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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

21
Fev22

Paris: Memorial do Holocausto expõe o inferno dos homossexuais na Europa nazista

Talis Andrade

triangulo rosa.png



O triângulo rosa era um dos símbolos usados pelos nazistas para identificar homossexuais e lésbicas nos campos de concentração.
 © don de Wilhelm A_ Kroepfl_

 

A diretora de atividades culturais do Memorial do Holocausto de Paris, Sophie Nagiscarde, lembra que os homossexuais e lésbicas faziam parte do grupo dos chamados "degenerados", perseguidos intensamente pela ideologia nazista. "Já havia alguns anos que queríamos abordar essa temática, sobretudo porque trabalhamos com o Holocausto, que é a nosso principal foco de estudo. Mas entender como e por que chegamos ao Holocausto é também compreender a ideologia nazista", resume Nagiscarde.

"No centro da ideologia nazista, os judeus são evidentemente a primeira obsessão racial, em particular de Adolf Hitler, mas existem outras vítimas de primeira hora como os portadores de deficiência e os homossexuais", lembra a diretora. 

No entanto, Sophie Nagiscarde sublinha que homossexuais e lésbicas já eram perseguidos muito antes do advento do Nazismo. "Os homossexuais já eram visados pela lei antes da chegada do regime nazista ao poder na Alemanha porque desde 1871 o Código Penal alemão reprimia a homossexualidade através do famoso parágrafo 175", considera. 

"Mais foi verdadeiramente durante o período nazista que vimos uma aceleração das perseguições extremamente significativa, perseguições que continuaram depois da guerra, uma vez que esse parágrafo 175 só foi abolido na República Democrática Alemã depois de Maio de 68, e em 1969 no leste da Alemanha", diz.

Para a diretora do Memorial do Holocausto, é interessante notar também as reações poderosas ao nazismo demonstradas pelas personalidades da época. "O que achei particularmente interessante foi o surgimento, a partir do fim do século 19, início do século 20, das primeiras associações em defesa dos direitos dos homossexuais que irão, naturalmente, tentar acabar com o parágrafo 175, com a participação de uma personalidade famosa como Magnus Hirschfeld, diretor do Instituto de Sexologia que existia na época em Berlim, mas também através da arte, do espetáculo, conhecemos, por exemplo, toda a militância dos artistas do Cabaré berlinense; havia um aumento da visibilidade homossexual, mas que continuava, é claro, marginal, porque a sociedade continuava hostil em sua maioria", detalha.

Do triângulo rosa invertido dos campos de concentração nazistas ao triângulo rosa do Orgulho Gay, presente em grupos históricos de resistência e luta homossexual, como o Act Up [da luta contra a AIDS nos anos 1980 e pela visibilidade LGBTIQ+], a exposição mostra também a transformação do símbolo nazista em imagem de resistência.

"Vimos na Alemanha do pós-guerra que a homossexualidade continuou a ser perseguida, o que significa que se poderia ir para a prisão, mesmo que não se tratasse mais de um campo de concentração. Demoramos enquanto sociedade quase 100 anos para mudar isso", diz Nagiscarde.

"Somente nos anos 1960 e 70 conseguimos mudar a lei, sendo que, na França, mesmo se a homossexualidade era descriminalizada desde 1791, mas havia um parágrafo incluído durante o período da Ocupação nazista que aumentava para 21 anos a idade da maioridade sexual entre pessoas do mesmo sexo. As associações francesas lutaram para retirar esse parágrafo da lei, o que finalmente aconteceu em 1982", lembra a diretora.

"Me marcou também essa ambiguidade sexual das imagens homoeróticas produzidas por gente como Leni Riefenstahl, e esses grupos masculinos como os da Juventude Hitlerista, e também a presença de homossexuais notórios dentro das tropas nazistas", destaca a programadora. "Acho muito interessante também o fato de que, na ideologia racial ariana, de um povo eleito, ser homossexual ou lésbica não entrava nos planos do regime nazista. O homossexual era considerado degenerado de um ponto de vista médico da raça ariana", aponta.

21
Fev22

"Acho meu tio uma das pessoas mais repugnantes da Terra", diz sobrinho de Malafaia

Talis Andrade

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Rodrigo e Silas Malafaia. Parentes não foram para a festa do jovem, que é desprezado na família por ser gay. Poderoso financeiramente, pastor evangélico é quem dita as ordens na família

 

Redação Pragmatismo Político

Desprezado por ser gay. "Tenho vontade de mudar a história desse sobrenome porque tenho pavor por quem ele é lembrado", desabafa Rodrigo Malafaia, que se casou nesta sexta em uma cerimônia para 200 convidados, mas que não teve a presença de familiares

Rodrigo Malafaia, de 31 anos, se casou nesta sexta-feira com o cantor Leandro Bueno, ex-participante do “The voice Brasil”, numa cerimônia que aconteceu em Mairiporã (SP), e foi celebrada pelo ator e apresentador Vitor diCastro.

Em entrevista ao UOL, ele falou sobre a união, que não teve a presença de seus parentes, e também sobre seu sobrenome, o mesmo do tio-avô, o pastor Silas Malafaia, ao qual deseja dar um novo significado.

“Tenho vontade de mudar a história desse sobrenome porque tenho pavor por quem ele é lembrado. Querendo ou não somos da mesma família. Eu não queria isso, pois acho ele uma das pessoas mais repugnantes da face da Terra”, desabafou.

Segundo Rodrigo, no início da carreira ele não usava o sobrenome do tio-avô. Mas a opção pelo Malafaia veio da dificuldade de pronunciar seu outro sobrenome, Westermann. “Não vou mudar o meu nome. Eu tinha essa vergonha, mas não tenho que ter vergonha de nada”.

A festa de Rodrigo e Leandro contou com mais de 200 convidados. De acordo com o modelo, os dois já se consideram casados. Mas isso, afirmou, não anula a importância da cerimônia. “Celebramos por causa da representatividade. Ainda não é comum. Eu, por exemplo, nunca fui a um casamento gay. Fui pela primeira vez no meu. Isso quer dizer muita coisa”.

O modelo revelou que não convidou nenhum parente para o casamento. Nem mesmo o irmão e o pai. “Ele [meu pai] respondeu para eu não fazer isso com ele [exigir sua presença], não colocá-lo nessa posição. Como se eu estivesse ofendendo-o. Ele me colocou como um merda por ter chamado ele para o meu casamento. Fiquei com muita raiva e disse que não queria mais que tivéssemos uma relação depois dessa resposta”.

Rodrigo disse sentir alívio com a ausência dos parentes. “O meu irmão disse que até iria, mas que não seria padrinho. Ele disse que ser padrinho já seria demais. Já entendi que a minha família são os meus amigos, que são aqueles que me acolhem. Os meus parentes acham que estou errado por ser gay”.

A Cerimônia intimista custou entre R$ 150 mil e R$ 200 mil e teve oito horas de duração, com DJs em três ambientes. “Para mim, é bastante dinheiro”, pontuou.

Quanto a filhos, Rodrigo diz ele e Leandro pretendem tê-los, mas não agora. “Queremos esperar mais, até para ter uma maior estabilidade financeira. O primeiro pretendemos adotar. Tenho mais vontade de adotar do que de gerar. Com tantas crianças no mundo, eu me sentiria egoísta de gerar antes de adotar um filho”.

O Dízimo. Por Renato Aroeira

07
Out21

Polícia prende suspeito por tentativa de estupro contra menino de 12 anos e encontra material nazista

Talis Andrade

A polícia encontrou um documento da SS, a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista, com a foto de Aylton — Foto: DivulgaçãoA polícia encontrou um documento da SS, a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista, com a foto de Aylton — Foto: Divulgação

 

 

 

por TV Globo e g1 Rio

A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu nesta terça-feira (5) Aylton Proença Doyle Linhares, suspeito por estupro contra um menino de 12 anos. Ao cumprirem o mandado de prisão temporária, os policiais encontraram uma farta coleção de itens nazistas na casa do suspeito.

Entre dezenas de objetos apreendidos estavam:

 

  • 12 fardas nazistas;
  • bandeiras;
  • um quadro de Adolf Hitler;
  • recortes de jornal dos anos 1950 sobre nazismo e fascismo;
  • medalhas do Terceiro Reich;
  • miniaturas de estátuas e veículos;
  • um capacete militar;
  • além de um documento da SS, a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista, com a foto de Aylton.

 

Por conta das armas e do material encontrado na casa de Doyle, ele também será autuado em flagrante por porte ilegal de arma e discriminação racial — Foto: Divulgação

Por conta das armas e do material encontrado na casa de Doyle, ele também será autuado em flagrante por porte ilegal de arma e discriminação racial — Foto: Divulgação

 

 

Suspeito de estupro

 

A investigação da polícia começou depois que um vizinho de Aylton fez um registro na 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes), levantando a suspeita de tentativa de estupro dentro do condomínio onde os dois moram, em Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio.

Os policiais apuraram que o suspeito tentava agarrar crianças dentro do condomínio. A Justiça determinou a prisão temporária de Aylton por tentativa de estupro e um mandado de apreensão, ambos cumpridos nesta terça-feira.

Por conta das armas e do material encontrado na casa de Doyle, ele também será autuado em flagrante por porte ilegal de arma e discriminação racial.

Os policiais encontraram diversos itens nazistas na casa de Aylton — Foto: Divulgação

Os policiais encontraram diversos itens nazistas na casa de Aylton — Foto: Divulgação

Polícia prende suspeito de estuprar menino de 12 anos e encontra material nazista  — Foto: Divulgação

Polícia prende suspeito de estuprar menino de 12 anos e encontra material nazista — Foto: Divulgação

 
 
07
Out21

Polícia do Rio encontra coleção nazista avaliada em 3 milhões de euros

Talis Andrade

Foto mostra muitos diferentes uniformes nazistasSomente um dos uniformes nazistas da coleção está avaliado em 250 mil euros

 

Agentes cumpriam mandado de prisão em casa de suspeito de estupro de menor na zona oeste da cidade quando se depararam com os objetos. Dono da coleção nega o Holocausto e teria comprado os itens com sua herança

 

 

por DW

A polícia civil do Rio de Janeiro disse nesta quarta-feira (06/10) que encontrou na casa de um suspeito de estuprar um menor de idade uma coleção de objetos e armas nazistas no valor de cerca de 3 milhões de euros.

As autoridades policiais afirmaram ter encontrado mais de mil itens na casa do suspeito de 58 anos, incluindo uniformes nazistas, recortes de jornais, pinturas, insígnias nazistas, imagens de Adolf Hitler, bandeiras e medalhas do Terceiro Reich, além de armas e munições da época.

Os itens foram descobertos quando a polícia foi à casa do homem para cumprir um mandado de prisão por suspeita de estupro de um menor no condomínio em que ele mora, na zona oeste da cidade. O suspeito também foi acusado de porte ilegal de arma e de discriminação racial.

"Ele é um cara inteligente e articulado, mas nega o Holocausto, é homofóbico, pedófilo e diz que caça homossexuais", disse o delegado Luis Armond, responsável pelo caso. "Não sou médico, mas ele me parece um psicopata maluco", acrescentou.

Coleção comprada com herança

Armond disse que o suspeito vem de uma família rica de investidores e, provavelmente, usou sua herança para construir a coleção. Ele estimou que apenas um uniforme nazista de alto escalão esteja avaliado, em média, em 250 mil euros.

A polícia investiga a conexão do suspeito com nazistas e outros grupos de extrema direita e se ele atuava em um mercado para tais objetos.

Armond afirmou que será necessário encontrar um museu para abrigar a coleção. "Isso é algo totalmente incomum e chocante", disse.

Nota deste correspondente: Aylton Proença Doyle Linhares, o dono da coleção, preso por tentativas de estupro de crianças do condomínio onde reside

A polícia encontrou um documento da SS, a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista, com a foto de Aylton — Foto: Divulgação

10
Set21

Bolsonaro não sustenta “moderação” e faz insinuação sexual com Barroso

Talis Andrade

 

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"Barroso, as urnas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis", disse o presidente

 
 
 

O presidente Jair Bolsonaro até tentou, mas não sustentou por muito tempo a “moderação” que a nota elaborada por Michel Temer tentou lhe imporApesar de rebater apoiadores irritados, o presidente “escorregou” ao falar sobre Luís Roberto Barroso, presidente do TSE.

O chefe do Executivo voltou com a narrativa da fraude eleitoral e pregou o voto impresso durante live presidencial. Nesse momento, Bolsonaro decidiu comentar sobre discurso de Barroso e se desviou do rumo de Temer.

“Se o Barroso anuncia que tem novas medidas protetivas por ocasião das urnas, é porque elas tem brecha. É porque, Barroso, elas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis. Ministro Barroso, entendeu? As urnas são penetráveis, o pessoal pode penetrar nelas”, disse, provocando risos entre assessores.

Assim, Bolsonaro reforça os ataques de cunho sexual que ele e apoiadores já fazem contra Barroso. Os comentários que mais dominaram a transmissão de Bolsonaro foram “arregou”, “amarelou” e “perdeu meu voto”. Ainda que alguns mais fiéis tentassem ponderar, a maioria das mensagens eram críticas ao presidente.

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Nota deste correspondente: Sobre o pênis inflável na Paulista: Nas creches petistas as criancinhas mamavam em madeiras em forma de piroca denunciou Bolsonaro, que agora espalha que Doria usa "calças apertadas" e Barroso é das "urnas penetráveis". Vem Rodrigo Maia, sem meias-palavras, revela que Bolsonaro é gay enrustido.
 
Toda essa gente esquece a vida severina de milhões de brasileiros sem emprego, sem teto, sem dinheiro para pagar a conta de luz, o gás, o aluguel do mocambo, a água de beber e o "pão nosso de cada dia". 

 

11
Jul20

"Máscara é coisa de viado", dizia Bolsonaro a funcionários

Talis Andrade

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Segundo colunista, os visitantes e os funcionários do Palácio do Planalto que usavam o acessório de proteção contra o vírus eram alvo de piadas e críticas do presidente do Brasil

 

porJoão Almeida Moreira/ Diário de Notícias/ Portugal
- - -

"Máscara é coisa de viado", dizia Jair Bolsonaro a quem o visitava no Palácio do Planalto e também aos funcionários do local.

"Viado", abreviatura de "transviado", é uma das forma pejorativas de classificar os "homossexuais" no Brasil.

"Os relatos de pessoas que visitaram Jair Bolsonaro depois da explosão da epidemia de Covid-19 no Brasil descrevem momentos de tensão. O presidente se recusava a usar máscaras, o que induzia convidados a seguir o exemplo. Fazia questão de se aproximar para cumprimentar com um aperto de mão", revelou a jornalista Monica Bergamo na sua coluna de bastidores de Brasília no jornal Folha de S. Paulo.

A declaração atribuída ao presidente provocou debate sobre homofobia e padrões de masculinidade, além da hashtag #CoisadeViado na rede social Twitter.

"Tem toda a razão, presidente. Máscara é coisa de viado. De viado inteligente. De viado preocupado com segurança e a saúde do próximo. De viado que não acha que vai ser menos macho por seguir recomendações de saúde", escreveu o jornalista Fernando Oliveira, a propósito.

drag queen e youtuber Lorelay Fox convocou "mais "viadinhes" a partilhar imagens usando máscara durante a pandemia", ajudando o tema a continuar entre os mais comentados no Brasil.

Bolsonaro, antes de ser eleito presidente, tinha histórico de ofensas a homossexuais - chegou até a dizer que preferia ter um filho morto em acidnete de automóvel a vê-lo aparecer em casa de mão dada com um bigodudo.

O site Huffington Post Brasil lembrou um estudo realizado pela Universidade de Middlessex, em Inglaterra, e pelo Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas, nos Estados Unidos, em que se demonstra que mesmo que seja comum homens e mulheres deixarem de usar a proteção durante a crise, eles podem resistir mais ao uso do que elas.

Esse comportamento masculino, segundo os pesquisadores, estaria relacionado a uma atitude mais ampla diante de questões de saúde. Diz o estudo que os homens são condicionados a serem "durões" e não sabem lidar com a fragilidade, medo ou preocupação diante de problemas de saúde - tanto sua, quanto dos outros -, o que explicaria a resistência ao uso.

 
03
Jul20

A primeira parada gay de Florianópolis

Talis Andrade

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Foto Charles Guerra

 

III - Ministro do STJ teve filho com doméstica e nunca o reconheceu

por Edson Rosa/ Fábio Bispo

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“Fui proibido de me aproximar da casa da Presidente Coutinho, do Tribunal de Justiça e até da minha avó paterna, que também nunca me procurou”, conta.

Tiago diz que custou a assimilar. “Eu tinha medo, afinal, o homem que me negava a paternidade era uma das pessoas mais influentes do Judiciário e dos círculos de poder catarinense.”

Na época, Tiago já frequentava a Escola de Samba Embaixada Copa Lord, que lhe deu as melhores recordações da adolescência passada entre a fome, a falta de saneamento básico, a criminalidade e o preconceito no Morro da Cruz. “O carnaval é o único momento de glória do povo do morro, é quando o rico aplaude o pobre sem desdenhar”, descreve. Além da escola de samba, começou a se envolver cada vez mais em projetos sociais, ajudando a vizinhança com seus conhecimentos básicos de enfermagem ou atuando como voluntário nas creches comunitárias que atendiam meninos e meninas da região. Lá, distribuía parte das sobras de comida doadas pelas clientes de Minervina.

Como tem samba no pé, as horas de folga eram dedicadas à escola de coração. Assim o rapaz negro, de média estatura, cabelos e barba sempre bem aparados, também dava seus primeiros passos rumo à política. Em 2006, tendo Tiago como fundador, a capital catarinense realizou a primeira edição da Parada da Diversidade, reunindo 30 mil pessoas. Homossexual assumido, ao longo dos anos, Tiago se tornou um dos maiores militantes contra a homofobia na cidade e lutou para a consolidação do movimento em Florianópolis, que se tornou o maior do Sul do país e garantiu à cidade o título de capital brasileira do turismo gay. A parada de Florianópolis chegou a reunir mais de 100 mil pessoas, a partir da sua quinta edição. Atualmente, Tiago tem se mantido distante da organização dos eventos. Ele é vereador no terceiro mandato na Câmara de Florianópolis, eleito pelo MDB, mas atualmente sem partido e licenciado para atuar como diretor do Procon estadual [Continua]

 

 

29
Jan20

Historiador relembra embaixador brasileiro que salvou centenas dos nazistas, 75 anos após Auschwitz

Talis Andrade

Embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1944, prisioneiro de guerra detido na Alemanha, Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954) ajudou centenas de pessoas perseguidas pelos nazistas a emigrar para o Brasil mediante a emissão de vistos. O historiador Fabio Koifman conta a história de Souza Dantas no livro "Um Quixote nas trevas" (Ed. Record, 2002, São Paulo).

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Por Márcia Bechara

RFI

Fabio Koifman reuniu mais de 7.500 documentos e listou 245 nomes de pessoas salvas por Souza Dantas. Com base em sua pesquisa, ele escreveu a biografia do embaixador. Segundo o historiador, "Dantas bateu de frente com o governo colaboracionista de Getúlio Vargas ao salvar judeus, comunistas e homossexuais da deportação para campos de concentração". 

Quando a França foi invadida pela Alemanha nazista, e o governo francês trocou a capital francesa de Paris para Vichy, e a única esperança de salvação para os judeus em solo francês passou a ser a emigração, e um dos destinos era o Brasil. "Ele ajudou pessoas em Paris antes da Liberação, mas só começou a liberar vistos de próprio punho quando o governo saiu da capital", conta o autor.

Apesar da política restritiva de imigração do governo Vargas na época, Souza Dantas, desafiando a proibição, teria concedido cerca de 500 vistos e ajudou mais de 800 pessoas a fugir da barbárie nazista. Em 1941, a investigação administrativa realizada contra ele, acusando-o de fornecer "vistos irregulares" e ao final da qual ele foi convocado a se aposentar, não o impediu de continuar a emitir vistos. Além disso, o embaixador permaneceu em seu posto, porque era impossível substituí-lo durante esse período conturbado.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

Em 1943, a sede da Embaixada do Brasil foi invadida por oficiais nazistas. O embaixador e seus assessores foram deportados para Bad Godesberg, na Alemanha, e trancados em um hotel até março de 1944, quando foram trocados por prisioneiros alemães no Brasil. 

"Justo entre as nações"

Em Paris, uma placa presta homenagem a Souza Dantas no local da antiga Embaixada do Brasil (Avenida Montaigne, 45). Em 2003, o Yad Vashem (o memorial do Holocausto para o povo judeu em Israel) também concedeu ao embaixador brasileiro o título de "Justo entre as nações". 

Sobre o fato da América do Sul ter recebido a diáspora judia da Segunda Guerra, mas também, posteriormente, inúmeros fugitivos nazistas, Koifman afirma que se tratava de uma predileção pela "imigração branca". "O país se mantece interessado em receber imigração europeia, branca. Eles tinham uma política migratória que privilegiava gente com o que era considerado 'uma boa formação étnica', uma espécie de eugenia", analisa.

Questionado sobre as acusações de que o primeiro escalão do governo atual, de Jair Bolsonaro, flertar diretamente com a ideologia nazista, no ano em que a França celebra os 75 anos da liberação dos judeus do campo nazista de Auschwitz Birkenau, Fabio Koifman lamenta. "É um desconhecimento, uma apropriação de valores, o presente não tem nenhum nexo com o passado. Mas alguns aspectos da estrutura nazista de governos autoritários são revistos hoje em dia", diz. "É lamentável por que isso revela o pouco da percepção dessas pessoas sobre o que é cultura e liberdade". 

 

10
Nov19

O porteiro e a banalidade do mal

Talis Andrade

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Por Saul Leblon
Carta Maior

Como foi que o mundo das fake news avassalou o discernimento de nossa época, a ponto de instaurar uma espécie de servidão mental na qual o senso comum se submete à afirmação e a sua negativa com a mesma passividade, não raro, guiado pelo malabarismo cínico do mesmo emissor?

O papel da mentira na política assumiu um espaço proeminente, como bem sabe a sociedade brasileira, graças ao novo arsenal tecnológico capaz de adorna-la com atributos da verdade manipulando friamente o discernimento social, sobretudo nos escrutínios eleitorais.

O ambiente de relativização factual criou assim uma espécie de poder emergente a impor sua supremacia aos demais.
 
Nesse novo maniqueísmo em que se acredita e se duvida de tudo, ao mesmo tempo e com igual intensidade, o discernimento crítico se recolhe a um estado de torpor.

A participação da Razão nas tomadas de decisões individuais e coletivas subsiste nas franjas da sociedade, atrofiando-se o espaço do esclarecimento indissociável da prática argumentativa e da elaboração histórica do conflito social.

Em que, afinal, amparar-se para arguir aquilo que nos chega na forma de massas avassaladoras de pós-verdades escritas, ditas, filmadas, fotografadas, endossadas, quantificadas e replicadas exaustivamente 24 horas por dia?

Todos os poderes –Legislativo, Executivo, Judiciário, Mídia — mas também a ciência e a espiritualidade perdem resiliência e identidade nessa teia elástica que reprocessa o mundo como um solvente de relativização suprimindo as divisas do vivido, do sentido, do presente e do passado. Vale dizer, as raízes da própria identidade.

Tome-se os destampatórios regulares do atual ocupante do Planalto.

Segue o modelo político dominante: o que se afirmara ontem pode ser revogado hoje e o oposto restabelecido amanhã.

Nesse roldão, um porteiro experiente pode ser acusado de ‘confundir’ o número 65 por 58. Embora o contexto narrativo lhe dê razão, será carimbado como mentiroso por ágeis representantes do judiciário, municiadas de laudos que, sugestivamente, homologam a pós-verdade sancionada por perícia de igual extração.

A tradicional manipulação da verdade e da mentira na política não mudou de patamar apenas no Brasil.

Seu uso e abuso é corrente na guerra midiática do poder nos EUA de Trump, mas também na Argentina de Macri, no Chile de Piñerochet, na Rússia de Putin, no cabuloso mundo da monarquia árabe etc

O peso histórico assumido no Brasil, no entanto, distingue-se pelas características de uma democracia em que a mídia convencional sempre exerceu, avant-la- lettre, um grau de manipulação política equivalente ao das fake news . Além disso, a penetração evangélica neopentecostal --dominante na população pobre das periferias-- tornou avassaladora a receptividade à mentira política avalizada por Deus (ouça Boaventura de Sousa Santos na Rádio Carta Maior – clique aqui).

O desfecho da nebulosa disputa presidencial de 2018 fez do país, assim, um laboratório avançado do exercício do poder por exemplar típico desse novo ambiente indiviso entre ficção e realidade.

O custo social e subjetivo é o que se paga em sobressaltos recorrentes, polarizadores e ao mesmo tempo fragmentadores dos direitos e consensos duramente acumulados e sedimentados na Carta de 1988.

O que irá sobrar ao espaço do discernimento crítico quando o desenvolvimento das ferramentas de IA (Inteligência Artificial) viabilizarem aquilo que o historiador e filósofo da Universidade de Jerusalém, Yuval Harari, chama de “hackear o cérebro e os sentidos dos seres humanos” (Valor), ‘compreendendo-os antes e melhor que eles mesmos’?

O mundo das fake news, portanto, poderá figurar apenas como um inocente cálice de Porto no pantagruélico porre de pós-verdade em curso.

Transitar nesse ambiente e devolver a história aos sujeitos de carne, osso e classe requer enxergar além da neblina da rendição ao maquinismo reluzente.

A tentação de se atribuir o amortecimento dos sentidos e da democracia a um vilão tecnológico repete no campo da Razão aquilo que se verifica no universo do trabalho, em que a uberização e a precariedade das formas de ocupação e renda nos são informados como colaterais inexoráveis do avanço tecno-científico, desprovido das relações de produção e de poder que o impulsionam e refletem.
 

Na realidade, as coisas são menos avulsas do que sugere e versão dominante.

O desenraizamento social e subjetivo promovido pela precarização do trabalho semeou o ressentimento, a perda de sentido, o isolamento e a infantilização narrativa, adestrando os sentidos na sedução pelo Guia, o Pai, o Pastor , o Mito que as fake news e os sistemas eleitorais operados à distância cuidarão de consagrar.

O conjunto homologa o reducionismo alienante que o martelete das contraposições irredutíveis --bons e maus, corruptos e moralistas, puros e sub-humanos...-- massificará com requintes de crueldade e vulgaridade sabidos.

Para quem vê exagero há que se recordar: nos anos 30, uma das sociedades mais sofisticadas do planeta, onde o capitalismo atingiria seu pináculo tecno-científico, submetida a condições de privação material e subjetiva decorrentes da guerra intercapitalista, aderiu em massa a um projeto regressivo de restauração nacional de arcabouço totalitário.

Essa ruptura arrastou toda a humanidade.

Desde então, o Horror respira no ovo chocado pela intersecção pura entre tecnologia, monopólios capitalistas e finanças globalizadas, em processos nos quais a acumulação da riqueza é desenfreadamente perseguida, e alcançada, em detrimento da emancipação social e subjetiva da sociedade.

Para ajudar a entender esse fenômeno, mas não só ele, a série Clássicos em Podcast, iniciada pela Rádio Carta Maior em outubro, com o filósofo Herbert Marcuse --apresentado por Márcio Pochmann, traz agora a filósofa e escritora, doutora pela USP e pela École des Hautes Études de Paris, Olgária Matos.

Olgária nos fala de uma especialista nesse eclipse entre a barbárie e a civilização que passou a nos espreitar permanentemente: Hannah Arendt.

A pensadora judia alemã enxergou no desenraizamento social e subjetivo, intrínseco ao capitalismo totalizante do nosso tempo, a estufa de algo desconcertante: a banalização do mal

A expressão remonta à Operação Reinhard, um plano racionalmente planejado, implementado e gerido em escala industrial pelo Estado nazista para permitir a matança indiscriminada de judeus, comunistas, socialistas, ciganos, eslavos, velhos, prostitutas, deficientes e homossexuais --enfim, o ‘Untermenschen’, os seres sub-humanos, inerentemente descartáveis.

Muitas vezes confundido como indulgente, o conceito na verdade encerra uma alarmante advertência sobre as relações sistêmicas que nos envolvem e condicionam a existência no século XXI

A notícia terrível trazida por Hannh Arendt é a de que a barbárie não necessita mais de seres abjetos para se reproduzir em nosso mundo.

Sua possibilidade é intrínseca ao sistema.

Adolf Eichmann, que dirigiu os maiores campos de extermínio nazistas não era um personagem doentio, anunciou algo assustadoramente a pensadora judia, que cobriu seu julgamento em Israel, 15 anos após a derrota nazista.

O que ele evidenciava era algo pior que isso, anunciou Arendt.

Eichmann era um gestor eficiente, um ‘CEO’ da industrialização da morte, que tinha como meta e planejamento entregar uma solução final para a questão judia na Europa.

O ambiente corporativo global comporta-se atualmente diante dos valores da civilização –e das ameaças ambientais, por exemplo-- com o mesmo distanciamento gerencial dos ‘CEOs’ de Auschwitz-Birkenau.
 
Metas de desempenho são cumpridas; os bônus são viabilizados e a fatia dos rentistas é entregue na forma de dividendos –isentos, no Brasil do arrocho fiscal.

O custo para a sociedade pode ser um passo adiante no percurso rumo à barbárie.

Arendt escavou a origem dessas relações sistêmicas nas quais os indivíduos e instituições são reduzidos a dentes do maquinismo azeitado em vazio ético.

É aí que se inala, se emite e se replica a banalidade do mal. Muitas vezes travestida em fake news.

Alto lá, porém: a dialética não morreu em Auschwitz-Birkenau, nem se rendeu a Wall Street.

O sangrento desfile de imagens da repressão chilena –replicadas digitalmente pelos manifestantes que lutam nas ruas do país vendido como paradigma de sucesso do que se deseja replicar aqui, desautoriza o fatalismo tecnológico e a prostração histórica.

A banalidade do mal tem um ponto de saturação.

Esse ponto reside na rebelião da esperança, em busca do bem comum, diz a rebelião chilena.

Ouçamos a professora Olgária Matos e Hannah Arendt nesta segundo capítulo da série Clássicos em Podcast da webRádio Carta Maior (clique aqui).
 

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