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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

27
Abr22

Benett sempre nota + que 10 e além do traço

Talis Andrade

 

A charge, que virou um gênero jornalístico, teve início na Europa, no século XIX, e chegamos a craques como Alberto Benett, no Plural e na Folha de S.Paulo

17
Abr22

A Paixão

Talis Andrade

 

Gosto de perguntar a meus alunos por que a sexta feira santa é chamada de a Paixão de Cristo

 

17
Abr22

Papa lava os pés a doze detentos: Deus perdoa sempre!

Talis Andrade

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por Vatican News

Francisco foi a uma prisão no litoral romano e realizou o rito do lava-pés a nove homens e três mulheres, de diferentes idades e nacionalidades. Como normalmente faz nesta ocasião, proferiu sua homilia sem um texto pré-preparado e falou da "simplicidade" do gesto de Jesus: "Que belo seria se isso pudesse ser feito todos os dias e a todas as pessoas".

O Papa Francisco foi a Civitavecchia, nas proximidades de Roma, para celebrar a Santa Missa "in Coena Domini" com as pessoas detidas no Novo Complexo Penitenciário.

Chegando antes das 16 horas, acolhido pelas autoridades prisionais, o Papa presidiu à Missa na Capela da prisão. Além de alguns reclusos, havia uma representação dos agentes e funcionários e algumas autoridades, incluindo a Ministra da Justiça da Itália, Marta Cartabia.

 

Servir com gratuidade, sem interesse

 

Durante a liturgia, o Papa fez a sua homilia sem um texto preparado, comentando o significado do lava-pés, "uma coisa estranha" neste mundo: "Jesus lava os pés do traidor, aquele que o vende". E acrescentou: "Jesus ensina-nos isto, simplesmente: vocês devem lavar os pés uns aos outros [...] um serve o outro, sem interesse: como seria belo se fosse possível fazer isto todos os dias e a todas as pessoas".

O Papa lamentou que muitos de nossos gestos são realizados por interesse. “Ao invés, é importante fazer tudo sem interesse: um serve o outro, um é irmão do outro, um ajuda o outro, um corrige o outro e assim deveria ser feito. E depois, ao traidor, o chama de “amigo” e o espera até ao fim: perdoa tudo. Isso gostaria de colocar hoje no coração de todos nós, inclusive do meu: Deus perdoa tudo e Deus perdoa sempre! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão." Ele nos pede somente a nossa confiança.

 

Servir e ajudar

 

Cada um de nós, disse ainda Francisco, "tem algo que está nos nossos corações há muito tempo, mas peçam perdão a Jesus". 

E sugeriu uma oração: “Senhor, perdoa-me. Eu tentarei servir os outros, mas Tu serves a mim com o Teu perdão”.

“Este é o pensamento que gostaria de deixar: servir e nos ajudar.”

O Papa conclui anunciando que repetirá o gesto feito por Jesus. “Eu o farei de coração, porque nós sacerdotes deveríamos ser os primeiros a servir os outros, não explorar os outros. O clericalismo às vezes nos leva para este caminho. Mas devemos servir.”

E recordou que "há um Senhor que julga, mas é um julgamento estranho: o Senhor julga e perdoa". E concluiu exortando as pessoas a prosseguirem com a celebração, com "o desejo de servir e perdoar uns aos outros".

 

O gesto de Jesus

 

Depois da homilia, como é costume, o Papa Francisco repetiu o gesto de Jesus durante a Última Ceia, quando o Senhor lavou os pés dos seus discípulos como sinal de amor radical até ao ponto do serviço e da humilhação. Foram 12 reclusos, homens e mulheres, incluindo pessoas de diferentes idades e nacionalidades.

No final da missa, o diretor da prisão agradeceu ao Santo Padre e ofereceu-lhe uma estampa do antigo porto de Civitavecchia, alguns produtos do jardim cultivados pelos detentos e algumas obras feitas pelos funcionários e prisioneiros.

Após a celebração, o Papa  saudou brevemente cerca de cinquenta pessoas representando os detentos, oficiais e funcionários da prisão. Antes de anoitecer, voltou para a Casa Santa Marta.

26
Dez21

Papa: a esperança é mais forte que as dificuldades, pois um Menino nasceu para nós

Talis Andrade

 

Diante das tantas crises, tragédias esquecidas e sofrimentos ao redor do mundo, em sua Mensagem de de Natal Francisco diz que "a esperança é mais forte, porque «um menino nasceu para nós»". Que a seu exemplo, aprendamos a escutar-nos e a dialogar, e a caminhar com Cristo pelas sendas da paz!

“O Verbo fez-Se carne para dialogar conosco. Deus não quer construir um monólogo, mas um diálogo. Pois o próprio Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, é diálogo, comunhão eterna e infinita de amor e de vida.”

Diálogo é a palavra a partir da qual o Pontífice desenvolve sua Mensagem de Natal dirigida à cidade e ao mundo, pronunciada da sacada central da Basílica de São Pedro em um 25 de dezembro chuvoso, o que não impediu a presença de milhares de peregrinos e turistas de várias partes do mundo na Praça São Pedro, na observância das novas medidas, mais restritivas, para conter a propagação da Covid-19.  

Depois da Mensagem de Natal o Papa rezou o Angelus, seguido pelo anúncio da concessão da Indulgência Plenária pelo cardeal protodiácono Renato Raffaele Martino, que então passou novamente a palavra ao Santo Padre para a Bênção, extensiva também a todos que acompanhavam pelos meios de comunicação.

O sinal da transmissão estava disponível em seis satélites e a Mensagem com a Bênção Urbi et Orbi foi transmitida em Mundovisão por cerca de 170 redes de televisão. A mídia vaticana também ofereceu serviço de tradução na língua dos sinais (LIS). Já o Vatican News ofereceu transmissões em sete línguas: português, espanhol, italiano, inglês, francês, alemão e árabe.  

 

Diálogo, única solução para conflitos

 

“Quando veio ao mundo, na pessoa do Verbo encarnado, Deus mostrou-nos o caminho do encontro e do diálogo” e “como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades?”, pergunta o Papa, observando que a pandemia deixou isso muito claro ao afetar as relações sociais, aumentar “a tendência para fechar-se, arranjar-se sozinho, renunciar a sair, a encontrar-se, a fazer as coisas juntos”. E a nível internacional, a complexidade da crise pode “induzir a optar por atalhos”, mas só o diálogo conduz “à solução dos conflitos e a benefícios partilhados e duradouros”.

 

As tragédias esquecidas

 

E ao lançar seu olhar para o panorama internacional, Francisco observou que contemporaneamente ao “anúncio do nascimento do Salvador, fonte da verdadeira paz, “vemos ainda tantos conflitos, crises e contradições. Parecem não ter fim, e já quase não os notamos”.

 

De tal maneira nos habituamos, que há tragédias imensas das quais já nem se fala; corremos o risco de não ouvir o grito de dor e desespero de tantos irmãos e irmãs nossos.”

 

Oriente Médio e Afeganistão

 

E dentre as tragédias esquecidas por todos, o sofrimento das populações da Síria, Iraque, Iêmen, em particular das crianças. Mas também o conflito entre israelenses e palestinos, “com consequências sociais e políticas cada vez mais graves”.

Belém, “lugar onde Jesus viu a luz”, vive tempos difíceis “pelas dificuldades econômicas devidas à pandemia que impede os peregrinos de chegarem à Terra Santa, com consequências negativas na vida da população”. Crise sem precedentes que atinge também o Líbano. Mas no coração da noite, surgiu um sinal de esperança. E neste dia de festa pedimos ao Menino Jesus, “a força de nos abrirmos ao diálogo”, implorando a Ele “que suscite, no coração de todos, anseios de reconciliação e fraternidade.

Menino Jesus, dai paz e concórdia ao Médio Oriente e ao mundo inteiro. Amparai a quantos se encontram empenhados em prestar assistência humanitária às populações forçadas a fugir da sua pátria; confortai o povo afegão que, há mais de quarenta anos, está submetido a dura prova por conflitos que impeliram muitos a deixar o país.”

 

Myanmar e Ucrânia

 

Ao Rei dos Povos, o Papa pede que ajude as autoridades políticas a  pacificar “as sociedades abaladas por tensões e contrastes”, em particular Myanmar, “onde intolerância e violência se abatem, não raro, também sobre a comunidade cristã e os locais de culto, e turbam o rosto pacífico daquela população.” Mas também “luz e amparo” para quem acredita e trabalha em prol do encontro e do diálogo na Ucrânia e não permitir que "metástases dum conflito gangrenado" se espalhem pelo país.

 

África

 

O Santo Padre volta então seu olhar para os países africanos atribulados por conflitos, divisões, desemprego, desigualdades econômicas, pedindo ao Príncipe da Paz pela Etiópia para que descubra o caminho da paz e da reconciliação e para que ouça o clamor “das populações da região do Sahel, que sofrem a violência do terrorismo internacional”, bem como pelas vítimas dos conflitos internos no Sudão e Sudão do Sul.

 

América

 

Para as populações do continente americano Francisco pede que “prevaleçam os valores da solidariedade, reconciliação e convivência pacífica, através do diálogo, do respeito mútuo e do reconhecimento dos direitos e valores culturais de todos os seres humanos.”

 

26
Dez21

Papa no Angelus: para preservar a harmonia na família devemos combater a ditadura do eu

Talis Andrade

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Não nascemos magicamente, com uma varinha mágica, mas em uma família e o que somos hoje como pessoa é fruto do amor que recebemos em seu seio. Devemos conhecer a própria história e nossas raízes, para a vida não se tornar árida. E agradecer a Deus pela família que temos, disse o Papa Francisco no Angelus deste domingo, quando deu várias indicações para superar os conflitos e manter a harmonia familiar.

 

por Jackson Erpen

Rezar juntos diariamente para pedir a Deus o dom da paz, escuta e compreensão recíproca para superar conflitos e dificuldades, converter-se do eu ao tu, nunca ir dormir sem ter feito as pazes. Afinal, é no dia a dia que se aprende a ser família, nela estão as nossas raízes e o que somos hoje como pessoa, é fruto do amor que dela recebemos.

É de conselhos práticos que se articula a reflexão do Papa antes de rezar o Angelus neste domingo, 26 de dezembro, em que a Igreja festeja a Sagrada família que, não é aquela dos santinhos, como observou Francisco, mas uma família que também enfrentou “problemas inesperados, angústias, sofrimentos”.

 

Conhecer e preservar as raízes de onde viemos

 

E o Papa mergulha precisamente naquele contexto familiar para sublinhar aos fiéis e turistas presentes na Praça São Pedro em um domingo de tempo instável um primeiro aspecto concreto para nossa família: “a família é a história da qual viemos”:

Cada um de nós tem sua própria história, ninguém nasceu magicamente, com uma varinha mágica, cada um de nós tem uma história e a família é a história de onde viemos.”

Jesus – começou explicando – “é filho de uma história familiar”. Viajou para Jerusalém com seus pais para a Páscoa e seu sumiço provocou grande preocupação em Maria e José:

É belo ver Jesus inserido no laço dos afetos familiares, que nasce e cresce no abraço e na preocupação dos pais. Isso também é importante para nós: viemos de uma história entrelaçada por laços de amor e a pessoa que somos hoje não nasce tanto dos bens materiais que desfrutamos, mas do amor que recebemos, do amor no seio da família. Talvez não tenhamos nascido em uma família excepcional e sem problemas, mas é a nossa história - cada um deve pensar: é a minha história -, são as nossas raízes: se as cortarmos, a vida torna-se árida. E devemos pensar nisso, na própria história!

 

"Ser família" envolve aprendizado diário

 

Deus – disse o Santo Padre - não nos criou para sermos comandantes solitários, mas para caminharmos juntos, e devemos agradecer a Ele e rezar por nossas famílias:

Deus pensa em nós e nos quer juntos: agradecidos, unidos, capazes de preservar as raízes.”

O Papa destaca então um segundo aspecto concreto para nossas famílias: “aprende-se a ser família a cada dia”. E volta seu olhar novamente à realidade da Sagrada Família onde nem tudo é perfeito, “existem problemas inesperados, angústias, sofrimentos”:

Não existe uma Sagrada Família dos santinhos. Maria e José perdem Jesus e angustiados o procuram, para encontrá-lo três dias mais tarde. E quando, sentado entre os mestres do Templo, ele responde que deve cuidar das coisas de seu Pai, eles não entendem. Eles têm necessidade de tempo para aprender a conhecer seu filho. O mesmo vale para nós: a cada dia, em família, é preciso aprender a ouvir e a compreender-se, a caminhar juntos, a enfrentar os conflitos e as dificuldades. É o desafio diário, que é superado com a atitude correta, com as pequenas atenções, com gestos simples, cuidando os detalhes das nossas relações. E isso também nos ajuda muito a conversar em família, conversar à mesa, o diálogo entre pais e filhos, o diálogo entre os irmãos, nos ajuda a viver essa raiz familiar que vem dos avós, o diálogo com os avós.

 

Antes o "tu", depois o "eu"

 

E como então se faz isto? - pergunta Francisco - convidando a olhar para Maria que no

Evangelho de hoje diz a Jesus: «Teu pai e eu estávamos a tua procura»:

Teu pai e eu, não diz eu e teu pai: antes do eu existe o tu (...). Na Sagrada Família, antes o tu e depois o eu. Para preservar a harmonia na família, é preciso combater a ditadura do eu. Quando o eu se infla. É perigoso quando, em vez de nos ouvirmos, jogamos os erros na cara; quando, em vez de termos gestos de cuidado para com os outros, nos fixamos em nossas necessidades; quando, em vez de dialogar, nos isolamos com o celular - é triste ver no almoço uma família, cada um com o seu celular, sem se falar, cada um fala com o celular -; quando nos acusamos mutuamente, sempre repetindo as mesmas frases, encenando uma comédia já vista onde cada um quer ter razão e no final impera um silêncio frio.”

 

Família, nosso tesouro

 

Então, de Francisco, um conselho já dado em tantas outras oportunidades quer aos casais, como à vida em família: nunca ir dormir sem antes ter feito as pazes, caso contrário, no dia seguinte haverá uma “guerra fria”, e esta é perigosa porque dará início a uma história de repreensões, de ressentimentos:

Quantas vezes, infelizmente, entre as paredes de casa, dos silêncios muito longos e de egoísmos não tratados, nascem e crescem conflitos! Às vezes, chega-se até mesmo a violências físicas e morais. Isso dilacera a harmonia e mata a família. Convertamo-nos do eu ao tu. O que deve ser mais importante na família é o tu. E a cada dia, por favor, rezem um pouco juntos, se puderem façam um esforço, para pedir a Deus o dom da paz em família. E vamos todos nos comprometer - pais, filhos, Igreja, sociedade civil - a apoiar, defender e proteger a família, que é o nosso tesouro!”

Que a Virgem Maria, esposa de José e mãe de Jesus – pediu ao concluir - proteja as nossas famílias.

21
Dez21

Natal: os Herodes de ontem e de hoje e a Divina Criança (vídeos)

Talis Andrade

www.brasil247.com -

 

"Os Herodes se perpetuam na história. Entre nós temos um que não ama a vida"

 

Por Leonardo Boff

Os ancestrais relatos sobre o “Divus Puer”(a Criança Divina) ganham sempre novas significações consoante a mudança dos tempos e dos contextos históricos. Nós os lemos e interpretamos com os olhos de hoje, no quadro de uma situação sombria, marcada pela morte de milhões do mundo inteiro e de milhares entre nós sob o ataque traiçoeiro de um vírus letal. Descobrimos similitudes e poucas diferenças entre o Natal de outrora e de hoje. Na verdade, numa leitura simbólica, temos a ver com algo que afeta a todos os humanos. 

De um lado, temos José e Maria, sua esposa, grávida de nove meses. Eles vem de Nazaré, do norte da Palestina para o sul, em Belém. São pobres como a maioria dos artesãos e camponeses mediterrâneos. Às portas de Belém, Maria entra em trabalho de parto: segura a barriga pois a longa caminhada acelerou o processo. Batem à porta de uma hospedaria. Ouvem o que os pobres na história sempre ouvem: ”não tem lugar para vocês na hospedaria”(Lc 2,7). 

Abaixam a cabeça e se afastam preocupados. Como ela vai dar à luz? Sobrou-lhes, na vizinhança, uma estrebaria de animais. Aí há uma manjedoura com palhas, um boi e um jumento que, estranhamente, permanecem quietos, observando. Ela dá a luz a um menino entre os animais. Faz frio. Ela o envolve com panos e ajeita-o nas palhinhas. Choraminga alto como todos os recém nascidos.

Há pastores que velam à noite, vigiando o rebanho. São considerados impuros e por isso desprezados, por estarem sempre às voltas com os animais e seus excrementos. Surpreendentemente, uma luz os envolveu e escutaram do Alto uma voz lhes anunciando: "não temais anuncio-vos uma grande alegria que é para todo o povo; acaba de nascer o Salvador; este é o sinal: encontrareis um menino envolto em panos, deitado numa manjedoura”. Ao porem-se, pressurosos, a caminho ouviram um cântico mavioso, de muitas vozes, vindo do Alto: ”Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens por Deus amados”(Lc 2,8-18). Chegam e se confirmou tudo o que lhes fora comunicado: aí está um menino, tiritando, enfaixado em panos e deitado na manjedoura, em companhia de animais.

Algum tempo depois, eis que vem descendo o caminho, três sábios do Oriente. Sabiam interpretar as estrelas. Chegam. Extasiam-se pela misteriosidade da situação. Identificam no menino aquele que iria sanar a existência humana ferida. Inclinam-se, reverentes, e deixam presentes simbólicos. Com o coração leve e maravilhados, tomam o caminho de volta, evitando a cidade de Jerusalém, pois aí reinava uma pessoa terrivelmente belicosa.

Lição: Deus entrou no mundo, na calada da noite, sem que ninguém o soubesse. Não há pompa nem glória, que imaginaríamos adequadas a um menino que é Deus. Mas preferiu vir fora da cidade, entre animais. Não constou na crônica da época, nem em Jerusalém, muito menos em Roma. No entanto, aí está Aquele que o universo estava gestando dentro de si há bilhões de anos, aquela “luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,10). 

Devemos respeitar e amar a forma como Deus quis entrar neste mundo: anônimo como anônimos são as grandes maiorias pobres e menosprezadas da humanidade. Quis começar lá embaixo para não deixar ninguém de fora. A situação humilhada e ofendida deles foi aquela que o próprio Deus quis fazer sua.

Mas há também sábios e homens estudiosos das estrelas do universo e que captam atrás das aparências o mistério de todas as coisas. Entrevem neste menino de corpinho tiritante, que molha os paninhos, choraminga e busca, faminto, o seio da mãe, o Sentido Supremo de nossa caminhada e do próprio universo.Para eles é também Natal.

É verdade o que se conta por aí: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”.

Esse é um lado alvissareiro: um raio de luz no meio da noite escura. Um pouco de luz tem mais direito que todas as trevas. Daí nos vem o salvamento, uma revolução dentro da evolução que, de forma antecipada, chegou à sua plenitude. Enfim...

Mas há o outro lado, sombrio e também trágico. Há um Herodes que se sente ameaçado em seu poder de soberano pela presença deste menino. José, atento, logo se dá conta: ele quer mandar matar o menino. Foge para o Egito com Maria e o menino ao colo que dorme, busca o seio e volta a dormir.

Herodes é sanguinário. Por segurança mandou matar todas as crianças de Belém e arredores de dois anos para baixo. Assim não escaparia o menino Jesus. Então se ouviu um dos lamentos mais comoventes de todas as Escrituras: ”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos assassinados e não quer ser consolada porque os perdeu para sempre” (Mt 2,18).

Os Herodes se perpetuam na história. Entre nós temos um que não ama a vida, que zomba do vírus letal, que não se compadece das lágrimas e choros de milhares de famílias que perderam filhos, irmãos, parentes e amigos. Não se sentem consoladas enquanto não se fizer justiça. Nega proteção vacinal a crianças e a jovens entre 5 a 11 anos. Elas podem ser contaminadas, contaminar e até morrer. Não quer porque não quer, na contramão da ciência e dos países que estão vacinando suas crianças. Acostumou-se ao negacionismo, parecendo ter feito um pacto com o vírus. Ouvem-se vozes de pais e de avós, vindas de todos os lados: ”quero a vida de meus filhos e filhas; quero que os vacinem; quero que vacinem meus netos e netas”.

Como o faraó, endureceu seu coração e alimenta o propósito do Herodes do tempo do Menino. Mas haverá sempre uma estrela, como a de Belém, a iluminar nossos caminhos. Por mais perverso que seja o nosso Herodes não pode impedir que o sol nasça cada manhã nos trazendo esperança, aquele que foi chamado “O Sol da Esperança”.

Essa alegria é inaudita: a nossa humanidade, fraca e mortal, a partir do Natal começou a pertencer ao próprio Deus. Por isso algo nosso já foi eternizado pelo Divino Menino que nos garante que os Herodes da morte jamais triunfarão. Feliz Natal a todos com muita luz e discreta alegria.

 

 

 

27
Nov21

Pobre, sem-teto e negro

Talis Andrade

Jesus Negro, Pintura por Simone Tolentino | Artmajeur

Jesus negro por Simone Tolentino

por Pedro Maciel

- - -

Estive no centro da cidade recentemente e pude testemunhar a urgência de atenção àqueles que, por diversas razões, vivem na rua e dormem sob as marquises dos CORREIOS, dos prédios residenciais e comerciais, expondo-se a riscos. Observei que muitos deles, talvez a maioria, eram pretos ou pardos. Mais um exemplo da injustiça que se impõe aos pretos.

Não é meu lugar de fala, conceito que tem permeado as discussões e debates atuais quando se refere a minorias e experiências sociais. Essencialmente, refere-se à autoridade que uma pessoa possui para falar sobre a sua situação social enquanto pertencente a um grupo minoritário, seja étnico, de gênero, religioso, político etc. Não sou preto, portanto, não tenho autoridade para falar sobre racismo, mas, posso me solidarizar, apoiar e afirmar a urgência de uma cultura antirracista. Efeitos do racismo. De acordo com o IBGE, os negros e pardos representam a maioria da população brasileira – cerca de 54% da população total do país. Mas, os negros são apenas 17,4% da população mais rica do país e atuam apenas em cerca de 18% dos cargos mais importantes. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros; na classe de rendimento mais elevado, apenas 11,9% de cargos gerenciais eram ocupados por pretos ou pardos; os dados do TSE revelam que nas eleições de 2016, os candidatos negros eleitos foram 29,11% dos prefeitos, contra 70,29% dos candidatos brancos e no Brasil 80% das vítimas por mortes violentas são jovens pretas e pretos.Triste realidade do Brasil. Mas sempre me pergunto: como é possível isso acontecer num país como o Brasil, um país majoritariamente cristão, sendo que Jesus Cristo era um homem negro? Isso mesmo, apesar de Jesus no nosso imaginário e o representado em quadros, filmes e novelas ser branco, loiro e de olhos claros, Ele na verdade era, no mínimo, um homem não-branco.

A imagem de Cristo como um homem branco, tem a ver com a necessidade de o europeu justificar e legitimar a colonização cruel que patrocinou e que assassinou milhões de ameríndios, que sequestrou e escravizou negros africanos, além das outras tantas formas de injustiça verificáveis na História. 

Afirmar que Jesus é branco coloca, de forma subliminar, o homem branco como superior às demais etnias; aceitar essa mentira é desconsiderar a história, a arqueologia, a geografia e a própria Bíblia.

Desconsiderar a negritude de Jesus, sua condição social, sua família, a relação com seus amigos e as tensões políticas e religiosas nos territórios que ele vivia e pelos quais passava é um erro, pois, se tudo isso não for levado em consideração, sua mensagem se esvazia.

Jesus escolheu o contexto que encarnaria e escolheu encarnar negro, ou não-branco, como um homem pobre, em uma família pobre, andarilho, sem-teto, um homem negro e indisciplinado aos olhos do sistema religioso e político do seu tempo.Se você é racista, creia, você não pode afirmar-se cristão; se você não vê, ou não se incomoda com os pobres e suas famílias, com os desempregados, com os desalentados, você não pode afirmar-se cristão; se você não se incomoda com andarilhos, com os sem-teto e com os sem-terra você não pode afirmar-se cristão.

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Nossa Senhora Aparecida

Mas o que devemos fazer? Podemos começar reconhecendo que Cristo foi um homem negro, ou não branco, que somos todos racistas, que fomos criados numa sociedade racista e mentirosa e que podemos, como antirracistas, usar a linguagem para libertar, exatamente como Jesus fazia.

Partindo da premissa de que para que algo possa ter significado é preciso que apareça dentro de uma relação com outros objetos em um determinado estado de coisas, devemos deixar de usar algumas expressões de conteúdo racista; pois, mais de 300 anos de passado escravista não se apagam facilmente e podemos reconhecer que “palavras” dizem muito sobre a história e a cultura de uma sociedade.  Estamos reproduzindo e banalizando o racismo quando usamos expressões como “mulata” (na língua espanhola, referia-se ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua; a enorme carga pejorativa é ainda maior quando se diz “mulata tipo exportação”, visão do corpo da mulher negra como mercadoria); “a coisa tá preta”; cor de pele”, “doméstica”, a dar com pau” (expressão originada nos navios negreiros. Muitos dos capturados preferiam morrer a serem escravizados e faziam greve de fome na travessia entre o continente africano e o Brasil. Para obrigá-los a se alimentar, um “pau de comer” foi criado para jogar angu, sopa e outras comidas pela boca), “Meia tigela”“Cor do pecado” (utilizada como elogio, se associa ao imaginário da mulher negra sensualizada; a ideia de pecado também é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião, como a brasileira); Samba do crioulo doido” (expressão debochada, que significa confusão ou trapalhada, reafirma um estereótipo e a discriminação aos negros); “Ter um pé na cozinha” (forma racista de falar de uma pessoa com origem negra); “moreno(a)”(racistas acreditam que chamar alguém de negro é ofensivo. Falar de outra forma, como “morena” ou “mulata”, embranquecendo a pessoa, “amenizaria” o “incômodo”), segue a mesma lógica a expressão “negro(a) de traços finos”; “cabelo ruim”“não sou tuas negas”“denegrir” (sinônimo de difamar, possui na raiz o significado de “tornar negro”, como algo maldoso e ofensivo, “manchando” uma reputação antes “limpa”); “A coisa tá preta”; “Serviço de preto”.  Existem ainda aquelas expressões que são utilizadas com tanta naturalidade que muita gente sequer percebe a conotação negativa que tem para o negro. Por exemplo: “Mercado negro”, “magia negra”, “lista negra” e “ovelha negra”.

Não podemos mais invisibilizar a realidade e as coisas das injustiças.

Essas são as reflexões.

Foto Rovena Rosa/Agência Brasil
23
Nov21

Cristo sem teto

Talis Andrade

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O Papa Francisco presenteou a Arquidiocese do Rio de Janeiro com essa estátua chamada "Cristo Sem-Teto", exposta em frente à Catedral. Existem alguns exemplares dessa obra espalhadas pelo mundo, inclusive no Vaticano. Segundo o IPEA, o Brasil tem cerca de 101 mil moradores de rua, e 78% deles já sofreram ataques nas ruas.
15
Nov21

Mensagem do Papa aos pobres: “Entre vocês estão os santos escondidos"

Talis Andrade

 

 

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São Francisco

Mensagem do Papa Francisco por ocasião do 5° Dia Mundial dos Pobres

 

por Vatican News

A organização "Fratello" organizou meia hora de oração mundial em resposta ao paelo de fraternidade lançado pelo Santo Padre em Assis. Na ocasião o Papa fez uma saudação a todos os pobres:

“Como estou feliz por estar com vocês neste dia! Sinto-me muito próximo de todos; quero lembrar a cada um de vocês o quanto Deus nos ama, e o quanto Deus os ama. Sei que muitos de vocês estão passando por situações difíceis, muito difíceis, dolorosas e às vezes insuportáveis (…). Muitos de vocês estão sofrendo na prisão, nas favelas, em uma cama de hospital, nos bairros mais pobres, abandonados, isolados, e às vezes até sofrendo uma guerra, que não buscaram, que é imposta a vocês.  Alguns de vocês hoje não têm mais nada, não sabem se vão comer hoje à noite e onde vão dormir”.

Em seguida proferiu palavras de conforto: “É por isso que peço a Maria, que acolheu plenamente o Espírito Santo, que nos dê agora um pouco de paz, para nos proteger sob seu grande manto de ternura”.

Jesus veio pelos pobres

"A palavra ‘pobre’ - disse o Papa - pode escandalizar algumas pessoas. Mas vendo vocês, quero gritar ao mundo que a Igreja tem a Boa Nova: Jesus precisa de vocês para salvar o mundo, ele veio por nós pobres, os pequenos, os doentes, os feridos da vida, os amargurados, para nos encher com seu amor. Se nos reconhecemos como pobres, reconhecemos uma carência, então Deus pode cobrir essa carência”.

Tesouros da Igreja

O Papa recordou também que o Evangelho nos convida constantemente a sermos pobres: "É  mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que para um homem rico entrar no reino dos céus", e Jesus também nos diz: "Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes! ". Assim como: "Quem acolhe este pequeno, este pobre, em meu nome, acolhe a mim". É por isso, disse o Papa que dizemos que “os pobres são o tesouro da Igreja”. 

“Abençoados sejam os pobres! Esta é a primeira bem-aventurança. Tornar-se pobre de coração é um convite radical a nos despojarmos do que temos, ou do que pensamos ter, de nosso pecado, para deixar Deus vir e nos encher de seu amor. Que o Senhor nos ajude a nos tornarmos muito pequenos, para que Ele seja grande em nós, grande!”. “Vinde, Espírito Santo! Sabemos que o que Deus escondeu dos sábios e dos espertos, Ele revelou aos pequenos. Mostre-nos sua presença doce e alegre. Amém”.

Depois da prece o Papa Francisco pede perdão:

“Peço seu perdão em nome de todos os cristãos que o magoaram, ignoraram e humilharam. Cada homem e cada mulher é o templo de Deus, você é o templo de Deus, você é o tesouro da Igreja. Seu lugar não é na porta das igrejas, mas no coração da Igreja. Saiba que você é o favorito de Deus. Entre vocês estão os santos escondidos”

E por fim o Papa concluiu:

“Eu os encorajo a amar Jesus cada vez mais, a adorá-Lo, Aquele que se faz tão pobre na Eucaristia, a rezar a Ele. Deem-lhe um lugar confortável, o melhor lugar, no estábulo de seus corações, para que ele possa nascer neles. Ser testemunhas de seu amor no mundo”.

13
Set21

Perigo do apoio de parte dos militares e da PM

Talis Andrade

 

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Lafa no Twitter
 
Ignorância Times - Quadrinhos
Reinaldo Azevedo
Os golpistas se dizem cristãos. A foto abaixo, de um deles, ilustra esse cristianismo. E vamos à semiótica. Veja a foto do “Mito” que foi escolhida. Do cabelo à sombra no rosto que sugere um bigodinho, parece que se busca uma associação de personagens, não? Cristo andava armado?
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Reinaldo Azevedo (@reinaldoazevedo): Acostuma-te à lama que te espera, Mito!

Hildegard Angel
Mérito de Lava Jato, Moro, José Serra, tucanato em geral, jornalistas lesa pátria, mídia corporativa, Temer, Pedro Parente. Todos merecem o banco dos réus por alta traição à Pátria brasileira.Image

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talisandrade
Queiroz assassino e parceiro miliciano de Adriano da Nóbrega que virou arquivo morto.
Juliana Dal Piva
Fabrício Queiroz tietado no RJ nas manifestações antidemocráticas de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Na conta dele entraram mais de de R$ 2 milhões de um grupo de 11 assessores de @FlavioBolsonaro.
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A questão nunca foi o tamanho das manifestações golpistas, mas a reação das instituições. Não dá pra minimizar o perigo. São loucos, estão descolados da realidade, mas tem apoio de ao menos parte dos militares e da PM.Image

Charge Falada entrevista LafaAlmanaque Virtual - Cultura em Movimento

Os apresentadores do podcast Charge Falada, Miguel Paiva e Renato Aroeira, entrevistaram na última semana o chargista Daniel Lafayette, o Lafa, cuja trajetória confirma a inesgotável criatividade que garante o permanente surgimento de novos cartunistas.

O artista começou publicando em um jornal de bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 1995, passando depois a desenhar tirinhas no Jornal do Brasil e na revista MAD. Ainda lançou uma coletânea pelo extinto selo Barba Negra da Editora Leya, chamado Ultralafa. 

O reconhecimento de seu talento mereceu prêmios no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e no Salão Carioca de Humor.

Lafa, com sua modéstia, prefere não ressaltar esses prêmios. Exagero da parte dele. Ele merece todos os reconhecimentos. É desenho de primeira com ideias fantásticas

Sobre a motivação de publicar diariamente suas charges nas redes sociais, diz que foi um tiro no pé [o governo] atentar contra a cultura do País, pois mexeu com os chargistas e colocou a categoria mais mobilizada.

“O que não tem a menor graça nesse momento é esta coisa de não poder falar dos militares. Por quê?”, pergunta o convidado.

Miguel e Aroeira atestam que os cartuns de Lafa são, além de tudo, logomarcas, logotipos de humor de grudar nos olhos. Sintéticos e sofisticados como devem ser os desenhos de humor.

O Charge Falada é apresentado por Renato Aroeira e Miguel Paiva, do 247, e produzido pela Rádio GARAGEMImageDaniel Lafayette lança livro de tiras em quadrinhos na La Cucaracha, em  Ipanema - Jornal O Globo

Almanaque Virtual entrevista Daniel LaFayette

por Bruno Rios Evangelista

Daniel LaFayette. Nem digo que é para guardar este nome, pois inevitavelmente você ouvirá falar dele. Embora não seja exatamente um novato (está na ativa desde 1997), este cartunista carioca vem chamando a atenção de fãs e de consagrados quadrinistas com suas divertidas tiras. Daniel foi colaborador da revista independente Tarja Preta e trabalhou no Jornal do Brasil entre 2005 e 2007. Em 2009, juntamente com os cartunistas Tiago El CerdoStêvz e Eduardo Arruda lançou o álbumBeleléu, e a editora Leya/Barba Negra lançou o livro Ultralafa (176 páginas), compilação das melhores tiras publicada no blog do autor.

Almanaque Virtual - Vamos começar com sua biografia: quando começou o seu interesse por quadrinhos? Como foram os "primeiros passos" de sua carreira?
Daniel LaFayette - Comecei publicando num jornal de bairro de Jacarepaguá acho que em 1997. Naquela época não tinha tantas referências e acabava meio que copiando o estilo de alguns caras, tais como Matt Groening, Angeli e Henfil.

AV - Por favor, fale sobre suas maiores influências, sejam elas oriundas do mundo das HQs ou não.
DL - Difícil falar. Ao citar alguns nomes a gente sempre acaba esquecendo de outros tão importantes quanto. Mas tive muita influência de animadores como John Kricfaluzi (Ren & Stimpy), Matt Groening (Os Simpsons) e Mike Judge (Beavis & Butt-head) além dos clássicos da Warner e Hanna-Barbera. Cartunistas que me influenciaram são muitos. Devo citar ao menos Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai e Allan Sieber. Mas são muitos, muitos mais.

AV - O seu primeiro álbum solo pela Leya/Barba Negra. Como surgiu?
DL - Eu já sondava o Lobo (fundador da Barba Negra) desde que ele trabalhava em outra editora. A recíproca também é verdadeira pois já faz tempo que ele também me mostra interesse pelo projeto. Até que a idéia enfim amadureceu o suficiente para sair das mesas de bar e ir parar nas gráficas.

AV. Você publicou em revistas independentes como a Tarja Preta e a Beleléu, mas também trabalhou durante dois anos no Jornal do Brasil. A seu ver, qual a dirença entre aqueles trabalhos mais "underground" e o conteúdo criado para a grande imprensa? Existe a necessidade de "suavizar" o material?
DL - Olha, enquanto trabalhei pro Jornal do Brasil eu fiz o que me dava na telha. Quando fui entrevistado pelo Ziraldo para ver se conseguia a vaga, ele viu meus desenhos e disse pra que eu tomasse cuidado com essa coisa de criticar religião e isso talvez tenha ficado na minha cabeça porque, pensando agora, não fiz muitos quadrinhos falando de religião enquanto trabalhei lá.

AV. Poderia nos contar sobre a experiência em lançar uma revista própria (a Beleléu)? 
DL - A Beleléu é linda. Mas é filha de quatro pais e eu sou o pai menos atencioso dos quatro. Brinco com os outros que eu sou o pai que bebe e maltrata o filho quando chega em casa. Na verdade eu entrei de gaiato na Beleléu, mas acho que acabou fechando perfeitamente com o trabalho do Tiago El Cerdo, Stêvz e Eduardo Arruda. Mas foram eles que deram vida ao projeto. 

AV. A respeito dos seus quadrinhos: você prefere trabalhar com um personagem fixo ou com idéias diversas?
DL - Gosto das duas coisas. Se um personagem me cativa o suficiente para se tornar recorrente nas minhas tiras, então ele naturalmente ganha espaço. Mas geralmente não me preocupo com isso, o que acaba por me fazer criar histórias sem compromisso com um personagem fixo.

AV. Você trabalha com humor em quadrinhos, e no Brasil os quadrinhos de humor geralmente são bem "escrotos", no bom sentido. Mas atualmente existe meio que um ranço do "politicamente correto" na sociedade. Como você lida com isso? Existem limites para o humor, algum tema que você considera tabu?
DL - É, esse lance do "politicamente correto" é complicado, porque as vezes você vê algo "politicamente incorreto" simplesmente por não ter sacado as referências que o cartunista colocou no seu desenho. Se você tiver sido criado numa família ultraconservadora e de repente dá de cara com uma Chiclete com Banana é capaz de você se sentir ofendido. Mas eu acho que quadrinho é pra ofender, também. O Jaguar diz que o cartum tem que ser "uma porrada gráfica". Mas geralmente, o que acontece é um ruído de comunicação. Hora o cartunista não soube passar bem a mensagem, hora é o leitor que não soube ler a piada. Quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo, vira polêmica.

AV. Para terminar, quais são os seus planos para o futuro?
DL - Essa coisa de fazer planos não é comigo. O único plano que tenho é o de saúde. No mais, estamos aí pra ver o que acontece. (Transcrevi trechos de uma entrevista de 09/04/2011)

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