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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

03
Set21

Acender uma vela pelo Brasil

Talis Andrade

ENCANTO DE GIFS: Gifs de Velas

 

por Urariano Mota

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No povo, principalmente entre os seguidores dos cultos afro-brasileiros, é costume acender uma vela para a realização de um desejo. Se uma filha vai fazer um concurso, se um filho tem uma prova difícil, no mesmo dia ou antes a mãe acende uma vela em lugar discreto, para que tudo ocorra bem. Esse é um ato de fé onde se inclui a beleza da chamada dos deuses, como há séculos os poetas invocavam para escrever uma obra mais alta.

Também se acende uma vela para agradecimento a uma santa ou santo por uma graça alcançada. Isso é comum entre as pessoas católicas, espíritas e crentes dos terreiros. No morro da Conceição no Recife tem sido assim, aos pés da grande imagem, com pequenas fogueiras de cera que todos devemos respeitar. Lá no Padre Cícero no Juazeiro, e para a Aparecida também em São Paulo. E como uma característica nacional, em todos os lugares do Brasil onde habite o desejo de vencer situações difíceis, acendem-se velas.

Acendem-se velas ainda em memória dos mortos, com afeto e tristeza. Mas na gravidade da hora deste presente, em mais de um sentido, em todos os sentidos, penso que deveríamos acender muitas velas, milhões de velas  pelo Brasil. Pelo bem do povo brasileiro, tão sem saúde e machucado. Pelos indígenas, sem saúde e sem terra. Pelos negros, sem saúde e mortos nas ruas. Pelas mulheres, sem saúde e desrespeitadas como animais odiados. Pelos intelectuais, artistas, pelos cientistas, que emigram em busca de um lugar onde possam trabalhar. Por todo Brasil, enfim, talvez fosse a hora de se acenderem muitas velas.    

Se a chama do voto pudesse tudo fazer, de voto  no sentido de urna eletrônica, e neste caso, de oferenda aos santos do Brasil, uma grande fogueira deveria subir até os céus brasileiros. Diferente em tudo dos incêndios das florestas, diferente em tudo do fogo do calor que seca os rios e represas, em tudo diferente do fogo de armas nas mãos dos bárbaros, bilhões de velas deveriam arder em luminosas chamas até as nuvens do azul do Brasil. Se assim pudesse, a luz votiva  faria no espaço mágico a derrubada, a destruição de Bolsonaro, do fascismo de todo o seu governo, mais que derrubar, puniria com no mínimo prisão a ele e a todos os seus ministros, criminosos por covardia, corrupção ou ideologia fascista.

Então, as chamas das velas realizariam um “queima Bolsonaro”, uma superação do inferno em que vivemos pelo fogo do povo brasileiro. Ah, por Deus e por todos os deuses, poderíamos ser então merecedores do que manda o coração? Abaixo Bolsonaro em procissões de círios que falassem e agissem, com atos e realizações o que até aqui não temos conseguido, oprimidos que estamos por um congresso vendido em troca de verbas, enquanto afundam os direitos básicos e inalienáveis da gente brasileira. Se assim pudéssemos, o STF em peso o jogaria em impedimento e posterior cadeia, por todos os motivos de imoralidade, descumprimento da Lei e escárnio contra a democracia. Ah, se os nossos desejos pudessem ser mágicos como a crença da melhor gente do Brasil!

Mas como as chamas unidas não podem trazer a felicidade, e como o fogo em cera não realiza o que é concreto da ação política, façamos então um trato com a fé: acendamos uma vela pelo Brasil, enquanto levemos afora de todas as maneiras o nosso protesto. E depois do próximo 7 de setembro fascista, poderemos  cantar um hino com estes versos de Vinícius de Moraes:

“Vontade de beijar os olhos de minha pátria 

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... 

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 

E sem meias, pátria minha 

Tão pobrinha! 

 

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 

Pátria, eu semente que nasci do vento 

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 

Em contato com a dor do tempo, eu elemento 

De ligação entre a ação e o pensamento 

Eu fio invisível no espaço de todo adeus...

 

Tenho-te no entanto em mim como um gemido 

De flor; tenho-te como um amor morrido 

A quem se jurou; tenho-te como uma fé 

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito”

31
Jul20

"CAMINHAMOS NA ESTRADA DE JESUS"

Talis Andrade

CARTA DE PADRES EM APOIO E ADESÃO AOS BISPOS SIGNATÁRIOS DA CARTA AO POVO DE DEUS

 

"Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situamse cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Às vezes, sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros" (EG 56 e 270).

Nós, "Padres da Caminhada", "Padres contra o Facismo", diáconos permanentes e tantos outros padres irmãos, empenhados em diversas partes do Brasil a serviço do Evangelho e do Reino de Deus, manifestamos nosso agradecimento e apoio aos bispos pela Carta ao Povo de Deus. Afirmamos que ela representa nossos pensamentos e sentimentos. Consideramos um documento profético de uma parcela significativa dos Bispos da Igreja Católica no Brasil, "em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil", oferecendo ao Povo de Deus luzes para o discernimento dos sinais nestes tempos tão difíceis da história do nosso País.

O documento é uma leitura lúcida e corajosa da realidade atual à luz da fé. É a confirmação da missão e do desafio permanente para a Igreja: tornar o Reino de Deus presente no mundo, anunciando esperança e denunciando tudo o que está destruindo a esperança de uma vida melhor para o povo. É como uma grande tempestade que se abate sobre o nosso País.

Os bispos alertam para o perigo de que "a causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República", principalmente impulsionado pelo Presidente. Sentimo-nos também interpelados por essa realidade a darmos nossa palavra de presbíteros comprometidos no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Evangelho ilumina nossa caminhada e vamos aprofundando nosso compromisso na Igreja, sinal e instrumento do Reino, a serviço da vida e da esperança. Cada vez mais vemos a vida do povo sendo ameaçada e seus sofrimentos, principalmente dos pobres, vulneráveis e minorias. Tal realidade faz com que nossos corações ardam, nossos braços lutem e nossa voz grite pelas mudanças necessárias. Como recordam os Bispos, nós não somos motivados por "interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus".

Os bispos muito bem expressaram em sua carta, recordando o Santo Padre, o Papa Francisco, que "a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33) (EG. 180)".

Sabemos que os que nos governam têm o dever de agir em favor de toda a população, de maneira especial, os mais pobres. Não tem sido esse o projeto do atual Governo, que "não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma "economia que mata" (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço". Por isso, também estamos profundamente indignados com ações do Presidente da República em desfavor e com desdém para com a vida de seres humanos e também com a da "nossa irmã, a Mãe Terra", e tantas ações que vão contra a vida do povo e a soberania do Brasil. É urgente a reconstrução das relações sociais, pois "este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. [...] Essa realidade não comporta indiferença.".

A CNBB tem se pronunciado de forma contundente em momentos recentes; em posicionamento do dia 30 de abril, manifestou perplexidade e indignação com descaso no combate ao novo coronavírus e por eventos atentatórios à ordem constitucional. Em outro momento, os 67 bispos da Amazônia publicaram outro documento, expressando imensa preocupação e exigindo maior atenção e cuidado do poder público em relação à Amazônia e aos povos originários.

Na carta aberta ao Congresso Nacional do dia 13 de julho de 2020 a CNBB denunciou os 16 vetos do Presidente da República ao Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos Territórios Indígenas, comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais (PL nº PL 1142/2020, agora Lei nº 14.021) dizendo: "Esses vetos são eticamente injustificáveis e desumanos pois negam direitos e garantias fundamentais à vida dos povos tradicionais". Outras Comissões da CNBB assumiram decididamente o lado dos povos tradicionais do Brasil "duplamente vulneráveis: ao contágio do coronavírus e à constante ameaça de expulsão de seus territórios".

Nesse tempo de "tempestade perfeita", a voz do Espírito ressoa em posicionamentos corajosos da Igreja, que renova a cada dia seu compromisso "na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária", como indicam os bispos em sua carta. Reafirmamos nosso compromisso na defesa e no cuidado com a vida.

Ao convite dos bispos queremos dar nosso sim! "Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta."

Queremos nos empenhar para cuidar deste País enfermo! Nós nos solidarizamos com todas as famílias que perderam alguém por essa doença que ceifa vidas e aterroriza a todos. Próximos de atingir 100 mil mortos nesta pandemia, é inadmissível que não haja neste governo um Ministro da Saúde, que possa conduzir as políticas de combate ao novo coronavírus.

Conclamamos todos os cristãos e cristãs, as igrejas e comunidades, e todas as pessoas de boa vontade para que renovem, junto com os bispos, a opção pelo Evangelho e pela promoção da vida, espalhando as sementes do Reino de Deus.

Nós, "Padres da Caminhada", "Padres contra o Fascismo", diáconos permanentes e tantos outros padres irmãos, reafirmamos com alegria, ânimo e esperança a fidelidade à missão a nós confiada e apoiamos os bispos signatários da Carta ao Povo de Deus e em sintonia com a CNBB em sua missão de testemunhar e fortalecer a colegialidade.

29 de julho de 2020

Festa de Santa Marta

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Ilustração: "Casamento de São Francisco com a Senhora Pobreza" - Stefano di Giovanni (ou Sasseta). Pintor do período gótico italiano (1392-1450)
29
Jul20

Em carta ainda inédita, bispos do Brasil se declaram estarrecidos com a política suicida de Bolsonaro

Talis Andrade

Jair Bolsonaro fala com apoiadores na frente do jardim do Palácio da Alvorada, em Brasília.

Bispos afirmam que até a religião é usada neste momento “para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”

 

No Brasil, o país com o maior número de católicos no mundo, 152 bispos assinaram uma carta dura, ainda não divulgada, contra o Governo e seu presidente, Jair Bolsonaro, na qual afirmam que o país “passa por um dos momentos mais difíceis de sua história”, que eles definem como” tempestade perfeita”, já que une, de acordo com os bispos, “a crise sem precedentes na saúde ao avassalador colapso da economia”.

A carta dos bispos aos católicos brasileiros é uma condenação dura e contundente da atual política bolsonarista. É especialmente importante pela dureza das acusações, pelo uso de uma linguagem sem a clássica diplomacia da Igreja e por ser assinada também pelo cardeal Claudio Hummes, um dos maiores amigos do papa Francisco e que, portanto, nunca teria firmado tal documento sem a sua aprovação prévia.

Foi o pontífice argentino quem revelou que havia escolhido como papa o nome de Francisco, para lembrar São Francisco de Assis, porque o cardeal brasileiro, no momento em que conquistou a maioria dos votos no Conclave, o abraçou e lhe pediu: “Nunca se esqueça dos pobres”. O cardeal Hummes é prefeito emérito do Dicastério da Cúria Romana para o Clero, onde esteve à frente até 2010 como responsável pelo cuidado de todos os sacerdotes do mundo.

Existem hoje na Igreja Católica poucos documentos tão duros contra um Governo, e menos ainda como o de Bolsonaro, cujo presidente se declara católico praticante e conservador. Estamos acostumados, no máximo, a condenações por parte da Igreja Católica de Governos de cunho comunista ou simplesmente da esquerda, dificilmente de conservadores e de direita, os quais, pelo contrário, a Igreja sempre encheu de elogios e privilégios, como fez na Espanha com o ditador general Franco ou no Chile com Augusto Pinochet. Ainda me lembro da visita do Papa João Paulo II ao Chile, sua familiaridade e simpatia no trato com o ditador dentro do palácio presidencial. No Brasil, nem nos tempos da ditadura militar foram publicados documentos tão fortes da Igreja como o atual dos 152 bispos contra Bolsonaro.

Sempre se dizia que na Igreja Católica duas instituições eram as melhores do mundo: seus serviços secretos e sua diplomacia. E essa diplomacia sempre foi proverbial em documentos endereçados a Governos e governantes. Desta vez, porém, os bispos brasileiros usaram uma linguagem contundente, dura, de aberta condenação contra o Governo e o presidente. Basta este parágrafo da carta para julgar a força de condenação que os bispos quiseram dar a seu documento:

“O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa (...).” E continua: “na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde.”

Segundo os bispos, até a religião é usada neste momento no Brasil “para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”. E eles acabam recordando as enigmáticas palavras do apóstolo Paulo quando alerta em sua Epístola aos Romanos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

No documento, os bispos condenam abertamente o atual Governo e a política totalitária do presidente Bolsonaro. Dizem, sem rodeios: “Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”. E os bispos lançam uma condenação taxativa quando afirmam que o atual Governo “não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos”, mas, ao contrário, “a defesa intransigente dos interesses de uma economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”. Vocábulos como “desprezo”, “raiva”, “grosseiro” e “repugnância” nunca tinham sido vistos em um documento importante como este firmado por 152 bispos católicos. Lembro-me de que, quando era correspondente deste jornal no Vaticano, um bispo da Cúria Romana me mostrou um pequeno dicionário de palavras “fortes” que nunca deveriam ser usadas em documentos assinados pela hierarquia da Igreja, nem sequer pelo Papa.

Citando o papa Francisco em relação à crise do meio ambiente, com a guerra contra a Amazônia e o massacre dos indígenas, os bispos recordaram suas palavras quando escreveu por ocasião do Dia do Meio Ambiente: “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós”.

Agora, Bolsonaro e seu Governo sabem que, além do clamor majoritário do Brasil contra os crimes cometidos por ele e por seu Governo contra todas as minorias, somado ao desastre na questão da pandemia e da educação, terá que enfrentar esta condenação da Igreja Católica, a maior confissão religiosa do mundo e deste país. Bolsonaro sabe que não se trata de um inimigo fácil, pois conta com 1,31 bilhão de seguidores no mundo, dos quais 110 milhões apenas no Brasil. Não é um exército pequeno. E é forte por estar desarmado, ou melhor, armado apenas com a força da fé.

 

27
Jul20

Igreja: 152 bispos criticam “economia que mata” do governo Bolsonaro

Talis Andrade

São Franscisco, Portinari

"Carta ao Povo de Deus" denuncia os desmandos do governo e retoma a defesa dos direitos humanos que caracterizam a Igreja da Teologia da Libertação ...

Igreja Católica encabeçada por Dom Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldáliga e Helder Câmara teve papel relevante na luta pelos direitos humanos e pela democracia durante a ditadura militar. Em tempos de grave autoritarismo como o que vivemos, a Igreja católica resolveu se manifestar novamente. No texto, chamado de “Carta ao Povo de Deus”, os bispos dizem que o Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, vivendo uma “tempestade perfeita”. Ela combinaria uma crise sem precedentes na saúde e um “avassalador colapso na economia” com a tensão sofre “fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República [Jair Bolsonaro] e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança”
 

O documento critica  “discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19”  e chama a atenção para o “caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja.”

A Igreja Católica retoma sua tradição profética, tão valorizada pela Teologia da Libertação, e junta sua voz ao movimentos sociais e democráticos que lutam contra as políticas de morte comandadas pelo governo Bolsonaro.  

 

“Carta ao Povo de Deus”


“Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.

Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.

É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.

O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.

Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.

É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).

Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que vê io “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.

O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.

O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.

No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.

Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).

Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?

O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.

Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).

Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz! (Nm 6,24-26).

São Francisco, Militão dos Santos

17
Fev20

Casamento sempre esteve no centro do debate entre Brasil e Vaticano

Talis Andrade

O jornal Libération destaca a relação da igreja católica com o Brasil através do casamento, nesta segunda-feira (17)

O jornal Libération destaca a relação da igreja católica com o Brasil através do casamento, nesta segunda-feira (17) 

A relação da Igreja Católica com o Brasil através do casamento é destaque no jornal Libération dessa segunda-feira (17), que traz uma entrevista com a historiadora da Universidade Paris 8, Charlotte de Castelnau-L’Estoile. Segundo ela, o casamento sempre esteve no centro dos debates entre o Vaticano e o Brasil, há mais de quatro séculos.

Castelnau-L’Estoile analisa o que considera como uma evolução da Igreja Católica no Brasil, desde o casamento cristão de escravos e de indígenas na América do Sul, a partir do século XVI, até o Sínodo da Amazônia em 2019, que teve como um dos temas a ordenação de homens casados na Amazônia. No documento oficial do Sínodo, publicado na semana passada pelo Vaticano, o Papa Francisco finalmente não aceitou a ideia, apesar da falta de religiosos na região e da concorrência das igrejas evangélicas.

O casamento é o tema de dois livros da historiadora, que realizou pesquisas em Roma, no Brasil e em Portugal. O primeiro, Páscoa et ses deux maris”, (Páscoa e seus dois maridos), é a biografia de uma escrava bígama que viveu no século 17 entre Angola, Brasil e Portugal. O segundo, um ensaio chamado Un catholicisme colonial. Le mariage des Indiens et des esclaves au Brésil” Um catolicismo colonial), fala sobre casamento de indígenas e de escravos no Brasil.

Para a historiadora, o casamento foi uma maneira de incorporação de escravos e indígenas à sociedade colonial. Para ela, apesar da violência da dominação, a igreja via o casamento como uma maneira de construir uma sociedade estável, estruturada e cristã.

Catolicismo colonial

O Vaticano sempre se interessou pelas colônias da América, e aceitou a existência de sociedades escravagistas. O papa Gregório XIII, por exemplo, decretou em 1585 que os "escravos da Etiópia, Angola e Brasil" podiam se casar com um cônjuge de sua escolha. A pesquisadora fala de "catolicismo colonial". Segundo ela, paralelamente à conquista colonial civil, os religiosos escreviam a gramática jurídica, o direito do novo mundo em matéria de casamento. Dessa maneira o Papa impôs a tradição jurídica da igreja do outro lado do oceano Atlântico.

Para a historiadora, o casamento era usado como ferramenta de controle dos escravos, mas também pode ser visto como uma forma de reconhecimento da liberdade de escolha dos escravos, o que poderia iniciar um processo de emancipação. Mas a Igreja não era anti-escravagista, lembra a autora na entrevista, e tinha uma posição ambígua. Protegia ao mesmo tempo a liberdade do sacramento e a continuação da ordem escravocrata. 

O casamento também provavelmente contribuiu para o desaparecimento de muitas culturas indígenas, segundo ela. Porque a poligamia era parte importante, tanto econômica como politicamente da sociedade tupi. Para a historiadora, o casamento e a Igreja Católica ajudaram a que o sistema escravagista no Brasil durasse tanto tempo e muitas das formas atuais de dominação e violência são heranças dessa época.

 

 
22
Out19

Fake News: milícias digitais inventam que Lula e Papa Francisco teriam “tesouro do Tio Patinhas” no Vaticano

Talis Andrade

 

Seria o papa Francisco comunista?

A interpretação de Francisco da Doutrina Social Católica certamente soa mais radical do que a de seus antecessores. Na Argentina, ele reforçou que os padres devem ver o mundo através dos olhos dos pobres, ao morar entre eles, e trouxe essa abordagem com ele quando chegou a Roma.

Evangelii Gaudium – o documento que enfureceu Rush Limbaugh - argumenta que a desigualdade cria "um estado de pecado social que clama ao céu". O papa Francisco também já disse que o desemprego é o "resultado de uma escolha mundial, de um sistema econômico que levou a uma tragédia, um sistema econômico que tem a seu centro um Deus falso, um Deus falso chamado dinheiro".

#Verificamos: É falso que Lula tenha 243 milhões de euros no Banco do Vaticano

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news

Circula pelas redes sociais um post com a informação de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem uma conta com 243 milhões de euros no Banco do Vaticano. A denúncia foi feita no dia 15 de outubro por um homem chamado Jorge Sonnante, que se diz diácono e alega ter trabalhado na Santa Sé, em entrevista ao programa “Ahora con Roxana”, ancorado pela jornalista Roxana Lizárraga, da Bolívia. Outros presidentes e ex-presidentes de esquerda latino-americanos também são citados. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

“‘Lula possui 243 milhões de Euros depositados no Banco do Vaticano!!!’ Padre revela e mostra relatório”
Texto de post no Facebook que, até as 18h de 21 de outubro de 2019, tinha 648 compartilhamentos

FALSO
 

A informação analisada pela Lupa é falsa. Em janeiro deste ano, quando a denúncia contra Lula e outros ex-presidentes começou a circular, o diretor interino de imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti, afirmou em entrevista coletiva para jornalistas que nenhum presidente ou ex-presidente latino-americano teve ou tem conta bancária no Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido popularmente como Banco do Vaticano. Além disso, os documentos apresentados como “provas” são forjados, como mostrou a plataforma de checagem ColombiaCheck.

A primeira reportagem sobre os documentos que comprovariam essas contas foi publicada pelo site colombiano El Expediente, em 9 de janeiro de 2019. Além de Lula, foram citados Cristina Kirchner (Argentina), Daniel Ortega (Nicarágua), Evo Morales (Bolívia), Juan Manuel Santos (Colômbia), Nicolás Maduro (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Raúl Castro (Cuba). Sonnante aparece como autor da denúncia. Em sua conta no Twitter, o diretor do site e autor do texto, Gustavo Rugeles, publicou uma imagem com tarjas de um documento que traz o nome de alguns desses políticos.

Gustavo Rugeles@GustavoRugeles
 

Atención: @EIExpedienteCol presenta la información precisa, con números de cuenta y saldos del dinero de @NicolasMaduro @CdeKirchner , María Chávez y de @JuanManSantos escondido en el (IOR), antiguo banco del Vaticano. Hay que decir que Santos es el menos acaudalado de todos.

Ver imagem no Twitter

Ao ser questionado sobre o caso dois dias depois, Alessandro Gisotti, do Vaticano, desmentiu a informação: “Depois de verificar com as autoridades competentes, posso afirmar que nenhuma das pessoas mencionadas no artigo de El Expediente jamais teve uma conta bancária no IOR, nem tem atualmente, nem delegou contas a terceiros, nem teria – segundo as novas normas adotadas pelo instituto – algum título que permitisse acessar alguma operação nele. Os documentos apresentados como prova são falsos. O IOR reserva-se o direito de tomar medidas legais”.

A informação foi classificada como falsa em janeiro pela plataforma ColombiaCheck. O site apontou uma série de inconsistências nas “provas” exibidas pelo El Expediente, como uma assinatura incluída digitalmente em um dos “documentos” e trechos escritos em espanhol quando deveriam estar em italiano.

Há, também, erros de tradução no uso de termos italianos, como também foi verificado pelo jornal italiano La Stampa. A palavra “banconote”, por exemplo, aparece em um dos “documentos” como sinônimo de “número da conta”, quando significa “notas de dinheiro”. O ColombiaCheck também encontrou inconsistências nas supostas credenciais apresentadas por Sonnante.

A história voltou a circular recentemente durante as eleições presidenciais da Bolívia. O atual presidente, Evo Morales, disputa seu quarto mandato consecutivo. Algumas plataformas locais, como o ChequeaBolivia, também verificaram o boato. 

Uma versão semelhante dessa checagem foi feita por Boatos.org e E-farsas.

Nota: esta reportagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook. Dúvidas sobre o projeto? Entre em contato direto com o Facebook

Editado por: Chico Marés

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

 
09
Ago19

Jornal francês descreve Bolsonaro como “pior inimigo dos índios”

Talis Andrade
media
Jornal disse que Bolsonaro é "pior inimigo dos índios" RFI/Captura de tela

 

O jornal católico francês La Croix publicou nesta sexta-feira (9) duas matérias em que abordam a situação indígena no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro é descrito no título de uma delas como “o pior inimigo das populações indígenas”.

Diante do desmatamento na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro contesta os números oficiais e ataca cientistas e ONG’s, relata a correspondente especial em São Paulo, Marie Naudascher. Sua matéria traz o caso do chefe indígena Emyra Wajipi, que foi violentamente assassinado no Amapá mês passado.

Seu corpo foi exumado após ter sido encontrado em um rio – o que não é uma prática deste povo –, para que sua morte fosse esclarecida. Ainda assim, antes mesmo da conclusão, Bolsonaro declarou que não havia indícios de que a invasão de 50 garimpeiros nas terras pertencentes à tribo tinha relação com o homicídio, de acordo com o La Croix.

Opinião contestada pela FUNAI, que afirma que os garimpeiros se sentem encorajados pela política favorável da agroindústria defendida pelo presidente. “A cobiça pelo ouro, manganês e cobre impulsionou a invasão destas terras, delimitadas pelo Estado Brasileiro desde 1996”, relatou o jornal.

Segundo o antropólogo Dominique Tilkin Gallois, professor da USP, em entrevista ao jornal, a motivação em querer explorar terras indígenas não pode ser outra além da ideológica. A intenção é ignorar totalmente a realidade dos povos tradicionais e não conceber a ideia de que eles vivam de maneira diferente da dos moradores dos centros urbanos.

Em nota publicada no fim de julho, a Coordenação das organizações indígenas da Amazônia brasileira declarou que Bolsonaro e seus ministros “anti-indígenas” são os seus piores inimigos.  Segundo o jornal, eles relembram que durante a campanha os seus chefes foram atacados, criminalizados, em nome do velho discurso do desenvolvimento social e econômico do país.

A correspondente ainda relata que, desde sua chegada ao poder, Bolsonaro adotou medidas claras de favorecimento ao agronegócio, como ter nomeado a chefe do lobby agrícola no congresso, Tereza Cristina, para ser ministra da Agricultura. E também quando retirou da FUNAI a responsabilidade das demarcações, decisão que foi anulada no STF.

A reportagem também repercutiu o desmatamento, que em julho teve um aumento de 278% em comparação com o mesmo mês no ano passado. O jornal ainda destaca que, durante a reunião do G20, Bolsonaro criticou líderes europeus e disse que a Amazônia não os pertencia, e que, para ele, as ONG’s querem que os índios continuem “prisioneiros como em um zoológico, ou como homens pré-históricos”.

Por fim, o professor da USP Tilkin Gallois disse que as maiores vítimas desta intransigência são os povos da floresta, e constata que os indígenas também deveriam participar dos processos de decisão que dizem respeito a eles mesmos.  

 

A defesa dos indígenas pela igreja Católica na Amazônia

Em outra reportagem do jornal La Croix, o Conselho Idigenista Missionário (CIMI) é destacado como uma das instituições mais ativas por defender os territórios e os direitos fundamentais dos povos da floresta. A enviada especial do jornal a Atalaia do Norte (AM), Claire Lesegretain, entrevistou a missionária Marta Barral Nieto. De acordo com ela, a Igreja Católica está na região, em primeiro lugar, para proteger a vida dos indígenas e que “muitos índios se dizem católicos, mesmo se não são batizados ou nunca tenham ido à igreja, porque eles sabem que a Igreja os respeita”.

A missionária ainda disse ao jornal que os indígenas sabem diferenciar os católicos dos grupos neopentecostais que estão se implantando cada vez mais na região, e recebendo ajuda do governo, com o intuito de “catequizá-los”. Segundo o padre italiano Alberto Panichella, os evangélicos estão proibindo os índios de tatuar ou pintar seus corpos, e estão os aterrorizando por causa de seus “fetiches e totens”, relata o jornal.

Os dois missionários trabalham no CIMI, conselho fundado pela CNBB, afim de apoiar as 305 etnias indígenas que existem no Brasil. “O objetivo do Cimi não é levar o evangelho às comunidades - porque queremos respeitar sua religião natural -, mas ajudá-las a enfrentar as muitas dificuldades que enfrentam", afirmam.

A reportagem ainda conversou com o indígena da etnia Marubo, Cloves Marubo, que alertou sobre os perigos cotidianos vividos pelos povos desta região. "Estamos ameaçados dentro de nossas reservas [8 milhões de hectares para os 16 grupos étnicos que vivem na bacia do Javari] pelos traficantes de madeira e pelos proprietários de fazendas, pelo caçadores furtivos que pilham ovos de tartaruga, por mineradores subterrâneos... A Funai não tem mais meios para manter seus postos militares e proteger as demarcações de nossas terras. Só a Igreja Católica nos ajuda, através do CIMI e da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam)."

 

12
Fev19

Sínodo para a Amazônia: trazer de volta os novos caminhos da irmã Dorothy 14 anos depois

Talis Andrade

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal

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O assassinato da irmã Dorothy Stang, que completa 14 anos em 12 de fevereiro, foi um exemplo claro de que a busca de novos caminhos sempre foi, é e será arriscada. As novidades incomodam quem pretende conservar o sistema estabelecido, que sempre os beneficiou.

Existem muitos personagens que ao longo da história sofreram isso. O mesmo Jesus de Nazaré queria estabelecer uma nova maneira de se relacionar com Deus, o que provocou uma aliança do poder político e religioso para lhe dar a morte de um criminoso.

Com a irmã Dorothy aconteceu algo parecido, porque nos quase quarenta anos que ela desenvolveu sua missão no Brasil, ela conviveu com as pessoas, especialmente as mais pobres, e descobriu que o futuro da Amazônia e seu povo precisava de um novo caminho, que na época soava como ciência ficção, o desenvolvimento sustentável, que começou como algo local, mas que aos poucos foi alcançando reconhecimento nacional e internacional.

Podemos dizer que, com o Papa Francisco, a situação é semelhante, porque nos seus quase seis anos de pontificado ele não se cansou de tomar iniciativas surpreendentes. Agora ele quer buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, e com isso está mexendo com muita gente.

Encontrar novos caminhos para a Igreja faz com que aqueles que vivem apenas preocupados com o que se passa dentro da sacristia, se oponham a uma Igreja em saída, de portas abertas, hospital de campanha, uma igreja ministerial, sinodal, que não apenas dita o que tem que ser feito, mas também quer ouvir e aprender com todos. Os novos caminhos para a ecologia integral despertam as reticencias das grandes empresas e dos governos que as apoiam. Todos fazem parte do mesmo lado, aqueles que sempre viram a Casa Comum desde o desejo predatório daqueles que colocam o lucro pessoal acima do bem coletivo.

Todos eles reagem, como se viu nos últimos dias, não só contra o Papa Francisco, mas também contra aqueles que o apoiam e se sentem parte da abertura desses novos caminhos. Não tenho dúvidas de que, se ela estivesse viva, Dorothy Stang faria parte de tantos homens e mulheres que nos últimos meses têm insistido em chegar em cada canto da Amazônia para escutar, para aprender um pouco mais com a vida dos povos amazônicos especialmente com os povos indígenas. Aqueles que a perseguiram e assassinaram são os mesmos que continuam a perseguir aqueles que desejaram continuar seu legado.

Como cristãos, não podemos esquecer que nossa fé é baseada em alguém que sentiu a necessidade de tornar o Reino de Deus uma realidade. Para isso, é necessário enfrentar os poderes deste mundo, aqueles que participam da economia que mata, que consideram descartável uma grande parte da humanidade. Foi isso que matou a irmã Dorothy, mas que também faz aumentar a cada dia o número dos inimigos do Papa Francisco, que desde dentro eles chamam de herege e desde fora o chamam de comunista.

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal. O Sínodo desperta cada vez mais interesse, tanto naqueles que o veem como um sinal de esperança, como naqueles que o consideram uma ameaça aos seus planos malignos.

Em um mundo que está passando por uma crise que põe em risco o futuro do próprio planeta, é sempre bom ter aqueles que se defendem com a mesma arma que Dorothy Stang carregou no momento em que foi vilmente assassinada, a Palavra de Deus. Ela é sempre luz no caminho e está nos fortalecendo diante de ataques daqueles que acreditam que são donos e pretendem controlar além de onde deveriam chegar.

 

 



10
Fev19

Bolsonaro manda Abin espionar bispos e cardeais e traça combate à Igreja Católica

Talis Andrade

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247 - Na visão do bolsonarismo, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se organizando para liderar debates em conjunto com a esquerda. O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), chefiada pelo general Heleno, e dos comandos militares. Os relatos são de encontros recentes de cardeais brasileiros com o papa Francisco para discutir o Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, no mês de outubro, bispos de todos os continentes.

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Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo destaca que, "durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma 'agenda da esquerda. O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. 'Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí', disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva."

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A matéria ainda informa que "com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado 'clero progressista', pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. 'Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil', disse Heleno. Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses."

O governador do Maranhão, Flávio Dino, usou sua conta no Twitter, neste domingo (10), para criticar a postura do governo brasileiro, que, através da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), chefiada pelo general Heleno, e dos comandos militares, espiona os bispos membros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 

"Se de fato o governo federal estiver espionando e tratando a CNBB como 'inimiga interna', estamos diante de um dos maiores escândalos deste começo de ano. Inaceitável a volta da 'doutrina da segurança nacional' da ditadura", denunciou o governador.  

Flávio Dino@FlavioDino
 

Se de fato o governo federal estiver espionando e tratando a CNBB como “inimiga interna”, estamos diante de um dos maiores escândalos deste começo de ano. Inaceitável a volta da “doutrina da segurança nacional” da ditadura.

O coordenador do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, também usou sua conta no Twitter para condenar a espionagem do governo Bolsonaro.
 

"Governo Bolsonaro usa a ABIN para espionar reuniões de bispos da CNBB sobre a defesa da Amazônia, que seriam "agenda de esquerda" e "ingerência externa". A saudade da ditadura se transforma em reencontro com velhas práticas", disse.

Guilherme Boulos@GuilhermeBoulos
 

Governo Bolsonaro usa a ABIN para espionar reuniões de bispos da CNBB sobre a defesa da Amazônia, que seriam "agenda de esquerda" e "ingerência externa". A saudade da ditadura se transforma em reencontro com velhas práticas.

 

Ironizando a situação, Fernando Haddad disparou: "Vaticano comuna: Bolsonaro vê Igreja Católica como opositora, por discutir temas considerados de esquerda, como situação de povos indígenas e quilombolas, e mudanças climáticas"

Fernando Haddad@Haddad_Fernando
 

Vaticano comuna: Bolsonaro vê Igreja Católica como opositora, por discutir temas considerados de esquerda, como situação de povos indígenas e quilombolas, e mudanças climáticas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse Gal. Heleno.https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,planalto-ve-igreja-catolica-como-potencial-opositora,70002714758?utm_source=estadao:twitter&utm_medium=link 

Planalto vê Igreja Católica como potencial opositora - Política - Estadão

Abin e comandos militares relataram articulação de cardeais para o Sínodo sobre Amazônia, reunião no Vaticano que governo trata como parte da ‘agenda da esquerda’

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20
Out17

Terras e mais terras para os herdeiros e grileiros que mandaram matar Padre Gabriel Maire

Talis Andrade

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Os nomes dos corruptos e covardes grileiros de terras, mandantes principais do assassinato do Padre Gabriel Maire, todo o Espírito Santo conhece. 

 

Padre Gabriel Maire foi morto em 23 de dezembro de 1989, quando passava de carro pela Rodovia Carlos Lindenberg, em Cobilândia, entre o município de Cariacica e Vila Velha. Os capangas estavam de tocaia. Os pistoreiros estão sempre na espera. Pagos pelos escravocratas.  

 

Era presidente do Brasil José Sarney e governador Freitas Mauro, ambos do PMDB, partido que voltou a governar o Brasil com Michel Temer. 

 

Escreveu João Baptista Herkenhoff: 


O Padre Gabriel Maire deu lições em vida e continua a dar lições depois de morto.

 

Em vida mostrou um caminho: nada se consegue sem luta; a força do povo está na união; a vontade de Deus é que todas as pessoas tenham condições para viver com dignidade; servimos ao Evangelho quando contribuímos na construção de um mundo mais justo; “prefiro morrer pela Vida a viver pela morte” (seu testamento, numa frase).

 

Morto, Gabriel continua a dar lições. A sentença que o considerou vítima de latrocínio foi anulada. A farsa do roubo seguido de morte foi concebida com uma falha primária. Os que trucidaram o padre deixaram no seu pulso um relógio francês. Pouco antes de sua morte, Gabriel Maire prestou depoimento à Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória, relatando ameaças que estava sofrendo. Sua voz de Profeta, em favor da Justiça, com a Bíblia na mão, estava incomodando grileiros de terras urbanas e outros opressores do povo. Tendo em vista o conjunto das circunstâncias, não desanimaram os que desde o início negavam, inclusive através dos meios de comunicação, a versão da morte para roubar. Mas foi sobretudo a chama santa do advogado Ewerton Montenegro Guimarães que não permitiu que o grito por Justiça deixasse de ecoar. Falecendo Ewerton, dois jovens causídicos assumiram o processo e deram competente prosseguimento ao trabalho. Celebram eles agora, com milhares de pessoas, no Brasil e na França (e com Ewerton também, lá onde estiver), o deslinde da mentira. Gabriel ensinou a lutar e a luta para que se faça Justiça, no julgamento de sua morte, é lição que ele nos dá depois de morto.

 

O desmonte da trama homicida deve ser motivo de encorajamento para todos aqueles que pedem Justiça. Esta é mais uma lição que sua morte traduz. A batalha por Justiça é muitas vezes longa e árdua. Obstáculos são colocados no percurso: alguns por falhas estruturais do aparelho policial e judiciário; outros por comodismo, irresponsabilidade ou corrupção de autoridades; e outros ainda por maquinações dos têm na impunidade sua carta de alforria. Quando falamos em impunidade, não nos referimos aos delitos menores. Esses podem ser absorvidos pela sociedade, sem transtorno insuportável. Falamos na impunidade dos grandes delitos, a começar por aqueles que tiram a vida de alguém. A impunidade do homicídio é absolutamente intolerável. Mães que tiveram seus filhos assassinados, esposas que perderam o marido nas mãos de sicários, filhos que ficaram órfãos não desanimem. Gritem, peçam Justiça, porque “se os homens se calarem as pedras falarão”. E as pedras, desabando ruidosas e avassaladoras, acenderão consciências, pressionarão Poderes, arrancarão Justiça.

 

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