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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

13
Mar19

Fechamento de fábrica da Ford tem indenização milionária na França

Talis Andrade
 
 
 
Fechamento de fábrica da Ford tem indenização milionária na França
 
 
Ford confirma fechamento de unidade de produção em Blanquefort na França.                 
 MEHDI FEDOUACH / AFP

 

Enquanto os trabalhadores da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo lutam por um acordo de fechamento da unidade que preserve os seus empregos, na França, essa batalha parece perdida, embora com contrapartidas milionárias para os funcionários e o Estado francês. Os projetos de reestruturação mundial da Ford incluem o encerramento das atividades de uma usina em Blanquefort, perto de Bordeaux, na França.

A montadora americana apresentou um plano de demissão voluntária que oferece cursos profissionalizantes para os 850 funcionários e uma indenização média de € 190 mil para cada empregado, além de um ressarcimento no valor de € 20 milhões ao Estado francês.

O dinheiro deve ser investido na unidade, que atualmente produz caixas de câmbios, de modo a reindustrializar o local para poder receber uma nova empresa. Já faz 10 anos que a fabricante não esconde o projeto de fechar a unidade de Blanquefort. Na época, a tentativa de revenda da usina fracassou, numa negociação que impactou na disponibilidade da Ford de negociar uma transição.

“Agora, a Ford diz: chega! Essa unidade não faz mais parte dos planos industriais e não quero cedê-la a um comprador, no qual eu não tenho confiança, para não ser acusada de nada no futuro. Então prefiro fechar a usina pura e simplesmente”, comenta o economista francês Elie Cohen, diretor de pesquisas do prestigiado CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas).

 

Incentivos não deram resultados

No total, desde 2011, o governo da França desembolsou mais de € 10 milhões em incentivos para a Ford não fechar as portas, sem sucesso. Desta vez, o braço de ferro entre a montadora e o Estado durou dois meses, entre o anúncio do fechamento e a conclusão da negociação, em um acordo comemorado pelo Ministério da Economia, no início de março.

“O problema ocorre quando uma empresa viola deliberadamente os compromissos que assumiu e não respeita os termos do contrato que liberou os subsídios. Só que a Ford cumpriu todos acordos que firmou, em contrapartida à ajuda pública que recebeu”, afirma Cohen. “Você pode ter certeza de que, se ela tivesse rompido uma única clausula, o Estado francês teria exigido o reembolso.”

Já o delegado sindical Philippe Poutou, que representa os funcionários da Ford Aquitaine, não está satisfeito com o acordo. Ele avalia que o governo ainda pode pressionar mais pela manutenção dos postos de trabalho, ao incluir a revenda da fábrica na negociação. Uma proposta feita pelo grupo belga Punch, em fevereiro, foi recusada pela Ford.

“Ouvimos muita gente dizer que o plano social é bom. A Ford argumenta isso e o governo tem tendência a concordar, mas é uma aberração porque, dependendo da idade que temos, se formos para a rua, ficaremos numa situação terrível”, protesta Poutou. “Para a gente, o que importa é manter o emprego e o papel do Estado é fazer de tudo para encontrar uma solução.”

 

Governo brasileiro “lava as mãos” para saída da Ford

No Brasil, a reivindicação dos sindicatos é semelhante: 2,8 mil empregos diretos estão ameaçados. A Ford confirmou que três grupos estão interessados na aquisição dos ativos em São Bernardo. Já o governo, interlocutor-chave nas negociações, por enquanto adotou a política de “lavar as mãos” no caso, observa o economista David Kupfer, professor da UFRJ.

“Se o diagnóstico dominante no governo é mais liberal, com menos intervenção do Estado e menos financiamento público do investimento e da produção industrial, e menos incentivos e renúncias fiscais etc, não quer dizer que a indústria possa ou deva ser abandonada à própria sorte, afinal ela não é irrelevante”, analisa o professor. “Era de se esperar uma postura mais ativa do governo na tentativa de negociar uma decisão menos onerosa à sociedade e à economia brasileira.”

 

A Ford anunciou no dia 19 de fevereiro que encerrará as atividades na fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.Miguel SCHINCARIOL / AFP

 

Outro fator ainda mais importante a impactar no caso brasileiro é o enfraquecimento dos sindicatos nos últimos anos, ressalta Kupfer. “Eu acho que a grande diferença, nesse plano mais direto, entre o que ocorre na França e no Brasil é a capacidade de negociação dos sindicatos. Eles ficaram dependentes de um financiamento compulsório, que foi retirado por lei, e agora eles estão, de fato, em uma posição de muita fragilidade, ainda mais num quadro de desemprego e recessão”, observa o economista brasileiro.

O professor da UFRJ cita ainda a ausência de uma nova política industrial para o setor automotivo, desde que a crise colocou um freio nas vendas de carros, e a própria reestruturação do setor em nível mundial. A transição para veículos elétricos e autônomos mal começou no país e é o que tem levado as multinacionais a rever toda a sua estratégia de crescimento nas próximas décadas. 


 
12
Jun18

Quando uma empregada doméstica ganha uma indenização estipulada em mais de 1 milhão de dólares

Talis Andrade

Nem preciso dizer que não foi um justa sentença da justiça brasileira que sempre favorece os ricos 

 

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Fainess Lipenga, 39 anos

 

Quando Lipenga tinha pouco mais de 20 anos, assinou o contrato de um salário mensal de 980 dólares, dois dias de descanso por semana, férias e o pagamento de horas extras.

 

A patroa Kambalame ordenou a Lipenga que dormisse no porão para não “contaminar” os demais moradores. Os horários combinados não foram respeitados, e ao final de um tempo a empregada se viu trabalhando das 5h30 às 23h, pelo equivalente a 2,54 reais por hora. A patroa reteve seus documentos, não a inscreveu na previdência social e a deixou incomunicável. “Eu escutava quando ela falava com meus pais, mas ela cortava o telefone quando saía”, conta, uma década depois do ocorrido.

 

Numa madrugada de 2007, Lipenga saiu para não voltar mais. Conseguiu chegar a um hospital, onde foi diagnosticada com tuberculose e depressão. Quando estava internada, recebeu uma visita. “Adivinha quem era? Minha patroa. Não sei como soube onde eu estava. Achei que estava livre, mas continuava sendo uma escrava”, descreve. Lipenga, depois de se recuperar superficialmente, foi encaminhada a um albergue de indigentes. Kambalame apareceu novamente. “Não sei como fazia. O refúgio ficava a duas horas do hospital”, conta, após anos sem conseguir tirar essa dúvida.

 

Finalmente, Lipenga encontrou uma organização sem fins lucrativos da faculdade de direito de um universidade, que a ajudou.

 

Em 2014, Lipenga moveu uma ação judicial contra a ex-patroa por perdas e danos, acusando-a de violar o contrato e lhe infligir angústia emocional proposital. "A senhora Kambalame claramente abusou da sua posição de poder sobre a senhora Lipenga para lhe causar um severo sofrimento emocional", disse o juiz.

 

A indenização estipulada foi de mais de 1 milhão de dólares. 

 

Katherine Soltis, advogada, explica que as mulheres são frequentemente alvo de abusos trabahistas. “É difícil conseguir cifras de quantas são, porque muitos nunca chegam a denunciar que são vítimas de tráfico trabalhista, justamente por não conhecerem seus direitos”. É isso que Fainess Lipenga quer mudar. Ela agora é consultora em conscientização sobre exploração trabalhista e assessora advogados, funcionários judiciais, médicos etc.. “Não é fácil falar, eu sei. Mas é preciso superar os medos, é hora de dizer chega.” Leia mais. Pense na reforma trabahista de Temer e no valor das indenizações da justiça do trabalho do Brasil. Transcrevi trechos. Leia mais para conhecer essa hodierna história humana do capitalismo cruel e escravocrata 

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