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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Jun21

Bolsonaro e a anarquia militar

Talis Andrade

Humor Político – Rir pra não chorar

 

por Cristina Serra

- - -

A indulgência do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, ao ato de flagrante indisciplina do general Eduardo Pazuello terá consequências de alto risco para a conjuntura política brasileira. Mas não se pode dar a essa decisão a responsabilidade pela instalação da anarquia entre os fardados. Ela fomenta a anarquia, é certo. Mas o caldo da insubordinação começou a ferver faz tempo. 

O marco mais explícito da permissividade nos quartéis deve-se a outro comandante da força, o general Villas Bôas, e seu post ameaçando o STF na véspera da votação do Habeas Corpus de Lula, em 2018. Na campanha daquele ano, militares da ativa engajaram-se com desenvoltura em exércitos digitais, públicos ou não, a favor de Bolsonaro. Como se sabe, em instituição hierarquizada o exemplo vem de cima.

Também deu mau exemplo o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo, quando acompanhou Bolsonaro em sobrevoo de apoio à manifestação contra o Congresso e o STF, que pedia “intervenção militar”. Ao ser defenestrado, em março, afirmou ter preservado as Forças Armadas como “instituições de Estado”. Cinismo ou ingenuidade ? 

É claro que há nuances e divergências de pensamento entre os militares. Mas essas diferenças não abalam, por ora, o projeto que os trouxe de volta ao poder. Este é um governo colonizado por e para militares, com seus salários, cargos, mordomias, privilégios e outras benesses. 

As Forças Armadas carregam a mancha de 21 anos de ditadura, tortura e morte de opositores. Com Bolsonaro, reforçam sua tradição golpista, associam-se ao morticínio de brasileiros na pandemia, afundam-se no pântano da história. Mas não estão sozinhas. Bolsonaro fermenta o caos com a complacência de parcelas da sociedade civil, como o capital financeiro, oligarcas do agronegócio, setores do Legislativo e do Judiciário, mídia, igrejas. A desgraça desse país é uma obra coletiva. 

Humor Político – Rir pra não chorar | Página: 5

01
Jun21

Os olhos de Jonas e Daniel e o prenúncio da repressão covarde

Talis Andrade

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Daniel Campelo da Silva

Jovem pode perder o olho após ser atingido por bala de borracha da PM

Jonas Correia de França

por Carol Proner

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O que se viu no último sábado, dia 29, foi a unidade das forças políticas progressistas tomando as ruas e praças em praticamente 250 cidades brasileiras, manifestando-se contra a conduta genocida de Jair Bolsonaro na pandemia.

Foi a maior manifestação do ponto de vista territorial desde muito tempo, atingindo cidades médias e pequenas, e também redutos do bolsonarismo no sul do país. Os protestos chegaram a reunir, segundo estimativas, quase meio milhão de pessoas.

Quase meio milhão de pessoas também é o número de vítimas fatais da Covid-19 no país. E não é pouco considerar que as pessoas foram às ruas apesar disso, sopesando a cautela, o medo, o risco da contaminação diante de uma indignação que, desde a indignidade de tudo o que vivemos, precisa assumir a forma de ação.

Quem não foi, lamentou. Gostaria de ter ido, arrependeu-se. Justificou que ainda não era a hora, mas logo será. O que denota claramente que as próximas serão maiores, grandiosas até, trazendo um alerta aos movimentos e partidos diante da inevitável terceira onda no delicado equilíbrio que significa a coerência nas pautas políticas.

Eis uma questão que está na agenda de todas as reuniões no campo progressista esta semana: como fazer luta em tempos de isolamento social. E se isso era algo não bem resolvido para o movimento sindical, por exemplo – foi notável a baixa participação dos trabalhadores – o recado da militância nas ruas trouxe novos argumentos ao debate. 

Enquanto isso, setores importantes da mídia não sabem como noticiar o feito das manifestações do 29M. A hashtag #29MForaBolsonaro explodiu durante os protestos, em especial com o episódio da repressão em Recife, recebendo ampla cobertura da imprensa internacional, mas jornais como a Folha de São Paulo e O Globo emudeceram, assim como calam notícias de Lula e do indisfarçável crescimento do ex-Presidente nas pesquisas de intenção de votos.

O que quero destacar neste brevíssimo resumo do fim de semana, é algo que talvez não tenha sido episódico. A repressão em Recife merece ser observada. Talvez os olhos do Daniel e do Jonas nos permitam ver mais além, o prenúncio do que virá quando os protestos se avolumarem por todo o país. 

Daniel Campelo da Silva, de 51 anos, e Jonas Correia de França, de 29, perderam os olhos por disparos de balas de borracha e passam a integrar as estatísticas mundiais sobre ferimentos oculares, que já são estudados como um fenômeno que se generaliza no uso da força policial. O caso mais conhecido é o do Chile, com 220 pessoas atingidas, mas tem sido frequente em praticamente todos os protestos na América Latina e no mundo. Poderíamos falar dos conflitos entre israelenses e palestinos, dos jalecos amarelos na França, dos protestos independentistas na Catalunha, quer dizer, tem sido uma “preferência” frente a certa liberalidade no uso dos armamentos “não letais”, ou menos letais.

Recentemente expertos da ONU reconheceram o uso excessivo e ilegal da força por parte da polícia e dos membros da ESMAD (Esquadrão Móvel Antidistúrbios) na Colômbia, incluindo o uso indiscriminado de armas menos letais contra a população civil e sem observar os princípios da necessidade e da proporcionalidade.

No caso do Chile, já paradigmático, os “carabineiros” utilizaram artefatos constituídos internamente de chumbo ou outro metal e recobertos de borracha, além de gás lacrimogênio com substâncias químicas proibidas e soda cáustica na água lançada desde os caminhões-pipa contra os manifestantes. 

E mesmo sem as adulterações perversas, a forma como foi usado o spray de pimenta contra Liana Cirne Lins, uma vereadora de Recife em busca de diálogo diante da violência desmedida da polícia, foi absolutamente abusiva e ilegal.

Também é fundamental perceber que esse arbítrio “do guarda da esquina” igualmente não foi eventual no caso do professor Arquidones Leão, preso por policiais militares em Goiás por ter se recusado a remover a frase “Fora Bolsonaro Genocida” do capô de seu carro. 

O vídeo que viralizou, do policial declamando artigo da Lei de Segurança Nacional, deve servir de alerta não para nos desmobilizar, mas para que possamos nos preparar estrategicamente contra o arbítrio e a ilegalidade que poderão crescer diante da inevitável retomada das ruas na luta pela democracia.

Feridos pela PM em protesto vão ser indenizados", diz Paulo Câmara - Blog  do Ricardo Antunes

01
Jun21

OAB-PE vê insubordinação na repressão contra ato anti-Bolsonaro em Recife

Talis Andrade

 

 

Dois homens atingidos pela PM com balas de borracha nos olhos perderam parte da visão. Eles nem participavam da manifestação. O governador Paulo Câmara (PSB-PE) afirmou que o comandante da ação e quatro policiais envolvidos foram afastados e passam por investigação. E que as vítimas devem ser indenizadas.

O repúdio do IAB se junta ao já declarado pela OAB Nacional e afirma que "a repressão aos direitos fundamentais é intolerável em um Estado democrático de Direito". O documento exige também "apuração transparente e imediata do ocorrido, com o enquadramento legal dos envolvidos nos atos de barbárie, respeitado o devido processo legal".

O presidente da OAB-PE, Bruno Baptista, uma das preocupações da Ordem é com a possibilidade de ter ocorrido uma insubordinação de núcleos polícias em relação ao governo do estado. 

Em pronunciamentos oficiais,  o governador Paulo Câmara (PSB) e a vice-governadora Luciana Santos (PCdoB) afirmaram que a ordem para a ação, que resultou em dois homens gravemente feridos, com risco de perder a visão, não partiu do governo. 

"Como defensores dos direitos humanos, da sociedade civil e da advocacia, o que nos preocupa é que parece haver uma insubordinação dentro das hostes militares, porque o próprio governador do Estado e a vice-governadora disseram não haver ordem nesse sentido de reação totalmente desproporcional que houve da polícia. Então, se houve alguém que não cumpriu as ordens do governo do Estado, há um componente de insubordinação, o que é muito grave" , explicou.

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Polícia de choque pernambucana partindo para encurralar o povo na ponte Santa Isabel, nas proximidades do Palácio das Princesas, sede do governo e residência oficial do governador no centro do Recife. 

31
Mai21

PM de Pernambuco age como milícia de Bolsonaro

Talis Andrade

protestos povo nas ruas.jpg

 

 
14
Jun20

Os generais eleitores de Bolsonaro deram o golpe em Dilma

Talis Andrade

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III - Os militares voltaram dispostos a ficar

por Jeferson Miola

- - -

Bolsonaro foi o projeto secreto da cúpula militar para alcançar o poder; ele foi o veículo político para concretizar o plano acalentado há anos pelos militares ressentidos do porão e do esgoto do velho regime.

Eles conseguiram eleger Bolsonaro numa eleição fraudada com o impedimento do Lula e tutelada pelo general Villas Bôas por twitter. Numa eleição manipulada pela interferência do consórcio Globo-Lava Jato e bombardeada pela indústria de fake news financiada ilegalmente por empresários corruptos com a mais absoluta leniência do TSE.

Para fechar o cerco e garantir a concretização do objetivo estratégico, durante o período eleitoral Villas Bôas ainda “designou” como assessor especial da presidência do STF para tutelar Dias Toffoli o atual ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Vale recordar que Fernando Azevedo e Silva atuava no programa e na campanha do Bolsonaro na eleição.

 

14
Jun20

A proposital anarquia como desculpa para o auto-golpe de Bolsonaro

Talis Andrade

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III - De ‘moderados’ a cúmplices: como a imagem dos militares no governo Bolsonaro virou o fio

por Lucas Rezende 

The Intercept

 _ _ _

Com o apoio notório a milícias, com o incentivo ao armamento da população “de bem” e, agora, com o apoio dos militares (por ora, majoritariamente da reserva), uma guerra civil, de caráter irregular e complexo, é, sim, uma possibilidade real. O que os signatários não parecem compreender é que seriam eles alguns dos responsáveis por sua deflagração, ao forçarem, pela via das armas, sua visão do que é certo ou errado (ou, em suas visões, bom ou mau) para a condução do país. Resta evidente agora o porquê de os militares não serem atores políticos em uma democracia consolidada.

Militares de patentes altas da reserva não são apenas respeitados, são, em muitos casos, líderes que inspiram e mobilizam a ativa – em especial quando, abandonada a farda, abraçam a agenda política. Esse é o caso também de outros dois generais simbólicos da pauta autoritária do Exército brasileiro: Hamilton Mourão e Eduardo Villas Boas.

primeiro se promoveu politicamente com atos de insubordinação a dois presidentes, Dilma Rousseff e Michel Temer, e chegou à vice-presidência. Mesmo que, frente aos arroubos de Bolsonaro, Mourão se apresente como um militar “paz e amor”, jamais demonstrou forte apreço pela democracia, sendo ele próprio um exemplo aos fardados que a insubordinação política no Brasil compensa. Enquanto o mundo assistia atônito à reunião ministerial para tratar do coronavírus, mas que, além de pouco tratar do tema, foi um festival de grosserias, autoritarismo e conspiracionismo, Mourão engrossa o discurso do chefe com ataques à imprensanegacionismo sobre o avanço do desmatamento da Amazônia e apelo a um discurso de moderação. Moderação esta que eles próprios parecem não exercer.

Já o segundo, Villas Boas, é igualmente um general da reserva com alto prestígio nas Forças Armadas. Seu estado de saúde, acometido por uma grave e comovente doença degenerativa, não lhe afastou da política. É bastante ativo no Twitter, onde ele fez também ameaças ao STF, enquanto era comandante do Exército, às vésperas de julgamentos de casos que envolviam o ex-presidente Lula. Junta-se, assim, a Heleno, também bastante ativo na rede – e, não raramente, em posts nada republicanos, como os que chama Ciro Gomes de “lixo humano” e “débil mental”.

Outro general de prestígio, que foi para a reserva para assumir a Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos também aderiu à agenda de esgarçamento das instituições ao também promover o enfrentamento ao STF, rebatendo o alerta antifascista do ministro decano Celso de Mello, inclusive acusando-o de ser antipatriota. A defesa do presidente, aliás, segue a linha do que o próprio solicitou na reunião ministerial de 22 de abril. Está posta a lealdade à figura e à agenda política dos Bolsonaro.

No aspecto negacionista, o aparelhamento do Ministério da Saúde é sintomático. Enquanto a Organização Mundial da Saúde interrompepesquisas sobre a cloroquina para o tratamento da covid-19 devido à conclusão, por diversos cientistas, que ela aumenta os riscos de morte, o general da ativa Eduardo Pazuello, ministro interino, sustenta a posição de Bolsonaro de estímulo do uso da medicação. Esses militares, que ocuparam rapidamente os cargos técnicos no Ministério da Saúde, preferem mudar os protocolos de tratamento da covid-19 do que reconhecer que participaram de uma política pública desenfreada do presidente, a produção em larga escala da medicação pelas Forças Armadas. A militarização da saúde é, portanto, outro sintoma grave do desequilíbrio das relações civis-militares no Brasil.

Igualmente preocupante é a decisão do Centro de Comunicação Social do Exército Brasileiro, de longe a força mais engajada na sustentação da agenda obscurantista de Bolsonaro, de proibir o uso das expressões “isolamento social” e “distanciamento social” em suas comunicações oficiais. Isso evidencia um descompasso entre a declaração do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, que disse, no final de março, que o combate ao coronavírus seria o maior desafio da atual geração, e as novas orientações negacionistas puxadas pelo presidente.

Venho alertando que a participação de militares em cargos políticos de maneira sustentada e coordenada, em especial os militares da ativa, é um erro, pois desequilibra o eixo de sustentação democrático das relações civis-militares. Acertam, pois, tanto o professor Joaquim Falcão quanto o ex-ministro bolsonarista, general Santos Cruz, ao darem voz a um mesmo tema: não cabe ao militar, em especial da ativa, participar da política. E, quando o aparelhamento de militares da reserva se torna generalizado, isto se torna igualmente um problema de equilíbrio democrático, como também concordou o professor Jorge Zaverucha. Em especial quando tantas manifestações de militares da reserva ecoam ameaças institucionais e intervenção armada na política.

Por fim, comum em declarações de muitos militares do governo, insiste-se em negar qualquer possibilidade de golpe por parte das Forças Armadas, desmerecendo quem alerta para tal como “esquerda radical”, pelas palavras em tuíte recente do ministro Heleno. Acontece que quem dá golpe é quem quer tirar um governante e se estabelecer no poder, e, hoje, as Forças Armadas, em especial o Exército Brasileiro, são o bastião de governabilidade de Bolsonaro.

Vale lembrar que o próprio vice-presidente já aventou um autogolpe, conduzido por militares da ativa, em caso de “anarquia” (sic). Considerando o acirramento das tensões do governo com as instituições, não se pode desconsiderar que ele seja proposital, buscando criar um caos social e justificar, assim, o uso das Forças Armadas para o projeto autoritário de poder do presidente e de sua família. Se havia prestígio acumulado nos anos da Nova República pelas Forças Armadas, esse prestígio se esvaiu quando optaram pela política do coturno.

É o momento de valorizar as vozes dissonantes que, sim, existem dentro das Forças da ativa e da reserva – com destaque para os pronunciamentos recentes de Santos Cruz. Resta-nos saber se essas vozes conseguirão apoio suficiente para evitar o autogolpe já em gestação, prenunciado por Mourão e abertamente defendido pela família Bolsonaro, e com fortes ecos entre militares.

 

14
Nov19

Na Lava-Jato o crime compensa?

Talis Andrade

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por Ribamar Fonseca

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, decidiu suspender, na última terça-feira, o julgamento do procurador Deltan Dallagnol, chefe da Operação Lava-Jato, pelo Conselho Nacional do Ministério Público, acusado de ter ofendido a Suprema Corte. A decisão de Fux, atendendo a um pedido do procurador, criou um clima de franca animosidade dentro da Corte, porque a representação contra Dallagnol, mais uma entre as várias existentes no CNMP, foi assinada pelo próprio presidente do STF, ministro Dias Tóffoli, em defesa da instituição. A decisão, na verdade, não surpreendeu ninguém, porque Fux é considerado homem de confiança daquela força-tarefa, conforme revelou recentemente o  site The Intercept, ao divulgar os diálogos no Instagram entre membros da operação, nos quais  o então juiz Sergio Moro escreveu, em inglês, “in Fux we trust” (em Fux nós confiamos), após ser informado sobre uma conversa do procurador com o ministro. Blindado agora por Fux, Dallagnol, que é alvo de várias ações no CNMP, continua impune, apesar dos crimes revelados pelo The Intercept ao divulgar os diálogos dos bastidores da Lava-Jato.   

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Por sua vez, o Procurador Geral da República, Augusto Aras, revelou recentemente que está buscando uma “saída honrosa” para afastar Deltan Dallagnol do comando da Lava-Jato. Saída honrosa?? É isso mesmo? Entre as opções está a promoção dele para Procurador Regional da República. Inacreditável. O sujeito é acusado de violar a Constituição, de atropelar leis, de desrespeitar decisões da Suprema Corte e conspirar contra seus ministros, de afrontar o PGR (Rodrigo Janot admite a insubordinação no seu livro “Menos que tudo”), de manipular pessoas e a mídia, de usar o cargo para ganhar dinheiro mediante palestras, de inúmeras ilegalidades e, ao invés de punição, ganha uma promoção! Pelo visto, na Lava-Jato o crime compensa. Ou, então, o poder de Dallagnol é tão grande que intimida todo mundo, o que parece se confirmar com o arquivamento, pelo Conselho Nacional do Ministério Público, de várias ações movidas contra ele. Mas de onde vem esse poder que intimida até os PGRs? Raquel Dodge, por exemplo, manifestou-se contra o seu afastamento da Lava-Jato, considerando-o inamovível. E por que o novo procurador, ao invés de puni-lo, quer uma “saída honrosa” para tirá-lo de Curitiba? Afinal, por que tanto medo se até o seu velho  parceiro Sergio Moro já quer distância dele?

A impunidade na Lava-Jato é realmente surpreendente. A todo momento eles pedem prisões de pessoas acusadas de corrupção, na maioria das vezes sem qualquer prova, tendo por base apenas uma delação, mas se julgam acima das leis e, com a cumplicidade dos superiores hierárquicos, não sofrem qualquer punição pelos abusos. Pelo contrário, são premiados com promoções. É o caso, por exemplo, da procuradora Thaméa, da Lava-Jato de São Paulo, que foi promovida a procuradora regional depois de ter conspirado para derrubar o ministro Gilmar Mendes, inclusive redigindo, com a ajuda de um advogado conhecido, o pedido de impeachment. O ex-juiz Sergio Moro, por sua vez, nunca foi punido pelo grampo inconstitucional no telefone da presidenta Dilma Roussef. Ao contrário, foi premiado com o Ministério da Justiça, onde não apenas blinda o seu benfeitor, o presidente Bolsonaro, como, também, a si mesmo, e ainda usa a Policia Federal, subordinada ao seu gabinete, para intimidar os seus adversários e do capitão.  E com Fux brevemente na presidência do Supremo ninguém mais da Lava-Jato deverá se preocupar com possíveis ações contra eles naquela Corte.

Enquanto isso, Moro, que não é bobo, vai engolindo sapos de todo tamanho, aparecendo em quase todas as fotos como papagaio de pirata de Bolsonaro, para se consolidar como um dos principais trunfos do governo com vistas a um novo mandato. Ele agora joga em duas frentes: a primeira, movimenta-se nos bastidores do Planalto para realizar o velho sonho de ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, o que teoricamente pode acontecer no final do próximo ano quando o decano da Corte, ministro Celso de Mello, se aposentar. Para isso, no entanto, o capitão precisa estar ainda no Planalto até aquela data, pois há quem acredite que o seu mandato não demore tanto. Na segunda frente, ele já está sendo cogitado para vice de Bolsonaro no caso de disputar a reeleição, porque o capitão já se arrependeu do “casamento” com o general Hamilton Mourão e pretende rifá-lo no próximo pleito. Ninguém pode garantir, no entanto, que o seu projeto terá sucesso, porque, além da variação de humor de Bolsonaro, que já descartou vários dos seus aliados, até o final de 2020 muita água ainda vai correr por baixo da ponte, sendo praticamente impossível qualquer prognóstico sobre os acontecimentos, sobretudo quanto ao panorama político. Afinal, Lula está na área, o que deu um novo dinamismo à política brasileira, especialmente à oposição. 

Independente do caldeirão político, porém, que promete ferver nas próximas eleições, o esperto procurador Deltan Dallagnol continua impune, livre, leve e solto, faturando com suas palestras para trouxas, confiante na blindagem proporcionada pelos seus superiores e, também, pelo ministro Luiz Fux. Consciente dos crimes praticados à frente da Lava-Jato, ele sabe que se perder a blindagem será punido, daí o pedido a Fux para que o seu julgamento fosse suspenso. Até quando permanecerá impune ninguém sabe, mas como nada é eterno haverá um momento em que ele será punido, o que não parece muito distante considerando o clima hoje existente na Suprema Corte, que parece ter tirado a venda dos olhos e enxergado com maior nitidez a verdadeira cara da Lava-Jato. Por sua vez, o ex-juiz Sergio Moro também deverá experimentar as consequências dos seus abusos, pois a blindagem do Ministério da Justiça igualmente não é eterna. O cargo não é vitalício e, portanto, chegará o momento em que o deixará, ficando inclusive sem foro privilegiado. Será o fim do super-herói fabricado pela Globo, que já vem perdendo prestígio de modo acelerado no seio da opinião pública, segundo as pesquisas. É tudo, portanto, uma questão de tempo.  Até lá ele vai continuar papagaio de pirata do capitão e procurando distanciar-se do velho parceiro para não queimar-se. 

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18
Out19

Lula Livre x general Villas Bôas: é isso que está em julgamento no STF

Talis Andrade

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Por Ricardo Kotscho

 

“Não estou reivindicando essa discussão de segunda instância. Não estou interessado nisso. Não quero progressão de pena, quero a minha inocência. Não tem meio termo comigo. O que eles vão fazer? Antigamente, era mais fácil. Mandava esquartejar, salgar, pendurar no poste. Cometeram a bobagem de me prender, cometeram a bobagem de me acusar, agora vão ter que suportar esse peso aqui dentro”, desabafou Lula, em entrevista ao UOL, publicada nesta quinta-feira.

 

Manter Lula preso ou libertar Lula é o que está em jogo, mais uma vez.

No julgamento que começa esta tarde em Brasília, o Supremo Tribunal Federal terá que decidir se cumpre a Constituição ou cede novamente às ameaças tuiteiras do general Villas Bôas.

Como fez antes da eleição, às vésperas do julgamento de um habeas corpus para Lula, este general de pijama, gravemente enfermo, voltou a acenar com o risco de “convulsão social” e colocar as tropas nas ruas, se o ex-presidente for colocado em liberdade, como manda a lei.

Mero assessor do Gabinete de Segurança Institucional do general Augusto Heleno, uma boquinha que lhe arrumaram quando passou para a reserva, Villas Bôas deveria ser preso e processado  por insubordinação, se ainda vivêssemos numa democracia, como foi o então tenente Jair Bolsonaro, pelo mesmo motivo.

Para se entender o poder que o general aposentado ainda tem, é preciso lembrar o que lhe disse o presidente Bolsonaro, ao se agachar diante dele, na posse do ministro da Defesa, Azevedo e Silva:

“Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

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Se chegamos a essa situação hoje, em que o Supremo julgará se o preso tem direito a recorrer em liberdade até o processo transitar em julgado, na última instância, uma cláusula pétrea da Constituição, que vem sendo desrespeitada, é porque os que são “responsáveis por eu estar aqui” pavimentaram sua vitória, como o professor Eduardo Costa Pinto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, relata no artigo “Bolsonaro e os quartéis: a loucura como método”, publicado em abril deste ano.

Costa Pinto mostra como Villas Bôas foi o mentor do “golpe branco” que levou Bolsonaro à vitória, ao emparedar o STF e o TSE para que Lula não pudesse ser candidato.

Os 11 ministros do STF terão agora uma oportunidade histórica neste julgamento, e nos outros que envolvem a libertação de Lula, de dar um basta às ameaças dos militares e aos desmandos da Lava Jato, que rasgaram a Constituição e deixaram as instituições em frangalhos.

Convulsão social haverá, não se Lula for libertado, mas se este estado de completa anomia social, implantado no país pela nova ordem, não for contido a tempo, para impedir que o desespero provocado pelo desemprego e pela fome leve a população a fazer justiça com as próprias mãos.

Só Lula inocentado e livre, com todos os seus direitos políticos, poderá ainda evitar o pior.

Vida que segue.

 

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