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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Jan20

Jesus voltou

Talis Andrade

Em séries da Netflix, justificando censura em ordens jurídicas e até em enredo de escola de samba, nunca se falou tanto em Jesus Cristo

 

Foto da série Messiah, da Netflix

Série "Messiah" projeta as consequências hipotéticas de um retorno de Cristo

 

por J. P. Cuenca

O Estado Islâmico se aproxima de uma Damasco sitiada e destruída. "Apenas um ato de Deus é capaz de evitar sua conquista pelo Califado", diz a apresentadora de TV. Enquanto tanques apontam seus canhões para a cidade, um jovem de cabelos longos sobe na carcaça de um carro e começa a discursar em árabe: "Ouçam, irmãos e irmãs. Eles fingem pregar a palavra de Deus, e tudo o que fazem é distorcê-la. Está escrito no livro: 'Eles serão castigados neste mundo. Eles provocaram a mais implacável ira divina, uma derrota desonrosa os espera!'"

Alguns muçulmanos na multidão protestam, é proibido citar errado as escrituras. Mas o homem insiste e diz coisas como: "Acreditem quando digo que Deus derrotará os seus inimigos! Deus os afastará! A salvação está próxima! A história chegou ao fim!"

O bombardeio começa ao mesmo tempo em que uma tempestade de areia de proporções bíblicas se aproxima, cobrindo a cidade. Todos correm, menos o homem que discursa, responsável pelo milagre que logo afastará as tropas do ISIS. Ele é al-Masih, e ao longo dos dez capítulos da série Messiah, que estreou na Netflix no primeiro dia de 2020 sob protestos de cristãos e muçulmanos, será identificado como Jesus redivivo, terrorista islâmico, Anticristo, imigrante ilegal, charlatão e santo. O seriado, quando funciona, é um passeio divertido sobre como o mundo – e a mídia, com destaque para a CNN – reagiria a uma volta de Jesus.

Colunista J.P. Cuenca

J.P. Cuenca vive hoje entre S. Paulo e Berlim

 

É exatamente o mesmo mote do enredo da Mangueira para 2020, "A verdade vos fará livre". O carnavalesco Leandro Vieira imagina Jesus hoje "pobre e mais retinto", descendo "pela parte mais íngreme de uma favela qualquer dessa cidade", "estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário".

Além da passarela em fevereiro, a recontextualização do Cristo num cenário socialmente desigual e intolerante ganha tintas absurdas que ultrapassam a simples representação artística no Brasil. País onde uma decisão da Justiça reforçou o dogmatismo neopentecostal hoje no poder, censurando o inócuo especial de Natal do Porta dos Fundos – poucos dias após o atentado de um grupo integralista contra sua sede. Até então, apenas a Arábia Saudita tinha censurado conteúdos da Netflix.

A decisão, depois derrubada pelo STF, foi de um tal Benedicto Abicair, famoso por defender os privilégios da classe com a justificativa de que juízes são aprovados em concursos muito difíceis e "meritocráticos", sendo que ele mesmo nunca prestou um. Nomeado pela governadora Rosinha Garotinho para o TJ/RJ, Abicair absolveu em voto Bolsonaro dos crimes de homofobia e racismo em 2017, sob a justificativa de que, em uma democracia, não seria possível "censurar o direito de manifestação de quem quer que seja". Seria apenas irônico se não fosse trágico: o grande crime do grupo de humoristas foi justamente ter perfilado Jesus como gay.

Com estes pensamentos me assombrando, resolvo de ontem para hoje maratonear as duas temporadas de Fleabag, série britânica escrita e atuada por Phoebe Waller-Bridge, vencedora do Globo de Ouro. Acreditava tratar-se de uma comédia dramática sobre jovem mulher independente em crise, mas logo descubro que a segunda temporada é sobre uma história de amor com um padre católico, com citações da Bíblia e longas sequências na igreja, sacristia e confessionário. Vou ouvir música, e meu Spotify lembra que os discos que mais ouvi no ano passado foram Jesus is King, do Kanye West, e Ghosteen, do Nick Cave, um autor que não precisa ser explicitamente religioso para usar referências bíblicas e cristãs em toda sua discografia.

Se estações de metrô do mundo inteiro ainda guardam propagandas de Os dois papas, a Netflix ainda tem em sua grade recente uma série documental sobre uma ordem cristã envolvida com lobbies em Washington, A família, e uma estreia prometida para este ano, The American Jesus, sobre um jovem americano de 12 anos que descobre ter poderes sobrenaturais e, claro, ser uma encarnação de Jesus Cristo.

Seu retorno está ligado à escatologia cristã, o estudo sobre o fim dos tempos. É fácil entender como o filho unigênito de Deus está cada vez melhor posicionado na guerra cultural no Ocidente. Não apenas os líderes das duas maiores populações do hemisfério foram eleitos com votos evangélicos e forte discurso religioso à direita (Trump e Bolsonaro), mas também na esquerda há o apelo ao retorno de líderes messiânicos, e o apocalipse climático ganha contornos de profecia apocalíptica. Há dez anos seria difícil prever tal fenômeno, mas Jesus voltou em 2020. E nada indica que abandonará o centro do palco – do templo – tão cedo.

 

28
Ago18

Exército expulsa 700 mil muçulmanos de Mianmar

Talis Andrade

Protestos de rohingyas lembram um ano da fuga de Mianmar

media
Refugiados rohingyas fazem protesto em Kutupalong, Bangladesh, um ano após êxodo forçado de Mianmar, 25 de agosto de 2018 REUTERS/Mohammad Ponir Hossain
 
 
 

Milhares de refugiados rohingyas protestaram pedindo "justiça", no primeiro aniversário do início da repressão militar que levou cerca de 700 mil membros da minoria muçulmana a fugir de Mianmar para Bangladesh.

 

Há um ano, em 25 de agosto de 2017, o ataque de rebeldes rohingyas contra postos fronteiriços desencadeou uma sangrenta repressão do exército birmanês contra esta minoria, uma operação que a ONU chamou de "limpeza étnica”. Pela contagem da ONG Médicos Sem Fronteiras, a ação resultou na morte de pelo menos 9 mil rohingyas.

 

Neste sábado, os refugiados se manifestaram no campo de Kutupalong, em Bangladesh,  levando cartazes com mensagens como "Nunca mais: dia da recordação do genocídio rohingya: 25 de agosto de 2018".

 

Genocídio

 

"Queremos que nos reconheçam como rohingyas. Estamos muito tristes porque não estamos em nossa terra natal. Todos queremos justiça", declarou Mohamed Hosein, um manifestante presente em Kutupalong. Outro manifestante, Noor Kamal, acrescentou: "Ano passado, em 25 de agosto, sofremos um genocídio em Mianmar. Pedimos justiça por isso".

 
 

A ONU lançou em março um pedido para arrecadar U$ 1 bilhão para cobrir as necessidades dos campos de refugiados, mas apenas um terço dessas doações foram obtidas. O Banco Mundial anunciou em junho que iria desbloquear um fundo de US$ 500 milhões para ajudar Bangladesh.

 

Abdul Malek, um refugiado de 27 anos que escapou de um ataque em sua aldeia no ano passado, afirmou que a crise dos rohingyas está longe de acabar. "Este ano foi só o princípio de muitos mais que estão por vir", disse.

 

Insegurança

 

Mianmar, um país de maioria budista, afirma estar disposto a receber de volta os rohingyas que fugiram da violência, mas nega a eles cidadania, privando-os de direitos como a liberdade de movimento, acesso à educação e à saúde. Oito meses depois do acordo de repatriação, assinado com o executivo de Bangladesh, menos de 200 rohingyas retornaram à Mianmar.

 

A líder birmanesa Aung San Suu Kyi, muito criticada pela gestão desta crise humanitária, culpou esta semana as autoridades de Bangladesh pelo atraso na implementação do acordo. Já a ONU e várias organizações internacionais de direitos humanos asseguram que as condições para o retorno não estão sendo cumpridas.

 

"Pode levar décadas até que possam voltar à Mianmar com segurança, se puderem um dia", disse o chefe de missão da organização Médicos Sem Fronteiras em Bangladesh, Pavlo Kolovos, em um comunicado.

 

Pressão internacional

 

Nos últimos tempos, cresceu a pressão internacional para que Mianmar responsabilize o exército por sua ofensiva no ano passado, na qual é acusado de cometer crimes de tortura, estupro e assassinato.

 

Os Estados Unidos anunciaram em meados de agosto sanções contra quatro comandantes e duas unidades militares birmanesas, acusadas de estarem implicadas na "limpeza étnica" dos rohingyas. Mianmar nega estas acusações e afirma que apenas se defendia de uma agressão.

23
Set17

Cúpula da Pedra em Jerusalém

Talis Andrade

 

 

 

 

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Em Jerusalém uma pedra

 

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

 

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

 

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

 

Em Jerusalém uma pedra

 

 

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Poesia do livro inédito O Judeu Errante. 

Leia mais poesia de Talis Andrade in Palavras de Ateop, editado por Rafael Rocha,

jornalista, poeta e romancista

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