses setores da mídia e do empresariado parecem dispostos a fabricar a sua candidatura à presidência ou, pelo menos, alçá-lo à condição de fiador de alguma outra candidatura da terceira via.

Um colunista da revista Veja publicou um texto que parece até que foi escrita por Elsinho Mouco. Intitulado “Temer e o sonho da terceira via”, o texto afirma: “Temer foi o vencedor da semana. O ex-presidente apareceu como estadista, foi e voltou a Brasília em um avião enviado pela presidência e acabou aplaudido em um restaurante em São Paulo como pacificador. No mesmo local, uma mulher disse a ele: ‘essa calma que estamos vivendo é graças a você'”.

Mesmo após atuar em conjunto do gângster Eduardo Cunha para usurpar o cargo da presidenta da qual era vice, Temer conseguiu, com o apoio da grande imprensa, manter a pose de republicano, conciliador e pacificador. Esse homem republicano virou um dos mais importantes conselheiros de um presidente fascistoide, tendo articulado no meio político para dar alguma governabilidade à barbárie bolsonarista.

Na falta de candidatos com apelo popular, as elites tentam fabricar a candidatura de alguém que ajudou a abrir as porteiras do caos institucional que vivemos hoje. Mas os patrocinadores da terceira via terão que suar muito para promover esse ressuscitamento eleitoral ou criar um novo nome com condições de disputar com Lula e Bolsonaro. Por enquanto, a terceira via só é possível nos sonhos das mesmas elites que contribuíram para a ascensão de Bolsonaro e a degradação da democracia.

 

 

 

29
Ago21

No idioma torto de Bolsonaro e dos militares, a democracia comporta um golpe

Talis Andrade

TOPSHOT - A man holds two signals in the shape of a gun during a pro-gun demonstration in support of Brazilian President Jair Bolsonaro in Brasilia, on July 9, 2021. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

Foto Sergio Lima

 

Temos dificuldade de entender que o bolsonarismo não fala nossa língua: ele a distorce para vender a ideia de que um eventual golpe seria constitucional

 

 

AS AMEAÇAS GOLPISTAS do Planalto se intensificaram nos últimos dias, e o coro a favor de um golpe também. Além de Bolsonaro e seus generais, agora temos agora um contingente de policiais militares dispostos a apoiar os delírios autoritários de Bolsonaro. As manifestações em apoio ao governo marcadas para o dia 7 de setembro têm sido encaradas pelos bolsonaristas como o estopim da “revolução” — que significa golpe na novilíngua dos bolsonaristas.

Aleksander Lacerda, um coronel que comanda tropas no interior do estado de São Paulo com 5 mil homens, usou as redes sociais para convocar a população para o ato golpista. “Liberdade não se ganha, se conquista. Dia 7/9 eu vou”, escreveu. Em outras postagens, afirmou: “Precisamos de um tanque, não de um carrinho de sorvete. Nenhum liberal de talco no bumbum consegue derrubar a hegemonia esquerdista no Brasil.” O golpismo do coronel foi punido pelo governador João Doria, que o afastou do cargo.

Mas a punição sofrida pelo coronel não foi o suficiente para frear o ímpeto golpista. Muito pelo contrário, acirrou os ânimos. O ex-comandante da Rondas Ostensiva Tobias Aguiar, o Rotas, Alberto Sardilli, confirmou a alta adesão de policiais militares ao bolsonarismo. Segundo ele, pelo menos 80% da tropa é bolsonarista e está revoltada com o afastamento do coronel. “O presidente é militar, a tropa se identifica com essa questão. Ele preza valores que são os da PM há 200 anos”, afirmou Sardilli, que atualmente é chefe de gabinete de um deputado estadual do PSL.

Ricardo de Mello Araújo, outro ex-comandante da Rota, também gravou um vídeo convocando policiais militares veteranos para a manifestação. “Nós temos que ajudar o nosso presidente Bolsonaro no dia 7 de setembro”, afirmou. Segundo ele, o “comunismo está querendo entrar”. Na mesma publicação ele avisa que o ponto de encontro dos veteranos para a manifestação será o 1º Batalhão de Choque, a Rota. Apesar de ser um ex-comandante, Araújo ainda é bastante influente no meio. Ele é o atual diretor-presidente da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais em São Paulo), um órgão ligado ao governo federal.

Se em São Paulo o golpismo entre militares está nesse nível, não há porque se duvidar de que ele é forte dentro das polícias militares de outros estados. Não se deve subestimá-los. O autogolpe de Bolsonaro é uma possibilidade real e conta com o apoio de algumas milhares de pessoas armadas e dispostas a embarcar nos delírios golpistas do presidente. Segundo o deputado federal bolsonarista Coronel Tadeu, policiais do interior de São Paulo estão se organizando para comparecer à manifestação do dia 7 de setembro. Pelo menos 50 ônibus já teriam sido alugados para transportar os policiais golpistas para a avenida Paulista.

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No dia do soldado, o comandante do Exército brasileiro Paulo Sérgio Nogueira apareceu ao lado de Bolsonaro e fez um discurso aparentemente democrático e antigolpista. Afirmou que os militares devem ser “inspiradores de paz, liberdade e democracia”. Houve quem esqueceu da novilíngua bolsonarista e viu na declaração um balde de água fria nas pretensões golpistas do presidente.

Ocorre que, no idioma bolsonarista, as palavras “liberdade”, “paz” e “democracia” não refletem o que comumente se interpreta delas. Para os bolsonaristas, o autogolpe deverá ser feito justamente para assegurar a liberdade, a paz e a democracia — princípios que estariam sob ataque da “hegemonia esquerdista”, como declarou um dos coronéis golpistas de São Paulo.

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Nogueira destacou também que o exército age “sob a autoridade do presidente da República, o comandante supremo das Forças Armadas” e “mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna”. O que seria essa “missão” presente na Constituição? Seria o famigerado artigo 142, tão evocado pelo bolsonarismo para dar legitimidade constitucional aos seus anseios golpistas? Tudo leva a crer que sim. Registre-se que foi Nogueira quem decidiu não punir o general Pazuello por participar de um ato golpista promovido pelo presidente.

Tanto as falas do presidente quanto as convocações de militares para o ato golpista do dia 7 falam em defesa da liberdade, da democracia e da Constituição. Bolsonaro tem repetido quase que diariamente que agirá dentro “das 4 linhas da Constituição”. É justamente aí que mora o perigo. Sob a ótica golpista, a interpretação do artigo 142 faz tudo parecer legal e democrático.

Em entrevista para a Folha, Sardilli, o ex-coronel da Rota, deixou isso claro: “Se [o artigo 142] for acionado e o Exército demandar, estaremos dentro da legislação. Não vai caber a nós questionamentos”. O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, afirmou que as Forças Armadas podem ser acionadas a qualquer momento: “O artigo 142 é bem claro, basta ler com imparcialidade. Se ele existe no texto constitucional, é sinal de que pode ser usado”

Vejamos então o que diz o artigo: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”

Segundo constitucionalistas, a interpretação de que o artigo seria uma autorização para o presidente acionar uma intervenção militar é absurda. Em entrevista para a BBC, Roberto Dias, professor de direito constitucional da FGV-SP, explicou: “É como se a Constituição previsse sua própria ruptura, e logicamente é algo que não faz sentido. É uma interpretação jurídica, política e logicamente insustentável”.

Ministros do STF, em mais de uma oportunidade, já deixaram claro que o artigo não dá ao presidente poderes para romper com a ordem constitucional. O Supremo já se manifestou em uma decisão liminar em junho, afirmando que o artigo 142 não autoriza a intervenção das Forças Armadas sobre o Legislativo, o Judiciário ou o Executivo. Segundo o ministro Luiz Fux, a autoridade do presidente da República é “suprema em relação a todas as demais autoridades militares mas, naturalmente, não o é em relação à ordem constitucional”.

O golpe de Bolsonaro não conta com apoio maciço do alto empresariado, do mercado, das forças políticas ou da população. As condições materiais para um autogolpe, portanto, não existem e dificilmente os golpistas seriam capazes de sustentá-lo. Mas isso não significa que eles não vão tentar. O delírio coletivo é forte e há muitas pessoas dispostas  — e armadas — a lutar contra a delirante perseguição do “sistema” contra o presidente.

Uma tentativa de golpe, mesmo que fracassada, seria suficiente para causar um estrago gigantesco para o futuro das instituições democráticas do país. Haveria derramamento de sangue, arrasaria de vez a nossa já combalida economia e nos transformaria em pária internacional de maneira definitiva. A instalação do caos tem data marcada e é encarada pelo bolsonarismo como a etapa final do seu projeto de destruição da democracia. Veremos no dia de 7 de setembro o tamanho real das forças golpistas.

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Nota deste correspondente: Não se faz golpe sem lista de presos políticos, tortura, exílio e morte. 

Tortura nunca mais!

Ditadura nunca mais! 

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14
Jul21

Senadores estão aprendendo a cortar o lero-lero dos negacionistas na CPI

Talis Andrade

Quem é a médica Nise Yamaguchi, a próxima a depor na CPI da PandemiaNise Yamaguchi pega nas mentiras

 
 

QUANDO O MUNDO estava atônito com a ascensão de presidentes de extrema direita em 2018, escrevi sobre um artigo alemão que dava dicas para jornalistas de como confrontá-los. Um resumo delas: faça perguntas básicas e técnicas, e não dê espaço para o proselitismo ideológico, que é a única arma de um extremista em um debate. Mantenha a conversa no campo técnico e não permita que ela caia para o debate moral, que é a seara em que eles se sentem mais à vontade. Todo extremista é, via de regra, um sujeito com intelectual limitado e invariavelmente se enrola com perguntas simples e técnicas.

Durante um debate no primeiro turno da eleição daquele ano, o jornalista Reinaldo Azevedo fez uma pergunta das mais simples sobre dívida interna para Bolsonaro. O então candidato ficou tenso, gaguejou e parecia estar à beira de sofrer a mesma síndrome vasovagal que derrubou Pazuello na CPI. A resposta do candidato foi um ajuntamento de palavras aleatórias que formavam frases desconexas e sem qualquer relação com a pergunta.

Foi essa a tática utilizada pelos senadores de oposição na última terça-feira na CPI da Covid durante o depoimento da médica negacionista Nise Yamaguchi, que recentemente se tornou a nova queridinha da extrema direita.

Os senadores bolsonaristas estavam otimistas com o depoimento da doutora. Além de estar alinhada ao presidente, ela ostenta um belo currículo na área médica. Os senadores governistas esperavam que isso fosse dar alguma credibilidade às teses negacionistas, mas o que se viu foi o contrário. As pretensas explicações científicas de Yamaguchi não resistiram ao escrutínio dos senadores oposicionistas que estavam afiados. Eles se focaram em questões básicas e técnicas, sem dar margem para o proselitismo negacionista.

O ponto alto do constrangimento de Yamaguchi veio quando Otto Alencar, que também é médico, fez uma pergunta simples: “qual é a diferença entre protozoário e vírus?”. A médica, que defende fervorosamente a aplicação de um remédio para protozoário para combater um vírus, não soube responder. Otto emendou então outra pergunta elementar: “a senhora sabe a que grupo pertence a covid-19?”. Ela ficou nervosa, começou a murmurar e a folhear papéis como se estivesse procurando uma resposta. Quando Yamaguchi tentou apelar para o enrolation, Otto não deixou o lenga-lenga negacionista florescer. Interrompeu a doutora e cobrou uma resposta para suas perguntas técnicas, mas, mais uma vez, ficou no vácuo.

Yamaguchi, que era apresentada pelo bolsonarismo como uma especialista no enfrentamento da pandemia, se mostrou uma profunda ignorante na área de infectologia. Uma pessoa completamente despreparada foi alçada pelo governo Bolsonaro à condição de conselheira de alto nível para assuntos relacionados à pandemia. É esse o tamanho do buraco em que nos encontramos.

O relator emedebista Renan Calheiros perguntou qual a opinião de Yamaguchi sobre as vacinas. Ela respondeu que a imunização não é o único caminho para combater a pandemia, dando a entender que as vacinas têm o mesmo nível de importância que o famigerado tratamento precoce. O presidente Omar Aziz então a interrompeu para pedir para o povo não acreditar nela: “não acreditem nela. Quem está nos vendo neste momento, não acredite nela. Tem que vacinar. A vacina salva. Tratamento precoce não salva. Não vou fazer propaganda enganosa para a população brasileira. Eu tenho responsabilidades aqui, e a responsabilidade é grande”. Um golaço. Omar deixou claro que não haveria mais espaço dentro da CPI para se contrariar um consenso científico. O tratamento precoce é comprovadamente ineficaz e não se pode admitir que uma profissional médica trate um consenso científico como se fosse mera questão de opinião.

A senadora Eliziane Gama, do Cidadania do Maranhão, perguntou se a médica já teria se vacinado. Ela respondeu que não pôde tomar a vacina por ser acometida de vasculite, uma doença autoimune. Pouco tempo depois, a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a SBR, emitiu nota desmentindo: “(…) vasculites não representam, por si só, qualquer contraindicação para receber qualquer vacina contra a covid-19″.

Depois, a depoente disse para os senadores que foi integrante do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass. Poucos minutos depois, o próprio Conass publicou nota declarando que Yamaguchi não possui qualquer vínculo com a entidade. Confrontada com a nota, a doutora admitiu que não fez parte do conselho e, como se nada tivesse acontecido, alegou apenas que tem apreço pelos secretários da entidade.

As mentiras escabrosas foram muitas e não pararam por aí. A oncologista mentiu quando afirmou ter feito parte da criação do comitê de crise do Ministério da Saúde para o enfrentamento da pandemia de H1N1 em 2009. José Gomes Temporão, o ministro da época, a desmentiu. Mentiu ao dizer que o estado do Amapá tem uma das menores taxas de letalidade da doença do mundo graças ao uso do tratamento precoce. Mentiu ao citar um estudo de Nova York que comprovaria a ineficácia do lockdown. Mentiu ao dizer que o governo mexicano recomenda uso de hidroxicloroquina. Mentiu quando disse que nunca teve encontros privados com Jair Bolsonaro.

As agências de checagem tiveram trabalho. A doutora mente demais até mesmo para os altos padrões bolsonaristas. Nem o festival de mentiras protagonizado por Pazuello na CPI foi tão ostensivo.

O depoimento de Yamaguchi foi uma derrota e tanto para o bolsonarismo. Senadores e outros políticos governistas iniciaram então uma campanha em defesa da médica, alegando que ela foi humilhada e desrespeitada pelos senadores de oposição durante a CPI. Um grupo de médicos saiu em defesa da colega, incentivados pelo presidente do Conselho Federal de Medicina, que está aparelhado por bolsonaristas. Ele agitou uma reação corporativista da classe ao gravar um vídeo em que anuncia a publicação de uma moção de repúdio em defesa do profissional médico, ao respeito e à civilidade na CPI. A narrativa é a de que toda a categoria médica estaria sendo desrespeitada na comissão. Mas quem de fato desrespeita a profissão de médico são os médicos que desrespeitam a ciência.

Os extremistas estão sempre tentando tirar o debate na área técnica para levá-lo para o campo moral. Yamaguchi foi humilhada sim, mas pela verdade dos fatos. Desrespeitada não foi em nenhum momento, muito pelo contrário. Os senadores a trataram com cordialidade a todo momento. Apenas tiveram a firmeza necessária para quem está investigando as responsabilidades de um crime contra a humanidade. Ficou claro que a doutora não tinha a menor condição de se apresentar como conselheira do governo no combate à pandemia.

Um dia após o depoimento de Yamaguchi, outra depoente médica, Luana Araújo, aquela que foi chamada para trabalhar com Queiroga mas foi barrada por não estar alinhada às loucuras negacionistas, classificou a defesa da cloroquina no tratamento precoce como uma “discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente”. São adjetivos feitos sob medida para o depoimento de Yamaguchi.

A tática utilizada para desmascarar a falta de conhecimento técnico da médica bolsonarista pode ser um aperitivo para as eleições de 2022. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro pode até fugir dos debates, mas não vai poder ficar apenas naquele cercadinho em que todos os dias alimenta o seu gado. Vai ter que se expor, dar entrevistas e responder questões básicas e técnicas para quem ocupa o cargo de presidente. Esse é um bom caminho para se enterrar o extremismo. 

 

12
Jul21

Por que Cascavel, o obscuro braço direito de Pazuello, tem de ser ouvido na CPI

Talis Andrade

 

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Denunciado por grilagem e nepotismo, Airton Soligo foi apontado por secretários de saúde como o faz-tudo na gestão Pazuello. Ele é chave na apuração dos culpados na CPI

 

por João Filho /The Intercept

EM JANEIRO, o jornalista investigativo Lúcio de Castro destrinchou o passado de um personagem importante na condução das políticas de enfrentamento à pandemia no país. Em uma série de cinco reportagens, o jornalista revelou que o braço direito do então ministro Eduardo Pazuello, Airton Antonio Soligo, conhecido como Cascavel, é detentor de um currículo dos mais obscuros. O homem de confiança de Pazuello no Ministério da Saúde é um político e empresário que, mesmo sem ter tido nenhuma experiência anterior na área da Saúde, foi convidado a integrar a equipe do general.

Segundo as reportagens, ele praticou um nepotismo sem limites durante a carreira política, foi denunciado por grilagem em terra com demarcação fraudada e por corrupção ativa, e acusado de —  pasmem! — tentar desviar um carro que estava sendo utilizado em uma campanha de vacinação. Com esse histórico o empresário conseguiu ser alçado à condição de número 2 do ministério de Pazuello em meio a mais grave crise sanitária da história do país.

Apesar de ser um homem importante na condução da tragédia sanitária bolsonarista, Cascavel tem sido pouco citado no noticiário. Mesmo durante a CPI da Covid, na qual sua convocação para depor já foi aprovada, ele quase não é mencionado pelos senadores e tem passado quase despercebido no debate público.

Lúcio de Castro mostrou que, mesmo antes de ser nomeado como assessor especial do ministério da Saúde, já circulava e dava ordens na pasta, participava como representante em reuniões com governadores, negociava contratos importantes e dava “ordens e agressivas reprimendas nos servidores”.

Em março, a Veja revelou que, na verdade, Cascavel não era o número 2 do ministério, mas o número 1. Segundo a reportagem, Cascavel era considerado pela maioria dos gestores municipais como o “ministro de fato” da Saúde, uma espécie de faz-tudo de Pazuello. Era ele quem corria atrás das pendências burocráticas e das demandas logísticas do ministério. Estados e municípios o consideravam o responsável pela entrega de respiradores, lotes de vacina, equipamentos para leitos de UTI, etc. Um secretário estadual ouvido pela revista afirmou que Cascavel “era o sustentáculo da pasta, era o que resolvia tudo. Quando a gente tinha algum problema, o Pazuello mandava falar com ele”. O empresário chegou a ir pessoalmente para São Paulo para negociar a compra e distribuição da CoronaVac com o Instituto Butantan e colocar panos quentes na briga entre Doria e Bolsonaro —  uma rara missão em que foi bem-sucedido.

Cascavel é considerado um empresário de sucesso em Roraima, dono de grandes fazendas, de empresa de alimentação, de motéis e de franquias em shoppings em Boa Vista e Manaus. O sucesso na carreira empresarial ajudou a alavancar seu ingresso na política. O empresário foi prefeito de Mucajaí, em Roraima, no final dos anos 80. Depois, foi eleito deputado estadual, quando se tornou presidente da Assembleia Legislativa daquele estado. Foi ainda vice-governador de Roraima e, por fim, deputado federal.

Essa longa trajetória política foi marcada por alguns escândalos. Ainda em 1989, quando era prefeito, o MPF de Roraima o denunciou por tentar subornar um delegado de agricultura de Roraima para que fosse liberada uma caminhonete, em uma transação que seria camuflada como doação. A proposta, no entanto, foi registrada pelo próprio empresário em um cartão. Um exame grafotécnico feito pela Polícia Federal confirmou que a proposta de suborno havia mesmo sido escrita por ele. O veículo que o então prefeito tentou surrupiar para funções particulares era utilizado na campanha de vacinação de febre aftosa pelo interior. Mas, claro, as casas legislativas sentaram em cima do processo do empresário por uma década, e o crime acabou prescrevendo. Ou seja, durante a maior crise sanitária da história, o governo Bolsonaro escolheu para liderar a campanha de vacinação nacional um homem que foi denunciado por cometer desvios na vacinação em seu estado.

Entre 1999 e 2002, quando era deputado federal pelo então PPS, promoveu uma farra de nepotismo de causar inveja à família Bolsonaro. A esposa, a sogra e pessoas que tinham algum vínculo comercial com o empresário foram empregados em seu gabinete. Os cofres públicos garantiram os salários de parentes e amigos de Cascavel durante esse período.

O MPF-RR também o acusou por grilagem em uma grande fazenda de sua propriedade na zona rural de Boa Vista. Além dele, outros nomes importantes da política aparecem como grileiros nessa mesma denúncia, como Rodrigo Jucá, o herdeiro de Romero Jucá, ex-senador e atual presidente do MDB de Roraima. Segundo a denúncia, gestores do Incra fraudaram a demarcação da área com “o intuito de beneficiar personagens do esteio político roraimense”. Além de Jucá e Cascavel, outros 15 foram denunciados.

A investigação elencou uma série de irregularidades na passagem de posse da fazenda. A denúncia conclui que houve uma “sequência de atos administrativos praticados pelos gestores e servidores do Incra no sentido de beneficiar os supostos proprietários do imóvel, uma vez que foi concedido título de propriedade irregular, de área de propriedade da União e que não estava ocupada de fato”. A justiça federal arquivou o processo em 2018, alegando que “falhas técnicas, não constituem improbidade administrativa”.pazuello-cascavel

Pazuello e Cascavel, seu braço direito na gestão da maior crise sanitária da história.

 

 

Na campanha para deputado federal em 2018, o empresário declarou ter um patrimônio de R$ 3 milhões, sendo que R$ 1 milhão ele guardava em dinheiro vivo em casa. Foi derrotado na eleição, mas o candidato bolsonarista que apoiava para o governo de Roraima, o bolsonarista Antonio Denarium, assumiu.

Logo no início do mandato, o governador tentou nomear Cascavel para a presidência da Fundação Estadual do Meio Ambiente, porém seu passado controverso fez com que ele fosse vetado pela Assembleia Legislativa. Se os deputados o rejeitaram, o general Pazuello o acolheu de braços abertos. Nessa época, Cascavel se aproximou de Pazuello, que comandava a Operação Acolhida, que levava imigrantes venezuelanos de Pacaraima para outros estados.

A gestão Pazuello foi um desastre sem precedentes no Ministério da Saúde, e a chegada de Queiroga fez com que Cascavel deixasse a pasta. Mas o bolsonarismo não o deixou de mãos abanando. Poucos dias depois, o governador bolsonarista de Roraima decidiu nomeá-lo como o novo secretário de Saúde do estado — um prêmio para quem comandava uma gestão desastrosa na Saúde em nível federal.wando-soligo

Airton Soligo, conhecido como Cascavel, e Paulo Guedes durante anúncio do acordo firmado com a Pfizer. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

A breve passagem de Cascavel pelo Ministério da Saúde não pode ser esquecida. Ele é um personagem chave para entender e responsabilizar os culpados pelas políticas negacionistas comandadas pelo governo. Por que um sujeito já denunciado por desvio em campanha de vacinação virou o nº 1 em um ministério responsável pela campanha de vacinação durante uma crise sanitária? Por que alguém sem nenhuma experiência com saúde e com um histórico de denúncias de nepotismo, grilagem e corrupção ativa foi escolhido para ser o ministro da Saúde paralelo do governo Bolsonaro?

Essas são perguntas que deveriam ter sido feitas pelos senadores para Pazuello durante a sua passagem pela CPI. Apesar do requerimento da sua convocação já ter sido aprovado, a data para o seu depoimento ainda não foi marcada. Até agora, Cascavel passou ileso na comissão e no noticiário. Ainda dá tempo de mudar isso.

25
Jan21

O jogo político do impeachment pode estar virando contra Bolsonaro

Talis Andrade

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Foto: Andressa Anholete/Getty Images

 

Nunca faltaram motivos jurídicos para justificar um impeachment contra Jair Bolsonaro. O que faltavam eram condições políticas, que finalmente podem estar aparecendo

 

 

AS CONDIÇÕES POLÍTICAS para o impeachment pareciam inexistentes há um mês, mas o jogo pode estar virando. De lá pra cá muita coisa aconteceu. Passou a ficar mais claro que o descaso do governo com a pandemia não é resultado de incompetência, mas um projeto baseado em negacionismo científico. As panelas voltaram a bater e até ex-bolsonaristas passaram a defender o impeachment. A popularidade do presidente despencou de 36% para 27%. Além disso, Donald Trump, a grande referência moral e política do bolsonarismo, saiu da presidência dos EUA pela porta dos fundos, o que representou um baque imenso para as narrativas bolsonaristas. As condições jurídicas para o impeachment sempre existiram — Bolsonaro tem pelo menos uma dúzia de crimes de responsabilidade indiscutíveis nas costas. Faltavam as políticas, que agora começam a tomar corpo.

Dez dias antes das pessoas começarem a morrer asfixiadas por falta de oxigênio em Manaus, o governo federal foi informado que o sistema de saúde entraria em colapso. E nada fez. Essa tragédia programada trouxe de volta os panelaços e aumentou o clima favorável ao impeachment. Mesmo assim, precisamos ser realistas: o impedimento do facínora que nos governa ainda está distante e com grandes chances de ser enterrado pela eleição de Arthur Lira, o candidato bolsonarista à presidência da Câmara que, até agora, parece ser o favorito. Há muito trabalho pela frente, mas hoje é possível enxergar alguma fagulha de luz no fim do túnel.

A tragédia humanitária pela qual passa o país foi meticulosamente construída pelo bolsonarismo. Em março, quando a gravidade da pandemia já era ponto pacífico entre os principais presidentes do mundo, Bolsonaro afirmou que essa “gripezinha” não chegaria a matar 800 pessoas. De lá para cá o que se viu foi um show de horror negacionista. Enquanto o presidente fazia aparições midiáticas aglomerando sem máscara, as milícias digitais bolsonaristas lideravam uma campanha nas redes para desacreditar a ciência. Depois, quando Doria anunciou a compra da Coronavac, Bolsonaro disse que não compraria dele a “vacina chinesa” e passou a contestar sua eficácia. As milícias digitais atuaram novamente para descredibilizar a Coronavac. Depois de desprezá-la e boicotá-la de todas as maneiras, o governo iniciou uma guerra pela vacina quando percebeu o ganho político do governador paulista. Houve até ameaças de confisco da vacina. Aliás, essa é outra tragédia instalada pelo bolsonarismo: a transformação de Doria em herói apenas por ter cumprido a sua obrigação.

A falta de insumos para produção da vacina, que atrasou o início da imunização do país, é resultado direto do isolamento internacional imposto pelas alucinações ideológicas da extrema direita. O problema do Itamaraty não é de incompetência, pelo contrário. Transformar o Brasil em pária internacional é um projeto que está sendo muito bem sucedido. “Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”, profetizou há 3 meses o chanceler Ernesto Araújo ao falar sobre os novos rumos da política externa bolsonarista. O ministro estava desde março do ano passado sem manter nenhuma conversa com a China, nossa principal parceira comercial, que é também a principal fornecedora dos insumos para as vacinas. O motivo é formidável: o Itamaraty comprou a briguinha de Twitter que Eduardo Bolsonaro arranjou com o embaixador chinês, que também foi iniciada graças aos delírios xenofóbicos difundidos por Olavo de Carvalho. Agora o governo tenta retomar o diálogo com a China para resolver o problema que criou de maneira gratuita.

A farsa da hidroxocloroquina e da ivermectina é um capítulo à parte desse necroprojeto. O presidente virou garoto-propaganda de uma medicação que foi descartada pela sua ineficácia no mundo inteiro, inclusive por Trump. Essa mentira virou uma política oficial do Ministério da Saúde, que chegou a recomendar o uso do medicamento para conter a tragédia em Manaus. Um aplicativo chamado TrateCov foi criado pelo governo para “auxiliar os profissionais de saúde” e sugerir “opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada” e “prescrição de medicamentos”. O ministério da Saúde anunciou a criação do aplicativo com toda pompa, afirmando que ele oferece o diagnóstico obedecendo a “rigorosos critérios clínicos“. Tudo mentira. O aplicativo foi programado para receitar cloroquina até para recém-nascidos sem sintomas de covid.

As mentiras vão se sobrepondo, junto com os cadáveres da pandemia, sem causar o menor constrangimento entre os governistas.

Desmontada a farsa, o que fez o governo? Contou novas mentiras. Com uma cara de pau própria dos psicopatas, Pazuello afirmou que o ministério jamais indicou esses medicamentos e que o aplicativo era apenas um “projeto piloto” que foiinvadido e colocado no ar por hackers. Um outro dado da realidade surgiu para atestar a ineficiência: 90% das grandes cidades que usaram o “kit covid” do governo tiveram taxa de mortalidade mais alta que a média dos seus estados. Mesmo sendo espancado pela realidade dos fatos, o governo não abandonou a sua narrativa de morte. As mentiras vão se sobrepondo, junto com os cadáveres da pandemia, sem causar o menor constrangimento entre os governistas — um traço característico dos grandes genocidas da história.

O Brasil vive sob um governo criminoso que durante a pandemia fez do atentado à saúde pública uma estratégia permanente. Isso já tinha ficado claro quando Bolsonaro foi trocando ministros da Saúde que insistiam em se fiar na ciência até encontrar um militar negacionista. Repito: empurrar seu povo para a morte é uma estratégia governista. Uma estratégia elaborada com os requintes de crueldade próprios de uma extrema-direita que tem Pinochet e Ustra como referências morais.

Assim que a palavra “impeachment” passou a rondar pela primeira vez com força no noticiário, o governo ressuscitou as ameaças golpistas. A PGR, que parece atuar quase que exclusivamente em defesa de Bolsonaro e sua família, emitiu nota afirmando que o estado de calamidade pública causada pela pandemia é “a antessala do estado de defesa”. Isso significa estado de exceção. Com ele, o Estado ficaria autorizado a impor medidas que violam os direitos do cidadão, como restrição de reuniões e a quebra de sigilo telefônico. Um dia antes dessa ameaça via PGR, Bolsonaro voltou a dizer que são as Forças Armadas que decidem se o povo vive em democracia ou ditadura. O clamor pelo impeachment fez a sanha golpista voltar com força. O Ministro da Justiça, por exemplo, começou a intimidar os críticos do governo. Ele requisitou um inquérito policial contra um advogado que responsabilizou Bolsonaro pelo alto número de mortes durante a pandemia.

Ultrapassamos a marca de 200 mil mortos por covid. Isso significa que aproximadamente um de cada mil brasileiros morreram em virtude do que Bolsonaro chama de “gripezinha”. Só o impeachment pode interromper esse projeto de destruição da democracia e da saúde pública. O impeachment virou uma questão de vida ou morte. A matemática da pandemia no Brasil agora é essa: quanto mais tempo demorar para sacarmos o presidente do poder, mais pessoas irão morrer.

01
Jan21

Moro já mentiu tanto que ninguém deve acreditar que ele não receberá pagamentos da Odebrecht

Talis Andrade

Sem provas, perseguição a Lula tem objetivo político — PT no Senado

O ex-juiz faturou politicamente com a Lava Jato ao se tornar ministro do governo de extrema direita. Agora, é mais que razoável suspeitar que irá ganhar dinheiro de empresas cujos executivos condenou

 

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MESMO COM TANTAS possibilidades de conseguir um bom trabalho na iniciativa privada, Sergio Moro decidiu virar sócio-diretor da Alvarez & Marsal, uma consultoria americana que presta serviços no Brasil para as empreiteiras Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Sete Brasil. Todas essas empresas foram arrasadas financeiramente por decisões do ex-juiz da Lava Jato. Agora, como se fosse a coisa mais normal do mundo, Sergio Moro pula para o outro lado do balcão para atuar como um empresário que ajudará empresas que ele ajudou a quebrar com sua atuação nos tribunais.

Enquanto juiz, Moro não se preocupou em poupar a engenharia nacional e os empregos do setor. Mas aliviou a barra dos empresários com generosas delações premiadas. A Odebrecht foi atropelada pelas decisões do ex-juiz, que agora é sócio-diretor da empresa que comanda a recuperação judicial da construtora. A nova empresa de Moro já faturou R$ 17,6 milhões com esse serviço prestado para a Odebrecht. O mesmo acontece com a OAS, que pagará R$ 15 milhões no total para a empresa americana. Outras empresas como Queiroz Galvão e Sete Brasil, também devassadas pela Lava Jato, contrataram a consultoria para se reestruturarem financeiramente. Ou seja, o agora empresário Sergio Moro vai faturar alto com a desgraça financeira de construtoras que foram atingidas pela caneta do ex-juiz Sergio Moro.

Como observou Reinaldo Azevedo, um dos raros jornalistas da grande imprensa sem rabo preso com o lavajatismo, em 2017 a defesa de Lula apresentou ao então juiz dois documentos que atestavam que o triplex não pertencia a Lula, mas à OAS. Essas certificações foram produzidas pela Alvarez & Marsal. Moro ignorou essas informações produzidas pela empresa da qual hoje, três anos depois, ele virou sócio.

O fato é que as sentenças do então juiz impuseram graves impactos políticos e econômicos ao país, mas não para ele em particular. Pelo contrário, Moro agora vai faturar com esses impactos. Politicamente já faturou ao se tornar ministro da Justiça e, agora, faturará economicamente.

O repórter Rafael Neves, aqui do Intercept, foi atrás da Alvarez & Marsal para perguntar sobre a remuneração do ex-juiz da Lava Jato. Nos disseram que “Moro não terá nenhum benefício financeiro, direto ou indireto, sobre projetos de outros setores da consultoria”. Mas nós só vamos acreditar nisso se olharmos o contrato de Moro com a empresa. Pedimos uma cópia. A resposta: “Por se tratar de documento particular, firmado entre empresa privada e pessoa física em esfera privada, a divulgação de palavra por palavra escrita nas cláusulas do contrato fere o direito à privacidade das informações de ambas as partes”. Conveniente, não? Neves fez o mesmo pedido a Moro, que já disse acreditar no valor da transparência. O ex-ministro fez que não era com ele. E aí? Então quer dizer que o novo sócio-diretor da Alvarez & Marsal não vai atuar nos casos mais lucrativos da empresa? Não vai colocar à disposição todo seu conhecimento adquirido no serviço público em casos de interesse da empresa? Qual é a garantia disso? A palavra de Moro? Aquela que jurou jamais entrar na política pouco tempo antes de virar ministro da Justiça do governo Bolsonaro?

Me parece óbvio que, no período em que atuou como juiz da Lava Jato, Moro teve acesso a documentos e provas envolvendo os réus que agora são seus clientes.

O Intercept já mostrou que ele mentiu sobre não ter estratégia de investigação na Lava Jato – esta reportagem deixou claro que ele coordenava e orientava o trabalho do Ministério Público, e esta outra, o da Polícia Federal.

Moro também mentiu quando disse, várias vezes, que não entraria para a política. Não só entrou como já fazia política quando ainda era juiz, inclusive se encontrando em segredo com um pré-candidato à presidência em 2018. Assim, a palavra dele – e de seu empregador – sobre sua remuneração não valem nada.

E a recusa em entregar o contrato ou mostrar a cláusula em que está expresso que ele não será remunerado pelos contratos da Alvarez & Marsal com Odebrecht, OAS, Sete Brasil e Queiroz Galvão só levanta a suspeita de que ele e a empregadora estão mentindo.

Muitos desses documentos ainda estão sob sigilo e podem resultar em novas investigações. O novo sócio-diretor da empresa, trazido a peso de ouro, não usará essas informações privilegiadas em benefício dos seus clientes? Estamos diante de, no mínimo, um flagrante caso de falta de ética. A imoralidade está dada, resta saber agora se há ilegalidades.

O Tribunal de Ética da OAB-SP parece não ter acreditado na conversa de Moro e o notificou para que não exerça advocacia na sua atual empresa de consultoria. O deputado petista Paulo Teixeira pediu à Procuradoria-Geral da República que investigue a possibilidade de crime de corrupção passiva na contratação do ex-juiz.

Se por enquanto não há nada que indique uma ilegalidade, a imoralidade é flagrante e inegável’.

A nova empresa de Moro não tem as melhores credenciais éticas do mercado. Segundo Diogo Schelp, outro raro jornalista da mídia corporativa a dar o peso devido ao caso, os consultores da Alvarez & Marsal são conhecidos no mercado pelas técnicas de vale-tudo com que buscam atingir seus objetivos. Atuar no limite da legalidade, mas não da moralidade, é uma cultura da empresa. Para o jornalista, a empresa “age dentro das regras legais, mas com muito dedo no olho, puxão de cabelo e golpes pelas costas”. Esse é o perfil dos novos colegas de trabalho do homem alçado à condição de paladino da moralidade da nação.

Um exemplo de imoralidade da Alvarez & Marsal foi a estratégia elaborada por ela para a recuperação judicial da Editora Abril. Um mês após ter contratado a consultoria para fazer uma reestruturação operacional, a editora promoveu uma demissão em massa. Mais de 800 funcionários foram para rua. Dez dias depois, a Editora Abril entrou com pedido de recuperação judicial. Isso foi feito estrategicamente antes do término do prazo para pagar as indenizações trabalhistas.

A estratégia da consultoria americana foi um sucesso: demitiu em massa e depois deu calote em massa nos demitidos — tudo dentro da lei. Segundo Schelp, que também foi uma das vítimas do calote, “executivos e diretores de redação eram recebidos com escárnio e arrogância pelos representantes da consultoria, que comemoravam abrindo garrafas de espumante quando alguém pedia demissão ou quando uma das etapas do seu plano para espremer os centavos dos funcionários demitidos era cumprida conforme o previsto”. Se levarmos em contas as credenciais éticas do então juiz Moro, que “sempre violou o sistema acusatório”, podemos dizer com tranquilidade que ele se sentirá confortável nesse novo trampo.

Era para ser um escândalo de grandes proporções, afinal de contas, o herói do combate à corrupção do país abandonou a toga para faturar alto em uma consultoria cujos principais clientes foram seus réus. Mas, para o espanto de ninguém, o lavajatismo que assola a grande imprensa fez o assunto passar apenas de forma lateral no noticiário, quase sempre de maneira acrítica. Se por enquanto não há nada que indique uma ilegalidade, a imoralidade é flagrante e inegável. Isso deveria ser o suficiente para indignar os sempre indignados colunistões da Globo, mas não.

Houve os que silenciaram e os que trataram o caso como se fosse algo corriqueiro. A irrelevância dada ao episódio é tanta que nem parece que estamos falando de alguém que colocou um ex-presidente na cadeia ignorando a Constituição, foi ministro da Justiça e é um potencial candidato à presidência da República.Pataxó - charges e caricaturas: Abril 2020

Há quem acredite que a entrada de Moro na iniciativa privada enterrou de vez a possibilidade dele vir ser candidato em 2022. Eu não a descartaria tão cedo. Pelo histórico do juiz, a possibilidade dele enriquecer por um ano na iniciativa privada e de repente surgir como candidato são enormes. Moro troca de lado no balcão como quem troca de cuecas. E, mais uma vez, ele contará com a benevolência do grosso da grande mídia para escamotear seus absurdos.

Colaborou Rafael Neves.

 

 

25
Out20

Boicote à vacina chinesa é o maior atentado de Bolsonaro contra a saúde pública

Talis Andrade

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A postura omissa de Rodrigo Maia até aqui normaliza o projeto bolsonarista de destruição do estado. A tragédia da covid terá as digitais do presidente da Câmara.

21
Jun20

O bolsonarismo está encurralado e vivendo de bravatas

Talis Andrade

 

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por João Filho

The Intercept Brasil

DEPOIS QUE O STF decidiu colocar freios no projeto bolsonarista de destruição da democracia, o golpismo do Planalto, que já vinha numa escalada, chegou ao degrau mais alto. Na manhã da última terça-feira, 16 de junho, o ministro Alexandre de Moraes determinou o cumprimento de 26 mandados de busca e apreensão e a quebra de sigilo bancário de 10 deputados e um senador bolsonaristas. À noite, Bolsonaro escreveu nas redes sociais um comunicado cifrado, repleto de mentiras delirantes, mas que deixa claro que a opção do golpe de estado está sobre a sua mesa.

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No texto, cria-se um cenário em que o conservadorismo, representado pelo bolsonarismo, está sendo brutalmente perseguido pelas forças do sistema, que foi dominado por muitos anos por governos socialistas. Inconformada com um inédito Executivo incorruptível, a velha política estaria perseguindo esses valorosos homens de bem da nação. A democracia estaria sendo destruída por essas forças de oposição, e o governo não irá mais aceitar essa situação.

Esse retalho de mentiras serviu para a fabricação de uma narrativa para justificar a ruptura democrática. As ameaças estão cada vez mais frequentes. O recado é claro: o Planalto considera que governar por vias democráticas é algo impraticável e não hesitará em resolver esse problema à sua maneira.

E não é apenas o STF que está atrapalhando o projeto autoritário do bolsonarismo. Além de trocentos pedidos de impeachment protocolados na Câmara contra o presidente, estão no encalço do bolsonarismo o MPF, o MP-RJ, o TSE e o TCU. A democracia começa a dar alguns espasmos de reação.

Mas Bolsonaro teria força para sustentar um golpe de estado? Aparentemente, não. Como bem lembrou o jornalista Reinaldo Azevedo, o que Bolsonaro fará no dia seguinte ao golpe? Irá prender os governadores e prefeitos oposicionistas? Mandará um cabo e um soldado para o STF? Fechará o Congresso?

Difícil imaginar que tudo isso se mantenha de pé. Isso isolaria ainda mais o Brasil do resto do mundo e não há certeza nem se teria o apoio de Trump, que tem feito questão de se distanciar de Bolsonaro desde o início da pandemia. E as elites? Estão dispostas a encampar essa aventura que irá inevitavelmente aprofundar ainda mais a crise econômica?  Independemente do pano que elas têm passado até agora, não me parece que estejam dispostas a perder mais dinheiro.

Apesar do histórico golpista, é difícil imaginar que esse bando de trapalhões que nos governa tenha capacidade para sustentar um golpe dessa magnitude. Será preciso bem mais que tanques e mamadeiras de piroca para segurar a reação da sociedade civil, cuja maioria é contra o bolsonarismo. A sociedade brasileira em 2020 é muito mais complexa que a de 1964. Um golpe hoje requer uma engenharia muito mais sofisticada, e sofisticação não combina com bolsonarismo.

Mesmo que não haja, aparentemente, condições materiais para sustentar um golpe, não significa que o bolsonarismo não irá tentá-lo. Embora seja incompetente, essa turma é impetuosa e aprendeu a fazer política sob a ótica do golpismo. Até os militares, que até pouco tempo atrás eram considerados a ala mais pragmática do governo (em contraste com a ala olavista), parecem ter encarnado de vez a narrativa bolsonarista. Praticamente todas as recentes declarações de seus líderes têm caráter golpista.

Sabe-se também que Bolsonaro tem grande apoio entre os militares de baixa patente das Forças Armadas – resta saber o tamanho disso. Outra adesão preocupante vem dos policiais militares. Nas últimas manifestações de rua ficou claro que as polícias militares de todo o Brasil tratam bolsonaristas de maneira especial. As ilegalidades das manifestações golpistas são ignoradas, enquanto as antifascistas foram duramente reprimidas.

Segundo o Correio Braziliense, governadores de vários estados estão preocupados com as informações de que, se os soldados da PM tiverem de escolher entre eles e Bolsonaro, ficarão com Bolsonaro. Ou seja, temos uma massa de policiais militares disposta a cometer o crime de insubordinação para apoiar a aventura golpista do presidente. O Palácio do Planalto tem mantido contatos diários com as lideranças das PMs de todo o país. Ainda segundo o Correio Braziliense, muitos desses contatos são feitos pelo “Gabinete do Ódio”, que “identificou entre os PMs uma das bases mais fiéis ao presidente”.

Há grande potencial para que o que aconteceu no Ceará, quando policiais amotinados atiraram para matar um senador da República, possa acontecer em vários estados do país caso Bolsonaro os convoque para sustentar o golpe de estado. É importante lembrar que policial que se recusa a cumprir ordens do seu governador passa automaticamente a ser um miliciano.

Logo após o comunicado golpista do presidente, Filipe Martins, assessor especial da Presidência da República, recomendou a sua leitura e escreveu de forma enigmática, como de costume:

Imediatamente, a militância e os perfis fakes mais famosos do bolsonarismo passaram a comemorar. Nas respostas ao tweet, fica claro que eles entenderam a mensagem cifrada: “tá na hora” da intervenção militar. Imediatamente começaram a subir a tag #PrisaoDoAlexandreDeMoraes para aparecer nos assuntos mais comentados do dia.

No dia seguinte, Bolsonaro daria mais pistas do que se trata o “tá na hora!” de Martins. Em conversa com apoiadores, afirmou que algo como a quebra de sigilo de parlamentares nunca havia acontecido na história da democracia. Disse também que “eles (STF) estão abusando” e que “está chegando a hora de tudo ser colocado no seu devido lugar. Está chegando a hora de nós acertarmos o Brasil no rumo da prosperidade e todos, sem exceção, entender (sic) que democracia não é o que eu quero, ou o que você quer, ou que é um poder quer. Está chegando a hora. Fiquem tranquilos”.

Na manhã seguinte à ameaça, o cerco ao bolsonarismo apertou mais um pouco. Fabrício Queiroz, o amigo de 30 anos do presidente e suspeito de comandar o esquema de desvio de verbas no gabinete do seu filho, foi preso pela polícia. Ele ficou escondido durante um ano numa casa do advogado da família Bolsonaro. Queiroz, que também manteve negociações financeiras mal explicadas com a primeira-dama, é um dos elos da família Bolsonaro com o Escritório do Crime, a milícia suspeita de matar Marielle.

Aliás, é importante lembrar que Adriano Magalhães de Nóbrega, o chefe dessa milícia – que também é amigo de longa data de Queiroz – estava escondido na casa de um vereador bolsonarista quando foi preso. Portanto, dois aliados do presidente, comprovadamente ligados ao crime organizado, se esconderam da polícia em imóveis de gente ligada à família Bolsonaro. É nesse nível de banditismo que chegamos: amigos da família do presidente suspeitos de crimes graves se escondem em casas de aliados e advogados do presidente. A prisão de Queiroz será usada para incrementar a narrativa delirante de perseguição.

O golpismo, que já estava ouriçado, chegou a um ponto de não retorno. Não dar o golpe agora, depois de tanta ameaça, seria frustrante para os bolsonaristas mais fanáticos. Chegamos a um impasse que torna uma tentativa de golpe possível: o presidente é incapaz de governar pelas vias democráticas, e a oposição não tem força suficiente para derrubá-lo. Com o apoio de homens armados dispostos a trair a Constituição e defender as loucuras do presidente, não é mais possível encarar essas ameaças como mero blefe. Acuado pelas instituições, porém fortemente armado, o bolsonarismo está decidido a aniquilar de vez a democracia. Como afirmou recentemente o filho do presidente, parece que a ruptura não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”. Resta saber se os bolsonaristas terão peito para cumprir essa ameaça. Se levarmos em conta a vergonhosa fuga de Weintraub para os EUA, arquitetada com a ajuda do presidente, não falta apenas competência para aplicar um golpe de Estado. Falta também coragem.

 

07
Mai20

No governo, Sergio Moro se mostrou um bolsonarista de quatro costados

Talis Andrade

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II - Demissão de Moro marca o divórcio entre a Lava Jato e o bolsonarismo  

por João Filho

The Intercept

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Há quem diga que Moro sai do governo maior do que entrou. Se essa leitura está levando em conta apenas a questão eleitoral, está certa. O ministro mais popular do governo saiu atirando e se colocou como um dos principais antagonistas da reeleição de Bolsonaro. Já do ponto de vista moral, o ex-ministro saiu ainda mais minúsculo. Fez uma gestão ruim, marcada essencialmente pela repressão à violência, sem grandes projetos para a segurança pública.

Na coletiva de despedida, Moro listou uma série de feitos da sua gestão, como o “recorde de destruição de plantação de maconha no Paraguai”. Depois de quase um ano e meio à frente de um ministério complexo, o ex-juiz sai se gabando por uma bobagem dessas. Como ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro foi um excelente xerifinho do interior do Paraná.

À tarde, Bolsonaro fez um discurso atacando Moro, usando um tom pessoal, um texto confuso, misturando assuntos. Se pintou como uma vítima, um homem que foi largado ferido na estrada.  Acusou-o de usar a permanência de Valeixo no cargo como moeda de troca para uma vaga no STF.  Moro apenas negou no Twitter, mas já tinha preparado um grande jogada contra Bolsonaro à noite. O ex-ministro vazou conversas que manteve com a deputada Carla Zambelli e o presidente para a Globo, que exibiu no Jornal Nacional. Em uma delas, a deputada, que é muito próxima do presidente, tenta comprar a permanência de Moro com uma vaga no STF. O ex-juiz responde “prezada, não estou a venda”. Uma frase que parece ter sido pensada já no vazamento. Pareceu tudo muito roteirizado. Um dos prints da conversa com Bolsonaro foi tirado antes mesmo do presidente visualizar a última mensagem, o que sugere que Moro já projetava o vazamento. O Jornal Nacional fez um resumo das suas realizações à frente do ministério, mas ignorou a Vaza Jato, escândalo do qual foi protagonista. Foi assim que Sergio Moro brilhou no jornal de maior audiência do país como o homem que não se corrompeu, que não se vergou diante da sanha dos poderosos. O ex-juiz não está de brincadeira no jogo político.

O heroísmo de Sergio Moro foi uma fabricação midiática. Mesmo depois da Vaza Jato, continuou sendo incensado pelo jornalismo lavajatista. Bolsonaro apanha bastante, mas Moro ainda conta com simpatia. Após o anúncio da demissão, já se via pipocar na imprensa a ideia de que o ex-ministro saiu porque, coitadinho, não aguentou mais interferências políticas de Bolsonaro. Ora, façam-me o favor! Sergio Moro sabia exatamente onde estava pisando quando topou integrar o governo de um político que fez fama atacando a democracia e exaltando a ditadura militar. Foi conivente com absolutamente todas as falas golpistas do presidente. Em fevereiro, a Polícia Federal sob o seu comando concluiu não haver indícios de que Flávio Bolsonaro cometeu os crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, mesmo havendo uma pororoca de provas. Esse é o paladino moral do bolsonarismo.

Parte da imprensa parece que já começou a encerar o piso e acender as luzes da ribalta para o herói voltar a brilhar. A Folha, por exemplo, fez questão de lembrar que ele foi “juiz da Lava Jato” ao anunciar a sua demissão.

Folha de S.Paulo
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Sergio Moro, o juiz da Lava Jato, anuncia sua demissão do governo Bolsonaro https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/sergio-moro-o-juiz-da-lava-jato-anuncia-sua-demissao-do-governo-bolsonaro.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha 

Sergio Moro, o juiz da Lava Jato, anuncia sua demissão do governo Bolsonaro - 24/04/2020 - Poder -...

Moro largou carreira de juiz federal para virar ministro e disse ter aceitado o convite de Bolsonaro por estar 'cansado de tomar bola nas costas'

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Na Globo News, Sergio Moro passou a tarde sendo exaltado pelo time de jornalistas que cobriram sua demissão. Mais de uma vez cometeram o ato falho de chamá-lo de “presidente”.

É assim que se vai construindo os monstros autoritários. Durante a coletiva, Sergio Moro surpreendeu ao elogiar os governos do PT por terem preservado a autonomia da PF. A declaração parece inusitada, mas há cálculo eleitoral embutido nela. Moro está se oferecendo ao público uma alternativa moderada (e de direita) a Bolsonaro. Depois da demissão, o juiz que não queria virar político acabou virando um potencial candidato à presidência da República. Se depender da generosidade costumeira da imprensa lavajatista, já está eleito.

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