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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Mar21

Sem vacinas, sem liderança, sem fim à vista: como o Brasil se tornou uma ameaça

Talis Andrade

Atendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de CovidAtendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de Covid-19. Foto Mister Shadow/Estadão 

Na sexta-feira (19), 16 dos 26 estados brasileiros estavam com ocupação de leitos de UTI de 90%, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso

 

por Matt Rivers /CNN /Estados Unidos
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A temperatura era de 35 graus Celsius na terça-feira (16), mas a umidade fazia com que parecesse ainda mais quente. Em meio ao calor sufocante do final do verão carioca, Silvia Silva Santos acalmou sua mãe de 77 anos enquanto as duas caminhavam em direção ao portão da clínica.

“Já viemos aqui duas vezes, mas ela não conseguiu se vacinar”, contou Silvia. “Ela fica na fila, daí não tem mais vacinas e a gente tem que ir embora”.

No portão, Silvia perguntou ao guarda se poderia vacinar a mãe. Consciente da presença das câmeras da CNN, ele rapidamente a conduziu para dentro.

Cerca de cinco minutos depois, mãe e filha voltaram com as más notícias estampadas em seus rostos.

“Acho isso muito errado”, disse a filha, claramente irritada e frustrada. “Agora teremos que descobrir novamente quando vai ter vacina, e na verdade não dá para saber quando".

A mesma frustração se espalhou pela multidão de idosos quando as doses foram negadas a todos. O estado do Rio de Janeiro suspendeu a campanha de vacinação porque seu estoque de doses havia acabado.

“É um desastre, um desastre total”, disse uma mulher à CNN após ter sua vacina negada. “Quem é o culpado por tudo isso? Acho que são os nossos líderes, nossos políticos não prestam”.

A tempestade perfeita

A crise da Covid-19 no Brasil está pior do que nunca. Quase todos os estados brasileiros têm uma taxa ocupação de leitos de UTI de 80% ou mais, de acordo com uma análise da CNN de dados estaduais. Na sexta-feira (19), 16 dos 26 estados estavam com ocupação de 90% ou acima, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso ou estão em risco iminente de fazê-lo.

As médias de sete dias de novos casos e novas mortes estão mais altas do que nunca.
Nos últimos dez dias, cerca de um quarto de todas as mortes por coronavírus no mundo foram registradas no Brasil, de acordo com análises da CNN.

“São sinais claros de que estamos em uma fase de aceleração muito crítica da epidemia e é algo sem precedentes”, disse o epidemiologista brasileiro Jesem Orellana.

Se as vacinas são a melhor saída para essa pandemia global, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para sua superação.

Até sexta-feira, menos de 10 milhões de pessoas no país de cerca de 220 milhões de habitantes haviam recebido pelo menos uma dose, de acordo com dados federais de saúde. Apenas 1,57% da população foi totalmente vacinada.

Esse é o resultado de um programa de vacinação lento que tem sido atormentado por atrasos. Durante o anúncio de seu plano de distribuição no início de fevereiro, o governo prometeu que cerca de 46 milhões de doses de imunizantes estariam disponíveis em março. O governo foi forçado a diminuir esse número repetidas vezes, e agora estima apenas 26 milhões no final do mês.

A produção nacional – que os governos dizem que será de centenas de milhões de doses da vacina da Oxford-AstraZeneca – acaba de começar. As primeiras 500 mil doses foram entregues e celebradas por autoridades do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro esta semana, apesar do atraso de meses.

“[Não há] vacinas em uma quantidade que realmente cause um impacto no momento”, afirma a microbiologista brasileira Natalia Pasternak. Segundo ela, vai demorar até o segundo semestre para que doses suficientes estejam disponíveis para ter um impacto significativo na epidemia.

Se as vacinas continuarem escassas no futuro próximo, as únicas maneiras de controlar o crescimento exponencial da epidemia no Brasil são os métodos que o mundo já cansou de ouvir: distanciamento social, nada de grandes reuniões, movimentos restritos e boa higiene.

Mas, em muitos lugares do Brasil, isso simplesmente não está acontecendo. No movimentado Rio de Janeiro, é fácil encontrar multidões sem máscara andando pelas ruas, conversando de perto.

Embora as famosas praias da cidade estejam fechadas neste fim de semana, restaurantes e bares ainda podem ficar abertos até as 21h, e muitos provavelmente ficam lotados.

Muitos estados impuseram restrições bem mais severas, incluindo toques de recolher noturnos, mas os líderes locais estão lutando contra a liderança federal, ou a falta dela, que está determinada a manter tudo aberto.

O presidente Jair Bolsonaro, um cético da Covid-19 que zombou da eficácia das vacinas e não as tomou publicamente, anunciou na quinta-feira (18) que entraria com uma ação judicial contra certos estados no Supremo Tribunal Federal, alegando que a única pessoa que pode decretar toques de recolher é ele – algo que  prometeu nunca fazer.

Apesar da morte de milhares de pessoas diariamente por causa do vírus, Bolsonaro afirma que a verdadeira ameaça vem dos danos econômicos que as restrições provocadas pelo vírus podem impor.

Milhões de seus apoiadores estão seguindo seu exemplo, desafiando abertamente os regulamentos locais de distanciamento social e uso de máscaras.

Tudo isso por si só já seria preocupante, mas é exacerbado por uma realidade profundamente preocupante: a disseminação das variantes do Covid-19.

O perigo da P.1

variante P.1 foi descoberta pela primeira vez no Japão. As autoridades de saúde japonesas detectaram a mutação viral em viajantes que vinham do Amazonas, um estado isolado no norte do Brasil repleto de floresta tropical.

A CNN tratou da região no final de janeiro, quando uma segunda onda brutal de Covid-19 dizimou a cidade de Manaus.

Quase dois meses depois, mais pesquisas apontam para a variante P.1 como um fator crucial não apenas no surto de Manaus, mas na crise nacional que o Brasil enfrenta hoje.

Um estudo do início de março feito pela principal fundação de pesquisa médica do Brasil, a Fiocruz, descobriu que, dos oito estados brasileiros pesquisados, as variantes da Covid-19, incluindo a P.1, eram prevalentes em pelo menos 50% dos novos casos.

A variante é amplamente aceita como sendo mais facilmente transmissível, até 2,2 vezes, de acordo com um estudo recente. Isso significa que ela é mais transmissível do que a amplamente discutida variante B.1.1.7, identificada pela primeira vez no Reino Unido, que é até 1,7 vezes mais transmissível, de acordo com um estudo de dezembro.

A mesma pesquisa também descobriu que as pessoas têm 25% a 65% mais probabilidade de escapar da imunidade protetora existente de infecções anteriores que não tenham sido causadas pela P.1.

Por fim, ainda existem preocupações de que as diferentes vacinas possam não ser tão eficazes contra a variante P.1.

Embora um estudo recente do Reino Unido tenha descoberto que as “vacinas existentes podem proteger contra a variante do coronavírus brasileiro”, a CNN conversou com vários epidemiologistas que continuam preocupados.

“O mundo não acordou para a terrível realidade potencial que a variante P.1 pode representar”, afirmou o doutor Eric Feigl-Ding, epidemiologista. ‘As pessoas não perceberam o quanto a P.1 é pior”.

Ameaça global

Em meio à disseminação não mitigada do vírus no Brasil, encontram-se duas ameaças adicionais distintas.

A primeira é a exportação mais fácil da variante P.1 existente para o exterior. Ela já está presente em pelo menos duas dezenas de países e as viagens internacionais de e para o Brasil ainda estão abertas para a maioria dos países.

A segunda é que, se a variante P.1 foi criada aqui, outras também podem surgir.

“O fato de a pandemia estar fora de controle no Brasil causou a variante”, disse Natalia Pasternak, a microbiologista brasileira. “E vai causar mais variantes. Vai causar mais mutações porque é isso que acontece quando você permite que o vírus se replique livremente”.

De acordo com as leis da evolução viral, novas variantes são criadas para tentar permitir que o vírus se espalhe mais facilmente. Ao longo da trajetória, iterações mais perigosas podem ser criadas.

“Mais variantes significam que há uma probabilidade maior de que uma delas possa de fato escapar de todas as vacinas, por exemplo", disse Pasternak. “É raro, mas pode acontecer”.

Segundo a microbiologista, isso torna o Brasil um perigo global, não apenas para os países vizinhos, mas para outros ao redor do mundo.

“Tudo isso junto deve aumentar o alarme em todos os países do mundo de que devemos ajudar o Brasil a conter P.1, para que todos não sofram o mesmo destino do colapso do sistema hospitalar brasileiro”, detalhou o doutor Feigl-Ding.

Com a falta de vacinas e um governo relutante em tomar as medidas necessárias para evitar que isso aconteça, não está claro como as coisas vão melhorar tão cedo no Brasil.

O jornalista Eduardo Duwe contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

14
Mar21

Até quando o Exército Brasileiro se prestará ao papel de biombo?

Talis Andrade

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A ‘cortininha’

Cinco ex-militares – Jair Bolsonaro, Braga Neto, Luiz Eduardo Ramos, Fernando Pimentel e Eduardo Pazuello – reuniram-se ontem em um hotel militar em Brasília.

Poderia ser um inofensivo joguinho de baralho de senhores aposentados, entremeado por recordações da caserna, tremoços e goles de cerveja, mas era uma reunião de cúpula do governo brasileiro, pois aqueles senhores são o presidente e os ministros da Casa Civil(!?), de Governo, da Defesa e da Saúde.

Do que se tratou ali, porém, não se sabe, pois na versão oficial foi “um encontro informal”.

De perceptível, apenas o fato de que, a partir do momento em que se percebeu o olhar da câmara de televisão, ordenou-se que militares fizessem uma “cortininha” para ocultá-los.

Informações supostamente vazadas do encontro – se a turma do “serviço secreto” quiser saber quem foi, procure o general Ramos, o mais falastrão de todos – dizem que trataram da vacinação.

Mas não de obter vacinas. O que estaria em pauta era a “comunicação da vacinação”, que seria a responsável pelo desgaste do governo na opinião pública.

Lamento informar que não é, muito antes pelo contrário.

A comunicação, com a ajuda de uma mídia incompetente e primária, tem sido excelente para que o povo brasileiro não foque sua atenção na incapacidade do governo de gerir a crise sanitária.

Se as imagens de hospitais lotados são dramáticas, horas e horas de reportagens cândidas sobre os idosos que se vacinam – e, natural, sobre sua alegria, suas esperanças e manifestações de que “tudo vai dar certo” – edulcoram o fato de que, até agora, dois meses depois de iniciada a vacinação, nem chegamos à faixa dos 75 anos.

O problema da vacinação é a falta de vacinas, ponto.

E não vai ser resolvido com anúncios ribombantes de compra de vacinas que não têm data, não tem registro para uso, não tem plano para serem aplicadas.Image

Se o russo Gamaleia tem 37 milhões de doses para entregar aos governadores do Nordeste (e estes entregarem ao SUS) , porque não as têm para vender e entregar ao governo brasileiro. Como é que o governador do Rio de Janeiro anuncia a compra de 5 milhões de doses e não se sabe de quem e para quando?

Quando Joe Biden anunciou que haveria 100 milhões de norte-americanos vacinados ao fim de seus 100 primeiros dias de governo, muitos duvidaram. Já são 105 milhões de doses aplicadas, não porque tenham um sistema de saúde público capilarizado, mas porque têm centenas de milhões de doses de vacina.

A “mesa de biriba” de ontem só nos revela a metáfora que há em enfileirar soldadinhos para que com eles se encubra os jogadores que movimentam ali número de corpos sem vida como fichas de suas apostas insanas.

Até quando o Exército Brasileiro se prestará ao papel daqueles pobres soldados que ali estavam, perfilados, a servir de biombo a incompetentes que se acharam e se acham ungidos para exercer o poder porque instalaram um psicopata na Presidência do país?

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Nota deste correspondente: Velho quem tem 60 anos. Idoso, 65 anos. Ancião, depois dos 70. 

O Brasil ainda não terminou de vacinar os anciãos. 

12
Jan21

Idosos, cuidadores e a lei

Talis Andrade

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Um dos graves problemas para idosos de famílias pobres e da classe média consiste na falta de instituições públicas municipais destinadas a lhes proporcionar abrigo, alimentação, assistência à saúde, lazer e acompanhamento adequado

 

por Almir Pazzianotto Pinto

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Como é sabido a Constituição promete mais do que pode assegurar. No artigo 230 garante à pessoa com idade superior a 65 anos "sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhe o direito à vida". A única promessa concretizada foi a do transporte urbano gratuito, prevista no parágrafo 2º.

As normas constitucionais estão regulamentadas no Estatuto do Idoso e dispositivos do Código Civil relativos ao contrato de prestação de serviços (arts. 593/609) e às relações de parentesco (arts. 1.591/1.694). Quem se detiver na leitura dos artigos 2º, 3º e 4º do Estatuto dos Idosos chegará à conclusão de que o Poder Legislativo é integrado por nefelibatas movidos por incontrolável populismo.

Um dos graves problemas para idosos de famílias pobres e da classe média consiste na falta de instituições públicas municipais destinadas a lhes proporcionar abrigo, alimentação, assistência à saúde, lazer e acompanhamento adequado. A omissão sugere duas soluções, ambas ruins: onerosa internação em casa particular, ou dispendiosa contratação de cuidadores.

Razoável número de homens e mulheres chega a 70, 80, 90, 100 anos de idade. A velhice, contudo, cobra elevado preço em doenças típicas da ancianidade. Muitos são viúvos ou viúvas cujos filhos, sobrecarregados por encargos de família, não reúnem condições de arcar com as necessidades mínimas dos pais. O problema assume proporções dramáticas entre membros da classe média e os pobres. Como assegurar à mãe, ao pai ou a ambos, idosos e desprovidos de recursos, a preservação da dignidade, do bem-estar, da saúde e os cuidados necessários garantidos na Constituição e Código Civil? Poucos dispõem de recursos pessoais. São aposentados pelo INSS ou pelo serviço público, que não acumularam fortuna. Os filhos, pequenos empresários, profissionais liberais, comerciários, bancários, operários, proprietários rurais, impotentes para lhes oferecer a assistência exigida.

A empregada doméstica é amparada por legislação especial. Trabalha oito horas diárias. Cuida da casa e não dos donos da casa. Vítima de depressão, osteoporose, acidente vascular cerebral, mal de Parkinson, Alzheimer, falência do sistema renal, artrose generalizada, demência senil, cardiopatia grave, o idoso exige atenção constante. Desde o momento em que acorda necessita de alguém que o levante, conduza ao sanitário para a higiene diária, lhe dê alimentação três vezes ao dia, ministre medicamentos, troque de roupa, coloque na poltrona ou cadeira de rodas, leve para tomar sol, à noite o ponha de volta à cama e o agasalhe para dormir.

Se lhes aplicarmos a Consolidação das Leis do Trabalho ou a legislação da doméstica, serão necessários quatro ou cinco cuidadores em regime de revezamento. O leitor já percebeu que só a elite econômica teria recursos suficientes. As relações entre cuidador e idoso não pertencem ao amplo círculo da legislação do trabalho, mas aos dispositivos concernentes ao Direito das Obrigações e da Família do Código Civil. Ser idoso e inválido não é profissão da qual alguém tire proveito. Resulta da longevidade e natural vontade de sobreviver. É errado enquadrar como empresário ou profissional liberal quem não exerce atividade econômica ou sem fins lucrativos.

A realidade a tudo se impõe. Em nome da proteção do cuidador, não se pode relegar ao abandono homens e mulheres aos quais o Estado nega a assistência programada na Constituição e na Lei. Estamos diante de gravíssimo problema social potencializado pela pandemia. Os idosos, integrantes da camada mais vulnerável da população, exigem medidas de defesa específicas.

Surgem as primeiras reclamações trabalhistas ajuizadas por cuidadores. Reivindicam registro em carteira, reconhecimento de vínculo empregatício, pagamento de horas extraordinárias, descanso semanal remunerado, férias mais um terço, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia. Para muitos idosos isto significa o risco de perda do apartamento ou da casa em que residem, o único bem acumulado durante a vida.

O Poder Judiciário do Trabalho deve compreender que as relações entre cuidador e idosos e idosos e parentes em linha reta não se resolvem com aplicação da CLT ou da legislação da doméstica. O mundo jurídico se defronta com desafio ético e moral: como assegurar aos pais e avós idosos dignidade e assistência se o Poder Judiciário lhes impuser obrigações insuportáveis? A solução passa pela incidência da Constituição e do Código Civil. Não se pode deixá-los morrer à míngua de assistência, por falta de recursos.

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08
Jan21

Há 30 milhões de idosos. Grande parte deles em situação de pobreza ou miséria

Talis Andrade

ILC BRASIL – Português

Carta Aberta ao Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa - CNDI

A pandemia Covid-19 traz para o centro da cena aqueles cidadãos que têm estado por tanto tempo invisíveis para a sociedade: as pessoas idosas. Elas representam o grupo mais vulnerável às complicações da doença, inclusive o óbito. Envelhecer em um país com alto índice de desigualdade social intimamente ligada às questões de raça, etnia e gênero, e com grandes dificuldades para assumir o envelhecimento como uma prioridade política, representa o maior desafio ao qual o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI) é instado a responder.

O CNDI tem como missão fundamental supervisionar, acompanhar, fiscalizar, avaliar e propor diretrizes para a Política Nacional do Idoso e para as políticas de interesse da pessoa idosa. Até junho de 2019 sua composição incluía 28 membros, paritariamente distribuídos entre conselheiros de diferentes pastas ministeriais e da sociedade civil representativa e organizada.

A partir da dissolução arbitrária do CNDI pelo decreto n°9.893 de 27 de junho de 2019, o colegiado passou a ter um presidente exclusivamente escolhido pelo Ministério a que está subordinado, sem maior articulação com outros órgãos do Governo, que dirá com organizações da sociedade civil. Assim, o CNDI restou completamente descaracterizado de sua relevância e de seu papel de diálogo junto aos demais Conselhos.

Diante deste vazio político deixado pelo CNDI, mais do que nunca, cabe à sociedade civil se organizar e agir em defesa dos direitos das pessoas idosas e das pessoas que cuidam delas. À luz das evidências científicas e das recomendações da OMS, a orientação pela Presidência da República do Brasil de restringir as medidas de isolamento apenas às pessoas idosas e mais frágeis deixará estes grupos ainda mais expostos à epidemia do coronavírus, que está longe de atingir seu ápice.

Não basta o Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa apelar com um "ajude-nos", essencialmente direcionado apenas aos idosos institucionalizados. Muito embora estes estejam entre os mais vulneráveis, eles representam menos de 1% da população idosa brasileira. Há 30 milhões de idosos no Brasil que vivem na comunidade. Grande parte deles já estava cronicamente desassistida, em situação de pobreza ou miséria, totalmente dependentes de serviços públicos de saúde e sociais que sofreram cortes substanciais em seus orçamentos nos últimos anos.

Muitos dos idosos brasileiros vivem sós, grupo este composto predominantemente por mulheres, que já os coloca em uma situação precária face ao isolamento social, essencial para deter a propagação rápida do coronavírus. Muitos outros são a única fonte regular de renda de toda a família com quem vivem - alguns, dependentes de cuidados, outros provedores deles para outros membros da família. Preservar suas vidas não é apenas um ato humanitário; é também uma forma de preservar uma cultura do cuidado que impacta suas famílias e as comunidades onde vivem.

Assim sendo, o ILC-BR, em seu papel de advocacy, vem alertar as autoridades e a sociedade em geral quanto ao risco indefensável e desumano de assistirmos a um gerontocídio em nosso país.

Nossa primeira orientação é: FIQUEM EM CASA. TODOS.

A segunda oreintação dirige-se ao CNDI e à Secretaria Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa Idosa: proponham ações essenciais, articuladas e urgentes que incluam órgãos do Governo e da sociedade, com a a definição de estratégias e intervenções multisetoriais para responder a áreas prioritárias, especialmente:

- Na Educação:

- Divulgar informação qualificada e de fácil compreensão que explique a necessidade das medidas tomadas para conter a pandemia e que reforce a importância dos mais velhos na sociedade;

- Na Seguridade Social:

- Reforçar a Atenção Primária à Saúde visando cuidados continuados, começando pela detecção precoce e pelo reforço às medidas preventivas;

- Criar estratégias de monitoramento remoto sobretudo dos que vivem só;

- Garantir insumos de sobrevivência (água, alimentos, renda mínima e medicamentos)

- Oferecer suporte a ILPIs – com a garantia de transferência de recursos para as entidades conveniadas ao Sistema Único de Assistência Social e de natureza filantrópica, bem como de diretrizes claras e exequíveis para os cuidados;

- Dar especial atenção aos idosos mais vulnerabilizados pelas condições adversas como envelheceram – em particular aqueles que vivem em situação de rua;

- Oferecer Cuidados Paliativos – diretrizes claras que garantam qualidade técnica e abordagem humanitária;

- Prover suporte instrumental e psicológico a idosos que cuidam de outros familiares idosos.

Mais que nunca é necessário abraçar uma cultura do cuidado. Isso implica também em cuidar dos cuidadores, a maioria mulheres, muitas delas também carentes, com doenças crônicas e necessitando de suporte emocional. Se o cuidado, formal ou informal ruir, o impacto da pandemia será imensurável tanto do ponto de vista econômico como social.

 

04
Dez20

Enfermeiras, para o devido julgamento

Talis Andrade

Página inicial

Atenção associações, sindicatos, universidades, faculdades e cursos de graduação, mestrado e doutorado de enfermeiras, o Danilo Gentili não sabe:

enfermagem é uma ciência cujo objetivo é a implantação do tratamento de doenças e o cuidado ao ser humano, individualmente, na família ou em comunidade de modo integral e holístico. No Brasil, a profissão é exercida por auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem e por enfermeiros, profissionais com formações e funções distintas dentro de uma mesma área.

Que o sujeito continue a leitura para aprender aqui 

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24
Nov20

1 - Assistência Social

Talis Andrade

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Programa de Governo Boulos e Erundina 2020

A assistência social é política pública constitucional integrada à seguridade social e, portanto, será prioridade no programa de governo com atenção especial para os indivíduos e famílias em situações de vulnerabilidade social, socioeconômica, em situação de risco e/ou violência em decorrência de preconceito, abandono ou negligência.

Afiançaremos a defesa dos direitos e da dignidade humana que asseguram o atendimento socioassistencial a quem dela necessitar por meio de acolhida, convívio familiar, comunitário e o desenvolvimento da autonomia preconizado pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Assim, a meta deste governo é efetivar a política de assistência social em São Paulo como direito do cidadão e dever do Estado, promovendo a conscientização política e cidadã de seus usuários, se colocando contrário à lógica equivocada de subordinação à ordem econômica, substituta do trabalho, bem como às práticas fragmentadas, tuteladoras, assistencialistas e/ou voluntaristas.

O governo popular, democrático e socialista tem por diretriz assegurar o controle social como o direito do cidadão e cidadã, informando de modo transparente e democrático as ofertas da rede socioassistencial, o modelo de gestão e financiamento, os direitos socioassistenciais, os processos e as instâncias para defendê-los e exercer o controle social.Image

DIRETRIZES

Garantir a intersetorialidade das medidas socioeducativas e o fortalecimento do SINASE e do Plano Municipal

PROPOSTAS

PARA GESTÃO DO SUAS

• Garantir um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) por bairro priorizando a demanda por carência social;

• Implantar o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) nas subprefeituras da Lapa e Parelheiros e retomar o comando estatal dos CREAS já instalados;

• Ampliar o Centro Pop para outras regiões do município e executar serviços com equipe técnica adequada;

• Restabelecer os Observatórios Locais (regionais) integrados ao Observatório Central sob a responsabilidade da Vigilância Socioassistencial;

• Reorganizar os serviços socioassistenciais do município conforme a tipificação nacional do SUAS;

• Potencializar o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo para todas as faixas etárias e retomar os serviços dos Centros de Convivência de crianças e adolescentes sob o comando da SMADS;

• Instituir a Lei Municipal do SUAS em São Paulo;

• Efetivar a erradicação do trabalho infantil e a exploração sexual de crianças e adolescentes;

• Instituir campanhas de prevenção contra o assédio sexual de crianças e adolescentes;

• Ampliar os serviços para jovens e adultos com deficiência;

• Adequar os centros de acolhida à população em situação de rua conforme tipificação nacional, priorizando o trabalho de convivência, a ampliação do acolhimento em casas solidárias (para o restabelecimento de vínculo familiar e comunitário) e a busca de alternativas para projeto de vida;

• Propor uma política municipal de atendimento intersecretarial de acolhida, emprego e moradia popular no centro da cidade para os imigrantes, refugiados e famílias de baixa renda;

• Implantar unidades de acolhimento institucional conforme tipificação socioassistencial do SUAS para grupos familiares e casais, pessoas com deficiência, pessoas LGBTI+, idosos com autonomia ou com dependência;

• Rever as atuais diretrizes estabelecidas no Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Mrosc).

PARA GESTÃO DE TRABALHO

• Recompor o quadro de recursos humanos da SMADS através de concurso público (assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, pedagogos, AGPP, entre outros) para as unidades estatais do SUAS;

• Promover a reestruturação das carreiras de nível médio e básico (Assistentes de Gestão de Políticas Públicas, Assistentes de Suporte Técnico e Agentes de Apoio);

• Criar uma nova carreira para a função de gestores de parcerias com a responsabilidade de supervisionar e emitir pareceres nas prestações de contas;

• Retomar a qualificação dos profissionais no ESPASO - Espaço público do Aprender Social - com um plano de educação permanente;

• Combater o assédio moral no trabalho com mecanismos de denúncia e controle.

PARA FINANCIAMENTO 

• Ampliar os recursos públicos do Fundo Municipal de Assistência Social progressivamente em 0,5% do orçamento municipal por ano;

• Informatizar a Prestação de Contas por meio de sistema municipal

PARA CONTROLE SOCIAL

• Realizar a conferência municipal de Assistência Social com ampla participação social;

• Criar fóruns intersecretariais e intersetoriais (trabalhadores, usuários, população e gestores);

• Fortalecer os fóruns regionais de assistência social;

• Implementar os Conselhos Gestores das Unidades Estatais e da rede socioassistencial;

• Promover a integração dos Conselhos de Direitos (Assistência Social; Idoso, Criança e Adolescente; Saúde; Juventude; Atenção à Diversidade Sexual; Pessoa com Deficiência, Tutelares e outros), do Comitê Intersetorial da Política Municipal de População em Situação de Rua e de conselhos participativos de cada subprefeitura visando a intersetorialidade das políticasImage

 

24
Nov20

PLANO VIDA E RENDA SÃO PAULO

Talis Andrade

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Combate de verdade à pandemia

A gestão Bruno Covas fracassou no combate à pandemia e seus efeitos na vida das pessoas.

A Prefeitura se limitou a atuar à sombra do governo João Doria sem tomar medidas que pudessem reduzir o impacto da doença nos bairros mais pobres.

São Paulo falhou na hora que as pessoas mais precisavam. Fracasso que custou milhares de vidas. Fracasso que deixou o futuro ainda mais incerto.

Descolada da realidade do povo, a gestão municipal se resumiu à hashtag FiqueEmCasa. Uma tentativa de impor o distanciamento social, porém sem ver que a maior parte da população nunca teve a escolha de fazer a quarentena.

Enquanto a Prefeitura tentava tapar o sol com a peneira, muitos foram perdendo emprego e renda. A maioria precisava sair para trabalhar, enfrentando ônibus lotados e toda sorte de risco de contaminação. O mais grave: levando o novo coronavírus para casa e expondo familiares do grupo de risco.

O novo normal, na periferia, era conviver com duas ameaças: a doença e a fome. Realidade ignorada pela Prefeitura e sua estratégia ineficaz e irresponsável de apostar no cômodo #FiqueEmCasa.

O resultado é desastroso. A cidade mais rica da América Latina também está entre aquelas com os maiores indicadores de contaminação e mortes.

Fracasso de gestão que não ficou restrito à saúde pública e se espalhou para a falta de perspectiva e futuro, queda na renda familiar e a precarização ainda mais aguda das condições de trabalho.Image

A cidade precisa reagir e virar o jogo

São Paulo tem a missão de combater, de verdade, a pandemia. Preparar-se para a segunda onda – e eventual terceira - da doença.

Para isso, colocaremos em prática, a partir de primeiro de janeiro, o Plano Vida e Renda São Paulo. Porque só hashtag não salva vidas, não dá um teto para morar e nem coloca comida na mesa de ninguém.

O Plano, desenhado para ser executado nos primeiros 180 dias de gestão, reúne uma série de ações e investimentos - na saúde pública, na geração de emprego e renda e na moradia e cidadania.

Pela primeira vez em muitos anos, a prioridade é cuidar de toda cidade, proporcionando a mesma dignidade para todas e todos.

O Renda e Vida São Paulo está dividido em três eixos, descritos a seguir.

1. Saúde Pública 

• Contratação emergencial e abertura de concurso para médicos especialistas e de família.

• Intensificar os atendimentos não presenciais por Centrais de Teleatendimento, com identificação de caso, orientações emergenciais e assistência remota para garantir consultas virtuais ou domiciliares;

• Abertura de novos leitos hospitalares e de UTI nas unidades hospitalares já existentes. • Caso a taxa de ocupação de leitos volte a subir, instituir a fila única do SUS para administração das vagas de UTI, unindo redes pública e privada da cidade.

• Ampliar o programa de testes do tipo PCR e sorologias para o novo coronavírus.

• Com a criação da vacina, implementar programa de vacinação gerido pelo município, dando prioridade aos cidadãos que se enquadram nos grupos de risco, trabalhadores de serviços essenciais e população de baixa renda.

• Se necessário, abrir novos hospitais de campanha na periferia, descentralizando o atendimento à população.

• Distribuir cestas de higiene nos bairros menos assistidos pela Prefeitura.

• Reverter o desmonte da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) do município para maior controle e ação frente à pandemia.

2. Trabalho e Renda

• Criar o Programa de Renda Solidária, reestruturando e ampliando o programa existente para garantir que nenhuma família vulnerável em São Paulo fique sem uma renda mínima;

• Implementar Frentes de Trabalho com contratação de mão-de-obra direta ou por meio de cooperativas, visando:

• Serviços de limpeza urbana;

• Serviços de saneamento básico;

• Cuidado a idosos;

• Reflorestamento e reparação de danos ambientais, como conservação de jardins e de áreas verdes públicas de pequena extensão;

• Serviços de zeladoria a partir das subprefeituras;

• Obras de moradia e infraestrutura; Produção agrícola orgânica para merenda escolar e outras políticas públicas de segurança alimentar;

• Confecção de uniformes escolares e outros uniformes de serviço público, como equipamentos de proteção individual (EPIs para hospitais) e Guarda Civil Metropolitana.

• Abertura de canais de financiamento e crédito para pequenos comerciantes, indústrias e cooperativas da economia solidária.

• Apoiar a manutenção de postos de trabalho através da recuperação de empresas em crise por seus trabalhadores organizados em autogestão.

• Criar Centros Públicos de Economia Solidária em cada subprefeitura para apoio direto a cooperativas e trabalhadores informais.

• Ampliar e fortalecer cooperativas de catadoras e catadores de material reciclável.

3. Moradia e cidadania

* Retomada dos Mutirões da Erundina para moradia popular.

• Implementar o programa de locação social para abrigar famílias em situação de rua em unidades hoteleiras ou moradias nas regiões onde vivem.

• Construção de Casas Solidárias integradas à política de geração de trabalho e renda e de assistência social, ampliando o atendimento à adolescentes e jovens;

• Adequar os centros de acolhida para pessoas em situação de rua conforme tipificação nacional do SUAS, atendendo às diversas demandas dos setores que vivem nas ruas;

• Criar o cartão de cidadania para identificação de migrantes residentes na cidade, reduzindo vulnerabilidades advindas da ausência de documentação nacional e facilitando o acesso a serviços públicos.

• Incluir os migrantes nos planos municipais emergenciais de enfrentamento às consequências socioeconômicas da pandemia de Covid-19.

• Ampliar os equipamentos e equipes dos Consultórios na Rua.

• Ampliar o acesso à internet banda larga para alcançar o percentual de 40% de domicílios, garantindo que nenhuma subprefeitura possua percentual inferior a 17%.

(Transcrevi a segunda parte do "Programa de Governo Boulos Erundina 2020. Hora de Virar o Jogo em São Paulo". Continua )

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27
Ago20

''É preciso repensar todo o modelo que temos de cuidados para os idosos''

Talis Andrade

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De acordo com José Soeiro, o Bloco irá apresentar um conjunto de propostas que visam a implementação de medidas imediatas para mitigar e conter a pandemia nos lares e a criação de um Plano Nacional de Desinstitucionalização das Pessoas Idosas

Por Bloco Esquerda Net/ Portugal

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Conforme explicou o deputado em declarações ao Expresso, o Bloco pretende, por um lado, responder no imediato à crise pandémica. Para esse efeito, quer ver garantida a presença no terreno de equipas multidisciplinares, que incluam profissionais do Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social e Proteção civil, para verificar o cumprimento dos planos de contingência. Tal implica, consequentemente, contratar, com caráter de urgência, profissionais para reforço das equipas de fiscalização e inspeção da Segurança Social. A reabertura dos centros de dia deve, de acordo com José Soeiro, depender do cumprimento destes planos e ser precedida de testes à Covid para profissionais e utentes. Os profissionais que voltam de férias também devem ser testados.

Das propostas do Bloco constam ainda a ativação de espaços alternativos para acolher pessoas que estejam em lares sem condições e a domicialização de idosos quando tal for possível.

A par da operacionalização do programa de apoio às IPSS que contratem profissionais para lares, o deputado bloquista quer ver ainda implementado um plano de contratação de equipas de apoio domiciliário.

A “Segurança Social deve deixar de ser apenas financiadora para também providenciar” apoio, defendeu José Soeiro. Ressalvando que a proposta não tem a pretensão de abranger todos os idosos que estão institucionalizados, e nem acabar com as entidades que prestam estes cuidados, o dirigente bloquista vincou que não se entende porque há um “monopólio” privado de prestação de cuidados, sobretudo aos mais velhos. Neste sentido, José Soeiro quer ver criado um plano de desinstitucionalização das pessoas idosas (PDPI).

“É preciso aproveitar o dinheiro que virá para ser investido não só nos lares, mas também nas suas alternativas”, afirmou ao Expresso.

Para cumprir o objetivo de promover a desinstitucionalização dos mais velhos, o Bloco avança com várias propostas, entre as quais a existência de equipas locais de intervenção nas casas das pessoas mais velhas, de modo a garantir as adaptações infraestruturais nas habitações que permitam às pessoas permanecer o máximo de tempo na sua habitação.

Em causa está ainda um reforço substancial do apoio domiciliário, a ser alargado em número de trabalhadores envolvidos, no tipo de apoio prestado, nos horários e dias em que é prestado este serviço, incluindo os fins de semana. Enfatizando que deve passar a haver provisão pública de apoio domiciliário diretamente pela Segurança Social, José Soeiro assinala que esta medida deve incluir um plano de contratação de cerca de 30 mil trabalhadores para esta área.

“Defendemos que deve haver uma provisão pública do apoio domiciliário”, o que implica criar uma valência “que não existe”, apontou José Soeiro. “O Estado deve assumir esse papel nos cuidados em geral”, continuou.

O Bloco pretende também ver reformulado o conceito Centro de Dia e alargado o tempo de atendimento, prolongando-o na habitação do utente, no acompanhamento diário sete dias por semana, e ver assegurado o apoio aos cuidadores informais que acompanhem pessoas idosas dependentes.

Por fim, os bloquistas realçam a necessidade de apostar em respostas de autonomia, nomeadamente com um programa para a criação de projetos de co-housing e de respostas comunitárias, também nas aldeias, que garantam habitação autónoma.

“Este é o momento de um debate que vá além do imediato”

No artigo de opinião Lares: um inferno inevitável?, publicado esta sexta-feira no Expresso, José Soeiro traça o retrato dos cuidados formais para as pessoas mais velhas em Portugal, com somente 12,8% a beneficiar de uma resposta no âmbito da rede de equipamentos sociais (incluindo lares, apoio domiciliário e centros de dia).

“O Estado investe mais de 600 milhões de euros por ano em acordos de cooperação com IPSS para respostas sociais na área da velhice, mas elas funcionam num esquema de monopólio do setor social privado”, escreve, alertando ainda para o “volume preocupante de respostas clandestinas: cerca de 35 mil pessoas residem em 3.500 lares clandestinos. Ou seja, quase 30% dos cerca de 125 mil residentes em lares no nosso país vivem em instituições que funcionam sem enquadramento legal”.

No artigo, o deputado faz ainda referência às condições laborais dos trabalhadores dos lares, condenados a situações precárias, baixos salários e excessiva rotatividade, a par de pouco investimento em formação.

“Não vale a pena olhar para o lado”, alerta José Soeiro, defendendo que “é preciso repensar todo o modelo que temos de cuidados para os idosos”. A par de “medidas imediatas para mitigar e conter a pandemia nos lares”, o deputado considera que “este é o momento de um debate que vá além do imediato” e que aposte “noutros modelos institucionais (mais humanos, mais pequenos, mais respeitadores da biografia e da individualidade das pessoas) e sobretudo num plano de desinstitucionalização”. E é preciso “garantir a participação das próprias pessoas idosas em todo este debate”, aponta.

 

28
Jul20

Uso de “hidroxicloroquina com azitromicina tem alto risco cardíaco comprovado”

Talis Andrade

 

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“A alternativa ao isolamento é muito mais gente morrer, não tem outra”

Marina Amaral entrevista Natália Pasternak

 

Agência Pública - A Fiocruz lançou uma nota técnica alertando para a contra indicação para o uso de hidroxicloroquina ou de cloroquina com azitromicina, que é exatamente o que já está sendo prescrito em hospitais com ensaios clínicos registrados ou não. Isso representa um risco para a população?

Sim, porque há um risco cardíaco aumentado. Tanto a hidroxicloroquina como a azitromicina aumentam o risco de arritmia. E essas arritmias são sérias, podem levar até a uma parada cardíaca. Foi isso que o pessoal da Fiocruz de Manaus, do Instituto de Medicina Tropical, observou. Eles fizeram um trabalho comparando doses diferentes, no caso eles usaram cloroquina e azitromicina, e viram que aumentava o risco cardíaco – tiveram até que interromper o estudo no meio porque o grupo que estava com a dose mais alta apresentou muita alteração cardíaca.

Tem vários outros estudos que estão saindo pelo mundo que estão mostrando também o risco dessa combinação de hidroxicloroquina e azitromicina. A gente tem um hospital em Nice (França) que parou de usar essa combinação porque, acompanhando os pacientes com eletrocardiograma várias vezes por dia, eles perceberam a arritmia e pararam de usar esses medicamentos. A mesma coisa aconteceu na Suécia e em um hospital em Michigan. Agora, é importante destacar que eles estavam acompanhando os pacientes com eletrocardiograma, por isso perceberam as alterações e pararam de usar. Por acaso a gente tem no SUS condição de monitorar todos os pacientes com eletrocardiograma 2, 3 vezes por dia pra ver se está tendo arritmia? No Einstein talvez eles possam fazer mas e no SUS?

Eu acho bastante complicado.

 

Também está sendo muito usado na rede Prevent Senior que atende muitos idosos.

Sim. E o protocolo da Prevent Senior não é hospitalar. O protocolo deles é atendimento por telemedicina e eles mandam entregar os medicamentos na casa da pessoa: hidroxicloroquina + azitromicina. Daí, eu fico com mais medo ainda. Imagina o idoso, recebe o remédio em casa, vai tomar sozinho, com acompanhamento só por telefone, e ele tem uma parada cardíaca!

 

Perdeu a chance de se recuperar. Porque outro ponto que eu queria destacar é exatamente a alta probabilidade de cura da doença.

Sim! É incômoda, é difícil, mesmo as pessoas que têm sintomas e não são hospitalizadas falam que é complicado, é uma doença bem debilitante. Mas a grande maioria se recupera. E a gente começar a dar esse remédio, que tem esse risco cardíaco, e se a gente estiver realmente atrapalhando em vez de ajudar? Não é algo inócuo, não é uma coisa que você possa falar ‘se não deu certo, não deu’. Pode atrapalhar, tem um risco ali, principalmente usando essa combinação.

 

Por que então insistir nessa combinação?

Olha, eu já ouvi vários argumentos. Do tipo ‘danem-se os efeitos colaterais o que importa é salvar a vida do paciente’, como se isso também estivesse comprovado, ou que ‘nós estamos em guerra então vale tudo’, até que se não der nada, ‘o paciente vai morrer de qualquer jeito’. Basicamente acho que as pessoas estão confundindo muito e pensando: ‘pegou coronavírus o jeito é tomar cloroquina ou morrer’. E isso não é verdade. Primeiro que o coronavírus não é uma sentença de morte, tem 90% de taxa de cura; depois, até agora, a cloroquina não salvou ninguém. As pessoas falam ‘tá todo mundo usando, está salvando vidas’. Justamente, está todo mundo usando. Vocês não acham que se estivesse salvando vidas a gente estaria vendo? Por exemplo, quando se percebeu que os marinheiros que comiam frutas cítricas não tinham escorbuto, isso era tão evidente que não precisava fazer teste clínico. O efeito era tão claro que mesmo no século 18 eles perceberam. Se a cloroquina fosse assim a gente ia perceber!

 

E por que essa pressão política para o uso da cloroquina?

Essa não é minha área, minha área é ciência, tudo que eu disser aqui é um belo dum palpite. Mas pelo que observo, com essa pressão do governo para a volta ao trabalho, poder dizer que existe um remédio facilita muito esse discurso. Mas é um discurso muito perigoso, que dá uma falsa sensação de segurança para as pessoas. A gente tem um presidente falando ‘é só uma gripezinha e tem remédio’, o pessoal fica pensando ‘por que não vou voltar pro trabalho então? É só tomar o remédio, tem 100% de cura, por que eu tenho que ficar em casa?” Tenho muito medo disso.

 

O Bolsonaro fez várias declarações, chegou a dizer que poderia ter tido o vírus e agora estaria imunizado, e que o melhor seria que 60, 70% da população fosse imunizada pelo contágio. O que aconteceria se a gente liberasse os mais jovens para trabalhar, por exemplo?

O que aconteceria é que ia morrer um monte de gente e o resto ia ficar imunizado. O problema é o monte de gente que ia morrer de uma vez. O que o Bolsonaro falou é muito parecido com o que disse o Boris Johnson na Inglaterra, mas o conceito da imunidade de rebanho está distorcido na cabeça dos dois líderes. Quando uma grande parte da população fica infectada e desenvolve anticorpos, a gente de fato atinge a imunidade de rebanho. A gente atinge essa imunidade de rebanho também com vacina por isso a gente faz campanha de vacinação. Você garantindo que uma grande parte da população está vacinada, você garante que os vulneráveis, aqueles que não puderam tomar a vacina porque são muito jovens ou imunossuprimidos, estão protegidos. Por isso que a gente chama de imunidade de rebanho, porque o rebanho faz com que a doença pare de circular. Como a gente não tem vacina, a única maneira de atingir a imunidade de rebanho é uma grande parcela da população se infectar, adquirir anticorpos, e isso vai acontecer. O que o isolamento social faz é garantir que isso aconteça bem devagar pra dar tempo da gente cuidar dos nossos doentes, para ter leito, respirador pra todo mundo. Se relaxa, vai ficar um monte de gente doente ao mesmo tempo, a gente não dá conta, e vai morrer um monte de gente por falta de atendimento. A alternativa ao isolamento é morrer muito mais gente, não tem outra.

 

Mesmo que isso fosse combinado com o isolamento vertical que o presidente também sugeriu?

Não funciona. A gente não consegue isolar totalmente as pessoas e não é uma doença em que os vulneráveis estejam tão bem localizados assim. A gente está vendo muita gente jovem se infectar. A gente está vendo muita gente das mais variadas idades, se infectar e progredir para casos severos da doença. Então a gente não tem como fazer essa previsão e esse isolamento vertical.

 

E a senhora já conseguiu observar o efeito do isolamento na curva de propagação do coronavírus? Conseguimos achatar a curva?

No momento a gente está com a curva bem exponencial, bem inclinada. E como a gente tem muita subnotificação no Brasil, a situação deve ser bem pior. Eu acho que é cedo ainda pra gente ver os efeitos do isolamento social. E vendo os números do Estado de S. Paulo, do isolamento, a gente vê que o pessoal deu uma relaxada o que acho bem preocupante. Porque as pessoas começam a achar que não está acontecendo nada, mas está. Eu espero que a gente não precise chegar em um ponto em que as pessoas só vão perceber o valor do isolamento social quando estiverem perdendo as pessoas próximas, isso é muito triste. Pra muita gente, a doença parece longe, mas ela está batendo aqui na porta.

 

E temos pessoas ligadas ao governo, como o Osmar Terra, que estão anunciando nas redes sociais que a epidemia já chegou ao pico em São Paulo e que logo tudo vai melhorar.

Ele não tem como prever isso. É uma informação até perversa nos dias de hoje porque dá uma esperança pras pessoas que, daqui a 15 dias, a vida vai voltar ao normal. Não é verdade, a curva ainda está subindo, ainda está exponencial. Mesmo na Itália, que foi um dos primeiros países afetados, só agora que parece que o número de casos está estabilizando, está parando de crescer. Então pra dizer que chegou no pico, a gente precisa fazer o platô. Os casos têm que ter parado de crescer por dias seguidos, não é 2 ou 3 dias que basta. Aí poderemos dizer que chegamos no pico. Mas, prever quando esse platô vai chegar agora, é impossível. A gente não tem nem o número real de casos. Como eu disse, a subnotificação é um fato e como a gente não tem condição de testar, então a gente tem que valer dos poucos testes que tem e do diagnóstico. E multiplicar os números que a gente tem por dez para chegar a realidade, inclusive o número de mortos. Temos muitas mortes por sintomas respiratórios e não confirmadas para Covid-19.

 

A coluna da Mônica Bergamo na Folha noticia que um grupo de pesquisadores da USP, Fiocruz, Universidade de Brasília e Instituto Butantan fez um estudo, cruzando mobilidade de pessoas no Rio e SP com a velocidade de transmissão do coronavírus, que teria concluído que a taxa de isolamento social para conter o vírus no Brasil é de 40%, e que com os 55% de isolamento, em média, já atingidos no Rio e em SP , “vamos passar bem pela epidemia”. Qual sua opinião sobre isso?

Eu vejo alguns problemas nessa informação. Primeiro, que a gente não sabe de onde eles tiraram esse número, qual foi o modelo matemático usado. Segundo que a epidemia está em progressão, e como temos aquele problema sério de subnotificações, não sei se eles corrigiram esses números, se calcularam 10 vezes mais casos porque é o que estudos internacionais estão mostrando que a gente tem. Então não sei que números eles usaram nem que modelo.

Em relação à ocupação de hospitais, e aquela explicação meio esquisita [que aparece na mesma notícia], de que a Covid-19 atacou primeiro os ricos e aí os hospitais particulares deram conta, eu acho que, se a epidemia ainda está a progressão, a gente ainda não viu como ela está atingindo a periferia. E outras reportagens já mostraram que 70% dos leitos dos SUS estão ocupados. Então, se ela ainda está crescendo e temos 70% dos leitos do SUS ocupados, acho bastante preocupante. É um pouco precoce anunciar em uma reportagem que 40% de isolamento seria razoável, sendo que em São Paulo o governador gostaria que a gente chegasse a 70%, e pode levar as pessoas a relaxarem ainda mais o isolamento. Então acho difícil comentar sem ter acesso aos dados que eles usaram, mas acho a afirmação precoce.

 

E a vacina? Que esperança temos de ter uma vacina em breve?

Tem um monte de estratégias vacinais sendo desenvolvidas pelo mundo e eu sou apaixonada por cada uma delas. As estratégias vacinais feitas com biotecnologia elas são muito bem feitas e muito seguras e nós temos uma história muito bonita de vacinas no Brasil. Mas vai demorar, porque o difícil não é desenvolver a tecnologia, é testar. Demora muito tempo. Tem que testar em animais pra ver se está desenvolvendo anticorpo e, depois que a gente começa em testar em humanos, tem várias fases, tem que testar segurança, eficácia, tem que saber quanto de anticorpo está produzindo, se tem efeito colateral, tem que chegar a testar um grande número de pessoas. Então pelo menos uns dois anos; normalmente é mais, mas a gente está com pressa pra ter essa vacina no mercado. E não pode apressar. Vacina, a gente vai dar pra bilhões de pessoas, a gente não pode errar. Se você errar, mesmo que seja em um efeito colateral, você perde a credibilidade de todas as outras vacinas. Não podemos esquecer que a gente tem um grupo anti-vacina muito forte. Então ter ser feito com muita seriedade. A única arma que a gente tem por enquanto é o isolamento social, os cuidados com higiene, e a paciência. A gente vai ter que ter paciência de saber que a gente está fazendo isso para cuidar uns dos outros porque não tem alternativa boa. A alternativa é morrer muito mais gente porque a gente não consegue tratar. A alternativa é forçar nossos médicos a escolher quem vai viver e quem vai morrer. Eu não desejo essa escolha pra nenhum médico. Não custa a gente ficar em casa e fazer a nossa parte por mais angustiante que seja.

 

E por falar em ciência, a senhora acha que os cientistas brasileiros vão conseguir desenvolver pesquisas relevantes para essa pandemia?

A gente vem mostrando que tem toda capacidade intelectual e técnica para contribuir, mas o que a ciência não tem no Brasil é investimento e aí não se faz milagre. E a falta de investimento em ciência não é de hoje, faz muitos anos. A gente não consegue fazer ciência sem equipamento adequado, sem insumos, sem bolsa de estudos para os nossos alunos, a gente não vai tirar do chapéu. Por mais que a gente tenha capacidade intelectual, capacidade técnica e muita vontade de fazer. Veja os testes diagnósticos. As universidades, os institutos de pesquisa que trabalham com biologia molecular têm condições técnicas de fazer os testes diagnósticos. Mas não tem reagente! Não tem laboratório de segurança em número suficientes, não tem máquinas de PCR em número suficiente. Sem investimento não dá. Eu acho que a gente tem um papel importante para contribuir intelectualmente, mas não vai dar pra fazer.

 

Uma pergunta-provocação pra finalizar. A gente está vivendo essa pandemia 100 anos depois da gripe espanhola e às vezes temos a sensação que continuamos tão indefesos quanto naquela época. A ciência está nos protegendo de fato?


Não é verdadeira essa sensação, as coisas mudaram muito. Em 1918, na época da gripe espanhola, além de morrer de gripe as pessoas morriam por infecções secundárias bacterianas porque não tinha antibiótico. A ciência evoluiu muito. O tratamento de suporte que a gente pode dar, ventiladores, anestésicos para poder entubar a pessoa, todos os medicamentos de suporte, anti-inflamatórios, imunomoduladores. Acho que tem também uma confusão muito grande, que eu vejo muito quando falo do problema da cloroquina, que as pessoas dizem ‘ah, não vai dar nada então? Vai deixar morrer’ e não é deixar morrer, as pessoas estão recebendo um tratamento de suporte que é extremamente complexo. Não é porque não tem um medicamento específico, que as pessoas não estão sendo tratadas. Elas estão recebendo ventilação, oxigênio, sendo entubadas quando necessário, recebendo outros medicamentos de suporte que cem anos atrás a gente não tinha. Certamente naquele tempo haveria uma taxa de letalidade muito maior e de sofrimento humano. A ciência é a única coisa que temos. Espero que a gente confie cada vez mais na ciência para ter maior sucesso em uma próxima pandemia.

 

E virá uma próxima pandemia?

 

Olha, tem muita gente e o mundo é muito conectado então qualquer tipo de doença que transmite pelo ar ou de pessoa a pessoa vai conseguir circular muito rápido. E tem a questão ambiental, quando a gente interage muito com ambientes que antes não eram o nosso habitat, a gente acaba se deparando com viroses de outros animais que a gente não se depararia se não estivesse invadindo o território deles, então faz parte do desenvolvimento da civilização. Por exemplo, tem um monte de espécies de coronavírus em morcego, a gente sabe, o azar de um desses vírus se adaptar para infectar humanos é um azar. Mas é uma azar que tem probabilidade de acontecer porque tem um monte de coronavírus em morcego. Vírus transmitidos por mosquitos, também tem um monte. É uma azar a gente ter dengue transmitida por mosquito? Sim, mas um azar com probabilidade de acontecer. Quando a gente interfere em outros territórios, a gente começa a encontrar patógenos que podem se adaptar para nos infectar. Não é uma grande surpresa a gente ter um outro coronavírus da síndrome respiratória, a gente já teve a Sars e o primeiro surto de Sars foi em 2002. Por que ninguém desenvolveu uma vacina pra Sars? Um medicamento pra Sars? Se a gente tivesse hoje uma vacina para trás, seria muito mais fácil fazer um reposicionamento, adaptar uma vacina que já existe. Mas por que ninguém desenvolveu? Porque passou o surto e todo mundo desencanou, não se investiu em ciência. Aqui, no Brasil, por que até hoje a gente não tem uma vacina contra dengue do Butantan? Por que até hoje ela não foi para o mercado? Porque não teve investimento. E é dengue, uma doença que é nossa, que é endêmica, deveria ter investimento. Então eu espero que a gente aprenda que a gente tem que investir em pesquisa em doenças que a gente sabe que tem probabilidade de acontecer, e que a gente precisa investir em ficar mais autossuficiente em insumos e reagentes. O que a gente percebeu agora? Que todos os nossos reagentes são importados. E os países que exportam estão retendo, então não é nem mais uma questão de dinheiro, a gente não consegue comprar os reagentes. Isso mostrou como nossa ciência está longe de ser autossuficiente, a gente precisa de produção local também. 

03
Jul20

Denúncias de abuso contra idosos aumentaram 500% durante pandemia

Talis Andrade

 

 

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III - “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice"

Julia Dolce entrevista Mirian Goldenberg

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Pública - O posicionamento negacionista do governo Bolsonaro em relação à Covid-19 vem alarmando o mundo todo. Em diversas ocasiões o presidente deu a entender que não havia o que ser feito por parte do governo para frear a pandemia e que “quem tem que morrer vai morrer”. Como você acha que isso afeta o comportamento da sociedade em relação aos idosos?

Eu tenho acompanhado tudo que está acontecendo no mundo, ouvindo rádio e vendo televisão do mundo todo. O que tenho visto aqui no Brasil é diferente de alguns países onde a pandemia foi encarada com mais responsabilidade, com mais cuidado e mais preocupação com a vida de todas as idades. Esses países, de certa forma, conseguiram que toda a população encarasse o desafio com mais senso de coletividade.

Isso funcionou? Não sabemos ainda, porque vamos ver outras ondas do vírus, e também as sequelas físicas, econômicas, psicológicas e mentais. Mas, neste momento, o fato de você ter posturas das autoridades que mostram que a intenção e a luta é para salvar vidas deu a cada um esse sentimento de coletividade e responsabilidade.

Aqui no Brasil nós assistimos horrorizados inúmeras autoridades e até não-autoridades negando não só a pandemia, mas a necessidade de salvar, se possível, todas as vidas, sem classificar hierarquicamente quem vale e quem não vale. Isso provoca mais impotência, sofrimento e insegurança, porque percebemos que nossa vida ou de quem a gente ama vale menos.

Por outro lado, há uma reação dizendo que todas as vidas merecem ser vividas e que temos que fazer tudo para que não só sobrevivam, mas que não sofram tanto.

Então acho que já mudou a visão social sobre a velhice. A forte reação contra discursos velhofóbicos mostra que já mudou, mas infelizmente não há pesquisa sobre isso. E acho que essa minoria gerou reação tão forte que não pode mais ser pega falando esse tipo de coisas.

 

Acredita que esses posicionamentos podem afetar políticas públicas para idosos para além da pandemia?

Com certeza isso vai refletir em políticas públicas. Já existiam milhares de iniciativas lindas, além do Estatuto do Idoso, em todos os níveis. Mas agora se multiplicaram tanto, desde crianças ligando para idosos que estão sozinhos para contar histórias e ouvir histórias. Não sou otimista, não consigo enxergar nada de bom nesse momento trágico. Mas também não posso deixar de enxergar quem está fazendo o que pode para salvar vidas.

 

Alguns relacionam a noção de que apenas idosos e pessoas doentes vão morrer, e que, “essas pessoas já morreriam de qualquer forma” com uma ideologia eugênica. Você acredita que o comportamento do governo beira à eugenia?

Acho que o governo não está mais falando assim, a sociedade reagiu a esse discurso, então o governo não está podendo adotar esse discurso como uma política de extermínio. Agora, que existem em vários setores da sociedade e do governo discursos de extermínio, existem.

Mas ele está sendo tão combatido que não existe mais a possibilidade de expressar isso publicamente sem uma reação violenta.

Principalmente no início da pandemia, toda a justificativa era econômica. Vamos isolar só os mais velhos, só o grupo de risco, para a economia funcionar. Mas a realidade da pandemia mostrou que isso não funcionava.

Primeiro, os jovens desempregados foram para a casa dos mais velhos. Os velhos não estão sozinhos, tem muitos que estão com os filhos, com os netos, e não porque estão sendo cuidados, mas porque estão cuidando dos filhos e dos netos.

Os jovens também dependem dos velhos. Como fariam, colocar todos dentro de asilos para todos se contaminarem e morrerem, como aconteceu em muitos lugares do mundo? [Quase metade das mortes causadas pelo coronavírus na Europa foi registrada em asilos, segundo a OMS].

 

Você pesquisa o envelhecimento há mais de 15 anos. Nos últimos três passou a fazer parte da faixa etária considerada “idosa” no Brasil.Você acredita que é preciso criar uma divisão entre sexagenários e pessoas mais velhas no Brasil, pensando em direitos e políticas públicas?

Isso já existe no mundo inteiro. Já está sendo discutida [a existência de] “jovens idosos” e idosos mais velhos. Antes as pessoas não viviam até os 100 anos, e muitas não chegavam aos 90. É a faixa etária que mais cresce. E em poucos anos vai ter mais velhos do que jovens no Brasil, que a gente pensa que é um país de jovens.

As pessoas percebem que não dá para falar de velhos como uma coisa só e que não dá para pensar neles com a imagem do século passado. Esses velhos são os mesmos jovens que fizeram a revolução comportamental no século passado e mudaram tudo, então não dá para falar de “velhice” no singular. Depende de tantos critérios financeiros, educacionais, familiares, sociais.

E por isso que lutar contra uma velhofobia é lutar pela nossa própria velhice e dos nossos filhos e netos. Sempre escrevo que no século passado tivemos a revolução das mulheres e neste século teremos a revolução dos velhos, porque foram eles que fizeram as revoluções passadas.

Não acho que a questão é ter uma divisão mais clara formalmente, o mais importante é enxergar e fazer políticas públicas, privadas e individuais percebendo que a velhice não é uma coisa só, investindo para que a velhice seja, para a maior parte dos brasileiros, uma fase da vida com felicidade, liberdade, projetos, para todos.

 

A depressão é uma das doenças mentais que mais atinge os idosos, mas também uma das mais negligenciadas pela população em geral. Há um senso comum de que pessoas idosas são inerentemente tristes?

É uma mentira [esse senso comum], todos os meus nonagenários que estão em ativa, saudáveis, e hoje tenho mais de 100 entre o grupo que pesquiso. Todos têm uma alegria a viver que é contagiante. O problema é pensar quais as condições de vida e sociais que provocam a depressão. As condições sociais, a violência, o abuso, o desrespeito, a crueldade com eles que provocam a depressão. Dentro das casas principalmente.

Esse momento agravou tudo, piorou tudo o que já existia. Escancarou aquilo que era invisível para a sociedade. Muitas violências estão se agravando, contra mulheres, contra crianças, muitos sofrendo mais do que já sofriam.

Por isso eu digo sempre em todos os meus artigos que dentro dos limites que nós temos hoje, o que podemos fazer de concreto dentro e fora de casa? Temos que cuidar da gente para ter uma atitude positiva em relação a uma velhofobia que sempre existiu.

O que mais falta e os mais jovens podem fazer é escutar, escutar, escutar, compreender, compreender, compreender. Eu falo quase 80% do meu tempo no telefone, porque alguns são muito conectados por redes sociais, mas muitos não. Você ligar para uma pessoa, mostrar que ela é importante para você, que você ama essa pessoa e que ela se cuidar bem é ela cuidar de você.

Então acho que o que cada brasileiro pode fazer é ter uma atitude que não é generosa, é obrigatória, para fazer o que pode para cuidar pelo menos de quem ama. E isso é cuidar de si 

 

 

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