Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

O CORRESPONDENTE

23
Fev24

Carol Castro entrevista Dawisson Lopes - II

Talis Andrade

‘Israel conclamou os líderes do mundo a criticarem as falas de Lula. Não aconteceu nada.’

Gaza Ali Divandari.jpg

 

No geral, como o senhor avalia a fala do presidente? Deveria ser mais branda ou ele acertou ao subir o tom?

Tem um dilema nessa história do Lula. Eu acompanhei a construção da política externa brasileira nessa gestão presidencial. Li e ouvi todos os discursos do Lula até o momento, assim como de seu chanceler, do Secretário Geral, os materiais que são produzidos pelo Itamaraty. 

As pessoas não votam por causa da política exterior, mas a grande imprensa brasileira utiliza o tema para questionar o governo.

Posso dizer que houve uma escalada nas últimas semanas, Lula aumentou o tom. Ele falou mais de uma vez num tom muito crítico do que se passava, das atitudes de Israel em Gaza. Foram vários pronunciamentos feitos de forma sequencial. E talvez pudesse fazer outras dezenas ou centenas de pronunciamentos com um linguajar mais diplomático que não teria a mesma repercussão que teve dessa vez. É difícil avaliar, sendo honesto, não sei qual vai ser o saldo desse posicionamento, mas se a ideia era conseguir chamar a atenção, o Lula logrou êxito. Claro que ele vai ter também de lidar com os efeitos colaterais internamente, a resistência que essa fala gerou. 

Internacionalmente não vejo nada importante se configurando de forma negativa. Domesticamente sim, houve muito ruído. Há de se ponderar se o saldo é positivo. Parece, até o momento, as coisas podem indicar para que a fala dele envelheça bem, acho que é bem possível que isso aconteça. Passadas as primeiras 48 horas e nada de sério aconteceu internacionalmente, acho que Lula acaba conseguindo firmar sua posição. E isso não havia acontecido antes. Chegamos a um novo patamar da relação com Israel. Houve de fato um posicionamento mais assertivo. Isso é novo.

 

O Brasil tem alguma perda econômica e diplomática com a ruptura com Israel?

Acho que a perda econômica é de uma escala muito pequena. A participação Israel na nossa corrente de comércio é menor do que 0,4%. Muito pequena. E diplomaticamente o Brasil vive às turras com Israel há muito tempo. 

Se reaproximam e depois voltam a estrilar, então não acho que seja nenhuma grande ruptura. A verdade é que há muito exagero nesse momento. Mas quem olha para a história sabe que a relação entre Israel e Brasil sempre foi tensa. Ao menos desde os anos 1970, quando o Brasil votou favoravelmente à uma resolução da ONU que classificava o sionismo como uma forma de racismo, isso é de 1975, a partir dali tem um estremecimento. De tempos em tempos, as acusações, o dedo em riste volta a aparecer. Basta lembrar alguns momentos.

Em 2010, o Brasil propôs a Declaração de Teerã, um acordo com Turquia e Irã, para tentar demover o Irã de seguir adiante com seu programa nuclear. Quem ficou absolutamente irritado e pressionou para que a declaração de Teerã fosse barrada foi Tel Aviv, foi Israel. 

Em 2014, numa dessas crises em Gaza, quando Dilma era presidente, ela mandou o embaixador do Brasil em Tel Aviv voltar para fazer consultas. E foi quando o porta-voz da chancelaria disse que o Brasil era um anão diplomático. Então esse tipo de mal-estar é mais ou menos comum nessa relação. A exceção foram os anos de Bolsonaro, quando o Brasil abandonou uma posição mais pró-Palestina, e se posicionou sob o guarda-chuva de Israel, mas isso é exceção à trajetória.

 

Existe de fato alguma relevância em se discutir o impacto eleitoral da fala de Lula, com eleições ainda tão distantes?

Não tem nenhuma lógica em se discutir o impacto eleitoral nesse episódio. Estamos falando de uma comunidade pequena, não são muitos votos. É uma comunidade que majoritariamente já fazia oposição, pelo menos de forma mais institucional. Eles já eram bolsonaristas, ou ao menos tiveram, nas últimas eleições, muito próximas de Jair Bolsonaro. Então, não se perde o que nunca se teve. 

A perda econômica é de uma escala muito pequena. A participação Israel na nossa corrente de comércio é menor do que 0,4%.

O argumento é de que existe um reforço do nexo entre os evangélicos e Israel. Mas, novamente, é um segmento da população brasileira que não vota tradicionalmente com a esquerda, ou não tem votado nos últimos anos. E o argumento de que há muito dinheiro envolvido e que poderia prejudicar o financiamento das campanhas, esse lobby organizado de Israel em São Paulo e no Rio, especialmente, poderia implicar problemas para o financiamento de campanhas do PT, isso é uma bobagem. É uma transmigração, é um contrabando do modelo de financiamento dos Estados Unidos. O nosso modelo é bem diferente, a gente não tem essa história de financiamento privado, apenas privado. Então, isso é uma versão equivocada para se pensar o assunto.

LEIA TAMBÉM NO INTERCEPT

 

22
Fev24

Brasil denuncia Israel em Haia e diz que ocupação é ‘inaceitável e ilegal’

Talis Andrade

israel gaza brandan-reynolds.jpg

 

Lula faz duras críticas às interrupções na ajuda humanitária em Gaza por países da elite global

 

 

Por Agência Brasil /Ninja

O Brasil pediu nesta terça-feira (20) à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, nos Países Baixos, que declare como ilegal a ocupação dos territórios palestinos por forças militares de Israel. Para o Brasil, a ocupação, que dura desde 1967, viola as leis internacionais e o direito à autodeterminação do povo palestino.

“O Brasil espera que o tribunal reafirme que a ocupação israelense dos territórios palestinos é ilegal e viola obrigações internacionais por meio de uma série de ações e omissões de Israel”, afirmou a representante do Brasil em Haia, Maria Clara de Paula Tusco.

A diplomata brasileira acrescentou que práticas persistentes da ocupação de Israel nas terras palestinas “equivalem à anexação” daqueles territórios e pediu que a Corte leve em conta medidas tomadas por Israel, como o confisco de terras palestinas, a destruição de casas dos palestinos, a construção de colônias israelenses e do muro na Cisjordânia, além da adoção de medidas que alteram a composição demográfica dos territórios ocupados.

O governo brasileiro se manifestou em audiência pública na CIJ, principal órgão judicial das Nações Unidas (ONU). A Corte realiza audiências públicas até a próxima segunda-feira (26) para ouvir 52 países sobre a consulta que a Assembleia geral da ONU fez aos juízes do tribunal internacional.

Em resolução aprovada em dezembro de 2022, a Assembleia-Geral da ONU questionou a CIJ sobre as “Consequências Jurídicas decorrentes das Políticas e Práticas de Israel no Território Palestino Ocupado”. Os países querem saber, entre outras informações, o que Israel pode sofrer por supostamente violar o direito do povo palestino à autodeterminação.

Segundo a representante do Brasil na ONU, a decisão do país de participar dessa consulta é devido ao “compromisso histórico do país de respeitar o direito internacional, de fomentar o multilateralismo e de promover a solução pacífica de controvérsias”.

Ainda segundo o Brasil, a violação do direito dos palestinos à autodeterminação “não pode ser aceita, muito menos normalizada pela comunidade internacional”. Maria Clara lembrou ainda que a Resolução do Conselho de Segurança da ONU 242, de 1967, enfatizou a proibição da aquisição de território pela força e instruiu Israel a retirar as suas tropas das terras então recentemente ocupadas.

“No entanto, a ocupação persiste até hoje e foi agravada pela construção do muro de separação do território palestino, pela construção de colônias ilegais na Cisjordânia e pela anexação de Jerusalém Oriental”, acrescentou.

 

Discriminação

O governo brasileiro ainda destacou que o estabelecimento de dois sistemas jurídicos distintos, um para os colonos israelenses e outro para os palestinos na Cisjordânia ocupada, representa uma discriminação contra o povo palestino.

“Este tratamento diferenciado é evidente e bem documentado e também deve ser abordado pelo tribunal”, acrescentou a representante brasileira.

O regime político-jurídico na Cisjordânia ocupada tem sido denunciado como um regime de apartheid por organizações internacionais de direitos humanos, como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, e por relatores independentes da ONU. As autoridades israelenses rejeitam essa avaliação.

 

Medidas

Ao final da manifestação, o Brasil enumerou as medidas que espera que sejam tomadas para pôr fim a ocupação. Entre elas, estão o fim da ocupação de Israel e a reparação ao povo palestino pelas violações cometidas. Além disso, o Brasil pede que nenhum Estado reconheça a ocupação e que não adotem ações ou medidas que colaborem com a ocupação desses territórios.

Por fim, a diplomata Maria Clara de Paula Tusco reforçou que o Brasil defende a solução de dois Estados para o encerramento do conflito. “A criação de um Estado palestino independente, soberano e economicamente viável, coexistindo com Israel em paz e segurança, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e internacionalmente reconhecidas, que incluem a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental como sua capital”.

 

Israel

O governo de Israel não vai participar das audiências públicas para discutir a ocupação dos territórios palestinos. Em documento de cinco páginas enviado à CIJ, Israel condenou a resolução que determinou a análise do caso, dizendo que a decisão representa uma “distorção da história e da realidade atual do conflito israelense-palestino” e que, por isso, prejudica a construção da paz.

“Ao apontar o dedo apenas para um lado, as questões ignoram milhares de israelenses mortos e feridos que foram vítimas de atos assassinos de ódio palestinos e do terrorismo – atos que continuam a pôr em perigo diariamente os civis e a segurança nacional de Israel”, afirma o documento.

 

Entenda

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha transferiu para as Nações Unidas a responsabilidade pelo território que hoje é ocupado por Israel e pela Palestina. Desde o final da Primeira Guerra Mundial, a chamada Palestina histórica era controlada pelos ingleses.

Com a Resolução 181, de 1947, a Assembleia-Geral da ONU recomendou a partilha da Palestina entre judeus e árabes. Porém, apenas o Estado de Israel foi criado. Em 1967, após mais uma guerra na região, Israel ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e a Jerusalém Oriental, que então estavam sob o controle do Egito e da Jordânia.

Após esse conflito, a Assembleia da ONU aprovou a Resolução 242, de 1967, que determinou “a retirada das forças armadas israelitas dos territórios que ocuparam”.

Apesar dessa resolução, a construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia continuou e hoje são 300 colônias consideradas ilegais, segundo a ONU, dentro da Cisjordânia, onde vivem cerca de 700 mil colonos israelenses.

Em 2005, Israel deixou a Faixa de Gaza, apesar de manter um cerco ao enclave controlando a saída e a entrada de pessoas e mercadorias.

Gaza Yaser Abo Hamed.jpg

 

30
Dez23

Inquérito contra Breno Altman por críticas ao sionismo é assédio ao jornalista

Talis Andrade

Breno Altman

 

por Patricia Faermann

 

O inquérito contra o jornalista Breno Altman, aberto pela Polícia Federal (PF), acusando-o de antissemitismo por suas críticas ao regime sionista e ao genocídio do povo palestino, é um assédio contra o jornalista, segundo a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

“Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos”, escreveu a instituição, em nota.

“Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças”, continuou.

A ABI pediu o arquivamento do inquérito ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal.

Leia a nota na íntegra:

INQUÉRITO CONTRA BRENO ALTMAN É INTIMIDAÇÃO!

Pelas informações veiculadas na manhã deste sábado no site Brasil 247, o inquérito é resultado de reclamação descabida da Confederação Israelita do Brasil, que de forma enviesada e conveniente rotula as críticas de Altman ao sionismo como antissemitismo.

A ABI lembra que a Constituição de 1988 garante a todo e qualquer cidadão a liberdade de expressão. Da mesma forma, respaldado nesse princípio constitucional, o Supremo Tribunal Federal tem garantido por inúmeras decisões a liberdade de imprensa, assegurando a todos os jornalistas o direito à crítica. 

Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças. 

Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos.

Nesse sentido, entende que o próprio MPF ou a Justiça Federal, respeitando o estado democrático de direito e a Constituição Cidadã, devem providenciar o trancamento desse inquérito.

Certos de que a democracia que saiu vitoriosa no 8 de janeiro de 2023 prevalecerá e será respeitada, a ABI aguarda providências dos responsáveis por tal situação para dar um fim à campanha intimidatória que Altman vem sofrendo.

Aproveitamos o ensejo para desejar a todos um próspero 2024, no qual a democracia, a liberdade de expressão e de imprensa prevaleçam.

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2023  

19
Nov23

Após a evacuação de al-Chifa, o longo caminho para os desabrigados de Gaza

Talis Andrade

Rami Charab estava preso no hospital al-Chifa de Gaza há 20 dias. Hoje, finalmente chegou ao centro da Faixa de Gaza, após horas de caminhada entre os feridos, os desabrigados e crianças assustadas.

Corpos de palestinos mortos pelo exército de Israel no hospital al-Chifa, em 12 de novembro de 2023.
Corpos de palestinos mortos pelo exército de Israel no hospital al-Chifa, em 12 de novembro de 2023. via REUTERS - AHMED EL MOKHALLALATI
 
 

Quando o seu bairro na cidade de Gaza foi bombardeado, Rami Charab refugiou-se no maior complexo médico do território, com a sua irmã Hanane, 22 anos, o seu irmão Farès, 11, e a sua mãe Oum Rami, 53. 

Tal como este palestino de 24 anos, 2.300 pessoas estavam em al-Chifa antes da sua evacuação no sábado, segundo a ONU: doentes, feridos, desabrigados e médicos presos nos combates e no controle cada vez mais intenso dos tanques israelenses.

Na estrada Salaheddine, que atravessa a Faixa de Gaza de norte a sul, para onde Rami Charab seguiu quando deixou o hospital, um grupo de palestinos avança lentamente. Um homem carrega sua filha deficiente nos braços. Outro avança, com a filha com a perna engessada em seus braços.

Ao redor, dois aterros. De um lado, armazéns com telhados destruídos, carros carbonizados e fios elétricos pendurados em ruas esburacadas. Do outro lado, soldados israelenses armados pairam sobre eles, monitorando as pessoas na frente de veículos blindados, tanques e veículos de transporte de pessoal.

As crianças andam descalças, os idosos apoiam-se em bengalas. Algumas famílias, as raras que conseguem pagar vinte ou trinta shekels – entre 5 e 8 euros – passam em carroças puxadas por um burro ou por um cavalo.

 

Bolsas, caixas, fraldas

Alguns agitam uma bandeira branca feita de um pedaço de tecido e uma haste de madeira. Muitos carregam sacolas e pacotes de fraldas, agora quase impossíveis de encontrar ou muito caras, além de caixas e cobertores.

Em seus rostos, cansaço, ansiedade, às vezes lágrimas. Para Rami Charab, porém, o alívio domina.

“Às oito da manhã”, lembra ele, os alto-falantes tocavam. Um soldado israelense ordenou a evacuação do hospital al-Chifa “dentro de uma hora ou iriam nos bombardear”.

O estabelecimento está há dias sitiado pelo exército israelense, segundo o qual o complexo hospitalar abriga uma base militar do Hamas, o que o movimento palestino nega.

“Fui um dos primeiros a sair”, continua o jovem. “Ouvimos tiros no ar e fogo de artilharia.” O exército israelense afirma ter respondido a “um pedido de evacuação” da administração do hospital.

No início do cerco, os médicos disseram à AFP que atiradores israelenses atiravam em qualquer pessoa que saísse do estabelecimento. Começaram então as operações do exército no interior, nos corredores, departamentos e escritórios.

 

"Inferno"

Pacientes, desabrigados, cuidadores foram interrogados, revistados, alguns despidos, disse o jornalista da AFP preso durante dias no hospital, onde foi realizar entrevistas.

“Foi um inferno”, diz Rami Charab, que diz ter sido espancado. “Fiquei cinco horas na praça do hospital de cueca”, acrescenta. “E tudo isso no meio dos bombardeios.”

Samia al-Khatib, de 45 anos, o marido Ayman e a filha de 15, também deixaram al-Chifa na manhã de sábado e caminharam para se juntar ao resto da família que já tinha partido para o campo de refugiados de Nousseirat, 10 quilômetros a sul. 

Hoje, um terço dos habitantes do norte partiram, segundo o Gabinete Central de Estatísticas Palestino, entre os mais de 1,5 milhões de desabrigados de Gaza – ou dois terços da população.

“Pegamos primeiro a estrada costeira”, em direção a oeste. “Todas as ruas foram destruídas, havia crateras, vimos muitos corpos em decomposição perto do hospital e na estrada costeira”, diz Samia.

“Foram visões de horror, um verdadeiro massacre.”

 

Famílias dos reféns

“Não podemos perder mais”: chegando a Jerusalém a pé no sábado, as famílias dos reféns detidos na Faixa de Gaza exigiram “respostas” do governo israelense, pressionado após o anúncio da morte de dois prisioneiros nos últimos dias.

Um mar de bandeiras israelenses e retratos de reféns invadiu a rodovia que leva a Jerusalém: milhares de pessoas viajaram juntas na última etapa do trajeto, que começou terça-feira em Tel Aviv, a cerca de 60 km de distância.

Milhares de pessoas, entre elas familiares dos reféns presos em Gaza, se reúnem em frente ao gabinete do primeiro-ministro em Jérusalem.
Milhares de pessoas, entre elas familiares dos reféns presos em Gaza, se reúnem em frente ao gabinete do primeiro-ministro em Jérusalem. AP - Mahmoud Illean

 

Impressos em camisetas pretas ou cartazes, eles exibiam os rostos dos reféns. "Mãe, estamos esperando por você. Volte", é possível ler ao lado da foto de uma mulher sorridente.

À frente do cortejo, as famílias têm rostos sombrios, algumas enxugando uma lágrima, outras parando para um abraço.

Reunindo-se no gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, os manifestantes lançaram centenas de balões amarelos no céu exigindo “trazê-los de volta”.

"Traga-os para casa agora. Todos eles. Agora", proclamaram os manifestantes, repetindo um slogan forjado durante seis semanas.

“Queremos respostas”, disse Ari Levi, 68 anos, cujo primo Ohad Yahalomi, 49, e seu filho, Eitan, 12, estão entre os reféns.

"Não é normal que crianças sejam raptadas durante 43 dias. Não sabemos o que o governo está fazendo, não temos informações", garante à AFP, repetindo uma reclamação expressa por muitos familiares.

“Quando Eitan voltar, comprarei para ele a melhor bicicleta do mundo”, disse ele antes de começar a chorar.

No início da noite, o Fórum de Famílias de Reféns e Pessoas Desaparecidas anunciou que “todas as famílias” tinham conseguido uma reunião na noite de segunda-feira com “todo o gabinete de guerra”, incluindo Netanyahu e o Ministro da Defesa Yoav Gallant.

 

Manifestações pedem cessar-fogo

As mobilizações para exigir um “cessar-fogo imediato em Gaza” reuniram no sábado milhares de manifestantes em toda a França. Após uma primeira vaga de proibições decididas pelas autoridades públicas, os manifestantes pró-palestinos marcharam pelo terceiro fim de semana consecutivo, por vezes enfrentando, como em Paris, chuva torrencial.

Segundo a CGT - Confederação Geral do Trabalho, sindicato francês, 100 mil pessoas na França, incluindo 60 mil em Paris, saíram às ruas.

Os manifestantes franceses não foram os únicos a marchar este sábado na Europa. Milhares de pessoas manifestaram-se no centro de Lisboa. Reuniões “silenciosas” também ocorreram em Varsóvia e Amsterdã, segundo as autoridades. Na capital econômica dos Países Baixos foi também organizada outra manifestação exigindo a libertação dos reféns detidos pelo Hamas.

“Este é um momento sério para os nossos amigos palestinos”, resumiu Bertrand Heilbronn, presidente da associação França Palestina Solidarité, em Paris.

Descrevendo “sofrimento indescritível”, o ativista da causa palestina questionou ainda a “posição ilegível” do executivo francês “que envergonha o nosso país”.

“A França deve pedir imediatamente um cessar-fogo para que as armas se calem”, disse Sophie Binet, secretária-geral da CGT que, ao lado dos sindicatos Solidaires e FSU, transmitiu os apelos do coletivo a manifestações para uma paz justa e duradoura entre palestinos e israelenses.

(Com informações da AFP)

Conteúdos relacionados

Os principais jornais franceses desta terça-feira (14) abordam a situação catastrófica dos hospitais da Faixa de Gaza, entre eles Al-Shifa, o maior do enclave. Cercado pelas forças israelenses, sem água ou energia elétrica, pacientes morrem no local pela impossibilidade de receberem cuidados médicos ou serem retirados. Leia mais

Pacientes e refugiados amontoados nos corredores do hospital Al-Shifa em Gaza.
Pacientes e refugiados amontoados nos corredores do hospital Al-Shifa em Gaza. AFP 
14
Nov23

A “guerra” é o colonialismo continuado por outros meios

Talis Andrade
 

 

Não estamos falando do direito à defesa. Mas de uma política sistemática de extermínio, uma limpeza étnica justificada com uma mentira e a conivência silenciosa das democracias liberais

14
Nov23

Israelenses não confiam nas falas de Netanyahu sobre o conflito com o Hamas, mostra pesquisa

Talis Andrade
 
Image

"Netanyahu merece ser condenado à morte por enforcamento", diz Breno Altman

 

247 – "O governo de Israel é formado por bandidos. Seu final deveria ser em um tribunal como o de Nuremberg, que condenou chefes nazistas. Benjamin Netanyahu merece ser processado, julgado e condenado à morte por enforcamento, como corresponde aos mais pérfidos criminosos de guerra", postou o jornalista Breno Altman, em seu X.

Pesquisa da Universidade Bar Ilan, divulgada pelo jornal Haaretz, aponta que apenas 4% dos israelenses confiam nas declarações do primeiro-ministro

SPUTNIK - A credibilidade do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, está em baixa, apontou uma pesquisa da Universidade Bar Ilan. Apenas 4% dos israelenses confiam nas declarações do primeiro-ministro sobre o conflito com o movimento palestino Hamas.

A pesquisa foi divulgada pelo jornal israelense Haaretz nesta terça-feira (14).

Esse é o menor grau de credibilidade já atingido pelo político, que nos últimos anos já vinha batalhando contra uma onda de impopularidade causada pelo desejo de passar reformas judiciais que lhe dariam maior controle sobre o Judiciário israelense. Há anos o primeiro-ministro enfrenta acusações de corrupção.

Por outro lado, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI), brigadeiro-general Daniel Hagari, goza de maior credibilidade do público, com 73,7% dos entrevistados afirmando que o militar é a figura "mais confiável" para se obter informações do conflito.

Benjamin Netanyahu, além de ter passado por uma série de protestos e manifestações internas nos últimos anos, também é visto como um dos culpados pela recente escalada no conflito com o Hamas.

Cerca de 86% dos israelenses veem uma falha na conduta do premiê em impedir o ataque do grupo militante, e mais da metade (56%) acredita que ele deva renunciar após o fim dos confrontos, apontou outra pesquisa, do Dialog Center, conforme noticiado pelo The Jerusalem Post. Yoav Gallant, ministro da Defesa, também é visto com maus olhos pelo público, com 52% dos israelenses acreditando que ele também deva renunciar.

 
Image
Vídeo: Como parar a mão assassina de Israel? Veja a análise do jornalista e fundador de Opera Mundi, Breno Altman, no 20 MINUTOS ANÁLISE desta terça-feira (14/11): 
 

Vídeo: A ADUFO - Seção Sindica, gestão Florescer nas Lutas, realiza Aula Pública intitulada: “Palestina – consequências nefastas do sionismo e imperialismo”, ministrada pelo jornalista Breno Altman. Breno Altman é um comunicador progressista, jornalista, fundador do portal Opera Mundi e tem realizado debates sobre a temática, assim como contribuído com inúmeros textos e conteúdos analíticos acerca da resistência do povo palestino:

 

12
Nov23

Os palestinos nos livros didáticos de Israel

Talis Andrade
Ilustração: Doaa Eladl
 
 
Por Jair de Souza

A esta altura, passados mais de 30 dias do início de um massacre sem paralelos na história, os mais de 2.300.000 palestinos habitantes da Faixa de Gaza estão submetidos a um cerco total, estando privados do acesso a água, alimentos e eletricidade. E, como bonificação especial, quase todos os seus edifícios residenciais, seus hospitais e suas escolas vêm sendo implacavelmente arrasadas por intensos bombardeios das forças militares de Israel.

No entanto, apesar das monstruosas cenas de horror que conseguem furar o bloqueio comunicacional das autoridades israelenses e chegam ao conhecimento público, boa parte da população israelense não demonstra estar muito sensibilizada diante deste imenso quadro de dor e sofrimento.

O que poderia explicar tamanha indiferença, tamanha falta de empatia com o drama sofrido por toda essa gente desamparada? A resposta, em boa medida, é dada pelo resultado de uma pesquisa conduzida por Nurit Peled-Elhanan, uma pesquisadora israelense da Universidade Hebraica de Jerusalém.

É interessante observar que a motivação inicial de seu trabalho se deu em função de um terrível golpe por ela sofrido quando perdeu a própria filha, vítima de um atentado suicida cometido por um palestino. Uma síntese de sua pesquisa está no vídeo deste link:https://youtu.be/GCcV7AtYgwo

Neste documentário, Nurit Peled-Elhanan fala de sua pesquisa relacionada com o conteúdo dos livros didáticos de Israel. Ela expõe em detalhes como estes livros são elaborados com o objetivo de desumanizar o povo palestino e fomentar nos jovens estudantes israelenses a base de preconceitos que lhes permitirá atuar de forma cruel e insensível com o mesmo durante o serviço militar.

Conforme explica Nurit Peled-Elhanan, as construções de mundo feitas a partir dos livros didáticos, por serem as primeiras a se sedimentarem na mente das crianças, são muito difíceis de serem erradicadas. Daí a importância que o establishment israelense dedica à ideologia a ser transmitida nos livros didáticos. Neles, os palestinos nunca são apresentados como seres humanos comuns. Nunca aparecem em condições que possam ser consideradas normais.

Segundo Nurit Peled-Elhanan, não há nesses livros nem sequer uma fotografia de um palestino que mostre seu rosto. Eles são sempre apresentados como constituindo uma ameaça para os judeus.

Foi por entender o grande valor desta mensagem que, já em 2012, me dispus a traduzir ao português o vídeo-documentário e produzir as respectivas legendas. Nosso objetivo era e é possibilitar que um maior número de pessoas venham a entender as técnicas de desumanização utilizadas para viabilizar a aprovação, a aceitação ou a indiferença em relação àqueles grupos humanos que são escolhidos como alvos para extermínio.

Considero um dever moral de todos os que se sentem vinculados à humanidade dedicar os esforços possíveis para impedir que este genocídio venha a se consumar. Neste momento, as palavras do saudoso reverendo evangélico Desmond Tutu se tornam mais válidas do que nunca: “Aquele que se mostra indiferente em uma situação em que a opressão é evidente está tomando o lado do opressor”.

Não pode restar nenhuma dúvida para ninguém sobre quem são os opressores e quem são as vítimas no atual conflito entre o Estado de Israel e o Povo Palestino.

Israel quer arrastar o Brasil para a guerra

 
 

Embaixador de Israel afronta Lula

 
 
11
Nov23

O silêncio dos indecentes

Talis Andrade
Imagem: IA

 

por Hildegard Angel, no Instagram e jornal GGM

Expressiva essa foto, não? Comovente, triste. Pois se trata de Inteligência Artificial. Até a IA se manifesta, mostra serviço nessa hora em que Gaza clama ao mundo por socorro. Já a Inteligência Natural brasileira está impávida, muda.

Onde estão as organizações médicas brasileiras, nossas entidades e associações humanitárias, que não protestam, que não se manifestam em cartas abertas nos jornais, que não dão entrevistas se posicionando contra esse genocidio, esse holocausto em tempo real nas redes sociais?

Onde estão as organizações e lideranças católicas? A Pastoral, a Cúria, a CNBB? O único padre que vimos se manifestar foi o caridoso Júlio Lancelotti. Será que dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns vão precisar ressuscitar para a comunidade católica brasileira ouvir uma voz que pregue a mensagem do palestino Jesus Cristo?

As seitas neopentecostais milionárias badaladas na mídia parece que apoiam o massacre de crianças, mulheres grávidas e pessoas inocentes. São extremistas de direita, neofascistas, neonazistas. Os demais sacerdotes evangélicos nada falam, a não ser alguns poucos, como o pastor Henrique Vieira, que eu tenha visto.

10
Nov23

“Não há dúvidas de crime humanitário nos bombardeios na Faixa de Gaza”

Talis Andrade

Vídeos: Em uma entrevista exclusiva à NINJA, o jornalista internacional Jamil Chade, trouxe à tona preocupações cruciais sobre a atual crise humanitária na Palestina ocupada. Economia de Israel pode entrar em colapso com a guerra, informa Eduardo Moreira. Brasileiros em Gaza: Fala de embaixador mostra que é Netanyahu quem decide lista, diz Reinaldo Azevedo

Foto: UN Photo/Jean Marc Ferré

 

Em uma entrevista exclusiva à NINJA, o jornalista internacional Jamil Chade, trouxe à tona preocupações cruciais sobre a atual crise humanitária na Faixa de Gaza, destacando desafios significativos da diplomacia internacional nos pedidos para que Israel pare os bombardeios e autorize ajuda humanitária chegar até Gaza.

Em meio ao conflito em andamento entre Israel e Gaza, Chade deixou claro que não há espaço para dúvidas em relação às violações das leis internacionais humanitárias e dos direitos humanos por parte de Israel. Ele enfatizou que essa é uma questão inegociável e que as ações de Israel estão em flagrante desacordo com o direito internacional.

Na última semana, mais de 150 países, incluindo o Brasil, condenaram as ações de Israel contra a Faixa de Gaza, e, em um documento oficial, pediram o imediato cessar fogo e a abertura de corredor humanitário. Israel ignorou este pedido, o que foi duramente criticado pela comunidade internacional.

O jornalista, que mantém uma coluna no UOL, também ressaltou a importância de manter relações diplomáticas com todas as partes envolvidas no conflito. Ele argumentou que, para desempenhar um papel significativo na cena internacional, o Brasil deve manter diálogo com todos os atores, independentemente de concordância ou simpatia.

Mediação não significa concordar. Se o Brasil quer ser um ator que pode dialogar com todos, ele precisa manter relação com todos”, afirma Jamil Chade.

O jornalista apontou as limitações dos Estados Unidos e da Rússia como mediadores no conflito entre Israel e Palestina. Segundo Chade, outros países, como o Brasil, têm um papel a desempenhar na mediação, mesmo que isso envolva críticas a ações específicas. Ele destacou que a paz é uma necessidade urgente, e a comunidade internacional não pode depender apenas das superpotências tradicionais para facilitar o diálogo.

“No fundo, o Brasil fez a mesma coisa na Ucrânia. O Brasil manteve relações com a Rússia, mas nunca deixou de votar na ONU uma resolução que condenava a invasão. O Brasil votou a favor da resolução que condena a invasão da Ucrânia e, ao mesmo tempo, mantém relações diplomáticas com ambos. Essa é uma tentativa de equilíbrio que não é fácil”, disse Chade para NINJA.

Além disso, Chade observou a grave deterioração da situação humanitária em Gaza devido ao conflito. Ele expressou preocupações sobre o trauma psicológico enfrentado pelas crianças palestinas, que crescem em um ambiente de medo e perda constante.

Na última semana, o sociólogo e ativista palestino Baha Hilo concedeu uma entrevista para NINJA, e ofereceu uma visão intensa sobre a atual crise em Gaza, onde as pessoas estão enfrentando ataques implacáveis de Israel e a comunidade internacional está se mobilizando em apoio à Palestina, sob pressão de protestos. Até o momento, mais de 10 mil palestinos foram mortos. 

Foto: Motaz Azaiza

 

A discussão também incluiu o contexto geopolítico, destacando que a atual situação é complexa e desafiadora. Israel ignora tradicionalmente as resoluções da ONU, sabendo que conta com o apoio dos Estados Unidos, um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Chade alertou para o impasse no Conselho de Segurança, que muitas vezes fica imobilizado devido a vetos.

“Existe uma pressão muito grande hoje, inclusive na Europa. Isso não é uma questão só dos países em desenvolvimento. Não é só uma questão dos aliados da causa palestina. Você tem vários governos, inclusive os europeus, muito preocupados com o nível de violência de Israel em Gaza. Esse nível de violência obviamente cria uma situação de muito risco internacional”, afirma Chade.

O jornalista levantou questões sobre a viabilidade de uma solução de dois estados, citando desafios práticos, como o deslocamento de colonos israelenses. Ele também mencionou a importância do Tribunal Penal Internacional em investigar potenciais crimes de guerra.

“Eles [Governo Israelense] vão ser, pelo menos pré-investigados. Agora a gente vive aquela outra situação anterior, mesmo condenados, qual vai ser o impacto real disso, sendo que a gente tem um governo americano ainda em apoio ao governo israelense? Então é um grande teste, no fundo, para a própria credibilidade do Tribunal Penal Internacional”, conclui Chade.

08
Nov23

O contexto da ocupação israelense

Talis Andrade
 
 
Image
 

A des-historicização do que está acontecendo ajuda Israel

a seguir políticas genocidas em Gaza.

 

por Ilan Pappe 

Tradução Pedro Paulo Zahluth Bastos

- - -

Em 24 de outubro, uma declaração do Secretário-Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, causou uma forte reação de Israel. Ao se dirigir ao Conselho de Segurança da ONU, o chefe da ONU disse que, embora condenasse com veemência o massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro, queria lembrar ao mundo que ele não ocorreu em um vácuo. Ele explicou que não se pode dissociar nossa preocupação com a tragédia que ocorreu naquele dia e os 56 anos de ocupação israelense de territórios.

O governo israelense não demorou a condenar a declaração. Autoridades israelenses exigiram a renúncia de Antonio Guterres, alegando que ele apoiou o Hamas e justificou o massacre. A mídia israelense se juntou ao movimento, afirmando, entre outras coisas, que o chefe da ONU “demonstrou um grau impressionante de falência moral”.

Essa reação sugere que um novo tipo de alegação de antissemitismo pode estar surgindo. Até 7 de outubro, Israel pressionava para que a definição de antissemitismo fosse ampliada para incluir críticas ao Estado israelense e questionamentos sobre a base moral do sionismo. Agora, contextualizar e historicizar o que está acontecendo também pode provocar acusação de antissemitismo.

A des-historicização desses eventos ajuda Israel e os governos do Ocidente a adotar políticas que eles evitavam no passado devido a considerações éticas, táticas ou estratégicas.

Assim, o ataque de 7 de outubro é usado por Israel como pretexto para praticar políticas genocidas na Faixa de Gaza. É também um pretexto para os Estados Unidos tentarem reafirmar sua presença no Oriente Médio. E é um pretexto para alguns países europeus violarem e limitarem as liberdades democráticas em nome de uma nova “guerra contra o terror”.

Contudo, há vários contextos históricos para a situação atual em Israel-Palestina que não podem ser ignorados. O contexto histórico mais amplo remonta a meados do século XIX, quando o cristianismo evangélico no Ocidente transformou a ideia do “retorno dos judeus” em um imperativo religioso milenar e defendeu o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina como parte do caminho que levaria à ressurreição dos mortos, ao retorno do Messias e ao fim dos tempos.

A teologia tornou-se política no final do século XIX e nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial por dois motivos. Em primeiro lugar, ela serviu aos interesses daqueles que, na Grã-Bretanha, desejavam desmantelar o Império otomano e incorporar parte dele ao Império britânico. Em segundo lugar, repercutiu entre os membros da aristocracia britânica, tanto judeus quanto cristãos, que se encantaram com a ideia do sionismo como uma panaceia para o problema do antissemitismo na Europa Central e Oriental, que havia produzido uma onda indesejada de imigração judaica para a Grã-Bretanha.

Quando esses dois interesses se fundiram, eles levaram o governo britânico a emitir a famosa – ou infame – Declaração de Balfour em 1917.

Os pensadores e ativistas judeus que redefiniram o judaísmo como nacionalismo esperavam que essa definição protegesse as comunidades judaicas do perigo existencial na Europa, focando na Palestina como o espaço almejado para o “renascimento da nação judaica”.

No processo, o projeto cultural e intelectual sionista transformou-se em um projeto de colonização por povoamento, cujo objetivo era judaizar a Palestina histórica, desconsiderando o fato de que ela era habitada por uma população nativa.

Por sua vez, a sociedade palestina, bastante pastoril naquela época e em seu estágio inicial de modernização e construção de uma identidade nacional, produziu seu próprio movimento anticolonial. Sua primeira ação significativa contra o projeto de colonização sionista ocorreu com a Revolta de al-Buraq, em 1929, e não cessou desde então.

Outro contexto histórico relevante para a crise atual é a limpeza étnica da Palestina em 1948, que incluiu a expulsão forçada de palestinos para a Faixa de Gaza a partir de vilarejos em cujas ruínas foram construídos alguns dos assentamentos israelenses atacados em 7 de outubro. Esses palestinos desenraizados faziam parte dos 750.000 palestinos que perderam suas casas e se converteram em refugiados.

Essa limpeza étnica foi percebida pelo mundo, mas não foi condenada. Como resultado, Israel continuou a recorrer à limpeza étnica como parte de seu esforço para garantir o controle total da Palestina histórica com o menor número possível de palestinos nativos. Isso incluiu a expulsão de 300.000 palestinos durante e após a guerra de 1967 e a expulsão de mais de 600.000 da Cisjordânia, de Jerusalém e da Faixa de Gaza desde então.

Há também o contexto da ocupação israelense da Cisjordânia e de Gaza. Nos últimos 50 anos, as forças de ocupação impuseram uma punição coletiva contínua aos palestinos nesses territórios, expondo-os à perseguição constante dos colonos e das forças de segurança israelenses, e prendendo centenas de milhares deles.

Desde a eleição do atual governo fundamentalista messiânico israelense em novembro de 2022, todas essas políticas severas atingiram níveis sem precedentes. O número de palestinos mortos, feridos e presos na Cisjordânia ocupada disparou. Ainda por cima, as políticas do governo israelense em relação aos locais sagrados cristãos e muçulmanos em Jerusalém se tornaram ainda mais agressivas.

Por fim, há também o contexto histórico do cerco de 16 anos a Gaza, onde quase metade da população é composta por crianças. Em 2018, a ONU já estava alertando que a Faixa de Gaza se tornaria um lugar impróprio para humanos até 2020.

É importante lembrar que o cerco foi imposto em resposta às eleições democráticas vencidas pelo Hamas após a retirada israelense unilateral de Gaza. Ainda mais importante é retroceder à década de 1990, quando a Faixa de Gaza foi cercada por arame farpado e desconectada da Cisjordânia ocupada e de Jerusalém Oriental após os Acordos de Oslo.

O isolamento de Gaza, a cerca ao seu redor e o aumento da judaização da Cisjordânia foram uma indicação clara de que, aos olhos dos israelenses, Oslo significava uma ocupação por outros meios, não um caminho para a paz genuína.

Israel controlava os pontos de entrada e saída do gueto de Gaza, monitorando até mesmo o tipo de alimento que entrava, às vezes limitando-o a um determinado número de calorias. O Hamas reagiu a esse cerco debilitante lançando foguetes em áreas civis de Israel.

O governo israelense alegava que esses ataques eram motivados pelo desejo ideológico do movimento de matar judeus – uma nova forma de nazismo – desconsiderando tanto o contexto da Nakba quanto o cerco desumano e bárbaro imposto a dois milhões de pessoas e a opressão de seus compatriotas em outras partes da Palestina histórica.

O Hamas, em muitos aspectos, foi o único grupo palestino que se comprometeu a retaliar ou responder a essas políticas. No entanto, a maneira como ele decidiu reagir pode levar à sua própria ruína, pelo menos na Faixa de Gaza, e também pode fornecer um pretexto para uma maior opressão do povo palestino.

A selvageria de seu ataque não pode ser justificada de forma alguma, mas isso não significa que não possa ser explicada e contextualizada. Por mais terrível que tenha sido, a má notícia é que não se trata de um evento que mude o jogo, apesar do enorme custo humano de ambos os lados. O que isso significa para o futuro?

Israel permanecerá um Estado estabelecido por um movimento de ocupação colonial, que continuará a influenciar seu DNA político e a determinar sua natureza ideológica. Isso significa que, apesar de seu autorretrato como a única democracia do Oriente Médio, ele continuará sendo uma democracia apenas para seus cidadãos judeus.

A luta interna em Israel entre o que se pode chamar de Estado da Judeia – o Estado colonizador que deseja que Israel seja mais teocrático e racista – e o Estado de Israel – que deseja manter o status quo – que movimentou Israel até 7 de outubro, entrará em erupção novamente. De fato, já há sinais de seu retorno.

Israel continuará a ser um Estado de apartheid – conforme declarado por várias organizações de direitos humanos – independentemente do desenrolar da situação em Gaza. Os palestinos não desaparecerão e continuarão sua luta pela libertação, com muitas sociedades civis a seu lado, ao mesmo tempo em que seus governos apoiam Israel e lhe concedem uma imunidade excepcional.

A saída continua a mesma: uma mudança de regime em Israel que traga direitos iguais para todos, do rio ao mar, e permita o retorno dos refugiados palestinos. Caso contrário, o ciclo de derramamento de sangue não terá fim.

Image
 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub