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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

11
Jul20

"Máscara é coisa de viado", dizia Bolsonaro a funcionários

Talis Andrade

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Segundo colunista, os visitantes e os funcionários do Palácio do Planalto que usavam o acessório de proteção contra o vírus eram alvo de piadas e críticas do presidente do Brasil

 

porJoão Almeida Moreira/ Diário de Notícias/ Portugal
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"Máscara é coisa de viado", dizia Jair Bolsonaro a quem o visitava no Palácio do Planalto e também aos funcionários do local.

"Viado", abreviatura de "transviado", é uma das forma pejorativas de classificar os "homossexuais" no Brasil.

"Os relatos de pessoas que visitaram Jair Bolsonaro depois da explosão da epidemia de Covid-19 no Brasil descrevem momentos de tensão. O presidente se recusava a usar máscaras, o que induzia convidados a seguir o exemplo. Fazia questão de se aproximar para cumprimentar com um aperto de mão", revelou a jornalista Monica Bergamo na sua coluna de bastidores de Brasília no jornal Folha de S. Paulo.

A declaração atribuída ao presidente provocou debate sobre homofobia e padrões de masculinidade, além da hashtag #CoisadeViado na rede social Twitter.

"Tem toda a razão, presidente. Máscara é coisa de viado. De viado inteligente. De viado preocupado com segurança e a saúde do próximo. De viado que não acha que vai ser menos macho por seguir recomendações de saúde", escreveu o jornalista Fernando Oliveira, a propósito.

drag queen e youtuber Lorelay Fox convocou "mais "viadinhes" a partilhar imagens usando máscara durante a pandemia", ajudando o tema a continuar entre os mais comentados no Brasil.

Bolsonaro, antes de ser eleito presidente, tinha histórico de ofensas a homossexuais - chegou até a dizer que preferia ter um filho morto em acidnete de automóvel a vê-lo aparecer em casa de mão dada com um bigodudo.

O site Huffington Post Brasil lembrou um estudo realizado pela Universidade de Middlessex, em Inglaterra, e pelo Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas, nos Estados Unidos, em que se demonstra que mesmo que seja comum homens e mulheres deixarem de usar a proteção durante a crise, eles podem resistir mais ao uso do que elas.

Esse comportamento masculino, segundo os pesquisadores, estaria relacionado a uma atitude mais ampla diante de questões de saúde. Diz o estudo que os homens são condicionados a serem "durões" e não sabem lidar com a fragilidade, medo ou preocupação diante de problemas de saúde - tanto sua, quanto dos outros -, o que explicaria a resistência ao uso.

 
03
Jul20

A primeira parada gay de Florianópolis

Talis Andrade

parada gay.jpg

Foto Charles Guerra

 

III - Ministro do STJ teve filho com doméstica e nunca o reconheceu

por Edson Rosa/ Fábio Bispo

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“Fui proibido de me aproximar da casa da Presidente Coutinho, do Tribunal de Justiça e até da minha avó paterna, que também nunca me procurou”, conta.

Tiago diz que custou a assimilar. “Eu tinha medo, afinal, o homem que me negava a paternidade era uma das pessoas mais influentes do Judiciário e dos círculos de poder catarinense.”

Na época, Tiago já frequentava a Escola de Samba Embaixada Copa Lord, que lhe deu as melhores recordações da adolescência passada entre a fome, a falta de saneamento básico, a criminalidade e o preconceito no Morro da Cruz. “O carnaval é o único momento de glória do povo do morro, é quando o rico aplaude o pobre sem desdenhar”, descreve. Além da escola de samba, começou a se envolver cada vez mais em projetos sociais, ajudando a vizinhança com seus conhecimentos básicos de enfermagem ou atuando como voluntário nas creches comunitárias que atendiam meninos e meninas da região. Lá, distribuía parte das sobras de comida doadas pelas clientes de Minervina.

Como tem samba no pé, as horas de folga eram dedicadas à escola de coração. Assim o rapaz negro, de média estatura, cabelos e barba sempre bem aparados, também dava seus primeiros passos rumo à política. Em 2006, tendo Tiago como fundador, a capital catarinense realizou a primeira edição da Parada da Diversidade, reunindo 30 mil pessoas. Homossexual assumido, ao longo dos anos, Tiago se tornou um dos maiores militantes contra a homofobia na cidade e lutou para a consolidação do movimento em Florianópolis, que se tornou o maior do Sul do país e garantiu à cidade o título de capital brasileira do turismo gay. A parada de Florianópolis chegou a reunir mais de 100 mil pessoas, a partir da sua quinta edição. Atualmente, Tiago tem se mantido distante da organização dos eventos. Ele é vereador no terceiro mandato na Câmara de Florianópolis, eleito pelo MDB, mas atualmente sem partido e licenciado para atuar como diretor do Procon estadual [Continua]

 

 

29
Jan20

Historiador relembra embaixador brasileiro que salvou centenas dos nazistas, 75 anos após Auschwitz

Talis Andrade

Embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1944, prisioneiro de guerra detido na Alemanha, Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954) ajudou centenas de pessoas perseguidas pelos nazistas a emigrar para o Brasil mediante a emissão de vistos. O historiador Fabio Koifman conta a história de Souza Dantas no livro "Um Quixote nas trevas" (Ed. Record, 2002, São Paulo).

souza dantas querido embaixador.jpg

Por Márcia Bechara

RFI

Fabio Koifman reuniu mais de 7.500 documentos e listou 245 nomes de pessoas salvas por Souza Dantas. Com base em sua pesquisa, ele escreveu a biografia do embaixador. Segundo o historiador, "Dantas bateu de frente com o governo colaboracionista de Getúlio Vargas ao salvar judeus, comunistas e homossexuais da deportação para campos de concentração". 

Quando a França foi invadida pela Alemanha nazista, e o governo francês trocou a capital francesa de Paris para Vichy, e a única esperança de salvação para os judeus em solo francês passou a ser a emigração, e um dos destinos era o Brasil. "Ele ajudou pessoas em Paris antes da Liberação, mas só começou a liberar vistos de próprio punho quando o governo saiu da capital", conta o autor.

Apesar da política restritiva de imigração do governo Vargas na época, Souza Dantas, desafiando a proibição, teria concedido cerca de 500 vistos e ajudou mais de 800 pessoas a fugir da barbárie nazista. Em 1941, a investigação administrativa realizada contra ele, acusando-o de fornecer "vistos irregulares" e ao final da qual ele foi convocado a se aposentar, não o impediu de continuar a emitir vistos. Além disso, o embaixador permaneceu em seu posto, porque era impossível substituí-lo durante esse período conturbado.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

Em 1943, a sede da Embaixada do Brasil foi invadida por oficiais nazistas. O embaixador e seus assessores foram deportados para Bad Godesberg, na Alemanha, e trancados em um hotel até março de 1944, quando foram trocados por prisioneiros alemães no Brasil. 

"Justo entre as nações"

Em Paris, uma placa presta homenagem a Souza Dantas no local da antiga Embaixada do Brasil (Avenida Montaigne, 45). Em 2003, o Yad Vashem (o memorial do Holocausto para o povo judeu em Israel) também concedeu ao embaixador brasileiro o título de "Justo entre as nações". 

Sobre o fato da América do Sul ter recebido a diáspora judia da Segunda Guerra, mas também, posteriormente, inúmeros fugitivos nazistas, Koifman afirma que se tratava de uma predileção pela "imigração branca". "O país se mantece interessado em receber imigração europeia, branca. Eles tinham uma política migratória que privilegiava gente com o que era considerado 'uma boa formação étnica', uma espécie de eugenia", analisa.

Questionado sobre as acusações de que o primeiro escalão do governo atual, de Jair Bolsonaro, flertar diretamente com a ideologia nazista, no ano em que a França celebra os 75 anos da liberação dos judeus do campo nazista de Auschwitz Birkenau, Fabio Koifman lamenta. "É um desconhecimento, uma apropriação de valores, o presente não tem nenhum nexo com o passado. Mas alguns aspectos da estrutura nazista de governos autoritários são revistos hoje em dia", diz. "É lamentável por que isso revela o pouco da percepção dessas pessoas sobre o que é cultura e liberdade". 

 

10
Nov19

O porteiro e a banalidade do mal

Talis Andrade

beto porteiro.jpg

 

 

 
Por Saul Leblon
Carta Maior

Como foi que o mundo das fake news avassalou o discernimento de nossa época, a ponto de instaurar uma espécie de servidão mental na qual o senso comum se submete à afirmação e a sua negativa com a mesma passividade, não raro, guiado pelo malabarismo cínico do mesmo emissor?

O papel da mentira na política assumiu um espaço proeminente, como bem sabe a sociedade brasileira, graças ao novo arsenal tecnológico capaz de adorna-la com atributos da verdade manipulando friamente o discernimento social, sobretudo nos escrutínios eleitorais.

O ambiente de relativização factual criou assim uma espécie de poder emergente a impor sua supremacia aos demais.
 
Nesse novo maniqueísmo em que se acredita e se duvida de tudo, ao mesmo tempo e com igual intensidade, o discernimento crítico se recolhe a um estado de torpor.

A participação da Razão nas tomadas de decisões individuais e coletivas subsiste nas franjas da sociedade, atrofiando-se o espaço do esclarecimento indissociável da prática argumentativa e da elaboração histórica do conflito social.

Em que, afinal, amparar-se para arguir aquilo que nos chega na forma de massas avassaladoras de pós-verdades escritas, ditas, filmadas, fotografadas, endossadas, quantificadas e replicadas exaustivamente 24 horas por dia?

Todos os poderes –Legislativo, Executivo, Judiciário, Mídia — mas também a ciência e a espiritualidade perdem resiliência e identidade nessa teia elástica que reprocessa o mundo como um solvente de relativização suprimindo as divisas do vivido, do sentido, do presente e do passado. Vale dizer, as raízes da própria identidade.

Tome-se os destampatórios regulares do atual ocupante do Planalto.

Segue o modelo político dominante: o que se afirmara ontem pode ser revogado hoje e o oposto restabelecido amanhã.

Nesse roldão, um porteiro experiente pode ser acusado de ‘confundir’ o número 65 por 58. Embora o contexto narrativo lhe dê razão, será carimbado como mentiroso por ágeis representantes do judiciário, municiadas de laudos que, sugestivamente, homologam a pós-verdade sancionada por perícia de igual extração.

A tradicional manipulação da verdade e da mentira na política não mudou de patamar apenas no Brasil.

Seu uso e abuso é corrente na guerra midiática do poder nos EUA de Trump, mas também na Argentina de Macri, no Chile de Piñerochet, na Rússia de Putin, no cabuloso mundo da monarquia árabe etc

O peso histórico assumido no Brasil, no entanto, distingue-se pelas características de uma democracia em que a mídia convencional sempre exerceu, avant-la- lettre, um grau de manipulação política equivalente ao das fake news . Além disso, a penetração evangélica neopentecostal --dominante na população pobre das periferias-- tornou avassaladora a receptividade à mentira política avalizada por Deus (ouça Boaventura de Sousa Santos na Rádio Carta Maior – clique aqui).

O desfecho da nebulosa disputa presidencial de 2018 fez do país, assim, um laboratório avançado do exercício do poder por exemplar típico desse novo ambiente indiviso entre ficção e realidade.

O custo social e subjetivo é o que se paga em sobressaltos recorrentes, polarizadores e ao mesmo tempo fragmentadores dos direitos e consensos duramente acumulados e sedimentados na Carta de 1988.

O que irá sobrar ao espaço do discernimento crítico quando o desenvolvimento das ferramentas de IA (Inteligência Artificial) viabilizarem aquilo que o historiador e filósofo da Universidade de Jerusalém, Yuval Harari, chama de “hackear o cérebro e os sentidos dos seres humanos” (Valor), ‘compreendendo-os antes e melhor que eles mesmos’?

O mundo das fake news, portanto, poderá figurar apenas como um inocente cálice de Porto no pantagruélico porre de pós-verdade em curso.

Transitar nesse ambiente e devolver a história aos sujeitos de carne, osso e classe requer enxergar além da neblina da rendição ao maquinismo reluzente.

A tentação de se atribuir o amortecimento dos sentidos e da democracia a um vilão tecnológico repete no campo da Razão aquilo que se verifica no universo do trabalho, em que a uberização e a precariedade das formas de ocupação e renda nos são informados como colaterais inexoráveis do avanço tecno-científico, desprovido das relações de produção e de poder que o impulsionam e refletem.
 

Na realidade, as coisas são menos avulsas do que sugere e versão dominante.

O desenraizamento social e subjetivo promovido pela precarização do trabalho semeou o ressentimento, a perda de sentido, o isolamento e a infantilização narrativa, adestrando os sentidos na sedução pelo Guia, o Pai, o Pastor , o Mito que as fake news e os sistemas eleitorais operados à distância cuidarão de consagrar.

O conjunto homologa o reducionismo alienante que o martelete das contraposições irredutíveis --bons e maus, corruptos e moralistas, puros e sub-humanos...-- massificará com requintes de crueldade e vulgaridade sabidos.

Para quem vê exagero há que se recordar: nos anos 30, uma das sociedades mais sofisticadas do planeta, onde o capitalismo atingiria seu pináculo tecno-científico, submetida a condições de privação material e subjetiva decorrentes da guerra intercapitalista, aderiu em massa a um projeto regressivo de restauração nacional de arcabouço totalitário.

Essa ruptura arrastou toda a humanidade.

Desde então, o Horror respira no ovo chocado pela intersecção pura entre tecnologia, monopólios capitalistas e finanças globalizadas, em processos nos quais a acumulação da riqueza é desenfreadamente perseguida, e alcançada, em detrimento da emancipação social e subjetiva da sociedade.

Para ajudar a entender esse fenômeno, mas não só ele, a série Clássicos em Podcast, iniciada pela Rádio Carta Maior em outubro, com o filósofo Herbert Marcuse --apresentado por Márcio Pochmann, traz agora a filósofa e escritora, doutora pela USP e pela École des Hautes Études de Paris, Olgária Matos.

Olgária nos fala de uma especialista nesse eclipse entre a barbárie e a civilização que passou a nos espreitar permanentemente: Hannah Arendt.

A pensadora judia alemã enxergou no desenraizamento social e subjetivo, intrínseco ao capitalismo totalizante do nosso tempo, a estufa de algo desconcertante: a banalização do mal

A expressão remonta à Operação Reinhard, um plano racionalmente planejado, implementado e gerido em escala industrial pelo Estado nazista para permitir a matança indiscriminada de judeus, comunistas, socialistas, ciganos, eslavos, velhos, prostitutas, deficientes e homossexuais --enfim, o ‘Untermenschen’, os seres sub-humanos, inerentemente descartáveis.

Muitas vezes confundido como indulgente, o conceito na verdade encerra uma alarmante advertência sobre as relações sistêmicas que nos envolvem e condicionam a existência no século XXI

A notícia terrível trazida por Hannh Arendt é a de que a barbárie não necessita mais de seres abjetos para se reproduzir em nosso mundo.

Sua possibilidade é intrínseca ao sistema.

Adolf Eichmann, que dirigiu os maiores campos de extermínio nazistas não era um personagem doentio, anunciou algo assustadoramente a pensadora judia, que cobriu seu julgamento em Israel, 15 anos após a derrota nazista.

O que ele evidenciava era algo pior que isso, anunciou Arendt.

Eichmann era um gestor eficiente, um ‘CEO’ da industrialização da morte, que tinha como meta e planejamento entregar uma solução final para a questão judia na Europa.

O ambiente corporativo global comporta-se atualmente diante dos valores da civilização –e das ameaças ambientais, por exemplo-- com o mesmo distanciamento gerencial dos ‘CEOs’ de Auschwitz-Birkenau.
 
Metas de desempenho são cumpridas; os bônus são viabilizados e a fatia dos rentistas é entregue na forma de dividendos –isentos, no Brasil do arrocho fiscal.

O custo para a sociedade pode ser um passo adiante no percurso rumo à barbárie.

Arendt escavou a origem dessas relações sistêmicas nas quais os indivíduos e instituições são reduzidos a dentes do maquinismo azeitado em vazio ético.

É aí que se inala, se emite e se replica a banalidade do mal. Muitas vezes travestida em fake news.

Alto lá, porém: a dialética não morreu em Auschwitz-Birkenau, nem se rendeu a Wall Street.

O sangrento desfile de imagens da repressão chilena –replicadas digitalmente pelos manifestantes que lutam nas ruas do país vendido como paradigma de sucesso do que se deseja replicar aqui, desautoriza o fatalismo tecnológico e a prostração histórica.

A banalidade do mal tem um ponto de saturação.

Esse ponto reside na rebelião da esperança, em busca do bem comum, diz a rebelião chilena.

Ouçamos a professora Olgária Matos e Hannah Arendt nesta segundo capítulo da série Clássicos em Podcast da webRádio Carta Maior (clique aqui).
 

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