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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Mai21

"É necessário enfrentar o bolsonarismo dentro das forças policiais", diz Liana Cirne Lins

Talis Andrade

 

247 - A vereadora do Recife Liana Cirne Lins (PT-PE) falou neste domingo (30), ao Bom Dia 247, sobre a agressão que sofreu da Polícia Militar de Pernambuco durante a forte repressão às manifestações contra Jair Bolsonaro que ocorreram em 227 cidades do Brasil e do exterior. 

Vítima de um jato de spray de pimenta no rosto ao tentar dialogar com policiais militares, a líder do PT na Câmara Municipal do Recife defendeu que é preciso enfrentar o bolsonarismo dentro das corporações militares do País. 

"O governador de Pernambuco já se pronunciou, o que é positivo, mas é preciso ir além. É necessário estabelecer um protocolo rigoroso da polícia em ações como essa, e é necessário enfrentar o bolsonarismo dentro das forças policiais. Isso é urgente", afirmou Liana.

Renato Rovai
O governador Paulo Câmara tem a placa da viatura que agrediu a vereadora Ele tem obrigação de demitir o agressor agora por justa causa ou será cúmplice da agressão. Sem mais.
Marcia Tiburi
Toda a solidariedade à querida pela coragem! Coisa que falta nesse governo de covardes genocidas!
Liana Cirne Lins
É necessário estabelecer novas diretrizes, rígidas, sobre como deve se conduzir a polícia em atos pacíficos.
Lola Aronovich
Heroína! Muito guerreira a , vereadora do PT q tentou barrar a violência covarde da polícia contra os manifestantes #ForaBolsonaro em Recife. Imagem do dia! É esta a imagem q devemos espalhar, ñ a do fascista jogando spray de pimenta no rosto da vereadora!
Jandira Feghali 
Injustificável a violência contra a vereadora ! É preciso apurar as ações e sentimentos anti democráticos e odiosos que se instalam nos quartéis
Liana Cirne Lins
Quando cheguei a Central de Plantões, me deparei com a viatura que me agrediu. Fui falar com os policiais e dizer que o que tinham feito tinha sido COVARDIA. Todos permaneceram de olhos baixos. Em seguida, gravei este vídeo. É preciso dizer e que todos saibam: não temos medo.
Que coisa linda, . Você é referência de coragem  Não vejo a hora de nos abraçarmos.
Jean Wyll
LUTE COMO ESTA MULHER: NÃO PASSARÃO [rotuladores sobre papel] (para @LianaCirne )Image
 

Atos 'Fora Bolsonaro' mobilizaram 400 mil pessoas

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, o coordenador da Central dos Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, afirmou que a estimativa é que os atos mobilizaram 400 mil pessoas presencialmente

Segundo dados da CMP, que foi uma das entidades que organizaram as manifestações, os atos presenciais aconteceram em 213 cidades no Brasil e outras 14 cidades em diversos países do exterior, reunindo ao todo cerca de 420 mil pessoas. 

 

06
Set19

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Talis Andrade

  Juan Manuel P. Domínguez entrevista Marcia Tiburi, uma exilada pelo Bolsonarismo

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Em maio de 1933, frente à Opera de Berlim, na Alemanha, aproximadamente 40 mil pessoas aplaudiram a queima de livros de intelectuais contemporâneos como Einstein, Stephen Zweig, Jacob Wassermann e Freud ao grito de “Contra os marxistas, os judeus e os materialistas!”. Freud, particularmente, seria perseguido e acusado de pornógrafo, pedófilo e pervertido, entre outras coisas, a causa das suas teorias sobre psicanálise que, com o tempo, acabariam por ser um pilar fundamental na estrutura do pensamento ocidental moderno.

Meses após a tomada de poder, os nazistas invadiram e destruíram o Instituto de Sexologia, onde se realizavam pesquisas para dilucidar o comportamento sexual humano. Durante todo esse período, Freud tentou se afastar das proclames esquerdistas para manter em funcionamento o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), porém, os nazistas deram um novo rumo e colocaram o instituto a serviço de uma psicoterapia hitleriana que teria, curiosamente, como um dos seus apoiadores mais destacados Carl Jung.

Jean Joseph Goux insinua em “Freud e a estrutura religiosa do nazismo”, que o discurso de apelo religioso messiânico de Hitler, transcendia sua psique desequilibrada e tinha propósitos estratégicos para a dominação das massas. Hitler era um maníaco que entendia o poder de uma retórica política estruturada na força da religiosidade e de um ideal do ser alemão. Isto serviu para, de forma rápida e sem espaço para o debate, iniciar uma infernal perseguição de artistas, intelectuais, homossexuais, ciganos, judeus, negros e todo aquele que não se encaixasse no ideal do que se pretendia para a nação alemã.

A atividade intelectual e artística independente foi totalmente anulada e ou controlada pelo regime. O exílio chegou para grandes nomes como Fritz Lang, Sigmund Freud, Teodor Adorno, Walter Benjamin, Annie Fischer, entre outros. Também vale relembrar que durante o período de governo de Hitler, eram proibidas as exposições de artistas como Picasso, Henri Matisse, Marx Ernst, entre outros, por ser considerados impuros ou perversos, contrários aos interesses e ao espírito puro do povo alemão.

É quase impossível, com este cenário, não realizar analogias com o que aconteceu e ainda acontece no Brasil. Os casos de Márcia Tiburi, Jean Wyllys, Débora Diniz, entre outros, são paradigmáticos e parecem obedecer à mesma sequência de perseguição e difamação que levou ao exílio aquelas grandes figuras na Alemanha nazista, há quase cem anos.

A perseguição baseada em calúnias e naquilo que hoje se conhece como “fake news” (Freud era o maior alvo de noticias falsas que alimentavam a ideia de ele ser um pervertido sexual), se praticava desde os jornais oficiais e não oficiais do partido. “Der Angriff” foi um jornal fundado por Joseph Goebbels em 1927 e tinha uma linha editorial que propagava o ódio ao “sistema”, usando linguagem agressiva e direta. Seus temas mais recorrentes foram o antissemitismo, o antiparlamentarismo, a demonização dos intelectuais, da política tradicional, da democracia e da “arte perversa e marxista”. Similar ao trabalho feito nas mídias do MBL, Direita São Paulo, ou pelo youtuber Nando Moura, a força da agressividade e a passividade do governo ante o violento discurso das suas edições acabou gerando uma sensação de legitimidade na sociedade alemã. Ajudou assim a fazer crescer a narrativa nazista como “uma visão”, uma dialética que discutia a decadência do governo dentro do agito democrático.

Márcia Tiburi começou a ser alvo de boicotes e escrachos a partir de um episódio acontecido no dia 24 de janeiro de 2018, quando abandonou um programa na rádio Guaíba ao se deparar com o militante do MBL, Kim Kataguiri. Ele foi e continua a ser participante ativo de várias ações para censurar exposições como o “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, ou a participação da Judith Butler no debate sobre democracia no SESC Pompeia. Marcia Tiburi escreveu sobre o episódio:

…não me é admissível participar de um programa que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue, no qual argumentos perdem sentido diante de um já conhecido discurso pronto (fiz uma reflexão teórica sobre isso em “A Arte de escrever para idiotas”), que conta com vários divulgadores, de pós-adolescentes a conhecidos psicóticos…

Logo depois disso, Márcia sofreu de forma progressiva cada vez mais ataques e difamações por parte de diferentes setores da direita: Flávio Bolsonaro, vários youtubers do MBL, Nando Moura, entre outros, divulgaram um vídeo dela fazendo uma análise antropológica dos mecanismos (como contexto social e situação financeira) que podem levar uma pessoa a acionar um assalto. No vídeo Márcia não justifica nem faz uma apologia ao assalto, mas analisa que existem contextos que podem lançar alguém a cometer essa ação. O vídeo, viralizado no Whatsapp, no Youtube e no resto das mídias, acompanhado de uma legenda que apela a pontos sensíveis do cidadão comum – como é o problema da segurança e da violência social – contribuiu para engendrar uma sensação de insensibilidade ao respeito das figuras intelectuais do país, e particularmente um ressentimento da classe média à figura dela. A mesma estratégia empregada pelos nazistas, há quase um século.

A escritora começou a receber ameaças pelas redes, por e-mail, pelo telefone. Em abril de 2018 teve que cancelar a apresentação do seu livro “O Feminismo em Comum”, por falta de segurança em virtude das ameaças e reclamações recebidas pelos organizadores e pela própria escritora.

Fui perseguida durante todo o ano. Todos os meus eventos e lançamentos de livros foram invadidos, ou havia promessa de invasão. Muitas ameaças… ameaças do tipo ‘Quando você estiver assinando o livro eu vou te matar

Ainda conforme Márcia, “vários desses sujeitos ficavam uma hora na fila de um lançamento de um livro meu, muitas vezes até compravam o livro para poder entrar. Uma vez que entravam, de repente, pulavam entre o público e faziam uma cena. Isso começou a virar uma coisa muito perigosa, porque não era um perigo só para mim. É perigo para a cultura brasileira, é perigo para a cultura literária”.

“As pessoas querem ir num evento para escutar, ouvir um escritor… O último evento que eu participei, que foi em novembro de 2018, foi bastante significativo porque havia ameaças de morte e de invasão” … Eu fui falar de literatura, a campanha já tinha acabado, a extrema direita já tinha ganhado. Mas eles não te deixam em paz. Você não pode ser uma escritora, não pode escrever romances… foi triste ver aquela segurança armada. As pessoas, quinhentas pessoas sendo revistadas, pessoas que queriam participar de um evento literário. As ameaças aconteciam na rua, por e-mail, nos eventos, no telefone. Decidi que para minha própria segurança, mas também para a segurança das pessoas que andam comigo, que convivem comigo, ainda nesses eventos, o melhor era eu sair do Brasil”. (trechos de “No Brasil, o estímulo à matança vem de cima para baixo”, entrevista disponível no Youtube)

O Brasil padece um êxodo de intelectuais, professores e artistas, conhecidos e anônimos, empurrados pelas narrativas de ódio e pelas práticas de invasão de eventos, difamação e ameaça pelas redes ou outras vias de comunicação. Nesse êxodo, uma das mais importantes intelectuais mulheres do país teve que abandonar suas atividades aqui e reiniciar uma vida estrangeira, como acontece e aconteceu sempre sob os diferentes tipos de regimes intolerantes.

Leia na íntegra a entrevista Ninja com Marcia Tiburi (tradução para o espanhol aqui):

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Pensas que existe uma forma de fazer filosofia sem fazer política?

Certamente a filosofia é uma determinada política da verdade, aquela que luta por sua exposição. Ideologia é, por sua vez, a política da ocultação da verdade. É uma pena que as pessoas tenham se deixado levar mais uma vez em nosso país pela ideologia capitalista e neoliberal que oculta a sua verdade. Deveriam ter se ocupado com a crítica, ou seja, a análise e a reflexão, que seria o caminho para se chegar à verdade.

Um exemplo atualmente muito interessante para entendermos o que é a verdade na prática: verdade é o que vem à tona hoje com as matérias feitas pelos jornalistas do The Intercept. E por que falamos de verdade nesse caso? Porque se trata de olhar de frente para o que aconteceu, para as provas. Quando falamos de verdade falamos de fatos e suas provas. Não de intenções ou outras abstrações.

A mídia tradicional no Brasil faz o papel de criar ideologias, ou seja, criar acobertamentos. A mídia alternativa tem chance de trazer a verdade à tona por meio de desocultamentos. Aliás, historicamente é isso também o que a filosofia sempre fez. Mas as pessoas não parecem gostar muito da verdade. E essa é uma característica da verdade, quando ela surge em jogos de poder, ela é sempre a parte que desagrada.

 

Derrida desenvolveu o conceito de Falogocentrismo, em outras palavras, a ideia de que a filosofia era um circuito fechado para homens brancos de origem e pensamento eurocentrista. Hoje ainda a filosofia precisa de ser ocupada por outros corpos, outras sensibilidades que não sejam a masculina eurocentrista?

As filósofas feministas já sabiam disso há muito tempo. O termo criado por Derrida é muito feliz porque vem condensar toda uma crítica ao sujeito histórico da filosofia que ainda existe, mas está sendo ultrapassado por novos sujeitos. Essa crítica ao sujeito filosófico encarnado nesse tipo de corpo “branco, europeu” já estava no livro da Dialética do Esclarecimento de 1947. Ali os filósofos Adorno e Horkheimer já denunciavam o eurocentrismo, o machismo e o capitalismo, além da mistificação fascista que vemos retornar hoje sob moldes “tropicais”.

A questão hoje é também “geopolítica”, sobretudo depois dos críticos da colonização, e nos obriga a discutir cada vez mais a ordem do discurso, ou seja, a produção do pensamento em tempos em que o sistema econômico tenta eliminar a reflexão a qualquer curso e usa a velha indústria cultural para isso.

 

Quatro dos exílios mais significativos do período bolsonarista envolvem duas intelectuais e ativistas mulheres (você Marcia Tiburi e Debora Diniz), o primeiro deputado assumido defensor dos direitos da comunidade LGBTQI (Jean Wyllys), e o escritor Anderson França, ativista pelo fim da violência policial e da extrema pobreza nas periferias. A tudo isto se somam as perseguições e ameaças cada vez mais crescentes contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Guardian e The Intercept. O que você poderia refletir sobre isto?

Existem vários intelectuais e ativistas que já deixaram o país, alguns não viraram notícia. E inclusive não sou eu que vou comentar quem são essas pessoas porque nessas situações de perseguição, ameaça de morte, retaliação, tudo o que aconteceu com a gente, e acontece também com essas pessoas, cada um sabe o que é melhor pra si. Mas existem várias pessoas que deixaram o Brasil. Essas pessoas deixaram o Brasil não porque não gostam do Brasil, ou consideram que o Brasil é um lugar pior para se viver, ou que existem outros lugares melhores pra se viver no mundo. Não são escolhas. No nosso caso não foi uma escolha.

Eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças

No meu caso, eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças. A campanha de difamação e fake news contra mim foi algo imenso, e ao mesmo tempo eu sempre tive esperança de que poderíamos ultrapassar isso. De que tudo isso seria passageiro. De que as figuras que eram responsáveis pela criação das mentiras e das calúnias contra mim seriam vencidas em tempo.

Hoje as pessoas não sabem onde eu estou morando. Tem muita gente que pensa que eu estou morando em Paris, tem gente que pensa que eu estou morando nos Estados Unidos. As pessoas não sabem onde eu estou morando, simplesmente porque eu ainda não decidi onde vou ficar. Então, transito entre vários países. Ora morando na casa de amigos, ora recebendo convites de universidades. Só vou estabelecer um paradeiro em setembro.

 

No que mudou sua vida hoje, quais são as consequências psíquicas, físicas e espirituais da sua situação?

Hoje eu posso avaliar da seguinte maneira: o custo psicológico é imenso, o custo econômico é imenso, o custo afetivo em relação às famílias, é imenso. O custo profissional é imenso. Ao mesmo tempo, quem se encontra nessa situação, conta com a solidariedade de muita gente, sobretudo a solidariedade internacional. No meu caso tenho muito apoio de todos os brasileiros que estão fora do Brasil, e tenho o apoio de várias pessoas de outros países e de instituições de outros países. E é também em função disso que eu vou poder escolher onde ficar a partir de setembro.

Eu percebo o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco

Então, eu continuo escrevendo, por sorte. Eu tenho esse recurso, continuo trabalhando na minha área que envolve escrever. Mas certamente há uma destruição de uma forma de vida e de uma organização familiar. Mas não é a maior tragédia do Brasil. A maior tragédia do Brasil é o que se faz com os nossos índios, com os nossos jovens negros, com o nosso povo pobre, e com a nossa natureza. E a Europa agora se dá conta do que é Bolsonaro também em relação a ecologia.

Eu percebo também o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco. Dentro do Brasil muita gente já percebeu, muita gente já sabia. Mas existem pessoas que continuam seguindo o líder autoritário. São as pessoas que compõem o cenário do fascismo brasileiro atual. E infelizmente essas pessoas também têm muita força, porque fazem muito barulho, e muitas delas tem muito poder, inclusive e principalmente poder econômico.

É claro que a classe média baixa, que acompanha, não tem poder econômico, mas atua como imitando o líder autoritário, para tentar angariar com isso um lugar ao lado dessas figuras, vendo-se junto a essas figuras e às suas performances autoritárias.

 

Se a história da nossa raça continua a repetir as leis que parecem tê-la regido desde seus inícios, esse período de ira conservadora vai acabar (possivelmente após uma considerável devastação econômica e humana). Como você acha que vai se sentir quando tudo isto acabar de vez? Consegues fazer esse controverso exercício de futurologia?

Essa sua pergunta é muito curiosa. Como pensar o futuro? Como pensar onde estaremos, o que faríamos depois que tudo isso passar? O que pode acontecer? Se nós pensarmos nos exemplos dos ciclos dos governos totalitários, dos estados totalitários que já causaram catástrofes humanas no mundo, talvez seja um excesso de otimismo dizer que a gente vai sobreviver a tudo isso. Então, o que pode acontecer? O que aconteceu com os alemães, depois da passagem de Hitler pela Alemanha? O que aconteceu com o povo do Camboja? Do Vietnã? O que acontece hoje com os povos diversos, que sofreram das mais diversas maneiras, seus regimes totalitários?

Eu quero manter o otimismo, considerando que nós seremos capazes de resistir coletivamente. Eu confesso a você que não estou preocupada comigo mesmo, nem um pouco. Embora seja ameaçada, pude sair do Brasil porque escrevi muitos livros e fui resgatada por uma instituição que protege escritores pelo mundo. Então eu, como escritora, e como professora de filosofia, estou protegida e realmente não estou preocupada comigo. Estou preocupada com as pessoas que não tiveram como se proteger. Seja como ativistas, seja como cidadãos comuns, que hoje estão levando em frente suas vidas, suas práticas cotidianas, estão desamparadas.

Nós seremos capazes de resistir coletivamente

Eu não estou desamparada, sou amparada por instituições internacionais. Me preocupo com o povo brasileiro que sofreu uma lavagem cerebral pesada, me preocupo com esse povo que não escolheu esse governo delirante, e mesmo assim, sofre os efeitos desse governo. Me preocupo com a segurança das pessoas que estão na mira de assassinos governamentais, de pessoas que por engano, por erro, por ingenuidade ou por estupidez, votaram em figuras que hoje prometem a morte das populações marginalizadas. Me preocupa que há pessoas no Brasil que ultrapassaram o limite do bom senso e da dignidade humana, desrespeitando a regra básica da nossa civilidade que é “Não Matarás”.

Espero que a gente possa superar isso. Continuamos lutando para isso. Pensando em projetos, pensando em como resgatar o Brasil. Mas precisamos fazer isto hoje com muita, mas muita inteligência, com mais habilidade e aptidão. Nós precisamos ser hoje ainda mais lúcidos para entender quais são as necessidades para concretizar a nossa reconstrução.

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24
Mar19

Jean Wyllys: “Carluxo é um vilão odioso e capaz de atrocidades, mas burro”

Talis Andrade

 

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Carluxo é o grande e maior vilão dessa tragédia chamada “Governo da família Bolsonaro”. Seria a pior das três filhas do “Rei Lear”. Shakespeare antecipou seu caráter séculos atrás ao criar também Iago, de “Otelo”.

Invejoso, cheio de vergonha de si (homofobia internalizada fruto da repressão paterna desde a infância), buscando – numa ambiguidade de sentimentos já descrita por Freud e, depois, Lacan como característica do típico perverso – ao mesmo tempo, agradar e superar o pai, Carluxo, como os vilões das tragédias gregas e shakespearianas, não consegue fugir de seu destino trágico de produzir uma desgraça, a desgraça.

Este fato, aliás, agrada-me: Carluxo já é e será mais ainda a ruína do governo Bolsonaro, já assombrado pelo poderoso espectro de Marielle Franco – como o espectro do pai de Hamlet assombrava o rei e a rainha conspiradores; como o espectro do comunismo que assombrava a Europa injusta e desigual do século XIX (como o é a Europa do século XXI, esse mero jogo de posições de algarismos romanos) – Marielle Franco, cujos assassinos têm ligações ainda não esclarecidas com a família do presidente.

Carluxo desdenhou de Rodrigo Maia; atacou sua honra ao levantar suspeitas sobre sua honestidade; afrontou publicamente o presidente da Câmara, ao apoiar o narcisista menor e desqualificado Sérgio Moro, espécie de Macbeth vulgar e subjetivamente muito mais raso, mas dirigido por um arremedo de Lady Macbeth ressentida e cafona; Carluxo fez tudo isso mesmo sabendo que a aprovação da Reforma da Previdência (leia-se: fim da aposentadoria dos trabalhadores e privilégios para os mais ricos) – única agenda que ainda mantém seu pai louco e doente no palácio do Planalto – depende de Rodrigo Maia e mais ninguém.

Maia é o oficial pragmático, mas temperamental. Não tolera a ingratidão tampouco o veneno de Carluxo. Este é, portanto, um vilão odioso e capaz de atrocidades, mas burro. Ao fim dessa tragédia tupiniquim, Carluxo terá sua punição (assim como seu pai e seus irmãos). E não se espantem se esta punição vier não das mãos da Justiça humana, mas das mãos do amante posto na sombra.

Carluxo não vai fazer ideia das referências contidas nesse texto.

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22
Mar19

“Prisão de Temer é ameaça velada de Moro a Rodrigo Maia”, diz Jean Wyllys em Paris

Talis Andrade

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Por Márcia Bechara

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O ex-deputado federal Jean Wyllys, que cumpre há cerca de uma semana uma agenda cheia em Paris, concedeu entrevista exclusiva nesta quinta-feira (21) à RFI. Ele comentou as prisões do ex-presidente brasileiro Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco, que classificou de “cabo de guerra entre facções políticas que deram o golpe de 2016”. Wyllys falou também sobre exílio, refúgio político, planos para o futuro e o governo de Jair Bolsonaro no Brasil.

 

RFI: Um escritor muito querido dos franceses, o Victor Hugo, dizia que “o exílio é uma longa insônia”. Como vem sendo a sua experiência?

Jean Wyllys: Eu digo que ainda não vivi o lado mais pesado e duro do exílio, o momento em que o luto vai chegar mesmo, a melancolia. Estou ainda no tubilhão do impacto da notícia de ter aberto mão do meu terceiro mandato. Estou no olho do furacão. O olho do furacão é calmo, mas também é o lugar mais perigoso. Estou tentando preparar as minhas estruturas internas para esse momento, tendo passado o burburinho das notícias, dessa denúncia que é preciso fazer aqui fora sobre o que está acontecendo no Brasil. Estou me preparando para essa longa insônia que Victor Hugo disse sobre o exílio.

 

RFI : Em entrevista à televisão francesa, Yann Barthès, apresentador do programa Quotidien, afirmou que você havia se tornado o principal símbolo da oposição ao governo Bolsonaro, pelo menos no exterior. Você concorda com essa afirmação?

JW: Eu concordo, embora não tenha tido essa intenção. Quando decidi abandonar meu terceiro mandato, estava pensando na minha vida. As ameaças eram muito pesadas e tinham se extendido à minha família. Paralelo às ameaças havia uma campanha difamatória muito pesada que destruía minha reputação pública e me colocava vulnerável em quase todos os espaços públicos no Brasil. Eu vivia uma vida pela metade, isso estava impactando na minha saúde física e psíquica, então minha decisão tem a ver com a defesa da minha vida. Essa decisão teve um impacto político tão grande internacionalmente, e como eu sou responsável politicamente, eu decidi utilizar esse lugar que ocupo agora como uma trincheira. Não gosto muito das metáforas da guerra, mas vou usá-la. É uma trincheira para defender a democracia do Brasil e suas minorias. Me converti neste símbolo de oposição ao Bolsonaro, não porque quisesse a princípio, mas concordo com o Yann Barthès. De fato acabou acontecendo.

 

RFI: Você disse uma vez que Marielle Franco vai derrotar Bolsonaro. O que você quis dizer com isso?

JW: Eu quis dizer que Marielle ronda como um espectro, como na peça de Shakespeare, Hamlet, ela ronda o governo fascista de Bolsonaro. Para mim vão ficar claras as ligações entre Bolsonaro e as milícias, as organizações criminosas de onde saíram os sicários que executaram Marielle. O Ministério Público e a imprensa têm mostrado essas relações. O presidente da República morava a alguns metros de um assassino de aluguel frio. Como é que a Inteligência brasileira, a Polícia Federal não sabia disso?

 

RFI: Dois ex-policiais foram presos dentro da investigação do assassinato de Marielle Franco. A polícia federal citou o ex-deputado estadual Domingos Brazão (ex-MDB) entre os suspeitos de ser um dos possíveis mandantes, você acha que isso é uma pista concreta ou uma cortina de fumaça?

JW: Pode ser uma possibilidade. Mas pode ser também uma cortina de fumaça, um bode expiatório, uma maneira de desviar a atenção dos parlamentares ou esconder o verdadeiro mandante. Acho curioso que, pouco depois da polícia apresentar os executores da Marielle, o delegado Giniton Lages tenha sido afastado das investigações. Ou seja, quando as investigações passam para uma segunda etapa e quando todos os indícios apontam para uma ligação estreita entre a família de Bolsonaro e os executores de Marielle, o delegado é afastado.

 

RFI: O ex-presidente da República Michel Temer foi preso dentro das investigações da Lava Jato. O juiz federal Marcelo Bretas que pediu a prisão chegou a dizer que Temer liderava uma organização criminosa. Qual sua opinião sobre isso?

JW: A minha opinião é que a prisão de Temer não passa de um mero lance, de um cabo de guerra entre as facções que deram o golpe de 2016, que foram beneficiadas política e economicamente com o golpe de 2016. A prisão de Temer e de Moreira Franco acontecem na sequência da desmoralização pública que Rodrigo Maia fez de Sérgio Moro. A resposta de Sérgio Moro foi mobilizar seus aliados na Lava Jato para ameaçar Rodrigo Maia através destas duas prisões. Na verdade, Moro faz uma ameaça velada a Rodrigo Maia. Essa foi a maneira do Sérgio Moro devolver o que Maia fez, que foi a desqualificação... Desqualificação não, porque Moro não tem nenhuma qualidade. Moro não precisa ser desqualificado, ele já é desqualificado por si mesmo. Uma pessoa que aceita ser ministro da Justiça do candidato beneficiado com a prisão do Lula, tendo ele realizado essa prisão, não tem nenhuma qualidade. Não comemoro essa prisão de Michel Temer porque ela chega tardia e não passa de mais um ato obsceno na orgia dos farsantes.

 

RFI: Você acha que a Justiça e polícia brasileiras serão suficientemente independentes para chegar aos mandantes do crime de Marielle Franco?

JW: Eu espero que sejam, a gente tem que pressionar para que sejam. A gente tem que pressionar esse jogo de cartas marcadas da Polícia Civil do Rio de Janeiro agora sob a gestão de Wilson Witzel. A gente precisa botar olho nisso, com os organismos internacionais que já vinham acompanhando, a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, Justiça Global, Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA), nós brasileiros que vivemos fora e os brasileiros que estão lá dentro, nas bancadas progressistas, têm que botar olho para que as investigações não se degenerem. A gente quer saber quem mandou matar Marielle, a gente quer saber sobre essas relações entre a família Bolsonaro e as milícias, as organizações criminosas que comandam territórios no Rio de Janeiro.

 

*Assista aqui o vídeo completo da entrevista com Jean Wyllys nos estúdios da RFI, em Paris.

 

 

16
Mar19

“Foi um vexame”, diz Jean Wyllys sobre bate boca com embaixadora do Brasil na ONU

Talis Andrade

 

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O ex-deputado federal Jean Wyllys na Universidade Sorbonne.Foto: RFI Brasil

 

 

O ex-deputado federal considerou um “vexame” para o governo brasileiro a atuação da embaixadora do país na ONU que o interpelou durante a participação em um evento na sede da instituição, na Suíça. A declaração foi feita neste sábado (16), em Paris, durante uma manifestação em homenagem à vereadora Marielle Franco.

 
 
 

Jean Wyllys se referiu ao caso no final de sua conferência e narrou para os participantes o episódio do dia anterior em Genebra. Ele afirmou ter sido “assediado” pela embaixadora Maria Nazareth Farani Azevedo durante sua apresentação em um painel que debatia a ascensão do populismo e novos autoritarismos.

A cena envolvendo o bate boca entre o ex-deputado federal e a embaixadora foi registrada em vídeo pelo jornalista Jamil Chade. As imagens mostram a embaixadora contestando afirmações de Wyllys, que durante sua palestra, entre outros assuntos, atribuiu a vitória de Bolsonaro nas eleições às fake news disparadas durante a campanha e a sua saída do Brasil devido às ameaças de morte que vinha sofrendo.

Depois de ler um texto, a embaixadora é vista se retirando local sem querer ouvir a resposta do ex-deputado, depois de ter seu pedido de direito a réplica negado.

“Não apenas para mim, mas para toda a diplomacia e técnicos da ONU foi uma surpresa uma embaixadora se prestar ao papel de assediar um ativista dos direitos humanos que estava falando em um painel, em uma atividade paralela ao evento principal”, disse Jean Wyllys em entrevista à Rádio França Internacional.

 
 

Segundo ele, a embaixadora pediu direto de réplica para uma fala que ela não ouviu e com um texto que buscava constrangê-lo e encomendado para “dourar a pílula” em relação à imagem internacional do Brasil.

Perplexidade

Jean Wyllys disse ter ficado “perplexo” com a situação e sugeriu que a atuação de Maria Nazareth possa estar vinculada a declarações do presidente Jair Bolsonaro de que removeria do posto embaixadores que não defendam a imagem de seu governo.

“Talvez ela tenha medo de perder seu posto. Ela já vem sendo embaixadora junto à ONU nos governos Lula e Dilma e não tinha esse comportamento. Essa mudança repentina tem que ter uma explicação. Ou medo de perder o posto, portanto os privilégios, ou homofobia. Ela tem que se explicar por que se prestou a esse papel, e também o governo Bolsonaro tem que explicar por que mandou uma embaixadora assediar um ativista de direitos humanos dentro da sede da ONU”, continuou.

“É um vexame. Uma embaixadora não pode se prestar a esse papel. Ela representa o Estado brasileiro e não necessariamente um governo ou a pessoa do presidente da República. Foi vergonhoso porque ela bateu boca e não me ouviu quando eu estava dando uma resposta”, acrescentou.

Quem matou Marielle?

Antes de falar sobre o incidente, Jean Wyllys deu uma conferência no evento “Um ano do assassinato de Marielle Franco – Denunciar a violência de Estado no Brasil”, organizado pela Anistia Internacional França, a Associação Autres Brésils e o grupo Coletiva Marielles. Ele confessou ter muita dificuldade de ver vídeos e fotos de Marielle, mas disse que ela continua viva e se multiplicou em milhões de pessoas que lutam pelas mesmas causas.

Wyllys disse que o assassinato de Marielle está ligado ao “modus operandi” da extrema-direita que destrói publicamente a reputação de seus inimigos por meio de difamação e discursos de ódio. A identificação de dois suspeitos envolvidos na morte da vereadora não é garantia de uma aceleração nas investigações, segundo Wyllys.

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“Eu não sei se elas vão se acelerar ou não, dependem de nós, para que a pressão continue e as investigações não se degenerem. Quando eu estava lá (Brasil), criei na Câmara uma Comissão externa para acompanhar as investigações, agora, aqui fora, vou exercer outro tipo de pressão”, afirmou.   

 

Jean Wyllys durante uma conferência na Universidade Sorbonne. Foto: RFI Brasil

 

Literatura e sobrevivência

Pela manhã, Jean Wyllys deu a palestra de encerramento Universidade Sorbonne de uma jornada de estudos da Primavera Literária Brasileira que tem como lema “Qual Brasil? Qual Literatura?”.

Como referência o título de seu livro “Tempo bom, tempo ruim... identidades, políticas e afetos”, Wyllys relatou para um grupo de estudantes, professores e intelectuais sua trajetória que começou em uma amília pobre do interior da Bahia até a entrada no Congresso, que se refere ao “tempo bom”, quando se tornou o primeiro deputado a entrar na Câmara defendendo abertamente a pauta de direitos da comunidade LGBTQ+.

As referências do ex-deputado ao “tempo ruim” começaram com as mudanças que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e culminaram na chegada ao poder do presidente Bolsonaro, qualificado por ele como “fascista, homofóbico e misógino”.   

Wyllys foi interrompido por aplausos ao lembrar de ter cuspido na cara do então deputado Jair Bolsonaro, que fez um elogio ao coronel Brilhante Ulstra, torturador do regime militar reconhecido pela justiça, ao aprovar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Depois de elogiar o torturador, ele me insultou mais uma vez e meu corpo se cansou de tanta ofensas, injúrias, difamações. Tive uma reação para muitos extremadas, mas para mim, lúcida”, declarou.

O ex-deputado, que anunciou oficialmente a renúncia de um terceiro mandato em 24 de janeiro, afirmou ter tomado a decisão de se exilar no ano passado. “Eu não podia circular em espaços públicos e era insultado e ameaçado por populares. Sempre ouvia: ‘Você não passa de 2019’. O Brasil se tornou inviável para eu viver”, comentou.

“Eu não tenho como colaborar com um tempo bom estando morto. Tenho que colaborar vivo. Por isso, me exilei, para não ter o mesmo destino da minha amiga e companheira Marielle”, afirmou.

 

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12
Mar19

Bolsonaro mandou recado ao jornalista Chico Otávio ao atacar sua filha?

Talis Andrade

Antes do raiar do sol desta terça-feira (12), às 5h37, Chico Otávio e Vera Araújo assinaram a reportagem com o furo da prisão do sargento Ronnie Lessa no condomínio de Jair Bolsonaro, efetuada por agentes da Delegacia de Homicídios (DH) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público menos de duas horas antes

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Por Renato Rovai e Plínio Teodoro

 

“Ela é filha de Chico Otávio, profissional do O Globo.” A frase de Jair Bolsonaro (PSL) no tuíte do áudio fake contra a jornalista Constança Rezende, d’O Estado de S.Paulo, foi divulgada menos de 48 horas antes da prisão, no condomínio onde o presidente mora, do sargento da PM Ronnie Lessa, sob acusação de disparar os tiros que assassinaram a vereadora Marielle Franco (PSol) e o motorista Anderson Gomes.

 

Lida isolada, a frase parece apenas mais uma bravata lançada pelo presidente para atiçar a matilha bolsonarista nas redes contra um profissional de imprensa. Mas, qual seria o real motivo de Bolsonaro ter citado o jornalista d’O Globo em uma publicação que não dizia nada a seu respeito – exceto o fato de ser pai de Constança?

Leia também: Pai de jornalista que teve áudio vazado denunciou ligação de clã Bolsonaro com milícia no RJ

Chico Otávio é um dos poucos jornalistas que restaram na grande imprensa que dedicam a carreira – e a vida – aos bastidores do poder. Co-autor do livro “Os Porões da Contravenção”, que mostra a ligação da ditadura militar com o jogo do bicho na raiz do crime organizado no Rio de Janeiro, o jornalista, vencedor de 6 prêmios Esso, é um dos maiores conhecedores do submundo das milícias cariocas e da ligação delas com os bastidores do universo político.

Foi o jornalista quem deu furo (publicou primeiro, no jargão jornalístico) da real ligação das milícias com o clã Bolsonaro, revelando o elo do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega e do major da PM Ronald Paulo Alves Pereira, principais alvos da Operação deflagrada contra a milícia Rio das Pedras, com Flávio Bolsonaro.

 

Na reportagem, o jornalista diz ainda que “os dois são suspeitos de integrar o Escritório do Crime, um grupo de extermínio que estaria envolvido no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL)”.

Furo na prisão dos assassinos

Antes do raiar do sol desta terça-feira (12), às 5h37, Chico Otávio e Vera Araújo assinaram a reportagem com o furo da prisão do sargento Ronnie Lessa no condomínio de Jair Bolsonaro, efetuada por agentes da Delegacia de Homicídios (DH) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público menos de duas horas antes.

 

Na reportagem, como é de praxe do jornalista, Chico Otávio traz detalhes da denúncia feita pelas promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile ao juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Guilherme Schilling Pollo Duarte, além da única foto – creditada à Agência O Globo – da prisão do sargento reformado no condomínio onde mora Bolsonaro, na Barra da Tijuca.

Ainda na reportagem, um infográfico, feito pelo departamento de arte do jornal – que, geralmente não trabalha durante a madrugada -, mostra como foi realizada a investigação, além de uma linha do tempo com as “reviravoltas” do caso.

O jornalista também descreve todo o histórico do assassino de Marielle, dizendo que ele tinha “ficha-limpa”, e assina uma matéria, publicada às 6h44, com Mônica Benício, viúva de Marielle, sobre a repercussão da prisão, além de outras reportagens sobre o caso.

Todos os detalhes mostram que Chico Otávio acompanha de perto as apurações sobre a morte de Marielle Franco, “incontestemente” política, como dizem as procuradoras do caso, e claramente relacionada à ligação das milícias com a classe política do Rio de Janeiro que abomina os políticos de esquerda, especialmente os ligados ao PSol.

 
 

Quase um ano depois do assassinato de Marielle, as milícias do Rio continuam mandando recado e fazendo ameaças – que levaram ao exílio Jean Wyllys e, mais recentemente, de Márcia Tiburi. E, como indaga Mônica Benício, é “urgente e necessário” que se revele quem mandou matar a vereadora. Antes que a perseguição a políticos oposicionistas, jornalistas ou contra qualquer pessoa com opiniões divergentes se torne uma política de Estado do governo Bolsonaro. Leia mais na revista Forum 

 

12
Mar19

Bolsonaro, Marielle, milícias e as coincidências

Talis Andrade

As coincidências envolvendo o brutal assassinato de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, até a prisão do policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, apontados como suspeitos do crime.

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Eles sempre tiverem mais votos em regiões do Rio de Janeiro dominadas pelas milícias, mas isso era coincidência.

 

Eles condecoraram milicianos que estavam envolvidos em assassinatos, mas isso era coincidência.

Eles tinham pessoas empregadas em seus gabinetes que foram presas por envolvimento com as milícias, mas isso era coincidência.

Eles foram os únicos políticos com relevância eleitoral a não se pronunciar sobre o assassinato de Marielle, porque, segundo eles, não tinham coisa boa dizer, mas isso era coincidência.

Seus principais candidatos a deputados no Rio quebraram a placa de Marielle, mas isso era coincidência.

O chefe de gabinete do atual senador da família foi pego com depósitos bem acima do que recebia de salário e tem inúmeras fotos e relações com milicianos, mas isso era coincidência.

Um dia antes da prisão do suposto assassino de Marielle no condomínio em que Bolsonaro mora, o presidente da República postou uma mensagem no Twitter ameaçadora à jornalista Constança Rezende, do Estadão. O fato dela ser filha de Chico Otávio, que cobre milícias no Rio de Janeiro há tempos, e que soltou a matéria de hoje, em O Globo, com exclusividade antes das 6h da manhã, também foi só coincidência.

Vivemos num país de coincidências. Onde coincidentemente os bandidos dão as cartas e os que os investigam estão sendo ameaçados de morte (Jean Wyllys e Márcia Tiburi, por exemplo) e ou têm que se exilar ou têm que viver sob escolta policial. Mas isso é só coincidência.

Depois do Twitter de Bolsonaro, fico imaginando o quanto deve ter sido difícil para Chico Otávio seguir com a reportagem que já estava em curso. E o quanto sua filha, Constança Resende, deve ter sofrido. Mas tudo é só coincidência.

Tudo, tudo é só coincidência.

 

 

05
Mar19

DANIELA MERCURY RESPONDE BOLSONARO: POSSO IR ATÉ BRASÍLIA TE EXPLICAR COMO FUNCIONA A LEI ROUANET

Talis Andrade

Escute e freva a música 'Proibido o Carnaval' 

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247 - Depois de ser atacada, junto com Caetano Veloso, por Jair Bolsonaro por conta da música 'Proibido o Carnaval', que faz críticas à censura e defende a liberdade de expressão, a cantora Daniel Mercury divulgou um longo comunicado em resposta ao presidente. Nele, a artista pede "respeito" pelo que é e pelo que representa e se propõe a ir até Brasília explicar a ele como funciona a Lei Rouanet.

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Em uma postagem no Twitter, Bolsonaro se referiu a Daniela Mercury e a Caetano Veloso, que estão entre os maiores artistas brasileiros, como "dois 'famosos'" e disse que, com a música "Proibido o Carnaval", os dois estavam acusando o governo Bolsonaro "de querer acabar com o Carnaval". "A verdade é outra: esse tipo de 'artista' não mais se locupletará da Lei Rouanet", respondeu.

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Respondeu Daniela:

"Sr. Presidente, sinto muito que não tenha compreendido a canção 'Proibido o Carnaval', que defende a liberdade de expressão e é claramente contra a censura. Mas acho que isso nem vem ao caso aqui porque percebo que há uma distorção muito grave sobre a lei Rouanet. Parece que ela ainda não foi compreendida. Por isso, me coloco à disposição para explicar como funciona o passo a passo dessa lei. E aproveito para tranquilizá-lo. Usei muito pouco de verba pública de impostos da lei Rouanet em cada projeto que tive aprovado. Para que o senhor entenda, cada desfile de trio sem cordas (sem cobrança de ingresso, de graça para os foliões), custa cerca de 400 mil reais. Em 20 anos, Eu tive apoio (TUDO DENTRO DA LEI) de cerca de um milhão de reais de verba de impostos da lei rouanet. 1 milhão em 20 anos, ressalto!!! Dá cerca de 50 mil reais por ano, se assim dividirmos. Considere, sr. Presidente, que eu comecei o movimento de trios sem cordas, de graça para o público, há 21 anos. Eles custaram, por baixo, cerca de 10 milhões de reais! Se tive cerca de 1 milhão de verba pública nesses 20 anos, isso significa que o restante (9 milhões) paguei ou do MEU BOLSO diretamente ou com o patrocínio de empresas privadas. Em 35 anos de carreira, fiz muitas apresentações de graça no Brasil, bancadas do meu bolso. Essa fake news sobre a lei Rouanet criada na eleição não pode continuar sendo usada para desmerecer o trabalho sofrido e suado dos artistas brasileiros. A arte, além de tudo, tem um valor imensurável e o retorno do nosso trabalho para a sociedade, para o turismo, pra a economia é gigante. Para que compreenda melhor, apenas com 1 ano do sucesso 'O Canto da Cidade' (uma música "famosa" minha), Salvador ganhou 500 mil turistas a mais. Mais um exemplo: eu tenho cerca de 50 milhões de reais de retorno de mídia espontânea em cada carnaval de Salvador. Esse retorno, a partir de minhas apresentações (6 horas por dia cantando e dançando sem parar nem para comer – somadas a mais 5 horas prévias de preparação – e mais 2 horas pós apresentação para recuperação da voz e do corpo – durante 6 dias seguidos) traz uma valorização gigantesca para a imagem da cidade, do Estado e do país. Tudo isso estimula o turismo e turbina a economia. Tenho visto que estimular o turismo é um objetivo do senhor. Não se engane: trabalhamos muito. Quando se ataca a arte de um país, quando se ataca os "artistas" brasileiros, se ataca a alma do povo desse país. Mereço respeito pelo que sou, pelo que represento e pelo que faço constantemente pela sociedade brasileira em diversas causas, não apenas na arte. Reitero aqui a minha disposição de conversar com o senhor e com sua equipe sobre a lei Rouanet. Se assim desejar, irei com minha esposa, que é também minha empresária, até Brasília para conversar com o senhor sobre o assunto. Abraços e feliz carnaval." Daniela Mercury Verçosa

EM PLENO CARNAVAL, BOLSONARO ATACA CAETANO E DANIELA MERCURY

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Num tweet na manhã desta terça-feira de Carnaval, Jair Bolsonaro atacou com violência Caetano Veloso e Daniela Mercury afirmando que eles sequer são artistas e acusou-os falsamente de viveram às custas da Lei Rouanet: "Esse tipo de 'artista' não mais se locupletará da Lei Rouanet". 

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No seu tweet, Bolsonaro divulga a gravação de um músico, cujo nome é omitido, com uma marchinha de ataque aos dois artistas, e que começa com o cantor anunciando: "Essa marchinha vai para o nosso querido Caetano Veloso e nossa querida Daniela Mercury... chupa!". O refrão da marchinha é o ataque mentiroso aos dois: "Ê ê ê ê ê, tem gente ficando doida sem a tal Lei Rouanet".

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O ataque de Bolsonaro é uma retaliação ao videoclipe "Proibido o Carnaval", que os dois lançaram no início de fevereiro. Que mistura ritmos e cores carnavalescas, e retrata uma festa repleta de convidados e dançarinos de ambos os sexos. O ritmo é frenético, alegre e o vídeo é sensual. Daniela e Caetano beijam-se, assim como vários dançarinas e dançarinos de todos os sexos, com beijos entre todos.

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O vídeo termina com uma homenagem a Jean Wyllys, que desistiu de seu mandato e exilou-se depois de mais de um ano de ameaças de morte dos bolsonaristas: ""Dedico este videoclipe ao meu amigo amado e incansável guerreiro Jean Wyllys. Estamos te esperando de volta: o Carnaval não está proibido! Axé!!!".

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A letra de "Proibido o Carnaval" faz uma crítica bem humorada a todo ideário bolsonarista quanto aos direitos civis e à moral social, com uma referência direta à declaração da ministra Damares Alves (da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) para quem meninos deve vestir azul e as meninas, rosa. Cantaram Daniela e Caetano: "Vai de rosa ou vai de azul?".

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Leia a letra e veja a seguir o videoclipe de 'Proibido o Carnaval'

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Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

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Tô no meio da rua, tô louca
Tô no meio da rua sem roupa
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de rebeldia, provocando a fantasia

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Tô no meio da rua, tô louca (hum)
Tô no meio da rua sem roupa (ah é)
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de fantasia, provocando a rebeldia

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Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Só tem asinha

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

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A mulherada comandando a batucada
O trio elétrico cantava, libertando a multidão
Frevo fervando no Galo da Madrugada
Pernambuco não parava de fazer revolução
Filhos de Gandhi, o afoxé na resistência
O Caboclo era soldado no Brasil da Independência
No crocodilo, Stonewall, estou aqui
No carnaval beijando free
Salvador é a nova Grécia

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Quilombola, Tupinambá
O corpo é meu, ninguém toca
Vatapá, caruru
Iemanjá lá no sul
Vai de rosa ou vai de azul?

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Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

.

Tô no meio da rua, tô louca (tá louca?)
Tô no meio da rua sem roupa (uau)
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de rebeldia, provocando a fantasia

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

.

A liberdade, a Caetanave, a Tropicália
O povo de Maracangalha sai dançando o meu axé
O samba ensina, o samba vence a violência
O samba é a escola de quem ama esse país como ele é

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Eu falei: Faraó, e ninguém respondeu
Quem come aqui sou eu, Romeu
Libera a libido
Forró em Caruaru, é?
Vai de rosa ou vai de azul?

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Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

.

Axé, axé, axé, axé, axé (proibido? Tá proibido proibir)
Axé (axé), axé (axé), axé, axé, axé, axé!

 

 

08
Fev19

A volta dos generais ao poder no governo do capitão que vai virando o bode na sala

Talis Andrade

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Mourão, o moderado

 

por Eliane Brum

Em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro disse à repórter Josette Goulart, da Folha de S. Paulo: “Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice. Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment”. Depois de várias tentativas fracassadas, Jair Bolsonaro acabou escolhendo o general da reserva Hamilton Mourão para ser seu vice na chapa que acabou vitoriosa. Ele atendia ao requisito exposto pelo terceiro filho, o de proteger o presidente, a partir da sombra das Forças Armadas.

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Por um lado, um país que viveu 21 anos de ditadura militar, no qual centenas foram sequestrados, torturados e mortos, deveria ter resistência à volta de um general no comando da nação. Até então, os defensores do retorno da ditadura militar formavam um grupo minoritário, meio amalucado e sempre apontado nos movimentos da “nova direita”, na Avenida Paulista, epicentro das manifestações de rua no Brasil. Por outro lado, o vice estaria sintonizado com os quartéis para garantir a presidência, muito mais do que um capitão que chegou a ser preso por indisciplina e que, nas últimas três décadas, tornou-se político profissional. O vice “faca na caveira” seria um seguro anti-impeachment para Bolsonaro.
 

Hoje, ao final de um primeiro mês de governo com mais crises do que qualquer um dos anteriores, o “mito” começa a ser desmitificado por parte dos mitômanos que o elegeram, já recebe críticas pesadas dentro do seu partido e os descontentamentos no núcleo duro do governo são perceptíveis. Mourão, que até então era conhecido como uma língua solta e truculenta acima das quatro estrelas do peito, tornou-se, por comparação, um exemplo de sensatez, diplomacia e bons modos. Com o bode na sala, outros espécimes tornam-se subitamente aceitáveis.

O “faca na caveira” é elogiado por diplomatas como o embaixador da Alemanha, que diz ter tido uma conversa “excelente” com Mourão, e manda afagos à imprensa pelo Twitter, a mesma rede social em que a família Bolsonaro ataca os jornalistas, algo que funcionou na campanha mas está dando sinais de esgotamento. Mourão, o gentleman, tuitou em 23 de janeiro: “Quero agradecer a atenção e cumprimentar pela dedicação, entusiasmo e espírito profissional a todos os jornalistas que me recebem na minha chegada e de mim se despedem quando deixo o anexo da vice-presidência. Boas matérias a todos!”.

Tudo é uma questão de referência. E, quando a referência é Bolsonaro, é fácil um Mourão soar moderado. Em caso de naufrágio, qualquer tábua de pinho vira navio.

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Era melhor ele “Jair se acostumando”, mas Jair não se acostuma

Mourão melhorou? Não. Bolsonaro piorou? Não. O que acontece é que agora Bolsonaro é o presidente. Era melhor ele "Jair se acostumando", mas Jair não se acostuma. Segue acreditando que ainda está fazendo campanha e que continuará ganhando no grito das redes sociais.

A série de tuítes que publicou após a divulgação de que o deputado federal eleito Jean Wyllys (PSOL) deixaria o país por ter medo de ser morto é a expressão do comportamento de Bolsonaro. Wyllys, o primeiro deputado declaradamente gay a assumir uma cadeira no Congresso, iniciaria em fevereiro o terceiro mandato. Recebendo ameaças de morte semanais, andava com escolta policial desde março de 2018, quando sua colega de partido, a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, teve a cabeça arrebentada a tiros, um crime até hoje não apurado e impune.

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Entre as ameaças que o parlamentar recebeu, estavam as seguintes, conforme divulgou o jornal O Globo: “Vou te matar com explosivos", "já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?", "vou quebrar seu pescoço", "aquelas câmeras de segurança que você colocou não fazem diferença". E esta: “Vamos sequestrar a sua mãe, estuprá-la, e vamos desmembrá-la em vários pedaços que vamos te enviar pelo Correio pelos próximos meses. Matar você seria um presente, pois aliviaria a sua existência tão medíocre. Por isso vamos pegar sua mãe, aí você vai sofrer”.

Duas horas depois da notícia de que deixava o Brasil, uma mensagem foi enviada a Jean Wyllys: "Nossa dívida está paga. Não vamos mais atrás de você e sua família, como prometido. Mesmo após quase dois anos, estamos aqui atrás de você e a polícia não pôde fazer nada para nos parar".

O que deveria fazer o presidente de um país em que um parlamentar é obrigado a abdicar do mandato para salvar a vida? Certamente não mandar uma série de tuítes, começando por “Grande dia!”, seguido por um sinal de positivo. Depois, claro, Bolsonaro disse que se referia ao cumprimento de sua “missão” no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

 

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Bolsonaro tinha 45 minutos para falar sobre o Brasil, mas só usou seis: “grande fracasso”, definiu um dos principais jornais do mundo

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Também no nível escolar (ruim) foi o seu discurso em Davos. Tinha 45 minutos disponíveis para falar sobre seu projeto para o Brasil para uma plateia internacional altamente qualificada e influente. Só ocupou seis minutos e meio. Aparentemente não tinha o que dizer. Diante do público de Davos, sua apresentação foi um “big fail” (grande fracasso), como definiu o jornal americano Washington Post. No púlpito, o presidente do Brasil soava como um estudante medíocre de colégio, apresentando um trabalho copiado de um colega, porque nem convicção havia. As frases não se conectavam umas com as outras.

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“Fiasco” foi a palavra usada por uma colunista do jornal francês Le Monde, no Twitter, para definir a participação do presidente do Brasil. Para ampliar o vexame, Bolsonaro, o superministro da economia, Paulo Guedes, o superministro da Justiça, Sergio Moro, e o superdelirante chanceler, Ernesto Araújo, não apareceram para a entrevista coletiva à imprensa. Foram três explicações diferentes, nenhuma convenceu sobre o porquê do desrespeito que chocou jornalistas e os organizadores do fórum. Desconfia-se, porém, que Bolsonaro temia perguntas difíceis sobre o escândalo que ronda o primeiro filho e alcança a conta bancária de sua mulher. Afinal, os jornalistas que cobriam Davos não eram repórteres de estimação.

 

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Bolsonaro, como presidente, é o que sempre foi, aquele tio que constrange as pessoas na festa, porque tosco e sem noção. De esconder sua natureza, ninguém pode acusá-lo. Ele sempre foi isso aí. Dava para fingir que era “mito” enquanto tudo ficava no nível de torcida de futebol. Na presidência da República, porém, sua figura se desloca para outro lugar.

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Não é mais Bolsonaro, “o mito”; também não é Bolsonaro, “o coiso”. É a presidência da República, lugar com mística própria, ocupada pela mediocridade. E a mediocridade é perigosa. Os olhos de parte do mundo, como em Davos, percebem e se horrorizam. "Ele me dá medo”, disse Robert Shiller, prêmio Nobel de Economia e professor na Universidade de Yale, depois de ouvi-lo. “O Brasil é um grande país. Merece alguém melhor."

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Brasileiros que votaram em Bolsonaro pelas mais diversas razões, mas que não perderam a capacidade de fazer sinapses, passam a enxergar Bolsonaro agora com olhos de fora do gueto. O deslocamento de lugar, do palanque para o palácio, torna a bolha ocular permeável. Não é por acaso que Bolsonaro tampouco consegue deixar o discurso de candidato. Ele não sabe como ocupar o lugar de presidente. Também ele acusa a dificuldade do deslocamento. Afinal, não era uma brincadeira. Não basta mais arrotar bravatas. Do presidente as pessoas querem resultados na vida cotidiana. E não querem ver o mundo rir do despreparo pelas suas costas.

A divulgação da imagem de Bolsonaro almoçando no bandejão de Davos foi uma tentativa de candidato em campanha, de forjar a identificação, mas foi ofuscada pelo desempenho real do presidente eleito. O mundo não está gritando “mito!”, “mito!”. O mundo está perplexo com o vazio de Bolsonaro, o medíocre, liderando um país com o tamanho do Brasil e a maior porção da floresta amazônica em seu território.

Bolsonaro ocupa o cargo, está dado, já é. Vai para diante do mundo e faz um discurso de garoto de escola que estuda pouco e não presta atenção às aulas. Mesmo quem fez campanha contra tudo o que ele representa, torceu nesta hora para que algum assessor tivesse feito o trabalho para o qual é pago. Porque agora é o Brasil. O vexame de Bolsonaro é a vergonha de todos.

Neste mundo em que Bolsonaro é presidente do Brasil há garotas de escola como a sueca Greta Thunberg, de 15 anos, que no fim de agosto iniciou uma greve pelo clima. Deixou de ir às aulas e postou-se diante do parlamento, em Estocolmo, para protestar dia após dia contra a incompetência e a omissão dos políticos no enfrentamento da crise climática. Desde então, Greta inspira jovens e protestos estudantis em diversas partes do planeta.

Convidada a discursar na Cúpula Mundial do Clima, na Polônia, Greta, uma trança de cada lado do rosto redondo, fez uma fala que se tornou viral pela inteligência. Terminou com o seguinte recado à plateia sênior e ilustre: “Viemos até aqui para informar (aos líderes mundiais) que a mudança está a caminho, queiram eles ou não. As pessoas se unirão a este desafio. E já que nossos líderes se comportam como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo”.

Se Bolsonaro quer se comportar como garoto de escola, que seja com o nível de maturidade de Greta. É neste mundo que Bolsonaro passa a representar o Brasil. Não há paciência para um presidente que não tem o que dizer e para um chanceler que afirma que aquecimento global é um complô marxista. Como aponta Greta, os problemas do mundo são grandes demais para que os adultos abdiquem da maturidade necessária a uma época de crise climática, condenado jovens como a ela a ter um futuro muito ruim – ou mesmo nenhum futuro.

bolsonaro medo.jpgHomens como Paulo Guedes e Sergio Moro podem sofrer um tanto por desfilar seus peitos de peru de Natal ao lado de Bolsonaro

É possível supor que homens com a vaidade de Paulo Guedes e Sergio Moro devam sofrer um tanto por desfilar seus peitos de peru de Natal ao lado de Bolsonaro e sua entourage, em salões internacionais onde gostariam de brilhar por seu verniz intelectual. Mas se a questão fosse só a mediocridade, talvez fosse tolerável.

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O problema é que o primeiro mês de governo acaba, e é só o primeiro mês de governo, com evidências contundentes de que a família Bolsonaro – e não apenas o primeiro filho, Flávio Bolsonaro – pode estar envolvida em corrupção. E corrupção foi a grande bandeira que moveu as massas nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff e no apoio à candidatura Bolsonaro.

Como então explicar os depósitos na conta bancária do primeiro filho pelo ex-policial militar Fabricio Queiroz, ex-assessor, ex-motorista e sempre amigo de Flávio Bolsonaro? Como explicar os 24 mil reais na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro? Como explicar o enriquecimento de Flávio Bolsonaro, incompatível com seus ganhos? Como explicar que Flávio Bolsonaro pediu foro privilegiado ao Supremo Tribunal Federal – e por enquanto levou, graças ao inacreditável (em vários sentidos) ministro Luiz Fux? Como explicar o que todos os envolvidos têm feito tudo para não explicar?

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Bolsonaro se atrapalha com os próprios pés. Não sabe se deve se comportar como presidente do Brasil ou como pai de filho mimado. Possivelmente porque não há como desfazer os nós desse novelo. Como quando disse ao jornal O Globo: “Não é justo atingir o garoto, fazer o que estão fazendo com ele, para tentar me atingir. (...) Ao meu filho, aquele abraço. Fé em Deus que tudo será esclarecido, com toda certeza”.

O “garoto” tem 37 anos, é senador eleito da República e foi deputado estadual do Rio de Janeiro por quatro mandatos. Além de enriquecer rapidamente, o primeiro filho desenvolveu o dom divino da onipresença, ao conseguir a façanha de estar em duas cidades, dois estados, ao mesmo tempo. Como revelou a BBC News Brasil, entre 2000 e 2002 ele trabalhou em Brasília como assistente técnico de gabinete do PPB, partido de Bolsonaro em seu terceiro mandato como deputado federal, um emprego de 40 horas semanais. Ao mesmo tempo, cursava a faculdade de Direito na Universidade Cândido Mendes e fazia um estágio na Defensoria Pública do Estado, no Rio de Janeiro.

Ao ser indagado pela jornalista do Washington Post Lally Weymouth sobre o escândalo envolvendo seu filho, que teria “empregado pessoas com laços estreitos com membros de gangues”, Bolsonaro quase deu piti : “Este não é um assunto de governo – ou da sua conta – mas eu vou dar a minha opinião. Seu nome de família, Bolsonaro, é a razão. É resultado de acusações políticas ao meu governo”. Neste momento, até mesmo bolsonaristas fiéis começam a achar que as suspeitas que pairam sobre o primeiro filho são da conta de todos os brasileiros, sim.

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Aliados estratégicos como o MBL e Janaína Paschoal começam a afastar o corpinho

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Aliados estratégicos tanto no impeachment de Dilma Rousseff quanto no apoio à campanha de Bolsonaro começam a afastar o corpinho para o lado, a exemplo do Movimento Brasil Livre (MBL), que só tem compromisso com seu próprio projeto de poder. E como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL), uma das autoras do pedido de impeachment que acabou afastando Rousseff, eleita por São Paulo com dois milhões de votos. Não há espaço para bobos nesse jogo pesado.

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“Não sou guru dessa porcaria”, diz o guru

Em entrevista ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, no jornal O Estado de S. Paulo, Janaina Paschoal afirmou: "(Flavio Bolsonaro) tem todo o direito à defesa, a entrar com todas as medidas, mas me parece complicado ver uma reação parecida com a que foi a do Aécio (Neves), e com a que é a do Lula até hoje”. E, em outro trecho: “O sigilo sobre a investigação não pode haver. Vamos imaginar que haja alguma coisa errada com o senador. Se isso tivesse aparecido antes da eleição, ele provavelmente não teria sido eleito". Paschoal contou também que seu pai perguntou a ela se continuaria no PSL após essas denúncias. Ela está pesquisando a legislação para ver se é possível deixar o partido sem perder o mandato.

Até mesmo o guru do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho, anda se irritando por ser chamado de guru do governo Bolsonaro. Quando um grupo de parlamentares do PSL foi para a China, ele gravou um vídeo dizendo: “E eu sou guru dessa porcaria? Não sou guru de merda nenhuma”.

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Um escândalo de corrupção no primeiro mês de qualquer governo é um problema. Um escândalo de corrupção no primeiro mês de um governo que apoiou sua plataforma no discurso fácil da anticorrupção é um pesadelo. As suspeitas, porém, vão muito além da corrupção. Elas alcançam relações mais perigosas. E não com qualquer crime, mas um crime de repercussão internacional: o assassinato de Marielle Franco, uma vereadora negra, lésbica e moradora da Maré, ocorrido há quase 11 meses sem que a polícia tenha concluído a apuração. Quando 2018 terminou, as autoridades responsáveis chegaram ao fundo do buraco sem fundo: tentavam apurar porque não conseguiam apurar o crime. Hoje, finalmente, a investigação começa a avançar. E chega bem perto da família do presidente.

Flávio Bolsonaro pode estar envolvido com a milícia Escritório do Crime, principal suspeita do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. A mãe e a mulher do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, um dos líderes da milícia e hoje foragido, trabalhavam no seu gabinete. Como deputado estadual, Flavio deu a Nóbrega a medalha Tiradentes, a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Na ocasião, o então PM estava preso por um dos homicídios atribuídos a ele.

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As milícias cariocas são organizações criminosas formadas majoritariamente por agentes do Estado ligados às forças de segurança, como policiais civis e militares, bombeiros, agentes penitenciários e integrantes do Exército. Os vários episódios em que Flavio apoiou e protegeu esses criminosos que extorquem e aterrorizam as comunidades pobres, assim como matam por encomenda, são agora lembrados. As conexões tornam-se mais explícitas à luz dos novos fatos.

Dois pesos, duas medidas: o filho de 37 anos, que pode estar envolvido com milícias e corrupção, é “garoto”; já para os garotos dos pobres têm que reduzir a maioridade penal já

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O presidente que, tão logo assumiu, liberou a posse de armas de fogo num país com quase 64 mil assassinatos por ano tem um filho próximo das milícias que produzem crimes. É interessante observar a diferença dos pesos e medidas: o filho de 37 anos, senador eleito, seria um “garoto” vítima de uma campanha difamatória para atingir seu governo, na versão do presidente do Brasil. Já para os filhos dos outros, a maioria negros e pobres, os que de fato são garotos, a turma de Bolsonaro defende cadeia já. Quando não pena de morte. Para o próprio filho, maioridade penal aumentada para, quem sabe, 40 anos. Para os filhos dos outros, maioridade penal reduzida.

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Queiroz é uma bomba-relógio bem no meio da mesa de pão com leite condensado e copos de plástico da família Bolsonaro, aquela que apostou no marketing do gente como a gente na campanha eleitoral. Mas quem quer agora ser gente como essa gente?

Apenas no primeiro mês de governo, a família Bolsonaro aparece com suspeitas de envolvimento com corrupção e de proximidade com a milícia que pode ter assassinado uma das mais atuantes vereadoras de esquerda da nova geração de parlamentares. O que virá nos próximos meses ou nos próximos quatro anos? A pergunta não assombra apenas os opositores, começa a tirar o sono dos aliados.

Este pode não ser um problema para Paulo Guedes, já que os chamados Chicago Boys não tiveram dilemas morais ou éticos para comandar a economia na ditadura de Augusto Pinochet, entre os anos de 1973 e 1990, no Chile. Lá implantaram um programa extremista neoliberal só possível num regime de exceção, que não precisa convencer a sociedade ou negociar com ela, apenas impor medidas pelo caminho autoritário.

Pode, porém, ser um problema para Sergio Moro, que quer muito passar para a história como o herói anticorrupção, o superjuiz da Lava Jato que “limpou” o Brasil. Moro pode estar se perguntando como fará para não manchar sua capa no esgoto dos Bolsonaro. Já não estava fácil conviver com ministros que veem Jesus em goiabeira e acusam a esquerda de criminalizar o ar-condicionado. Mas o dedão do Queiroz na conta bancária da primeira-dama é de outra ordem.

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Quando Bolsonaro despontou como o possível vitorioso desta eleição, diferentes elites se aproximaram dele com a certeza de que poderiam usar sua popularidade para chegar ao poder – ou apenas para mantê-lo. Setores do Exército sabiam que ele era um capitão que não respeitava hierarquia, um subordinado que já tinha se mostrado fora de qualquer controle, o que determinou tanto sua saída das Forças Armadas quanto o início de uma carreira de quase três décadas como deputado bufão. Mesmo assim, decidiram arriscar.

Estavam errados? Depende do ponto de vista e dos objetivos. A operação que levou ao poder um capitão reformado notável pelo despreparo, mas que se mostrou altamente popular, é brilhante. Bolsonaro não representava as Forças Armadas. O que ele podia representar, com quase 30 anos no baixo clero do Congresso, é o baixo clero do Congresso. Mas Bolsonaro usou o Exército e foi usado por ele.

O terceiro filho, Eduardo Bolsonaro, não estava totalmente errado ao dizer que o pai se colocaria além do risco de impeachment se tivesse como vice um general. Ele estava, ao mesmo tempo, reconhecendo o trauma deixado pela ditadura e usando o trauma deixado pela ditadura a favor da família. Aparentemente, seria muito difícil um general se eleger presidente pelo voto num país que amargou 21 anos de um regime de exceção comandado por uma sequência de generais. Aparentemente, seria difícil que os brasileiros desejassem que um vice que também é general passasse a ocupar o posto máximo da República. Aparentemente, Mourão usaria sua proximidade com as forças armadas para proteger o mandato de ambos.

Ao apoiar a eleição de Bolsonaro, os generais conseguiram uma façanha como estrategistas políticos

Ao apoiar a eleição de Bolsonaro, os generais da ativa e da reserva conseguiram uma façanha como estrategistas políticos. A composição do governo Bolsonaro é complexa. Mas, de tudo o que é, este é um governo militarizado: o vice-presidente é general da reserva, o porta-voz é um general da ativa e sete ministros são militares, o equivalente a um terço do ministério. Segundo o jornalista Rubens Valente, em reportagem da Folha de S. Paulo de 20 de janeiro, já passam de 45 os militares nomeados ou prestes a serem nomeados em 21 áreas do governo, “da assessoria da presidência da Caixa Econômica ao gabinete do Ministério da Educação; da diretoria-geral da hidrelétrica Itaipu à presidência do conselho de administração da Petrobras”.

O número de militares no governo cresce a cada dia. É um grande poder não apenas de influência, mas de ação, com “uma força econômica que ultrapassa as centenas de bilhões de reais”. O que falta para ser um governo militar? Esta é uma pergunta que não tem resposta fácil, mas cuja resposta já está sendo construída.

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As Forças Armadas devem a Bolsonaro a volta dos militares ao poder na democracia

As Forças Armadas, e especialmente o Exército, consumaram a proeza de voltar ao poder na democracia. Devem isso a Bolsonaro. O então deputado, com sua estridência e histrionismo, prestou vários serviços às fardas. O Brasil não lidou com o seu passado. Os sequestradores, torturadores e assassinos a serviço do Estado no período da ditadura militar (1964-85) nunca foram punidos, como foram exemplarmente em países vizinhos, caso da Argentina e do Chile. A operação de apagamento da memória teve um custo alto para o Brasil e é um dos principais fatores que levaram o país à situação atual, como já escrevi neste espaço mais de uma vez.

Até mesmo o tímido esforço que foi feito, no governo de Dilma Rousseff (PT), para esclarecer os crimes do período de exceção, incomodou a cúpula militar. Ainda hoje há mais de 200 desaparecidos pelo regime. Suas famílias estão condenadas a viver sem conseguir enterrar seus mortos e fazer o luto. Mesmo assim, os generais detestaram a Comissão Nacional da Verdade, que apontou mais de 300 agentes do Estado envolvidos com sequestros, torturas e assassinatos. E olharam com muita preocupação para as pressões de vários atores da sociedade civil para revisar a Lei da Anistia no Supremo Tribunal Federal.

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Ao homenagear o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais sádicos torturadores e assassinos da ditadura, em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro presta um grande serviço à revisão da história que uma parcela dos militares de alta patente tanto desejam. Tinha que ser alguém fora de controle para homenagear um torturador no impeachment de uma presidente que foi torturada pelo regime de exceção e, assim, romper a barreira do que os ultradireitistas chamam erroneamente de “politicamente correto”. O descontrole que levou Bolsonaro a deixar as forças armadas e iniciar a carreira política, neste novo momento do país passara a se tornar útil para alguns peitos estrelados. Sempre é preciso um fanfarrão sem escrúpulos para que os moderados possam continuar polindo as suas espadas.

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A eleição de Bolsonaro significou a chance de mudar a história. E uma parcela dos militares de alta patente quer muito mudar a história. Ou evitar que ela seja finalmente passada a limpo.

Em 2017, o atual vice-presidente, Hamilton Mourão, defendeu um golpe militar caso o judiciário não punisse os corruptos: ou o judiciário punia os corruptos do país “ou então nós (do Exército) teremos que impor isso”. Antes, em 2015, já havia perdido o prestigioso comando das forças militares do sul pela soltura da língua, ao afirmar numa palestra que a substituição da presidenta Dilma Rousseff teria como vantagem “o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”. No início de 2018, Mourão foi para a reserva.

Mourão, o recém convertido ao evangelho da moderação, ocupa hoje o único cargo em que não pode ser demitido por Bolsonaro

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Vejam só onde está agora: no único cargo em que não pode ser demitido por Bolsonaro, porque também foi eleito. Mourão, o que afirmou à Globo News admitir o “autogolpe” com “o emprego das Forças Armadas”, em caso de “anarquia”. Mourão, aquele que defendeu uma constituinte sem participação popular, feita por uma “comissão de notáveis”. Mourão, o que chamou os africanos de “malandros” e os indígenas de “indolentes”. Mourão, o que disse que as famílias chefiadas por mães e avós nas comunidades pobres eram “uma fábrica de desajustados”. Mourão, aquele que chamou o décimo-terceiro salário de “jabuticaba nacional”. Mourão, que também admira o torturador Ustra, a quem justificou os atos criminosos com a seguinte frase: “Heróis matam”.

Este homem despontou no primeiro mês de governo como Mourão, o moderado. Ou Mourão, o sensato. Ou ainda Mourão, o gentil. Não apenas porque Bolsonaro vai se tornando rapidamente um bode com odor cada vez mais forte numa sala que se tornou apertada pelo acúmulo de fardas e estrelas no peito, mas também porque Mourão tem se esforçado bastante para poder convencer o Brasil da autenticidade do seu novo papel.

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Até mesmo o escândalo da promoção do filho do vice, que numa canetada teve o salário elevado de 14 mil para 36.500 reais, desidratou diante das suspeitas que pesam sobre o filho do presidente. Afinal, nesta disputa inglória, o que é uma promoção de um funcionário de carreira do Banco do Brasil comparada à suspeita de corrupção e envolvimento com milícias? Este é o tipo de escolha que o Brasil precisou fazer no primeiro mês do governo.

Não é de hoje que Mourão desautoriza Bolsonaro, tratando-o como o garoto que ele parece ser. Como quando disse à jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo: “Não podemos nos descuidar do relacionamento com a China (...) Aquilo (a declaração de que a China está tentando comprar o Brasil) é mais uma retórica de campanha, né? Com as redes sociais, muita coisa flui e não é a realidade. Uma briga com a China não é uma boa briga, certo?”. Ou: “Não resta dúvida de que existe aquecimento global, não acho que seja uma trama marxista”.

Na segunda-feira (28/1), encontrou-se com o embaixador da Palestina e botou em dúvida a várias vezes anunciada transferência da embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, uma promessa de Bolsonaro aos evangélicos neopentecostais que veem a cidade como o futuro palco do Armageddon. “O Estado brasileiro, por enquanto, não está pensando em nenhuma mudança da embaixada”, afirmou no dia em que Bolsonaro fez sua terceira cirurgia após o atentado à faca sofrido durante a campanha eleitoral.

Enquanto sorri e distribui fofoletices, Mourão acaba, na prática, com a Lei de Acesso à Informação

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Enquanto sorri para embaixadores e empresários e manda recados amistosos para a imprensa pelo Twitter, Mourão diz bastante sobre o quê de fato representa. Ao assumir a presidência do país quando Bolsonaro estava em Davos, ele na prática acabou com a Lei de Acesso à Informação, promulgada por Dilma Rousseff, uma conquista da sociedade e da democracia em favor da transparência. O decreto de Mourão amplia – e muito – o número de pessoas que podem classificar documentos do governo como ultrassecretos, o que os torna inacessíveis por 25 anos, que podem ser prorrogados por mais 25 anos. Agora, até uma parcela dos funcionários comissionados têm o poder de evitar que a população tenha conhecimento dos atos do governo. É a ação mais contundente de censura – e é só o primeiro mês. É também uma canetada compatível com um regime de exceção.

Diante do anúncio de Jean Wyllys de que não assumiria o mandato para o qual foi eleito e deixaria o país para não ser morto, Mourão soou mais moderado na imprensa. Mas comparado a quem? Ao presidente que faz molecagens no Twitter.

A declaração mais valorizada de Mourão foi: “Quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia. Uma das coisas mais importantes é você ter sua opinião e ter liberdade para expressar sua opinião. Os parlamentares estão ali, eleitos pelo voto, representam cidadãos que votaram neles. Quer você goste, quer você não gosta das ideias do cara, você ouve. Se gostou bate palma, se não gostou, paciência”.

A declaração que mais demanda atenção é: “Temos que aguardar quais são essas ameaças, porque ele falou de forma genérica. Se ele está ameaçado tem de dizer por quem e como. Não estou na chuteira do Jean Wyllys. Ele que sabe qual é o grau de confusão que ele está metido”.

Primeiro: quem tem que investigar e descobrir os culpados é a Polícia Federal. Segundo: não há nada de “genérico” nas denúncias que foram feitas por Jean Wyllys e que geraram uma medida cautelar da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, determinando que o Estado brasileiro garantisse a proteção do deputado e de sua família. As ameaças de morte contra o deputado tanto não são genéricas que o ministério da Justiça de Sergio Moro se apressou a dizer que a Polícia Federal estava investigando e que já tinha prendido pelo menos um dos responsáveis. Terceiro: a frase sobre “o grau de confusão que ele está metido” claramente busca culpar a vítima. Ameaça de morte não é “grau de confusão”. É ameaça de morte, é crime.

Mourão se moderou, mas ainda sofre de incontinência verbal, afinal não se muda de uma hora para outra os hábitos de uma vida inteira. O vice que já assumiu duas vezes a presidência no primeiro mês de governo é como o escorpião da fábula: quase chega à outra margem do rio, mas não consegue deixar de picar o sapo que o transporta. Um problema, possivelmente, para o grupo de generais no poder.

Por enquanto, porém, Mourão tem encarnado o adulto na sala. É o pai do garoto. Que, por sua vez, é pai de outro garoto, o amigo e ex-empregador do Queiroz. Este, por sua vez, não é garoto – e sim a primeira sombra do governo de Bolsonaro. E que sombra.

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Qualquer declaração de Mourão soa melhor do que os emoticons de Bolsonaro. A operação mental que caracteriza o desespero faz com que mesmo os mais céticos se agarrem a qualquer promessa de equilíbrio. Bolsonaro tem feito uma parcela crescente de brasileiros se sentirem muito inseguros. Mesmo quem votou nele e segue brigando por ele nas redes sociais, com a elegância habitual, sabe que não faz sentido. Ele já está eleito. O problema agora é que governa.

Amador, o clã Bolsonaro acreditou cedo demais que tinha enterrado a imprensa

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Entre os erros do clã Bolsonaro e de seu entorno está o de acreditar que a imprensa está morta. Não é tão fácil assim. As redes sociais e plataformas da internet têm poder, especialmente quando são fraudadas as regras eleitorais usando o WhatsApp, mas a TV ainda é o principal veículo de informação da população no Brasil. Parte da imprensa brasileira tem feito jornalismo como há tempo não se via. Uma pena que não tenha sido sempre assim.

Todos ganham com a imprensa fazendo bem o seu trabalho. É preciso continuar prestando atenção no jogo pesado que se faz por cima, no andar dos donos do poder. Bolsonaro se tornou impossível de engolir, porque entrou em confronto direto com parte das famílias proprietárias dos grandes meios de comunicação. Mas isso sempre pode ser alterado. Pesa contra ele, porém, sua imprevisibilidade, já que ele costuma mudar de ideia e descumprir os acordos. Por outro lado, esses mesmos proprietários cultivam boas relações jamais perdidas com a cúpula militar. Os próximos dias mostrarão quem faz bom jornalismo sempre, e não só conforme a ocasião.

Quando fez o seu vaticínio, o terceiro filho não poderia saber que efeito Bolsonaro teria no poder. Feito à imagem e semelhança do pai, o filho se olha no espelho e também se acha o máximo. Circula apenas pelas bolhas e todos dizem que sua família é incrível. A realidade vem mostrando que, diante de um Bolsonaro ameaçado pelo escândalo da corrupção e do envolvimento com a milícia suspeita de assassinar Marielle, o vice “faca na caveira” pode assustar menos. Muito menos. O vice “faca na caveira” vem se tornando uma referência de autoridade, confiança e equilíbrio, objetivo claro de todos os movimentos de Mourão num jogo que o clã Bolsonaro tem a ilusão de dominar, mas só conhece meia dúzia de estratégias.

Manter Bolsonaro com a faixa e como fachada, mas sob controle, pode se tornar impossível se as investigações aprofundarem as conexões familiares com a corrupção e as milícias

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O Bolsonaro fanfarrão pode ser tolerado. Alguns dos grupos que sustentam seu governo acreditaram, em minha opinião com excesso de otimismo, que poderiam manipular e controlar o cabeça de chapa. Mas o Bolsonaro que pode estar envolvido com corrupção e tem um filho próximo às milícias assassinas do Rio de Janeiro é muito mais complicado. Começa a ficar constrangedor e impossível de justificar. Conforme o desenrolar dos fatos, o barulho do ralo pode ameaçar o projeto de poder. Já não há como voltar atrás: os militares foram fundo, já se tornaram fiadores do atual governo.

O que fazer então com Bolsonaro, este que chega ao final do primeiro mês com a popularidade começando a desidratar? O que era o plano de alguns, mantê-lo com a faixa e como fachada, afinal ele é o “mito”, mas sob controle, pode deixar de ser uma alternativa viável se as investigações descobrirem mais esqueletos no armário dos Bolsonaro. Conforme a apuração, tanto da corrupção quanto do assassinato de Marielle, um impeachment pode ser inevitável, como alguns articulistas já apontaram. Mas é traumático demais e muitos tentarão evitar o segundo afastamento de um presidente eleito na sequência, o terceiro desde a redemocratização. Há outras possibilidades, entre elas o afastamento por problemas de saúde, por exemplo. Tudo depende do que as investigações vão revelar nas próximas semanas e meses.

Bolsonaro já sentiu na nuca o bafo de Mourão, tanto que decidiu despachar, pelo menos oficialmente, da cama do hospital onde se recupera de uma cirurgia. Afinal, em pouco mais de três décadas o Brasil já teve três vices assumindo o poder – um por morte do titular, os outros dois por impeachment. Até Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, anda nervoso. Fez um vídeo desancando Mourão. Sem seu adorador, o guru perde o prestígio recém adquirido. Os constrangedores ministros que indicou – e emplacou – também podem virar passado.

O futuro próximo do governo depende em grande parte do desempenho da economia. Os brasileiros já comprovaram que podem conviver com qualquer coisa se a vida cotidiana melhorar ou se sentirem que tem alguma vantagem. As várias vitórias de Paulo Maluf, no maior colégio eleitoral do país, estão aí para não deixar ninguém esquecer.

O que os militares querem? Reescrever a história

O que os militares querem? Muito. Talvez o que mais queiram seja mudar o passado e reescrever seu papel na história do Brasil, como já ficou claro. Penso que também queiram escrever um futuro que redima a imagem que desejam de todo jeito apagar. Já começam a aparecer como heróis, como repositório de confiança num governo povoado por delirantes, no sentido estrito da palavra, e/ou oportunistas.

Não é aconselhável tentar prever o futuro, só é possível ler os sinais do presente. O fato mais revelador do primeiro mês do governo militarizado de ultradireita é: o parlamentar que cuspiu em Bolsonaro quando ele homenageou Ustra, um torturador da ditadura que levava crianças pequenas para ver os pais torturados, foi obrigado a deixar o Brasil para não ser assassinado.

 

 

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