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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

22
Fev24

Brasil denuncia Israel em Haia e diz que ocupação é ‘inaceitável e ilegal’

Talis Andrade

israel gaza brandan-reynolds.jpg

 

Lula faz duras críticas às interrupções na ajuda humanitária em Gaza por países da elite global

 

 

Por Agência Brasil /Ninja

O Brasil pediu nesta terça-feira (20) à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, nos Países Baixos, que declare como ilegal a ocupação dos territórios palestinos por forças militares de Israel. Para o Brasil, a ocupação, que dura desde 1967, viola as leis internacionais e o direito à autodeterminação do povo palestino.

“O Brasil espera que o tribunal reafirme que a ocupação israelense dos territórios palestinos é ilegal e viola obrigações internacionais por meio de uma série de ações e omissões de Israel”, afirmou a representante do Brasil em Haia, Maria Clara de Paula Tusco.

A diplomata brasileira acrescentou que práticas persistentes da ocupação de Israel nas terras palestinas “equivalem à anexação” daqueles territórios e pediu que a Corte leve em conta medidas tomadas por Israel, como o confisco de terras palestinas, a destruição de casas dos palestinos, a construção de colônias israelenses e do muro na Cisjordânia, além da adoção de medidas que alteram a composição demográfica dos territórios ocupados.

O governo brasileiro se manifestou em audiência pública na CIJ, principal órgão judicial das Nações Unidas (ONU). A Corte realiza audiências públicas até a próxima segunda-feira (26) para ouvir 52 países sobre a consulta que a Assembleia geral da ONU fez aos juízes do tribunal internacional.

Em resolução aprovada em dezembro de 2022, a Assembleia-Geral da ONU questionou a CIJ sobre as “Consequências Jurídicas decorrentes das Políticas e Práticas de Israel no Território Palestino Ocupado”. Os países querem saber, entre outras informações, o que Israel pode sofrer por supostamente violar o direito do povo palestino à autodeterminação.

Segundo a representante do Brasil na ONU, a decisão do país de participar dessa consulta é devido ao “compromisso histórico do país de respeitar o direito internacional, de fomentar o multilateralismo e de promover a solução pacífica de controvérsias”.

Ainda segundo o Brasil, a violação do direito dos palestinos à autodeterminação “não pode ser aceita, muito menos normalizada pela comunidade internacional”. Maria Clara lembrou ainda que a Resolução do Conselho de Segurança da ONU 242, de 1967, enfatizou a proibição da aquisição de território pela força e instruiu Israel a retirar as suas tropas das terras então recentemente ocupadas.

“No entanto, a ocupação persiste até hoje e foi agravada pela construção do muro de separação do território palestino, pela construção de colônias ilegais na Cisjordânia e pela anexação de Jerusalém Oriental”, acrescentou.

 

Discriminação

O governo brasileiro ainda destacou que o estabelecimento de dois sistemas jurídicos distintos, um para os colonos israelenses e outro para os palestinos na Cisjordânia ocupada, representa uma discriminação contra o povo palestino.

“Este tratamento diferenciado é evidente e bem documentado e também deve ser abordado pelo tribunal”, acrescentou a representante brasileira.

O regime político-jurídico na Cisjordânia ocupada tem sido denunciado como um regime de apartheid por organizações internacionais de direitos humanos, como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, e por relatores independentes da ONU. As autoridades israelenses rejeitam essa avaliação.

 

Medidas

Ao final da manifestação, o Brasil enumerou as medidas que espera que sejam tomadas para pôr fim a ocupação. Entre elas, estão o fim da ocupação de Israel e a reparação ao povo palestino pelas violações cometidas. Além disso, o Brasil pede que nenhum Estado reconheça a ocupação e que não adotem ações ou medidas que colaborem com a ocupação desses territórios.

Por fim, a diplomata Maria Clara de Paula Tusco reforçou que o Brasil defende a solução de dois Estados para o encerramento do conflito. “A criação de um Estado palestino independente, soberano e economicamente viável, coexistindo com Israel em paz e segurança, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e internacionalmente reconhecidas, que incluem a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental como sua capital”.

 

Israel

O governo de Israel não vai participar das audiências públicas para discutir a ocupação dos territórios palestinos. Em documento de cinco páginas enviado à CIJ, Israel condenou a resolução que determinou a análise do caso, dizendo que a decisão representa uma “distorção da história e da realidade atual do conflito israelense-palestino” e que, por isso, prejudica a construção da paz.

“Ao apontar o dedo apenas para um lado, as questões ignoram milhares de israelenses mortos e feridos que foram vítimas de atos assassinos de ódio palestinos e do terrorismo – atos que continuam a pôr em perigo diariamente os civis e a segurança nacional de Israel”, afirma o documento.

 

Entenda

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha transferiu para as Nações Unidas a responsabilidade pelo território que hoje é ocupado por Israel e pela Palestina. Desde o final da Primeira Guerra Mundial, a chamada Palestina histórica era controlada pelos ingleses.

Com a Resolução 181, de 1947, a Assembleia-Geral da ONU recomendou a partilha da Palestina entre judeus e árabes. Porém, apenas o Estado de Israel foi criado. Em 1967, após mais uma guerra na região, Israel ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e a Jerusalém Oriental, que então estavam sob o controle do Egito e da Jordânia.

Após esse conflito, a Assembleia da ONU aprovou a Resolução 242, de 1967, que determinou “a retirada das forças armadas israelitas dos territórios que ocuparam”.

Apesar dessa resolução, a construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia continuou e hoje são 300 colônias consideradas ilegais, segundo a ONU, dentro da Cisjordânia, onde vivem cerca de 700 mil colonos israelenses.

Em 2005, Israel deixou a Faixa de Gaza, apesar de manter um cerco ao enclave controlando a saída e a entrada de pessoas e mercadorias.

Gaza Yaser Abo Hamed.jpg

 

30
Dez23

Inquérito contra Breno Altman por críticas ao sionismo é assédio ao jornalista

Talis Andrade

Breno Altman

 

por Patricia Faermann

 

O inquérito contra o jornalista Breno Altman, aberto pela Polícia Federal (PF), acusando-o de antissemitismo por suas críticas ao regime sionista e ao genocídio do povo palestino, é um assédio contra o jornalista, segundo a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

“Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos”, escreveu a instituição, em nota.

“Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças”, continuou.

A ABI pediu o arquivamento do inquérito ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal.

Leia a nota na íntegra:

INQUÉRITO CONTRA BRENO ALTMAN É INTIMIDAÇÃO!

Pelas informações veiculadas na manhã deste sábado no site Brasil 247, o inquérito é resultado de reclamação descabida da Confederação Israelita do Brasil, que de forma enviesada e conveniente rotula as críticas de Altman ao sionismo como antissemitismo.

A ABI lembra que a Constituição de 1988 garante a todo e qualquer cidadão a liberdade de expressão. Da mesma forma, respaldado nesse princípio constitucional, o Supremo Tribunal Federal tem garantido por inúmeras decisões a liberdade de imprensa, assegurando a todos os jornalistas o direito à crítica. 

Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças. 

Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos.

Nesse sentido, entende que o próprio MPF ou a Justiça Federal, respeitando o estado democrático de direito e a Constituição Cidadã, devem providenciar o trancamento desse inquérito.

Certos de que a democracia que saiu vitoriosa no 8 de janeiro de 2023 prevalecerá e será respeitada, a ABI aguarda providências dos responsáveis por tal situação para dar um fim à campanha intimidatória que Altman vem sofrendo.

Aproveitamos o ensejo para desejar a todos um próspero 2024, no qual a democracia, a liberdade de expressão e de imprensa prevaleçam.

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2023  

08
Nov23

O contexto da ocupação israelense

Talis Andrade
 
 
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A des-historicização do que está acontecendo ajuda Israel

a seguir políticas genocidas em Gaza.

 

por Ilan Pappe 

Tradução Pedro Paulo Zahluth Bastos

- - -

Em 24 de outubro, uma declaração do Secretário-Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, causou uma forte reação de Israel. Ao se dirigir ao Conselho de Segurança da ONU, o chefe da ONU disse que, embora condenasse com veemência o massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro, queria lembrar ao mundo que ele não ocorreu em um vácuo. Ele explicou que não se pode dissociar nossa preocupação com a tragédia que ocorreu naquele dia e os 56 anos de ocupação israelense de territórios.

O governo israelense não demorou a condenar a declaração. Autoridades israelenses exigiram a renúncia de Antonio Guterres, alegando que ele apoiou o Hamas e justificou o massacre. A mídia israelense se juntou ao movimento, afirmando, entre outras coisas, que o chefe da ONU “demonstrou um grau impressionante de falência moral”.

Essa reação sugere que um novo tipo de alegação de antissemitismo pode estar surgindo. Até 7 de outubro, Israel pressionava para que a definição de antissemitismo fosse ampliada para incluir críticas ao Estado israelense e questionamentos sobre a base moral do sionismo. Agora, contextualizar e historicizar o que está acontecendo também pode provocar acusação de antissemitismo.

A des-historicização desses eventos ajuda Israel e os governos do Ocidente a adotar políticas que eles evitavam no passado devido a considerações éticas, táticas ou estratégicas.

Assim, o ataque de 7 de outubro é usado por Israel como pretexto para praticar políticas genocidas na Faixa de Gaza. É também um pretexto para os Estados Unidos tentarem reafirmar sua presença no Oriente Médio. E é um pretexto para alguns países europeus violarem e limitarem as liberdades democráticas em nome de uma nova “guerra contra o terror”.

Contudo, há vários contextos históricos para a situação atual em Israel-Palestina que não podem ser ignorados. O contexto histórico mais amplo remonta a meados do século XIX, quando o cristianismo evangélico no Ocidente transformou a ideia do “retorno dos judeus” em um imperativo religioso milenar e defendeu o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina como parte do caminho que levaria à ressurreição dos mortos, ao retorno do Messias e ao fim dos tempos.

A teologia tornou-se política no final do século XIX e nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial por dois motivos. Em primeiro lugar, ela serviu aos interesses daqueles que, na Grã-Bretanha, desejavam desmantelar o Império otomano e incorporar parte dele ao Império britânico. Em segundo lugar, repercutiu entre os membros da aristocracia britânica, tanto judeus quanto cristãos, que se encantaram com a ideia do sionismo como uma panaceia para o problema do antissemitismo na Europa Central e Oriental, que havia produzido uma onda indesejada de imigração judaica para a Grã-Bretanha.

Quando esses dois interesses se fundiram, eles levaram o governo britânico a emitir a famosa – ou infame – Declaração de Balfour em 1917.

Os pensadores e ativistas judeus que redefiniram o judaísmo como nacionalismo esperavam que essa definição protegesse as comunidades judaicas do perigo existencial na Europa, focando na Palestina como o espaço almejado para o “renascimento da nação judaica”.

No processo, o projeto cultural e intelectual sionista transformou-se em um projeto de colonização por povoamento, cujo objetivo era judaizar a Palestina histórica, desconsiderando o fato de que ela era habitada por uma população nativa.

Por sua vez, a sociedade palestina, bastante pastoril naquela época e em seu estágio inicial de modernização e construção de uma identidade nacional, produziu seu próprio movimento anticolonial. Sua primeira ação significativa contra o projeto de colonização sionista ocorreu com a Revolta de al-Buraq, em 1929, e não cessou desde então.

Outro contexto histórico relevante para a crise atual é a limpeza étnica da Palestina em 1948, que incluiu a expulsão forçada de palestinos para a Faixa de Gaza a partir de vilarejos em cujas ruínas foram construídos alguns dos assentamentos israelenses atacados em 7 de outubro. Esses palestinos desenraizados faziam parte dos 750.000 palestinos que perderam suas casas e se converteram em refugiados.

Essa limpeza étnica foi percebida pelo mundo, mas não foi condenada. Como resultado, Israel continuou a recorrer à limpeza étnica como parte de seu esforço para garantir o controle total da Palestina histórica com o menor número possível de palestinos nativos. Isso incluiu a expulsão de 300.000 palestinos durante e após a guerra de 1967 e a expulsão de mais de 600.000 da Cisjordânia, de Jerusalém e da Faixa de Gaza desde então.

Há também o contexto da ocupação israelense da Cisjordânia e de Gaza. Nos últimos 50 anos, as forças de ocupação impuseram uma punição coletiva contínua aos palestinos nesses territórios, expondo-os à perseguição constante dos colonos e das forças de segurança israelenses, e prendendo centenas de milhares deles.

Desde a eleição do atual governo fundamentalista messiânico israelense em novembro de 2022, todas essas políticas severas atingiram níveis sem precedentes. O número de palestinos mortos, feridos e presos na Cisjordânia ocupada disparou. Ainda por cima, as políticas do governo israelense em relação aos locais sagrados cristãos e muçulmanos em Jerusalém se tornaram ainda mais agressivas.

Por fim, há também o contexto histórico do cerco de 16 anos a Gaza, onde quase metade da população é composta por crianças. Em 2018, a ONU já estava alertando que a Faixa de Gaza se tornaria um lugar impróprio para humanos até 2020.

É importante lembrar que o cerco foi imposto em resposta às eleições democráticas vencidas pelo Hamas após a retirada israelense unilateral de Gaza. Ainda mais importante é retroceder à década de 1990, quando a Faixa de Gaza foi cercada por arame farpado e desconectada da Cisjordânia ocupada e de Jerusalém Oriental após os Acordos de Oslo.

O isolamento de Gaza, a cerca ao seu redor e o aumento da judaização da Cisjordânia foram uma indicação clara de que, aos olhos dos israelenses, Oslo significava uma ocupação por outros meios, não um caminho para a paz genuína.

Israel controlava os pontos de entrada e saída do gueto de Gaza, monitorando até mesmo o tipo de alimento que entrava, às vezes limitando-o a um determinado número de calorias. O Hamas reagiu a esse cerco debilitante lançando foguetes em áreas civis de Israel.

O governo israelense alegava que esses ataques eram motivados pelo desejo ideológico do movimento de matar judeus – uma nova forma de nazismo – desconsiderando tanto o contexto da Nakba quanto o cerco desumano e bárbaro imposto a dois milhões de pessoas e a opressão de seus compatriotas em outras partes da Palestina histórica.

O Hamas, em muitos aspectos, foi o único grupo palestino que se comprometeu a retaliar ou responder a essas políticas. No entanto, a maneira como ele decidiu reagir pode levar à sua própria ruína, pelo menos na Faixa de Gaza, e também pode fornecer um pretexto para uma maior opressão do povo palestino.

A selvageria de seu ataque não pode ser justificada de forma alguma, mas isso não significa que não possa ser explicada e contextualizada. Por mais terrível que tenha sido, a má notícia é que não se trata de um evento que mude o jogo, apesar do enorme custo humano de ambos os lados. O que isso significa para o futuro?

Israel permanecerá um Estado estabelecido por um movimento de ocupação colonial, que continuará a influenciar seu DNA político e a determinar sua natureza ideológica. Isso significa que, apesar de seu autorretrato como a única democracia do Oriente Médio, ele continuará sendo uma democracia apenas para seus cidadãos judeus.

A luta interna em Israel entre o que se pode chamar de Estado da Judeia – o Estado colonizador que deseja que Israel seja mais teocrático e racista – e o Estado de Israel – que deseja manter o status quo – que movimentou Israel até 7 de outubro, entrará em erupção novamente. De fato, já há sinais de seu retorno.

Israel continuará a ser um Estado de apartheid – conforme declarado por várias organizações de direitos humanos – independentemente do desenrolar da situação em Gaza. Os palestinos não desaparecerão e continuarão sua luta pela libertação, com muitas sociedades civis a seu lado, ao mesmo tempo em que seus governos apoiam Israel e lhe concedem uma imunidade excepcional.

A saída continua a mesma: uma mudança de regime em Israel que traga direitos iguais para todos, do rio ao mar, e permita o retorno dos refugiados palestinos. Caso contrário, o ciclo de derramamento de sangue não terá fim.

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05
Nov23

Israel na Palestina - 2

Talis Andrade
 
 
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Façam o que puderem. Isto não pode continuar…

 

por Gilberto Lopes

 

A mais grave? Talvez, mas basta olhar para a história e descobrir que, vez ou outra, ela se repete. Em julho de 2014, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas reuniu-se em Genebra para discutir uma nova incursão israelense em Gaza, a chamada operação “Margem de Proteção”. De acordo com várias estimativas, entre 2.125 e 2.310 moradores de Gaza foram mortos (1.492 civis, incluindo 551 crianças e 299 mulheres) nesta operação. Quase onze mil ficaram feridos, e 66 soldados e cinco civis israelenses (incluindo uma criança) também perderam a vida.

A ONU denunciou que os ataques do exército israelense a Gaza poderiam constituir “crimes de guerra” e aprovou uma investigação, enquanto a Palestina solicitou ajuda internacional para obrigar Israel a cessar uma agressão que denunciou como “uma catástrofe humanitária”.

A resolução foi aprovada no Conselho de Direitos Humanos por 29 votos a favor e 17 abstenções. O único voto contra foi o dos Estados Unidos. Os Estados Unidos consideraram a resolução “destrutiva” e que não contribuiria para a interrupção das hostilidades. Israel qualificou a decisão de “farsa”. Seu embaixador no Conselho, Eviatar Manor, acusou o Hamas de cometer “crimes de guerra” e afirmou que Israel “destruiria sua infraestrutura militar”. Em 24 de julho, o Dr. Mads Gilbert, do Hospital Al-Shifa de Gaza, cidadão norueguês, publicou uma carta aberta no jornal britânico The Independent, à qual já fizemos referência.

“Os rios de sangue continuarão a correr na próxima noite. Já ouço como ajustam seus instrumentos de morte. Por favor. Façam o que puderem. Isto não pode continuar”, implorou. Dizia que “a última noite foi extrema. A invasão terrestre de Gaza produziu dezenas de veículos cheios de corpos mutilados, destroçados, sangrando, tremendo e agonizando… Palestinos feridos de todas as condições e idades, todos civis, todos inocentes”. “Depois, a orquestra da máquina de guerra israelense recomeça sua sinfonia macabra. Neste exato momento: as salvas de artilharia dos navios da marinha ancorados ao largo da costa, o rugido dos F-16, os drones repugnantes (em árabe, ‘zennanis’, ‘beija-flores’) e os Apaches. Tudo construído e pago pelos Estados Unidos”.

 

Um investimento inteligente

Tudo construído e pago pelos Estados Unidos!, disse o Dr. Gilbert. Na quinta-feira, 19 de outubro, Joe Biden dirigiu-se aos norte-americanos (e ao mundo) de sua Sala Oval da Casa Branca sobre os conflitos na Palestina e na Ucrânia. Os terroristas do Hamas desencadearam a maldade no mundo. São eles – e Putin – que pretendem acabar com a democracia e com seus vizinhos, afirmou. Se não pagarem um preço, o custo e as ameaças contra os Estados Unidos continuarão aumentando. Se colocarmos tudo em risco, se abandonarmos a Ucrânia e Israel, nossa liderança e nossos valores estarão em risco. É por isso que amanhã pedirei recursos urgentes para financiar nossas necessidades de segurança nacional, disse Joe Biden.

E pediu ao Congresso 106 bilhões de dólares: 60 bilhões para a Ucrânia e 14 bilhões para Israel. O restante para outras despesas. “É um investimento inteligente que gerará dividendos por gerações para a segurança dos Estados Unidos”, disse ele. Nestes dias de guerra, as necessidades urgentes de Gaza, cujos pouco mais de dois milhões de habitantes não tinham água, alimentos ou eletricidade, cortados por Israel, nem recursos para seus hospitais, foram estimadas em cerca de 270 milhões de dólares.

O pacote que Joe Biden enviaria ao Congresso apontava para outra direção. É um compromisso sem precedentes com a segurança de Israel, que garantirá sua vantagem militar, disse ele, acrescentando que Israel precisava operar de acordo com as leis da guerra, para proteger os civis “da melhor maneira possível”. Biden acredita que é a liderança norte-americana, seus valores, que mantém o mundo unido. Que os Estados Unidos é a nação indispensável, essencial para construir o arsenal da democracia e defender a causa da liberdade. “Não deixaremos que terroristas como o Hamas, ou tiranos como Putin, vençam. Não o permitirei”. “Somos os Estados Unidos da América!”, afirmou. Comentando o discurso, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, afirmou: “Antes, diziam que se tratava de uma luta pela liberdade e pela democracia. Agora, verifica-se que é apenas um cálculo”.

 

E as regras?

Há quem procure justificar suas posições sobre o conflito entre palestinos e Israel do ponto de vista da “ética”. Como se o problema da ética já não estivesse resolvido desde sempre, nas opções econômicas e políticas que, como a história mostra, foram tomadas há mais de 70 anos. Outros falam de “terrorismo”. Mas, transformado em arma política para desqualificar os inimigos, o “terrorismo” perdeu seu valor analítico. Utilizado como qualificativo, torna impossível qualquer tentativa de compreensão dos problemas.

E as regras? A relação israelo-palestina mostra que, há muito tempo, não há regras. Nenhuma das resoluções da ONU é cumprida. Nenhum acordo é respeitado, nem os de Oslo, nem os de Minsk, no caso da Ucrânia. Também não se fala da bomba atômica de Israel, um debate que é impossível dissociar de outros, mais atuais, sobre a bomba da Coreia do Norte ou do Irã. São outras as regras que se aplicam a estes casos?  Não podemos deixar de pensar que não faltam pessoas que queiram transformar o mundo em outro Hospital Al-Ahil. Não deveria ser feito algum esforço para evitar isso?

 

Essa história foi falsificada

“Ainda há muitos franquistas na Espanha”, disse o maestro Daniel Barenboim ao jornal espanhol El País em setembro de 2020. Aos nove anos, Barenboim partiu da Argentina para Israel com seus pais. “Meus avós maternos, especialmente a minha avó, eram grandes sionistas. Ela mais do que meu avô. A mulher era a que mandava em casa. Meu pai também não estava convencido. Digamos que minha mãe e sua sogra o contagiaram. O Estado de Israel foi criado em 1948 e meus avós partiram em 1951. Depois nós chegamos”. “Sentia falta da Argentina?”, perguntaram-lhe. “Não me lembro”, diz ele. “E agora?”. “Agora, sim, por várias razões. Porque, com o passar dos anos, voltamos à nossa infância e porque o que está acontecendo em Israel me machuca muito”.

“Como era aquele país nascente?” “Outra coisa radicalmente diferente daquilo em que se converteu. A escalada militar, que é compreensível, afetou sua bondade. O fervor diminuiu. Não se pode ocupar militarmente outros povos com nossa história, com séculos de perseguição. O sionismo começou com a ideia de um povo para um país sem povo, uma ideia poética e belíssima, mas falsa: no início do século XX, a memória histórica foi falsificada ali. Não se podia dizer que era um território sem povo. Já tinha gente antes: no início do século XX, tinha apenas 9% de judeus. Não é que não tinha ninguém. Tinha 91% que não o eram. Mas isso foi ocultado, essa história foi falsificada”, disse Daniel Barenboim.

Como sabemos, os rios de sangue continuam fluindo. A verdade é que isto não pode continuar!

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