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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Mai21

É a narrativa, estúpidos?

Talis Andrade

por Fernando Brito

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Não é preciso puxar muito pela memória e ver como a tropa de choque bolsonarista na CPI e o próprio presidente da República usam, agora, a palavra “narrativa” para minimizar ou desqualificar os fatos escandalosos que surgem agora aos borbotões, revelando os absurdos e safadezas que habitam o círculo próximo a Jair Bolsonaro: filhos, entourage militar, fundamentalistas religiosos e adeptos da picaretagem pseudofilosófica.

Mas, se o leitor fizer um pequeno exercício de memória verá que, a rigor, imundícies e estupidez nunca faltaram neste governo e, de alguma forma, tiveram divulgação pela mídia. Isto é, não ficaram escondidos como, por exemplo, os abusos e violações da Lava Jato, os quais a mídia esmerou-se em exilar do noticiário, até que os diálogos da Vaza Jato começaram a revelá-los cruamente. Não foi assim com Bolsonaro e, desde as rachadinhas, passando pelas ameaças antidemocráticas e as fogueiras amazônicas, tudo era exposto, sem lhe provocar grandes danos de popularidade.

As notícias negativas, simplesmente, “não colavam” ou, ao menos, não com a gravidade que tinham. Bolsonaro tinha o tal “efeito teflon”.

Mas, desde o final do ano (e do auxílio-emergencial) o fio aparentemente virou.

Virou por dos “B”: o bolso e o braço, à espera de vacina.

A soma da perda de renda e da elevação dos preços, notadamente o dos alimentos, começou o boca a boca. Eu próprio, saindo muito pouco de casa, nas raras idas ao supermercado, ouvi as reclamações espontâneas que ligavam Bolsonaro à alta de preços. Semanas atrás, um homem me disse, do nada, diante da prateleira onde se vendia óleo de soja (e a mais de R$ 7) saiu-se com o “precisamos tirar este cara de lá rápido”. O homem do ferro velho, semana passada, me apontou o depósito vazio e comparou: “na época do Lula isso aqui estava cheio”.

Cheias estão, agora, as calçadas e hoje, na Globonews assisti a insólita informação de que, com a queda do movimento, os restaurantes têm menos restos de comida a serem revirados pelos moradores de rua. É inevitável que se considere este “Datafolha da sarjeta” para interpretar as mudanças políticas.

O braço também ficou vazio. Ao contrário do que cria Bolsonaro, que a vacina seria rejeitada e a cloroquina santificada, a discussão sobre imunização – recordem-se dele e Pazuello duvidando de que “haveria demanda”? – passou a ser uma realidade prática, o que tornou concreta a realidade de falta de doses para a população. Ao mesmo tempo, o país entrava numa escalada de mortes pela doença que, embora agora ligeiramente atenuada, está, teme-se, em vias de ser retomada, pelo aumento de casos de infecção, ainda que sem os testes que, como anuncia a Folha, serão incinerados por perda de validade.

Não é “terceira via” ou a “escolha difícil” reeditada agora pelo Estadão em opor o atraso ao retrocesso’ o que está na cabeça da população.

É a sobrevivência, alimentar e sanitária, que ocupa e preocupa o pensamento coletivo.

Não é por acaso que Lula, que sabe entrar sem ficar dentro da “bolha” da política, escolhe o auxílio emergencial e a vacina como núcleos de suas raras falas públicas, com o que busca evitar uma superexposição e dar combustível para que se acene com a mesma tônica antipetista que se levantou em 2018.

A “narrativa” da qual tanto reclamam os bolsonaristas não seria nada sem a realidade dos fatos e sem que se despertasse a sensibilidade das pessoas para eles.

E isto é a política, não a mera construção de uma narrativa ideológica ou de conchavos e articulações partidárias. Vem-me sempre à mente a frase que ouvi de Brizola sobre ideologia: é como um radar, que ajuda a gente a não se perder nos nevoeiros, mas quando o tempo limpa podemos por o olhar a nos guiar e sabermos se estamos no rumo certo.

Quando não se perde a ligação com a população, nem que seja ficando 580 dias encarcerado, não se perde o rumo, mesmo que possa se voltar em todas as direções.

18
Nov20

Moro, Huck, Doria e Mandetta romperam com o bolsonarismo não por questões ideológicas, mas por conflitos de interesses

Talis Andrade

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UM NOVO EMBUSTE ELEITORAL está sendo armado no Brasil. Luciano Huck e Sergio Moro estão articulando uma chapa para concorrer à presidência em 2022. A ideia é formar uma candidatura que seja anti-bolsonarista e anti-petista para vendê-la como uma opção moderada de centro. Moro citou também Mandetta e Doria como nomes de centro que poderiam integrar a frente.

Direitistas se vendendo como centristas não chega a ser um estelionato eleitoral novo, pelo contrário. Até a chegada do bolsonarismo, a direita tinha vergonha de se assumir. Direitistas eram liderados pelo PSDB, um partido de origem centro-esquerdista que migrou para a centro-direita, mas nunca se assumiu como tal. Essa vergonha era algo natural depois que a direita ficou marcada pelos anos de ditadura militar. Bolsonaro, que era voz única na defesa do regime militar, ajudou a resgatar o orgulho direitista. Mas, após a tragédia implantada pelo bolsonarismo no Planalto, parece que a vergonha começa a voltar – para alguns.

Folha, Globo e Estadão querem te convencer de que os ex-bolsonaristas Moro e Huck são ‘de centro’numpercaseutempo1️⃣7️⃣🇧🇷 Twitterissä: "Melhor charge do Dória que já vi  !!!!! Não precisa dizer mais nada !!!! Como diria minha vó : “ Por fora  bela viola, por dentro pão bolorento “… https://t.co/jVBncQ8tEw"

A grande imprensa brasileira ajudou a forjar o engodo, comprando exatamente o que Moro disse na ocasião. Noticiou o nascimento de uma terceira via moderada, como se dois dissidentes do bolsonarismo, que até ontem surfavam a onda do radicalismo, pudessem liderar um projeto moderado de centro. Criou-se, assim, um consenso no noticiário de que eles são o que realmente dizem que são. É o jornalismo declaratório e acrítico, que se limita a reproduzir as falas de políticos, mesmo as mais absurdas.

Algumas manchetes mentirosas passaram a circular na praça: “Moro, Huck e o caminho do centro contra Bolsonaro e o PT em 2022” ou“Moro Huck, Doria Mandetta: centro se articula para 22″, entre outras tantas.

Fabio Zanini, da Folha de São Paulo, escreveu que Huck e Moro são “dois dos principais nomes do centro no espectro ideológico na política”. O que são essas frases senão a mais pura e cristalina definição de fake news? Como é que ex-apoiadores do bolsonarismo podem ser considerados de centro? Moro, Huck, Doria e Mandetta romperam com o bolsonarismo não por questões ideológicas, mas por conflitos de interesses. Entre um professor progressista e um apologista da tortura e da ditadura militar, todos eles, sem exceção, optaram pelo apologista da tortura e da ditadura militar. De repente, toda essa gente virou moderada de centro? Uma ova.

Mas como é possível enganar a população assim de maneira tão descarada? Bom, os jornais gastaram muita tinta nos últimos anos pintando Lula e Bolsonaro como dois radicais, como dois lados de uma mesma moeda. Choveram editoriais equiparando os dois nesses termos. O ex-presidente é notoriamente um homem de centro-esquerda, que liderou por oito anos um governo de coalizão que abrigava até mesmo partidos de direita. Portanto, pintá-lo como o equivalente de Bolsonaro dentro do espectro de esquerda é uma mentira grosseira. Diante desse cenário forjado, artificialmente polarizado por dois extremistas que já estiveram no poder, fica mais fácil vender a ideia de que a única saída é pelo centro. Ainda mais quando esse centro é representado por um apresentador da Globo e um ex-juiz que é o herói da imprensa lavajatista.

Esse é o golpe que vão tentar nos aplicar em 2022: vender lobo extremista em pele de cordeiro centrista

 

Rodrigo Maia, um homem de direita, corrigiu o noticiário ao colocar Sergio Moro no seu devido lugar: a extrema direita. Não há debate possível em torno disso. São muitos os fatos que colocam Moro nesse espaço do espectro político. Enquanto juiz, Moro “sempre violou o sistema o sistema acusatório”, como admitiu uma procuradora lavajatista no escurinho do Telegram. Depois de ajudar a implodir a classe política — principalmente o PT — e pavimentar o caminho de Bolsonaro à presidência, ganhou um ministério. Enquanto ministro, lutou para que policiais tivessem carta branca para matar, atuou como advogado da família Bolsonaro como no episódio do Vivendas da Barra e ficou calado todas as vezes em que seu chefe fez ameaças golpistas.Pin em Charges

A única participação de Moro na política partidária foi integrando um dos principais ministérios de um governo de extrema direita. O tal centrismo de Moro fica ainda mais ridículo quando ele sugere que general Hamilton Mourão, outro defensor da ditadura militar e do torturador Ustra, é também um homem de centro apto a fazer parte da sua articulação.

Sergio Moro não abandonou o bolsonarismo por divergências ideológicas. Não rompeu porque suas ideias centristas colidiram com o radicalismo. Ele pulou fora porque Bolsonaro interveio no seu trabalho, que até então era elogiadíssimo pelos extremistas de direita. Não há nenhuma razão objetiva que justifique enquadrá-lo no centro a não ser os desejos da ala lavajatista da grande imprensa, que ainda é hegemônica. É uma bizarrice conceitual que lembra a pecha de “comunista” que Moro ganhou das redes bolsonaristas após sua saída do governo. É a ciência política aplicada no modo freestyle.

Doria e Mandetta até pouco tempo atrás apoiavam o bolsonarismo. São homens de direita que toparam o radicalismo de Bolsonaro sem nenhum problema. São direitistas que estão mais próximos da extrema-direita do que do centro. E Luciano Huck? Bom, a sua trajetória não deixa dúvidas de que é um homem de direita (escrevi a respeito no ano passado). O seu voto em Bolsonaro deixou claro que ele é capaz de apoiar a extrema direita para evitar alguém de centro-esquerda.

A ideia de que Huck poderia ser presidente nasceu na cabeça de Paulo Guedes, o economista que colaborou com o regime sanguinário de Pinochet e que foi — e ainda é —  o fiador da extrema direita no Brasil. O apresentador da Globo foi cabo eleitoral do seu amigo Aécio Neves e já exaltou o Bope nas redes sociais. É um histórico incompatível com a aura de centrista moderado que ganhou da grande imprensa.

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Apesar de algumas pinceladas progressistas em questões envolvendo o meio ambiente, por exemplo, Huck também está mais próximo da extrema direita do que do centro. A Folha de S. Paulo tem dado enorme contribuição para a consolidação dessa imagem de centrista moderado, já que frequentemente oferece espaço para que este condenado por crime ambiental possa escrever em defesa do….meio ambiente.

Pelos próximos dois anos, a grande imprensa irá martelar que Moro-Huck e Doria-Mandetta são as únicas opções para unir o Brasil. Não chega a ser um estelionato novo

O fato é que o centro na política brasileira é uma ficção. Ele é a direita que se pretende moderada, mas que topa apoiar um candidato fascistoide se o seu adversário for um homem com perfil moderado de centro-esquerda. A grande imprensa está tratando esse oportunismo como uma alternativa para o país que chegará em 2022 arrasado pelo bolsonarismo. Durante as últimas eleições, a Folha emitiu um comunicado interno exigindo que seus jornalistas não classificassem Bolsonaro como alguém de extrema direita. Isso significa que a direção do jornal não quis contar a verdade para o eleitor. Tudo indica que esse ilusionismo continuará com a fabricação dessa chapa centrista e moderada formada por legítimos direitistas que suportaram um projeto neofascista.

As chances dessa terceira via fake não vingar são grandes. As pretensões dos envolvidos são grandes demais. Moro, Huck ou Doria aceitariam ser o vice dessa chapa? Difícil, mas a tática direitista de se camuflar de centro deverá ser aplicada, mesmo que com outros personagens.

Esse é o golpe que vão tentar nos aplicar em 2022: vender lobo extremista em pele de cordeiro centrista.

31
Ago20

Guedes, o incrível contador de histórias

Talis Andrade

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Ontem, na Folha, um grupo de 8 acadêmicos se juntou para uma antologia dos maiores “causos” de Guedes. Apenas um poderia ter compilado seus feitos

13
Abr19

NOAM CHOMSKY DIZ QUE LULA "É O PRISIONEIRO POLÍTICO MAIS IMPORTANTE DO MUNDO"

Talis Andrade

 PRISÃO DE JULIAN ASSANGE ESTÁ LIGADA À DE LULA

 

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O linguista, filósofo e cientista político Noam Chomsky concedeu uma entrevista ao canal Democracy Now em que compara a prisão do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, com a do ex-presidente Lula e a do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci.

Segundo ele, há uma tentativa de silenciar as vozes de ambos, lembrando da prisão de Gramsci sob o fascismo. Chomsky ressalta a proibição de Lula fazer declarações públicas e afirma que "ele é o prisioneiro político mais importante do mundo. Você ouve alguma coisa [na imprensa] sobre isso? Bem, Assange é um caso similar: temos que silenciar essa voz"

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"Alguns podem se lembrar quando o governo fascista de Mussolini colocou Antonio Gramsci na prisão. O promotor disse: 'Temos que silenciar essa voz por 20 anos. Não podemos deixá-lo falar.' Isso é o Assange. Isso é o Lula. Isso é um escândalo."

"Sob o governo Lula, no início deste milênio, o Brasil foi um dos mais – talvez o país mais respeitado do mundo. Foi a voz do Sul Global sob a liderança de Lula da Silva", afirma o renomado linguista.

Assista aqui ao vídeo legendado:

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13
Fev19

ANGELA, FILHA DE CHICO MENDES: MINISTRO PENSA QUE PODE MATAR UM IMORTAL

Talis Andrade

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247 - Angela Mendes, filha do ex-ativista ambiental Chico Mendes, divulgou na tarde desta terça (12) uma dura nota do Comitê que leva o nome de seu pai criticando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para quem ele não teve tanta importância.

"Primeiro, o ministro afirma não conhecer Chico Mendes. Só essa afirmação, partindo de quem ocupa a pasta que ocupa, já deveria ser seguida por uma ato de grandeza: o pedido de demissão. Mas é esperar demais de alguém com a pequenez ética desse senhor", diz a nota.

"A questão não é, obviamente, pessoal, é POLÍTICA! É uma questão de LADO. De IDEOLOGIA! De CLASSE. E é assim que deve ser tratada: o ministro reafirmou seu LADO. Ele está do lado dos que PENSAM QUE MATARAM CHICO MENDES, que são os mesmos que continuam matando ou apoiando a morte de lideranças das populações tradicionais (extrativistas, coletores, quilombolas, indígenas, pescadores, entre outros) e seus apoiadores e aliados", continua.

Durante a entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Salles afirmou: "eu não conheço o Chico Mendes, escuto histórias de todos os lados. Dos ambientalistas mais ligados à esquerda, que o enaltecem. E das pessoas do agro que dizem que ele não era isso que contam. Dizem que usava os seringueiros pra se beneficiar".

O jornalista Ricardo Lessa rebateu: "Se beneficiar do que? Ele é reconhecido pela ONU".

"O que importa quem é Chico Mendes agora?", respondeu o ministro.

Nota do Comitê Chico Mendes:

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Desde cedo, hoje, começamos a receber inúmeras mensagens que nos repassavam as absurdas falas do ministro (assim mesmo, com “m” minúsculo, como o “tamanho” intelectural dele) do meio (só meio, pois, do ambiente, com certeza não é!) sobre a “irrelevância” de Chico Mendes.

Primeiro, o ministro afirma não conhecer Chico Mendes. Só essa afirmação, partindo de quem ocupa a pasta que ocupa, já deveria ser seguida por uma ato de grandeza: o pedido de demissão. Mas é esperar demais de alguém com a pequenez ética desse senhor.

Mas, não contente em afirmar que desconhece a história de um dos Heróis da Pátria, conhecido e reconhecido, nacional e internacionalmente, por ter dado própria vida em defesa da Amazônia e de suas populações tradicionais, o ministro ainda foi mais longe: repetiu e aliou-se ao discurso dos assassinos de Chico Mendes e de seus apoiadores.

A questão não é, obviamente, pessoal, é POLÍTICA! É uma questão de LADO. De IDEOLOGIA! De CLASSE. E é assim que deve ser tratada: o ministro reafirmou seu LADO. Ele está do lado dos que PENSAM QUE MATARAM CHICO MENDES, que são os mesmos que continuam matando ou apoiando a morte de lideranças das populações tradicionais (extrativistas, coletores, quilombolas, indígenas, pescadores, entre outros) e seus apoiadores e aliados.

Mas não só, são os mesmos que, de forma kamikaze, destroem as florestas para a introdução da monocultura sem levar em conta que isso, dentro de curto espaço de tempo, fará com que não seja mais possível manter a agricultura, a pecuária, o “agronegócio”, enfim, pois as florestas, são fundamentais para manter o equilíbrio do regime de chuvas, indispensável para o cultivo e a criação de animais.

O senhor ministro sabe, por acaso, o que são as Reservas Extrativistas?

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Com certeza, NÃO! Pois, se soubesse não falaria as besteiras que falou. Então vamos lá, começando do começo:

A relevância de Chico Mendes, senhor ministro, está no fato de que, como seringueiro, político, militante, liderança sindical, presidente de um sindicato de trabalhadores rurais nos confins da Amazônia ocidental, em Xapuri, conseguiu, com sua incrível capacidade de situar-se à frente de seu tempo, perceber que não estava lutando só pelas seringueiras, ou pela floresta, mas que estava lutando, como ele mesmo disse, “pela humanidade.”

Essa percepçaõ fez com que ele buscasse apoio para a luta não só organizando os seus companheiros e as suas companheiras nos Empates, criados pelos trabalhadores e trabalhadoras de Brasiléia e, após o assassinanto de Wilson Pinheiro, primeira grande liderança a ser assassinado no Acre por defernder a floresta, em 1980, pelos de Xapuri, mas também procurado cientistas, professores, militantes políticos e partidários, trabalhadores e ambientalistas do Brasil e do mundo.

Chico Mendes, com sua capacidade e os apoios iniciais, convocou, como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, o I Encontro Nacional dos Segingueiros, realizado entre os dias 10 e 17 de outubro de 1985, na UnB, em Brasília, com mais de 120 seringueiros e seringueiras da Amazônia toda.

Naquele Encontro, além de mostrar ao mundo que a floresta amazônica não era um “vazio demográfico”, como diziam as políticas oficiais, mas sim, que havia populações residindo dentro dela e que a faziam produtiva, ao mesmo tempo em que a preservavam e conservavam para as gerações futuras, lançaram ideias novas.

Ameaçados pela “politica de ocupação da Amazônia”, promovida, desde a implantação da ditadura militar, com a facilitação da devastação para os “grandes fazendeiros” que expulsavam os posseiros e ocupantes tradicionais, os seringueiros discutiram que queriam uma garantia de que poderiam cotinuar vivendo como seringueiros, na floresta, usando-a sem destruí-la e sem necessidade de serem os “donos da terra”, e sim, apenas e tão somente, que pudessem usufruir das riquezas da floresta, que deveria continuar como “BEM PÚBLICO”, patrimônio da União, de todo o povo.

Portanto, conservado pelas populações tradicionais, como eram – e este foi o exemplo – as Resevas Indígenas. A partir dessa ideia, criaram o conceito das RESERVAS EXTRATIVISTAS, que era – e continua sendo – extremamente avançado, pois propõe a possibilidade de CONSERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE através das POPULAÇÕES TRADICIONAIS, que já o manejam há séculos, ao mesmo tempo em que o faz produtivo, serando emprego e renda a MILHARES DE FAMÍLIAS e, mais, como uma REFORMA AGRÁRIA adequada para a Amazônia, sem a busca da PROPRIEDADE DA TERRA, um dos pilares da nossa sociedade semariana, que se estende ao longo de mais de 500 anos.

A proposta, inicialmente vista com reservas pelos “ambientalistas puros”, que sempre acharam que o ser humano não consegue ser conservacionista e produtor ao mesmo tempo, foi, exatamente em função da atuação de Chico Mendes como porta-voz, explicando a todos como isso era possível, passou a ter o apoio dos mais diferentes setores da sociedade brasileira e dos ambientalistas do mundo.

Foi por isso que Chico Mendes ganhou o prênio GLOBAL 500 da ONU, como o primeiro ambientalista brasileiro a fazer parte do rol dos 500 ambientalistas de todo o mundo a serem homenageados na ECO-92, no Rio de Janeiro, reconhecimento concedido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUD). E, 1987, Chico Mendes ganhou o prêmio de ambientalista do ano da Better World Society (Sociedde para um mundo melhor), entidade criada nos Estados Unidos por Ted Turner.

A ideia das Reservas Extrativistas, nascida genuinamente dos seringueiros da Amazônia no seu enontro de Brasília, tornou-se tão grande que pôde ser adaptada para as populações tradicionais dos diferentes biomas brasileiros. Assim, hoje, há Reservas Extrativistas não só de seringueiros, mas também de pescadores, de coletores de castanha, de açaí e carangueijo, de quebradeiras de coco-babaçu, enfim, o CONCEITO das Reservas Extrativas foi usado para criar um grande número de RESEX em diferentrs biomas e estados brasileiros, desde todos os estados da Amazônia, até alguns do Nordeste, e até do Sul e Sudeste do Brasil.

O modelo, entre as RESEX e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável, uma derivação usada somente na Amazônia, garante hoje a preservação de mais de 25 milhões de hectares de florestas, benefificiando mais de 1,5 milhão de pesssoas, fora outros mais de 500 mil hectares de áreas preservadas em outros biomas de outras regiões do país.

No total, a preservação/conservação ambiental, com as RESEX, RDS e as Florestas Nacionais e Estaduais, que são parte do LEGADO de Chico Mendes, é de 66 milhões de hectares, o que corresponde a 13,18% da Amazônia. Está bom para que se entenda a RELEVÂNCIA de Chico Mendes para o presente? Se ele não tivesse sido, lá atrás, um porta-voz tão respeitado – e temido pelos que pensam que o mataram – não teríamos conseguido preservar esses milhões de hectares de florestas e de outros biomas, ao mesmo tempo gerando milhares de vagas de ocupação e emprego para as populações tradicionais.

É disso que estmos falando. E sabemos que é exatamente CONTRA ISSO que insurge o “ministro do meio” porque ele está ali para defender uma posição ideológica de INTERESSE do grande Capital, do agronegócio, das mineradoras, enfim, DOS QUE TEM INTERESSE NA DEVASTAÇÃO, NA DESTRUIÇÃO, NA MORTE das populações tradicionais e do meio ambiente.

Ele, o ministro, é o porta-voz, atual da morte e está ao lado dos assassinos!

Os que atiraram em Chico Mendes perderam o tiro, erraram o alvo! Os que pensam que o mataram, na verdade, tornaram-no IMORTAL!

Rio Branco, Acre, 12 de fevereiro de 2019

COMITÊ CHICO MENDES

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02
Dez18

Eleições e(m) diálogo: travessia entre o autoritarismo e a democracia

Talis Andrade

Por Emerson de Lima Pinto e Frederico Pessoa da Silva

— Professor, o senhor parece um pouco incomodado. Qual o problema? As eleições?

 

— Não, meu caro. Eleições jamais podem ser compreendidas como um problema, mas como um processo constante de aperfeiçoamento do exercício da cidadania e uma oportunidade de aprimorarmos enquanto povo a qualidade da deliberação (e compreensão da) política. O resultado de uma eleição é sempre contextual e determinado a partir da vontade de uma maioria eventual. A questão que me coloca a refletir foi a forma pela qual o processo político em curso se deu em nosso país e o papel que todos exercemos e passaremos a exercer no período futuro.

 

— Mas o senhor teria como deixar mais claro o que está querendo nos dizer?

 

— Vejam, darei um exemplo: ao longo dos últimos tempos, notei manifestações de ex-alunos, colegas e conhecidos que esqueceram a participação fundamental da classe dos juristas na defesa e construção da democracia, manifestações de pessoas que parecem ao mesmo tempo ter esquecido do papel que nossa classe exerceu (não apenas no Brasil como no mundo inteiro) — e pode vir a exercer novamente — em desfavor dessa mesma democracia. Vejam, não estudamos a historia constitucional brasileira, bem como a comparada, para ignorarmos as duras lições sobre como se instituem e sustentam regimes autoritários ou ditatoriais e como esses sistemas políticos desprezaram o respeito às liberdades e aos direitos humanos. Incomoda como essas discussões substanciais à vida comunitária sucumbiram rapidamente num horizonte político obscurecido e empobrecido intelectualmente. O debate de projetos políticos é essencial aos regimes democráticos e sua infantilização torna nossa frágil democracia capaz de ser subtraída ideologicamente.

 

— Mas, professor, alguns professores também defenderam ideias diferentes no plano político nessas eleições?

 

— Claro que sim, é legitimo que defendam seus interesses de classe ou sua consciência de classe, isso é natural e é da vida. O problema não é o jurista colocar-se em ação na defesa de projetos políticos e sociais de esquerda, centro ou direita, ou qualquer conceito que se coloque no meio destes, contudo, brutal é qualquer saída de índole autoritária permeada por discursos antidemocráticos, discursos que se sustentam no medo e no ódio. No entanto, não acredito que professores de Direito tenham defendido teses contra direitos humanos e direitos de minoria ou tenham tido uma visão revisionista da ditadura civil-militar de 1964, da ditadura varguista do Estado Novo, ou, ainda, no plano internacional, justificando a violação de direitos humanos na Turquia ou em Guantánamo (tivemos direito a, inclusive, negacionistas da escravidão).

 

— E o papel do Poder Judiciário agora, professor, como será?

 

— O Poder Judiciário nas democracias contemporâneas cumpre um papel fundamental contramajoritário[1] de guarda da Constituição, assim devia e assim deve ser. O Judiciário é a corda que nos prende ao mastro em momentos nos quais o canto das maiorias vai de encontro à ordem constitucional vigente. Nada pode mudar com relação a isso. Me assusta a ideia de que juristas, cidadãos que (em tese) foram lapidados durante cinco anos para compor e contribuir para o engrandecimento de instituições com essa característica essencial, tenham optado por uma via autoritária. E nem estou falando apenas do segundo turno. O discurso já estava aí antes mesmo de as urnas do primeiro turno serem postas. Podemos, talvez, antecipar um detalhe: o reconhecimento de direitos no plano político e jurídico de minorias, considerando a violência discursiva que parece ter tomado conta de boa parte de nossas instituições políticas e que tende a se tornar concreta quando a autoridade legitima discursos de exclusão e ódio, será uma responsabilidade ainda mais delicada do que já era para o Poder Judiciário, que terá uma tarefa dificílima de discernir quando agir e quando não agir no atual contexto em que não se trata mais de compreender o que as regras do jogo democrático exigem, mas impedir que esse jogo dissolva-se.

 

— Mas, professor, essa é a nossa realidade a partir de agora, assim é a democracia ou não?

 

— De fato. E por isso creio que nunca foi tão importante estudarmos mais na academia. E quando eu digo estudar, quero dizer lermos mais os clássicos e os grandes autores contemporâneos. A doutrina jurídica, política e filosófica nunca se tornou tão importante para os juristas como hoje. Precisamos rapidamente desmistificar instrumentos de informação que se tornaram simplificações de conteúdos, quando não propagam informações inverídicas. As fronteiras entre a religião e o Estado nunca estiveram tão confusas no período republicano como atualmente. Contudo, meus caros alunos e alunas, é em períodos de crise que temos a oportunidade de nos tornarmos bem melhores e, no nosso caso, mais humanos frente aos desafios.

 

Lembro que o professor Lenio Streck dialoga bem com o fato de que a hermenêutica seja a propositura de se dizer a maneira de viver que resulta das circunstâncias em que cada um se acha, e não meros métodos científicos. O intérprete, se fora da tradição do texto proposto, seria impensável sua indução ao sentido que a norma busca repassar (STRECK, 1999, p.187). Ainda em mesmo sentido discute Gadamer que o ser compreende aquilo que esta em seu horizonte avaliativo, e deste círculo não pode escapar, mesmo os horizontes sendo alargados e sua opinião mudando no tempo. Com o alargamento da esfera do conhecimento, abre-se o conceito da tradição, comunicando-se com maior fonte de verdade e liberdades (STEIN, 1987, p. 107-8). Precisamos abrir os horizontes de sentido cada vez mais nas faculdades de Direito para a vida democrática que assegure tanto as liberdades quanto os direitos sociais.

 

Aos professores de Direito caberá cada vez mais aprofundar o diálogo em sala de aula[2] e, talvez, o velho modelo da tolerância deva ser superado pelo modelo da alteridade em sala. A tolerância foi uma grande conquista do pensamento liberal, porém, enquanto paradigma, deve ser superado pela alteridade a fim de compreendermos o outro enquanto outro. Não é possível nos colocarmos no lugar do outro, entretanto, temos o dever de respeitarmos o outro enquanto outro, e a partir daí estabelecermos uma relação dialógica que construa novas pontes e que permita a apropriação de conhecimento. Somente pelo conhecimento poderemos superar as dificuldades que a ignorância (de ignorar) vem trazendo ao nosso país. Acima de tudo, com tranquilidade, paciência e sabedoria para nos colocarmos ao lado dos estudantes com intuito de desvendarmos o que é conhecimento e o que é crença ou convicção. Devemos gradualmente e constantemente indicarmos as diferenças desses conceitos por meio de um autêntico dialogo gadameriano.

 

— Mas, professor, isso não é um papel ideológico? Será que isso cabe em sala de aula, isso não é doutrinação?[3]

 

— Não, meu caro, isso é responsabilidade pedagógica e exercício da liberdade de cátedra e está bem presente em nossa Constituição. Aliás, alguns esqueceram disso e o STF há pouco tempo relembrou-os ao referendar a liminar da ministra Cármem Lúcia, nos autos da ADPF 548. Ainda, vale lembrar o HC 40.910, de agosto de 1964 (sim, no início da nossa ditadura civil-militar), citado no voto do ministro Ricardo Lewandowski, deferido para trancar uma AP contra um professor universitário que incentivou seus alunos — distribuindo panfletos — a manterem-se firmes em defesa das liberdades e da democracia.

 

Com o auxílio da hermenêutica filosófica, especialmente retrabalhada pela Crítica Hermenêutica do Direito do professor Lenio Streck — imbricando Gadamer e Dworkin — nas aulas de Direito, além de afirmar que não há um conhecimento neutro, é possível denunciar a pretensão de neutralidade dos discursos científico-filosóficos e, agora, políticos. A verdade histórica vem de um distante passado, interrogado à luz do presente que reconhecemos, podemos ampliar nossos horizontes e contribuir para a humanização e democratização de nossas relações políticas, acadêmicas, institucionais e particulares. Nesse momento, nosso passado nos assombra perigosamente.

 

— Como, professor, podemos agir nessa situação e buscarmos a realização de um país melhor, mais justo e igualitário?

 

— Estudando, meus queridos alunos e queridas alunas. Estudando mais e melhor! É a vida que escolhemos abraçar. Afinal, cabe relembrar que no diálogo hermenêutico a técnica não pode resultar num fim em si mesmo, de tal modo que prescinda da compreensão do sentido a que técnica pré-exista, uma vez que na sociedade contemporânea (re)organiza-se e (re)orienta-se por meio de uma postura ética que adote uma conduta investigativa fundada na racionalidade prática que (re)aproxime o saber teórico e sua aplicação prática de modo a estimular o interligar entre a ciência, a técnica e o humano na preservação e construção do Estado Democrático de Direito para além da ascensão do subjetivismo.

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[1] Para um breve rememorar da construção deste papel contramajoritário do Poder Judiciário, ver aqui coluna escrita por Frederico Pessoa da Silva e Ziel Ferreira Lopes.
[2] Sobre um repensar do modo como pensamos o debate jurídico na Academia, ver aqui excelente coluna escrita por Ziel Ferreira Lopes a esse respeito.
[3] Ler também a coluna do professor Lenio Streck sobre o tema Escola sem partido. Não é a única sobre, pois o tema exige combatividade, mas serve como iniciação à crítica do ilustre professor.

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